A fallencia

Part 9

Chapter 93,980 wordsPublic domain

Criara-a desde o primeiro anno a avó paterna, D. Emilia, sem muitos agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paciencia já não era nenhuma. Por causa d'isso aprendera depressa todos os serviços caseiros, era a copeira da familia, e aos nove annos já não se atrapalhava quando tinha de pôr uma panella de arroz ou de feijão no fogo. Lá teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca não se tivesse casado com uma viuva carregada de filhos e que não podia vêr a enteada deante de si... Sempre as antipathias! Não era para tornar má uma creatura? Lembrava-se que não fôra tambem acolhida com enthusiasmo na casa de Francisco Theodoro.

Ao principio, amedontrada, Nina procurara a companhia dos criados, de preferencia á da familia, habituada aos serviços grosseiros e ás palavras brutas, com o seu ar de cãozinho batido. Toda a gente tomava isso como o mais claro indicio dos instinctos baixos; aquillo era o traço da lama que ella trazia da mãe e que arrastaria pela vida fóra.

Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava então os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a doçura do seu caracter e o engenho do seu espirito. Ruth em poucos dias preferia-a aos outros, atirando-lhe ao pescoço magrinho e pallido os seus dois bracinhos redondos. Aquella conquista foi uma gloria para Nina. O amor de alguem nascia para ella, como a luz para um cégo, e sentia nos beijos côr de rosa da creança gorda e bem tratada o aroma da vida, que até então ella só parecia ter espreitado de longe.

Mario era nesse tempo um rapazinho de cinco annos, alto e forte para a edade, muito lindo, arrojado e pouco amavel para ella. Abusando da sua força e da sua posição de preferido, trazia-a fascinada, prompta a ceder ás suas vontades absurdas.

De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a adopção da Nina em casa de Theodoro fora D. Joanna, para quem a menina cheirava a peccado e era uma blasphemia viva aos preceitos da moral religiosa. Para essa classe ha os asylos, affirmava ella; as plantas damninhas não são para os canteiros de violetas. A caridade faz hospicios, orphanatos, rodas, onde se apuram e aperfeiçoam os filhos da impureza e da vergonha; mas agazalhar no seio honesto um animal desconhecido, era exporem-se a um veneno de effeitos imprevistos.

Milla não repellia a ideia, cheia de indignação pela origem da sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando as boas graças de todos, de vagar, pela sua docilidade e o seu prestimo.

Apezar de miuda e de pallida, ninguem a via doente; tinha os musculos flexiveis, como o genio. Aos doze annos conservava o seu ar estupido e humilde; não conhecia uma lettra; mas ensinava as criadas novas a varrerem a casa e a pôrem a mesa com perfeição. Como o Mario lhe batesse um dia com os arreios do seu cavallo de páo, Francisco Theodoro resolveu pôl-a em um collegio, de pensionista, recommendando uma instrucção pratica, nada ornamental. Bem orientado andou.

O collegio fôra o seu melhor tempo. Do pae não sabia senão de longe em longe, quando elle participava á irmã o nascimento de mais um filho, com umas lembranças murchas, para ella, no fim da carta.

Ao principio, a idéia d'aquelle irmão, que não veria talvez nunca, sensibilisava-a; depois deixou de pensar nisso... Para que?

Foi só depois de mulher que Nina começou a amar a mãe; amor ignorado por todos e que ella cultivava como um segredo caro. Sondae bem o coração mais puro, que lá no fundo achareis um mysterio, alguma coisa que existe e que se nega, ou porque faça corar ou porque faça soffrer.

Nina tinha vexame de perguntar pela mãe e ardia em desejos de saber d'ella. Onde estaria essa mulher repudiada?

Ninguem lh'o dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a idéia mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha ... ora em um d'esses recantos negros da cidade, já velha e ainda atolada no vicio, batida, escarnecida, miseravel.

No meio da treva, que ella interrogava com ancia, pareceu-lhe sentir a alma impenetravel da mãe solicitando-a no agoniado suspiro do vento; então extendeu os braços, soluçando, no desejo da Morte, para o encontro definitivo das duas almas e a fusão de um beijo eterno, que redimisse uma e désse á outra a sua primeira alegria.

