Part 12
E repellia da lembrança as palavras, a meia confissão do medico, que tornavam o facto positivo e doloroso. A visão esgarçava-se. Gervasio não a deixava tomar corpo.
Elle agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora elle quem determinara a transformação de duas alcovas inuteis em uma sala de musica, em que essa applicação fosse indicada por pinturas a fresco; foi elle quem contractou artistas, quem escolheu mobilias novas e harmonisou o conjuncto em todas as peças. Tudo que sahia das suas mãos parecia a Camilla perfeito.
Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanço. Vigiavam tudo. As gemeas, atiçadas pela balburdia, contentes com a novidade, atiravam-se por entre os utensilios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se da desordem que provocavam.
Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito.
Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz.
Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um avestruz.
Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes, estacou surprehendida.
De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús, soprando em longos flautins de ouro.
A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce, porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças, que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento.
Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos.
Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas de filó batiam tremulas.
Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um paiz de sonho.
Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em flechas de sol.
Tão embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o Dr. Gervasio entrou e lhe bateu no hombro, ella respondeu, sem desviar a vista da parede:
--Estou gostando de vêr...
«A quem diabo teria sahido esta pequena?!» pensou comsigo o medico, ao mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho do pintor. E não lhe agradou completamente o trabalho; torceu os labios, descontente.
Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significação d'aquelle gesto, elle respondeu:
--Não tive talvez razão; a minha exigencia torna-me incontentavel e injusto. Eu já sabia que o artista não é genial; portanto, não podia esperar d'elle uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos tenha uma perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? Não digamos isso aos outros, que os outros nada verão. A côr é bonita, o effeito é gracioso, basta. Já é uma felicidade haver alguma coisa...
--Eu, como não entendo, acho bonito. Estou até com vontade de pedir a mamãe que me mande ensinar pintura...
--Não se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte só, é raro haver quem a sirva dignamente. Estude só musica, só musica e não pense em mais nada...
Passados dias dava-se por finda a decoração da sala e Ruth voltou a não encontrar geito de estar dentro de casa, no meio da balburdia dos trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balanço, ou no caramanchão das rosas amarellas, fazendo do parque o seu salão de musica e de leitura. Ensinava as gemeas a trepar ás arvores ou coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, á guiza de azas.
Um dia, porém, a confusão chegou ao proprio parque. Abriam um novo lago e alteravam o desenho dos relvados para os effeitos da illuminação. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre os canteiros, fallando alto, gesticulando afanosos e zangados.
Não tendo já para onde fugir, Ruth pediu á mãe que a mandasse com a Noca para o Castello. Passaria dois dias com as tias velhas. A tia Joanna promettera-lhe historias de santos e leval-a ás egrejas e ao Observatorio para vêr a lua e as estrellas.
Era a occasião.
Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, D. Itelvina contava, no oratorio, os nickeis arrecadados pela irmã, em esmolas para uma missa rezada.
D. Joanna tinha ido á novena do Rosario, nos Capuchinhos, e entoava a essa hora o--_ora pro nobis_ em côro com o povo e os frades.
Ruth sentiu frio naquelle casarão do Castello, de largas salas encebadas, sem cortinas, quasi sem mobilia, com papeis sujos nas paredes desguarnecidas; mas a ideia de ir ao observatorio tentava-a, e valia todos os sacrificios. Ficaria.
Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa em frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu, perguntando pela sua encommenda.
--Que encommenda, gente?
--A senhora já se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o arsenico que eu pedi...
--Uê! você está maluca! eu já nem me lembrava d'isso! Tome o seu dinheiro; não foi quinhentos réis que você me deu?
--Foi; mas eu não quero o dinheiro, quero a outra coisa...
--P'ra quê? ora veja só! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein?
A negrinha poz as mãos, em um gesto supplice.
--Não diga nada...
--Você é tola!...
A negrinha suspirou baixo e murmurou uma phrase que não pôde ser ouvida, porque D. Itelvina apparecera, de olhar desconfiado e narinas dilatadas farejando mysterios.
