A flor secca: romance

Part 5

Chapter 53,944 wordsPublic domain

--Pois o pae de fr. João era aqui um lavrador da terra, que foi pouco a pouco augmentando as suas fazendas á custa dos visinhos, que, sendo mais pobres, não o podiam demandar. Todos os annos ia elle chegando o marco das terras mais para deante, a ponto que um dos seus visinhos ficou reduzido á miseria. Morreu o usurario, e o pobre filho, que não sabia d’estas coisas, começou a disfructar socegadamente os bens que seu pae lhe legara. Alguns boatos lhe tinham chegado aos ouvidos, mas elle sempre suspeitara que tudo eram calumnias e invejas.

«A final chegou o tempo das sementeiras, e o nosso João, que morava em Bellas habitualmente, mas que tinha uma casita terrea nas suas fazendas, veiu residir aqui para vigiar os trabalhadores.

«Quando elle chegou encontrou-os a todos enfiados de susto. Disseram-lhe á uma que não tinham tido um momento de descanço, porque todas as noites se ouvia um arrastar de cadeias, uns gemidos que cortavam o coração; e finalmente que um d’elles, mais affoito, que ousara espreitar para saber qual era a causa d’esse barulho nocturno, quasi desmaiara de pavor, quando vira o finado, envolto na mortalha branca, arrastando o marco por todo o campo, e soltando gemidos lugubres, a que respondia ao longe o funebre piar do mocho...»

--Credo! murmuraram os assistentes.

«O João todo se desesperou, e disse que desancaria quem se atrevesse a repetir semelhantes mentiras, e que, para provar o seu dito, havia de passar toda a noite sósinho em casa, e que veria se ousava alguem perturbar-lhe o repouso.

«Se bem o disse, melhor o fez. Era no verão; mas apezar d’isso estava tempestuosa a noite como esta de hoje. O trovão ribombava nos ares, e os relampagos illuminavam os campos inundados de agua. O vento acamava as espigas de trigo, e fazia-as sussurrar lugubremente.

«João metteu-se em casa e esperou que soasse a hora fatal. Não direi que não estivesse um tanto pallido e trémulo, mas continha o receio involuntario, e estava prompto para affrontar o perigo intrepidamente.

«Um relogio velho, que elle tinha em casa, fez ouvir aquelle barulho que precede nos antigos relogios de parede o bater das horas, e logo depois deu meia noite. A tempestade pareceu suspender-se para escutar o signal dado pela voz mysteriosa do tempo, mas, apenas vibrou a ultima pancada, o furor da procella, por um instante refreado, redobrou de intensidade, e o vento, a chuva e os trovões bramiram com tal violencia, que tremeu toda a casa como se a sacudissem as garras de invisiveis demonios. Logo, por entre os rugidos confusos da procella, sibilar do vento, roncar dos trovões, tintinar da chuva, começou João a ouvir uns flebeis gemidos, que se prolongavam indefinidamente, um arrastar de algemas, que de cada vez se approximava mais.

«João sentiu um calafrio correr-lhe pelas veias; mas tomou animo, e levantou-se da cadeira onde estivera. Não teve porém tempo de dar um passo. Abriu-se a porta e...»

N’este momento abriu-se com estrondo a porta da cosinha.

--Jesus! bradaram os circumstantes.

X

Todos sentimos como que uma commoção electrica; eu mesma confesso que estremeci ao dar por tão notavel coincidencia. Mas o nosso susto mudou-se em espanto, quando vimos apparecer á porta D. Antonia, envolta n’um chale antiquissimo, que provavelmente descobrira n’algum dos velhos bahus da residencia.

--Então aqui não se trata da ceia? perguntou ella, cruzando os braços. Toca a palrar e a contar historias, e eu e a Maria do Rosario que nos aguentemos com o trabalho! Fóra mandriões; Annica já, já fazer as camas; Quiteria veja se nos arranja alguma coisa para cearmos. Nunca se viu uma coisa assim! Os servos aqui muito bem refestellados, e as donas da casa tendo de fazer o trabalho se o quizerem ver feito. A pobre Maria do Rosario é que havia de acudir a tudo. Vamos, minha sobrinha, venha d’ahi, não se costume a dar confiança a esta gente, senão está perdida.