Reboaram os primeiros trovões, com enorme estampido; um zig-zag de ouro cortou o espaço negro, e á luz branca de um relampago a casaria muda bailou macabramente com o arvoredo escuro.

A convulsão passou, para voltar depressa; na phosphorescencia mobil e offuscante da luz, todas as coisas tomavam proporções extraordinarias, mas logo, nos intervallos, a treva da noite mais se condensava.

Applacou-se o vento, e então, só de um jacto, a chuva cahiu, pesada, brutal, ensurdecedora.

A agua borrifava a janella. Nina procurou um chale, envolveu-se e voltou. Era tempo: através das torrentes da chuva, viu tremeluzir indistincta no véo fosco das aguas, a lanterninha de um tilbury.

Debruçada, alongando a cabeça, a moça gritou:

--Mario! Mario!

Mas a sua voz fraca perdia-se no diluvio.

O primo abria o portão; ella tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que o pae lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se já na sombra, ia-se embora.

Nina voltou para dentro, accendeu a vela e esgueirou-se para o corredor.

Com o coração aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadiço, com a precaução de quem vae para o crime.

Quando chegou a baixo já o Mario sacudia a fechadura com impaciencia, praguejando raivoso.

Ella tacteou os ferrolhos e recommendou:

--Espere um bocadinho, Mario!

--Que estupidez!

--Não faça barulho ... já vae! sussurrava ella sem que elle a ouvisse de fóra.

Emfim, a porta abriu-se. Mario esperava cosido ao humbral.

--Que idéia foi esta de deixarem a chave...

E elle interrompeu a phrase e a cólera, ao ver a prima alli. Por que seria ella e não qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta?

--Foi ordem do tio Francisco. Boa noite.

Nina quiz subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a chamma da vela com a mão, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do chale que a envolvia. Na meia escuridade do vestibulo, Mario percebeu-lhe a doçura do hombro nú, pequeno, redondo, um pouco de carne virginal guardada até ahi em um recato que nem o baile afugentara nunca. E já elle não viu senão a pureza d'aquelle hombro assetinado, sahindo do meio das lãs, como um desafio aos seus sentidos, num assalto impudico e voluptuoso.

Acudiu-lhe então a ideia perversa de haver um proposito malicioso naquella historia. Não lhe affirmara Noca tantas e tantas vezes que a prima o amava?

A filha da mulher de má vida ahi estava agora, como devia ser: livre de hypocrisias. Mario extendeu-lhe os braços.

Nina comprehendeu.

Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com força e subiu correndo.

A vela apagou-se, os degráos da escada pareciam multiplicar-se debaixo de seus pés. No alvoroço, pisava sem cautela ora no assoalho, ora no passadiço, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu desespero, suppondo-se ainda perseguida pelos braços do Mario, que se quedara estupefacto no mesmo ponto.

Um trovão estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto até ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta.

Com as mãos extendidas apalpava a escuridão, ouvindo só o estrondo da chuva, compacta, sempre egual. Temia que o primo a perseguisse e não se atrevia a voltar a cabeça, para não esbarrar com elle, alli mesmo, juncto aos seus calcanhares.

Os pés, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada assobiando pelas frinchas de uma porta, fêl-a reconhecer o quarto, de que deixara aberta a janella, e ella entrou arrebatada, forçando a porta, que resistia. Fechou-se logo á chave, collou o ouvido á fechadura. Ninguem; suspirou de allivio, estava só. Um relampago conduziu-a á janella, de que fechou os vidros, alagando-se toda. Despiu-se á pressa, ás escuras, deixando cahir toda a roupa molhada no chão.

E foi á luz branca de um outro relampago que ella se viu toda núa, muito pallida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o rosto de repente, como se vira um phantasma, e saltou para a cama, enfiando a camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da sua propria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre no vidro...

Envergonhada, prevendo grandes males, em uma angustia em que se fundia um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e adorando-o, sentindo-se d'elle para a vida e para a morte, quasi que se arrependia de se não ter abandonado, soluçando por aquelles braços de que fugira...

Era tal a sua confusão e a vibração dos seus nervos, que não sentiu alguem andar pelo corredor de vela accesa e passos compassados.

