A escrava Isaura

Part 5

Chapter 53,963 wordsPublic domain

Leoncio encerrado em seo quarto a ninguem falou, nem apareceo durante alguns dias, e parecia mergulhado no mais inconsolavel e profundo pesar. Entretanto, não era assim. É verdade que Leoncio não deixou de soffrer certo choque, certa sorpresa, que não golpe doloroso, com a noticia do fallecimento de seo pae; mas no fundo d’alma,--força é dizel-o,--passado o primeiro momento de abalo e consternação chegou até a estimar aquelle acontecimento, que tanto a proposito vinha livral-o dos apuros, em que se achava enleado em face de Malvina e de Miguel. Portanto durante a sua reclusão em vez de entregar-se á dor que lhe deveria causar tão sensivel golpe, Leoncio, que por maneira nenhuma podia resignar-se a desfazer-se de Isaura, só meditava os meios de safar-se das difficuldades, em que se achava envolvido, e urdia planos para assegurar-se a posse da gentil captiva. As difficuldades erão grandes, e constituião um nó, que poderia ser cortado, mas nunca desatado. Leoncio havia reconhecido a promessa que seo pae fizera a Miguel, de alforriar Isaura mediante a soma enorme de dez contos de réis. Miguel tinha pronta essa quantia, e lh’a tinha vindo meter nas mãos, reclamando a liberdade de sua filha. Leoncio reconhecia tambem, e nem podia contestar, que sempre fôra voto de sua fallecida mãe deixar livre Isaura por sua morte. Por outro lado Malvina, sabedora de sua paixão e de seos sinistros intentos sobre a captiva, justamente irritada, exigia com imperio a immediata alforria da mesma. Não restava ao mancebo meio algum de se tirar decentemente de tantas difficuldades senão libertando Isaura. Mas Leoncio não podia se conformar com semelhante idéa. O violento e cego amor, que Isaura lhe havia inspirado, o incitava a saltar por cima de todos os obstaculos, a arrostar todas as leis do decoro e da honestidade, a esmagar sem piedade o coração de sua meiga e carinhosa esposa, para obter a satisfação de seos freneticos desejos. Resolveo pois cortar o nó, usando de sua prepotencia, e protelando indefinidamente o cumprimento de seo dever, assentou de afrontar com cynica indifferença e brutal sobranceria as justas exigencias e exprobrações de Malvina.

Quando esta, depois de deixar passar alguns dias em respeito á dor de que julgava seo marido acabrunhado, lhe tocou naquelle melindroso negocio:

--Temos tempo, Malvina,--respondeo-lhe o marido com toda a calma.--É-me preciso em primeiro lugar dar balanço e fazer o inventario da casa de meo pae. Tenho de ir á côrte arrecadar os seos papeis e tomar conhecimento do estado de seos negocios. Na volta e com mais vagar trataremos de Isaura.

Ao ouvir esta resposta o rosto de Malvina cobrio-se de palidez mortal; ella sentio esfriar-lhe o coração apertado entre as mãos geladas do mais pungente dissabor, como se ali se esmoronasse de repente todo o sonhado castello de suas venturas conjugaes. Ella esperava que o marido fulminado por tão doloroso golpe naquelles dias de amarga meditação e abatimento, retrahindo-se no santuario da consciencia, reconhecesse seos erros e desvarios, implorasse o perdão delles, e se propuzesse a entrar nas sendas do dever e da honestidade. As frias desculpas e futeis evasivas do marido vierão submergil-a de chofre no mais amargo e profundo desalento.

--Como?!--exclamou ella com um accento que exprimia a um tempo altiva indignação e o mais entranhado desgosto.--Pois ainda hesitas em cumprir tão sagrado dever?... se tivesses alma, Leoncio, terias considerado Isaura como tua irmã, pois bem sabes que tua mãe a amava e idolatrava como a uma filha querida, e que era seo mais ardente desejo libertal-a por sua morte e deixar-lhe um legado consideravel, que lhe assegurasse o futuro. Sabes tambem, que teo pae havia feito promessa solemne ao pae de Isaura de dar-lhe alforria pela quantia de dez contos de réis, e Miguel já te veio pôr nas mãos essa exorbitante quantia. Sabes tudo isto, e ainda vens com duvidas e demoras!... Oh! isto é muito!... não vejo motivo nenhum para demorar o cumprimento de um dever, de que ha muito tempo já devias ter-te desempenhado.