O rubor da vergonha, e da colera subiu-me ás faces e affogueou-m’as. O que! pois não era eu a dona da casa, não era eu só quem podia dar essas ordens e essas reprehensões? Mas que havia de fazer? Travar uma discussão em presença dos criados? Impossivel; a minha indole negava-se completamente a essas coisas. E por esta fórma conseguia sempre D. Antonia as victorias, que lhe assegurava a sua impudente iniciativa.

As criadas andavam já todas azafamadas. Eu ergui-me e saí; passei por diante de D. Antonia, e vi a Maria do Rosario escondida na sombra. Percebi que tinha uma nova inimiga.

Chamei-a, e disse-lhe que me indicasse o meu quarto. Ella veiu logo, fazendo muitas mesuras, e, pegando no candieiro, caminhou adeante de mim. Voltei-me e dei as boas noites a D. Antonia.

--Não ceia, minha sobrinha? perguntou ella.

--Não, minha senhora, respondi; sinto-me cançada, e prefiro deitar-me.

Não me respondeu, e limitou-se a encolher os hombros. Eu subi a escada, seguindo a Maria do Rosario.

O meu quarto ficava situado n’um dos angulos do edificio.

Era vasto e frio. Duas janellas de peito, com bambinellas, rasgavam-se n’uma das paredes. Um leito de cortinas vermelhas, formidavel, macisso, abrangia uma grande porção da parede fronteira. O quarto fôra forrado de papel, havia pouco, e o mau gosto de quem presidira a esses arranjos escolhera o papel entre estes de linhas em zig-zag, parallelas e muito unidas, que impressionam a vista, e tomam fórmas phantasticas quando a luz vacillante d’uma vella as faz ondearem e confundirem-se de um modo aterrador. Duas ou tres cadeiras de espaldar e pregaria e uma commoda antiquissima completavam a mobilia d’este quarto lugubre.

A atmosphera frigida d’aquelle aposento, regelando-me os membros, opprimiu-me o coração. Pareceu-me que entrava n’um sepulchro.

Em cima da commoda havia dois castiçaes com vellas de stearina. Maria do Rosario accendeu-as, e perguntou-me se precisava de mais alguma coisa.

--De nada, respondi eu seccamente.

Mas, quando ella se ia a retirar, chamei-a.

--Aqui n’esta casa não ha alguma livraria? perguntei eu.

--Ha, sim, minha senhora, respondeu ella. Aqui esta porta deita para um corredor, que vae ter á casa dos livros. Se a senhora quizer, as portas estão abertas.

--Obrigada, tornei eu.

Maria do Rosario saiu. Senti-a fechar a porta, e depois descer a escada de vagar, até que esmoreceu ao longe o ecco dos seus passos. Caiu tudo em silencio.

Em silencio, não; porque a tempestade não se aplacara. O vento gemia com mais tristeza, açoitando os postigos das janellas. De quando em quando ouvia-se a voz magestosa do trovão. A aza doida da procella batia com furor nos vidros.

Sentei-me com desalento n’uma cadeira, e deixei pender a cabeça nas mãos. Senti quanto é horrorosa a soledade quando se tem vinte annos e um coração ardente. N’essas noites de temporal, em que é tão suave a reunião familiar, via-me eu só, abandonada, entregue a todos os pavores que a solidão inspira, n’um aposento, que mais parecia tumulo de mortos que habitação de vivos. Era esse quarto o symbolo da minha existencia, tal como o destino m’a fizera, carcere sombrio e lugubre onde eu tinha que encerrar todas as aspirações da minha juventude, todo o fogo vital que me incendia o sangue.

Ergui a cabeça para respirar desafogadamente, porque esses pensamentos haviam-me opprimido o coração, e dei um grito de terror. Defronte de mim um vulto pallido mirava-me como que atterrado. Lagrimas silenciosas deslisavam-lhe pelas faces.

Era a minha imagem que se reflectia n’um espelho em que eu ainda não reparara. Sorri-me do engano; ergui-me e dirigi-me ao espelho. «Pois és tu, Margarida, exclamei eu, és tu a creança descuidosa, que ha pouco dançavas nos bailes com tão mimoso colorido nas faces? És tu a flor das salas? Como estás desbotada, rosa das valsas! Definhas á sombra; mas que sol te poderia reanimar?»

