A escrava Isaura

Part 7

Chapter 73,837 wordsPublic domain

Pode-se fazer idéa do desencanto, do assombro, da terrivel decepção que reinou nos circulos das bellas pernambucanas ao verem o vivo interesse e solicitude, de que Alvaro rodeava uma obscura e pobre moça; a defferencia com que a tratava, e os enthusiasticos elogios, que sem rebuço lhe prodigalisava. Juno e Pallas não ficárão tão despeitadas, quando o formoso Paris conferio a Venus o premio da formosura. Já antes daquelle saráo, Alvaro em alguns circulos de senhoras havia fallado de Elvira em termos tão lisonjeiros e mesmo com certa eloquencia apaixonada, que a todas sorprehendeo e inquietou. As moças ardião por ver aquelle prototypo de belleza, e já de antemão chovião sobre a desconhecida e o seo campeão mil chascos e malignos apodos. Quando porém a virão, apezar dos contrafeitos e desdenhosos sorrisos, que apenas lhes roçavão a flor dos labios, sentirão uma desagradavel impressão pungir-lhes no intimo do coração. Peço perdão ás bellas, de minha rude franqueza; a vaidade é com bem raras excepções, companheira inseparavel da belleza; e onde se acha a vaidade, a inveja, que sempre a acompanha mais ou menos de perto, não se faz esperar por muito tempo. A belleza da desconhecida era incontestavel; sua modestia e timidez em nada prejudicavão a singela e nativa elegancia de que era dotada; o traje simples e mesmo pobre em relação ao luxo sumptuoso, que a rodeava, assentava-lhe maravilhosamente, e realçavão-lhe ainda mais os encantos naturaes. O effeito deslumbrante, que Elvira produzio logo ao primeiro aspecto, e o empenho com que Alvaro procurava fazer sobresahir os seductores attractivos de Elvira, como de proposito para eclipsar as outras bellezas do salão, erão de sobejo para irritar-lhes a vaidade e o amor proprio. Uma e outro devião ser naquella noite o alvo de mil olhares desdenhosos, de mil sorrisos zombeteiros, e acerados epigrammas.

Alvaro nem dava fé da mal disfarçada hostilidade, com que elle e a sua protegida,--podemos dar-lhe esse nome,--erão acolhidos naquella reunião; mas a timida e modesta Elvira, que em parte alguma encontrava lhaneza e cordialidade, achava-se mal naquella atmosphera de fingida amabilidade e cortezania, e em cada olhar via um escarneo desdenhoso, em cada sorriso um sarcasmo.

Já sabemos quem era Alvaro; agora travemos conhecimento com o seo amigo, o D^{r}. Geraldo.

Era um homem de trinta annos, bacharel em direito, e advogado altamente conceituado no foro do Recife. Entre as relações de Alvaro era a que cultivava com mais affecto e intimidade; uma intelligencia de bom quilate, firme e esclarecida, um caracter sincero, franco e cheio de nobreza, davam-lhe direito a essa predilecção da parte de Alvaro. Seo espirito pratico e positivo, como deve ser o de um consummado jurisconsulto, prestando o maior respeito ás instituições e mesmo a todos os preconceitos e caprichos da sociedade, estava em completo antagonismo com as idéas excentricas e reformistas de seo amigo; mas esse antagonismo longe de perturbar ou arrefecer a reciproca estima e affeição, que entre eles reinava, servia antes para alimental-as e fortalecel-as, quebrando a monotonia, que deve reinar nas relações de duas almas sempre accordes e unisonas em tudo. Estas taes por fim de contas, vendo que o que uma pensa, a outra tambem pensa, o que uma quer, a outra igualmente quer, e que nada tem a se communicarem, enjoadas de tanto se dizerem--amen,--ver-se-hão forçadas a recolherem-se ao silencio e a dormitarem uma em face da outra; placida, commoda e somnolenta amisade!... De mais, a contrariedade de tendencias e opiniões são sempre de grande utilidade entre amigos, modificando-se e temperando-se umas pelas outras. É assim, que muitas vezes o positivismo e o senso pratico do D^{r}. Geraldo servião de correctivo ás utopias e exaltações de Alvaro, e vice-versa.

