Part 3
--O de dizer mal das viagens! Fallar a gente a um amigo sedentario, que nos tem inveja, e exclamar: «Oh! tu não comprehendes o quanto és feliz! Não ha tortura maior do que a do Ashaverus da lenda! Percorrer o mundo, só, vendo-se isolado no meio de uma sociedade differente da nossa, passando por terras, onde ninguem nos espera, onde não deixamos nem sequer uma saudade; e a mão da fatalidade a impellir-nos sempre, e a voz do destino a dizer-nos: «Caminha». E assim atravessamos o mundo, andorinhas sem ninho, poisando ora no cume inflammado do Vesuvio, ora na austera cupula de S. Pedro, ora na torre pendida de Pisa, ora na bronzea juba dos leões de Veneza! Ah! bem louco é quem deixa os lares para procurar estas commoções de um instante, pagas por amarguras infinitas.» E o amigo comtempla com certo respeito o homem que falla com tanto despreso n’essas maravilhas, cujo magico panorama lhe povôa os sonhos, lhe perturba a existencia. Oh! dizer mal das viagens, depois de ter viajado muito, não ha prazer que se lhe compare, não acha, sr.ª D. Antonia?
--O que?
--Dizer mal... que é um grande prazer.
--Não se diz mal senão d’aquillo que merece as nossas censuras, por exemplo...
--Immensas coisas... Não me falle n’isso! O mundo vae cada vez peior. O Anti-Christo não tarda. É pelo menos esse o parecer da sua caridosa amiga, D. Simôa dos Anjos. É verdade, como está ella?
--Olhe! essa é que se póde dizer uma santa.
--Pois não! Santa Bazilia! é uma das santas mais veneradas pela igreja contemporanea.
--Bazilia!...
--Sim, mulher de D. Bazilio.
--Qual D. Bazilio?
--Ora, qual D. Bazilio! um santo velhote, que floresceu alli pelos fins do seculo passado, filho de um sujeito chamado Beaumarchais, e adoptado depois por outro chamado Rossini!
--Mas então esse homem, se vive, deve estar decrepito.
--Como se engana, minha senhora! Está cada vez mais novo! Descobriu a agua de Juvencio.
--Alberto! interrompeu Claudio n’um tom meio offendido.
Seguiu-se um instante de silencio. Eu sorria-me imperceptivelmente, e saboreava, devo confessal-o, o prazer da vingança. Claudio estava sombrio. Alberto fitára em mim os olhos por um instante, e caira depois n’um melancholico scismar. D. Antonia percebera finalmente que tinha sido _mystificada_, perdoem o gallicismo, e mordia os labios de raivosa.
--Não nos contas algum incidente das tuas viagens? perguntou meu marido, para dizer alguma coisa.
--Que queres que te conte? respondeu Alberto, sacudindo a melancholia que o envolvera. Imaginas por acaso que ainda existe o pittoresco? Morreu, morreu de todo! Mataram-no os caminhos de ferro, e os inglezes principalmente. Os _lazzaroni_ andam de chapeu alto, e o Vesuvio mais dia menos dia arvora um guarda-chuva. Não se dá um passo em Pompeia, que se não encontre um inglez passeando no vestibulo da casa de Demetrio, ou entrando familiarmente no tribunal do edil Pansa. Queres que te descreva uma Italia prosaica e semsabor, o Colyseu povoado de casacas pretas, e no castello de Santo Angelo um capitão de zuavos no sitio onde Benvenuto Cellini apontou, com a mão que fazia brotar prodigios, a espingarda que dizimava as fileiras hespanholas?