D'ahi a instantes, no canapé da sala, Ruth respondia ao longo questionario da tia, que lhe apalpava a lã do vestido, achando desperdicio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um annel de perolas, e a consistencia das fitas de setim do seu chapéu de palha. Das presentes passou ás coisas ausentes, em perguntas miudinhas e torpes:
--O Dr. Gervasio ainda vae lá todos os dias?
--Vae, sim, senhora.
--Hum... Diga-me uma coisa: Mario continua a fazer dividas?
--Não sei...
--Camilla sae sozinha?
--Ás vezes sae.
--Porque é que você não vae sempre com ella, hein?
--Eu tenho que estudar.
--Não fica bem uma senhora sahir só...
Ruth contemplou-a, estupefacta.
--As más linguas fallam. O palacio de Petropolis está prompto?
--Está quasi prompto. Nós vamos para lá este anno.
--Em quantos contos está?
--Não sei, não, senhora...
--O Dr. Gervasio vae tambem?
--Acho que não.
--Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de olho?
--P'ra Nina? não, senhora.
--Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz que estão reformando tudo! é verdade?
Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço, as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o vestibulo...
D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um sorriso torto:
--Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar.
Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor. Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender...
Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella!
D. Joanna entrou, gemendo de cançaço.
--Olha, maninha, quem está aqui! disse-lhe a irmã.
--Que milagre! exclamou D. Joanna, abrindo os braços para Ruth, que se precipitou nelles, morta por se ver livre da seccura aspera da outra tia.
--Quem foi que trouxe você?
--Noca... ella vem-me buscar depois de amanhã bem cedo ... mamãe não queria dar licença, tinha medo que eu incommodasse; mas tanto pedi, tanto pedi...
--Esta casa é muito triste. A alegria passou por aqui ha mais de trinta annos, mas não deixou signal. Sancha! tira as minhas botinas. É muito triste esta casa ... filha... Estamos tão velhas...
Sancha ajoelhou-se. D. Joanna extendeu dois pés inchados, calçados a duraque, e quando a negrinha lhe puxou e tirou as botinas, ella gemeu: primeiro de dor, depois de allivio.
--Vae buscar as chinellas... Pois você fez muito bem em vir... Amanhã poderá ir commigo á missa, á tarde á novena e...
--E á noite ao Observatorio. Foi por causa do Observatorio que eu vim. Dr. Gervasio escreveu ao director, apresentando-nos... Estou com uma curiosidade!
--Mas...
--Não temos mas, nem pêra mas, titia; faça a vontade á sua sobrinha, sim?
Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampeão de kerozene com um fetido horrivel. D. Itelvina sahiu da alcova, atravessou a sala, e sumiu-se na guella negra do corredor.
Ruth sentia-se mal naquelle canapé alto, de assento afundado. Foi á janella, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe historias de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joanna não se fez de rogada.
As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeitiçavam a imaginação, arrepiavam agora Ruth, naquella meia sombra, num ambiente tão diverso do que lhe era habitual.
Os cilicios, as caldeiras fumegantes, as fragoas accesas do inferno, a nudez das virgens martyres, as cruzadas para a Terra Santa, lanças flechando o ar abrasado, exercitos comidos pela peste ou esmagando judeus, os grandes votos solemnes, os ritos crueis, as perseguições injustas, os gritos de misericordia, todas as agonias e todos os extasis, que a velha relatava, para a victoria da Fé christã, assombravam Ruth, que toda se cosia á tia, olhando desconfiada para a vastidão sombria do aposento mudo.
Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas indecisas de animaes phantasticos; seriam talvez os porcos babosos das lendas satanicas, os dragões flammiferos, ou os magros cães de focinho erguido a uivar...
--Tia Joanna, tia Joanna!
--Que é isso, minha filha?!
--Eu estou com medo ... conte outra historia mais suave...
--Não se espante, menina! São as grandes dores, o sangue e a morte que ensinam a Fé. Quem não soffre não comprehende o céo, Ruth! Ainda hontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras.
--Mas, o céo assim é feio, tia Joanna...
--Cale a bocca!... espere ... quero vêr se me lembro de uma lenda muito antiga, que já tem corrido mundo, mas que é bem verdadeira e bem simples.