Da boca do proprio Alvaro já ouvimos por que acaso veio elle a conhecer D. Elvira, e como conseguio leval-a ao saráo, a que ainda continuamos a assistir.

--Meo pae,--dizia uma jovem senhora a um homem respeitavel, em cujo braço se arrimava, entrando na ante-sala, onde ainda nos conservamos de observação.--Meo pae, fiquemos por aqui um pouco nesta sala, em quanto está deserta. Ah! meo Deos!--continuou ella com voz abafada, depois de se terem sentado junto um do outro;--que vim eu aqui fazer, eu pobre escrava, no meio dos saráos dos ricos e dos fidalgos!... este luxo, estas luzes, estas homenagens, que me rodeião, me perturbão os sentidos e causão-me vertigem. É um crime que cometo, envolvendo-me no meio de tão luzida sociedade; é uma traição, meo pae; eu o conheço, e sinto remorsos... Se estas nobres senhoras adivinhassem, que ao lado dellas diverte-se e dança uma miseravel escrava fugida a seos senhores!... Escrava!--exclamou levantando-se--escrava!... affigura-se-me que todos estão lendo, gravada em letras negras em minha fronte, esta sinistra palavra!... fujamos daqui, meu pai, fujamos! esta sociedade parece estar escarnecendo de mim; este ar me suffoca... fujamos.

Fallando assim a moça palida e offegante, lançava a cada phrase olhares inquietos em roda de si, e empuchava o braço de seo pae, repetindo sempre com anciosa soffreguidão:--Vamo-nos, meo pae; fujamos daqui.

--Socega teo coração, minha filha, respondia o velho procurando acalmal-a.--Aqui ninguem absolutamente pode suspeitar quem tu és.

Como poderão desconfiar, que és uma escrava, se de todas essas lindas e nobres senhoras nem pela formosura, nem pela graça e prendas do espirito, nenhuma pode levar-te a palma?

--Tanto peor, meo pae; sou alvo de todas as attenções, e esses olhares curiosos, que de todos os cantos se dirigem sobre mim, fazem-me a cada instante estremecer; desejaria até, que a terra se abrisse debaixo de meos pés, e me sumisse em seo seio.

--Deixa-te dessas idéas; esse teo medo e acanhamento é que poderião nos pôr a perder, se acaso houvesse o mais leve motivo de receio. Ostenta com desembaraço todos os seos encantos e habilidades, dança, canta, conversa, mostra-te alegre e satisfeita, que longe de te supporem uma escrava, são capazes de pensar que és uma princeza. Toma animo, minha filha, ao menos por hoje; esta tambem, assim como é a primeira, será a derradeira vez que passaremos por este constrangimento; não nos é possivel ficar por mais tempo nesta terra, onde começamos a despertar suspeitas.

--É verdade, meo pae!... que fatalidade!...--respondeo a moça com uma triste oscillação de cabeça.--Assim pois estamos condenados a vagar de paiz em paiz, sequestrados da sociedade, vivendo no mysterio, e estremecendo a todo instante, como se o céo nos tivesse marcado com um ferrete de maldição!... ah! esta partida ha-de-me doer bem no coração!... não sei que encanto me prende a este lugar. Entretanto terei de dizer adeos eterno a ... esta terra, onde gozei alguns dias de prazer e tranquillidade! Ah! meo Deos!... quem sabe, se não teria sido melhor morrer entre os tormentos da escravidão!...

Neste momento entrava Alvaro na ante-sala percorrendo-a com os olhos, como quem procurava alguem.

--Onde se sumirião?--vinha elle murmurando;--terião tido a triste lembrança de se irem embora?... oh! não; felizmente ei-los ali!--exclamou alegremente, dando com os olhos nos dous personagens, que acabamos de ouvir conversar.--D. Elvira, Vª. Exª. é modesta de mais; vem esconder-se neste recanto, quando devia estar brilhando no salão, onde todos suspirão pela sua presença. Deixe isso para as timidas e fanadas violetas; á rosa compete alardear em plena luz todos os seos encantos.

--Desculpe-me,--murmurou Isaura--uma pobre moça creada como eu na solidão da roça, e que não está acostumada a tão esplendidas reuniões, sente-se abafada e constrangida...

