A fallencia

Part 8

Chapter 83,812 wordsPublic domain

--Olhe aqui, D. Noca, o que eu achei em baixo do travesseiro de D. Nina.

--Que é? perguntou a mulata, sem levantar a vista do trabalho.

Um retrato.

Noca olhou; era um retrato de Mario. Guardou-o, sem dizer nada. Orminda continuou:

--Minha ama está escrevendo uma carta, lá no quarto...

--É para Sergipe.

A cabocla sorriu.

--O professor de musica está ahi...

--Já sei... Vae pedir ao jardineiro um pouco de hortelã, anda, para eu botar de infusão.

Noca tinha ascendencia sobre a criadagem, que a tratava por _dona_. Mesmo entre os brancos a palavra da sua experiencia era ouvida com acatamento. Ella era a mulher desembaraçada, a doceira dos grandes dias de festa, a unica das engommadeiras capaz de satisfazer as impertinencias do dono da casa; ninguem sabia como a Noca preparar um remedio, um suadouro, nem dar um escalda-pés synapisado, nem tão bem escolher o peixe, preparar um pudim ou vestir uma creança.

Alegre, forte, falladora e arrogante, com o genio picado e a lingua prompta para a réplica, não admittia admoestações nem conhecia economias. As suas roupas, muito asseadas, cheiravam bem; andava de côres claras e fitas alegres, pizando com todo o peso do seu corpo volumoso e encarando as creaturas de frente, num bom ar de sinceridade.

Eximia na traducção e interpretação dos sonhos, era de uma imaginação lentejolada de pequeninas idéas extravagantes e concepções originaes. Para o mais insignificante facto, tinha uma explicação mysteriosa, embrulhada em nevoas e superstições curiosissimas, que sahiam da sua bocca como lemmas fataes, de uma verdade indiscutivel.

E aquella influencia extendera-se pela familia toda. Camilla consultava-a; Nina contava-lhe os seus sonhos, pedindo-lhe explicações; Ruth ouvia-a com enorme interesse, de alma aberta para tudo que tivesse ares de phantasia; e a criadagem pedia conselhos, rezas, remedios, palpites de jogo e consolações de desgostos...

Noca acudia com promptidão a todos, gabando-se, sem hypocrisia, de gostar de ser util e servir de muito a muita gente...

Ella andava agora desconfiada com a tristeza mal disfarçada de Milla. Desde aquelle passeio ao Neptuno deveria haver por alli grande novidade... O Dr. Gervasio, entretanto, desfazia-se em cuidados ... e o pobre do capitão Rino era recebido com certa seccura, que o estupido parecia não comprehender!

A Nina, coitada, emmagrecia como um arenque, e só Ruth passava sem ver nada, como se a musica a levasse por outros caminhos... O patrão ... esse tambem ruminava qualquer coisa...

Quem provocava confidencias indiscretas da mulata era Nina, que, com o pretexto de passar uma gravata ou alisar uma fita, ia á saleta do engommado logo que d'ella via sahir o Dionisyo.

A mulata percebia tudo e não tinha escrupulos em repetir a verdade. Ora, aquillo talvez curasse a moça, pensava comsigo. Se os amores não passassem, que seria da gente? O coração quer-se á larga. Soffrer por causa de um homem? Não vê!

Nina, com os olhos humidos, as mãos curtas, de dedos ligeiramente achatados, espalmados na taboa ainda quente do ferro, escutava tudo muito caladinha e, quando a ultima palavra cahia dos beiços grossos da Noca e que a mulata começava a assoprar as brasas, ella voltava para dentro, sentava-se a coser, achando-se mesquinha, feia e muito desgraçada. Todos os esforços que fazia por agradar eram inuteis; Mario nem parecia vêl-a e mal parava em casa... A outra era bonita; morena e altinha. Era pouco o que sabia, mas o bastante para a fazer soffrer.

Emquanto, no bulicio da casa, todos se agitavam no trabalho activo, Camilla conservava-se no seu quarto, muda, encolhida em uma poltrona, com as mãos inuteis, o olhar febril.

