Part 2
Eu erguia-me e o meu debil pésinho, ainda mais leve do que na valsa, corria sobre a relva sem a fazer vergar sequer! o meu passo mysterioso fazia brotar rosas e lyrios no seu tapete de veludo! Agitava na mão a varinha branca, a varinha das feiticeiras! Tocava na triste alcachofra carbonisada, e, por entre o negrume das suas pobres folhinhas, renascia a rôxa pétala que ía encher de contentamento um coração virginal! Soprava nos fios tenues do ovo suspenso n’agua, e os fios, como se os tecesse mão mysteriosa, bordavam por si mesmos um matiz delicioso! «Oh! fada Margarita! dizia eu para o meu espelho, como és linda e como és boa!»
Depois, não era já a fada, mas sim a muito alta e muito poderosa senhora D. Margarida, filha do castellão, rico-homem de pendão e caldeira, senhor de baraço e cutello! Caminhava a furto para a entrevista aprazada! o coração arfava-me deliciosamente! Eis-me chegada emfim junto da cruz da ermida, onde me espera o gentil cavalleiro, que vae para a Palestina! Os loiros cabellos fluctuam-lhe sobre a couraça brunida; poisa-lhe ao lado o elmo, com as plumas azues ondeantes a capricho da viração! Troca-se um adeus sentido, derramam-se lagrimas, fazem-se promessas de amor eterno! Então, desprendo o veu branco, e dou-lh’o como penhor do meu affecto! Será a protectora charpa do meu noivo, o talisman que o ha de resguardar dos alfanges dos infieis! Elle beija mil vezes o candido veu, monta o corcel, que o espera impaciente, e parte. Sigo-o com os olhos arrasados d’agua até o perder de vista, e...
E abre-se a porta e apparece meu pae de luva branca, bota de polimento, e casaca preta, e atraz d’elle, mas timidamente, como quem receia ser indiscreto, Claudio da Cunha, de casaca preta, bota de polimento, e luva branca!
Adeus! Adeus! Andorinhas gentis!
Como sempre, baixei, sem protestar, ás regiões da realidade. Acolhi com um beijo meu pae, com um sorriso o meu noivo, que me pedia mil desculpas, por ter ousado chegar á porta do meu santuario, mas que fôra arrastado pelo seu querido sogro, etc.; e, depois de ter acceitado e dado todas as desculpas, desci para me metter na carruagem, que me devia conduzir á igreja.
D’ahi a duas horas, era eu a legitima esposa de Claudio da Cunha, e tomava posse da casa de meu marido, situada na Cruz das Almas.
Franqueara estas columnas de Hercules da vida das senhoras, passara do brando e azul Mediterraneo das solteiras para o verde e tempestuoso Oceano do matrimonio, e confesso que não sentia o minimo frémito agitar as brancas velas do baixel do meu destino.
Se eu tencionava sentar-me, como até ahi, na proa da nau, e indifferente aos furacões que me rugissem em torno, ás vagas irritadas que fervessem e se empinassem contra mim, fitar os olhos no cantinho do ceu azul, onde havia de continuar a brilhar, estava d’isso convencida, a formosa e radiante constellação dos meus devaneios!
IV
Compunha-se de duas pessoas a minha nova familia: meu marido e uma tia d’elle, mais velha apenas doze ou quatorze annos, e caminhando rapidamente, mas com desespero, para o Maelstrom dos quarenta, que sorve implacavelmente as ultimas esperanças matrimoniaes.
Vou tentar descrever em rapido bosquejo os companheiros da peregrinação, que eu ia principiar.
Claudio da Cunha era um homem de um caracter indeciso e fraco, temendo duas coisas, e respeitando uma. As que temia eram o ridiculo e a lucta, a que respeitava era sua tia.
O ridiculo combatia-o com as frias e graves exterioridades que eu já fiz notar; á lucta, esquivava-se sempre a todo o custo, obedecia a sua tia escrupulosamente, mordendo constrangido o freio, mas não ousando sacudil-o.
