A confissão de Lucio,: Narrativa.

Part 6

Chapter 63,714 wordsPublic domain

Muita vez--julgo--deligenciei fazer-lhe compreender isto mesmo, evidencear-lhe a minha forma de sentir, a ver se provocava uma confissão inteira da sua parte, cessando assim o meu martirio. Ela porêm, ou nunca me percebeu, ou era resumido o seu afecto para tamanha prova de amor.

Se em face do meu ciume todas as outras obsessões haviam sossobrado, restavam-me ainda--como já disse--as minhas repugnancias incompreensiveis. E procurando de novo aclara-las a mim proprio, assaltou-me de subito este receio: _seriam elas originadas pelo outro amante_?

Eu me explico:

Tive sempre grandes antipatias fisicas, meramente exteriores. Lembro-me por exemplo de que, em Paris, a um restaurante onde todas as noites jantava com Gervasio Vila-Nova, ia algumas vezes uma rapariga italiana, deveras graciosa--modelo sem duvida--que muito me enternecia, que eu cheguei quasi a desejar.

Mas em breve tudo isso passou.

É que a vira um Domingo caminhando de mãos dadas com certo individuo que eu abominava com o maior dos tedios, e que já conhecia de o encontrar todas as tardes jogando as cartas num café burguês da praça S. Michel. Era escarradamente o que as damas de quarenta ânos e as criadas de servir chamam _um lindo rapaz_. Muito branco, rosadinho e loiro, bigodito bem frisado, o cabelo encaracolado; uns olhos pestanudos, uma bôca pequenina--meiguinho, todo esculpido em manteiga; oleoso nos seus modos, nos seus gestos. Caixeiro de loja de modas--ah! não podia deixar de ser!...

Embirrava de tal forma com semelhante criatura açucarada, que nunca mais tinha voltado ao café provinciano da praça de S. Miguel. Com efeito era-me impossivel sofrer a sua presença. Dava-me sempre vontade de vomitar em face dêle, na mesma nausea que me provocaria uma mistura de toucinho rançoso, enxundia de galinha, mel, leite e herva-dôce...

Ao encontra-lo--o que não era raro--eu não sabia nunca evitar um gesto de impaciencia. Uma manhã por sinal nem almocei, pois abancando num restaurante que não frequentava habitualmente, o alambicado personagem tivera a desfaçatez de se vir assentar diante de mim, na mesma mesa... Ah! que desejo enorme me afogueou de o esbofetear, de lhe esmurrar o narizinho num chuveiro de murros... Mas contive-me. Paguei e fugi.

Ora encontrar essa pequena galante de mãos dadas com tamanho imbecil--fôra o mesmo do que a ver tombar morta a meus pés. Ela não deixara de ser um amor--é claro--mas eu é que nunca mais a poderia sequer aproximar. Sujara-a para sempre o homemzinho loiro, engordurara-a. E se eu a beijasse, logo me ocorreria a sua lembrança amanteigada, vir-me-hia um gosto humido a saliva, a coisas peganhentas e viscosas. Possui-la então, seria o mesmo que banhar-me num mar sujo, de espumas amarelas, onde boiassem palhas, pedaços de cortiça e cascas de melões...

Pois bem: e se as minhas repugnancias em face do corpo admiravel de Marta, tivessem a mesma origem? Se esse amante que eu ignorava, fosse alguem que me inspirasse um grande nojo?... Podia muito bem ser assim, num pressentimento, tanto mais que--já o confessei--ao possui-la, eu tinha a sensação monstruosa de possuir tambem o corpo masculino desse amante.

Mas a verdade é que, no fundo, eu estava quasi certo de que me enganava ainda; de que era bem diferente, bem mais complicada a razão das minhas repugnancias misteriosas. Ou melhor: que mesmo que eu, se o conhecesse, antipatisasse com o seu amante, não seria esse o motivo das minhas nauseas.

Com efeito a sua carne de forma alguma me repugnava numa sensação de enjoo--a sua carne só me repugnava numa sensação de monstruosidade, de _desconhecido_: eu tinha nojo do seu corpo como sempre tive nojo dos epilepticos, dos loucos, dos feiticeiros, dos iluminados, dos reis, dos pápas--da gente que o misterio grifou...

Numa derradeira vontade tentei ainda provocar uma explicação com Marta--descrever-lhe sinceramente todo o meu martirio, ou, pelo menos, insultá-la. Emfim, pôr um termo qualquer á minha situação infernal.