A visão d'aquella mulher de lucto, da manhã do _Neptuno_, não a deixava nunca; sentia-lhe, como um castigo, a formosura, o perfume, e aquelle ar discreto de honestidade e de elegancia. O que a punha doente, e que a atormentava ainda mais, era a obstinação de Gervasio em negar-lhe uma explicação qualquer. Que haveria entre ambos?

No seu ciume e resentimento, Camilla esquivava-se agora ao medico; era em vão que elle a chamava para as suas doces e crueis entrevistas. Mas toda a sua força em resistir ia afrouxando, e ella sentia bem que, apezar de tudo, chegaria um dia em que os seus pés a levariam para elle.

Foi ainda naquelle canto do quarto que Francisco Theodoro a encontrou, ao voltar da cidade.

--Estás doente? Olha que eu trouxe um camarote para a _Aïda_. O Negreiros disse-me que vae muito bem por esta companhia...

--Que entende o Negreiros de musica!

--Elle tem excellente ouvido. Acho bom desceres. O Gervasio está lá em baixo...

Milla desceu, e, ao sahir para o terraço, parou entre portas, escutando o que dizia o Dr. Gervasio. Elle estava sentado, de costas para ella. Em frente d'elle, em pé, Ruth ouvia-o attentamente, com a corda de pular enrolada no braço, e o rosto ainda vermelho pelo exercicio interrompido.

--«Você disse que a irmã da Lage é uma moça bem educada, querendo dizer que ella é uma moça instruida. Ha dififerença: educação e instrucção não se confundem. Repare: porque considera você essa moça como bem educada? Porque falla francez, inglez, toca e desenha; não é assim? Pois essas prendas, ainda que adquiridas com esforço, compram-se aos mestres; as outras dão-se ou nascem da boa convivencia. Uma pessoa instruida não será de exterioridade agradavel se não fôr educada. A instrucção nem sempre transparece e nem sempre concorre para a felicidade. A educação prepara-nos para a tolerancia e revela-se em tudo, na maneira por que fazemos um cumprimento, por que andamos na rua, porque nos ajoelhamos em uma egreja, por que comemos a uma mesa, por que fallamos ou por que ouvimos fallar, por que em discussões tonalisamos as nossas opiniões com as opiniões contrarias; por mil effeitos, emfim, que, sendo imperceptiveis, realçam o individuo, porque o pulem e o tornam digno da boa sociedade. A instrucção é a força com que apparelhamos o nosso espirito para a vida, lança e escudo para ataque e defesa; a educação é o perfume que os paes intelligentes derramam na alma dos filhos e que por tal geito se infiltra nelles, que nunca mais se evapora, seja qual fôr o ambiente em que vivam depois.

É bom não confundir as duas palavras, Ruth, porque essas confusões, á vista grossa dos indifferentes, não tem importancia; mas alteram a verdade e não escapam aos ouvidos delicados.»

--Não tornarei a trocar o sentido d'essas duas palavras...

--O Lelio disse-me hontem que lhe tinha trazido uma valsa de Chopin. Ora, você pode tocar, mas não pode interpretar bem semelhante auctor.

--Porque?

--Porque ainda não tem edade para comprehendel-o.

Chopin é um musico perigoso, minha filha; é um torturador, um excitador de almas. Contente-se com os seus classicos, mais sadios e mais frescos. A musica como a leitura, deve ser ministrada com prudencia. Fallarei ao Lelio. Sua mãe já desceu?

--Está ahi, atraz do senhor.

--Ah...

Milla soccorreu-se da filha para não ficar só com o medico, que a via muito esquiva. A pallidez e a tristeza adoçavam-lhe a physionomia, dando-lhe um encanto novo. O Gervasio observava-a calado, indeciso, com medo de resolver de chofre a situação, com uma palavra só...

Todos os annos Francisco Theodoro celebrava os anniversarios d'elle, da mulher e dos filhos com banquetes de tres e quatro mesas, vinhos a rôdo e danças até a madrugada.

Nesses dias o medico fazia apenas o seu cumprimento, offerecia-as violetas e o brinde do estylo, e retirava-se cedo para a casa silenciosa, lá para os lados do Jardim Botanico, onde ia fazer as suas leituras, commodamente reclinado na sua cadeira de balanço dentro do robe-de-chambre que lhe agazalhava o corpo magro.