Sua tia D. Antonia possuia um coração, talvez outr’ora bom, mas que se fôra enchendo de fel, fel que trasbordava sempre na sua conversação constantemente aggressiva. Seria perigosa manejando a arma do epigramma, se o seu espirito, descultivado e estreito, lhe permittisse açacalar as frechas que despedia ao acaso, que feriam ao de leve, mas que se tornavam incommodas pela quantidade. Então o adversario, que ella escolhera, devolvia-lhe uma ou outra com mais certeira mão, e o golpe, que lhe calava bem fundo na alma, fazia-a ter ataques de nervos, que chamavam logo a sollicitude do sobrinho, o qual vinha escutar com ouvido attento os seus queixumes ridiculos, e enxugar com mão piedosa as lagrimas de despeito.
A sua vaidade era tanto mais insupportavel quanto mais procurava disfarçar-se. Quando fallava em geral, dizia sempre com louvavel modestia que era feia, que os meus encantos a offuscavam completamente, que não aspirava sequer a rivalisar comigo; mas o terreno, que perdia na generalidade, ia-o sempre recuperando passo a passo nas particularidades. Quando tinha a minha idade haviam de lhe ficar larguissimas as minhas botinhas, e agora mesmo, se não quizesse andar a seu gosto, e se não estivesse já curada d’essas vaidades, estava certa que lhe haviam de servir maravilhosamente. «Uma coisa que eu sempre tive foi o pé muito pequeno, concluia ella. Fulano dizia...» E vinha logo um madrigal, que, pela fórma _moyen-âge_, revelava um adorador dos bons tempos dos _trovadores_ das _Ellas_, revelação que restabelecia a verdadeira data da sua certidão de baptismo.
Não podia comprehender, dizia ella, como eu me apertava tanto sem temer as consequencias funestas d’essa imprudencia. Por mais que lhe jurasse e lhe mostrasse que não succedia semelhante coisa, continuava sempre protestando que estava fazendo uma loucura, que ella nunca andara assim, o que não impedia que tivesse tido uma cinturinha de sylphide, que duas mãos unidas podiam facilmente abranger.
Todos estes ridiculos eram medianamente supportaveis, e de certo nem os citaria, se não fossem parte essencial de um caracter sêcco, vaidoso e azedado pelas decepções que a sua vaidade soffrera no campo das salas. Pouco depois do meu casamento, essas raivas secretas, esses furores devorados em silencio começaram a traduzir-se na attitude hostil que tomou para comigo, attitude acobertada por um manto d’amizade protectora. Usava, dizia ella, do seu privilegio de _velha_, e carregava intencionalmente no termo, para me dar conselhos, e para me preservar dos perigos, em que o meu estouvamento juvenil me poderia fazer cair. Com este admiravel pretexto, houve por bem arvorar-se em censora constante das minhas acções.
Se eu por acaso mostrava uma ou outra vez o meu enfado, então lançava-me um olhar ferino, e dizia, adoçando o som de voz tanto quanto aguçava os raios das pupillas: «Ai! infelizmente, ninguem gosta de ouvir as verdades,» como se n’aquella mente acanhada e cheia de pequeninos sentimentos se abrigasse a resposta ao eterno problema, que a esphinge dos seculos tem proposto á humanidade, e cuja resolução só Pilatos ouviu da bôca de Jesus.
Então passava eu a estar na berlinda, perseguida pela voz melliflua, e pelos epigrammas embotados de D. Antonia. Á mesa do jantar, onde todos tres nos reuniamos, choviam sobre mim as allusões ás senhoras que preferem o piano ao governo da sua casa, ás senhoras casadas que dançam nos bailes, quando seus maridos não dançam, á corrupção do seculo, aos maus costumes que importamos de França, á leitura perniciosa dos romances, tudo isto precedido do inevitavel «Hoje em dia...» _ultima ratio_ da sua argumentação. Escuso de dizer que as gerações anteriores á que presenceou a invasão de Junot sumiam-se para ella nas brumas legendarias da idade de oiro.
Que havia eu de fazer contra aquella guerra pequenina e intoleravel? A friesa, que existia entre mim e meu marido, fazia com que o não pudesse contar como defensor. Bem via que os toscos epigrammas de D. Antonia o incommodavam tambem, e o irritavam; mas o seu desejo de manter a paz domestica, a obediencia tradicional que votara a sua tia, obrigavam-no a conservar-se silencioso em presença da audaz iniciativa da minha adversaria.
