Part 7
A entrada no Amazonas, respondeu Rino; e descreveu, commovido, o aspecto formidavel do rio, a grossa corrente das suas aguas profundas, o seu ruido sonoro, de rythmos novos, que nenhuma lingua exprime e nenhum som musical imita; e os cambiantes deslumbrantissimos dos poentes, derramando na agua infinitas ramagens multicores, onde estrellejavam tons nunca d'antes vistos, que appareciam para se apagar, e apagavam-se para reapparecer em outros pontos, egualmente luminosos e fugitivos.
--Que esplendor de poentes!
Depois as ilhas verdejantes, verdadeiros jardins, trechos de bosques emergindo da agua profunda e reflectindo-se nella. Sinto alli, repetia ainda, um mundo novo, guardando virgindades e mysterios para uma raça de gigantes, ainda não nascida... Ah, as terras ardentes do Norte são um deslumbramento!
Havia outro ponto da viagem que lhe fazia ainda maior commoção; era quando, já de volta, entrava na bahia do Rio de Janeiro. A ampla poesia d'esse espectaculo adoçava-lhe o humor estragado pela monotonia do mar alto...
Dr. Gervasio punha afinal o dedo na alma do capitão. Era assim mesmo; os livros da estante pertenciam-lhe: havia alli um homem. O embarcadiço mercenario tirava o seu trage de piloto e apparecia cavalheiro e poeta. Porque se havia enganado tanto tempo? A explicação teve-a pouco depois, quando Rino affirmava que apezar das suas queixas, elle só estava bem no _Neptuno_; tanto se afastara da sociedade que se sentia bisonho nella, e que acreditava deixar sempre no seu navio um bocado da sua alma, quando ia para a terra.
--Só em terra, disse elle, comprehendo o amor que tenho ao meu barco, aos meus livros, ao meu cachimbo e á minha rêde, a que a solidão e o habito deram foros de amigos; entretanto no mar, tenho saudades de terra, da familia, das distracções, de tudo que conjunctamente a torna deliciosa...
Francisco Theodoro, a proposito do Norte, fallou na prosperidade do Pará, no commercio da borracha e discutiu as suas rendas e os seus costumes. Alli, sim, havia gente reflectida, de bons exemplos. Aquillo é que é povo: patriotismo, criterio, boas intenções. Fallem-me d'isso.
Concordaram. Houve uma pausa, em que se levaram á bocca os copos cheios.
Veio o perú á brasileira provocar elogios ao cozinheiro do _Neptuno_. Magnifico!
Francisco Theodoro affirmou logo que aquelle prato parecia feito, de saboroso que estava, por uma mulher. A brasileira tem um geitinho especial para temperar panellas, dizia elle; e verdade, verdade, assim como ella não devia ser chamada para os cargos exercidos por homens, tambem os homens não lhes deviam usurpar os seus. A cozinha devia ser trancada ao sexo feio.
Elle dizia isto como pilhéria, por alegria.
Catharina, fazendo estalar uma côdea de pão entre os dedos magros, perguntou sorrindo, com ar de curiosidade maldosa:
--O senhor é contra a emancipação da mulher, está claro.
--Minha senhora, eu sou da opinião de que a mulher nasceu para mãe de familia. Crie os seus filhos, seja fiel ao seu marido, dirija bem a sua casa, e terá cumprido a sua missão. Este foi sempre o meu juizo, e não me dei mal com elle; não quiz casar com mulher sabichona. É nas mediocres que se encontram as Esposas.
O Dr. Gervasio e o capitão Rino trocaram um olhar, de relance.
--E que são as outras? Mulheres que um homem honrado não deve consentir perto das suas filhas.
Camilla fez um signal affirmativo. Ella era da mesma opinião.
--Não são sérias, concluiu.
--Lá por isso, replicou Catharina, de quantas mulheres se falla na sociedade e que mal sabem ler?
--De poucas...
--De muitas. Sr. Theodoro, faz favor de me dar o vinho?
--Ora, as senhoras não conhecem o mundo! exclamou Theodoro, passando a garrafa ao medico, que encheu o copo de Catharina e disse rindo:
--Ellas não conhecerão o mundo e nós, meu amigo, não as conhecemos a ellas! A mulher mais doce e mais honesta, dizem que dissimula e engana com uma arte capaz de endoidecer o proprio Mephistopheles...
