Part 6
--Virgem senhora da Piedade, Santissima Mãe de Deos!... vós sabeis se eu sou innocente, e se mereço tão cruel tratamento. Soccorrei-me neste transe afflictivo, por que neste mundo ninguem pode valer-me. Livrae-me das garras de um algôz, que ameaça não só a minha vida, como a minha innocencia e honestidade. Illuminai-lhe o espirito, e infundi-lhe no coração brandura e misericordia, para que se compadeça de sua infeliz captiva. É uma humilde escrava, que com as lagrimas nos olhos, e a dor no coração vos roga pelas vossas dores sacrosantas, pelas chagas de vosso Divino Filho: valei-me por piedade.
Quanto Isaura era formosa naquella supplicante e angustiosa attitude! oh! muito mais bella do que em seos momentos de serenidade e prazer!... se a visse então Leoncio talvez sentisse abrandar-se o ferreo e obcecado coração. Com os olhos arrasados em lagrimas, que em fio lhe escorregavão pelas faces desbotadas, entre-aberta a boca melancolica, que lhe tremia ao passar da prece murmurada entre soluços, atiradas em desordem pelas espaduas as negras e opulentas madeixas, voltando para o céo o busto mavioso plantado sobre um collo escultural, offereceria ao artista inspirado o mais bello e sublime modelo para a effigie da Mãe Dolorosa, a quem nesse momento dirigia suas ardentes supplicas. Os anjos do céo, que por certo naquelle instante adejavão em torno della agitando as azas de ouro e carmim, não podião deixar de levar tão fervida e dolorosa prece aos pés do throno da Consoladora dos afflictos.
Absorvida em suas magoas Isaura não vio seo pae, que entrando pelo salão a passos subtis e cautelosos, encaminhava-se para ella.
--Oh! felizmente ella ali está,--murmurava o velho,--o algôz aqui tambem andava! oh! pobre Isaura!... que será de ti!...
--Meo pae por aqui!...--exclamou a infeliz ao avistar Miguel.--Venha, venha ver a que estado reduzem sua filha.
--Que tens, filha?... que nova desgraça te succede?
--Não está vendo, meo pae?... eis ali a sorte, que me espera,--respondeu ella apontando para o tronco e as algemas, que ali estavam ao pé della.
--Que monstro, meo Deos!... mas eu já esperava por tudo isto...
--É esta a liberdade que pretende dar áquella, que a mãe delle creou com tanto amor e carinho. O mais cruel e aviltante captiveiro, um martyrio continuado da alma e do corpo, eis o que resta á sua desventurada filha... Meo pae, não posso resistir a tanto soffrimento!... restava-me um recurso extremo; esse mesmo vai-me ser negado. Presa, algemada, amarrada de pés e mãos!... oh!... meo pae! meo pae!... isto é horrivel!... Meu pai, a sua faca,--acrescentou depois de ligeira pausa com voz rouca e olhar sombrio,--preciso de sua faca.
--Que pretendes fazer com ella, Isaura? que louco pensamento é o teo?...
--Dê-me essa faca, meo pae; eu não usarei della senão em caso extremo; quando o infame vier lançar-me as mãos para deitar-me esses ferros, farei saltar meo sangue ao rosto vil do algôz.
--Não, minha filha; não serão necessarios taes extremos. Meo coração já adivinhava tudo isto, e já tenho tudo prevenido. O dinheiro, que não servio para alcançar a tua liberdade, vae agora prestar-nos para arrancar-te ás garras desse monstro. Tudo está já disposto, Isaura. Fujamos.
--Sim, meo pae, fujamos; mas como? para onde?
--Para longe daqui, seja para onde fôr; e já, minha filha, emquanto não suspeitão cousa alguma, e não te carregão de ferros.
--Ah! meo pae, tenho bem medo; se nos descobrem, qual será a minha sorte!...