--Mas para que, semelhante pressa?... não me dirás, Malvina?--replicou Leoncio com a maior brandura e tranquillidade.--De que proveito pode ser agora a liberdade para Isaura? por ventura não está ella aqui bem? é maltratada?... soffre alguma privação?... não continúa a ser considerada antes como uma filha da familia, do que como uma escrava? queres que desde já a soltemos á toa por esse mundo?... assim de certo não cumpriremos o desejo de minha mãe, que tão sollicita se mostrava pela sorte futura de Isaura. Não, minha Malvina; não devemos por ora entregar Isaura a si mesma. É preciso primeiro assegurar-lhe uma posição decente, honesta e digna de sua belleza e educação, procurando-lhe um bom marido, e isso não se arranja assim de um dia para outro.

--Que miseravel desculpa, meo amigo!... Isaura por ora não precisa de marido para protegel-a; tem o pae, que é homem muito de bem, e acaba de dar provas de quanto adora sua filha. Entreguemol-a ao senhor Miguel, que ficará em muito boas mãos, e debaixo de muito boa sombra.

--Pobre do senhor Miguel!--replicou Leoncio com sorriso desdenhoso.--Terá bons desejos, não duvido; mas onde estão os meios, de que dispõe, para fazer a felicidade de Isaura, principalmente agora em que de certo empenhou os cabellos da cabeça para arranjar a alforria da filha, se é que isso não proveio de esmolas, que lhe fizerão, como me parece mais certo.

Por unica resposta Malvina abanou tristemente a cabeça e suspirou. Todavia quiz ainda acreditar na sinceridade das palavras de seo marido, fingio-se satisfeita e retirou-se sem dar mostras de agastamento. Não podia porém prolongar por mais tempo aquella situação para ella tão humilhante, tão cheia de anciedade e desgosto, e no outro dia insistio ainda com mais força sobre o mesmo objecto. Teve em resposta as mesmas evasivas e moratorias. Leoncio affectava mesmo tratar desse negocio com certa indifferença desdenhosa, como quem estava definitivamente resolvido a fazer o que quizesse. Malvina desta vez não pôde conter-se, e rompeo com seo marido. Este, como já friamente havia deliberado, aparou os raios da cólera feminina no escudo de uma imprudencia cynica e galhofeira, o que levou ao ultimo gráo de exacerbação a cólera e o despeito de Malvina.

No outro dia Malvina, sem dar satisfação alguma a quem quer que fosse, deixava precipitadamente a casa de Leoncio, e partia em companhia de seo irmão Henrique caminho do Rio de Janeiro, jurando no auge da indignação nunca mais pôr os pés naquella casa, onde era tão vilmente ultrajada, e varrer para sempre da lembrança a imagem de seo desleal e devasso marido. No assomo do despeito não calculava se teria forças bastantes para levar a effeito aquelles freneticos juramentos, inspirados pela febre do ciume e da indignação; ignorava, que nas almas ternas e bondosas como a sua o odio se desvanece muito mais depressa do que o amor; e o amor, que Malvina consagrava a Leoncio, a despeito de seos desmandos e devassidões, era muito mais forte do que o seo resentimento, por mais justo que este fosse.

Leoncio por seo lado, levando por diante o seo plano de oppôr aos assomos da esposa a mais inerte e cynica indifferença, vio de braços cruzados e sem fazer a minima observação, os preparativos daquella rapida viagem, e recostado ao alpendre, fumando indolentemente o seo charuto, assistio á partida de sua mulher, como se fôra o mais indifferente dos hospedes.

Entretanto essa indifferença de Leoncio nada tinha de natural e sincera; não que elle sentisse pezar algum pela brusca partida de sua mulher; pelo contrario era jubilo, que sentia com a realização daquella caprichosa resolução de Malvina, que assim lhe abandonava o campo inteiramente livre de embaraços, para proseguir em seos nefandos projetos sobre a infeliz Isaura. Com aquelle fingido pouco caso, conseguia disfarçar o prazer e satisfação, em que lhe transbordava o coração; e como era aphorismo adoptado e sempre posto em pratica por elle, posto que em circumstancias menos graves,--que contra as cóleras e caprichos femininos não ha arma mais poderosa do que muito sangue frio e pouco caso, Malvina não pôde descobrir no fundo daquella affectada indifferença o jubilo intenso, em que nadava a alma de seo marido.