Camilla conhecia as suas antipathias por essas festas e não se lamentava por isso da ausencia.

A immensa casa era então pequena para o numero de amigos. Nos jardins illuminados a _balões_ e a copinhos, nas salas, nos corredores, nos terraços, no buffete, nos quartos, em toda a parte havia povo, rumor de vozes e cheiro abafado de plantas pisadas, flores amornadas por luzes, essencias diversas reunidas ao odor dos molhos e das carnes servidas no banquete. As camas sumiam-se ao peso de capas, mantilhas, chapéus e sobretudos. Os convidados varavam todos os aposentos, como quem anda por sua casa. Nina, as criadas e Noca atiravam para dentro de um quarto, o unico fechado, tudo o que não devia estar embaraçando o caminho: tapetes retirados á pressa para as danças; mesas de centro, almofadões do sofá, que tomavam espaço; floreiras, etc. As creanças corriam pela casa, espalhando passas e migalhas de doces; e um pianista pago dedilhava no Pleyel do salão as polkas e as valsas do seu repertorio.

A essas festas iam sempre os collegas e os conhecidos de Francisco Theodoro, o pessoal da sua casa de commercio, gente da visinhança, alguns doutores, um senador do imperio, a quem era dirigida a melhor das attenções, e amigas de Camilla, do tempo do collegio, mulheres de posição e bem apresentáveis, que só com as ricas ella topara depois, na balburdia da vida.

Nos intervallos da dança havia sempre quem tocasse difficuldades ao piano, ou cantasse algum romance italiano.

Francisco Theodoro, jubiloso e amavel, instava para que comessem, para que bebessem. Não se esquecia de ninguem, punha mancheias de balas nos regaços das creanças, ordenava que se abrisse champagne, conduzia as senhoras edosas ao _buffet_, recommendando á Noca que distribuisse pela criadagem vinhos e doces.

Eram festas pantagruelicas, em que o riso se communicava mais pelo barulho que pela intenção.

Camilla dançava, roçando os seus maravilhosos braços nús pelas mangas dos commendadores ou dos empregados do marido.

Á mesa os brindes succediam-se atropelladamente. Para o fim, havia sempre uma voz alta, pausada, que se erguia á victoria do trabalho honrado e puro, e essa voz lembrava os máos dias de Francisco Theodoro, a sua pobreza, a sua energia e o seu triumpho.

O dono da casa respondia com palavras tremulas e olhos humedecidos. Tilintavam as taças e a musica vibrava com força na sala. Voltavam para as danças. Como Ruth não dançasse, o pae chamava-a de--minha estudiosa--gabando-a aos convidados, que olhavam um pouco espantados para ella. Ruth esquivava-se áquella curiosidade e fugia para fora. Iam encontral-a depois no balanço, sósinha, voando á claridade das estrellas...

Só no dia seguinte ao do festim é que o Dr. Gervasio ia ao palacete Theodoro saborear o perú quebrado do almoço e os fios de ovos, na quietação cançada da familia.

Então eram por toda a parte vestigios da barafunda. Nina contava os talheres, que espalhados entre a loiçaria e os crystaes punham ondas de luz pallida na mesa do jantar; Noca varria as salas, criados lavavam os marmores da escada e do vestibulo e o jardineiro guardava os copinhos e as lanternas disseminadas pelo jardim.

Era uma d'essas festas que Francisco Theodoro desejava agora offerecer aos seus amigos. Desceu a consultar a mulher e o medico. Encontrou-os ainda no terraço, ao lado de Ruth, que as mãos da mãe prendiam nervosamente.

Milla acolheu á ideia com frieza; o marido insistiu:

--Você está molle, anda differente. Reaja, tome remedios. Que diabo! eu tenho obrigação de obsequiar os homens. Elles vêm ahi em nome da colonia. Não quero fazer figura triste.

--Alguma manifestação? perguntou Gervasio.

--Sim. Uma tolice. Ideias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me hoje d'isso o Negreiros. Foram até ao ministro, e não sei mais o que! Emfim, já disse, o que eu não quero é fazer figura triste. O engraçado é que minha mulher fallava em dar um grande baile, e agora, que se apresenta a occasião, faz cara feia!