--Oh! não;... ha-de acostumar-se, eu espero. As luzes, o esplendor, as harmonias, os perfumes, constituem a atmosphera em que deve brilhar a belleza, que Deos creou para ser vista e admirada. Vim buscal-a a pedido de alguns cavalheiros, que já são admiradores de Vª. Exª. Para interromper a monotonia das valsas e quadrilhas, costumão aqui as senhoras encantar-nos os ouvidos com alguma canção, aria, modinha, ou seja o que fôr. Algumas pessoas, a quem eu disse,--perdoe-me a indiscrição, filha do enthusiasmo,--que Vª. Exª. possue a mais linda voz, e canta com maestria, mostrão o mais vivo desejo de ouvil-a.

--Eu, senhor Alvaro!... eu cantar diante de uma tão luzida reunião!... por favor queira dispensar-me dessa nova prova. É em seo proprio interesse, que lhe digo; canto mal, sou muito acanhada, e estou certa que irei solemnemente desmentil-o. Poupe-nos a nós ambos essa vergonha.

--São desculpas, que não posso acceitar, por que já a ouvi cantar, e creia-me, D. Elvira, se eu não tivesse a certeza, de que a senhora canta admiravelmente, não seria capaz de expôl-a a um fiasco. Quem canta como Vª. Exª. não deve acanhar-se, e eu por minha parte peço-lhe encarecidamente, que não cante outra cousa, senão aquella maviosa canção da escrava, que outro dia a sorprehendi cantando, e affianço a Vª. Exª, que arrebatará os ouvintes.

--Por que razão não pode ser outra? essa desperta-me recordações tão tristes...

--E é talvez por isso mesmo, que é tão linda nos labios de Vª. Exª.

--Ai! triste de mim!--suspirou dentro da alma D. Elvira:--aquelles mesmos que mais me amão, tornão-se, sem o saber, os meos algozes!...

Elvira bem quisera escusar-se a todo transe; cantar naquella ocasião era para ella o mais penoso dos sacrificios. Mas não lhe era mais possivel reluctar, e lembrando-se do judicioso conselho de seo pae, não quis mais ver-se rogada, e acceitando o braço que Alvaro lhe offerecia, foi por elle conduzida ao piano, onde sentou-se com a graça e elegancia, de quem se acha completamente familiarizada com o instrumento.

Uma multidão de cabeças curiosas, e de corações palpitando na mais anciosa expectação, se apinhárão em volta do piano; os cavalheiros estavão anciosos por saberem, se a voz daquella mulher correspondia á sua extraordinaria belleza; se a fada seria tambem uma sereia; as moças esperavão, que ao menos naquelle terreno, terião o prazer de ver derrotada a sua formidavel emula, e já contavão comparal-a com o pavão da fabula, queixando-se a Juno, que o tendo formado a mais bella das aves, não lhe déra outra voz mais que um guincho aspero e desagradavel.

A conjunctura era delicada e solemne; a moça achava-se na difficil situação de uma prima dona, que precedida de uma grande reputação, faz a sua estréa perante um publico exigente e illustrado. Em torno della fazia-se profundo silencio; as respirações estavão como que suspensas, ao passo que parecia ouvir-se o palpitar de todos os corações no offego da expectação. Alvaro, apezar de conhecer já a excellencia da voz de Elvira e sua maestria no canto, não deixava de mostrar-se inquieto e commovido. Elvira por sua parte pouco se importaria de cantar bem ou mal; desejaria até passar pela moça a mais feia, a mais desengraçada e a mais tola daquella reunião, com tanto que a deixassem a um canto esquecida e socegada. Dir-se-hia, que estava debaixo do imperio de algum terrivel presentimento. Mas Elvira amava a Alvaro, e grata ao delicado empenho, com que este, cheio de solicitude e enthusiasmo, se esforçava por apresental-a como um prototypo de belleza e de talento aos olhos daquella brilhante sociedade, para satisfazel-o, e não desmentir a lisonjeira opinião, que propalára a respeito della, desejava cantar o melhor que lhe fosse possivel. Era ao triumpho de Alvaro, que aspirava mais do que ao seo proprio.