--Oh! acudi com certa exaltação, não seria eu quem desanimaria tão facilmente! Nem os zuavos, nem os inglezes conseguiriam despoetisar a minha Italia, o meu Lacio formoso, a minha Campania feliz. Derribaram as pedras, sumiram o Mediterraneo, impuzeram silencio ás brisas, desfloriram as larangeiras? Não! Pois bem; a minha phantasia se encarregava de povoar essas ruinas solitarias, de evocar as gerações extinctas, de traduzir a linguagem melodiosa da viração! Eu, se fosse á Italia, havia de vel-a com os olhos d’alma, ainda mais do que com os do corpo! Que me importava a prosa moderna, se me fosse dado passear nas ruas de Pompeia? A mão dos homens levantou a mortalha em que o Vesuvio a envolvera, a minha phantasia levantaria a mortalha com que a cingiram os seculos! Doire o sol ainda o marmore branco dos palacios de Genova, e a sua luz ha de illuminar para mim o mundo risonho da cidade dos doges, ouvirei as musicas suaves que se espraiavam outr’ora por sobre as ondas azues do Mediterraneo, a quem ensinavam essa dulcissima melodia que ainda hoje enleva os ouvidos do viajante! Não a olvidaram de certo os eccos da _strada Balbi_. Levem-me á Italia, e eu atravessarei a peninsula sem ver nem zuavos, nem inglezes, percorrerei á vontade ou a Italia pagã ou a Italia da Renascença, verei Raphael pintando o maravilhoso retrato da sua Fornarina, debruçar-me-hei sobre o hombro de Guido, quando o seu pincel esplendido fizer brotar da tela as feições encantadoras da desgraçada Beatriz. A Italia tem habitantes? Não sei, nem quero sabel-o; tem cardeaes, tem _bersaglieri_? não sei, não sei. Sei apenas que tem os quadros de Raphael, as estatuas de Miguel Angelo, as portas de Ghiberti, e os claustros de Bramante. Quero engolphar-me n’esse pélago de maravilhas, quero percorrer esse mundo mysterioso, encerrar-me n’essa Pompeia gigante, e depois quando voltar á superficie do mundo actual, vire, pallida, mas trazendo na fronte, não, como o mergulhador de Schiller, a sombra triste projectada pelos invisiveis horrores do oceano, mas um reflexo d’esse immenso fulgor, que ha de emanar das perolas e dos diamantes d’essa Golconda da arte!
--Oh! tem mil vezes razão, tornou Alberto levantando-se com enthusiasmo, cuida que não senti isso mesmo? Cuida que não tive muita vez essas visões do passado? Por baixo do palimpsesto banal das modernas idades sentia eu pullularem as letras de fogo do poema da velha Italia! Á noite, principalmente, quando se extinguem os vãos ruidos mundanos, e a meiga fada vem mais uma vez cingir a sua Italia querida, a voluptuosa Aphrodita dos dois mares, na sua tunica bordada de estrellas, e perfumada de ignotas fragrancias, então é que se escutam essas vozes mysteriosas, que não são mais do que a vaga conversação das grandiosas gerações, que desappareceram umas após outras da face d’aquella terra abençoada! A mythologia antiga suppunha que eram os titães soterrados quem abalava as montanhas ao revirarem-se no seu leito de chammas. Não se enganava; prophetisava! Por baixo d’aquelle solo sagrado arquejam as gerações de gigantes, que povoaram o velho Lacio dos Cesares e a Roma dos Raphaeis! Á noite erguem-se todos esses brancos phantasmas e passam, agitando as azas, na atmosphera transparente. Oh! quantas vezes não tive eu d’essas visões extaticas, em Roma! Quantas vezes, passeando, embarcado, por uma noite de luar, na suave bahia de Napoles, não vi como que em sonhos perpassarem as galeras romanas, todas illuminadas e deixando apoz si um sulco a um tempo fulgido e melodioso, como se a ardentia se houvesse transformado em musica! E quando os meus barqueiros deixavam cair indolentemente os remos na agua, que lhes respondia com um vago suspiro harmonioso, como uma nota de Cimarosa ou de Bellini, em quanto as estrellas deviam fulgir n’essas noites delirantes das saturnaes em quanto a lua illuminava ao longe as casas brancas de Ischia, de Procida, ou de Capri, eu sentia passar nos meus cabellos a lasciva brisa de Baia, e via surgirem no horisonte esses vultos candidos de mulheres, cujos nomes passaram atravez dos seculos envoltos na purpura, que lhes atirou a realeza do genio, a Lesbia de Catullo, a Cynthia de Propercio, a Corinna de Ovidio, a Lydia de Horacio e a Delia de Tibullo.
