Part 14
Francisco Theodoro recostara-se em uma cadeira do terraço, lendo um jornal da tarde a que pouca attenção prestava. O que estaria a mulher a dizer ao filho? Julgava do seu dever não intervir naquella creançada; se o fizesse, seria para despersuadir a moça de tal casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o consentimento do intransigente Meirelles: só explicava aquillo por caduquice; miolo molle.--O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao Mario!--resmungava elle de vez em quando, com estupefacção, como se fizesse um commentario ao artigo acabado de ler.
Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de armario a armario, de janella a janella, veio para o terraço e encostou-se á balaustrada, muito abatida. De seus olhos pardos sahia uma luz branca, onde relampejavam fulgores frios.
Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira depressa da janella da copa para o terraço, com medo de perceber-lhes nos gestos a expressão exacta das palavras que diziam. Adivinhava a verdade, mas temia ouvil-a, porque essa verdade não a magoaria só, offendel-a-ia tambem. Era como que um ultrage á sua mocidade outomniça, á sua pobreza e á sua fé no amor. Sentia-se predestinada a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de sentimentos dava-lhe desejos máos.
A tia, contra o dever, não amava, não era amada, não sacrificava tudo pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina de um beijo? Aquelle livro de paixão, tão imprudentemente aberto deante dos seus olhos, não a fizera por tantas vezes estremecer de inveja e sonhar com as delicias do amor?
Até ahi respeitara aquella paixão, sentia-a sincera, fazia-se céga, apiedada d'aquellas almas felizes. Agora tinha impetos de se vingar, de arrancar das mãos do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a força a historia d'aquelles amores que a humilhavam, porque entre ella e a tia, não era a outra, casada e mãe, mas sim ella, orphã e virgem, quem tinha direito áquella felicidade de amar e de ser amada...
Duas borboletas brancas passaram rente a ella, perseguindo-se.
Nina fechou os olhos, mas a visão da felicidade alheia lá estava dentro. Qual seria o interesse da tia em casar o Mario?
Lia e Rachel interromperam-n'a; vinham nas bicycletas a toda a força, reclamando o jantar aos brados. O pae sorriu, achando-as lindas, assim rosadas, com os cabellos ao vento.
Ellas, já combinadas, atiraram-se para elle, turbulentamente, pedindo-lhe ao mesmo tempo as mesmas coisas. Queriam um carrinho de verdade, puxado a _poneys_, com o cocheiro vestido de azul.
Nina aproveitou para mandar servir o jantar, morta por interromper a conferencia da tia.
E. quando Camilla e Mario entraram na sala ninguem lhes soube lêr nas physionomias uma sombra sequer da verdade; fallavam ambos do baile, como se de outra coisa não tivessem tractado.
Foi só á noite que Milla disse no quarto ao marido:
--O Mario acceita o casamento. Assim como assim, elle não tem mesmo gosto para o commercio...
XVI
Na sua salinha da rua Fundo, extendido no velho canapé empoeirado, _seu_ Motta, emmagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas, olhava para as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede encardida.
Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço.
Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo, que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia, tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar.
A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais côr de cidra.
Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia. O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal.
O pae chamou-a:
--Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me incommodando. O paletot está sem botões.
Ella não respondeu, foi dentro e voltou:
--Estão aqui outras meias.
--Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna...
Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou:
--As minhas calças de brim estão muito encardidas, será bom alvejal-as emquanto eu estou em casa. Vão ser muito precisas. O meu terno de casimira está escovado?
Ella mal respondeu com um signal de cabeça. O pae, querendo poupal-a, com remorsos de lhe dar semelhante existencia, atrapalhava-a com exigencias; eram os lenços rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que as cadeiras tinham um dedo de pó, ou por que as plantas das latinhas morriam nas janellas á mingua d'agua, torradas de sol.
Enfadada, Emilia fazia os reparos exigidos, em silencio, com ar rebarbativo. Então o velho voltava o rosto para a parede e fechava os olhos para reter as lagrimas.
Vinham-lhe á mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua defuncta, tão activa, tão pagodista e festeira.
Quem diria que de tal mãe...
Á hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da cozinha, ao pé de uma janella com vista para telhados.
De enfastiado, elle ás vezes não se continha e suspirava:
--Que jantarzinho cangueiro...
Emilia não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne secca, que elle engulia com esforço.
Nesse dia a tarde estava quente.
O papagaio da visinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras de baixo, reunidas no quintal.
Motta sentiu vontade de palrar um pouco tambem; mas a companheira voltou-lhe as costas para ir lavar as panellas e o cheiro das banhas frias tornou-se insuportavel.
