A fallencia

Part 10

Chapter 103,918 wordsPublic domain

--Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este _peignoir_ é quasi egual áquelle que eu comprei hontem no Raunier, não é?

A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim.

--Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baroneza atravéz de um bello sorriso.

--É facil. Vem participar-me o seu casamento!

--Casar-me, eu? qual!

--Porque não? É a viuvinha mais cobiçada d'este Rio de Janeiro.

--Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, especie de dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade, Paquita?

Paquita meneou a cabeça, que sim.

--Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva?

--Em um _bond_.

--Já me tardava. O _bond_ é o eterno mexeriqueiro d'esta terra. Tambem vocês quando não querem comprometter os seus informantes, attribuem ao pobre _bond_ todas as indiscreções... Por isso o abomino. Só saio de carro... Não! Eu não venho participar coisa nenhuma; venho pedir a sua Ruth para abrilhantar um concerto que nós, protectoras do Sagrado Coração, pretendemos dar no dia quinze. Se não fosse coisa de religião, eu não me metteria nisto. Já me têm pedido para organizar festas em beneficio de escolas e de hospitaes para pobres, como se na nossa America houvesse pobreza... Creia, minha amiga, no Brasil não ha miseraveis, ha atheus. Precisamos de regenerar o povo com exemplos de fé christã.

Camilla concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença.

Houve uma pausa.

--Paquita deu-me um dia d'estes noticias de seu filho; diz que está muito bonito moço.

Paquita atirou á irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já tinham sahido, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida.

--Está ... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar...

--Oh! nem precisa d'isso! É muito distincto. Eu, no caso d'elle, faria o mesmo.

--Sim, mas o pae é que não se resigna a isso.

Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baroneza continuou:

--Já recebeu convite para o nosso baile?

--Já...

--Esperamos que seja Mario quem nos marque o _cotillon_. Papae gosta muito do Mario.

O pae da baroneza e da Paquita era um velho portuguez, antigo cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda a cidade conhecia as suas anecdotas e simplicidades. Demais, elle gabava-se dos seus principios rudes e pesados.

--Nós tambem preparamos um baile; somente a data é ainda incerta, disse Camilla.

--Já se falla nisso.

A baroneza conversava com volubilidade, mal tocando nos assumptos. Fallou muito e fallaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de repente com uma phrase secca:

--Vamo-nos embora.

--Sim, vamo-nos embora.

Quando ellas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no concerto, Camilla ficou com as mãos cheias de bilhetes para a _matinée_.

A baroneza, no meio da vidrilhada do seu vestido de setim preto, caminhava como se levasse musica comsigo; tinha os passos cadenciados, o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados de morena.

Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar á observação. Camilla notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso, um pulso alvo, fino, de creança doente, entrevisto entre a luva e a manga.

Em baixo, no vestibulo, as moças esbarraram com o Dr. Gervasio, que sahia tambem, cançado de esperar por Camilla.

Houve então uma troca de olhares significativos entre a baroneza e a silenciosa Paquita, que fez ao medico um quasi imperceptivel signal de cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, fallou-lhe com alegria, achando geito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de religião.

Nessa tarde o capitão appareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a ausencia; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos.

Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo noticias do _Neptuno_. Nina acolhia-o sempre com sympathia, achando nelle um ar de bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angustia o coração de uma mulher póde vasar uma confidencia e pedir um conforto; Francisco Theodoro abriu-lhe os braços: Porque não apparecia, havia tanto? Só Camilla sorriu com esforço e reserva, extendendo-lhe a ponta dos dedos frios.

E era por isso que elle fugia agora d'aquella casa, onde o seu pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por Camilla crescia á proporção que elle se abstinha de a procurar, ou que se via maltratado por ella. Não achava explicação para aquella mudança; não a recebera elle no seu navio como a uma princeza?

As creanças abraçavam-n'o com enthusiasmo.

--Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Theodoro, rindo, muito fraco pelas denguices das gemeas.

Camilla olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua roupa, escura e desageitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma tristeza resignada nos seus olhos garços. Ella levantou-se, pretextando dôr de cabeça e subiu para o seu quarto.

Rino pensou: «Ella foge-me ... talvez seja melhor assim.»

Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ninguem percebeu que elle estava com o ouvido á escuta e os labios franzidos por um sorriso amargo.