--Homem, que ideia faz você da honestidade das mulheres!
--Faço ideia de que deve ser bem mais difficil de manter do que a nossa.
--Bom; eu quando disse honestidade das mulheres, não foi com o pensamento de que houvesse duas honestidades.
--Pois se tivesse tido tal pensamento, tel-o-ia com muito acerto. Ha duas.
--Temos outra! Se está de maré, explique-nos a differença.
--Não estou de maré, mas explicarei: é pequena. Materialisemos as comparações, para as tornarmos bem claras. Supponhamos, por exemplo, que a nossa honestidade é um casaco preto e que a das senhoras é um vestido branco. Tudo é roupa, teem ambos o mesmo destino, mas que aspectos e que responsabilidades differentes!
Assim, o nosso casaco, ora o vestimos de um lado, ora de outro, disfarçando as nodoazinhas. O panno é grosso, com uma escovadella vôa para longe toda a poeira da immundicie; e ficamos decentes. A honestidade das senhoras é um vestido de setim branco, sem forro. Um pouco de suor, se faz calor, macula-o; o simples roçar por uma parede, á procura da sombra amavel, macula-o; uma picadella de alfinete, que só teve a intenção de segurar uma violeta cheirosa, toma naquella vasta candidez proporções desagradaveis... Realmente, deve ser bem difficil saber defender um vestido de setim branco que nunca se tire do corpo. Eu não sei como ellas fazem, e, francamente, não me parece que a vida mereça tamanho luxo.
--Você é o homem das divagações; tratava-se de uma questão positiva. Dizia eu que as mulheres vulgares são mais sérias do que as outras ... pelo menos parecem...
--Porque não lhes esquadrinhamos as nodoas do setim... Passam despercebidas...
--Adeus!
--Agora é sério; vou repetir-lhe o que disse ha pouco á sua filha, a quem alliás o senhor educa para a arte. Foi mais ou menos isto:
Não cabem na alma humana muitas paixões, e as melhores são as que nos desviam dos nossos semelhantes, sempre enganadores. Só os ideaes de arte não pervertem, antes purificam e ensinam o bem. As mulheres devem cultival-os com especial carinho. Acompanho, pois, as opiniões de D. Catharina e bebo á sua saude, Minha Senhora!
Emquanto elle bebia, Camilla observou-o com pasmo; sabia que elle não tinha aquellas ideias. Sempre lhe ouvira que a mulher devia conservar-se no seu logar de submissão.
--Então, a senhora lamenta não ser eleitora? perguntou Francisco Theodoro á irmã do Rino, com um sorrizinho de mofa.
--Eu? Deus me livre! Tomara que me deixem em paz no meu cantinho, com as minhas roseiras e os meus animaes. Nunca fallo por mim, sr. Theodoro. Eu nasci para mulher.
--Então, pelas outras?
--Pelas outras que tenham actividade e coragem.
--E a casa, minha senhora? e os filhos? A este argumento é que ninguem responde!
--É velho.
--Mas é bom, prova que a mulher nasce com o fim de criar filhos e amar com obediencia e fidelidade a um só homem, o marido. Que diz tambem a isto o nosso doutor?
--Que ella talvez tivesse nascido com essas intenções, como o senhor disse, mas que as torceu depois de certa edade. Não seria sem causa que Francisco I disse:
_Souvent femme varie._
Francisco Theodoro não entendeu, mas sorriu.
O medico dizia aquillo para Camilla, que lhe evitava o olhar agudo, percebendo-lhe a perfidia.
--Isto é que se chama fallar para não dizer nada... observou alguem.
Catharina serviu o café; quando passava a ultima canequinha, disse:
--As mulheres são mal comprehendidas. Vejam aquella gravura. Está alli um homem desafiando o perigo, avançando na treva com a espada em punho, e a mulher mal o allumia com a luz da vela, cosendo-se amedrontada ás suas costas!
--O que prova que a mulher é medrosa! exclamou Theodoro com modo triumphante.
--Mas, não é verdade; pelo menos no Brasil. Nós não nos escondemos atraz do homem que procura defender-nos. Se elle avança para o inimigo, sentimos não ter azas, e é sempre com impeto que nos lançamos na carreira querendo ajudal-o a vencer ou evitar-lhe a derrota. Este é que é o nosso caracter; que me desminta quem puder!