Mario adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Theodoro voltava para o somno interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a porta ao seu rapaz, por tão feia noite de trovoada,--e ainda Nina, na estreiteza da sua cama, com os olhos pasmados para o tecto negro, soffria, soffria, soffria...

No outro dia, ás oito horas da manhã, quando Francisco Theodoro entrou na sala de jantar para o almoço, comido sempre cedo e á parte da familia, já lá encontrou a sobrinha, retocando os arranjos do copeiro para a sua mesa.

--Bons dias, Nina; você passou bem a noite? perguntou-lhe elle, fixando-lhe os olhos pisados.

--Eu passo sempre bem ... respondeu ella corando.

Elle teve pena; e mais baixo, para que o criado não o ouvisse:

--Você fez mal em abrir a porta a meu filho; elle não lhe merece esses sacrificios ... e ... e mesmo isso não lhe fica bem; a sua intenção foi boa; realmente a noite estava pavorosa ... comtudo espero ser esta a ultima vez que sou desobedecido.

Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas junto á mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as idéias, sem que ella atinasse com que palavra responder. Francisco Theodoro reclamou então d'ella, mesmo para a tirar do embaraço em que a via, que lhe partisse uma fatia do _roast-beef_ frio e que lhe fosse depois buscar o _Jornal_, esquecido em cima, no quarto de _toilette_.

Aquella maneira polida e reservada não era a usada pelo negociante nos seus momentos de censura. Ao contrario, elle abusava dos termos violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma d'essas crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a admoestação era misericordiosa, e por isso mesmo mais commovedora.

Ella não respondeu, e apressou-se em servir o tio.

X

Raras vezes as tias do Castello appareciam em Botafogo. D. Itelvina não se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os desperdicios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia sentar-se á mesa de Milla para uma palestra curta, no intervallo das suas devoções.

Nina, ainda atarantada pela advertencia do tio, punha no terraço a gaiola do cacatuá, quando viu D. Joanna atravessar o jardim com os seus passos vagarosos, de mulher gorda e cançada.

--Que milagre! a senhora por aqui!

A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que fallou, com a blandicia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas o nó da mantilha preta.

--Mal imagina você por onde tenho andado!

Olhe: ás cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N. S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando esmolas.

--Tão cedo?

--Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por fallar em esmolas, hontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as?

--Não, senhora.

--É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as atrapalhadissimas, preparando doces para offerecerem ao vigario Alves, que faz annos hoje. Não imagina como ellas são...

--Desculpe, tia Joanna, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro:

--Ó Dionysio, leve o café ao Sr. Mario, ouviu?

--Ainda estão dormindo?!

--Tio Francisco já sahiu.

--Triste peccado é a preguiça ... emfim, cá estou eu rezando por todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande concerto que vae haver no Cassino, em beneficio da egreja do Monte Serrate... Para o fim que é, ninguem se póde negar; Camilla deve levar a Ruth a essas festas de musicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá não vou, e as outras nove espero deixal-as aqui. Vocês vão a tantos espectaculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é para bom fim. Canta uma tal ... Marcondes, ou ... não sei quê...

--A senhora falle com tia Milla. _Seu_ João! chamou ella interrompendo outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que passava: olhe! é preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como não ha rosas, faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da entrada?

--A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos canteiros, que Deus nos acuda!

--Veja se remedeia isso hoje mesmo...

O jardineiro passou; D. Joanna disse:

--É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigario Alves. Hontem a mulher e as filhas do Dr. Mendes passaram lá o dia, pregando cortinas, tapetes, ajudando D. Maria a enfeitar o quarto do filho... Aquellas são tambem muito boas pessoas...

--Quer café, tia Joanna?

--Acceito... Você é das taes que nunca vão á missa ... ha de se arrepender...

--Não tenho tempo... Quer mais assucar?

--Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem peccados atraz de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha...

Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da tia, olhou para o jardim, ainda empapado d'agua, muito verde, juncado de folhas arremessadas pela ventania.

D. Joanna saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em pé, com o rosto contrahido por uma expressão de raiva e de melancholia.