Lia e Rachel balançavam-lhe os braços rindo muito, comparando as suas grandes mãos ás d'ellas, tão mimosas...

--Capitão Rino, porque não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe Ruth.

Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, elle respondeu:

--Catharina é uma exquisita; ella sae todos os dias, mas para andar lá pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vae á cidade ou faz visitas. Somos uns insociaveis, nós dois. Meu pae era maritimo, minha madrasta foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso mal ... ou do nosso bem, quem nos dirá?

Fazendo uma carinha comica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com ar solemne:--Só Deus!

XI

Era a hora do café no armazem de Francisco Theodoro. O escriptorio estava cheio; o Innocencio, miudo e trefego, retorcendo com mão nervosa o bigodinho aloirado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto pallido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar esparso no ambiente de todo aquelle enorme casarão de S. Bento.

Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham.

A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de faces e de gestos, commentava com benevolencia os actos do governo, berrando ás vezes contra a opinião dos outros, que o atacavam por todos os lados em vivas represalias.

O Lemos sorria calado, muito estupido para entrar em questões de tal ordem. Que lhe fallassem do preço da carne secca, que importava em grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de cavallete, que a mão distrahida acariciava de vez em quando, era o unico republicano naquelle ninho de velhos portuguezes afferrados ás instituições tradicionaes da sua patria e d'esta que o seu amor e o seu bem-estar escolheram.

João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias do Innocencio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de Francisco Theodoro, que não comprehendia como um tão fiel monarchista pudesse achar desculpas para os desatinos d'esta «Republica de ingratos.»

Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Elle fôra sempre um republicano e um extremado e era por isso olhado por alguns dos seus compatriotas com extranheza e susto. Como João Ferreira no maior ardor de seu discurso esbarrasse com a expressão alegre do rosto de Negreiros, e lhe comprehendesse o contentamento de o ter de seu lado, tergiversou e, com maldade alegre, achou logo tambem motivos de aspera censura ao mesmo governo que tinha gabado havia pouco. Não, que elle já estava maduro para dar o seu braço a torcer!

Os outros triumpharam, era assim que o queriam; e chegou a vez de Negreiros entrar na discussão.

Foi nesse instante, no meio da balburdia de vozes, que o capitão Rino appareceu no limiar da porta, com o chapéu na mão, e uma expressão interrogativa no rosto.

A chegada subita d'aquelle extranho, para quem Francisco Theodoro fez logo um logar ao pé da sua secretária, abaixou o calor da conversa.

Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos hombros, de reconciliação e amisade. Só os olhinhos do Innocencio Braga ardiam na mesma febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as pontas do bigode delgado.

--Que novidade é esta, o senhor por aqui?!

--Não lhe roubarei o tempo; é por curtos instantes.

--Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita ... dê-me licença de o apresentar aos meus amigos.

Feitas as apresentações, o Isidoro entrou com o café em uma grande bandeija e houve uns segundos de silencio. Depois, Francisco Theodoro perguntou baixo ao capitão se lhe quereria fallar reservadamente.

--Não, senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os meus cumprimentos á sua familia. Parto para o Pará.

--Porque não vae jantar comnosco? o senhor não imagina como é querido lá em casa. A minha gente não lhe perdoaria isso! Bem sabe que não fazemos cerimonias.

--Obrigado, mas a minha viagem d'esta vez é mais longa, obriga-me a preparativos que não me deixam tempo para nada. Na volta levarei os meus respeitos a todos.

O capitão corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitadissimo, lhe bailava sob a pelle de loiro.

--Bem, bem! as obrigações não se deixam por coisa nenhuma ... dou-lhe razão; sou homem de negocios. Darei os seus recados á minha gente. Camilla vae ficar triste ... paciencia... Pois quando quizer lá estamos ás ordens como bons amigos; e Francisco Theodoro extendeu a mão larga ao capitão Rino, que a apertou confuso e alvoroçado.

_Seu_ Joaquim appareceu no escriptorio e pousou um maço de papeis na secretária, pedindo a Theodoro que lhe désse prompto expediente.

Aquillo equivalia a uma despedida; havia urgencia de recomeçar-se a lida. Levantaram-se todos.