Dr. Gervasio acudiu. Achava magnifica a ideia e procuraria auxilial-a na execução. De si para si pensava que esse pretexto traria Milla ao movimento da sua vida habitual; arrancal-a-ia d'aquella obstinação de pensamento, d'aquella apathia physica que o atormentava.

Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Theodoro pediu-lhe que a dirigisse. D'esse dia em deante o medico punha e dispunha do palacete, como senhor absoluto. Determinava como as coisas se fizessem. A ceia seria no terraço, ao fundo, sob una toldo de seda, entre bosquetes de avencas e camelias brancas; desenhava ornamentos, encommendava flores, substituia estofos, harmonisava cores, dava estylo e graça ao que só tinha peso e luxo; idealisava a matéria, arrancava uma alma delicada áquellas salas carregadas e mudas.

Milla assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas, pouco a pouco, Gervasio convencia-a de que a sua ciumada era uma doidice. Não tivera elle tambem ciumes do capitão Rino? E ahi estava: já nem pensava nisso!

Como o coração de Milla não comportasse rigores, affeito á felicidade, ella foi esquecendo.

IX

Uma tarde, Mario entrava na sala de jantar, quando viu o Dr. Gervasio á mesa; então tornou a sahir, sem dizer uma palavra.

Milla sentiu o coração parar-lhe no peito. Theodoro não ligou importancia ao caso; para elle o filho voltara a buscar algum objecto esquecido, e, tão enthusiasmado estava a fallar em negocios, que só para a sobremesa disse espantado:

--É verdade, e o Mario? então o Mario não voltou?

Nina murmurou, desculpando-o:

--Acho que está incommodado...

--Vou ver isso.

Theodoro levantou-se.

Calaram-se todos, como se o mesmo fio de desconfiança os ligasse entre si. Camilla tremeu. Que diria o filho? como o ouviria o pae? No seu amor, de tamanhos supplicios, nenhum egualara nunca ao d'esse instante.

Tinha chegado a hora do marido saber tudo, e pelo Mario!

Dr. Gervasio comprehendeu-a e tentava socegal-a de longe, com um olhar firme, de confiança, certo de que nada vale antecipar tristezas, que nem por isso as coisas deixam de vir, pelos seus pés ou pelas suas azas, quando têm de vir. Mas tudo o fazia esperar que não viesse a que ella temia...

E para afastar preoccupações, fallou de alegrias: annunciavam-se festas; abria-se uma exposição de pintura, excellente; e commentavam-se os brios de um tenor novo para o Lyrico...

Elle sentia que a sua voz soava falso; ninguem o ouvia, nem elle mesmo, que apezar da calma apparente dizia aquellas palavras pensando em escutar outras, que viessem de fóra, como raios, fulminando tudo.

Milla encostou-se ao espaldar da cadeira, muito pallida, com uma expressão interrogativa no olhar assombrado. Dr. Gervasio fallava, fallava...

Entretanto, Theodoro rompeu pelo quarto do filho.

--Então, _seu_ Mario? isso faz-se! Entra-se em uma sala para jantar é volta-se para traz sem satisfações, de mais a mais deante de visitas?!

--Visitas?... que visitas? o Dr. Gervasio?... Esse é de casa.

--Não é; mas que fosse; se não me consideras nem a tua mãe, devias ao menos respeitar o hospede.

--Mas se é o hospede que eu detesto! não posso vêr aquelle homem, papae, não posso vêr aquelle homem!

--Tu estás doido! porque?!

Mario calou-se, de repente, arrependido, de olhar esgazeado. O pãe insistia, furioso:

--Essas coisas não se dizem á tôa; responde: porque lhe tens essa raiva?

--Não sei ... desde creança que antipathiso com elle ... por instincto... Aborreço aquelle rosto pallido ... aquelle corpo esguio ... aquella voz desegual, aquelle sorrizinho de mófa, embirro com as suas mãos de mulher, com os seus ditos de pedante, com a sua assiduidade, com os seus sapatos, com a côr das suas roupas, com os vidros das suas lunetas, com as suas essencias, com elle e com tudo que é d'elle. Não me pergunte mais; não posso dizer mais nada; talvez lhe pareça pouco. É muito. Por hoje desculpe-me. Estou doente.