--Em que não haja nem fogueiras nem sangue; sim?
--Nem sangue, nem fogueiras:--Foi um dia...
XIV
«Foi um dia uma freira pallida, muito moça, muito linda, temente a Deus e devotada á Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho, de rigidas penitencias, isolado em cima de um rochedo.
Da frecha gradeada da sua cella, a freira só via: em baixo, a pedraria negra, e além charnecas brancacentas a perder de vista.
Uma tristeza.
No claustro, para onde deitava a sua cella, mesmo no angulo perto da portaria, havia uma imagem de marmore representando Nossa Senhora, tão doce, tão humana, que mais parecia creatura viva. Sempre que soror Pallida deslisava pelo claustro, fazia á Virgem uma reverencia profunda e murmurava:
--Ave!
E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul.
Uma noite, soror Pallida, depois de rezar o Bemdicto, desabotoava o seu habito branco para dormir um somninho innocente, quando lhe pareceu ouvir o seu nome na janellinha. «Ha de ser o vento...» pensou ella, tirando a cruz e o véu.
Não era o vento; a mesma voz, mais distincta agora, repetiu-lhe o nome. Soror Pallida quiz resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera tão doce, nem tão suspirado; assim, levada por curiosidade, ou não sei porquê, foi-se approximando, foi-se approximando...
Tão depressa chegou, Jesus! que havia de vêr?
Suspenso nos varões de ferro, o capellão do convento olhava para ella, com dois olhos que nem duas estrellas.
--Senhor capellão, porque estaes ahi? perguntou ella afflicta, pondo as mãos tremulas.
--Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe elle.
E logo de mil modos começou a tental-a.
Taes coisas disse, taes coisas fez, que a pobre o escutava embevecida. Chamou-a linda, meiga, angelica, e por fim (vê a perfidia!) pediu-lhe que o beijasse, que o beijasse na bocca ou que elle se despenharia no abysmo...
A freira debatia-se: que não!... mas, para não o vêr morrer despedaçado no rochedo, vá lá, condescendeu em beijal-o. Louca! que fizeste? foi a tua perdição! Elle sumiu-se, e ella ficou de joelhos, muito tremula, muito alvoroçada.
Em vão coseu cilicios ás suas carnes, em vão se rojou pedindo a Deus que lhe apagasse da memoria aquelle peccado doce e horrendo; em vão! O beijo alli estava sempre nos seus labios, sentia-o quente, perfumado, embriagador.
Soror Pallida já não era a mesma; perdia o sentido das rezas, tinha deliquios, abstracções.
O moço capellão voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a a que fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares cheirosos e aguas crystallinas.
Ella recuava, com temor de tamanho crime; mas elle extendia-lhe os labios e convencia-a de que o amor vale mais que o céo, mais que a perpetua bemaventurança, mais que tudo!
E tornava a supplicar-lhe que fugisse: elle a esperaria juncto á portaria, com os cavallos promptos, mais rapidos que o vento.
Sabe-se como essas coisas são: máo é dar-se ouvidos a primeira vez. A freira já não pensava senão em varar aquellas charnecas longuissimas ao galope de um cavallo ardego, sentindo palpitar o coração do seu cavalleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, subtil e tremula, deslisava para a portaria com a tenção de fugir, esbarrava com a Virgem, fazia-lhe a sua reverencia profunda, murmurando contrictamente:--Ave!--e passava; mas, oh! surpreza! a grande porta do convento desapparecera, e na portaria, como em todo o claustro, só havia grossas paredes impenetraveis.
Soror Pallida voltava attonita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho azul.
Por serem sempre as flores presentes de namorados, o moço capellão levava todas as noites rosas á sua eleita. No outro dia toda a communidade entoava:
--Milagre! milagre! a Irmã da Virgem recebe rosas do céo. Os anjos trazem-lhe flores do Paraiso, como a Santa Dorothéa!
Assim acreditavam, visto que só cardos e espinheiros bravos nasciam em redor, por aquellas penedias.
E entoavam hymnos.