Uma vez sentada ao piano, logo que seos dedos mimosos e flexiveis, pousando sobre o teclado, preludiárão alguns singelos accordes, a moça sentio-se outra, revelando aos circumstantes maravilhados um novo e original aspecto de sua formosura. A physionomia, cuja expressão habitual era toda modestia, ingenuidade e candura, animou-se de luz insolita; o busto admiravelmente cinzelado, ergueo-se altaneiro e magestoso; os olhos estaticos alçavão-se cheios de esplendor e serenidade; os seios, que até ali apenas arfavão como as ondas de um lago em tranquilla noite de luar, começárão de offegar, turgidos e agitados, como oceano encapellado; seo collo distendeo-se alvo e esbelto como o do cysne, que se aprésta a desprender os divinais gorgeios. Era o sopro da inspiração artistica, que roçando-lhe pela fronte, a transformava em sacerdotiza do bello, em interprete inspirada das harmonias do céo. Ali sentia-se ella rainha sobre seo throno ideal; ali era Caliope sentada sobre a tripode sagrada, avassalando o mundo ao som de enlevadoras e ineffaveis harmonias. Das proprias inquietações e angustias da alma soube ella tirar alento e inspiração para vencer as difficuldades da ardua situação, em que se achava empenhada. Banhou os labios com as lagrimas do coração, e a voz lhe rompeo do peito com tão original e arrebatadora vibração, em modulações tão puras e suaves, tão repassadas de sublime melancolia, que mais de uma lagrima vio-se rolar pelas faces dos frequentadores daquelle templo dos prazeres, dos risos, e da frivolidade!

Elvira acabava de alcançar um triumpho collossal. Mal terminára o canto, o salão restrugio entre os mais estrondosos applausos, e parecia que vinha desabando ao ruido atordoardor das palmas e dos vivas!

--A fada de Alvaro é tambem uma sereia;--dizia o D^{r}. Geraldo a um dos cavalheiros, em cuja companhia já o vimos.--Resume tudo em si!... que timbre de voz tão puro e tão suave! julguei-me arrebatado ao septimo céo, ouvindo as harmonias dos choros angelicos.

--É uma consummada artista ... no theatro faria esquecer a Malibran, e conquistaria reputação europea. Alvaro tem razão; uma creatura assim não pode ser uma mulher ordinaria, e muito menos uma aventureira... A musica dando o signal para a quadrilha, interrompe a conversação ou não nol-a deixa ouvir.

--D. Elvira,--diz Alvaro dirigindo-se á sua protegida, que já se achava sentada ao pé de seo pae,--lembre-se, que me fez a honra de conceder-me esta quadrilha.

Elvira esforçou-se por sorrir e combater o terrivel abatimento, que ao deixar o piano de novo se apoderára de seo espirito.

Tomou o braço de Alvaro, e ambos forão occupar o seo lugar na quadrilha.

Capitulo XII.

Agora os leitores já sabem, se é que ha mais tempo não adivinhárão, que a supposta Elvira não é mais do que a escrava Isaura, assim como Anselmo não passa do feitor Daniel, ambos os quaes são já nossos conhecidos antigos. Como tambem sabem, que Isaura não só era dotada de espirito superior, como tambem recebera a mais fina e esmerada educação, não lhe estranharão a distincção das maneiras, a elegancia e elevação da linguagem, e outros dotes, que fazião, com que essa escrava excepcional pudesse apparecer e mesmo brilhar no meio da mais luzida e aristocratica sociedade.

Foi a situação desesperada, em que via sua querida filha, que inspirou a Daniel o expediente extremo de uma fuga precipitada, exposta a mil azares, e perigos. Lembrava-se elle com horror do miserando destino, de que em iguaes circumstancias fôra victima a mãe de Isaura, e bem sabia, que Leoncio, tão desalmado como o pae, e ainda mais corrupto e libertino, era capaz de excessos e attentados ainda maiores. Tendo perdido a esperança de libertar a filha, entendeo que podia utilizar-se da somma, que para esse fim tinha agenciado, empregando-a em arrancar a pobre victima das mãos do algôz, por qualquer meio que fosse. Bem via, que aos olhos do mundo tirar uma escrava da casa de seos senhores, e proteger-lhe a fuga, além de ser um crime, era um acto desairoso e indigno de um homem de bem; mas a escrava era uma filha idolatrada, e uma pérola de pureza, prestes a ser polluida ou esmagada pela mão de um senhor verdugo, e esta consideração o justificava aos olhos da propria consciencia.