Innocencio Braga deixou-se para ultimo e e ao despedir-se do negociante pediu-lhe uma entrevista em sua casa, para negocio urgente, de alta importancia.

No olhar de Theodoro houve uma interrogação pasmada. O do Innocencio tinha lampejos de ouro. _Seu_ Joaquim observava em silencio.

O capitão Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no corredor, junto ás grades do armazem, de orelhas molles e hombros descahidos, ruminando odios em silencio contra o Joaquim, que o deprimia á vista de todos. O capitão levava os olhos cheios de outras imagens, para attentar nelle. O bafo quente da rua, cheia de povo e de sol, acordou-o do sonho. Na calçada, mesmo á porta do armazem, a velha Terentia varria á pressa as pedras com a vassourinha de piassava, e a cabecinha amarrada no lenço branco, pendente para o seu trabalho. Os carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando entre os vehiculos repletos de café, numa gritaria medonha. O trabalho trombeteava a todos os ventos a sua força poderosissima.

O capitão Rino seguiu, abrindo passagem atravéz de grupos compactos e movediços.

Aquella multidão aturdia-o.

O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas proprias commoções, a ser um isolado e um melancholico, affeito a amar na natureza o que ella tem de maior e de mais simples.

A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do oceano que elle cortava com a prôa firme do seu _Neptuno_.

Talvez tivesse escolhido mal a sua profissão. A vida do homem era aquillo que alli estava: a agitação perenne, o trabalho violento, o amor sem idealisações, o espectaculo renovado de tudo que a terra produz, mata e faz renascer para a fulguração do tempo, que é instantaneo e é eterno.

O proprio mar, que escolhera e a que se lançara na phantasia da adolescencia, não era á orla branca da Terra que vinha atirar a sua grande queixa, a sua furia formidavel ou a sua voluptuosidade infinita?

A terra pallida dos areaes, a terra côr de sangue das mattas, a terra negra do ouro, a terra rôxa dos cafeeiros, mãe da abundancia, ou a terra clara dos laranjaes, fonte de perfume, não é por ventura a parte do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em cahindo, se transmuda em orvalho fecundo?

O capitão Rino olhava para toda aquella gente, marinheiros, soldados, vadios e trabalhadores braçaes, negros ou portuguezes, uma população de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a preoccupação das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em repellões, pensando no ponto da chegada. Elle ouvia-lhes a respiração, a offegancia dos peitos cançados e a cadencia dos passos batendo dominadoramente as pedras duras do chão.

Aquelle ruido era sempre para elle uma musica de sonoridade nova.

Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Saude, sem notar o aspecto desegual da casaria, os negros trapiches tresandando a cebos de carnes e meladuras de assucar esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a porta da rua até lá ao fundo do armazem, aberto para um quadro lampejante de mar.

Os trapiches succediam-se, repletos de barricas, de saccos, de fardos e de pranchões, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava de mistura, e de sons asperos dos guindastes, suspensos sobre balanças. Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquella confusão louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a impressão de que a terra se debatia num delirio de febre.

Elle ia ao morro da Conceição, dizer adeus a um antigo companheiro, agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada sobre rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se aqui para se despenhar acolá, acotovellando-se em angulos de um lado para descer ao outro em escadarias toscas.

De casas velhas, abertas para a grande luz, sahiam mulheres para extender ao sol blusas de marinheiros, emquanto lá dentro vozes frescas de moças cantavam modinhas ternas.

Á beira dos precipicios, creanças, quasi núas, atiravam com os pés, d'entre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam trapos, entre gatos adormecidos e gallinhas soltas.

O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a face quente e robusta da terra.

Capitão Rino atravessava uma rua de marinheiros.

Ao ver alguns rostos tranquillos e braços grossos de mulheres, trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o coração d'aquella gente era resignado e sabia esperar.

A grande virtude estava com ella, só os simples podem ser fortes.

Depois de varias voltas, por caminhos muito accidentados e sujos, elle viu-se na ladeira da Conceição, entre casas baixas, umas com as faces para as outras, mal abertas, de ar desconfiado.

Outra gente alli se movia nas ruas. Rolavam no cisco das calçadas velhos botões azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarellavam em lingua aspera, com visinhas de má compostura, e um fartum enchia a atmosphera da rua longa, até ás proximidades da velha fortaleza.