--A empreza é arriscada, não posso negar-te; mas animo, Isaura; é nossa unica taboa de salvação; agarremo-nos a ella com fé, e encommendemo-nos á divina providencia. Os escravos estão na roça; o feitor levou para o cafesal tuas companheiras, teo senhor sahio a cavallo com o André; não ha talvez em toda a casa senão alguma negra lá pelos cantos da cosinha. Aproveitemos a occasião, que parece mesmo nos vir das mãos de Deos no momento, em que aqui estou chegando. Eu já preveni tudo. Lá no fundo do quintal á beira do rio está amarrada uma canoa; é quanto nos basta. Tu sahirás primeiro e irás lá ter por dentro do quintal; eu sahirei por fora alguns instantes depois e lá nos encontraremos. Em menos de uma hora estaremos em Campos, onde nos espera um navio, de que é capitão um amigo meo, e que tem de seguir viagem para o norte nesta madrugada. Quando romper o dia, estaremos longe do algôz, que te persegue. Vamo-nos, Isaura; talvez por esse mundo encontremos alguma alma piedosa, que melhor do que eu te possa proteger.
--Vamo-nos, meo pae; que posso eu recear?... posso acaso ser mais desgraçada do que já sou?...
Isaura cosendo-se com a sombra do muro, que rodeava o pateo, abrio o portão, que dava para o quintal, e desappareceo. Momentos depois Miguel rodeando por fora os edificios costeava o quintal, e achava-se com ella á margem do rio.
A canoa vogando subtilmente bem junto á barranca, impellida pelo braço vigoroso de Miguel, em poucos minutos perdeo de vista a fazenda.
Capitulo X.
Já são passados mais de dous mezes depois da fuga de Isaura, e agora, leitores, em quanto Leoncio emprega diligencias extraordinarias e meios extremos, e desatando os cordões da bolsa, põe em actividade a policia e uma multidão de agentes particulares para empolgar de novo a presa, que tão sorrateiramente lhe escapára, façamo-nos de véla para as provincias do norte, onde talvez primeiro que elle deparemos com a nossa fugitiva heroina.
Estamos no Recife. É noite e a formosa Veneza da America do Sul, coroada de um diadema de luzes, parece surgir dos braços do oceano, que a estreita em carinhoso amplexo e a beija com amor. É uma noite festiva: em uma das principaes ruas nota-se um edificio esplendidamente illuminado, para onde concorre grande numero de cavalheiros e damas das mais distinctas e opulentas classes. É um lindo prédio onde uma sociedade escolhida costuma dar brilhantes e concorridos saráos. Alguns estudantes dos mais ricos e elegantes, tambem costumão descer da velha Olinda em noites determinadas, para ali virem se espanejar entre os esplendores e harmonias, entre as sedas e perfumes do salão do baile; e aos meigos olhares e angelicos sorrisos das bellas e espirituosas pernambucanas, esquecerem por algumas horas os duros bancos da Academia e os carunchosos praxistas.
Supponhamos que tambem somos adeptos daquelle templo de Terpsicore, entremos por elle a dentro, e observemos o que por ahi vai de curioso e interessante. Logo na primeira sala encontramos um grupo de elegantes mancebos, que conversam com alguma animação. Escutemol-os.
--É mais uma estrella, que vem brilhar nos salões do Recife,--dizia Alvaro,--e dar lustre a nossos saráos. Não ha ainda tres mezes, que chegou a esta cidade, e haverá pouco mais de um, que a conheço. Mas creia-me, D^{r}. Geraldo, é ella a creatura mais nobre e encantadora que tenho conhecido. Não é uma mulher; é uma fada, é um anjo, é uma deosa!...
--Caspite!--exclamou o D^{r}. Geraldo; fada! anjo! deosa!... são portanto tres entidades distinctas, mas por fim de contas verás que não passa de uma mulher verdadeira. Mas dize-me cá, meo Alvaro; esse anjo, fada, deosa, mulher ou o que quer que seja, não te disse d’onde veio, de que familia é, se tem fortuna, etc., etc., etc.
--Pouco me importo com essas cousas, e poderia responder-te que veio do céo, que é da familia dos anjos, e que tem uma fortuna superior a todas as riquezas do mundo: uma alma pura, nobre e intelligente, e uma belleza incomparavel. Mas sempre te direi que o que sei de positivo a respeito della é que veio do Rio-Grande do Sul em companhia de seo pae, de quem é ella a unica familia; que seos meios são bastantemente escassos, mas que em compensação ella é linda como os anjos, e tem o nome de Elvira.