--Se estás doente, trata-te; só mesmo um delirio de febre explica o que disseste. Fica bom, que temos de ajustar contas! E que o caso não se repita, ouviste? que não se repita!... senão ... olha que eu não sou bom!

Francisco Theodoro sahiu ameaçador, mas foi dizer ao medico que effectivamente o Mario estava indisposto...

Nessa noite, como nas outras, o moço foi para a rua sem um--até logo!

Era preciso ir buscar a felicidade onde a encontrasse; a casa aborrecia-o.

A familia andava a passear pela chacara, na doce pasmaceira costumada, vendo regar as plantas e nascer as estrellas. Fazia um calor barbaro. Ruth voava agarrada ás cordas do balanço, cantando alto, e atirando flores de cajazeiro á mãe, cada vez que ella lhe passava por perto.

Camilla recebia-as com ambas as mãos e sorvia-lhes o aroma acido e leve, numa deliciosa sensação, afagada pela homenagem.

--Cuidado, minha filha!

--Ahi vae um beijo, mamãe!

O beijo voava com as flores, que se prendiam aos cabellos de Milla. E o passeio continuava, arrastado e feliz.

--Um dia esta menina leva um tombo!... Mas eu sei o que faço. Amanhã cedo mando cortar as cordas do balanço. Mais vale prevenir!

--Não, Theodoro, não! É o divertimento d'ella; e é tão innocente!

--Lá vens tu...

Ruth não os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos á claridade que se diffundia nas côres gloriosas de um crepusculo ardente. De vez em quando, num impulso mais forte a sua cabeça roçava na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus ouvidos um rumor divino e rythmado, de musica impeccavel. Toda a sua força se concentrava nas mãos, que a aspereza das cordas magoava, unica parte então sensivel do seu corpo, que ia e vinha na luz cambiante da tarde, como uma sombra movediça e impalpavel.

Na vertigem do vôo, ella não via, em cima e em roda, senão claridades estonteadoras, onde anjos azues abriam azas esgarçadas de nuvens fugidias, por entre barras de ouro e ennoveladas fogueiras rubras. Em baixo, na terra côr de ambar, o velludo verde das gramas e dos arbustos distendia-se num espreguiçamento voluptuoso e macio, á espera do somno.

Ia chegando a hora da consagração purissima da natureza: a hora das estrellas. Não tardou que o alaranjado poente se concentrasse num roxo escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente, a penumbra.

O calor augmentava; houve roncar de trovoada ao longe.

--Quer Deus Nosso Senhor que eu me vá embora, disse o medico.

--Sim, é prudente, nós vamos ter chuva ... respondeu Theodoro, consultando o céu. E chuva de arrazar!

Camilla ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chapéu do medico. Despediram-se.

Quando Theodoro entrou em casa, perguntou á Noca:

--_Seu_ Mario?

--_Seu_ Mario sahiu...

--Hum ... eu já esperava isso mesmo... Mas elle paga...

Camilla e Nina entreolharam-se com ligeiro susto, seguiram caladas para a saleta, onde costumavam passar o serão. Mal se sentaram, Milla impacientou-se. Formigas de azas voltejavam em nuvem ao redor da luz, e perseguiam-n'a a ella tambem, batendo-lhe no rosto e entrando-lhe pela golla do vestido.

--Tudo se junta, quando a gente está aborrecida! disse ella zangada.

Nina sacudiu as formigas com o lenço.

Pelas dez horas, Francisco Theodoro chamou de novo a mulata.

--_Seu_ Mario?

--Elle ainda não voltou...

--Está direito. Você vá lá embaixo botar a tranca na porta. Quando elle vier, mesmo que bata, não abra. Percebeu?

--Percebi, sim, senhor.

--Agora chame o Dionysio.

E ao Dionysio, como a todos os criados, foi dada a mesma ordem.

Milla levantara os olhos do livro que estava lendo. Nina picava os dedos com a agulha, mal acertando com a costura.