Alberto calou-se por um instante, e depois continuou:
--Outra vez estava eu em Veneza; a minha gondola sulcava silenciosamente o grande canal. A antiga cidade dos doges parecia uma cidade morta, e a lua a lampada immensa, suspensa sobre esse maravilhoso tumulo; nem um murmurio se exhalava do seio da formosa captiva, apenas de vez em quando o sino da igreja de S. Marcos soltava lugubremente a voz, como que para entoar o epicedio da grandeza da republica; mas logo os brados gutturaes das sentinellas austriacas vinham como que protestar contra o timido queixume do anjo do campanario. As ondas do Adriatico gemiam brandamente, espantadas de ouvirem aquella voz allemã quebrar o silencio da natureza italiana. A pouco e pouco tinha cahido n’uma profunda melancholia, e comparava involuntariamente a decadencia nobre de Veneza com o misero esphacelamento da minha patria. Veneza é um gigante, que desceu ao tumulo, envolto na sua armadura de marmore, e perante aquella maravilhosa campa descobre-se o mundo com respeito: Portugal, tambem gigante, mais gigante ainda, arrojou-se á valla commum, e as nações desviam os olhos com tedio d’esse cadaver putrefacto, coberto de vermes que o devoram. Subito, d’um d’esses palacios, que miram nas aguas do canal as suas marmoreas escadarias, jorrou em ondas de melodia a deliciosa serenata do _Marino Faliero_ de Donizetti. Como por mysteriosa evocação, tudo se illuminou a meus olhos. Illuminaram-se os palacios, povoaram-se os canaes de gondolas cheias de mascaras; os fogos de Bengala tingiram de azul e côr de rosa as fachadas de marmore branco. Avultou-me ao longe o _Bucentauro_, com o seu magestoso cortejo de galeotas. Povoaram-se-me os caes de fidalgos venezianos, em cujo trajar doirado e bordado scintillava a luz projectada pelos fachos. Desappareceram os austriacos, e a Veneza antiga, a Veneza de Ticiano, a Veneza do carnaval, surgiu-me de novo das ondas, como a borboleta da chrysalida, como a Venus da espuma!
--O que! ouviu em Veneza a serenata do _Marino Faliero_? acudi eu com jubilo infantil.
E, correndo ao piano, fiz brotar das teclas a maviosa melodia.
Havia muito que as teclas me não respondiam tão suavemente. Aquella doce musica, que suspira brandamente como a brisa nos roseiraes, vago preludio do rouxinol, harmonia d’anjo, que parece expandir-se do carro argenteo de Phebe ao rolar no firmamento azul, exhalou-se do teclado, como um perfume do calice d’uma flor. Enlevada n’esse encantamento que os meus dedos operavam, transportei-me brandamente ao seio d’uma noite luminosa como essa em que fallava a letra da canção. Vi-me em Veneza, reclinada n’uma gondola, cortando as aguas do canal. Involuntariamente os meus dedos foram affrouxando, até que mal já pesavam nas teclas. O canto quasi não se ouvia, e parecia apenas um suave murmurio, como o de harpa eolia suspensa nas franças de pinheiral distante.
Afinal a harmonia esmoreceu, e esvaiu-se de todo debaixo dos meus dedos; deixei descair os braços no collo, e fiquei engolfada no meu scismar. A chuva batia com mais furia nas vidraças, e o vento soprava rijo, fazendo gemer os postigos.
Mas eu não ouvia nem vento nem chuva. Esvaíra-se havia muito o ultimo suspiro da tecla abandonada, e eu escutava ainda o prolongamento d’essa nota melodiosa, como se ella se repercutisse n’uma atmosphera de crystal. Por deante dos olhos passava-me lentamente, como em magico panorama, a luminosa visão das cidades italianas: Veneza com as suas gondolas, Genova com os seus palacios, Florença com as suas galerias, Roma com as suas ruinas, Napoles com o seu golpho! E n’essa atmosphera encantada, n’esse mar limpido e voluptuoso fluctuavam as minhas andorinhas, vogavam os meus cysnes, doces devaneios que tinham fugido havia muito com a aza branca magoada!
Quando levantei a cabeça, estavam todos á roda de mim, D. Antonia com um sorriso ironico, Claudio triste e inquieto, Alberto como que entregue a um delicioso extasi.
--Oh! mais! mais! disse elle pondo as mãos com ar supplicante; mais alguns minutos d’esse goso infindo! Que mysteriosa intuição de artista lhe revelou Veneza? É esse o bater da agua nos degraus das escadarias! são esses os murmurios que fluctuam n’aquella atmosphera abrazadora! são essas as melodias que deviam resoar n’essas noites ferventes, em que o mundo inteiro, saindo das brumas da idade-media, não fazia senão balbuciar, pela voz dos seus poetas, pelos marmoreos labios das suas estatuas, a palavra «amor» que ia esculpir até nos rendilhados portaes, nos voluptuosos columnelos dos templos da Divindade! amor sensual, pagão, lascivo, se quizerem; mas amor immenso e vivificante como o que os raios do sol entornam no seio da gleba italiana, como as ondas do Mediterraneo descantam ás plagas sonoras da Ausonia e da Grecia!