Ruth encontrou-as assim. Ella vinha toda fresca do banho, com o seu cabello negro e ondeado solto sobre os hombros estreitos, e o vestido branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao corpo um ar de anjo de cathedral.

--Como está crescida! exclamou D. Joanna ao vel-a.

Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre.

--Bons dias! Sabe, tia Joanna? ainda hontem pensei na senhora!

--Porque?...

--Porque ando com muita vontade de ir ao observatorio do Castello ver a lua e as estrellas.

--Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de egreja...

--Não; isso cança-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquella da Sé, outro dia, os musicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatorio foi o capitão Rino. Ver bem a luz e a côr das estrellas é o que me preoccupa agora. Leve-me lá, titia, sim?

--É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro.

--Seria querer demais. Você já leu hoje a _Flor de Neve_, Nina?

Nina meneou com a cabeça, que não.

--Que historia é essa de flor de neve? indagou D. Joanna.

--É um romance do _Jornal_, muito bonito. Estou morta por saber se a Magdalena morreu ... tambem se tiver morrido não tornarei a pegar no _Jornal_!

D. Joanna ia reprovar a leitura, quando Camilla appareceu no terraço, bonita, de _peignoir_ côr de rosa, toda rescendente, dando as mãos ás duas filhas pequenas.

Nina tomou a bençam á tia e, para fugir á presença da velha, que naquelle momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de jantar.

--Isto aqui está muito humido; porque não foi lá para dentro, tia Joanna?

--Este banco está enxuto. A Nina estava aqui...

Camilla, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatuá e beijou-o no pennacho.

Depois, para a velha:

--O que a trouxe tão cedo?

D. Joanna voltou á historia das Bragas, da missa em S. Bento, e apresentou á sobrinha as dez cadeiras para o concerto em beneficio da capella do Monte Serrate.

--Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrario não; porque exactamente no domingo tenho convite para uma festa.

--Hoje faz annos o vigario Alves; você não lhe manda um bilhete?

--Posso mandar.

--Acho bom. Elle reza muito por sua intenção. É um santo padre e um perfeito homem.

--Elle é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia?

--Já... Porque é que você deixa Ruth ler jornaes? Ella fallou ahi num folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua filha.

--O pae não se importa, que hei de fazer?

--Ainda não fez a primeira communhão?

--É cedo.

--Não é tal. Ella não quererá?

--Se quer! ainda que não fosse senão para pôr corôa e véu... Todas as meninas sonham com a primeira communhão. É um ensaio para o casamento.

--Heresias... E o Mario ... como vae o Mario?

--Está um moço bonito.

--E ... mais ajuizado?

Camilla corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas azas brancas do cacatuá, e respondeu com um sorriso:

--Como todos os rapazes de vinte annos...

Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pecego verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Milla chamou a Noca, que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joanna levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar.

Estava alquebrada, pezavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da poltrona, que a envolveu logo numa caricia de somno. Cochilou gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das creanças, o tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em movimento. Atravéz do somno tudo aquillo era subtil e bom como uma musica a distancia. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um vão de janella, o Dr. Gervasio, com roupa clara e flores na lapella, conversava baixo com a Camilla.

D. Joanna tossiu para prevenil-os da sua presença; não se queria aproveitar do momento para indiscreções. Por fortuna, Nina entrou na sala, vinda da cópa, carregando uma cestinha de uvas brancas.

Lá em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi.

«Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, parece o zurrar de um burro!» pensou comsigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente.

Á hora do almoço, o Dionysio trouxe uma bandeija para servir Mario no quarto, visto que este só comparecia á mesa da familia quando o Dr. Gervasio não estava.

Camilla mal encobria o seu desespero, velando aquella offensa com desculpas frouxas, só para que o medico não reparasse. E elle nem viu tal coisa; acceitou os pretextos sem desconfiança. Mario merecia-lhe pouca attenção.

Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joanna notou aquillo muito calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito suspiros curtos, que afogava em _bordeaux_...