O dr. Gervasio observou Catharina com attenção.
Ella estava de pé, com as narinas arfantes, as faces abrasadas.
Sim; agora era o sangue caboclo que lhe saltava nas veias: era uma brasileira. A tal avó dinamarqueza dava todo o logar á outra avó indigena, descendente de alguma tribu selvagem.
Duas horas depois, os visitantes deixavam o _Neptuno_; o capitão Rino e a irmã conduziram-os até o caes, onde se separaram. Foi então um grande allivio para o dr. Gervasio, a quem a presença do outro irritava terrivelmente.
Francisco Theodoro não se cançava de elogiar a ordem e o asseio em que encontrara tudo; começava a venerar o capitão Rino: achava-o eloquente, superior ... lembrava detalhes insignificantes, muito agradecido ás cortezias do moço. Catharina desagradara-lhe, com os seus modos independentes. Achara-a feia. Mulher quer-se com carne,--bons volumes, dizia elle, olhando de esguelha para o vulto redondo da esposa.
Á rua 1º de Março despediu-se do grupo. Aproveitava a occasião para visitar um collega doente; e encarregou o doutor de acompanhar a familia.
Foram então os tres, Ruth adeante, com o seu modo distrahido, de queixo erguido e passos firmes; Camilla ao lado do medico, atravéz as ruas quasi desertas, de domingo. Ao principio nada se disseram. Camilla adivinhava tempestade proxima, sem lhe atinar com a causa. Extranhara as phrases do Gervasio á mesa; sentia ainda a dôr dos remoques que elle lhe atirara disfarçadamente. Faltava-lhe coragem para uma pergunta; mais por submissão do que por indolencia, ella esperava sempre que elle fôsse o primeiro a fallar e a agir, naquella torturante passividade de escrava, a que o seu amor a lançara.
Elle fallou. Disse ter surprehendido a doçura de um amor nascente; que não se espantava da victoria do Rino. Achava que se devia despedir; que a via bem entregue...
Camilla comprehendeu tudo, de relance; as lagrimas subiram-lhe aos olhos, sem que ella pudesse responder á brutalidade da offensa. O rosto tingiu-se-lhe de vermelho, numa onda de vergonha que a suffocava; vendo-a calada, elle insistiu baixinho, teimosamente, irritantemente, espaçando as palavras, extravasando todo o ciume contido durante as horas de bordo.
Ella murmurou então, vexada, por entre dentes:
--Eu não gosto do Rino ... eu não gosto...
E para que fallar assim, na rua? É uma imprudencia...
--Não tive tempo de escolher logar. Isso é bom para os calmos. Depois, vendo-me ameaçado de abandono, apresso-me em despedir-me. Isto tinha de ser já.
--Como os homens são orgulhosos e injustos!
--Serão. E as mulheres? voluveis!
--Quasi sempre a mulher ainda ama e já é considerada pelo homem como uma importuna!... Está ahi a nossa volubilidade...
Calaram-se; passava gente. Depois de uma longa pausa, foi ella quem disse primeiro:
--Que me importa a mim o Rino! estou prompta a desfeiteal-o, se com isso...
O medico interrompeu-a baixo, mas com vivacidade:
--Agora sou eu que lhe lembro que estamos na rua...
Ruth, sempre adeantada no caminho e sempre distrahida, não percebia nada; os dois seguiam-na automaticamente. Foi ella que, de repente, vendo uma confeitaria ainda aberta, se lembrou de levar doces á Nina e ás creanças, e parou á porta, á espera do medico e da mãe. No momento em que elles chegavam, saiu da confeitaria uma mulher ainda moça, toda de lucto.
Ao vel-a, o medico recuou bruscamente e ella, mal o viu, corou até a raiz dos cabellos e vacillou tambem. O choque foi rude e rapido. Elle ficou firme na calçada, muito pallido, com contracções nas faces, e ella passou séria, numa rigidez contrafeita e torturada.
Camilla sentiu roçar pelo seu vestido claro o vestido de lã da outra; aspirou com força o seu aroma violento de uma essencia desconhecida; viu-lhe a alvura da pelle avelludada entre a golla de crepe e a parte da face onde terminava o véozinho do chapéo; apanhou, naquelle gesto de surpresa de ambos, um mysterio qualquer, uma traição, uma infidelidade, uma ignominiosa mentira á sinceridade da sua paixão.