--Ah! tambem sente o mesmo? tornei eu infantilmente, acha tambem que a musica tem o magico dom de evocar um mundo desconhecido?
--Se tem! A musica abre-nos de par em par as portas do ideal! S. Pedro foi destronisado. Os porteiros do céo são Bellini e Donizetti; a _Lucia_ e a _Norma_ são as duas chaves do Paraizo.
--E Meyerbeer? perguntei eu, rindo.
--Oh! esse é o porteiro do inferno.
Ia protestar, mas elle interrompeu-me, e continuou:
--Descance, de um inferno onde o ranger dos dentes é harmonioso, e onde os humanos, criminosos durante a vida terrestre, são condemnados a darem eternamente o _dó_ do peito. Pois onde queria que eu collocasse o author do _Roberto do Diabo_? No céo de certo que não. Meyerbeer é o Satanaz da melodia, é o anjo caido; mas o anjo caido de Milton, e não o diabo das lendas. Aquelle homem abre-nos um mundo mysterioso e terrivel, d’onde refugimos com terror, mas para onde nos attrae depois uma indisivel voluptuosidade. Toda a musica do _Roberto_ é a pavorosa traducção em notas da apostrophe de Satanaz ao sol no poema do Homero britannico. Mas d’esse cahos de harmonias tremendas brota ás vezes um canto d’uma doçura infinita, como o do papel d’Alice, por exemplo. São as recordações da patria celestial, são as tristezas do Archanjo soberbo no meio do seu tenebroso exilio. E as notas isoladas da abertura do _Propheta_! Que vaga melancholia, que tristeza sobrehumana! Saudade tão profunda só a podem inspirar os campos das eternas delicias, o Elysio resplandecente, a habitação dos anjos!
N’este momento entrava o creado com a bandeja do chá. Fomos para a mesa, e a conversação prolongou-se até á uma hora da manhã. A chuva cessara, e a noite puzera-se fria mas serena. Alberto despediu-se, e saiu.
VI
Quando Alberto saiu pareceu que me caia de chofre um peso no peito. Imaginem Sisypho, a victima infeliz do inferno mythologico, podendo ver de relance uma nesga dos Elysios, e, quando está enlevado n’esse delicioso panorama, sentindo de subito rolar pela escarpa da montanha, e desabar-lhe em cima o rochedo do supplicio!
Tal era a minha situação.
Tivera um momento de liberdade; o meu espirito, constrangido, torturado, voara em extasi para a região luminosa dos meus sonhos, engolphara-se nos seus fulgores, nadara em pleno ether, ouvira as harmonias desconhecidas do vulgo; mas as trevas cerravam-se-me de novo, e as grades da minha gaiola appareciam-me em toda a sua negra hediondez.
Claudio, pouco depois de sair o seu amigo, pretextou achar-se fatigado, e retirou-se. Ficámos sós, eu e D. Antonia.
De bom grado me teria tambem retirado; mas o somno esquivava-se-me ás palpebras, que em vão o chamavam. Tinha a cabeça cheia de melodias, pulsava-me nas veias a febre da arte. Decididamente não podia dormir; levantei-me e approximei-me da janella.
O vento da meia noite dissipara as nuvens, e descobrira a lua; o céo estava de uma limpidez magnifica, as poças da agua brilhavam como diamantes enormes. Deu-me uma tentação de banhar a cabeça escandescente n’essa athmosphera gelada, e abri a janella.
--Que capricho tão romanesco, minha sobrinha, acudiu logo D. Antonia. Demais a mais é escusado! olhe que já o não vê.
--Já não vejo quem? tornei eu voltando-me espantada.
--Ora, quem! provavelmente quem saiu d’aqui.
--Quem saiu d’aqui! repeti eu sem perceber ainda.
--Ih! Jesus! não se faça desentendida! o senhor Alberto Mascarenhas.
Ferveu-me nos labios uma resposta indignada; mas, lembrando-me da discussão que ia provocar, encolhi os hombros, fechei a janella e fui me sentar ao pé da mesa.
