A fallencia

Part 13

Chapter 134,010 wordsPublic domain

Na egreja, a tia fez reverencia a todos os altares, com uma oraçãozinha na ponta da lingua para cada um; Ruth seguiu até o altar-mór e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma supplica, um appello para a misericordia de Deus. Entre o altar, onde um ramo de flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores, foi-se esboçando pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De mãos postas, Ruth pediu á Virgem uma bençam para a negra, um pouco de piedade, um refugio, uma consolação. Até alli que sabia das miserias do mundo? nada. Aquella noite do Castello, tão simples, tão monotona, fora uma revelação! Era bem certo que a lagrima existia, que irrompiam soluços de peitos opprimidos, que para alguem os dias não tinham côr nem a noite tinha estrellas! Ella, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a _saudade do céo_, como dizia o Dr. Gervasio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.

E aquella mesma magua parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se á outra, a Sancha, da sua edade, negra, feia, suja, levada a ponta-pés, dormindo sem lençóes em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanço nem paga!

Porque? Que direito teriam uns a todas as primicias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?

Sabia a historia da Sancha: uma negrinha vinda aos sete annos da roça para a casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos ultimos rebentões d'essa raça que vae desapparecendo, como um bando de animaes perseguidos.

E tudo d'ella repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a côr, a fórma, o cheiro; mas percebera que tambem alli havia uma alma e soffrimento, e então, com lagrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao grande Pae misericordioso, porque a criara, a ella, tão branca e tão bonita, e fizera com o mesmo sopro aquella carne de trevas, aquelle corpo feio da Sancha immunda? Que reparasse aquella injustiça tremenda e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra.

--Sim, o coração d'ella deve ser da mesma côr que o meu, scismava Ruth, confusa, com os olhos no altar.

Quando acabou a missa, tia Joanna quiz fazer a sua penitencia, umas corôas de rosario que ella disse a meia voz, de olhos cerrados.

Ao sahirem do convento, dois frades retiveram a velha juncto á pia de agua benta, interessados pela sua saude, cobrindo-a de bençams e de boas palavras. Fóra, já o sol irrompêra victorioso, estraçalhando os ultimos farrapos de neblina.

A velha lembrou a Ruth que ainda teriam tempo de ir morro abaixo até a egreja do Carmo.

Ruth não respondeu; deixou-se levar. Mais valia andar de egreja em egreja do que voltar para o triste casarão da tia Itelvina.

--Você conhece a egreja do Carmo?

--Não, senhora. Ouço sempre missa na capella do collegio. Não gósto das egrejas grandes.

--Porque?!

--Não sei...

--Ora essa!

--Tia Joanna, ha muita coisa que eu sinto e que não sei explicar. Á senhora não acontece o mesmo?

--A mim? não; nem a mim nem a ninguem. Quando a gente diz que gosta ou não gosta de uma coisa, sabe sempre o motivo por que o diz.

--A senhora reza da mesma maneira em uma egreja grande, sombria e fria, que em uma egrejinha clara e enfeitada de flores?

--Certamente. Deus tanto está nas grandes como nas pequenas egrejas. Elle está em toda a parte.

--Mas se Deus está em toda a parte, porque abandona certas pessoas?

D. Joanna estacou.

--Não diga heresias, menina! Deus não desampara ninguem.

--E a Sancha?

--Hein?

--A Sancha.

--Lá vem você com a negrinha!

--Negra ou branca, é creatura.

--Não digo que não. Mas que falta á Sancha?

--Oh, tia Joanna! pergunte antes o que lhe sobra...

--Você é muito impressionavel. Creia que a pequena não é infeliz. Que seria d'ella, se não estivesse lá em casa... Uma desgraçada, d'essas da rua. Talvez que bebesse, ou que já estivesse com um filho nos braços.

--Estar com um filho nos braços! mas isso seria uma fortuna, tia Joanna. Tomara eu.

--Menina, que é que você está dizendo!

--Gosto tanto de creanças! Olhe, tia Joanna, o meu desejo é ter vinte filhos, vinte!

A velha corou.

--Perdôo essas palavras, porque você é innocente; mas não torne a repetil-as, ouviu?

Ruth scismava em que constituiria peccado o ter vinte filhos, quando D. Joanna exclamou, apontando para duas creanças, carregadas uma com uma harpa, outra com uma rabeca:

--Olha, Ruth; aquellas, sim, é que são infelizes: andam ao sol e á chuva, e se não levam dinheiro para casa, ainda apanham por cima.

--Não as compare á outra, tia Joanna. Eu preferiria andar sempre ao ar livre, apanhando soes e chuvas, tocando no meu violino, dormindo em qualquer soleira de pedra, do que viver no borralho como a Sancha. Ao menos estes teem a musica.

D. Joanna riu-se.

--É verdade; quando você toca esquece tudo.

Chegaram á egreja; a missa tinha começado. Ruth deixou-se ficar sentada no banco, sem attender aos puxões que a velha lhe dava, para que se ajoelhasse. Para que, se tinha exgottado o ardor da sua alma na primeira missa do convento? Sentia-se agora cançada, apertavam-lhe as saudades da mãe e da alegria da sua casa. Como lhe pareceu interminavel aquella missa, que a velha ouvia toda de joelhos, num extase!

Findo o sacrificio, D. Joanna quiz levar esmolas a todas as caixas da egreja.

Ruth apressava-a, morta por se ver na rua, mas a tia nem parecia ouvil-a. No adro lembrou ainda:

--Já que estamos cá embaixo, vamos a Santa Rita saber noticias do padre Euclydes, que está doente.

Ruth objectou:

--Mas titia, eu estou com fome...

--Tem razão, filhinha; mas é um momento só. O sacristão nos dará informações e seguiremos logo para casa.

Em Santa Rita, rezava-se uma missa de setimo dia. Gente de preto cobria as naves como um bando de urubus. O sacristão procurado ajudava á missa, e não havia ninguem na sacristia que soubesse do padre Euclydes. D. Joanna deliberou esperar e empurrou a sobrinha para o corpo da egreja, dizendo:

--Rezemos por alma d'este morto, filha.

--Mas nós nem o conhecemos, titia!

--Não faz mal; foi um peccador, precisamos salval-o.

Tia Joanna ajoelhou-se e ergueu o rosto gordo e pallido para o altar. Era tal a fé, a doce piedade que a sua expressão diffundia, que Ruth deixou-se cahir de joelhos e pediu a Deus perdão para a alma d'aquelle desconhecido, por quem tantas mulheres choravam...

Que Deus lhe desse abrigo e eternos gosos!

Emfim, o sacristão affirmou á senhora do Castello, como muita gente a chamava, que o padre Euclydes entrara em convalescença, e diria no domingo a sua missa.

--Bem, titia, chegou a minha vez de lhe pedir tambem uma coisa; disse Ruth.

--Peça, filhinha.

--Já que estamos tão perto, deixe-me ir tomar a bençam a papae. A estas horas elle está farto de estar no armazem.

D. Joanna hesitou:

--Olhe que não é tão perto assim...

--Parece-me que já estou ha tanto tempo fóra de casa...

--Vamos lá... Que pieguice!

Tinham andado meia duzia de metros quando esbarraram com Francisco Theodoro, que vinha reçumando saúde e alegria pelas faces coradas, empertigado nos seus linhos e brins brancos, bem engommados, de que um paletot preto fazia resaltar a alvura.

Nos seus olhinhos pardos, muito claros, faiscavam lampejos; elle extendeu as mãos á filha, com uma exclamação de alegria:

--Senhora fujona, que faz por aqui?!

--Já enguli tres missas, papae; mas ainda estou com fome! Iamos agora procural-o ao armazem; eu queria tomar-lhe a bençam, para depois irmos almoçar...

Se papae nos levasse a um hotel?...

--Não posso. Tenho muito que fazer. Vou agora mesmo procurar o Innocencio Braga, que já deve estar á minha espera... Adeus.

E, abreviando, elle metteu na mão da filha uma nota de vinte mil réis, aconselhando ás duas que comessem qualquer coisa em um restaurante. E despediu-se á pressa, mal ouvindo os innumeros recados que a Ruth mandava á mãe.

D. Joanna lembrou-se que estavam perto da casa do Dr. Maia, e que mais valeria irem lá papar-lhe o almoço do que entrarem sozinhas em um restaurante. Ruth sorriu-se do escrupulo da velha, já contagiada pelas economias sordidas da irmã.

--Tanto me faz, tia Joanna; leve-me onde haja bifes, e eu ficarei contente; respondeu-lhe a menina.

Ardiam-lhe os pés; uma fadiga enorme amollecia-lhe o corpo; e entregava-se, inerte, á vontade da velha. Por fortuna, a casa do Dr. Maia era perto do largo, na rua dos Ourives, um sobrado antigo, de rasgados salões arejados, onde velhas mobilias bem espanadas attestavam o escrupulo dos moradores.

O Dr. Maia foi o primeiro a recebel-as, no corredor; muito velhinho, arrastando os chinellos bordados pela neta, com a gorra de velludo cobrindo-lhe a calva, e um bom sorriso hospitaleiro illuminando-lhe o rostinho claro e murcho, onde os olhos azues se iam velando da neblina da velhice.

D. Joanna era intima da casa, recebida sem cerimonia; e como a Ruth tivesse ar de menina, elle foi empurrando a ambas para a sala de jantar.

Só estava em casa a velha, a D. Elisa; a filharada debandara depois do almoço, uns para o emprego, outras para o dentista e as compras. Mas no fundo das cassarolas ainda havia restos de arroz e de ensopado; D. Elisa recommendou que estralassem uns ovos, e em poucos minutos D. Joanna e Ruth almoçavam, ao som de um discurso do Dr. Maia, que ia descrevendo com surprehendente enthusiasmo o seu invento de um balão dirigivel.

Elle não pensava em outra coisa; vivia em perpetuo vôo, entre altas camadas de atmosphera. Desde alguns annos se fixara nesses estudos e para elles fazia convergir todos os seus cuidados.

A mulher sorria-se com resignação imposta pelos mil desvarios que se acostumara a conhecer no esposo. Desde rapaz que elle fôra assim, mettido a emprezas oppostas á sua competencia. Tinha estudado para medico, e abandonara a clinica para defender réos desamparados, escrever para jornaes e desperdiçar forças e tempo na elaboração de grandes emprehendimentos que não levava a termo. Agora era o balão.

Aquelle velho de quasi oitenta annos, achacado de asthma, perdia horas de somno, curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma á sua ideia, em uma palpitação assombrosa de vida.

Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela innocencia d'aquelles ideaes. D. Elisa dizia ás vezes que se a alma, no seu ultimo vôo, tomasse fórma visivel, veriam, os que assistissem á morte do marido, que a d'elle lhe voaria do peito como uma borboleta. E toda azul! accrescentava ella, com o seu sorriso sympathico.

D. Joanna mal entendia as descripções do Dr. Maia, mastigando com difficuldade a carne um pouco dura, batida á pressa. Ruth abria os ouvidos e via esgarçar-se a neblina que a edade punha nos olhos do medico e ir-lhe apparecendo nas pupillas azues um brando fulgor de primavera. Ella percebia alguma coisa, via já o balão scindindo as nuvens, leve, airoso, vestido de côres luminosas. Como seria bom subir tão alto, tão alto!

--O meu balão será de aluminium, um metal levissimo, explicava elle, e todo redondo, gyrará em grandes circulos, como se dansasse uma valsa; percebem?

D. Joanna fez que sim com a cabeça, e espetou uma batata. Ruth murmurou:

--Assim branco e redondo, será como a lua ... que bonito!

Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposição do velho, que se despediu das senhoras e lá se foi para a sala pigarreando pelo corredor.

D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas domesticas. O marido exgottava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe valia era o filho mais velho, o José... A neta andava na Escola Normal e ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, já trintonas, coitadas, cosiam para fóra... Ahi estava a vida. E é assim, por ahi; toda a gente trabalha; accrescentou ella com um suspiro.

Quando D. Joanna e a sobrinha voltaram para o Castello, quem lhes abriu a porta de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota da negrinha não ouvira o seu conselho?

Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina alludia com escarneo mal contido ás grandezas do palacete Theodoro, e lamentava-se de só poder abastecer-se de generos baratos, espremendo-se em lamurias. D. Joanna benzeu o pão, rezou de mãos postas, e sentou-se á mesa com a sua consciencia feliz, e uma doce expressão de conforto. Para ella tudo era bom, estava tudo sempre muito bem.

