A flor secca: romance

Part 1

Chapter 13,691 wordsPublic domain

OBRAS DE CAMILLO CASTELLO BRANCO

Edição popular das suas principaes obras em 80 volumes in-8.º, de 200 a 300 paginas impressa em bom papel, typo elzevir

[Illustração]

1--Coisas espantosas. 2--As tres irmans. 3--A engeitada. 4--Doze casamentos felizes. 5--O esqueleto. 6--O bem e o mal. 7--o senhor do Paço de Ninães. 8--Anathema. 9--A mulher fatal. 10--Cavar em ruinas. 11 e 12--Correspondencia epistolar. 13--Divindade de Jesus. 14--A doida do Candal. 15--Duas horas de leitura. 16--Fanny. 17, 18 e 19--Novellas do Minho. 20 e 21--Horas de paz. 22--Agulha em palheiro. 23--O olho de vidro. 24--Annos de prosa. 25--Os brilhantes do brasileiro. 26--A bruxa do Monte-Cordova. 27--Carlota Angela. 28--Quatro horas innocentes. 29--As virtudes antigas. 30--A filha do Doutor Negro. 31--Estrellas propicias. 32--A filha do regicida. 33 e 34--O demonio do ouro. 35--O regicida. 36--A filha do arcediago. 37--A neta do arcediago. 38--Delictos da mocidade. 39--Onde está a felicidade? 40--Um homem de brios. 41--Memorias de Guilherme do Amaral. 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa. 45 e 46--Livro negro de padre Diniz. 47 e 48--O judeu. 49--Duas épocas da vida. 50--Estrellas funestas. 51--Lagrimas abençoadas. 52--Lucta de gigantes. 53 e 54--Memorias do carcere. 55--Mysterios de Fafe. 56--Coração, cabeça e estomago. 57--O que fazem mulheres. 58--O retrato de Ricardina. 59--O sangue. 60--O santo da montanha. 61--Vingança. 62--Vinte horas de liteira. 63--A queda d’um anjo. 64--Scenas da Foz. 65--Scenas contemporaneas. 66--O romance d’um rapaz pobre. 67--Aventuras de Bazilio Fernandes Enxertado. 68--Noites de Lamego. 69--Scenas innocentes da comedia humana. 70 e 71--Os Martyres. 72--Um livro. 73--A Sereia. 74--Esboços de apreciações litterarias. 75--Cousas leves e pesadas. 76--THEATRO: I--Agostinho de Ceuta.--O marquez de Torres-Novas. 77--THEATRO: II--Poesia ou dinheiro?--Justiça.--Espinhos e flôres.--Purgatorio e Paraizo. 78--THEATRO: III--O Morgado de Fafe em Lisboa.--O Morgado de Fafe amoroso.--O ultimo acto.--Abençoadas lagrimas! 79--THEATRO: IV--O condemnado.--Como os anjos se vingam.--Entre a flauta e a viola. 80--THEATRO: V--O Lobis-Homem.--A Morgadinha de Val-d’Amores.

CAMILLIANA

=Camillo Castello Branco=--_Notas á margem em varios livros da sua biblioteca_, recolhidas por Alvaro Neves.--1 vol. br. 600 rs.; enc. 1$000.

=Camillo Castello Branco=--_Tipos e episodios da sua galeria_, por Sergio de Castro.--3 vols., contendo inumeras transcrições da obra de Camillo, br. 1$800 rs.; enc. 2$800 rs.

=Poesias dispersas de Camillo Castello Branco=--1 vol. de 247 pag. em papel de linho nacional. Tiragem 48 ex., br. 6$000 rs.

=Hosanna!= Por Camillo Castello Branco. Fiel reprodução zincografica da 1.ª edição de 1852, hoje rarissima. Tiragem 60 ex., br. 2$500 rs.

=Os pundonores desagravados=, por Camillo Castello Branco. Reprodução como acima da 1.ª edição de 1845. Tambem rarissima. Tiragem 60 ex., br. 1$000.

=Prefacio da 1.ª edição do Diccionario de Azevedo=, por Camillo Castello Branco.--Fl. 1$000.

COLLECÇÃO ECONOMICA

Volumes in-16.º de 240 a 320 paginas

ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES

VOLUMES PUBLICADOS

1--Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de Tartarin nos Alpes, por A. Daudet.

2--Esgotado.

3--Sergio Panine, por Jorge Ohnet.

4--Esgotado.