O que era feito porém da nobre e infeliz Isaura durante esses longos dias de lucto, de consternação, de anciedades e dissabores?

Desde que ouviu a leitura da carta, em que se noticiava a morte do commendador, Isaura perdeo todas as lisongeiras esperanças, que um momento antes Miguel fizera desabrochar em seo coração. Transida de horror comprehendeo, que um destino implacavel a entregava victima indefesa entre as mãos de seo tenaz e desalmado perseguidor. Sabedora da miseranda sorte de sua mãe, não encontrava em sua imaginação abalada outro remedio a tão cruel situação senão resignar-se e preparar-se para o mais atroz dos martyrios. Um cruel desalento, um pavor mortal apoderou-se de seo espirito, e a infeliz, palida, desfeita, e como que hallucinada, ora vagava á toa pelos campos, ora escondida nas mais espessas moitas do pomar, ou nos mais sombrios recantos das alcovas, passava horas e horas entre sustos e angustias, como a timida lebre, que vê pairando no céo a aza sinistra do gavião de garras sangrentas. Quem poderia amparal-a? Onde poderia encontrar protecção contra as tyrannicas vontades de seo libertino e execravel senhor? Só duas pessoas poderião ter por ella commiseração e interesse; seo pae e Malvina. Seo pae, obscuro e pobre feitor, não tendo ingresso em casa de Leoncio, e só podendo communicar-se com ella a custo e furtivamente, em pouco ou nada podia valer-lhe. Malvina, que sempre a havia tratado com tanta bondade e carinho, ai! A propria Malvina, depois da scena escandalosa em que colhera seo marido, dirigindo a Isaura palavras enternecidas, começou a olhal-a com certa desconfiança e afastamento, terrivel effeito do ciume, que torna injustas e rancorosas as almas ainda as mais candidas e benevolentes. A senhora, com o correr dos dias, tornava-se cada vez menos tratavel e benigna para com a escrava, que antes havia tratado com carinho e intimidade quasi fraternal.

Malvina era boa e confiante, e nunca teria duvidado da innocencia de Isaura, se não fosse Rosa, sua terrivel emula e figadal inimiga. Depois do desaguisado, de que Isaura foi causa innocente, Rosa ficou sendo a mucama ou criada da camara de Malvina, e esta ás vezes desabafava em presença da maligna mulata os ciumes e desgostos, que lhe fervião e transvasavão do coração.

--Sinhá está-se fiando muito naquella sonsa...--dizia-lhe a maliciosa rapariga.--Pois fique certa, que não são de hoje esses namoricos; ha muito tempo, que eu estou vendo essa impostora, que diante da sinhá se faz toda simploria, andar-se derretendo diante de sinhô moço. Ella mesmo é que tem a culpa d’elle andar assim com a cabeça virada.

Estes e outros muitos quejandos enredos, que Rosa sabia habilmente insinuar nos ouvidos de sua senhora, erão bastantes para desvairar o espirito de uma candida e inexperiente moça como Malvina, e forão produzindo o resultado, que desejava a perversa mulatinha.

Acabrunhada com aquelle novo infortunio, Isaura fez algumas tentativas para achegar-se de sua senhora, e saber o motivo por que lhe retirava a affeição e confiança, que sempre lhe mostrára, e a fim de poder manifestar sua innocencia. Mas era recebida com tal frieza e altivez, que a infeliz recuava espavorida para de novo ir mergulhar-se mais fundo ainda no pégo de suas angustias e desalentos.

Todavia emquanto Malvina se conservava em casa, era sempre uma salva-guarda, uma sombra protectora, que amparava Isaura contra as importunações e brutaes tentativas de Leoncio. Por menor que fosse o respeito, que lhe tinha o marido, ella não deixava de ser um poderoso estorvo ao menos contra os actos de violencia, que quizesse pôr em pratica para conseguir seos execrandos fins. Isaura ponderava isso tudo, e é custoso fazer-se idéa do estado de terror e desfallecimento em que ficou aquella pobre alma quando vio partir sua senhora, deixando-a inteiramente ao desamparo, entregue sem defesa aos insanos e barbaros caprichos daquelle, que era seo senhor, amante e algôz ao mesmo tempo.