«O amor!» suspirou uma voz intima, e o quarto illuminou-se com vagos e ignotos clarões, e a tempestade como que se acalmou por incanto, e a sua voz expirante balbuciou aos meus ouvidos: «O amor!» E as linhas do papel arredondaram-se tambem em graciosas curvas, e murmuraram: «Amor! amor! amor!» Voejaram no quarto invisiveis pombinhas candidas, e eu ouvia-lhes o harmonioso bater d’azas. O rosto, reflectido no espelho, desfranziu-se n’um sorriso, e expulsou as nuvens que lhe toldavam a fronte.

--Que loucuras! balbuciei.

E levantei-me, peguei n’um castiçal, e dirigi-me á bibliotheca a procurar um livro, que me distrahisse o espirito d’estes perigosos devaneios.

A livraria era uma casa pequena, toda cercada de estantes, que vergavam ao peso de formidaveis _infolio_. Tirei ao acaso o primeiro volume que se me deparou. Era o segundo tomo dos _Trabalhos de Jesus_. Isso exactamente eu desejava. O titulo promettia-me um admiravel exorcista contra o demonio côr de rosa que ameaçava perseguir-me. Voltei pé ante pé, e entrei no quarto. Colloquei o pesado alfarrabio á cabeceira do meu leito, e principiei a despir-me.

Já não ouvia gemer o vento, nem estalar a trovoada. Tive curiosidade de ver o aspecto da atmosphéra e, meio despida, corri á janella e entreabri um postigo.

A janella deitava para o jardim. Cessara de chover, e a lua, filtrando os seus raios por entre as nuvens, banhava os canteiros no seu magico fulgor. O vento abrandara, e transformara-se n’uma brisa suave, que agitava as folhas nascentes das arvores. Parecia-me assistir á transição do inverno para a primavera, e cheguei a pensar que esse momento era o momento exacto em que findava o reinado dos gelos, e principiava o das flôres. A natureza, cançada da lucta, deixava-se embalar no regaço da primavera, que surgia coroada de estrellas, e scintillante de poesia e de amor! Amor, sim; essa doce palavra vi-a claramente escripta no vidro em letras de prata por um raio luminoso, que se desprendeu languidamente do seio da namorada Phebe.

Cerrei a janella, e corri para o leito. Ao passar por diante do espelho, relanceei para elle a vista, e divisei um rosto que me sorria com os olhos banhados em vaga languidez. Involuntariamente escondi o seio com os braços cruzados, e, toda tremula e risonha, metti-me na cama, lançando logo a mão ao ponderoso volume de fr. Thomé de Jesus. Abri ao acaso e li:

«Ó amor divino, como prendes, quando na alma te accendes; como captivas, quando á alma descobres alguma parte da formosura de tua face divina! Sem te ver claramente a alma peregrina, só pelo que de ti da vida sente, e póde com tua graça experimentar, como fica livre de si e das prisões da terra, e captiva de ti, e presa de teu amor! Estas tuas amorosas e suaves prisões tanto a atam e possuem, que até dos corporaes sentidos lhe mudas o gosto em ti, porque tudo lhe trazes sujeito á tua mão, e obediencia do teu amor. Se quer dormir, tu a acordas, se quer descançar, a aguilhôas, se quer comer, lhe tiras o sabor, se quer conversar, a apartas; toda a prendes, toda a queres, tudo lhe defendes; sempre amigo, sempre cioso; porque todo te dás, e toda a tomas; todo te entregas, e toda a prendes.»

Deixei descair o livro, cujas paginas rescendiam não sei que namorados effluvios; sentia volitarem em torno de mim sylphos e fadas, que pareciam, occultos na sombra, segredar uns aos outros dulcissimas harmonias. O clarão suave da vella parecia oscillar brandamente ao meigo e perfumado sopro d’esses habitantes dos ares. As letras do livro eram outras tantas teclas, que suspiravam melodiosamente as mais voluptuosas arias de Bellini e de Rossini com letra de fr. Thomé de Jesus. Fui cerrando os olhos, como se o fluido magnetico, que enchia o quarto, me opprimisse as palpebras. A vela estava quasi expirando, e, nas vascas da agonia, projectava clarões phantasticos nas cortinas vermelhas do meu leito. Suspirei brandamente, e fui-me deixando adormecer, murmurando a palavra: «Amor!... Amor!»

XI

Entrava já o sol claro e alegre pela janella aberta, quando despertei. Esfreguei os olhos, ainda estonteada, e, levantando-me na cama, dei com a Maria do Rosario, que andava limpando o pó.

--Que horas são? perguntei eu.