Elle voltou resignado para o canapé da saleta, martellando com a bengala o chão roido pelo caruncho e pelos ratos.
O seu sonho era sahir, voltar ao escriptorio, tactear as folhas dos livros, pensar em negocios, deixar de vêr o rosto comprido da filha e de sentir a morrinha da casa suja.
Quem de vez em quando cortava aquella pasmaceira com um pouco de alegria, era a bahiana Bertholina que lhes levava um resto de quitanda recambiada, fatias de _Mané-taiado_, ou cocadas com abobora, sujeitas ao azedume. E então era só:
--Yoyô! Yayá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciencia, atraz dos dias maus vêm os dias bons, não é meu Yoyô? Tenham fé em Deus... E adeus, minha Yayá, e adeus meu Yoyô!
Seu Motta sorria lambiscando as cocadas, feliz por vêr alguem rir.
Nessa tarde a Bertholina iria a proposito; mas quem appareceu foi o Ribas.
_Seu_ Motta contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao rapaz, mas abria os ouvidos.
Elle estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia duzia de palavras:
--Hontem houve um baile em casa de _seu_ Theodoro. Diz que a rua estava cheia de carros. Só o vestido da D. Camilla custou dez contos...
--Quem acredita nisso...
--O Mario vae casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos. Foi ao baile coberta de joias. _Seu_ Guimarães, _seu_ Castro, todos estes turunas do café foram lá.
--Como sabe você de tanta coisa?
--Foi o Isidoro quem me contou.
O Ribas, com os hombros descahidos e um sorriso nos labios molles, fallava em sumptuosidades, com a voz empapada em saliva.
O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz, sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou:
--Você não tem que fazer?
--Eu ainda não achei emprego...
--Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha casa.
--Meu cunhado não me governa.
_Seu_ Motta despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada sentiu-lhe a falta. Ao menos aquillo era alguem, sempre trazia um echo de vida, um zum-zum de fóra.
O Ribas desceu, enfarado d'aquelle velho cainha, que não escorrera nem um tostãozinho para o café; se pensava que elle ia levar as novidades só pelo amor dos seus olhos! Burro! Elle ainda haveria de ensinar toda aquella canalha a temel-o e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só fallar com o _Pirueta_ da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a capoeiragem...
Na rua da Saúde parou á porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de tres annos, recostado sobre o seu ventre enorme.
Ribas fez-lhe signal da porta, perguntando se podia entrar e observando ao mesmo tempo se o cunhado estaria alli; ella disse-lhe que não entrasse e, sacudindo-se a custo, foi á porta e fallou-lhe em segredo.
--Você não tem vergonha? vá-se embora! Ubaldino tá hi...
--Queria que você me emprestasse quinhentos réis...
--Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente!
--Na gaveta do balcão.
--Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu o que aconteceu; vá-se embora!
--Não seja má, Deolinda.
--E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negocio nenhum... Minha creança está para nascer e eu não tenho nem uma camizinha arranjada. Mal dá p'ra comer, sabe Deus como!
--Não seja sovina; depois eu pago.
--Ubaldino ahi vem ... vá-se embora.
--Ora...
E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até ás Docas; á porta encheu-se de batata roxa, cozida, que a Bertholina bahiana vendia, tagarellando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento.
Ahi chegado, quiz desafiar a paciencia de _seu_ Joaquim, postando-se como um basbaque á porta do armazem, vendo os trabalhadores na sua faina entrarem e sahirem sem interrupção.
Em cima, no escriptorio, Francisco Theodoro, amollecido pela sua noitada de festa, narrava lealmente ao Meirelles, pae da Paquita, a inaptidão do filho para o trabalho.
O Meirelles sorria; que descançasse, elle encaminharia tudo,--e accrescentava:
--Paquita, com aquelle ar de songa-monga, é de uma energia de homem. Não é de brinquedos. Tem um juizo notavel. Eu agora levo-os para a Europa, faço o Mario observar o movimento das principaes praças e na volta você verá, Theodoro, como o seu filho ha de trabalhar! Será então tempo de você ceder-lhe o campo...
--E eu estou morto por isso...
--Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do _Equateur_.
Francisco Theodoro começava a comprehender que a Paquita, se era assim, seria a unica mulher capaz de modificar o caracter do filho. Mario seria um instrumento nas suas mãos energicas. Não a suppozera nem a cria ainda tal, tão fragil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre na moldura dos seus cabellos louros.
Estava bem; Mario precisava de uma vontade firme, que o dominasse e dirigisse; nem com uma lanterna accesa encontraria coisa tão boa.
Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa commercial, que já não acabaria com elle.
Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquelle filho perdido, que tamanhas desillusões lhe semeara na vida. Começava a sentir que lhe não perdera o amor.
Elle continuaria aquella casa, com tanto trabalho nascida, que teria com elle a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Theodoro, feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendencia...
XVII
Nina tinha voltado do casamento de Mario e despia-se devagar no seu quarto, com os olhos fixos na luz branca do espelho.
Era o fim, e nem por estar tudo consummado se resignava. Para bem d'ella, os noivos iam nesse mesmo dia para Petropolis, e de lá só voltariam para bordo de um transatlantico. Como seria doce á Paquita cruzar os mares nos braços do seu amor...
Nina desprendeu do corpete as flores de laranjeira que a noiva lhe dera para casar depressa, e contemplou-as com ironia ... ia atiral-as ao chão, quando alguem bateu á porta. Abriu.
Era a Noca, que vinha toda alterada.
--Nossa Senhora! quebrou-se o espelho grande do salão!
--Quem foi que o quebrou? perguntou Nina, para dizer alguma coisa.
--Ninguem sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho quebrado: morte ou ruina.
--Morte! se fosse a minha...
--Cala a bocca, menina, não diga asneiras. Quem é que ama uma vez só na vida?
--Muita gente ... eu.
--Não acredite, deixe fallar. A senhora é moça, verá. Mas venha ver o espelho; não presta a gente ficar calada quando está afflicta. Parece arte do diabo, cruzes! logo hoje!
--Vá andando, eu já vou.
Nina mudou de vestido á pressa e desceu.
Encontrou dois criados boquiabertos em frente ao espelho, prevendo desgraças, suggestionados pela influencia da Noca.
--Que pena! um espelho tão rico ... murmurou Nina machinalmente, pensando na Paquita.
--O caso não é o dinheiro. Eu cá não tenho pena, tenho medo.
--Agora que se ha de fazer? ter paciencia e esperar, disse Nina com um sorriso pallido.
--Esperar! Diz você muito bem. Foi uma vontade mais forte que fez aquillo, temos que esperar grandes coisas. Noca não falla á toa. Vocês verão. É melhor não dizer nada a nhá Milla.
--É melhor...
No dia seguinte, quando o Dr. Gervasio entrou no jardim de Camilla, encontrou-a no terraço, rescendente e fresca no seu _peignoir_ marfim pontilhado de ouro.
--Como estás linda! murmurou elle pegando-lhe na mão, que ella deixou beijar á grande luz, como se a ausencia de Mario cegasse todos de casa.
E o casamento de Mario fôra um allivio para ambos. Estavam livres d'aquella testemunha importuna, que tinham de respeitar. Milla bemdizia aquelle casamento, que a libertava de uma humilhação constante, levando-lhe o filho para as terras do luxo e do prazer. Separando-se, elle ia ser feliz. Que mais poderia desejar um coração de mãe?
Foi nesse mesmo dia, á tarde, que Francisco Theodoro chegou sombrio a casa e, em vez de subir, como de costume, encerrou-se no escriptorio, em baixo. Camilla entrou da rua mais tarde, sacudindo-se á pressa pela escada acima.
Durante o jantar só ella fallava, muito risonha, rescendendo á essencia com que Gervasio a pulverisara pouco antes no chalésinho dá Lagoa, onde escondiam o seu amor. Aquelle perfume era como que a alma d'elle que ella trouxesse comsigo.
--Que linda tarde! olhem para o jardim, exclamou ella, apontando para fóra com a mão fulgurante de anneis.
Era um pôr-de-sol maravilhoso.
--Tudo côr de rosa! Parece-me que o jardim nunca teve tantas flores. Como isto é bonito! E ha quem falle mal da vida; e ha idiotas que se matam!
Francisco Theodoro cruzou o talher sem ter comido.
--O senhor está doente? perguntou-lhe Nina.
--Não tenho vontade de comer, mandem-me o café ao jardim.
Camilla contemplou-o com magua e explicou aos outros:
--Elle está impressionado com o casamento de Mario. Meninas, vocês procurem entreter e distrahir seu pae. Mande guardar um copo de leite para elle, Nina; seu tio não pode ficar assim. Deus queira que elle não me fique doente...
E um véu de tristeza passou pelos olhos, ha pouco risonhos, de Milla.
Mas nada houve nessa tarde que entretivesse Francisco Theodoro; elle repellia a companhia de toda a gente para ir passear sózinho lá para o fundo da chacara. Ruth tocou em vão as suas melhores musicas: o pae nem parecia ouvil-as...
Na sala de engommar, a Noca commentava a tristeza do patrão, como um facto annunciado pelo desastre do espelho... «A coisa está começando... Eu não dizia?»