Demais, eu achava tão mesquinha, tão indigna de mim esta guerra de palavras, esta escaramuça miseravel, estava tão fóra dos meus habitos este pelejar quotidiano, que nem sabia, nem podia, nem queria defender-me. Calada, immovel, fitando olhos espantados, ora em D. Antonia, ora em meu marido, uma só coisa me fazia scismar, era haver gente que se occupasse em tão miseraveis coisas, que expuzesse theorias tão insipidamente banaes, e o ser eu escolhida para victima expiatoria de crimes que nem sequer chegava a perceber.
Contra estas amarguras da vida real não me prevenira eu. Julgava-me invulneravel, e, como o Achilles da _Iliada_, tinha o calcanhar accessivel a tiros tão rasteiros! Esta queda espantava-me mais do que outra qualquer. Previra todas as desillusões, todas as torturas da realidade, vinha prompta para luctar com as serpentes do odio, com as viboras da calumnia, e por fim de contas succumbia ferida pelo ferrão d’essa formiga negra e imperceptivel, que se chama mexirico!
Todas as consolações me faltavam. As minhas andorinhas tinham fugido para não mais voltarem! Se eu não as podia chamar, atordoada, como sempre estava, pelas recriminações disfarçadas, pelos epigrammas adocicados, pelos discursos sem fim da minha implacavel inimiga! Se lhe não respondia, ia queixar-se brandamente a meu marido, dizendo que a desprezava do alto do meu orgulho, e insinuando arteiramente que preferia a conversação dos homens. Se lhe respondia irritada e fatigada, vinham os espasmos e os ataques nervosos. Se me refugiava no meu quarto sósinha com o meu piano, ahi vinha ella, allegando que gostava muito de musica, e perguntando se os seus ouvidos eram indignos de me escutarem. Então a minha occupação predilecta transformava-se em tortura insupportavel. Esmagava freneticamente as teclas, as minhas boas e antigas amigas, todas espantadas do inesperado tratamento.
Se ás doces horas do crepusculo ia sósinha sentar-me junto da minha janella, e contemplar o melancolico horisonte dos campos, para me engolphar no mundo da phantasia, tinha-a a meu lado d’ahi a instantes, dizendo, que tambem ella possuia um genio muito triste, e que, no tempo em que tivera um namoro, gostava muito de estar áquellas horas a pensar n’elle. Depois accrescentava invariavelmente que julgava que as senhoras casadas eram inacessiveis a essas tristezas e que junto de seu marido é que deviam estar, em vez de se entregarem sósinhas a pensamentos talvez perigosos.
Aquella mulher tinha um genio de inquisidor.
Se acreditasse na metempsychose, diria que o espirito de Torquemada fôra, atravessando os seculos, aninhar-se finalmente no coração de D. Antonia da Cunha.
Ah! e quando uma solteirona, de quarenta para cincoenta annos, vinha visital-a, e trazer-lhe o auxilio da sua indole mordaz, e da sua hypocrisia beata, então é que se entoava um _duetto_, que desbancava a aria de D. Basilio. Como se entendiam bem a meias palavras! Que plangentes queixumes não soltava D. Antonia, indicando-me com o olhar á sua boa amiga D. Simôa dos Anjos, emquanto ambas trabalhavam n’um enxoval para creanças pobres, trabalho santo, que fôra apregoado em todos os tons na freguezia e nas parochias visinhas! Que olhares de compaixão, com que a outra lhe respondia! Que theorias de implacavel austeridade! Que lamentações! Que moções d’ordem d’uma, acolhidas pelos apoiados da outra! E quando passavam das generalidades á especialidade, ah! como as agulhas cosiam e as linguas descosiam! Com que delicioso tempero de reputações esfaqueadas se apimentava a obra caritativa do enxoval! Que signaes de piedosa compuncção! Que devotos sarcasmos se não cuspiam sobre as peccadoras, fulminadas por aquelle augusto areopago! E a que horrenda verrina me não expunha, quando, cançada, enojada de tão peçonhenta hypocrisia, exprimia a indignação que já não podia conter.