De feito Leoncio mal vio sumir-se a esposa por trás da ultima collina, não podendo conter mais a expansão de seo satanico jubilo, tratou logo de pôr o tempo em proveito, e pôz-se a percorrer toda a casa em procura de Isaura. Foi emfim deparar com ella no escuro recanto de uma alcova, estendida por terra quasi exanime, banhada em pranto, e arrancando do peito soluços convulsivos.

Poupemos ao leitor a narração da scena vergonhosa, que ahi se deo. Contentemo-nos com dizer, que Leoncio esgotou todos os meios brandos e suasivos ao seo alcance para convencer a rapariga, que era do interesse e dever della render-se a seos desejos. Fez as mais esplendidas promessas, e os mais solemnes protestos; abaixou-se até ás mais humildes supplicas, e arrastou-se vilmente aos pés da escrava, de cuja boca não ouvio senão palavras amargas, e terriveis exprobrações; e vendo emfim que eram infructiferos todos esses meios, retirou-se cheio de cólera, vomitando as mais tremendas ameaças.

Para dar a essas ameaças começo de execução, nesse mesmo dia mandou pôl-a trabalhando entre as fiandeiras, onde a deixámos no capitulo antecedente. Dali teria de ser levada para a roça, da roça para o tronco, do tronco para o pelourinho, e deste certamente para o tumulo, se teimasse em sua resistencia ás ordens de seo senhor.

Capitulo IX.

Leoncio impaciente e com o coração ardendo nas chammas de uma paixão febril e delirante, não podia resignar-se a adiar por mais tempo a satisfação de seos libidinosos desejos. Vagando daqui para ali por toda a casa, como quem dava ordens para reformar o serviço domestico, que dahi em diante ia correr todo por sua conta, não fazia mais do que espreitar todos os movimentos de Isaura, procurando occasião de achal-a a sós para insistir de novo e com mais força em suas abominaveis pretenções. De uma janella vio as escravas fiandeiras atravessarem o pateo para irem jantar, e notou a ausencia de Isaura.

--Bom!... vae tudo ás mil maravilhas! murmurou Leoncio com satisfação; nesse momento passava-lhe pela mente a feliz lembrança de mandar um feitor levar as outras escravas para o cafesal, ficando elle quasi a sós com Isaura no meio daquelles vastos e desertos edificios.

Dir-me-hão, que sendo Isaura uma escrava, Leoncio, para achar-se a sós com ella não precisava de semelhantes subterfugios, e nada mais tinha a fazer do que mandal-a trazer á sua presença por bem ou por mal. De certo elle assim podia proceder, mas não sei que prestigio tem, mesmo em uma escrava, a belleza unida á nobreza da alma, e á superioridade da inteligencia, que impõe respeito aos entes ainda os mais perversos e corrompidos. Por isso Leoncio, a despeito de todo o seo cynismo e obcecação, não podia eximir-se de render no fundo d’alma certa homenagem á belleza e virtudes daquella escrava excepcional, e de tratal-a com mais alguma delicadeza do que ás outras.

--Isaura,--disse Leoncio, continuando o dialogo que deixámos apenas encetado,--fica sabendo, que agora a tua sorte está inteiramente entre as minhas mãos.

--Sempre esteve, senhor,--respondeo humildemente Isaura.

--Agora mais que nunca. Meo pae é fallecido, e não ignoras que sou eu o seo unico herdeiro. Malvina por motivos, que sem duvida terás adivinhado, acaba de abandonar-me, e retirou-se para a casa de seo pae. Sou eu pois, que hoje unicamente governo nesta casa, e disponho do destino. Mas tambem, Isaura, de tua vontade unicamente depende a tua felicidade ou a tua perdição.

--De minha vontade!... oh! não, senhor; minha sorte depende unicamente da vontade de meo senhor.

--E eu bem desejo--replicou Leoncio com a mais terna inflexão de voz,--com todas as forças de minha alma, tornar-te a mais feliz das creaturas; mas como, se me recusas obstinadamente a felicidade, que tu, só tu me poderias dar?....