--Quem é? ... quem é?! Perguntou ella com avidez phrenetica, puxando imprudentemente pela manga do medico.
O Dr. Gervasio, ainda no mesmo logar, olhava para a mulher de lucto que seguia numa pressa de quem foge; á voz de Camilla, voltou-se atarantado, sorriu com esforço evidente e depois, baixo, muito baixo, mas com modo sacudido e nervoso, disse:
--Não faças caso: uma mulher que amei e que morreu.
Uma nuvem negra toldou a vista de Camilla e o coração apressou a sua marcha num batimento louco.
Ruth, com toda a pachorra, escolhia os doces que um caixeiro ia separando para um prato de papelão.
O dr. Gervasio pediu á Camilla que serenasse o seu espirito. Elle lhe contaria tudo mais tarde. Descançasse, que aquillo era uma coisa passada, perfeitamente extincta.
Ella fingiu acceitar a promessa; no fundo duvidou d'ella; mas para que tentar uma recriminação, se a sua lingua fraca não lhe sabia traduzir os sentimentos fortes? Ficaria no seu papel de mulher: esperaria calada...
VII
O commercio de café nadava em ouro. Casas pequenas galgavam de assalto posições culminantes; havia por todo o bairro cafezista um perenne rumor de dinheiro. E a maré do ouro subia ainda com a magna abundancia das enchentes que ameaçam inundação.
O preço do café chegara a uma altura a que antes nunca tinha attingido. Era um delirio de trabalho por todos aquelles armazens de S. Bento.
No de Francisco Theodoro o movimento era enorme.
_Seu_ Joaquim não parava um minuto, num vae-vem incessante, realizando milagres de actividade, observando, colhendo, dirigindo, mandando, rapido no expediente, segurissimo nas suas previsões e nas suas ordens. Elle sabia de tudo, adivinhava tudo, sem que ninguem o visse arrancar uma confidencia ou uma denuncia dos seus amigos ou dos seus subordinados. Era nelle que parecia incarnada a alma d'aquelle casarão da rua de S. Bento, por que era o nome d'elle que andava de bocca em bocca, no ar, desde o caminhão, na porta da rua, até o fundo, o pateo dos ensaccadores, onde as pás do café, cahindo em rythmo, davam ao trabalho um acompanhamento de musica.
_Seu_ Joaquim, pequeno, com o seu ar atrevido, podia, de um momento para o outro, fazer cessar todo aquelle gyro vertiginoso, armar _grèves_, paralysar a vida, fechar a porta ao dinheiro que quizesse entrar.
Era d'elle todo o prestigio á vista dos trabalhadores boçaes, das formigas do armazem que negrejavam por alli num movimento incessante.
Francisco Theodoro descançava nelle, deixava-o agir, «conhecia-lhe o pulso», dizia; não fizera elle o mesmo no principio da sua carreira? Agora, bem assente na vida, aristocratisava-se, dava-se ares de grande personagem.
Havia uma hora em que o gerente subia ao escriptorio do patrão para alguns esclarecimentos, e nesses curtos minutos, roubados á actividade de baixo, _Seu_ Joaquim achava geito de expôr a situação do dia, dar as notas pedidas e ainda fallar do movimento das grandes casas proximas, fazendo de relance, num quadro comparativo, o realce do armazem de Francisco Theodoro.
E, nesses dizeres simples, havia entre os dois homens como que uma chammazinha, brilhando tonta, faisca de ambição assanhada pelos successos proprios e alheios.
Ambos amavam a casa, ambos a queriam ver no plano mais alto.
_Seu_ Joaquim, lá comsigo, attribuia a prosperidade do negocio ao tino da sua gerencia, experta e positiva. A seu vêr, a gente do escriptorio era inepta e não contribuia em nada para o exito do negocio.
Julgava-se figura predominante, indispensavel, e usava por isso de impertinencias, que Theodoro tolerava, em desconto do serviço.
Quando o gerente descia a escada do escriptorio e voltava para o armazem, Francisco Theodoro reclinava-se na sua cadeira e ficava pensativo. Na sala proxima as pennas dos empregados rangiam nos livros e o rumor das folhas que viravam era ás vezes o unico que se ouvia.