Seguiu-se um silencio.
Mas D. Antonia não era pessoa que assim abandonasse o campo de batalha.
--Eu gosto de ver estas senhoras, que tanto gostam de conversar com estranhos. Seu marido e a tia de seu marido, segundo parece, não são dignos de fallarem com s. ex.ª. Pois olhe, se assim pensava, era melhor que não casasse. Mas estas senhoras afrancezadas querem ter um marido para gosarem toda a liberdade, e para serem um objecto de escandalo para as pessoas virtuosas e tementes a Deus. E não desejam conversação de senhoras, isso não lhes agrada. Não estão satisfeitas senão quando conversam com homens, e todas se embebem nas suas fallas, sem nem sequer deitarem uma vista de olhos para o esposo que receberam aos pés do altar. Com estas doidas é que os homens se entendem bem. Ah! mundo! mundo!
--Isso refere-se a mim, senhora D. Antonia? perguntei eu, affectando socego, mas ralada pela indignação que me fervia no peito.
--Ah! parece que lhe serve a carapuça? tornou ella, rindo-se com um riso sarcastico.
--Eu não entendo muito bem d’essa questão de carapuças; mas, se teve intenção de me insultar, dir-lhe-hei que meu marido não ha de ficar satisfeito, sabendo a que improperios estou todos os dias exposta n’esta casa, que devia ser para mim abrigo inviolavel contra as injurias de qualquer, muito mais partindo ellas de uma pessoa da sua familia.
--Injurias! já se vê! estava á espera d’isso mesmo! Chamam-se injurias as verdades!
--As verdades! mas que verdades? tornei eu impaciente!
--As que devia ouvir com mais attenção, quando lh’as diz uma pessoa, que só quer o seu bem. Que idéa iria formando o Alberto Mascarenhas d’uma mulher que esteve, toda a noite, dando-lhe só attenção a elle, e não dirigindo uma palavra só nem a seu marido, nem a tia de seu marido?
--Mas eu podia obrigal-os a fallar? tenho porventura culpa se nem uma vez só entraram na conversação?
--Ora essa! Pois que havia eu de dizer, n’uma palestra, em que não ouvia senão heresias! Que S. Pedro não era porteiro do céo, e não sei que mais! Estava-me causando pasmo vêl-os fallarem com tanto sangue-frio no demonio. Ah! se eu fosse o Claudio!
D’esta vez não pude deixar de me rir, o que, como é facil de suppor, ainda mais augmentou a indignação de D. Antonia.
--Ria-se, pois não! é o que deve fazer! É o pago que recebemos dos bons conselhos, que lhes desejamos dar! Mangam comnosco, e entram affoitamente no caminho da perdição! Ver eu, com estes olhos, uma senhora, que, para desgraça da nossa familia, é esposa de meu sobrinho, toda enlevada e requebrada a dar attenção a um petimetre na minha presença, e em presença de seu homem! É aonde póde chegar o descaramento.
--Isto é demais, exclamei eu, erguendo-me com os olhos arrazados de agua; vejo-me condemnada aqui a ouvir uma linguagem, a que nunca me acostumaram, e a defender-me de accusações que o meu procedimento nunca authorisou. Só o ridiculo do insulto póde attenuar a insolencia d’elle.
--Sim, diga que é ridiculo!... Como logo hoje abriu o piano! como correu pressurosa para o tocar! Puz as mãos na cabeça. Nunca imaginara tal. Ver o pudor esquecido áquelle ponto!
--Mas que idéa forma então de mim? tornei eu com voz tremente, em que palpitavam os soluços abafados; se me julga capaz de provocar galanteios de um homem, que vejo pela primeira vez, e que tem delicadeza bastante para nem por sombras dar mostra de que me deseja requestar?
--Ah! já o defende! Descance que ninguem o attaca. E, depois, se o viu pela primeira vez, é o que resta saber. Hoje em dia as meninas educadas á moda franceza são capazes do enganar os velhos mais experientes! Os planos são bem combinados! Commette-se uma _imprudencia_, e depois apparece um moço inexperto, a quem se acceita por marido, sem ao menos sequer se lhe dar tempo de fazer a côrte! Esses preliminares são escusados para se chegar ao fim a que se aspira! Depois, um bello dia, apparece um moço, _a quem se vê pela primeira vez_, e o moço que se vê pela primeira vez encontra a imprudencia remediada.