Á noite, emquanto Francisco Theodoro folheava embaixo a papelada do Innocencio Braga, Milla despia-se em frente do seu psyché, namorando a propria imagem, milagre da juventude, sentindo em um fremito a delicia de bem merecer um grande amor.
Como a Sulamita, toda ella era formosa. O peito farto, o pescoço alvo e redondo, as mãos pequenas, os pulsos delicados, e uns olhos negros e pestanudos, de onde jorrava uma luz velludosa e doce que toda a vestia de graça.
Ao prender o cabello, lembrou-se de uma comparação de Gervasio; elle dissera uma vez, ao vêl-a pentear-se, que as suas mãos eram como duas aves luminosas esvoaçando na treva. Milla sorriu.
Foi só depois das orações, ao espreguiçar-se no seu largo leito, que se lembrou ter de levantar-se cedo no dia seguinte para ir a bordo despedir-se do filho.
Tudo era como um sonho. O Mario já casado! Parecia-lhe que ainda o estava a vêr pequenino e gorducho, engatinhando pela casa, aquelle sobrado da rua da Candelaria, onde a sua vida fôra tão differente. E foi com a visão d'aquelle filho em creança, d'aquella carne de rosas, d'aquella bocca innocente que a babava de beijos, que ella adormeceu, sentindo-lhe o peso amado do corpo nos braços saudosos.
Quando sôou meia-noite, em toda a casa só havia de pé Francisco Theodoro, que folheava ainda no escriptorio a papelada do Innocencio Braga.
Nessa manhã elle tivera o primeiro toque de alarma, num telegramma do Havre para o _Jornal_, que affirmava ter descido o preço do café nos principaes mercados.
Afflicto, com a percepção de um desastre imminente e enorme, abalou logo do armazem para o escriptorio do Braga, que o recebeu entre duas risadinhas fanhosas, repimpado na sua cadeira de couro.
--Que é isso! o senhor é assustadiço ... pois não percebe que isto tudo é jogo?
--Não comprehendo ... balbuciou Francisco Theodoro com um enleio, em que entrava com um amargo desapontamento a doçura de uma vaga esperança.
--Não comprehende, porque é um nervoso; não tem a calma dos grandes espiritos emprehendedores. Eu desejaria convencel-o da certeza dos seus lucros; mas na disposição de espirito em que está, vejo que isso é coisa difficil. Verá que amanhã não teremos noticia alguma.
Aquillo é feito aqui, homem, garanto-lhe que é feito aqui!...
--É impossivel!
--Acredite.
--Não póde ser. O _Jornal_, tão serio...
--Ora, não póde ser!... que ingenuidade! Se eu lhe affirmo, é porque sei. E se não fosse assim eu estaria calmo? Diga, seria posssivel que eu estivesse calmo?
--Penso de outro modo; tenho lá grande parte do meu capital!
--Ninguem diz o contrario ... sei ... é natural o seu cuidado; sómente, affirmo-lhe que é infundado. Amanhã, ou haverá silencio, ou ha desmentido. Tudo isto é geito. Olhe, o Gama Torres está satisfeitissimo; sahiu ha pouco d'aqui. Está contente; aquelle é um homem do tempo, ha de ir longe...
--Pois, eu, confesso-me arrependido.
--Ora, não diga tal! que barbaridade! O nosso triumpho é certo. E, já que se mostra assim apprehensivo, façamos uma coisa: telegraphemos ao Lacerda. Eu por mim não telegrapharia, conheço a alma d'estas machinações. Tudo é chimica. Digo-lhe mais: eu estou contente... Olhe, amanhã poderei provar-lhe com documentos irrefutaveis a veracidade das minhas affirmações. Venha cá ás duas horas.
Francisco Theodoro sahiu menos torturado; mas, á proporção que as horas avançavam, voltava-lhe a inquietação, a ponto de não poder trabalhar. Fugiu para casa e alli encontrou o mesmo desasocego.
Atirou-se aos papeis; leu-os, releu-os, tirou notas e cada vez sentia maior confusão naquelle embrulho de problemas, em que todo o seu bom senso naufragava.
Inquietava-se com presentimentos. Era muito d'isso. Afinal, um telegramma isolado, discordando de tudo o que se dizia, podia não ser verdadeiro. Affligiam-n'o certos zums-zums da cidade. Os boatos são como os corvos, apparecem no ar attrahidos pela podridão occulta.
Todavia, forcejava por acreditar nas boas previsões do Braga. O homem era honesto e tinha nas mãos habeis o fio da trama; logo, melhor seria esperar pelas taes provas irrefutaveis...