Mas não o consegui nunca. Quando ia a dizer-lhe a primeira palavra, via os seus olhos de infinito ... o seu olhar fascinava-me. E como um _medium_ no estado hipnotico eram outras as frases que eu proferia--_talvez só as que ela me obrigava a pronunciar_.

Então resolvi, pelo menos, saber de qualquer forma quem era o habitante do prediozinho verde. Repugnavam-me muito as deligencias suspeitas, mas não descera eu já a seguir Marta?

Assim, enchi-me de arrojo e determinei ir perguntar pelas cercanias informações sobre o que eu desejava averiguar, recorrendo mesmo em ultimo caso ao porteiro--se é que o predio tinha guarda-portão.

Escolhi a manhã dum domingo para as minhas investigações, dia em que eu e Marta só nos encontravamos em casa do poeta, que todas as tardes de domingo nos levava a passear no seu automovel, o qual então--estavamos em 1899--fazia grande sucesso em Lisboa.

Porêm, ao dobrar a rua transversal que levava á avenida onde era o predio misterioso, tive um gesto de despeito: Ricardo caminhava na minha frente. Não me pude esconder. Ele vira-me já, não sei como:

--Hein? Tu por aqui a estas horas?...--gritou admirado.

Reuni todas as minhas forças para balbuciar:

--É verdade... Ia a tua casa... Mas lembrei-me de ver estas ruas novas... Ando tão aborrecido...

--Do calor?

--Não... E tu proprio ... dize-me... Nunca costumas sair de manhã ... sobretudo aos domingos...

--Ah! uma madureza como outra qualquer. Concluí agora mesmo uns versos. E na ansia de os ler a alguem, ia a casa do Sergio Warginsky para lhos mostrar... É aqui perto... Anda comigo... Fazemos horas para o almoço...

A estas palavras todo eu tremi num arrepio. Silencioso, pus-me a acompanhá-lo, maquinalmente.

O artista quebrou o silencio:

--Então, e a tua peça?

--Terminei-a a semana passada.

--O quê!? Mas ainda não me tinhas dito coisa alguma!...

Desculpei-me murmurando:

--É que me esqueci, talvez...

--Homem! tens cada resposta que não lembra ao diabo!...--recordo-me perfeitamente de que êle exclamara rindo. E prosseguiu:

--Mas conta-me depressa... Estás satisfeito com a tua obra?... Como resolveste afinal aquela dificuldade do segundo acto? O escultor sempre morre?...

E eu:

--Resolveu-se tudo muito bem. O escultor...

Chegaramos defronte do prediozinho verde. Interrompi-me de subito...

Não! não era ilusão: em face de nós, no outro passeio, Marta sempre nos seus passos leves, indecisos mas rapidos, silenciosos--sem nos ver, sem reparar em redór de si, dirigia-se ao predio misterioso, batia á porta desta vez, entrava...

E, ao mesmo tempo, apertando-me o braço bruscamente, dizia-me o poeta:

--No fim de contas é um disparate irmos incomodar o russo. O que eu estou é ansioso por conhecer o teu drama. Vamos buscá-lo os dois a tua casa. Quero ouvi-lo esta tarde. Tanto mais que o automovel precisa concerto. Aquilo, dia sim, dia não, é uma peça que se parte...

* * * * * * * *

Vivi todo o resto desse dia como que envolto num denso véu de bruma. Emtanto pude ler o meu drama a Ricardo e a Marta. Sim, quando voltámos ao palacete, após termos passado por minha casa, já Marta regressara, _e notei mesmo que já tinha mudado de vestido_--embora contra o seu costume, não vestisse um traje de interior, mas sim uma toilette de passeio.

Lembro-me tambem de que durante toda a leitura da minha peça, só tive esta sensação lucida: que era bizarro como eu, no meu estado de espirito podia entretanto trabalhar.

De resto, conforme observei, as minhas dôres, as minhas angustias, as minhas obsessões eram intermitentes, tinham fluxos e refluxos: como nos dias de revolta social, entre os tiros de canhão e o tiroteio nas praças, a vida diaria prossegue--tambem, no meio da minha tortura, seguia a minha vida intelectual. Por isso mesmo lograra esconder de todos, até hoje, a atribulação do meu espirito.

Mas, juntamente com a ideia lucida que descrevi, sugerira-se-me durante a leitura outra ideia muito estrambotica. Fôra isto: pareceu-me vagamente que eu era o meu drama--a coisa artificial--e o meu drama a realidade.