--Elvira!--observou o terceiro cavalheiro--bonito nome na verdade!... mas não poderás dizer-nos, Alvaro, onde mora a tua fada?...
--Não faço mysterio disso; mora com seo pae em uma pequena chacara no bairro de Santo Antonio, onde vivem modestamente, evitando relações, e apparecendo mui raras vezes em publico. Nessa chacara, escondida entre moitas de coqueiros e arvoredos, vive ella como a violeta entre a folhagem, ou como fada mysteriosa em uma gruta encantada.
--É celebre!--retorquio o doutor--mas como chegaste a descobrir essa nympha encantada, e a ter entrada em sua gruta mysteriosa?
--Eu vos conto em duas palavras. Passando eu um dia a cavallo por sua chacara, avistei-a sentada em um banco do pequeno jardim da frente. Sorprehendeo-me sua maravilhosa belleza. Como vio que eu a contemplava com demasiada curiosidade, esgueirou-se como uma borboleta entre os arbustos floridos e desappareceo. Formei o firme proposito de vel-a e de falar-lhe, custasse o que custasse. Por mais porém, que indagasse por toda a visinhança, não encontrei uma só pessoa, que se relacionasse com ella, e que pudesse apresentar-me. Indaguei por fim quem era o proprietario da chacara, e fui ter com elle. Nem esse podia dar-me informações, nem servir-me em cousa alguma. O seo inquilino vinha todos os meses pontualmente adiantar o aluguel da chacara; eis tudo quanto a respeito delle sabia. Todavia continuei a passar todas as tardes por defronte do jardim, mas a pé para melhor poder sorprehendel-a e admiral-a; quasi sempre porém sem resultado. Quando acontecia estar no jardim, esquivava-se sempre ás minhas vistas como da primeira vez. Um dia porém quando eu passava, cahio-lhe o lenço ao levantar-se do banco; a grade estava aberta; tomei a liberdade de penetrar no jardim, apanhei o lenço, e corri a entregar-lho, quando já ella punha o pé na soleira de sua casa. Agradeceo-me com um sorriso tão encantador, que estive em termos de cahir de joelhos a seos pés; mas não mandou-me entrar, nem fez-me offerecimento algum.
--Esse lenço, Alvaro,--atalhou um cavalheiro,--de certo ella o deixou cahir de proposito, para que pudesses vel-a de perto e fallar-lhe. É um apuro de romantismo, um delicado rasgo de _coquetterie_.
--Não creio; não ha naquelle ente nem sombra de _coquetterie_; tudo nella respira candura e singeleza. O certo é que custei a arrancar meos pés daquelle lugar, onde uma força magnetica me retinha, e que parecia rescender um mysterioso effluvio de amor, de pureza e de ventura...
Alvaro pára em sua narrativa, como que embevecido em tão suaves recordações.
--E ficaste nisso, Alvaro!--perguntava outro cavalheiro;--o teo romance está-nos interessando; vamos por diante, que estou afflicto por ver a peripecia...
--A peripecia?... oh! essa ainda não chegou, e nem eu mesmo sei qual será. Esgotei em fim os estratagemas possiveis para ter entrada no sanctuario daquella deosa; mas foi tudo baldado. O acaso em fim veio em meo socorro, e servio-me melhor do que toda a minha habilidade e diligencia. Passeando eu uma tarde de carro no bairro de Santo Antonio, pelas margens do Beberibe, passeio que se tornára para mim uma devoção, avistei um homem e uma mulher navegando a todo panno em um pequeno bote.
Instantes depois o bote achou-se encalhado em um banco de areia. Apeei-me imediatamente, e tomando um escalér na praia, fui em soccorro dos dois navegantes que em vão forcejavão por safar a pequena embarcação. Não podem fazer idéa da deliciosa surpresa que senti, ao reconhecer nas duas pessoas do bote a minha mysteriosa da chacara e seo pae...
--Por essa já eu esperava; entretanto o lance não deixa de ser dramatico; a historia de teos amores com a tal fada mysteriosa vae tomando visos de um poema phantastico.