--Então como passou a noite, senhora D. Margarida? Ai! cala-te, boca, não queiras tirar a Deus Nosso Senhor o que a Deus é devido; deixa a tua ama rezar primeiro as suas orações, e não queiras desvial-a do caminho da salvação, tentando-a a fallar em coisas d’este mundo. Reze, reze, senhora D. Margarida.

--Ó mulher, eu perguntei-lhe que horas eram.

--Ai! credo! Santo nome de Jesus! Virgem benta! Senhora Nossa! Estas meninas de agora nada respeitam! Não ha senão hereges! A senhora D. Margarida não queira ir arder para as labaredas do inferno, e dar triumphos ao inimigo. Santo Deus! Tome o exemplo da Senhora D. Antonia e da senhora condessa de *** que ha de cá vir esta noite.

--Ó senhora! diga-me que horas são, e vá-se embora.

--Eu já me retiro, minha senhora, que eu não quero perder a minha alma, tornou ella com voz esganiçada. Graças a Deus, toda a minha vida tenho feito figas ao demonio. Fui menina e moça, solteira e casada, e sou agora viuva, e nunca arredei pé do caminho do céo. São nove horas, minha senhora; soube sempre cumprir os deveres do Santissimo Sacramento do matrimonio. A senhora D. Antonia já está á sua espera para almoçar. Cruzes, inimigo; agora que sou velha não me venhas tentar. As bagagens já chegaram. Ó nossa Senhora do Rosario, minha protectora, livra a tua fiel serva das unhas de Berzabum. As suas malas estão ao pé da commoda.

E resmungando, e esconjurando, foi-se approximando da porta e deitou a correr pela escada abaixo.

Eu acordara com optimas disposições, de fórma que a insolencia d’essa mulher não conseguiu turvar-me o espirito. O ridente sol dos fins de março inundava o quarto com os seus vividos raios, e enchia-o d’essa luminosa poeira, que tanto espairece a vista. Saltei para baixo da cama, vesti-me e abri a janella.

Inebriou-me a bafagem balsamica, que respirei na brisa que doidejava pelo jardim, e que me saudou com as suas vivificantes emanações. O jardim era vasto, no gosto do seculo passado, mas inculto. A natureza, entregue a esta bemaventurada negligencia dos jardineiros, remediara o risco absurdo do jardim. Os canteiros pautados e regrados escondiam-se por detraz de espessas moitas de buxo, que viçara á vontade e livre da tosquiadora thesoura. Os tanques sem agua cobriam-se com esverdeado musgo, e as estatuas desgraciosas envolviam a sua nudez n’um manto d’hera, que emendava, com as suas elegantes ondulações, a rigidez das linhas traçadas na pedra pelo inhabil cinzel do rustico esculptor. A relva molhada verdejava de um modo deslumbrante, e os passarinhos, escondidos da ramaria das arvores, cantavam alegremente o hymno da nova primavera.

Estive alguns instantes contemplando esse delicioso espectaculo, até que ouvi a campainha, que nos chamava para o almoço. Desci, encontrei Anna, a creadita d’olhos pretos, que me foi ensinar onde era a casa de jantar; entrei, e vi D. Antonia magestosamente recostada n’uma cadeira de braços, em palestra muito animada com Maria do Rosario.

Quando appareci, calou-se; fallei-lhe e sentámo-nos á meza, onde nos esperava o almoço.

Comtudo, eu via pelo olhar odiento, que D. Antonia me lançava, que se estava preparando alguma tempestade. Effectivamente, depois de ter mandado embora a creada, D. Antonia voltou-se para mim, e disse-me, adoçando hypocritamente a voz:

--Minha sobrinha. É preciso que tenha mais prudencia. Não sei qual foi a educação que recebeu, mas sei que em casa de seu marido sempre reinou o temor de Deus, e o respeito pela religião christã. Não seja para as creadas um objecto d’escandalo, queira cumprir os seus deveres religiosos. Desculpe-me estas observações, accrescentou ella, mas, na ausencia de seu marido, compete-me dirigir a sua inexperiencia, e dar-lhe os conselhos que uma velha sabe dar.

--Agradeço tanta bondade, respondi com alguma ironia; mas rogo-lhe que não authorise as creadas a intervirem nas minhas acções. Queira pensar tambem, que apesar de ser nova e inexperiente, sou eu a unica dona da casa, e que não posso consentir que as pessoas que estão ao meu serviço me faltem ao respeito que me devem.