Naquella grande paz da fortuna conquistada, Francisco Theodoro sonhava então com viagens demoradas, largos periodos de abstracção.
Vinha-lhe o cançaço.
Todavia, se reflectia nisso, recuava, com a certeza de que lhe seriam inaturaveis os dias sem aquella confusão de trabalho, longe d'aquella atmosphera carregada e das tantissimas preoccupações do seu commercio. A esse desejo indeciso, que com tanta justiça o seu corpo e o seu espirito fatigado reclamavam, mesclava-se agora uma febrinha nascente, que o incitava a novas emprezas e que elle combatia com animo e juizo.
Oh! se o Mario fosse um homem, se tivesse geito e coragem para aquella vida ... com que satisfação elle o sentaria no seu logar e lhe mostraria o caminho já feito, facil de percorrer!
Fôra bem castigado o seu desejo de ter um filho, não pelo filho, mas pelo orgulho da continuação d'aquella casa, que levaria o seu nome a outras gerações. Viera o filho e voltava as costas á fortuna.
A casa passaria a mãos extranhas, ou teria de morrer com elle...
Era o que lhe custava, deixar a melhor obra da sua vida, em que tinha concentrado tamanhos sacrificios, sonhada nos seus tempos de tropeções pelas ruas, e executada depois aos bocadinhos, no esforço de uma vontade energica, a gente que a pagasse, como uma coisa qualquer, e lhe mudasse o nome.
Como era bemsoante aquelle--Casa Theodoro--um rythmo de ouro!
Naquella rua, de casas ricas, ella seria a mais rica, se o Gama Torres não se tivesse posto adeante, ajudado pela mão do diabo, que a de Deus só auxilia os homens de longos trabalhos e bellos exemplos.
O que dera fortuna ao Torres? O jogo. Sabia-se agora, por toda a cidade, que elle jogava na Bolsa como um doido. O resultado ahi estava--magnifico; mas não poderia ter sido pessimo?
Certamente, concluia elle comsigo,--não é a isso que se chama ser bom negociante; obra do acaso, nem mais nem menos...
Chegara a hora do café. O primeiro a entrar nesse dia foi o Lemos. As carnes pesavam-lhe; sentou-se logo.
--Então como vae isso, Seu Theodoro, han?
--Bem... Muito trabalho.
--É o que se quer. Eu tambem não paro. Mas quer saber quem vae mesmo de vento em pôpa? O Innocencio; O ladrão tem mão certeira; não erra o tiro! Vi-o hoje fazer grandes transacções com a maior fleugma. O dinheiro não lhe escalda as mãos. Elle vem ahi; deixei-o lá embaixo a conversar com um sujeito. É um finorio de marca.
--É experto, é.
Minutos depois o Innocencio Braga entrou, trefego e alegre, em companhia do Negreiros, que subira para tratar de um negocio, e, emquanto este se entretinha com Theodoro, o Innocencio dizia, voltando-se para o Lemos:
--Hoje é para mim um dos dias mais felizes da minha vida! Imagine que recebi carta do meu procurador, dizendo já ser minha uma quinta lá da minha aldeia, e que eu ambicionava desde rapazinho...
--Terras de trigo?
--Não é por isso. A propriedade só dará despezas. Comprei-a por vingança. O dono era um fidalgo d'esses velhos, de raros exemplares. Por uma questão estupida maltratou meu pae. Eu era pequeno, mas não me esqueci da offensa. Os dias passaram; o fidalgo arruinou-se, e o filho do meu velho ganhou o bastante para fazel-o assignar, ainda que de cruz, as escripturas que lhe dão direito á posse da sua quinta. Meu pae já se installou no palacio; o diacho é que, pelos modos, elle não se acostuma á ociosidade e vae para o campo mondar o linho com os empregados ... não faz mal, é o dono.
--Realmente, foi um acto de amor filial, muito digno ... murmurou o Lemos, assoando-se com estrondo.
Isidoro entrou com o café e a conversa generalisou-se.
--Então, senhor Theodoro, é verdade que o Joaquim é seu interessado?
--É...
--Inda bem. Você não parecia portuguez, homem; você parecia inglez!
--Porque?
--Por não querer socios. Um casão d'estes póde enriquecer muita gente. Olhe que é um erro isto de querer tudo para si.
Sim, pensou Francisco Theodoro, a vida é curta, e uma fonte cavada com tanto esforço é justo que dê agua com abundancia para muitas sêdes...