Bem se lembrára o infeliz pae de dar denuncia do facto ás autoridades, implorando a protecção das leis em favor de sua filha, para que não fosse victima das violencias e sevicias de seo dissoluto e brutal senhor. Mas todos a quem consultava, respondião-lhe a uma voz:--Não se metta em tal; é tempo perdido. As autoridades nada tem que ver com o que se passa no interior da casa dos ricos. Não caia nessa; muito feliz será, se sómente tiver de pagar as custas, e não lhe arrumarem por cima algum processo, com que tenha de ir dar com os costados na cadeia.--Onde se vio o pobre ter razão contra o rico, o fraco contra o forte?...

Daniel entretinha relações occultas com alguns dos antigos escravos da fazenda de Leoncio, os quaes, lembrando-se ainda com saudades do tempo de sua boa administração, conservavão-lhe o mesmo respeito e affeição, e por meio delles tinha exacta informação do que se passava na fazenda. Sabendo dos crueis apuros, a que sua filha se achava reduzida depois da morte do commendador, não hesitou mais um instante, e tratou de tomar todas as providencias e medidas de segurança para roubar a filha, e pôl-a fóra do alcance de seo barbaro senhor. Na mesma madrugada, que seguio-se á tarde, em que a raptou, fazia-se de véla com Isaura para as provincias do norte em um navio negreiro, de que era capitão um portuguez, antigo e dedicado amigo seo. Este chegando ás alturas de Pernambuco, como dahi tinha de singrar para a costa da Africa, largou-os no Recife, promettendo-lhes, que dentro em tres ou quatro mezes estaria de volta e pronto a conduzil-os para onde quizessem. Daniel, que em sua profissão de jardineiro ou de feitor havia passado a vida desde a infancia, dentro de um horizonte acanhado e em circulo mui limitado de relações, tinha pouco conhecimento e nenhuma experiencia do mundo, e portanto não podia calcular todas as consequencias da difficil posição, em que ia collocar a si e a sua filha. Durante os longos annos, que esteve feitorando a fazenda do commendador e de outros, não se déra senão uma ou outra fuga insignificante de escravos, por poucos dias e para alguma fazenda vizinha, e portanto não é para admirar, que elle quasi completamente ignorasse a amplitude dos direitos, que tem um senhor sobre o escravo, e os infinitos meios e recursos de que pode lançar mão para captural-os em caso de fuga. Entendeo pois, que em Pernambuco poderia viver com sua filha em plena seguridade, ao menos por tres ou quatro mezes, uma vez que se afastassem da sociedade o mais que pudessem, e procurassem esconder sua vida na mais completa obscuridade.

Isaura tambem, se bem que tivesse o espirito mais atilado e esclarecido, longe do objecto principal de seo terror e aversão, não deixava de sentir-se tranquilla, e até certo ponto descuidosa dos perigos a que vivia exposta. Mas essa tal ou qual tranquillidade só durou até o dia, em que pela primeira vez vio Alvaro. Amou-o com esse amor exaltado das almas elevadas, que amão pela primeira e unica vez, e esse amor, como bem se comprehende, veio tornar ainda mais critica e angustiosa a sua já tão precaria e misera situação.

Alvaro tinha na physionomia, nas maneiras, na voz e no gesto, um não sei quê de nobre, de amavel e profundamente sympathico, que avassalava todos os corações. O que não seria elle para aquella, que unica até ali lhe soubera conquistar o amor. Isaura não poude resistir a tão prestigiosa seducção; amou-o com o ardor e enthusiasmo de um coração virgem; e com a inprevidencia e cegueira de uma alma de artista, embora não visse nesse amor mais do que uma nova fonte de lagrimas e torturas para seo coração.