Dr. Gervasio observava a Ruth, que os exercicios, que lhe ouvira não estavam no andamento justo. Deveria repassal-os, antes da lição; depois aconselhou a Camilla que chamasse uma aia ingleza ou allemã para as gemeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de criadas boçaes. Elle opinava pelas allemãs; são disciplinadoras, risonhas e mais accessiveis que as outras. Depois de dirigir uns dois gracejos a Nina, o medico fixou com attenção o rosto pallido e humilde da D. Joanna, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do encontro que tivera com ella no alto da ladeira de João Homem, sobre as pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e paredes sujas de predios velhos.

Ficara-lhe no ouvido toda a censura d'ella, e houve então nelle um impeto de agarrar Milla e de beijal-a mesmo alli, deante dos olhos castos e pudibundos da velha.

Foi só depois do café, ao accender o charuto, que elle ouviu D. Joanna, com o seu tom assucarado, queixar-se á sobrinha:

--Porque é que você não ensina ao menos as suas filhas a se persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciencia, Milla, está muito perturbada por máus conselhos e exemplos de atheus sem caridade... Eu não queria fallar, mas tenho-lhes muita amisade para ficar impassivel; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas meninas a respeitarem a nossa religião?

Dr. Gervasio sorriu; comprehendera o remoque; Milla protestou:

--Todos em casa eram religiosos, ninguem deixava de ouvir a sua missa ao domingo, excepto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; á noite tambem ninguem adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ella não se esquecia dos seus deveres.

Isto foi dito em tom secco, que encrespou um tanto o genio manso da tia; para vingar-se do medico, de quem suppunha emanar toda a alteração d'essa familia tão sua, ella exclamou com ironia, voltando-se para elle:

--Aposto em como o doutor tambem reza todas as noites?

--Aos meus deuses, respondeu elle com toda a calma, porque não?

--Como se chamam os seus deuses?

--Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. É a razão por que me explico ter tão bellos sonhos, visto que este feio homem que aqui está, excellentissima, tem sonhos que perfumariam a existencia da mais formosa das mulheres. Hontem li Dante. Estive no inferno, D. Joanna, e que inferno bellissimo!

--Vá trazendo para cá essas ideias...

--Descance; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A senhora já ouviu fallar em Byron?

--Algum inimigo da nossa Egreja, como o senhor?

--Mas eu não quero mal á sua Egreja! acho-a só muito triste, toda voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua glorificação ella tem creado cathedraes que são verdadeiras apotheoses da arte.

--Só por isso?

--É uma das razões, e a unica facil de explicar-lhe.

--Julga-me muito bronca.

--Ao contrario, estou-lhe fallando como a um litterato! Agora, se quer, discutamos religião e philosophia. Conhece Comte?

--Algum damnado.

--É o termo.

--Eu sei, adoram-no numa Capellinha da rua Benjamin Constant. Que peccado!

--Ah! já tem noticias... Estamos bem adeantados.

--O senhor é um dos taes que não perdem essas sessões?

--Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a philosophia. Para enfadar-me basta-me a medicina e para distrahir-me as minhas roseiras. A senhora conhece algum bom remedio para matar pulgões de roseira? Tenho uma _Yellow Persian_ quasi perdida!

--A sua medicina nem para as plantas serve?

--Nem para as plantas, a miseravel!

--Tia Milla! disse Nina apressada, entre as portas do corredor.

--Que é?

--Estão ahi a baroneza da Lage e a irmã...

--Meu Deus! e eu de _peignoir_!

Dr. Gervasio voltou-se e disse:

--Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas, sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não ha vestido tão bonito.

--Então vou assim mesmo...

D. Joanna sorriu com magua; até nisso a opinião do diabo do homem era seguida!

--Bem, Milla, ficamos despedidas, disse ella, eu vou-me embora. O dinheiro dos bilhetes?

--É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joanna pelas dez cadeiras. Até outra vez, tia Joanna. Lembranças.

--Adeus.

A moça sahiu.

--Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Milla esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigario Alves!

O medico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe no rosto. Que desejaria Milla dizer por escripto ao padre Alves? A velha percebeu-lhe a extranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que elle lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flacido na juba negra de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mario.

Quando Camilla entrou no seu salão, a baroneza da Lage, toda de setim preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente emmoldurado.

A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loira anemica, distrahia-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do seu cordão de ouro.

A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar d'aquelle modo...