Um parentese:

Quem me tiver seguido deve, pelo menos, reconhecer a minha imparcialidade, a minha inteira franqueza. Com efeito, nesta simples exposição da minha inocencia, não me poupo nunca a descrever as minhas ideias fixas, os meus aparentes desvairos que, interpretados com estreiteza, poderiam levar a concluir, não pela minha culpabilidade, mas pela minha embustice ou--criterio mais estreito--pela minha loucura. Sim, _pela minha loucura_; não receio escreve-lo. Que isto fique bem frisado, porquanto eu necessito de todo o credito para o final da minha exposição, tão misterioso e alucinador êle é.

Ricardo e Marta felicitaram-me muito pela minha obra--creio. Mas não o posso afirmar, em virtude do denso véu de bruma cinzenta que me envolvera, e que só me deixou nitidas as lembranças que já referi.

Jantei com os meus amigos. Despedi-me cedo pretextando um ligeiro incomodo.

Corri para minha casa. Deitei-me logo... Mas antes de adormecer, revendo a scena culminante do dia, observei esta estranha coisa:

Ao pararmos em face do predio verde, de subito eu vira Marta avançar distraída até bater á porta... Ora, segundo a direcção em que ela me aparecera, era fatal que tinha vindo sempre atrás de nós. Logo, ela devia-me ter visto; _logo eu devia-a ter visto_ quando--lembrava-me muito bem--olhara para trás, por sinal em frente dum grande predio em construção...

E ao mesmo tempo--ignoro porque motivo--lembrei-me de que o meu amigo, quando decidira de repente não ir a casa de Warginsky, terminara a sua frase com estas palavras:

--... o automovel precisa concerto. Aquilo, dia sim, dia não, é uma peça que se parte...

E eram as unicas palavras de que me lembrava frisantemente--mesmo as unicas que eu estava certo de lhe ter ouvido. Entretanto as unicas que eu não podia admitir que êle tivesse pronunciado...

Demorei-me ainda largas horas a rever o meu estranho dia. Mas por fim adormeci, levando num sono até alta manhã...

* * * * * * * *

Dois dias depois, sem prevenir ninguem, sem escrever uma palavra a Ricardo, eu tive finalmente a coragem de partir...

Ah! a sensação de alivio que experimentei ao descer emfim na gare do Quai d'Orsay: respirava, desennastrara-se-me a alma!...

Com efeito eu sofri sempre as dôres morais na minha alma, fisicamente. E a impressão horrivel que ha muito me debelava, era esta: que a minha alma se havia dobrado, contorcido, confundido...

Mas agora, ao ver-me longe de tudo quanto me misturara, essa dor estranha diluira-se: o meu espirito, sentia-o destrinçado como outróra.

Durante a viagem, pelo contrario, numa ansia de chegar a Paris, as minhas torturas tinham-se enrubescido. Eu pensava que nunca chegaria a Paris, que era impossivel haver triunfado, que sonhava com certeza--ou então que me prenderiam no caminho por engano; que me obrigariam a tornar a Lisboa, que vinham no meu encalço Marta, Ricardo, todos os meus amigos, todos os meus conhecidos...

E um calafrio de horror me zig-zagueara ao ver entrar em Biarritz um homem alto e loiro, no qual, de subito, eu julguei reconhecer Sergio Warginsky. Mas olhando-o melhor--_olhando-o pela primeira vez realmente_--sorri para mim proprio: o desconhecido apenas tinha do conde russo o ser alto e loiro...

* * * * * * * *

Emtanto agora já não podia duvidar; _vencera_. Atravessava a Praça da Concordia, monumental e aristocratica, tilintante de luzes...

De novo, ungindo-me de Europa, alastrando-me da sua vibração, se encapelava dentro de mim Paris--_o meu Paris_, o Paris dos meus vinte e tres ânos...

E foram então os ultimos seis meses da minha vida...

Vivi-os de existencia diaria, em banalidade, frequentando os cafés, os teatros, os grandes restaurantes...

Nas primeiras semanas--e mesmo depois, numa ou noutra hora--ainda pensei no meu caso, mas nunca embrenhadamente.

Afinal--pressentia--tudo aquilo, no fundo, era talvez bem mais simples do que se me afigurava. O _misterio_ de Marta? Ora ... ora... Fazem-se tantas loucuras ... ha tantas aventureiras...

E parecia-me até que, se eu quisesse, num grande esforço, numa grande concentração, poderia explicar a mim proprio tudo quanto me obcecara. Mas conclui que valia bem melhor não explicar coisa alguma, esquecer tudo. _Esquecer é não ter sido_. Se eu lograsse abolir o triste episodio da minha recordação, era exactamente como se nunca o existira. E foi pelo que me esforcei.