Eram seis horas da manhã quando Camilla o chamou para irem ao _Equateur_.
Foi um alvoroço em casa.
Noca era a mais curiosa; queria ir tambem despedir-se do Mario e vêr por dentro uma d'aquellas casas fluctuantes, onde não viajaria nem á mão de Deus Padre!
Apressou-se em vestir as gemeas, que se faziam de tolas, exigindo os vestidos novos e os chapéos côr de rosa.
--Não; ponderava ella, deixem os chapéos côr de rosa para passear na cidade ... levem os brancos.
--Eu quero levar o chapéo côr de rosa, gritou Lia; e logo Rachel:
--Eu tambem quero levar o chapéo côr de rosa.
--Que tolice, gente! um chapéo d'aquelles para o mar!
As meninas berraram, e Milla interveio:
--Pois que levem os chapéos côr de rosa; tambem vocês gostam de aborrecer as creanças.
Ás dez horas embarcaram numa lancha. Ruth lembrou-se do passeio ao _Neptuno_, e voltando-se para a mãe, perguntou:
--É verdade! nunca mais a gente soube do capitão Rino.
Camilla levantou os hombros.
--Quando elle voltar, hei de pedir-lhe que nos arranje outro passeio pela bahia.
--Por uma noite de luar ... disse Camilla. Ruth accrescentou, para bulir com a Noca, que se agarrava ás bordas da lancha:
--Ou mesmo por uma noite de tempestade, com muitos relampagos e trovões. Ainda ha de ser mais bonito.
--Uê, que maluquice! exclamou Noca; Nossa Senhora da Penha! eu com este sol todo estou com medo, quanto mais...
--É pena que Nina não tivesse vindo...
--Para quê? para vêr a outra?
Francisco Theodoro não ouvia nada; percorria com a vista anciosa todos os telegrammas dos jornaes. Nada; não vinha nada; e com isso elle não sabia se havia de achar motivo de allivio ou de maiores apprehensões.
Quando subiram ao tombadilho, já lá encontraram o Meirelles, mais o Mario e a Paquita. Ella, sempre com o seu arzinho enjoado, contando as palavras que dizia, tractando a familia do marido com cerimonias afastadoras. Mario ia e vinha, solicito, obedecendo com sorrisos ás ordens que ella lhe dava em phrases curtas:
--Que fosse ao camarote guardar-lhe a bolsa das joias... Que lhe fosse buscar a capa... Que verificasse quaes as malas que iam para o porão e que mandasse a vermelha para o beliche.
Mal elle se lhe approximava, logo ella o incumbia de qualquer coisa que o afastava:--Que contasse os volumes... Que entregasse a cesta das fructas ao _maître d'hotel_, recommendando-lhe que as mettesse na geleira... Que puzesse os seus cartões de visita nas costas das cadeiras, para evitar confusões... Mario girava sobre as solas de borracha dos sapatos claros e lá ia lépido cumprir as ordens. Camilla pasmava. Quem lhe diria que aquelle era o mesmo Mario indomavel, secco, tão imprestavel sempre aos favores pedidos pela mãe e as irmãs? Vendo aquillo, subia-lhe do coração aos olhos uma tristeza ciumenta, magua de alma ferida a que nenhuma razão abafa a queixa.
Paquita percebeu tudo e redobrou de frieza, mal respondendo ás perguntas da sogra.
Entretanto, Theodoro e o Meirelles passeavam a largas passadas da proa á ré.
O velho Meirelles era de opinião que o telegramma do _Jornal_ inserido na vespera era coisa séria, de alarme. Francisco Theodoro engoliu em secco; não teve coragem para lhe dizer que grande parte do seu capital fôra atirado á voragem de uma especulação. Relatou, porém, as palavras do Braga e as suas affirmações.
--Não me falle nesse homem, interrompeu o outro com violencia; é um especulador sem escrupulos ... quer mais claro?--é um ladrão!
Veio de Portugal, ha coisa de seis annos, sem vintem, e sabe quanto já passou para Inglaterra em bom metal? mais de mil contos!
Vi a prova. O patife!
Aquillo é lá da minha freguezia ... conheci-lhe o pae, era outro marreco que tal! Homem--não se deixe levar pelas cantigas novas, nós antigos, verdadeiros pés de chumbo, caminhamos devagar e escolhendo terreno. Essas basofias e esses atrevimentos são bons para quem não tem nada a perder... Olhe, lá toca á retirada; avise sua senhora, para descerem sem precipitação...
Ao abraçarem Mario, Francisco Theodoro, com a voz estrangulada, recommendou-lhe:
--Juizo, meu rapaz!