Cançado de esperar, por uma noite trevosa e triste, o moço capellão aconselhou a freira a que passasse de olhos fechados pela Virgem, rosto voltado para a outra banda.
Assim fez a louquinha, mas de coração apertado em muita agonia. D'essa vez achou a porta do convento mal fechada: dir-se-ia que ferrolhos e trancas, (e que taes eram ellas! ) se abriam de per si. Foi por isso que a freira fugiu para a noite negra, com o seu habito branco...
Depois...
Só no fim de um anno, quando elle se cançara de a amar, foi que a misera percebeu que o seu cavalleiro não era o capellão--mas o diabo em pessoa! Arripiada, transida de medo, fugiu por montes e valles, de cruz alçada, balbuciando preces, com o fito no convento e em redimir-se com arduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, leguas e leguas, por mattaria espessa, mal se sustendo nas pernas fracas e nos pés ensanguentados, até que á luz frouxa de uma madrugada viu um dia os penhascos abruptos do convento, e cahiu de joelhos, persignando-se.
Finda a oração, ergueu-se. Passava então pela estrada um velho muito velho, de bordão e saccola, e ella perguntou-lhe se não ouvira fallar em uma religiosa fugida do convento um anno antes?
--Nenhuma freira fugiu nunca d'aquelle convento, respondeu elle; são todas umas santinhas, louvado seja o Senhor!
--_Amen_! Entretanto ... ouvi dizer que uma das irmãs, que recebia rosas...
--A do milagre!? ah! essa! É a mais pura... Ide vêl-a, Ide vêl-a se soffreis. Essa até dá vista aos cegos e faz andar os paralyticos.
Com vivo espanto, a freira galgou a encosta pedregosa e, toda a tremer, com o coração aos pulos, bateu á porta do convento.
--Quem é? perguntou de dentro uma voz dulcissima.
--Uma peccadora arrependida, para a penitencia--sussurrou soror Pallida, lavada em pranto. E confessou logo alli os seus desatinos...
A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos enferrujados estavam de velludo,--e a rodeira mostrou se com um sorriso á freira apoquentada.
Oh! aquelle sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os joelhos, na profunda reverencia antiga, murmurou com immensa compuncção e infinita doçura:
--Ave!
A Irmã rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara a fórma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam: badalando os sinos, varrendo os claustros, accendendo as velas dos altares e arrumando os gavetões da sacristia.
--Toma o teu habito, disse-lhe Nossa Senhora, e vae para a tua cella... Descança, que ninguem soube do teu opprobrio, ninguem!...
Soror Pallida prostrou-se e uniu humildemente a face á lage fria; depois, erguendo o rosto inundado de lagrimas, perguntou soluçando:
--E Vós, Mãe Santissima?!
--Eu? Perdoo, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, já dentro do seu nicho azul...»
Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o lampeão fumarento. D. Itelvina só usava mate, que sempre era de maior economia. Sentaram-se. Ruth mal enguliu a sua chicara. Pensava em soror Pallida.
Nessa noite teve de sujeitar-se a dormir com a tia Joanna. Lembrando-se das pernas inchadas da velha, teve um arrepio e saudades do seu leito branco coberto de filós delicados. A tia mexia-se, benzia todo o quarto, rezava a meia voz, sacudia a roupa que toda cheirava a incenso, e com a vigilia da velhice perturbava o somno da menina. Foi no meio do silencio da casa, que irromperam de repente, lá do fundo, uns gritos lancinantes.
Ruth sentou-se na cama, com os olhos arregalados.
--Que é isto, tia Joanna?!
--Não é nada ... ha de ser a maninha batendo na Sancha...
--Meu Deus!
--Não é nada, dorme, minha filha!
--Oh!... tia Joanna, vá lá dentro ... peça a titia p'ra não dar na coitada!
--Eu?! não ... a negrinha merece ... maninha não gosta de intervenções... Sancha faz espalhafato á tôa.
--Vou eu.
Ruth, em fraldas de camisa, de pernas núas, saltou para o chão, com um movimento de colera, e sahiu para a sala de jantar; já não havia luz; guiada por uma claridade frouxa, do fim do corredor, correu para a cozinha, onde a D. Itelvina surrava a pequena com uma vara de marmelleiro.