Theodoro voltou-se para ellas:

--Nos tempos antigos não havia chaves de trinco. Os filhos deitavam-se á mesma hora que os paes...

--Sahiam pelas janellas ... murmurou Camilla.

--Pois sim!

--E se chover? A noite está tão feia...

--Que volte para traz. Não vem a pé.

--Mas como despede o tilbury ao portão, terá de voltar a pé, e debaixo d'agua...

--Pois que apanhe chuva, se chover, exclamou Theodoro fóra de si; ou raios, se cahirem raios. Senhora, isto então é vida?!

--É a mocidade...

--Já me tardava. Muito obrigado! Eu pude passar a minha dobrado em dois ao peso do trabalho, e o senhor meu filho só sabe gastar o que ajuntei com o suor do meu rosto!

--Elle não tem a mesma saúde; Mario é fraco.

--Mais uma razão.

--Qual razão!

--Basta; resolvi, acabou-se. D'aqui em deante, ou o rapaz me entra em casa a horas convenientes ou...

--Ou?...

--Ou que vá dormir para o diabo!

Camilla olhou com desprezo para o marido, ennojada d'aquella furia. Quiz replicar, mas veiu-lhe de repente um grande medo de que Francisco Theodoro a fizesse de novo intermediaria das suas ameaças, e fugiu da sala para não responder, batendo com a porta, num desespero.

--É por estas e por outras que o Mario está assim ... resmungou o negociante, percorrendo a sala com as mãos nos bolsos, a tilintar as chaves.

Fóra, a noite estava negra, abafadissima. Vinha da terra e dos vegetaes um cheiro intenso, morrinha de febre, que engrossava a atmosphera, corporisava-a, tornando-a irrespiravel.

Ainda não eram onze horas e já se recolhiam todos para os quartos, amodorrados, bambos.

Pouco depois levantou-se a primeira lufada, que veio roncando de longe, soturnamente.

Fecharam-se as janellas; a tempestade ahi estava. Quando rezava para dormir, Noca teve um estremecimento: uma coruja passou cantando rente ao beiral do telhado.

A mulata persignou-se duas vezes e ficou á escuta.

O que passou depois, foi o vento.

Ella deitou-se com um suspiro.

Quem não se deitou foi a Nina. Sózinha, no seu quarto estreito, abriu a janella e debruçou-se para o jardim, sondando a rua, através do arvoredo.

Os lampeões de gaz mal alumiavam as calçadas solitarias, envolvidos pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania, lambendo tudo. De vez em quando, um bond passava, de oleados corridos, com tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da noite.

Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma cadeira; sentia-se oppressa. O tufão descançava: ella voltou á janella, curiosa, com anciedade, cosendo o peito nú ao peitoril largo. Não viu nada. A voz arrastada de um bebedo guinchava na esquina, em falsete, acompanhada por outra voz, que fallava na mesma toada. Uma nova lufada veiu forte, terrivel, abalando tudo.

A unica janella illuminada da visinhança fechou-se.

O bebedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes á distancia, e só ficou o vento, cada vez mais forte, uivando, uivando.

Agora não parava; enchia tudo com o seu sopro formidavel.

Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o aroma das verdes, que elle ia levando pelo ar em revoada louca. Na inutil resistencia da lucta, as arvores contorciam-se, estalavam; cahiam arbustos arrancados pelas raizes, e fructas verdes despenhavam-se sobre as telhas, com estrondo.

Nina expunha a cabeça núa ao açoite da tormenta, ennervada pela fixidez da sua ideia. Entretanto, sabia, o Mario não merecia aquillo, não a amaria nunca.

Havia uns quinze annos já que ella morava naquella casa, levada pelo pae, o Joca; era então muito enfezada, apezar dos seus dez annos. Entrara para alli como poderia ter entrado para um asylo qualquer: para ter cama e pão. Não ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada mesmo a meditar no passado mais do que queria. Não conhecêra a mãe, e em frente á mudez da tréva pensava nella, como se a tivera visto. Não comprehendia por que rejeitavam o seu coração amoroso. Nem mãe na infancia, nem noivo na mocidade. Que triumpho!

Sabia pelos outros que a mãe fôra uma mulher da má vida e baixa classe; mais nada; e não era pouco.