--Eu, senhor?! oh! por quem é, deixe a humilde escrava em seo lugar; lembre-se da senhora D. Malvina, que é tão formosa, tão boa, e que tanto lhe quer bem. É em nome della que lhe peço, meo senhor; deixe de abaixar seos olhos para uma pobre captiva, que em tudo está prompta para lhe obedecer, menos nisso, que o senhor exige...

--Escuta, Isaura; és muito creança, e não sabes dar ás cousas o devido peso. Um dia, e talvez já tarde, te arrependerás de ter rejeitado o meu amor.

--Nunca!--exclamou Isaura.--Eu cometteria uma traição infame para com minha senhora, se désse ouvidos ás palavras amorosas de meo senhor.

--Escrupulos de creança!... escuta ainda, Isaura. Minha mãe vendo a tua linda figura e a viveza de teo espirito,--talvez por não ter filha alguma,--desvelou-se em dar-te uma educação, como teria dado a uma filha querida. Ella amava-te extremosamente, e se não deo-te a liberdade foi com o receio de perder-te; foi para conservar-te sempre junto de si. Se ella assim procedia por amor, como posso eu largar-te de mão, eu que te amo com outra sorte de amor muito mais ardente e exaltado, um amor sem limites, um amor que me levará á loucura ou ao suicidio, se não ... mas que estou a dizer!... Meo pae,--Deos lhe perdoe,--levado por uma sordida avareza, queria vender tua liberdade por um punhado de ouro, como se houvesse ouro no mundo que valesse os inestimaveis encantos, de que os céos te dotárão. Profanação!... eu repelliria como quem repelle um insulto, todo aquelle que ousasse vir offerecer-me dinheiro pela tua liberdade. Livre és tu, por que Deos não podia formar um ente tão perfeito para votal-o á escravidão.

Livre és tu, por que assim o queria minha mãe, e assim o quero eu. Mas, Isaura, o meo amor por ti é immenso; eu não posso, eu não devo abandonar-te ao mundo. Eu morreria de dor, se me visse forçado a largar mão da joia inestimavel, que o céo parece ter-me destinado, e que eu ha tanto tempo rodeio dos mais ardentes anhélos de minha alma...

--Perdão, senhor; eu não posso comprehendel-o; diz-me que sou livre, e não permite que eu vá para onde quizer, e nem ao menos que eu disponha livremente de meu coração?!

--Isaura, se o quizeres, não serás sómente livre; serás a senhora, a deosa desta casa. Tuas ordens, quaesquer que sejão, os teos menores caprichos serão ponctualmente cumpridos; e eu, melhor do que faria o mais terno e o mais leal dos amantes, te cercarei de todos os cuidados e carinhos, de todas as adorações, que sabe inspirar o mais ardente e inextinguivel amor. Malvina me abandona!... tanto melhor! em que dependo eu della e de seo amor, se te possuo! Quebrem-se de uma vez para sempre esses laços urdidos pelo interesse! esqueça-se para sempre de mim, que eu nos braços de minha Isaura encontrarei sobeja ventura para poder lembrar-me della.

--O que o senhor acaba de dizer, me horroriza. Como se pode esquecer e abandonar ao desprezo uma mulher tão amante e carinhosa, tão cheia de encantos e virtudes, como sinhá Malvina? Meo senhor, perdoe-me se lhe fallo com franqueza; abandonar uma mulher bonita, fiel e virtuosa por amor de uma pobre escrava, seria a mais feia das ingratidões...

A tão severa e esmagadora exprobração, Leoncio sentio revoltar-se o seo orgulho.

--Cala-te, escrava insolente!--bradou cheio de cólera.--Que eu supporte sem irritar-me os teos desdens e repulsas, ainda vá; mas reprehensões!... com quem pensas tu, que fallas?...

--Perdão! senhor!... exclamou Isaura atterrada e arrependida das palavras que lhe tinhão escapado.

--E entretanto, se te mostrasses mais branda commigo ... mas não, é muito aviltar-me diante de uma escrava; que necessidade tenho eu de pedir aquillo, que de direito me pertence? Lembra-te, escrava ingrata e rebelde, que em corpo e alma me pertences, a mim só e a mais ninguem. És propriedade minha; um vaso, que tenho entre as minhas mãos, e que posso usar delle ou despedaçal-o a meo sabor.