A negrinha mal se livrava com os braços, tapando o rosto e abaixando a cabeça. Ruth saltou para o meio do grupo e segurou a vara que ia descahindo sobre a carapinha da outra.
--Isso não se faz, tia Itelvina! isso não se faz! gritou ella com impeto, crescendo para a tia, que estacara boquiaberta.
--Você não tem nada com o que eu faço. Este diabo botou de proposito gordura na agua do meu banho ... eu sei porque dou. Ella merece. Ruth, vá dormir.
--Não vou; mande a Sancha deitar-se primeiro. A senhora não tem coração?!
--Ora vá-se ninar! Sancha, p'r'aqui!
A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fogão, e exaggerava as dôres, torcendo-se toda, amparada pela compaixão da Ruth.
D. Itelvina avançou os dedos magros, e, agarrando-a por um braço, puxou-a para si; a sobrinha então abraçou-se á negrinha, unindo a sua carne alva, quasi núa, ao corpo preto e abjecto da Sancha.
--Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ella, em um desafio nervoso, sacudindo a cabelleira sobre os hombros estreitos.
D. Itelvina atirou fóra a vara e disse para a negra:
--Vae-te deitar, diabo! foi o que te valeu... Mas nós havemos de ajustar contas...
Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos faziam bulha, e Ruth, arrepiada, tremula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joanna.
A velha amarrava um lenço na cabeça. A sobrinha interrogou-a:
--É sempre assim?
--Não ... uma vez ou outra.
--Mas como podem viver neste inferno?!
--Ora, você não sabe. A Sancha provoca. Maninha anda desconfiada que ella lhe deita vidro moido na agua, e na panella ... é uma coisa ruim. E ladra, ih! Você sabe o meu genio, não sei guardar chaves... Pois é raro o dia em que a Sancha não me fique com alguns tostões das missas... Maninha corrige-a para bem d'ella. É um sacrifício... Eu não teria paciencia para a aturar.
--A Sancha vae amanhã commigo para casa.
--Está doida, menina! e quem nos ha de fazer o serviço?
--Aluguem uma mulher.
--Ruth ... você é muito creança ... não pense na Sancha. Ella faz tudo quanto pode para excitar maninha... Eu se digo, é porque sei. Ainda hontem queimou-lhe de proposito os chinellos novos, com o pretexto de os ir seccar ao fogo. A minha roupa, lava ella; a da maninha deixa-a apodrecer na beirada do tanque. É uma coisa ruim!... não pense mais nella. Durma...
Mas Ruth não podia dormir; e quando de madrugada a tia Joanna se levantou para ir á missa das Almas, ella saltou da cama, para ir tambem.
Antes de sahirem, foram á cozinha procurar café, e lá encontraram a Sancha a accender o fogo, assoprando com força. Foi então que Ruth se chegou para ella e, pousando-lhe a mão no hombro, disse alto, sem medo que a tia Joanna a ouvisse:
--Sancha, porque é que você não foge?
A negrinha ergueu o busto e fixou a mocinha com pasmo.
--Nhá?!
--Fuja!
A tia Joanna, entretida a partir o pão da vespera, não percebera nada. Uma esperança vaga tremeluziu no rosto estupido da preta.
--E depois? perguntou ella, assustada.
--Vá lá para minha casa; eu fallarei a mamãe.
--De que serve! me mandarão outra vez para cá...
--Não. Titia póde alugar outra criada... papae fallará com ella...
A tia Joanna acabara de partir o pão e chamava á sobrinha para o café da vespera, requentado.
Quando sahiram era já dia, mas as nevoas da manhã poisavam ainda nos telhados, e nada se via da cidade, em baixo.
Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pello espesso e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros vadios. Tocou a matinas e a tia Joanna benzeu-se. Ruth, pouco afeita a madrugadas, achava um prazer divino em ir assim rompendo as nevoas com a pelle refrescada pela humidade da atmosphera e os olhos cheios d'aquella luz branca, suave, que subia e se ia extendendo pelo céo todo.