--Entretanto é a pura realidade. Como estavão molhados e enxovalhados, convidei-os a entrarem no meo carro. Acceitárão depois de muita reluctancia, e dirigimo-nos para a casa delles. É escusado contar-vos o resto desde então, se bem que com algum acanhamento foi-me franqueado o umbral da gruta mysteriosa.
--E pelo que vejo,--interrogou o doutor,--amas muito essa mulher?
--Se amo! adoro-a cada vez mais, e o que é mais, tenho rasões para acreditar, que ella ... pelo menos não me olha com indifferença.
--Deos queira que não andes embaido por alguma Circe de bordel, por alguma dessas aventureiras, de que ha tantas pelo mundo, e que sabendo que és rico, arma laços ao teo dinheiro! Esse afastamento da sociedade, esse mysterio, em que procurão tão cuidadosamente envolver a sua vida, não abonão muito em favor delles.
--Quem sabe, se são criminosos que procurão subtrahir-se ás pesquizas da policia?--observou um cavalheiro.
--Talvez moedeiros falsos,--accrescentou outro.
--Tenho má fé,--continuou o doutor--todas as vezes, que vejo uma mulher bonita viajando em paizes estranhos em companhia de um homem, que de ordinario se diz pae ou irmão della. O pae de tua fada, Alvaro, se é que é pae, é talvez algum cigano, ou cavalheiro de industria, que especula com a formosura de sua filha.
--Santo Deos!... misericordia!--exclamou Alvaro.--Se eu adivinhasse que veria a pessoa daquella creatura angelica apreciada com tanta atrocidade, ou antes tão impiamente profanada, quereria antes ser atacado de mudez, do que trazel-a á conversação. Creião, que são demasiado injustos para com aquella pobre moça, meos amigos. Eu a julgaria antes uma princeza desthronizada, se não soubesse que é um anjo cahido do céo. Mas vocês em breve vão vel-a, e eu e ella estaremos vingados; pois estou certo, que todos a uma voz a proclamarão uma divindade. Mas o peór é, que desde já posso contar com um rival em cada um de vocês.
--Por minha parte,--disse um dos cavalheiros,--pode ficar tranquillo, pois sempre tive horror ás moças mysteriosas.
--E eu, que não sou mais do que um simples mortal, tenho muito medo de fadas,--accrescentou o outro.
--E como é,--perguntou o Dr. Geraldo,--que vivendo ella assim arredada da sociedade, poude resolver-se a deixar a sua mysteriosa solidão, para vir a este baile tão publico e concorrido?...
--E quanto não me custou isso, meo amigo!--respondeo Alvaro.--Veio quasi violentada. Ha muito tempo, que procuro convencel-a por todos os modos, que uma senhora joven e formosa, como é ella, escondendo seos encantos na solidão, commette um crime, contrario ás vistas do creador, que formou a belleza para ser vista, admirada e adorada; pois sou o contrario desses amantes ciumentos e atrabiliarios, que desejarião ter suas amadas escondidas no amago da terra. Argumentos, instancias, supplicas, tudo foi perdido; pae e filha recusavão-se constantemente a aparecerem em publico, allegando mil diversos pretextos. Vali-me por fim de um ardil; fiz-lhes acreditar que aquelle modo de viver retrahido e sem contacto com a sociedade em um paiz, onde erão desconhecidos, já começava a dar que fallar ao publico e a attrahir suspeitas sobre elles, e que até a policia começava a olhal-os com desconfiança; mentiras, que não deixavão de ter sua plausibilidade...
--E tanta,--interrompeo o doutor,--que talvez não andem muito longe da verdade.
--Fiz-lhes ver,--continuou Alvaro,--que por infundadas e futeis, que fossem taes suspeitas, era necessario arredal-as de si, e para isso cumpria-lhes absolutamente frequentar a sociedade. Este embuste produzio o desejado effeito.
--Tanto peór para elles,--retorquio o doutor;--eis ahi um indicio bem máo, e que mais me confirma em minhas desconfianças. Fossem elles innocentes, e bem pouco se importarião com as suspeitas do publico ou da policia, e continuarião a viver como d’antes.