E completei este discurso, fazendo uma profunda mesura, e retirando-me.

D. Antonia fez-se fula de raiva, e tão irada ficou, que não pôde articular uma palavra. Lançou-me um olhar indignado, e só pôde dizer-me, quando eu já chegava á porta:

--Aviso-a que recebemos hoje a visita das nossas visinhas de campo, a senhora condessa de *** e a senhora baroneza de ***; note que são senhoras piedosas e de muitas virtudes. Veja o que faz.

Não lhe respondi e saí do quarto.

N’essa noite, apenas deram sete horas, appareceu logo D. Antonia, vestida esplendidamente para receber as nossas aristocraticas visitas. O meu fato singelissimo contrastava com o seu luxo deslumbrante. Por isso Maria do Rosario não fez senão extasiar-se perante as fitas vermelhas, e as pulseiras e broches d’oiro da minha mortal inimiga.

Ás oito horas sentiu-se parar á porta um churrião puchado a bois. Era esse o vehiculo que transportava as duas muito nobres senhoras, nossas visinhas de campo, que moravam a um quarto de legua de distancia. D. Antonia correu á porta, e chegou a tempo de receber as fidalgas visitantes.

Eu fiquei na sala, junto da mesa, folheando distraidamente um livro de devoção ornado de lindas imagens.

Levantei-me da cadeira e dei dois passos para a porta, quando vi assomarem a ella os vultos das duas senhoras. Cumprimentei-as então respeitosamente.

Uma d’ellas era alta, elegante, de physionomia austera e altiva fronte. Devia de ter sido formosa na sua juventude; mas a sua formosura por força tivera sempre um caracter inflexivel de orgulho indomavel. A outra era uma senhora quasi decrepita, em cujas feições meio apagadas se não podia ler outra expressão, que não fosse a d’esse ascetismo pavido, proprio dos espiritos acanhados, quando os gelos da edade, accumulando-se-lhes na fronte, lhes phantasiam, para além do tumulo, já proximo, as chammas atterradoras do inferno.

A primeira d’estas duas senhoras, que eu soube depois que era a condessa, cumprimentou-me tambem; e levando a luneta aos olhos, mirou-me alguns instantes com gélida seriedade. Depois voltou-se para D. Antonia, e dirigiu-lhe um olhar, que parecia querer dizer: «É esta a pessoa em quem fallámos?» e D. Antonia respondeu-lhe com um movimento de cabeça, que significava: É sim, minha senhora, infelizmente.»

A condessa veio então para mim, e disse com voz secca e vibrante:

--Folgo muito de conhecel-a, minha senhora. Sou antiga amiga da familia de seu marido. Estimarei poder consagrar-lhe o mesmo affecto.

--Se conseguir merecer a affeição de v. ex.ª, respondi inclinando-me, será isso para mim altissima honra, minha senhora.

A condessa cumprimentou-me de novo, e foi sentar-se no canapé. A baroneza, que esbrugava um rosario e resmungava umas orações, sentou-se ao pé da mesa de jogo, embrulhou-se toda em pelles e tapetes, que a Maria do Rosario lhe trouxe com a maior promptidão, e ficou immovel, com os olhos fitos no vago, com os labios em continuado movimento. A luz do candieiro, batendo-lhe em cheio no rosto escaveirado e livido, fazia-a parecer uma d’essas figuras dos quadros asceticos da escola hespanhola, que tivesse descido da tela, obrigada por magica evocação.

--É muito bonita sua sobrinha, D. Antonia, disse a condessa. Deus queira que essa bellesa não seja arma que Satanaz queira empregar contra a salvação da sua alma.

--Não será, não, minha senhora, se Christo Senhor Nosso ouvir as orações que todos os dias lhe dirijo fervorosamente. Eu, senhora condessa, desde que meu sobrinho casou, ainda não tive um só pensamento, que não fosse para o bem d’esta menina. Assim ella m’o reconhecesse.

E suspirou.

--Bem sei, bem sei que a D. Antonia tem sido sempre um anjo de caridade. Ponha os olhos em Deus, filha, e não faça caso das ingratidões do mundo. N’este seculo de impiedade a nossa cruz é bem pesada. Tomemos o exemplo do Salvador.

--Amen, concluiu devotamente D. Antonia. Eu bem diligencias faço para que esta ovelha se me não estramalhe do aprisco, mas é difficil a minha tarefa. Se eu pudesse ter o auxilio de v. ex.ª...