Em todo o comprimento do seu passeio, foi alli a primeira vez que o capitão Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola.

Ahi estava uma coisa que elle não ouvia nunca sobre a onda inconstante...

Pouco depois bateu á porta do amigo, mas elle não estava em casa; só voltaria á noite. Rino continuou para cima até o pateo do forte e e ahi sentou-se um bocado na muralha, olhando para baixo.

Que via elle? a casaria desegual, feia, derramada, brilhando aqui na telhas novas de reconstrucções, mostrando acolá outras, negras ou esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento continuo da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os predios melancholicos? Não. Com os olhos fixos na agua crespa da bahia, coalhada de vapores negros, de navios brancos, de embarcações de todo o feitio, elle só pensava em Camilla, tão rigida para com elle quanto docil e amorosa para com o outro...

Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus á sua mocidade, áquelle sonho de amor, que elle dizia atravéz d'aquella infinidade de corações felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. Não haveria mais ninguem assim, tão desafortunado.

Como seria bom viver, mesmo naquelle immundo bairro de trabalho, com o coração tranquillo, com fé no amor!

Para elle, estava escripto: não tornaria a ver Camilla. A humilhação da ultima visita queimára-o como brasas. Ainda se ella o desprezasse, mas não amasse o outro!

E toda a causa da sua desventura estava naquella preferencia. Porque havia de ser o outro, e não elle?

O sino da Conceição badalou com força. Rino voltou-se; dois padres moços, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos pretos de exclamação em um quadro vasto de sol. Nesse instante o moço maritimo teve a visão de que, ao encontro da sua, vinham duas almas eguaes, tristes na sua esterilidade. Ainda aquellas tinham o seu ideal, se guardavam intacto o oleo divino que todas as chagas suavisa e todas as miserias embelleza.

E elle? sem fé sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia neste mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que crêa, pelo que combate ou pelo que amplia?

Os padres passaram; elle quiz seguil-os, mas o corpo, cançado, amollecido, ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Milla de preferir o outro? parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre doce e platonico, se ella fosse para todos uma mulher austera, bem encerrada no circulo de seus deveres.

Esta idéia trouxe a lembrança da mãe, morta a facadas pelo pae, como adultera. A imagem d'ella encheu-lhe o coração; ergueu-se bruscamente e começou a descer a rua, apressado com a ideia de fugir para longe, salvar-se do perigo que o solicitava.

Era preciso não tornar a ver Milla; nunca mais! Para algo lhe serviria o seu orgulho de homem.

A vontade domaria o coração rebelde. Não tornaria a vel-a.

A idéa da mãe lembrou-lhe a irmã; tinha ainda tempo de ir jantar com ella naquella silenciosa casa das Laranjeiras. Só no dia seguinte iria para bordo aprestar o _Neptuno_.

Devia pensar noutras coisas; esforçava-se por isso. Desejar Milla, para que? não tornaria a vel-a...

Desceu o morro apressado, até á rua dos Ourives e seguiu por ella, sacudindo os hombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem nada quer ver resoluto acalmado por um esforço em que entrara todo o poder da sua vontade.

Fugir de Camilla e para sempre, crear, talvez, lá longe, em terras do norte, uma familia honesta, era o que devia fazer, o que faria, inevitavelmente e bem depressa, como remedio para esquecer...

O capitão atravessou ruas, passou por amigos como se ninguem visse, e só ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chôfre, com um batimento forte de coração. Deante d'elle, magestosa no seu vestido preto picado apenas no peito por uma rosa escarlate, Camilla sorriu-lhe, extendendo-lhe a mão enluvada. Era uma reconciliação e um appello; elle não atinou com que dissesse. Ao lado da mãe, Ruth fixava nelle aquelle brilhante par de esmeraldas que Deus lhe déra por olhos. Trocados os cumprimentos ellas não se detiveram, e o moço seguiu tambem o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma d'ella todo deslumbrado por aquelle ar de deusa inattingivel.

D'alli até á Carioca já os seus passos se collavam ás pedras, desejosos de parar para a seguirem depois, quando ella voltasse para o calor da sua casa; mas o capitão Rino obrigou-se a ter juizo e caminhou para um bond das Aguas Ferreas, que era justamente o assaltado nessa occasião.