--Quem defende gente assim, expõe-se ás mesmas accusações, dizia uma das Lucrecias, principiando com a mão direita, sem a esquerda o saber, uma costura caridosa.
--Ah! tornava a outra debruando os coeiros da sua beneficencia, essas é que são felizes! Os homens não querem outra coisa, e, para vergonha nossa, até no nosso sexo acham advogadas!
Eu levantava-me com impeto e saía; mas aquellas duas vozes resoavam sempre ao meu ouvido, e não deixavam que eu tomasse gosto em nenhuma das minhas outr’ora tão queridas occupações.
V
Assim passei a primavera, o estio e o outono do meu primeiro anno de casada. Claudio envolvera-se na politica, mais para se distrair do seu _spleen_ incuravel, do que por gosto ou ambição. Principiara eu a perceber que a frieza apparente de meu marido provinha de uma educação acanhada, como o espirito de sua tia, que lhe infligia o respeito das leis d’aquelle mundo mesquinho, em que ella tanto folgava de viver, e dos constantes obstaculos, que se tinham opposto ao desenvolvimento livre e desaffogado do seu espirito. Mostrava-se affectuoso para comigo, mas affectuoso sem expansão. Aquella mulher interpunha-se constantemente a nós ambos. Se uma ou outra vez, n’algum dia em que o sol da primavera despertava dentro em mim os passarinhos mudos, e aviventava as flôres desbotadas da minha phantasia tentava desabafar e elevar-me ás regiões serenas, onde desejara viver; se Claudio, arrastado pelo contagio do meu enthusiasmo, principiava a entrar nas minhas idéas, vinha logo sua tia, soltando altos gritos, e dizendo que essas farofias de romance e de musica é que perdiam metade da humanidade feminina. Claudio retraia-se, e eu ficava de novo sósinha e desarmada em face d’aquelle demonio do lar, que empolgava o hyssope furtado n’alguma igreja, e me aspergia de agua benta para me livrar da influencia diabolica da arte, e dos artistas.
Chegou o inverno, o inverno, outr’ora para mim a estação querida dos bailes, de que tambem agora me via privada. Pois como podia eu apparecer nas salas com aquelle _chaperon_ sempre a meu lado, que me expunha ás vezes a scenas desagradaveis com as suas phrases acres, cuja insolencia a muito custo se disfarçava? Depois, as scenas que se passavam na volta para casa! As insinuações sobre a corrupção dos homens que procuram de preferencia as senhoras casadas, e sobre a corrupção das senhoras casadas, que acceitam os rendimentos d’esses monstros de luvas brancas, e que levam a impudencia a ponto de polkarem e de valsarem com homens, que visivelmente as preferem ás tias de quarenta annos!
Estas insinuações calavam mais ou menos no animo de meu marido, e, apezar de elle se retirar sempre que principiavam os discursos de D. Antonia, via-se pela inquietação, que mostrava, que o veneno produzia o seu effeito.
Cançada já, abatida por esta lucta ingloria, resolvi encerrar-me em casa, e abandonar completamente a sociedade. Novos gritos! novas reclamações! Claramente se via que o meu desejo era prival-a de todos os divertimentos, etc.; mas resisti intrepidamente, e, apezar dos clamores, mantive a minha resolução.
Uma vez tinhamos nós acabado de jantar quasi ao anoitecer. Comtudo, não se haviam ainda accendido as luzes. O ceu estava nebuloso, e uma chuva fina começava a bater nas vidraças. Meu marido ficara á mesa tomando café, D. Antonia baloiçava-se na cadeira, ruminando algum dito azedo. Eu fôra-me sentar junto da janella, e contemplava os arabescos que a chuva desenhava nos vidros com as gotinhas que deslisavam lentamente ao longo da limpida superficie. Embuçara-me n’uma capa, e toda conchegada no meu cantinho, saboreava aquelle momento de socego, tão raro na minha vida mesquinhamente agitada.
Os arabescos da chuva despertavam em mim a um tempo deliciosos e tristes pensamentos, lembravam-me os sonhos, que eu phantasiaria um anno antes com essas singelas perolas do pranto das nuvens, e lastimava com amargura o desprezo que votara á realidade, que se vingava cruelmente de mim. Percebi então que não bastam os sonhos para constituirem a ventura, e que o espirito, que se alimenta só com esses devaneios, acha-se sem forças para combater os mais despreziveis inimigos. Isolara-me no meu orgulho, e via agora quanto precisava ter um coração que pulsasse junto com o meu, e quão robusta me sentira, se o amor me envolvesse na sua tunica luminosa! O amor!
E, não sei porque, duas lagrimas desprenderam-se-me dos olhos, e deslisaram-me vagarosamente pelas faces.
N’este momento tocaram a campainha com força. Olhámos uns para os outros, como que perguntando quem se affoitaria a affrontar a chuva, que principiava a cair em torrentes, para vir fazer-nos uma visita.
N’isto abriu-se a porta e appareceu no limiar um vulto de homem.
--Claudio! _amice!_ onde estás tu? Vem dar-me um abraço... metaphorico, porque, se t’o dou na realidade, encharco-te.
--Alberto! exclamou meu marido levantando-se e correndo para elle de braços abertos.
--Sim, eu mesmo, meu velho condiscipulo. Desembarquei hoje. Saí de Napoles n’um dia de chuva, que ameaçava muito sériamente apagar o Vesuvio. Não quiz assistir a tamanho desastre, e fugi. A unidade italiana está matando o _lazzarone_, a chuva mais dia menos dia dá cabo do Vesuvio, e uma companhia de accionistas inglezes improvisa um vulcão artificial, com meia duzia de chaminés de Birmingham, transportadas a bordo de um _steamer_. Fiz a viagem sem apanhar chuva; chego ao Terreiro do Paço, zás, uma pancada d’agua a ensopar-nos a mim e ás venerandas bochechas do marquez de Pombal, que se sorria ironicamente com ar de quem dizia: «Não me quizeram acreditar!» No tempo do grande marquez não chovia, meu amigo.
--Alberto, deixa-me...
--Não chovia não, digo-t’o eu. Quem inventou a chuva foram os inglezes, só para darem extracção ás galochas de borracha, e aos casacos de Mackintosh. Ah! o marquez de Pombal bem o sabia, por isso elle nos fez guerra. Pois que cuidas tu! Sebastião José de Carvalho e Mello foi o defensor da serenidade metereologica do paiz das larangeiras, e da inviolabilidade do nosso ceu azul. Curva-te perante o grande homem, Claudio!
--Consente, Alberto, que...
--Foram os inglezes, repito. Em Napoles era desconhecida a chuva, antes de lord Nelson entrar n’aquella maravilhosa bahia. A chuva portugueza devemol-a ao Beresford...
N’este momento entrou um criado com luz.
Alberto interrompeu-se ao divisar-nos a mim e a D. Antonia.
--Oh!... senhoras... e tu não me dizias coisa alguma, e deixavas-me palrar como um idiota que sou...
--Mas, meu amigo, tornou Claudio rindo, desde que entraste ainda não fiz senão querer-te apresentar minha mulher, e tu a fallares em Nelson e no marquez de Pombal... Margarida, continuou elle, dirigindo-se a mim, tenho a honra de te apresentar o meu bom amigo Alberto Mascarenhas Corte-Real, que chega, como acabas de ouvir, de uma viagem da Italia.
--É uma dupla recommendação valiosa, disse eu sorrindo e comprimentando-o amavelmente; amigo de meu marido e viajante recemchegado da terra dos prodigios, como não ha de ser recebido cordial e curiosamente?
Alberto balbuciou algumas palavras, que eu não percebi, mostrando-se visivelmente enleiado, talvez por causa da sua palradora entrada, e voltando-se logo para D. Antonia, apertou-lhe a mão, dizendo-lhe:
--Ah! é, v. ex.ª! Desculpe, minha senhora, o não a ter reconhecido. Mas ha de confessar que na escuridão era difficil...
--Ora, das _velhas_ nunca os senhores fazem caso.
--Ah! tornou Alberto rindo, já pediu a sua reforma? Pois olhe, parece-me que a neve, que lhe vejo alvejar nos cabellos, é a neve perfumada da laranjeira. Vamos, seja sincera. Quando é o casamento?
--Nunca! Se eu chegava a esta idade sem me casar, para commetter agora uma loucura d’essas. Os homens...
--São uns monstros, bem sei. Ainda se não emendaram? E eu que fui á Italia de proposito para pedir ao Papa a canonisação em massa de todo o sexo masculino! Mas, segundo vejo, os maganões são incorrigiveis.
--Olhe, sr. Corte-Real, hoje em dia bem tolo é quem se casa. Os homens são estouvados, e as senhoras seguem-lhe o exemplo. É moda que veiu agora de França.
--Veiu? Ah! e eu que me esqueci de ver os figurinos!
--Vamos para a sala, Alberto, interrompeu meu marido, que via a conversação tomar o caminho costumado. Lá podes-te enxugar melhor.
Levantámo-nos e fomos para a sala.
Estava o fogão acceso, e o lume derramava no aposento um suave calor. O guarda luz do candieiro, concentrando o fulgor todo na mesa, á roda da qual nos sentámos, deixava ficar na penumbra o resto do quarto. A chuva batia nas vidraças, e o vento zunia com violencia, engolphando-se pelo tubo do fogão.
--Ah! disse Alberto, sentando-se n’uma cadeira á Voltaire, venham-me agora fallar nos prazeres das viagens! Não conheço nada melhor do que esta deliciosa sensação, que se apodera de nós, n’uma noite bem fria e bem invernal, ao sentarmo-nos n’uma cadeira macia, junto do bom fogo, entre duas ou tres pessoas que nos estimem, sentindo o vento sibilar, e a chuva bater nos vidros. E pensar-se que a estas horas anda um barco ao longe, no alto mar, affrontando a tempestade, que lhe descose as pranchas, e lhe açoita a vela, em quanto o pescador, vendo as ondas embravecidas a rugirem morte por todos os lados, vae scismando como Victor Hugo,
_Au vieux anneau de fer du quai plein de soleil!_
--Safa, que egoista! exclamou Claudio.
--Egoista sim. Meu amigo, não ha prazer algum n’este mundo, em que não entrem tres quartas partes de egoismo. É um prazer egoista? Bem sei: já Lucrecio o disse antes de ti n’uns versos que não cito por duas razões: a primeira porque são em latim...
--E a segunda? perguntei eu.
--Porque nunca li Lucrecio, minha senhora.
Desatei a rir.
--Mas, então, continuei, como é possivel que viajasse tanto, detestando por essa fórma as viagens?
--Detestar as viagens! eu, minha senhora! pelo contrario, adoro-as!
--Mas, parece-me...
--Perdão. Entendâmo-nos, minha senhora; este prazer, que eu estou sentindo agora, tambem ás viagens o devo. É o contraste que lhe dá este sabor tão agradavel e picante. Hontem, sósinho no convez do paquete, via a solidão immensa dos mares, ouvia os melancholicos lamentos das ondas, contemplava o ceu toldado, que se desenrolava sobre a minha cabeça como plumbeo manto; hoje aperto a mão a um amigo de infancia, tenho a ventura de estar conversando com senhoras amaveis e espirituosas, sinto-me envolvido por uma atmosphera tepida, perfumada das fragrancias da terra natal, e, recostando-me voluptuosamente n’esta cadeira, vendo ali chispar um fogo delicioso na moldura do fogão, mirando as figuras do guarda-luz do seu candieiro, esfrego as mãos, como um egoista, e digo: «Como deve estar o mar a estas horas?» Baloiço-me aqui indolentemente, e continuo: «Como os navios dançam fóra da barra ao som d’essa valsa tocada pela orchestra das vagas, e composta por esse Strauss maravilhoso, que se chama Deus!» Este prazer sou aqui eu só quem o saboreia; digam-me lá se sentem o mesmo que sente o viajante recem-chegado?
--Não, acudiu meu marido, mas sinto eu, pelo menos, o prazer tambem delicioso de tornar a ver um amigo ha dois annos ausente.
--Meu bom Claudio! respondeu Alberto, pegando na mão de meu marido, e apertando-lh’a com affecto. Mas, continuou, ainda ha outro prazer, que eu não mencionava, e que não deixa de ser, comtudo, digno de citar-se.
--Qual é? perguntou Claudio.