--Oh! isto é horrivel! respondi, não podendo já suster as lagrimas e debulhando-me em prantos.
D. Antonia olhou para mim com um sorriso de triumpho; estava vingada dos sarcasmos de Alberto, do seu silencio forçado de tres horas. Estavam suavisadas com esse balsamo das minhas lagrimas as feridas da sua vaidade, as mordeduras do demonio da inveja.
Ergueu-se, e lançando-me um ultimo olhar, saiu vagarosamente da sala.
VII
Admiro-me ás vezes agora das torturas que me causavam aquellas accusações, tão despreziveis e tão absurdas. Mas eu era uma creança, e não podia conceber que o azedume e o despeito levassem uma mulher, que vivera toda a sua vida engolphada n’aquellas intrigas pequeninas, a torturar por divertimento e só por divertimento. Revoltava-me o absurdo, em vez de me fazer rir, e pungia-me principalmente o proposito firme que eu vira que D. Antonia formara de contrariar todas as minhas predilecções, de me obrigar a descer áquella esphera, em que ella vivia deliciosamente.
Parecia-lhe impossivel até que houvesse alguem que se occupasse em outras coisas, ou que n’outras coisas pensasse. Quando expunha alguma das suas frivolas theorias, queria que todos as acceitassem com muita reverencia, e, se não manifestavam logo a sua adhesão, recebiam uma chuva d’epigrammas, porque eram consideradas do partido opposto ao seu, não podendo D. Antonia perceber que o verdadeiro motivo do silencio, em que todos ficavam quando ella fallava, era a perfeita indifferença que inspiravam as suas insipidas e dogmaticas banalidades.
Se eu fosse capaz de comprehender aquella indole essencialmente mexeriqueira, teria logo despresado os seus ataques, por mais insolente que fosse a forma. Mas eu nunca estudara essa variedade da raça humana; era D. Antonia o primeiro especimen que me apparecia, e só muito depois vim a conhecer a fundo os usos e costumes d’aquella familia zoologica, olvidada por Linneu da sua classificação.
E demais, qual é o espirito, por mais energico, por mais elevado que seja, que possa affrontar serenamente estas torturas pequenas do lar domestico?
Direi mais, quanto mais elevado e mais energico fôr, mais accessivel é tambem a estas feridas de alfinete. Todos os inimigos são previstos, menos este, que é o mais despresivel e o mais terrivel tambem. O leão da fabula despresava o mosquito, e foi o mosquito quem o venceu.
Depois via-me só! só n’aquelle pelejar incessante, sem ter um peito amigo que me fosse anteparo, sem ter um coração em que me abrigasse. Queria a soledade, e a soledade fugia-me! O eterno zumbir d’aquella vespa afugentava as abelhas dos meus sonhos, que eu julgava que podiam libar tão doce mel no calice das flores da phantasia!
A pouco e pouco fôra abandonando as minhas relações; apoderara-se de mim uma especie de _spleen_, e era-me insupportavel a sociedade, porque estava sempre n’ella constrangida, exposta como me via a algum escandalo produzido pela extravasão da bilis de D. Antonia. Nas salas, onde uma ou outra vez entrava, sentia constantemente aquella espada de Damocles suspensa sobre a minha cabeça, e bastava isso para envenenar todo o jubilo que eu poderia ter.
As minhas amigas de infancia espantavam-se de me verem tão arredia, e arrastadas tambem pelas suas preoccupações de solteiras, nem se lembravam de virem visitar a pobre exilada. «Temiam, diziam-me ellas rindo, quando me encontravam, ser indiscretas, vindo bater á porta do meu santuario.» E eu sorria-me tambem--que remedio!--sentindo ao meu lado, como sentia sempre, o genio mau que se adorava n’aquelle templo domestico.
Um dia o acaso fizera-me ter um momento de desafogo, de expansão, de contentamento! Essa curta alegria havia de ter inevitavelmente a sua expiação: teve-a, e logo em seguida.
Essa suave convivencia que eu esperava que se estabelecesse entre mim e Alberto, essas conversações que viessem de vez em quando, como os oasis no deserto, offerecer-me um instante de frescura, dessedentar-me por um pouco, tudo isso era maculado, ainda antes de nascer, pela baba peçonhenta do reptil que me perseguia!