Medindo o abysmo, que a separava de Alvaro, bem sabia que de nenhuma esperança podia alimentar-se aquella paixão funesta, que deveria ficar para sempre sepultada no intimo do coração, como um cancro a devoral-o eternamente.

No seo calix de amarguras, já quasi a transbordar, tinha de receber da mão do destino mais aquelle travo cruel, que lhe devia queimar os labios e envenenar-lhe a existencia.

Já bastante lhe pesava andar enganando a sociedade a respeito de sua verdadeira condição; alma sincera e escrupulosa, envergonhava-se comsigo mesma de impor ás poucas pessoas, que com ella tratavão de perto, um respeito e consideração a que nenhum direito podia ter. Mas considerando que de tal disfarce nenhum grande mal podia resultar á sociedade, conformava-se com sua sorte. Deveria porém ella, ou poderia sem inconveniente manter o seo amante na mesma illusão? Com seo silencio, conservando-o na ignorancia de sua condição de escrava, deveria deixar alimentar-se e crescer profunda e energica paixão, que o moço por ella concebera?... não seria isto um vil embuste, uma indignidade, uma traição infame? não teria elle o direito, ao saber da verdade, de acabrunhal-a de amargas exprobrações, de desprezal-a, de calcal-a aos pés, de tratal-a emfim como escrava abjeta e vil, que ficaria sendo?

--Oh! isto para mim seria mais horrivel que mil mortes!--exclamava ella no meio do angustioso embate de idéas, que se lhe agitavão no espirito.--Não, não devo illudil-o; isto seria uma infamia ... vou-lhe descobrir tudo; é esse o meo dever, e hei-de cumpril-o. Ficará sabendo, que não pode, que não deve amar-me; porém ao menos não ficará com o direito de desprezar-me ... uma escrava, que procede com lisura e lealdade, pode ao menos ser estimada.

Não; não devo enganal-o; hei de revelar-lhe tudo.

Esta era a resolução que lhe inspiravão seo natural pundonor e lealdade, e os dictames de uma consciencia recta e delicada, mas quando chegava o momento de pôl-a em pratica fraqueava-lhe o coração, e Isaura ia differindo de dia para dia a execução de seo proposito.

Fallecia-lhe de todo a coragem para quebrar por suas proprias mãos a doce chiméra, que tão deliciosamente a embalava, e em que ás vezes conseguia esquecer por longo tempo sua misera condição, para lembrar-se sómente que amava e era amada.

--Deixemos durar mais um dia--reflectia ella comsigo,--esta illusoria, mas ineffavel ventura. Sou uma condenada, que arrancão da masmorra para subir ao palco e fazer por momentos o papel de rainha feliz e poderosa; quando descer, serei de novo sepultada em minha masmorra para nunca mais sahir. Prolonguemos estes instantes; não será licito deixar passar ao menos em sonhos uma hora de felicidade sobre a fronte do infeliz condenado?... sempre será tempo de quebrar esta fragil cadeia de ouro, que me prende ao céo, e baquear de novo no inferno de meos soffrimentos.

Nesta indecisão, nesta lucta interna, em que sempre a voz da paixão abafava os dictames da razão e da consciencia, passarão-se alguns dias até áquelle, em que Alvaro os induzio por meios quasi violentos a acceitarem convite para um baile. Desde então Isaura entendeo que seria uma deslealdade, uma infamia inqualificavel, conservar por mais tempo o seo amante na illusão a respeito de sua condição, e que não havia mais meio de prolongar, sem desdouro para elles, tão falsa e precaria situação.

Era muito abusar da ignorancia do nobre e generoso mancebo! uma escrava fugida apresentar-se em um baile, e apavonar-se em seo braço á face da mais brilhante e distincta classe de uma importante capital!... era pagar com a mais feia ingratidão e a mais degradante deslealdade os serviços, que com tanta delicadeza e amabilidade lhe havia prestado. Isto repugnava absolutamente aos escrupulos, da melindrosa consciencia de Isaura. É verdade, que Miguel atterrado pelas considerações, que Alvaro lhe fizera, vio-se forçado a annuir ao seo gracioso convite; Isaura porém guardára absoluto silencio, o que ambos tomárão por um signal de aquiescencia.