Foi nessa noite que Ruth subiu com ella as escadas do Observatorio, para vêr as estrellas; e quando as viu, a sua commoção foi tamanha e tantas as suas exclamações, que a tia observou:

--Você é muito exaggerada, Ruth!

Ruth nem a ouviu; olhava embevecida. No céo, de um azul fechado, aquelles pontos de ouro tomavam formas e dimensões excepcionaes. Esta estrella era verde, aquella azul, aquella outra violeta, e uma como um _bouquet_ de variados matizes, e outra pallida, e outra affogueada, e outra diamantina, e todas immensas e luminosissimas. Oh! as estrellas, que belleza de céo! Sobretudo as do Cruzeiro eram formosas, limpidas como o clarão da fé. Depois, aquelles chuveiros de ouro e prata, aquelle fervilhamento multicor da via-lactea, raios de fogo dançando, cruzando-se, chispando em fagulhas de uma pyrotechnia phantastica... Depois a lua...

--Nossa Senhora, que immensidade!... Como é bonito! Oh! tia Joanna, como é bonito!

--Bom, bom; divirta-se...

Ruth não respondia; com o olho collado á lente, esmagada pela poesia d'aquelles esplendores, ficava embevecida, como se dos astros chovessem sobre ella aromas que a embriagassem.

--Filhinha, vamo-nos embora...

--Mais um bocadinho só ... oh! tia Joanna!

Nessa noite, deitada ao lado da tia na alcova mal allumiada e que tresandava a azeite de lamparina, Ruth via na imaginação impressionada as estrellas, globos enormes de crystal cheios de luz e cheios de flores, fulgurando e espargindo aromas. Já ella adormecia e ainda a tia lhe ouviu em um murmurio entrecortado:

--Como é bonito!

No dia seguinte, quando acordou, era tarde. Tia Joanna sahira sozinha para as devoções; nem a presentira. Tia Itelvina andava aos berros pela casa.

Ruth saltou da cama assustada e foi entreabrir a porta:

--Que é?

A tia respondeu-lhe com mau modo, em uma rebentina:

--A Sancha fugiu!

Um tremor de febre percorreu o corpo de Ruth.

Atirou-se para a cama, puxou os lençóes até a cabeça. Para onde teria ido a pobre, sózinha, sem conhecer ninguem? De quem seria a culpa se lhe acontecesse uma desgraça?... De quem, senão d'ella?... Ora! sempre seria mais feliz lá fora...

Quando nesse dia Noca appareceu no Castello, Ruth lançou-lhe os braços ao pescoço. Era a sua libertação.

D. Itelvina rabeava pelas salas e corredores, culpando a irmã, que se levantava fora de horas para a carolice e deixava a casa escancarada, provocando a negrinha para o assanhamento da rua.

Foi ao fragor d'essas invectivas que Ruth se despediu da velha, deixando-a sozinha no seu casarão, onde as catingas do rato e do mofo vagavam conjunctamente.

XV

Creanças, venham lanchar! gritava Nina para o jardim, ás gemeas, quando viu entrar a Therezinha Braga.

--Você chegou a boa hora, Therezinha, nós vamos tomar café. Entre.

--Estou com muita pressa; quero ver se vocês me emprestam o ultimo figurino.

--Mas nós não temos d'isso. Tia Milla manda fazer tudo fora...

--Manda a Noca pedir alli á casa do Dr. Nuno!

Nina vacillava, com vontade de servir a amiga; mas a mulata, que ouvira tudo da janella da copa, interveio com ar peremptorio:

--Seu Theodoro não quer que se peça nada á visinhança.

--Elle não precisa saber ... insistiu a Therezinha, ainda no jardim.

--Oh, xente! Porque é que a senhora não manda pedir os figurinos em seu nome?

--Porque estamos mal com o Dr. Nuno ... ora, você bem sabe!

--Eu não. Eu só sei que temos ordem de não incommodar a visinhança. Seu Theodoro não é para brincadeiras; quando põe a bocca no mundo vae tudo raso! Creanças! olhe só onde ellas estão!

--Vae buscal-as, Noca, que o café arrefece. Entra, Therezinha, talvez se possa arranjar alguma coisa...

--Esta D. Nina, não tem emenda! murmurou por entre dentes a mulata.

Servindo o café, Nina explicou á Therezinha:

--A baroneza da Lage está lá dentro; eu vou pedir-lhe que me mande logo os seus figurinos.

--É para o meu vestido de baile.

--Você mesma é que o vae fazer?

--Que remedio! Sabe de que côr são os das Gomes?

--Não...

--Amarellos! A Carlotinha pediu á modista que lhe decotasse bem o vestido atraz, para mostrar o signal preto da espadua ... é levada, a Carlotinha! Ninguem dirá, ás vezes, que é uma moça de familia: parece outra coisa...

--Está muito bonita, agora, depois que engordou.

--Mas cada vez mais maliciosa...

Nina não respondeu; mandava o copeiro servir o café á sala. Lia e Rachel entraram arrastadas pela Noca, tentando morder-lhe as mãos, muito pirracentas.

--Já viram só estas meninas como estão! Bem, D. Nina! dê todos os sonhos a Ruth.

Nina elevou, sorrindo, o prato de sonhos em direcção a Ruth, que se balançava em silencio numa cadeira, e então as creanças avançaram para a mesa, á espera do café.

--Ora graças!

Engulido o café, Therezinha declarou:

--Tenho muito que fazer; adeus, vou-me embora!

As gemeas fugiram tambem, com as mãos cheias de sonhos, para o jardim; Nina e Ruth ficaram sós, muito caladas, ouvindo as moscas voejar sobre os restos assucarados dos pratos.

De repente, Nina:

--Em que é que você está pensando, Ruth?

--Na Sancha.

--Que ideia!

--É que ninguem sabe! fui eu que disse á Sancha que fugisse. Tive tanta pena d'ella! Tia Etelvina é má: batia na negrinha com vara. Eu vi. A Sancha nem parecia gente; suja, desconfiada ... que estupida! Não sei como ella podia aguentar aquella vida. Fui eu que lhe disse que fugisse; e depois que ella fugiu, tenho medo que morra por ahi átoa, que não ache emprego, que se embebede ou fique embaixo de um bond... Até sonho com a Sancha. Que coisa horrivel!

Nina consolou-a. A Noca já lhe contara que a pretinha quizera envenenar-se; era menos burra do que parecia.

--Você é muito nervosa; deixe lá a Sancha, pense em outra coisa. Tia Milla ainda está no terraço com a baroneza da Lage ... vamos lá?

--Para que?

--Para fallar nos figurinos... Eu ando um pouco desconfiada com tantas visitas d'aquella senhora ... você tem reparado como ella cochicha com Mario?

--Não...

--Pois repare... A lesma da Paquita tem bom advogado!

--Mario não gosta d'ella.

--Quem disse?

--Elle mesmo, bem alto, outro dia na mesa. Você não ouviu?

--Ouvi...

--Então?

--Então? Quem sabe o que estará para acontecer!

Nessa tarde Camilla participava em segredo ao marido que a baroneza da Lage viera declarar-lhe o amor da irmã por Mario, e lembrar-lhe que o baile seria uma bella occasião para a apresentação dos noivos.

O negociante olhou boquiaberto para a mulher.

Ella disse:

--Elles desejam abreviar essa historia, porque o velho quer ir para a Europa.

--Mas é incrivel!

--Porque?

--Porque! porque o Meirelles é um homem pratico; não ha de querer entregar a filha a um rapaz sem profissão! Isso não pode ser. A Lage está doida.

--Você é injusto... Mario não tem profissão, mas pode vir a tel-a.

--Lá vêm cantigas! Pois sim! Aqui para nós: o rapaz não vale nada. Quem não trabalha, que garantia pode dar á familia?

--Elle é rico, e a Paquita ainda o é mais...

--Por esse lado approvo. O dote d'ella é bom, e a familia excellente. Se o Mario soubesse ser o que sempre desejei, pouco me importaria que se casase com mulher pobre. São as melhores; trazem a experiencia da vida. A experiencia da vida é um grande dote.

--Você falla com Mario?

--Eu?! eu não. Não concorrerei com o meu conselho para semelhante asneira. Arranjem-se; Que diabo! elle ainda não tem vinte annos. Falla-lhe tu ... se quizeres.

Francisco Theodoro passeava pelo quarto, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar as chaves.

--A Lage disse-me tambem que você entrou em uma grande negociata com o Innocencio...

--Como soube ella d'isso?!

--Não sei... Diz que a sua casa vae ser uma das mais fortes ahi...

--Tenho medo...

--Hein?

--Não é nada; está feito. Pois senhores, parece incrivel, elles querem mesmo o casamento?

--Então? Logo que Mario queira, será coisa para uns quinze dias. O Meirelles deseja levar os noivos comsigo. Bem pensado, Paquita teve bom gosto.

--Muito fresco! Olha: eu lavo d'ahi as minhas mãos.

--Logo vi... Mario já deve ter chegado; eu vou fallar com elle. Por emquanto é bom não dizer nada a ninguem.

--A quem o dizes...

Theodoro ficou só no quarto, mudando de casaco e de calçado, vagarosamente, com sentido no negocio que o preoccupava.

Como diabo teria a Lage sabido d'aquelle negocio com o Braga?

Abriu a janella e encostou-se.

De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a musica da crystallaria e da prata movidas pelo copeiro.

No grande lago do parque, de aguas renovadas, patos gordos desprezavam as migalhas de pão que a Rachel e a Lia, deitadas de bruços na relva sobre os bordados bem engommados dos vestidos, lhes atiravam ás mancheias. Sob a jaqueira enorme, carregada de fructas grandes como ubres tumidos, o cão de guarda preso á corrente, devorava uma enorme posta de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas, rebentavam em grellos viçosos ou se expandiam em flores, e pela rua de palmeiras, que ia ter á horta, o jardineiro vinha carregado com uma cesta de fructas e frescos pés de alface.

A terra suava de farta; não lhe faltava nem o adubo que lhe dá força, nem o ornamento que lhe dá graça. Afigurou-se então a Theodoro, com clareza, que a vida é uma coisa bem boa para quem vence e faz cahir sobre o terreno que o circumda a chuva de ouro fecundante.

No seu orgulho de homem sahido do nada, aquelle goso material da riqueza enchia-lhe a alma de uma especie de heroismo.

Era como se elle tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos alicerces do seu palacio até as mais exquisitas fructas do seu pomar e as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada á custa do seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfeição da planta lhe tivesse sahido de entre os dedos poderosos.

Em todo esse sentimento de conquista havia, a bondosa ingenuidade de ter sabido crear para os seus uma felicidade perfeita.

Nunca os filhos saberiam o que era uma infancia como fôra a sua, desagasalhada, errante; nunca a mulher saberia o que era ter um desejo sem esperança de satisfação, e a todos envolveria sempre o luxo, a abundancia e a alegria.

As copas das palmeiras desenhavam-se em fila na atmosphera limpida.

Uns passos rangendo na areia chamaram-lhe a attenção para baixo da janella: Camilla e Mario sahiam de casa para o jardim. Ella; alta, bem desenhada no seu vestido claro, andava de vagar; elle, com o peito florido por um fresco _bouquet_ de myosotis, as mãos nos bolsos, parecia ouvir a mãe com attenção a que não era afeito.

Seguiram ambos para o jardim da frente e deram volta á casa; quando os perdeu de vista, Francisco Theodoro desceu á sala de jantar; A mesa estava prompta; Nina, com o seu aventalzinho bordado sobre um vestido escuro, dava uns retoques á fructeira.

--O Dr. Gervasio almoçou cá? perguntou-lhe o tio.

--Como sempre.

--Virá jantar?

--Creio que não...

--É o diacho ... eu precisava fallar-lhe!

--O seu empregado está peior?

--Parece-me que sim ... coitado...

Nina suspirou, e da fructeira passou ás flores da jarra, pensando no velho Motta, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa:

--Quer que eu mande tocar a sineta?

--É bom esperar um pouco; tua tia está em conferencia com o Mario. De maneira que o Gervasio não voltará hoje por aqui?

Nina não respondeu, o coração batia-lhe com força. A ideia da Lage deu-lhe o presentimento da verdade. Seria certo, Deus do céo, que Mario se casaria com a outra? Conferencia com elle... para que?