Já o Isidoro recolhia as chicaras quando entrou o João Ramos, a bufar de calor. Pediu noticias da saude de todos e mesmo antes de ouvir as respostas vasou quanto sabia acerca dos negocios. Vinha da casa do Lessa, que auferira lucros extraordinarios de uma especulação de café. Elle tambem se mettera em grandes emprezas; sacou papelada que lhe enchia os bolsos e representava muitos contos de réis.
Innocencio Braga citava nomes de pobretões tornados em millionarios, com a alta, quando João Ramos o interrompeu, consultando os amigos se deveria acceitar a presidencia de um banco. Elle hesitava...
Innocencio aconselhou-o a que accedesse. O cargo era de prestigio. Depois, o tempo effervescente do jogo tinha passado. As transacções agora faziam-se com mais segurança. Tambem elle tinha em formação um grande projecto...
Theodoro suffocava; não ouvia fallar noutra coisa. O seu visinho da esquerda e o seu visinho da direita passavam, quantidades fabulosas de libras para a Europa, ganhas no azar do momento. E elle?
As suas reflexões tomaram um curso tristonho. Trabalhara tanto, para afinal alcançar o que os outros adquiriam com um gesto!
A pouco e pouco os seus amigos mais circumspectos iam-se atirando á voragem da Bolsa. Afortunados, como se mão invisivel os guiasse, ganhavam quasi sempre. Só elle resistira, firme nos seus principios de moral e de economia. Mas o contagio da febre manifestava-se já nos primeiros arrepios da tentação.
Francisco Theodoro reflectia...
Quando os amigos sahiram, elle caminhou machinalmente para a janella.
Olhou: embaixo a pretinha velha varria pressurosa a calçada, ajuntando o café da rua. Carregadores sahiam-lhe da porta, vergados ao peso das saccas. Os carroções passavam cheissimos, com estardalhaço, chocalhando ferragens, e um rumor compacto de vozes levantava-se no ar espesso, engrossado de pó.
Era o trabalho, que passava, ardente e esbaforido.
D'aquelle esforço surgiria a redempção do povo. É com suor e lagrimas que se fertilisam os melhores campos.
Da enxada, que fatiga o braço e rasga o seio do barro, é que deriva o bem da humanidade, a agua que mata a sêde e a arvore que dá sombra e se desmancha em flores.
Abençoados os que não fraqueiam e podem ao fim da existencia erguer bem alto a cabeça sem respingos de vicio. Esses não terão patinhado na enxurrada enganadora, esses dirão aos filhos:
--Olhem para a minha vida e façam como eu fiz.
Era o que pensava Francisco Theodoro, querendo agarrar-se á sua fé antiga, que temia cahisse agora, abalada pela ventania d'aquelles dias de loucura.
VIII
Na saleta de engommar, Noca, com o ferro na mão, sabia do que se passava em toda a casa. Nesse dia ella trouxera uma braçada de roupas para cima de uma cadeira junto da taboa. Lia e Rachel interromperam-n'a depressa.
--Noca, você corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia.
--E outro para a minha, Noca?
--Vão-se embora. Hoje não tenho tempo para conversas.
--Um só, Noca, sim?
--Não faço nada! Amanhã seu pae está ahi gritando que não tem roupa!
Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se nella e a Noca não teve remedio senão cortar os vestidos das bonecas e ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribuido o serviço, levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe; mas a mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade d'aquella creatura.
A culpa era do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores quanto mais estes a afagam. Por isso ella morria de amores por Mario, um rapazinho atrevido, de genio authoritario e palavras duras.
Começava a alisar a primeira camisa do patrão, quando o Dionysio se acercou da taboa.
--Agora é que você está chegando, Dionysio?!
--É Fui levar um recado de _seu_ Mario... A senhora já sabe que elle deixou a franceza? Esta agora é mais bonita; é uma carioca de se lhe tirar o chapéo!
--Ora veja só, como Dionysio está tolo... Ella apontou as creanças, que poderiam ir mexericar lá para dentro. E depois:
--É loura ou é morena?
--Morena, altinha, muito _chic_.
--Bem. Vá arrumar o quarto de Mario, ande.
Mal sahiu o Dionysio entrou a criada Orminda, uma caboclinha de olhar sonso.