--Ai! filha! tambem tenho de cumprir a minha missão. E juro-lhe que ás vezes desfallecia, se não tivesse os olhos fitos na recompensa do céo.

--É verdade, é verdade. A senhora condessa entra vestida e calçada no paraizo. E como vae a sua santa obra?

--Eu não descanço; mas este anno tem provado mal. Debaixo dos meus auspicios tem-se feito apenas oito casamentos; é verdade que todos difficeis. Quatro foram de creadas minhas, que andavam de namoro com uns valdevinos do sitio; mandei-os chamar e obriguei-os a casarem. Ellas não queriam de fórma alguma. Tinham tomado informações, e sabiam que os taes rapazes eram uns bebedos, outros jogadores, outros vadios. «Porque não indagaram isso antes de os namorarem? disse-lhes eu. Ou fazerem o que lhes digo; ou sairem de minha casa. Não quero escandalos das minhas portas a dentro. Quem namora deve ter em vista o sacramento do matrimonio.» Houve uma que teimou, e saíu da casa; mas não encontrando arrimo em parte alguma, porque todos sabiam que tinha sido posta fóra por mal comportada. Andou por ahi a morrer de fome, até que não teve remedio senão fazer o que eu quiz. Mas custou-me.

--Que santa! meu Deus! que santa! bradou D. Antonia em extasi, levantando para o tecto os olhos e os braços. Pessoas como a senhora condessa são raras n’este seculo. E a sua prima, a senhora marqueza, o que é feito d’ella?

--Está em Roma a santinha! Foi beijar o pé a sua santidade! Escreveu-me de lá. Está louca de contentamento. Já viu tres vezes o vigario de Christo, e tem conversado com doze cardeaes. Ah! deve ser uma grande consolação para o padre santo, no meio das amarguras que a impiedade dos italianos lhe está causando todos os dias, ver que ainda ha fieis que tem por elle tanto respeito e amor.

Esta edificante palestra foi interrompida por um grito da senhora baroneza. Levantou-se, como se obedecesse a um impulso de molas, e bradou com voz sepulchral:

--Arreda-te, inimigo... Cruzes, Satanaz... Não me tentas, não, não me tentas... Sim, meu doce Jesus, sim, bem vos vejo... Chamais a vossa serva... Ahi vou, ahi vou... Esperai um instante, meu salvador... Não desvieis a vossa face... Foge, Belzebuth, Asmodeu, Astaroth e Moloch... Ai! que eu já vejo o inferno... Senhor Jesus, acudi-me!

--Rezemos, rezemos, exclamou a condessa, caindo de joelhos; são visões que assaltam aquelle espirito bem-aventurado. É preciso que estejamos em oração, para que aquella santa vença o inimigo que a tenta.

D. Antonia caíu de joelhos, e a Maria do Rosario, que apparecera á porta, fez o mesmo, dando grandes murros no peito.

Eu olhava estupefacta para aquella scena burlesca.

Não querendo fazer-me reparada, affastei-me um pouco, e simulei que ajoelhava.

Afinal a baroneza caiu prostrada no canapé. Viera-lhe a espuma aos cantos da boca, como succedia ás pythonisas pagãs. A condessa levantou-se e disse a D. Antonia:

--Mande-lhe dar um caldo, que é sempre o que ella toma, depois d’estes extasis.

--Um caldo para a senhora baroneza, exclamou D. Antonia, voltando-se para Maria do Rosario.

E a Maria do Rosario repetiu, correndo pela escada abaixo:

--Um caldo para a senhora baroneza, que tem _bisões_.

D’ahi a pouco voltava trazendo uma chavena de caldo, e dirigia-se á baroneza.

--Beba, minha santinha, disse ella, beba, que lhe ha de fazer bem.

A baroneza levou machinalmente a chavena aos labios, bebeu dois ou tres golos; mas de repente estacou, perguntando:

--De que é este caldo?

--De gallinha, senhora baroneza, de gallinha. Matou-se hoje a mais gorda da capoeira.

--De gallinha! repetiu a baroneza.

E deixou cair a chavena em cima dos pés da Maria do Rosario, entornando o seu contheudo, e escaldando a creada.

--Má raios... principiou esta.

Mas logo atalhou, mastigando em secco:

--Seja pelo divino amor de Deus! um caldinho tão bom, que os anjos o podiam beber.