--Pode despedaçal-o, meo senhor; bem o sei; mas por piedade não queira usar delle para fins impuros e vergonhosos. A escrava tambem tem coração, e não é dado ao senhor querer governar os seos affectos.

--Affectos!... quem falla aqui em affectos?! Podes acaso dispor delles?...

--Não por certo, meo senhor; o coração é livre; ninguem póde escravizal-o, nem o proprio dono.

--Todo o teo ser é escravo; teo coração obedecerá, e se não cedes de bom grado, tenho por mim o direito e a força ... mas para que? para te possuir não vale a pena empregar esses meios extremos. Os instinctos do teo coração são rasteiros e abjectos como a tua condição; para te satisfazer far-te-hei mulher do mais vil, do mais hediondo de meus negros.

--Ah! senhor! bem sei de quanto é capaz. Foi assim que seo pae fez morrer de desgostos e máos tratos a minha pobre mãe; já vejo que me é destinada a mesma sorte. Mas fique certo, de que não me faltarão nem os meios nem a coragem para ficar para sempre livre do senhor e do mundo.

--Oh!--exclamou Leoncio com satanico sorriso,--já chegaste a tão subido gráo de exaltação e romantismo!... isto em uma escrava não deixa de ser curioso. Eis o proveito, que se tira de dar educação a taes creaturas! bem mostras, que és uma escrava, que vives de tocar piano e ler romances. Ainda bem que me preveniste; eu saberei gelar a ebullição desse cerebro escaldado. Escrava rebelde e insensata, não terás mãos nem pés para pôr em pratica teos sinistros intentos. Ó lá, André,--bradou elle e apitou com força no cabo do seo chicote.

--Senhor!--bradou de longe o pajem, e um instante depois estava em presença de Leoncio.

--André,--disse-lhe este com voz secca e breve--traze-me já aqui um tronco de pés e algemas com cadeado.

--Virgem santa!--murmurou comsigo André espantado.--Para que será tudo isto?... ah! pobre Isaura!...

--Ah! meo senhor, por piedade!--exclamou Isaura, caindo de joelhos aos pés de Leoncio, e levantando as mãos ao céo em contorções de angustia; pelas cinzas ainda quentes de seo pae, ha poucos dias fallecido, pela alma de sua mãe, que tanto lhe queria, não martyrize a sua infeliz escrava. Acabrunhe-me de trabalhos, condene-me ao serviço o mais grosseiro e pesado, que a tudo me sujeitarei sem murmurar; mas o que o senhor exige de mim, não posso, não devo fazel-o, embora deva morrer.

--Bem me custa tratar-te assim, mas tu mesma me obrigas a este excesso. Bem vês, que me não convem por modo nenhum perder uma escrava como tu és.

Talvez ainda um dia me serás grata por ter-te impedido de matar-te a ti mesma.

--Será o mesmo!--bradou Isaura levantando-se altiva, e com o accento rouco e trémulo da desesperação,--não me matarei por minhas proprias mãos, mas morrerei ás mãos de um carrasco.

Neste momento chega André trazendo o tronco e as algemas, que deposita sobre um banco, e retira-se imediatamente.

Ao ver aquelles barbaros e aviltantes instrumentos de supplicio turvárão-se os olhos a Isaura, o coração se lhe enregelou de pavor, as pernas lhe desfallecerão, cahio de joelhos e debruçando-se sobre o tamborete, em que fiava, desatou uma torrente de lagrimas.

--Alma de minha sinhá velha!--exclamou com voz entre-cortada de soluços,--valei-me nestes apuros; valei-me lá do céo, onde estais, como me valieis cá na terra.

--Isaura,--disse Leoncio com voz aspera apontando para os instrumentos de supplicio,--eis ali o que te espera, se persistes em teo louco emperramento. Nada mais tenho a dizer-te; deixo-te livre ainda, e fica-te o resto do dia para reflectires. Tens de escolher entre o meo amor e o meo odio. Qualquer dos dous, tu bem sabes, são violentos e poderosos. Adeos!...

Quando Isaura sentio, que seo senhor se havia ausentado, ergueo o rosto, e levantando ao céo os olhos e as mãos juntas, dirigio á Rainha dos anjos a seguinte fervorosa prece, exalada entre soluços do mais intimo de sua alma: