Part 8
Enganavão-se. Isaura recolhida ao silencio não fazia mais do que tentar esforços supremos para sacudir o fardo daquelle disfarce, que tanto lhe pesava sobre a consciencia, rasgando resolutamente o véo, que encobria aos olhos do amante sua verdadeira condição. Por mais porém que invocasse toda a sua energia e resolução, no momento decisivo a coragem a abandonava. Já a palavra lhe pairava pelos labios entre-abertos, já tinha o passo formado para ir prostrar-se aos pés de Alvaro, mas encontrando pousado sobre ella o olhar meigo e apaixonado do mancebo, ficava como que fascinada; a palavra não ousava romper os labios paralysados e refluia ao coração, e os pés recusavão-se ao movimento como se estivessem pregados no chão. Isaura estava como o desgraçado a quem circunstancias fataes arrastão ao suicidio, mas que ao chegar á borda do precipicio medonho em que deseja arrojar-se, recua espavorido.
--Fraca e covarde creatura que eu sou!--pensou ella por fim esmorecida:--que miseria! nem tenho coragem para cumprir um dever! não importa; para tudo ha remedio; cumpre que elle ouça da boca de meo pae, o que eu não tenho animo de dizer-lhe.
Esta idéa luzio-lhe no espirito como uma taboa salvadora; agarrou-se a ella com soffreguidão, e antes que de novo lhe fraqueasse o animo, tratou de pôl-a em execução.
--Meo pae,--disse ella resolutamente, apenas Alvaro transpoz o portão do pequeno jardim,--declaro-lhe, que não vou a esse baile; não quero, nem devo por forma nenhuma lá me apresentar.
--Não váis?!--exclamou Miguel attonito.--E por que não disseste isto ha mais tempo, quando o senhor Alvaro ainda aqui se achava? agora que já demos nossa palavra...
--Para tudo ha remedio, meo pae,--atalhou a filha com febril vivacidade--e para este caso elle é bem simples. Vá meo pae depressa á casa desse moço, e diga-lhe o que eu não tive animo de dizer-lhe; declare-lhe quem eu sou, e está tudo acabado.
Dizendo isto, Isaura estava palida, fallava com precipitação, os labios descorados lhe tremião, e as palavras proferidas com voz convulsa e estridente, parecia que lhe erão arrancadas a custo do coração. Era o resultado do extremo esforço que fazia, para levar a effeito tão penivel resolução. O pai olhava para ella com assombro e consternação.
--Que estás a dizer, minha filha!--replicou-lhe elle--estás tão palida e alterada!... parece-me que tens febre ... soffres alguma cousa?
--Nada soffro, meo pae; não se inquiete pela minha saúde. O que eu estou lhe dizendo é que é absolutamente necessario, que meo pae vá procurar esse moço e confessar-lhe tudo...
--Isso nunca!... estás louca, menina?... queres que eu te veja encerrada em uma cadeia, conduzida em ferros para a tua provincia, entregue a teo senhor, e por fim ver-te morrer entre tormentos nas garras daquelle monstro! oh! Isaura, por quem és, não me falles mais nisso. Emquanto o sangue me girar nestas veias, emquanto me restar o mais pequenino recurso, hei-de lançar mão delle para te salvar....
--Salvar-me por meio de uma indignidade, de uma infamia, meo pae!... retorquio a moça com exaltação.--Como posso eu, sem commetter a mais vil deslealdade, apparecer apresentada por elle como uma senhora livre em uma sala de baile?... Quando esse senhor e tantas outras illustres pessoas souberem que hombreou com ellas, e a par dellas dançou uma miseravel escrava fugida...
--Cala-te, menina!--interrompeo o velho, incommodado com a exaltação da filha.--Não falles assim tão alto ... tranquilliza-te; elles nunca saberão de nada. O mais breve que puder ser deixaremos esta terra; ámanhã mesmo, se for possivel. Embarcaremos em qualquer paquete, e iremos para bem longe, para os Estados-Unidos, por exemplo. Lá, segundo me consta, poderemos ficar fóra do alcance de qualquer perseguição. Eu com o meo trabalho, e tu com as tuas prendas e habilitações, podemos viver sem soffrer necessidades em qualquer canto do mundo.
--Ah! meo pae! essa idéa de irmos para tão longe, sem esperança de um dia podermos voltar, me opprime o coração.
--Que remedio, minha filha!... já agora, ainda que tenhamos de ir parar ao fim do mundo, nos é forçoso fugir ás garras do monstro.
--Mas esse moço, que tanto se interessa por nós, o senhor Alvaro, nobre e generoso como é, sabendo da minha verdadeira condição, e das terriveis circumstancias que nos obrigão a andar assim fugitivos e disfarçados pelo mundo, talvez queira e possa nos amparar e valer contra as perseguições.
--E quem nos affiança isso?... o mais certo é elle entregar-te ao desprezo, logo que saiba que não passas de uma escrava fugida, se despeitado com o logro que levou, não for o primeiro a denunciar-te á policia. No transe em que nos achamos, é de absoluta necessidade enganar a elle e a todos; se revelarmos a quem quer que seja o segredo de nossa posição, estamos perdidos. Toma coragem, e vamos ao baile, minha filha; é um sacrificio cruel, mas passageiro, a que devemos nos sujeitar a bem de nossa segurança. Em breve estaremos longe, e se algum dia souberem quem tu eras, que nos importa? nunca mais nos verão o rosto, nem ouvirão nossos nomes. Tens a consciencia escrupulosa em demasia. Se ignorão quem tu és, a tua companhia em nada os pode infamar. Com isso não fazes mal a ninguem; é uma medida de salvação, que todos te perdoarião.
--Meo pae parece que tem razão; mas não sei por que, repugna-me absolutamente ao coração dar esse passo.
--Mas é preciso dal-o, minha filha, se não queres para nós ambos a desgraça e a morte. Se não formos a esse baile, e desapparecermos de um dia para outro, como nos é forçoso, então as suspeitas que começamos a despertar, tomarão muito maior vulto, e a policia pôr-se-há á nossa pista, e nos perseguirá por toda parte. É um sacrificio na verdade, mas não será elle muito mais suave do que as perseguições da policia, a prisão, as torturas e a morte, que é o que podes esperar em casa de teo senhor?...
Isaura não respondeo; seo espirito agitava-se entre as mais pungentes e amargas reflexões.
As palavras de seo pae a tinhão abismado em glacial e profundo desalento. Aturdida por tantos golpes, sua alma debatia-se em um mar de duvidas e perplexidades, como fragil barca em meio de um oceano irritado, sacudida aos boléos por vagalhões desencontrados.
O grito de sua consciencia escrupulosa e delicada, a lisura e sinceridade de seo coração, que não podia accomodar-se com o embuste e a mentira, e uma especie de vago presentimento que lhe pesava sobre o espirito, a desviavão daquelle baile, e por momentos parecião fixar definitivamente a sua resolução; e firme neste proposito dizia comsigo mesma:--não, não irei.
Por outro lado as considerações de seo pae, que parecião tão razoaveis e sensatas, bem como o desejo de ver Alvaro ainda uma vez, de gozar por algumas horas a sua presença, fazião-lhe de novo fluctuar o espirito no mar das irresoluções. A lembrança de que em breve, talvez no dia seguinte, tinha de deixar aquella terra e separar-se de Alvaro, sem esperança alguma de jámais tornar a vel-o, sem poder dizer-lhe um adeos, sem que elle pudesse saber quem ella era, nem para onde ia, dilacerava-lhe o coração. Partir sem ter um ente a quem apertar nos braços na hora da despedida, nem ter um seio onde verter as lagrimas da mais pungente saudade; partir para levar uma vida errante e fugitiva, sem esperança nem consolação alguma, atravéz de mil trabalhos e perigos, para terminal-a talvez entre os tormentos da mais atroz escravidão, oh!... isto era pavoroso!--e, entretanto, era esse o unico futuro, que a pobre Isaura tinha diante dos olhos. Mas não; tinha ainda diante de si uma noite inteira de prazer e de ventura, uma noite esplendida de baile e regozijo de seo amante, respirando o mesmo ar, inebriando-se de sua voz, bebendo o seo halito, recolhendo dentro d’alma seos olhares apaixonados, sentindo na sua a pressão daquella mão adorada, contando as pulsações daquelle coração, que só por ella palpitava. Oh! uma noite assim valia bem uma eternidade, viessem depois embora as angustias e perigos, a escravidão e a morte!
Candida e modesta como era, nem por isso Isaura deixava de ter consciencia do quanto valia. Vendo-se o objeto do amor de um jovem de espirito elevado, e dotado de tão nobres e brilhantes qualidades como Alvaro, ainda mais se confirmou na idéa que de si mesma fazia.
Com sua natural perspicacia e penetração, bem depressa convenceo-se, de que o affecto que o mancebo lhe consagrava, não era simples e superficial homenagem rendida a seos encantos e talentos, nem tão pouco passageiro capricho de mocidade, mas verdadeira paixão, sincera, energica e profunda. Era isto para ella motivo de um orgulho intimo, que a elevava a seos proprios olhos, e por momentos a fazia esquecer-se que era uma escrava.
--Estou convencida de que sou digna do amor de Alvaro, se não, elle não me amaria; e se sou digna de seo amor, por que não o serei de me apresentar no seio da mais brilhante sociedade? A perversidade dos homens pode acaso destruir o que ha de bom e de bello na feitura do creador? Assim reflectia Isaura, e exaltada com estas idéas e com a seductora perspectiva de algumas horas de ineffavel ventura em companhia do amante, exclamava dentro d’alma.--Hei de ir, hei de ir ao baile!--
Emquanto Isaura, silenciosa e com a face na mão, se embebia em suas cismas, procurando firmar-se em uma resolução, o pae não menos inquieto e preoccupado, passeava distrahido entre os canteiros do jardim, aguardando com anciedade uma resposta definitiva de sua filha.
--Irei, meo pae, irei ao baile,--disse ella por fim levantando-se, mas vou preparar-me para elle como a victima que tem de ser conduzida ao sacrificio entre canticos e flores. Tenho um cruel presentimento, que me acabrunha...
--Presentimento de que, Isaura?...
--Não sei, meo pae; de alguma desgraça.
--Pois quanto a mim, Isaura, o coração como que está-me adivinhando, que de ir a esse baile resultará a nossa salvação.
Capitulo XIII.
Não pense o leitor, que já se acha terminado o baile, a que estavamos assistindo. A pequena digressão, que por fóra delle fizemos no capitulo antecedente, nos pareceo necessaria para explicar por que conjuncto de circumstancias fataes a nossa heroina, sendo uma escrava, foi impellida a tomar a audaciosa resolução de apresentar-se em um esplendido e aristocratico saráo,--fraqueza de coração, ou timidez de caracter, que pode ser desculpada, mas não plenamente justificada em uma pessoa de consciencia tão delicada e de tão esclarecido entendimento.
O baile continúa, mas já não tão animado e festivo como ao principio. Os applausos freneticos, a admiração geral, de que Isaura se havia tornado objecto da parte dos cavalheiros, tinhão produzido um completo resfriamento entre as mais bellas e espirituosas damas da reunião. Arrufadas com seos cavalheiros predilectos, em razão das enthusiasticas homenagens, que francamente ião render aos pés daquella, que implicitamente estavão proclamando a rainha do salão, já nem ao menos querião dançar, e em vez de risos folgazões, e de uma conversação franca e jovial, só se ouvião pelos cantos entre diversos grupos, expansões mysteriosamente sussurradas, e cochichos segredados entre amarellas e sarcasticas risotas.
Propagava-se entre as moças como que um sussurro geral de descontentamento. Era como esses rumores surdos e profundos, que restrugem ao longe pelo espaço, precedendo uma grande tempestade. Dir-se-hia, que já estavão adivinhando que aquella mulher, que por seos encantos e dotes incomparaveis as estava supplantando a todas, não era mais do que--uma escrava. Muitas mesmo se forão retirando, e nomeadamente aquellas que affagavão alguma esperança, ou se julgavão com algum direito sobre o coração de Alvaro. Aniquiladas sob o peso dos esmagadores triumphos de Isaura, não se achando com animo de manterem-se por mais tempo na liça, tomárão o prudente partido de irem esconder no mysterioso recinto das alcovas o despeito e vergonha de tão cruel e solemne derrota.
Não diremos todavia, que no meio de tantas e tão nobres damas, distinctas pelos encantos do espirito e do corpo, não houvessem muitas, que com toda a isenção e sem a menor sombra de inveja, admirassem a belleza de Isaura, e applaudissem de coração e com sincero prazer os seos triumphos, e forão essas, que conseguirão ir dando alguma vida ao saráo, que sem ellas teria esmorecido inteiramente. Todavia não é menos certo que do bello sexo, sem distincção de classes, ao menos a metade é ludibrio dessas invejas, ciumes e rivalidades mesquinhas.
Deixamos Isaura indo tomar parte em uma quadrilha, tendo Alvaro por seo par. Emquanto danção, entremos em uma saleta, onde ha mesas de jogo, e bufetes guarnecidos de licoreiras, de garrafas de cerveja e champanhe. Esta saleta communica immediatamente com o salão onde se dança, por uma larga porta aberta. Achão-se ahi uma meia duzia de rapazes, pela maior parte estudantes, desses com pretensões a estroinas e excentricos á Byron, e que já enfastiados da sociedade, dos prazeres e das mulheres, costumão dizer que não trocarião uma fumaça de charuto, ou um copo de champanhe, pelo mais fagueiro sorriso da mais formosa donzella; desses descridos, que vivem a apregoar em prosa e verso que na aurora da vida já tem o coração mirrado pelo sopro do scepticismo, ou calcinado pelo fogo das paixões, ou enregelado pela saciedade; desses misanthropos emfim, cheios de _spleen_, que se achão sempre no meio de todos os bailes e reuniões de toda especie, alardeando o seo afastamento e desdem pelos prazeres da sociedade e frivolidades da vida.
Entre elles acha-se um, sobre o qual nos é mister deter por mais um pouco a attenção, visto que tem de tomar parte um tanto activa nos acontecimentos desta historia. Este nada tem de _spleenitico_ nem de byroniano; pelo contrario o seo todo respira o mais chato e ignobil prosaismo. Mostra ser mais velho que os seos comparsas, uma boa dezena de anos. Tem cabeça grande, cara larga, e feições grosseiras. A testa é desmesuradamente ampla, e estofada de enormes protuberancias, o que, na opinião de Lavater, é indicio de espirito lerdo e acanhado, a roçar pela estupidez. O todo da physionomia tosca e quase grotesca revéla instinctos ignobeis, muito egoismo e baixeza de caracter. O que porém mais o caracteriza é certo espirito de cobiça, e de sordida ganancia, que lhe transpira em todas as palavras, em todos os actos, e principalmente no fundo de seos olhos pardos e pequeninos, onde reluz constantemente um raio de velhacaria. É estudante, mas pelo desalinho do trajo, sem o menor esmero e nem sombra de elegancia, parece mais um vendilhão. Estudava ha quinze anos á sua propria custa, mantendo-se do rendimento de uma taverna, de que era socio capitalista. Chama-se Martinho.
--Rapaziada,--disse um dos mancebos,--vamos nós aqui a uma partida de lansquenet, emquanto esses basbaques ali estão a arrastar os pés e a fazer mesuras.
--Justo!--exclamou outro, sentando-se a uma mesa e tomando baralhos.--Já que não temos cousa melhor a fazer, vamos ás cartas. Demais, no baralho é que está a vida. A vista de uma sóta me faz ás vezes estremecer o coração em emoções mais vivas, do que as sentiria Romeo a um olhar de Julieta... Affonso, Alberto, Martinho, andem para cá; vamos ao lansquenet ... duas ou tres corridas sómente...
--De boa vontade acceitaria o convite,--respondeo Martinho,--se não andasse occupado com um outro jogo, que de um momento para outro, e sem nada arriscar, pode meter-me na algibeira não menos de cinco contos de réis limpinhos.
--De que diabo de jogo estás ahi a fallar?... nunca deixarás de ser maluco?... deixa-te de asneiras, e vamos ao lansquenet.
--Quem tem um jogo seguro como eu tenho, ha-de ir meter-se nos azares do lansquenet, que já me tem engolido bem boas patacas?... Nem tão tolo serei eu.
--Com mil diabos, Martinho!... então não te explicarás?... que maldito jogo é esse?...
--Ora adivinhem lá... Não são capazes. É uma bisca de estrondo. Se adivinharem, dou-lhes uma ceia esplendida no melhor hotel desta cidade; bem entendido, se encartar a minha bisca.
--Dessa ceia estamos nós bem livres, pobre comedor de bacalháo ardido, e por que não é possivel haver quem adivinhe as asneiras que passam lá por esses teos miolos extravagantes. O que queremos é o teo dinheiro aqui sobre a mesa do lansquenet.
--Ora deixem-me em paz,--disse Martinho, com os olhos attentamente dirigidos para o salão de dança.--Estou calculando o meo jogo ... supponhão que é o xadrez, e que eu vou dar cheque-mate á rainha ... dito e feito, e os cinco contos são meos...
--Não ha duvida, o rapaz está doudo varrido... Anda lá, Martinho; descobre o teo jogo, ou vae-te embora, e não nos estejas a massar a paciencia com tuas maluquices.
--Malucos são vocês. O meo jogo é este ... mas quanto me dão para descobril-o? olhem que é cousa curiosa.
--Queres-nos atiçar a curiosidade para nos chuchar alguns cobres, não é assim?... pois desta vez affianço-te da minha parte, que não arranjas nada. Vae-te aos diabos com o teo jogo, e deixa-nos cá com o nosso. Ás cartas, meos amigos, e deixemos o Martinho com suas maluquices.
--Com suas velhacarias, dirás tu ... não me pilha.
--Ah! toleirões!--exclamou o Martinho,--vocês ainda estão com os beiços com que mamárão.
Andem cá, andem, e verão se é maluquice, nem velhacaria. Emfim quero mostrar-lhes o meo jogo, porque desejo ver se a opinião de vocês estará ou não de accordo com a minha.
Eis aqui a minha bisca.--concluio Martinho mostrando um papel, que sacou da algibeira;--não é nada mais que um annuncio de escravo fugido.
--Ah! ah! ah! esta não é má!...
--Que disparate!... decididamente estás louco, meo Martinho.
--A que proposito vem agora annuncio de escravo fugido?...
--Foste acaso nomeado official de justiça ou capitão do mato?
Estas e outras phrases escapavão aos mancebos de envolta, em um choro de interminaveis gargalhadas, que competião com a orchestra do baile.
--Não sei de que tanto se espantão,--replicou frescamente o Martinho;--o que admira é que ainda não vissem este grande annuncio em avulso, que veio do Rio de Janeiro, e foi distribuido por toda a cidade com o _Jornal do Commercio_.
--Por ventura somos esbirros ou officiaes de justiça, para nos embaraçarmos com semelhantes annuncios?
--Mas olhem que o negocio é dos mais curiosos, e as alviçaras não são para se desprezarem.
--Pobre Martinho! quanto pode em teo espirito a ganancia de ouro, que faz-te andar á cata de escravos fugidos em uma sala de baile!--pois é aqui, que poderás encontrar semelhante gente?...
--Olé!... quem sabe?!... tenho cá meos motivos para desconfiar que por aqui mesmo hei-de achal-a, assim como os cinco continhos, que, aqui entre nós, vem agora mesmo ao pintar, pois que o armazem de meo socio bem pouco tem rendido nestes ultimos tempos.
Martinho chamava armazem a pequena taverna, de que era socio. Ditas aquellas palavras foi postar-se junto á porta, que dava para o salão, e ali ficou por largo tempo a olhar, ora para os que dansavão, ora para o annuncio, que tinha desdobrado na mão, como quem averigua e confronta os signaes.
--Que diabo faz ali o Martinho?--exclamou um dos mancebos, que entretidos com as mimicas do Martinho, tomando-as por palhaçada, tinha-se esquecido de jogar.
--Está doudo, não resta a menor duvida.--observou outro.--Procurar escravo fugido em uma sala de baile!... Ora não faltava mais nada! Se andasse á cata de alguma princeza, de certo a iria procurar nos quilombos.
--Mas talvez seja algum pajem, ou alguma mucama, que por ahi anda.
--Não me consta que haja nenhum pajem nem mucama ali dansando, e elle não tira os olhos dos que dansão.
--Deixál-o; este rapaz, além de ser um vil traficante, sempre foi um maniaco de primeira força.
--É ella!--disse o Martinho, deixando a porta, e voltando-se para seos companheiros;--é ella; já não tenho a menor duvida; é ella, e está segura.
--Ella quem, Martinho?...
--Ora! pois quem mais ha-de ser?...
--A escrava fugida?!...
--A escrava fugida, sim, senhores!... e ella está ali dansando.
--Ah! ah! ah! ora vamos ver mais esta, Martinho!... até onde queres levar a tua farça? deve ser galante o desfecho. Isto é impagavel, e vale mais que quantos bailes ha no mundo.
--Se todos elles tivessem um episodio assim, eu não perdia nem um.--Assim clamavão os moços entre estrondosas gargalhadas.
--Vocês zombão?--olhem que a farça cheira um pouco a tragedia.
--Melhor! Melhor!--vamos com isso, Martinho!
--Não acreditão?... pois escutem lá, e depois me dirão que tal é a farça.
Dizendo isto, Martinho sentou-se em uma cadeira, e desdobrando o annuncio, pôz-se em attitude de lêl-o. Os outros se agrupárão curiosos em torno delle.
--Escutem bem,--continuou Martinho--Cinco contos!--eis o titulo pomposo, que em eloquentes e graúdos algarismos se acha no frontispicio desta obra immortal, que vale mais que a Iliada de Camões...
--E que os Luziadas de Homero, não é assim, Martinho? deixa-te de preambulos asnaticos, e vamos ao annuncio.
--Eu já lhes satisfaço,--disse Martinho, e continuou lendo:
--Fugio da fazenda do S^{r}. Leoncio Gomes da Fonseca, no municipio de Campos, provincia do Rio de Janeiro, uma escrava por nome Isaura, cujos signaes são os seguintes:
Côr clara e tez delicada como de qualquer branca; olhos pretos e grandes; cabelos da mesma côr, compridos e ligeiramente ondeados; boca pequena, rosada e bem feita; dentes alvos e bem dispostos; nariz saliente e bem talhado; cintura delgada, talhe esbelto, e estatura regular; tem na face esquerda um pequeno signal preto, e acima do seio direito um signal de queimadura, mui semelhante a uma aza de borboleta. Traja-se com gosto e elegancia; canta e toca piano com perfeição. Como teve excellente educação e tem uma boa figura, pode passar em qualquer parte por uma senhora livre e de boa sociedade. Fugio em companhia de um portuguez, por nome Miguel, que se diz seo pae. É natural, que tenhão mudado o nome. Quem a appreender, e levar ao dito seo senhor, além de se lhe satisfazerem todas as despezas, receberá a gratificação de 5:000:000 de réis--.
--Devéras, Martinho?--exclamou um dos ouvintes,--está nesse papel o que acabo de ouvir? acabas de nos traçar o retrato de Venus, e vens dizer-nos que é uma escrava fugida!!...
--Se não querem acreditar ainda, leião com seos proprios olhos: aqui está o papel...
--Com effeito!--accrescentou outro--uma escrava assim vale a pena apprehendel-a, mais pelo que vale em si, do que pelos cinco contos. Se eu a pilho, nenhuma vontade teria de entregal-a ao seo senhor.
--Já não me admira que o Martinho a procure aqui; uma creatura tão perfeita só se pode encontrar nos palacios dos principes.
--Ou no reino das fadas; e pelos signaes e indicios estou vendo, que não pode ser outra senão essa nova divindade que hoje appareceo....
--Sem mais nem menos; deo no vinte,--atalhou Martinho, e chamando-os para junto da porta:
--Agora venhão cá,--continuou,--e reparem naquella bonita moça, que dansa de par com Alvaro. Pobre Alvaro, como está cheio de si! se soubesse com quem dansa, cahia-lhe a cara aos pés. Reparem bem, meos senhores, e vejão se não combinão perfeitamente os signaes?...
--Perfeitamente!--acudio um dos moços,--é extraordinario! lá vejo o signalsinho na face esquerda, e que lhe dá infinita graça. Se tiver a tal aza de borboleta sobre o seio, não pode haver mais duvida. Ó céos! é possivel que uma moça tão linda seja uma escrava!
--E que tenha a audacia de apresentar-se em um bailes destes?--accrescentou outro.--Ainda não posso capacitar-me.
--Pois cá para mim,--disse o Martinho--o negocio é liquido, assim como os cinco contos, que me parece estarem já me cantando na algibeira; e até logo, meos caros.
E dizendo isto dobrou cuidadosamente o annuncio, meteo-o na algibeira, e esfregando as mãos com cynico contentamento, tomou o chapéo, e retirou-se.
--Forte miseravel!...--disse um dos comparsas--que vil ganancia de ouro a deste Martinho! estou vendo, que é capaz de fazer prender aquella moça aqui mesmo em pleno baile.