5--Soror Philomena, por Edmond e J. Goncourt.

6--Esgotado.

7--Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot.

8--Esgotado.

9--Esgotado.

10--Esgotado.

11--Esgotado.

12--Esgotado.

13--Um coração de mulher, por Paul Bourget.

14--Esgotado.

15--Esgotado.

16--Esgotado.

17--Esgotado.

18--O ultimo amor, por Ohnet.

19--Um bulgaro, por Ivan Tourgueneffe.

20--Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp.

21--Esgotado.

22--Esgotado.

23--Camilla, por G. Ginisty.

24--Trahida, por Maxime Paz.

25--Sua Magestade o Amor, por A. Belot.

26--Esgotado.

27--Os reis no exilio, por A. Daudet.

28--Esgotado.

29--Mentiras, por Paul Bourget.

30--Marinheiro, por Pierre Loti.

31--Esgotado.

32--A Evangelista, por Daudet.

33--Aranha vermelha, por R. de Pent Jest.

34 e 35--Esgotado.

36--Parisienses!... por H. Davenel.

37--Ao entardecer!... por Iveling Rambaud.

38--A confissão de Carolina, trad. de J. Sarmento.

39--Esgotado.

40--Esgotado.

41--O abbade de Faviéres, por J. Ohnet.

42--Esgotado.

43--Esgotado.

44--A nihilista, por C. Mendés.

45--Esgotado.

46--Morta de amor, por Delpit.

47--João Sbogar, por C. Nadier.

48--Viagem sentimental, por Sterne.

49--O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.

50--A confissão de um rapaz do seculo, por Musset.

51--Esgotado.

52--O castello de Lourps, por J. K. Huysmans.

53--Amor de Miss, por J. Blain.

54--A sogra, por Laforest.

55--Colomba, por P. Merimée.

56--Katia, por L. Tolstoï.

57--Alma simples, por Dostoiewsky.

58--Duplo amor, por Rosny.

59--Contos fantasticos, por Hoffmann.

60--A princeza Maria, por Lermontoff.

61--Rosa de maio, por Armand Silvestre.

62--Esgotado.

63--O romance do homem amarello, pelo general Tcheng-Ki-Tong.

64--A dama das violetas, por F. Guimarães Fonseca.

65 & 66--Nemrod & C.ª, por Jorge Ohnet.

67--Prisma de amor, por Paul Bonhomme.

68--Historia d’uma mulher, por Guy de Maupassant.

69 & 70--Educação sentimental, por G. Flaubert.

71--Depois do amor, por Ohnet.

72--A fava de Santo Ignacio, por Alexandre Pothey.

73 & 74--O herdeiro de Redclyffe, por Mrs. Yongue.

75--Uma ondina, por Theuriet.

76--A familia Laroche, por Marguerite Sevray.

77--As grandes lendas da humanidade, por d’Humive.

78 & 79--A filha do Dr. Jaufre, por Marcel Prevost.

80--A dama das camelias, por A. Dumas, Filho.

81--Dezeseis annos..., por F. C. Philips.

82 & 83--O Desthronado, por A. Ribeiro.

84--Ninho d’amor, por A. Campos.

85--Bodas Negras, por Almachio Diniz.

86--Do amor ao crime, por Alphonse Karr.

87--A ilha revoltada, por Ed. Lockroy.

[Illustração]

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA--51.º Volume

A FLOR SECCA

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

A FLOR SECCA

ROMANCE

POR

M. PINHEIRO CHAGAS

SEGUNDA EDIÇÃO

LISBOA PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA-EDITORA _Rua Augusta, 50, 52 e 54_ 1904

LISBOA OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO Movidas a vapor DA Parceria Antonio Maria Pereira _Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º_ 1904

A JULIO CESAR MACHADO

MEU CARO JULIO

Aqui vem collocar-se debaixo da tua protecção um livro que te é offerecido por aquelle timido rapaz, que te foi procurar ha tres annos, para te ler uns versos, que tu acolheste tão benevolamente, e a quem fizeste n’um dos teus deliciosos folhetins uns prognosticos tão lisongeiros. Não sei se a tua prophecia está em caminho de se realisar; sei que o teu protegido entrou na carreira litteraria, cujas portas lhe abriste doirando-lh’as com a luz já então prestigiosa da tua gloria, enflorando-lh’as com as grinaldas sempre viçosas do teu talento; sei que seguiu essa estrella fatal, a cuja influencia não póde eximir-se mais quem se deixou arrastar pelo seu magnetico fulgor; sei que, desejando mostrar-te a sincera amizade que te votou, e a gratidão que sente pelo benevolo acolhimento que outr’ora lhe fizeste, e pelas provas de constante estima que lhe tens dado, vem dedicar-te um dos pobres livros que é agora destino seu arrojar á voragem da publicidade.

Acolhe-o bem. Elle pouco vale. Sei que te poderia e deveria talvez offerecer flor mais fragrante do que esta pobre _Flor Secca_, secca e sem perfume como a phantasia as produz emquanto a mão insaciavel do jornalismo as arranca sem descançar da hastea. Mas grassa actualmente na nossa litteratura uma tal epidemia de odiosinhos e invejas, de cumprimentos feitos cara a cara compensados por insultos escondidos na sombra, que tive pressa de te dizer bem alto deante de amigos e inimigos que me ufano de prestar publicamente homenagem ao teu talento, um dos mais sympathicos da nossa terra, e ao teu caracter, um dos mais nobres e leaes que tenho encontrado na minha carreira litteraria.

PINHEIRO CHAGAS.

I

Tinha eu dezoito annos. Estava uma noite n’um baile em casa do conde de C... Acabara de valsar, e, toda offegante, vermelha e risonha, sentara-me na primeira cadeira que se me deparara, compondo o cabello, que se desarranjara no rapido voltear, quando meu pae se approximou de mim, acompanhado por um rapaz de vinte e cinco para vinte e seis annos.

--Margarida, disse-me elle, estendendo a mão para o seu companheiro, que se curvou gravemente deante de mim, tenho a honra de te apresentar o senhor Claudio da Cunha, proprietario e meu amigo.

Claudio da Cunha fez-me de novo um grave cumprimento.

--Senhor Claudio da Cunha, continuou meu pae, voltando-se para elle, e indicando-me com o gesto, apresento-lhe minha filha, D. Margarida da Silveira.

Estendi-lhe com desembaraço a mão encerrada na luva de pellica branca, e disse-lhe:

--Estimo immenso conhecel-o; os amigos de meu pae teem sempre direito á minha affeição.

--Travem n’esse caso conhecimento mais intimo, acudiu meu pae, sorrindo-se mysteriosamente e affastando-se.

Havia ao meu lado uma cadeira vaga. O meu novo conhecido desviou-a um pouco, porque estava perfeitamente unida á minha cadeira, e sentou-se n’ella.

Emquanto fazia tudo isto grave e pausadamente, relanceei os olhos para elle, e com esta rapidez de observação, que Deus concedeu ás pessoas do nosso sexo, pude n’esse instante formar tão perfeita idéa d’elle como se o houvera comtemplado e analysado duas horas.

Claudio era, o que se póde chamar, um bonito homem. Alto, branco, de feições extremamente regulares, de olhos rasgados e azues, mas de um azul frio e sem expressão. Não tinham nem o brilho vivo e intenso d’esses olhos de um azul faiscante, se assim me posso exprimir, cuja côr parece o azulado reflexo que scintilla na plumagem negra do corvo, nem a meiga e melancholica limpidez do colorido dos lagos, que espelham no seu cristal o azul do firmamento. Tinha os olhos azues, porque as leis da optica exigem implacavelmente que os olhos tenham uma côr qualquer, e o acaso fizera que o azul competisse aos de Claudio da Cunha. Se fosse possivel dispensar-se condição por tal fórma essencial, estou convencida que aproveitariam com avidez essa isenção, e ficariam sem côr, como já estavam sem brilho.

Haviamos apenas trocado algumas banalidades preliminares, quando romperam na orchestra os primeiros compassos de uma polka ingleza. A tal convite nunca eu soubera resistir.

Olhei para Claudio, indicando-lhe claramente n’esse olhar que esperava que me tirasse para seu par na polka.

O meu visinho não mostrou comprehender a intenção, que se lia nos meus olhos.

--Não dança? aventurei-me eu a dizer, vendo a sua immobilidade.

--Não, minha senhora, respondeu elle gravemente.

Encolhi imperceptivelmente os hombros; uma creatura humana, e de mais a mais na flor da idade, que não dançava, era para mim uma d’estas monstruosidades incomprehensiveis, que a Providencia ás vezes phantasia n’uma das suas horas de mau humor.

Por isso acolhi com jubilo um dos mais infatigaveis dançadores do baile, que veiu, com o sorriso nos labios, e com o rosto ainda humido do suor da valsa, convidar-me para uma polka ingleza.

Levantei-me, puz-lhe logo a mão no hombro, esperei, batendo o compasso com o meu sapatinho de setim, que a musica nos désse occasião para nos arrojarmos ao vortice delicioso, e, leve como um passarinho, segura na cinta pela mão do meu par, comecei a descrever á roda da sala um d’esses airosos giros que tanto me enlevavam.

Confesso que nunca mais pensei em Claudio da Cunha. Ás contradanças succederam as polkas, ás polkas as valsas, e, toda entregue a tão fervente prazer, esqueci essa especie de visão da prosa, que interrompera por instantes a delirante poesia do meu baile.

O que não impediu que, ás tres horas da manhã, depois da mamã me ter feito signal que se retirava, quando, ao estarmos pondo as capas, veio Claudio da Cunha pedir as nossas ordens, e sollicitar licença para ir no dia seguinte a nossa casa apresentar-nos os seus cumprimentos, o que não impediu, repito, que o recebesse com um sorriso muito amavel, e lhe apertasse francamente a mão, que elle me estendeu com a sua habitual gravidade.

--Que tal te pareceu Claudio da Cunha? perguntou minha mãe sorrindo-se, quando íamos descendo as escadas do palacio.

--Pareceu-me bem, respondi eu, porque?

--É o noivo que te destinâmos, tornou minha mãe, inclinando-se um pouco para o meu ouvido.

--Ah! redargui eu distraidamente.

Foi assim, entre uma polka e uma valsa, que travei conhecimento com meu marido.

II

Esse _Ah_ indifferente, com que eu acolhi uma noticia tão importante, merece e vae ter uma explicação.

Chegára aos dezoito annos, e ainda não conhecera o amor, nem procurara conhecel-o. Frieza de organisação? perguntam-me. Pelo contrario, demasiado ardor.

Imaginem uma creança, cuja phantasia devaneava sempre sonhos de ouro, terras encantadas das _Mil e uma noites_, choréas de brancas fadas, vultos ideaes e vaporosos, ignotas melodias, ineffaveis extasis, anjos de azas candidas, romances impossiveis, poemas maravilhosos. Imaginem essa creança, educada, rigida, severa, prosaicamente, por um pae, que franzia o sobr’olho sempre que me via disposta a soltar as rédeas á imaginação, por uma mãe, que me fazia sentar junto de si, e me dizia: «Filha, é preciso resignares-te a abandonar essas idéas romanticas, se quizeres viver tranquilla e feliz. O mundo não é como tu o vês atravez do prisma da tua infantil imaginação. Os sonhos da phantasia, filha, são como as andorinhas: só vivem bem entre os effluvios de uma eterna primavera. A tua idade é a doce primavera da existencia; por ora, podes acariciar, e reter com roseos laços as andorinhas gentis, que se te aninharam no coração, todo perfumado de innocencia. Mas é preciso que te vás costumando a deixal-as partir. Querias entrar com ellas no frio inverno da sociedade tal como ella é, e não tal como tu a suppões? Não; bem vês que morreriam geladas, e nem tu sabes o soffrimento que te causaria então a sua morte. Deixa-as voar, deixa-as ir procurar outro ninho, tão doce e tão quente como o suave ninho do teu coração de creança, e tu, filha, prepara-te para affrontares serenamente as tristezas e amarguras da realidade!»

Estes conselhos, constantemente repetidos, dados por essa voz, que eu respeitava, produziram em mim um effeito extravagante. Sceptica e enthusiastica a um tempo, acreditava firmemente que a poesia fugira do mundo como a Themis do paganismo, e fôra refugiar-se no ceu, aonde os meus sonhos a iam procurar, e d’onde voltavam com as azas impregnadas nas balsamicas fragrancias, que rescendia a casta divindade. Considerava o mundo real como um inferno de prosa, onde me via obrigada a viver, sem comtudo poder abstrahir d’essas visões poeticas e dulcissimas, cujo desapparecimento me tornaria insupportavel a existencia.

Transigi então. Agradara-me a figura, de que minha mãe se servira para me rogar que não entrasse na vida real com idéas romanescas. Jurei que não exporia as minhas pobres andorinhas a serem mortas pelos gelos da realidade; mas jurei tambem que lhes havia de conservar n’um canto do coração, sanctuario bem mysterioso e bem recatado, a eterna primavera que lhes era indispensavel. Depois de ter affrontado impavida e forte a prosa da realidade, iria refugiar-me, com prazer e enthusiasmo, no meu tabernaculo santo, nas minhas Charmettes encantadoras, onde podia banhar á vontade a minha alma, sequiosa d’esses gosos, no limpido e sereno lago da poesia, na pura e transparente atmosphera do ideal: atmosphera onde voejavam as andorinhas gentis dos meus devaneios, lago onde vogavam os candidos cysnes dos meus sonhos; e assim, repartindo a minha vida entre as obrigações enfadonhas da sociedade, e as enthusiasticas devoções do meu templosinho secreto, julgava poder atravessar a existencia, serena e immaculada, suspensa entre ceu e terra, como o caixão de Mahomet.

Com estas disposições é facil de imaginar que me havia de seduzir a arte, e que estava predestinada a consagrar-lhe um amor ferventissimo. A arte era a chave de oiro do meu palacio de fadas, o «Abre-te, Sesame» da caverna d’Ali-Baba, onde estavam encerrados os thesoiros da minha imaginação. A arte era o manto de Mephistopheles, sobre o qual eu podia viajar livremente pelas queridas regiões da phantasia. Seduziu-me essa gentil feiticeira, que me podia transportar n’um vôo para longe do mundo que me cercava, e interpôr a mim e á sociedade a cortina magica, por detraz da qual começava para o meu espirito a região dos encantamentos, dos extasis e das delicias. A melodia, que os meus dedos despertavam nas teclas de um piano, era como o fumo odorifero de que se rodeia o turco, ao entregar-se ás perigosas delicias do hatchich. Por isso eu adorava a musica, e tinha um verdadeiro amor ao meu piano. Devorava-o com os olhos, quando me via obrigada a fechal-o ou para receber visitas, ou para obedecer ás ordens de meus paes. Se era o cofre das minhas riquesas, o corpo que encerrava uma alma irmã da minha, que só despertava ao evocal-a eu, e que eu bem sabia que ficava adormecida quando alguem ousava pôr mãos profanadoras nas teclas do instrumento!

Quando eu tocava, todos me applaudiam com frenesi; gabavam o meu talento, a assiduidade do meu estudo, e diziam que, se quizesse apparecer em publico, offuscaria as glorias dos mais celebres pianistas. Eu nem lhes ouvia os applausos. Enlevada nas mysteriosas conversações com a fadasinha do piano, tudo o mais me era indifferente. Que me importava tocar deante de duas pessoas, ou deante de duas mil? Entre mim e ellas caía sempre a bemfadada cortina, e o meu espirito, enlaçado com o espirito da melodia, franqueava as portas d’oiro do mundo do ideal.

Por isso tambem adorava a dança, e a valsa principalmente. Apenas rompiam na orchestra os primeiros compassos da vertiginosa musica, ahi voava nos braços do meu par, louca, inebriada por esse filtro ignoto, que distillam as flores, as luzes, as melodias do baile. Os meus pés mal tocavam no chão; como que a pouco e pouco sentia emplumarem-se-me os hombros com as azas niveas dos anjos ou das fadas; via n’essa atmosphera, saturada de férvidas emanações, voejarem as minhas andorinhas, que me chamavam para a sua região encantada, e tudo esquecia: o salão, o meu par, a gente que me cercava, para me arrojar para o mundo dos devaneios, para entrar no casto gyneceu das minhas formosas visões.

Com estas idéas, como podia eu procurar o amor? Pensava muito n’elle, é verdade, mas nem por sombras me lembrava de o buscar na vida real. O amor, e a realidade eram para mim duas palavras completamente incompativeis. Quem se lembra de pedir nectar n’um banquete dos homens? Que mahometano encommenda a um negociante d’escravas que lhe traga uma huri da Circassia?

Julgaria até uma profanação collocar um idolo n’esse altar erguido na minha alma, como altar atheniense, ao _deus desconhecido_. Os suavissimos aromas, que essa palavra rescendia, não havia flôr da terra que os exhalasse.

Mas estas idéas, que eu alimentava, nunca pensára em revelal-as. Não se esqueçam os leitores da minha dupla existencia: uma toda sujeita ás leis sociaes, e não tentando por forma alguma rebellar-se contra ellas, outra completamente fóra do mundo da realidade; existencias diversas, com as fronteiras escrupulosamente traçadas, e que nunca se invadiam mutuamente.

Portanto, o casamento era para mim uma d’essas leis, a que eu estava prompta a obedecer, comtanto que me ficasse plena liberdade de me esquivar para a região das andorinhas; liberdade inalienavel como facilmente se imagina. Não pedindo ao casamento o amor, qualquer marido me era indifferente. Bastava-me a amizade, porque ouvira dizer a minha mãe, que no matrimonio é indispensavel esse sentimento.

Claudio da Cunha não me inspirava repugnancia; por conseguinte estava perfeitamente disposta a obedecer ás ordens de meus paes. Ouvi a noticia e não pensei mais em tal. Casar-me tinha para mim tanta importancia como pagar ou receber uma visita; cumpria uma lei imposta pela sociedade. Tal noticia merecia mais do que o _Ah_ distrahido com que eu a acolhera?

III

Confessemos que seria difficil a descripção da nossa vida nos tres ou quatro mezes que precederam o meu casamento com Claudio da Cunha. Póde excitar interesse a mulher, que nem caminha para o altar como victima sacrificada, nem como noiva feliz de ver coroados pelo hymeneu os votos formados pelo amor para adoptar a linguagem dos venturosos tempos da Arcadia? Póde chamar a attenção um noivo cortez, vestido irreprehensivelmente, frio, grave, que vem apresentar-me os seus cumprimentos sempre á mesma hora sem differença de um minuto, que me ouve tocar piano, mostrando-se attento quanto baste para satisfazer as conveniencias, que me applaude depois com as suas mãos enluvadas, de modo que não faça estalar nem uma costura das luvas preciosas, que em seguida elogia a minha habilidade e a perfeição do meu methodo, que tudo isto repete todos os dias, sem alteração de uma syllaba, de um gesto, de um segundo?

Comtudo eu não tinha razão de queixa. Claudio era o marido, que convinha a quem executava fria e indifferentemente um dever, contraindo os laços do matrimonio. Galanteador, incommodar-me-hia de certo: menos delicado e exacto, offenderia não a mim, que não repararia em tal, mas a meus paes.

D’este modo tudo caminhava ás mil maravilhas. O papá extasiava-se perante o comedimento, e as maneiras polidas de Claudio; a mamã folgava de ver o escrupuloso aceio e esmero do seu trajar, o cuidado que tomava sempre em evitar uma nodoa que lhe maculasse o lustre irreprehensivel da casaca e do chapeu; eu dava-me perfeitamente com o seu, raras vezes interrompido, silencio, porque me deixava divagar á vontade e escutar desafogadamente o chilrear das «minhas andorinhas».

Chegou emfim o dia do casamento. Foi esse para mim um dia de verdadeiro jubilo, e de extasi sem igual. Porque? perguntam-me. Transformou-se o caracter de Claudio, e algum vulcão, fervendo longo espaço de tempo por baixo dos gelos exteriores, irrompeu e incendiou tambem com as subitas chammas esse coração tão despresador da vida real, e que se dizia d’amianto para as prosaicas labaredas do mundo terreno? Folgou por acaso de se ver senhora, e de se transformar a doce grinalda da virgindade no diadema de rainha, esplendido mas pungente, que cinge a fronte das esposas? Não, nada de tudo isso. O motivo do meu jubilo era apenas o poder cingir o meu veu branco, e a corôa de flores de larangeira, emblemas nupciaes.

Oh! como eu contemplei mil vezes ao espelho os graciosos adornos, que tanto me enlevavam, como deixei cair em torno de mim as graciosas pregas do meu veu de gase! Como me revi na grinalda de brancas flôres, que me poisava elegantemente na cabeça, dando um vivo realce aos meus cabellos castanhos claros! Como olvidei, sósinha, no meu toucador, o mundo presente, a realidade semsabor, os padrinhos de casaca preta, os parabens dos convidados, a cerimonia nupcial! Não era Margarida da Silveira que alli estava mirando-se vaidosamente n’um espelho de moldura doirada; era a fada Margarita contemplando a sua imagem no cristal da sua fonte! Rompia a manhã, a fresca manhã de S. João; as pobres alcachofras queimadas esperavam que o bento orvalho reverdecesse a corolla crestada, as bilhas d’agua esperavam o encantamento, os ovos suspensos nos copos esperavam a metamorphose.

A brisa matinal fluctuava em torno a mim, infunando-me ao de leve as prégas do meu veu. A luz nascente mal fazia desabrochar rosas desmaiadas no horisonte.