--Tuas suspeitas não tem o menor fundamento, meo doutor. Elles tem poucos meios, e por isso evitão a sociedade, que realmente impõe duros sacrificios ás pessoas desfavorecidas da fortuna, e elles ... mas eil-os, que chegão... Vejão e convenção-se com seos proprios olhos.
Entrava nesse momento na ante-sala uma joven e formosa dama pelo braço de um homem de idade madura e de respeitavel presença.
--Boa noite, senhor Anselmo!... boa noite, D. Elvira!... felizmente eil-os aqui!--isto dizia Alvaro aos recemchegados, separando-se de seos amigos, e apressurando-se para cumprimentar a aquelles com toda a amabilidade e cortezia. Depois offerecendo um braço a Elvira e outro ao senhor Anselmo, os vae conduzindo para as salas interiores, por onde já turbilhona a mais numerosa e brilhante sociedade. Os tres interlocutores de Alvaro, bem como muitas outras pessoas, que por ali se achavão, puserão-se em ala para verem passar Elvira, cuja presença causava sensação e murmurinho, mesmo entre os que não estavão prevenidos.
--Com effeito!... é de uma belleza deslumbrante!
--Que porte de rainha!...
--Que olhos de andaluza!...
--Que magnificos cabellos!
--E o collo!... que collo!... não reparaste?...
--E como se traja com tão elegante simplicidade!--assim murmuravão entre si os tres cavalheiros como impressionados por uma apparição celeste.
--E não reparaste,--accrescentou o D^{r}. Geraldo,--naquelle feiticeiro sinalsinho, que tem na face direita?... Alvaro tem razão; a sua fada vae eclipsar todas as bellezas do salão. E tem de mais a mais a vantagem da novidade, e esse prestigio do mysterio, que a envolve. Estou ardendo de impaciencia por lhe ser apresentado; desejo admiral-a mais de espaço.
Neste tom continuárão a conversar, até que passados alguns minutos, Alvaro, tendo cumprido a grata commissão de apresentador daquella nova pérola dos salões, estava de novo entre elles.
--Meos amigos,--disse-lhes elle com ar triumphante.--convido-os para o salão. Quero já apresentar-lhes D. Elvira para desvanecer de uma vez para sempre as injustas e injuriosas apprehensões, que ainda ha pouco nutrião a respeito do ente o mais bello e mais puro, que existe debaixo do sol, se bem que estou certo que só com a simples vista ficárão penetrados de assombro até a medulla dos ossos.
Os quatro cavalheiros se retirárão e desapparecêrão no meio do turbilhão das salas interiores. Forão porém immediatamente substituidos por um grupo de lindas e elegantes moças, que scintillantes de sedas e pedrarias como um bando de aves do paraizo, passeavão conversando. O assumpto da palestra era tambem D. Elvira; mas o diapasão era totalmente diverso, e em nada se harmonizava com o da conversação dos rapazes. Nenhum mal nos fará escutal-as por alguns instantes.
--Você não saberá dizer-nos, D. Adelaide, quem é aquella moça, que ainda ha pouco entrou na sala pelo braço do senhor Alvaro?
--Não, D. Laura; é a primeira vez que a vejo, parece-me que não é desta terra.
--De certo; que ar espantado tem ella!... parece uma matuta, que nunca pisou em um salão de baile; não acha, D. Rozalina?
--Sem duvida!... e você não reparou na toilette della?... meo Deos!... que pobreza! a minha mucama tem melhor gosto para se trajar. Aqui a D. Emilia é que talvez saiba quem ella é.
--Eu? porque? é a primeira vez que a vejo, mas o senhor Alvaro já me tinha dado noticias dela, dizendo que era um assombro de belleza. Não vejo nada disso; é bonita, mas não tanto, que assombre.
--Aquelle senhor Alvaro sempre é um excentrico, um exquisito; tudo quanto é novidade o seduz. E onde iria elle excavar aquella pérola, que tanto o traz embasbacado?...
--Veio de arribação lá dos mares do sul, minha amiga, e a julgar pelas apparencias não é de todo má.
--Se não fosse aquella pinta negra, que tem na face, seria mais supportavel.
--Pelo contrario, D. Laura; aquelle signal é que ainda lhe dá certa graça particular...