Só depois de sentado reparou que estava juncto da D. Ignacia Gomes e das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e risonhas nas suas _toilettes_ claras.

D. Ignacia suspirava, cançada do esforço da tomada de logar, com as mãos carregadas de embrulhos, e o toucado já descahido sobre a orelha esquerda. Não a pilhariam tão cedo na cidade, affirmava.

Reconhecendo o capitão Rino, pediram-lhe logo noticias da familia Theodoro, como estava a boa Camilla?

Elle disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando.

A Carlotinha, sempre trefega, debruçava-se sobre o collo da mãe, dizendo-lhe com a sua voz maliciosa phrases em que entrava mais atrevimento do que espirito. Tinham-se mudado para as Larangeiras e offereciam-lhe a casa. D. Ignacia vinha espantada com os preços dos objectos adquiridos; se não fossem as moças, ella não viria á cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira.

--E o Sr. Gomes, como está? perguntou o capitão, menos por interesse do que para dizer alguma coisa.

--Coitado, como velho cheio de trabalho. O Sr. não imagina! meu marido sacrifica-se pelos outros e o resultado nós sabemos qual é. Este mundo é de ingratos...

--Sim, é de ingratos; confirmou o capitão.

Até as Larangeiras D. Ignacia teve tempo de despejar todas as lamentações da sua alma attribulada; fallou de tudo, até das cozinheiras e do máo serviço do açougue. O discurso, interminavel, numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capitão insupportavel a longura da viagem.

Carlotinha perguntou pelo Dr. Gervasio. Que era feito d'elle, que ninguem o via, senão no palacete Theodoro?

Rino encolheu os hombros; não sabia. Judith debruçou-se por sua vez, e contemplou-o com curiosidade.

Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos offerecimentos, apontando o portão da sua residencia.

O capitão Rino correspondeu ás expansões com amabilidade discreta, admirado da exuberancia d'aquella gente. Que lhe importavam as denguices da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith, pallida e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquella Milla de formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a doçura da mão enluvada?

A fatalidade d'aquella paixão bem se revelava em tudo; elle furtava-se a vêl-a, saudoso e afflicto, mas forte na sua resolução, e eis que ella lhe apparecia em uma volta de rua, inesperadamente! O _bond_ parara no ponto e o moço desceu, caminhando para deante até a chacara da madrasta; o portão estava aberto, entrou.

Nos largos canteiros touceiras de cannas da India erguiam os seus pennachos de flores vermelhas e amarellas; elle tomou á esquerda, por uma rua ladeada de gyrasóes e de magnolias côr de ouro velho. Era ao fundo d'essa rua que apparecia a casa, de feição antiga, solida e simples, com paredes brancas e largas janellas de guilhotina.

Sentindo gente, veio um cão enorme lá de dentro, aos saltos e latidos, e logo apóz appareceu Catharina no patamar de pedra, da escada em semicirculo.

Ella desceu ao encontro do irmão, muito risonha.

--Estás boa? perguntou-lhe elle, segurando-lhe no queixo forte e ligeiramente quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros.

--Estou, D. Mariquinhas é que está doente, com uma das lymphatites do costume.

--Chamaste medico?

--Chamei, e lá a deixei com a Hermengarda ao pé da cama.

--Que Hermengarda?

--Aquella enfermeira mulata, do nº 15, mãe do...

--Já sei.

--D. Mariquinhas gosta muito d'ella. Queres ir vel-a agora?

--Depois; fiquemos por aqui. Os teus gyrasóes estão muito lindos.

--Não parece um jardim japonez? Repara. Temos chrysanthemos que nem os dos biombos, cannas como as das ventarolas, lirios e gyrasóes... D. Mariquinhas acha detestaveis todas estas flores e falla em mandal-as arrancar... Esta nossa madrasta tem singularidades. Não comprehende o adorno e desconhece a graça das linhas. Só gosta das flores pelo cheiro.

--Que tens feito?

--Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha se eu quizer sahir?

--Effectivamente estás muito só.

--Preciso casar-me.

--Casa-te.

--Tenho medo.

--Os homens assustam-te?

--Um pouco. São enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflicto! Depois, a lembrança da nossa mãe faz-me odiar o casamento.

--Sê honesta.

--Quem pode saber hoje o que será amanhã?