--Ah! perdão, minha amiga; não me lembrava, que você tambem tem na face um signalsinho semelhante; esse devéras fica-te muito bem, e dá-te muita graça; mas o della, se bem reparei, é grande de mais; não parece uma mosca, mas sim um besouro, que lhe pousou na face.
--A dizer-te a verdade, não reparei bem. Vamos, vamos para o salão; é preciso vel-a mais de perto, estudal-a com mais vagar para podermos dar com segurança a nossa opinião.
E dito isto lá se forão ellas com os braços enlaçados, formando como longa grinalda de variegadas flores, que lá se foi serpeando perder-se entre a multidão.
Capitulo XI.
Alvaro era um desses entes privilegiados, sobre quem a natureza e a fortuna parece terem querido despejar á porfia todo o cofre de seos favores. Filho unico de uma distincta e opulenta familia, na idade de vinte e cinco annos, era orphão de pae e mãe, e senhor de uma fortuna de cerca de dous mil contos.
Era de estatura regular, esbelto, bem feito e bello, mais pela nobre e sympathica expressão da physionomia, do que pelos traços physicos, que entretanto não erão irregulares. Posto que não tivesse o espirito muito cultivado, era dotado de entendimento lucido e robusto, proprio a elevar-se á esphera das mais transcendentes concepções. Tendo concluido os preparatorios, como era philosopho, que pesava gravemente as cousas, ponderando que a fortuna de que pelo acaso do nascimento era senhor, por outro acaso lhe podia ser tirada, quiz para ter uma profissão qualquer, dedicar-se ao estudo do Direito. No primeiro anno, em quanto pairava pelas altas regiões da filosofia do direito, ainda achou algum prazer nos estudos académicos; mas quando teve de embrenhar-se no intrincado labyrintho dessa arida e enfadonha casuistica do direito positivo, seo espirito eminentemente synthetico recuou enfastiado, e não teve animo de proseguir na senda encetada. Alma original, cheia de grandes e generosas aspirações, aprazia-se mais na indagação das altas questões politicas e sociaes, em sonhar brilhantes utopias, do que em estudar e interpretar leis e instituições, que pela maior parte, em sua opinião só tinhão por base erros e preconceitos os mais absurdos.
Tinha odio a todos os privilegios e distincções sociaes, e é escusado dizer que era liberal, republicano e quasi socialista.
Com taes idéas Alvaro não podia deixar de ser abolicionista exaltado, e não o era só em palavras. Consistindo em escravos uma não pequena porção da herança de seos paes, tratou logo de emancipal-os todos. Como porém Alvaro tinha um espirito nimiamente philantropico, conhecendo quanto é perigoso passar bruscamente do estado de absoluta submissão para o gozo da plena liberdade, organizou para os seos libertos em uma de suas fazendas uma especie de colonia, cuja direcção confiou a um probo e zeloso administrador. Desta medida podião resultar grandes vantagens para os libertos, para a sociedade, e para o proprio Alvaro. A fazenda lhes era dada para cultivar, a titulo de arrendamento, e elles sujeitando-se a uma especie de disciplina commum, não só preservavão-se de entregar-se á ociosidade, ao vicio e ao crime, tinhão segura a subsistencia e podião adquirir algum peculio, como tambem poderião indemnizar a Alvaro do sacrificio, que fizera com a sua emancipação. Original e excentrico como um rico lord inglez, professava em seos costumes a pureza e severidade de um quaker. Todavia, como homem de imaginação viva e coração impressionavel, não deixava de amar os prazeres, o luxo, a elegancia, e sobre tudo as mulheres, mas com certo platonismo delicado, certa pureza ideal, proprios das almas elevadas e dos corações bem formados. Entretanto Alvaro ainda não havia encontrado até ali a mulher, que lhe devia tocar o coração, a encarnação do typo ideal, que lhe sorria nos sonhos vagos de sua poetica imaginação. Com tão excellentes e brilhantes predicados, Alvaro por certo devia ser objeto de grande preoccupação no mundo elegante, e talvez o almejo secreto, que fazia palpitar o coração de mais de uma illustre e formosa donzella. Elle porém, igualmente cortez e amavel para com todas, por nenhuma dellas ainda havia dado o minimo signal de predilecção.