Entretanto nunca podia deixar de pensar numa circunstancia: a complacencia inaudita de Ricardo--_a sua infamia_. Então as coisas haviam chegado a ponto da sua mulher ir atrás dêle, quasi com êle, a casa dum amante? Pois se nós a não viramos, ela, por mais distraída que caminhasse, tinha-nos visto com certeza. Mas nem por isso retrocedera!

E um turbilhão de pequeninas coisas me ocorria juntamente, mil factos sem importancia ao primeiro exame, mil pormenores insignificantes em que eu só agora atentava.

Ha muito que o meu amigo descobrira tudo decerto; por força que ha muito soubera das nossas relações... Nem podia deixar de ser assim. Só se fosse cego... Era pasmoso!...

E êle que me queria sempre ao lado da sua companheira? Mudara de lugar á mesa, pretextando uma corrente de ar que nunca existira, só para que eu me sentasse junto de Marta e as nossas pernas se podessem entrelaçar...

Se saíamos os três, eu ia ao lado dela... E nos nossos passeios de automovel, Ricardo tomando sempre o volante, sentavamo-nos os dois sozinhos no interior da carruagem ... bem chegados um ao outro ... _de mãos dadas_. Sim; pois logo os nossos dedos se nos ennastravam--maquinalmente, instintivamente... Ah! e era impossivel que êle o não observasse quando, muita vez, se voltava para nos dizer qualquer coisa...

Mas--facto estranho--a verdade é que, nesses momentos, eu nunca receara que êle visse as nossas mãos; nunca me perturbara, nem sequer esboçara nunca um gesto de as desenlear... Era como se as nossas mãos fossem soltas, e nós sentados muito longe um do outro...

E dar-se-hia o mesmo com Sergio? Oh, sem duvida... _Ricardo estimava-o tanto_...

* * * * * * * *

O mais infame, o mais inacreditavel porêm, era que _sabendo êle_, a sua amizade, as suas atenções, por mim e pelo russo aumentassem cada dia...

Que êle soubesse e emtanto se calasse, por muito amar a sua companheira e, acima de tudo, não a querer perder--ainda se admitia. Mas então, ao menos, que mostrasse uma atitude nobre--que nos não adulasse, que não nos acariciasse...

Ah! como tudo isto me revoltava! Não propriamente pela sua atitude; antes pela sua falta de orgulho. Eu não soube nunca desculpar uma falta de orgulho. E sentia que toda a minha amizade, a minha sincera amizade por Ricardo de Loureiro, sossobrara hoje em face da sua baixeza. A sua baixeza! Êle que tanto me gritara ser o orgulho a unica qualidade cuja ausencia não perdoava em um caracter...

Mas devo esclarecer: ao pensar no extraordinario procedimento do meu amigo, nunca me confrangiam as reminiscencias das minhas antigas obsessões. Esquecera-as por completo. Mesmo que as recordasse, importancia alguma já daria ao _misterio_--seguramente _misterio_ de pacotilha--ao meu ciume, a tudo mais...

Apenas ás vezes, quando muito, me assaltava uma saudade vaga, esvaída em melancolia, por tudo o que outróra me torturara.

Somos sempre assim: o tempo vai passando, e tudo se nos volve saudoso--sofrimentos, dores até, desilusões...

Com efeito, ainda hoje, ás tardes maceradas, eu não sei evitar numa reminiscencia longinqua, a saudade violeta de certa criaturinha indecisa que nunca tive, e mal roçou pela minha vida. Por isto só: porque ela me beijou os dedos; e um dia, a sorrir, defronte dos nossos amigos, me colocou em segredo o braço nu, mordorado, sobre a mão...

E depois logo fugiu da minha vida, esguiamente, embora eu, por piedade--doido que fui!--ainda a quisesse dourar de mim, num enternecimento asul pelas suas caricias...

E sofri ... ela era tão pouca coisa, mas a verdade é que sofri ... sofri de ternura. Nunca lhe tive amor. Apenas ternura ... uma ternura muito suave ... penetrante ... aquatica...

Os meus afectos, mesmo, foram sempre ternuras...

Porêm quando me acordava essa saudade branda do meu antigo sofrimento--isto é: do corpo nu de Marta--no mesmo instante ela se me diluía, ao lembrar-me da atitude infame de Ricardo.

E a minha revolta era cada vez maior.

Por felicidade, até aí, ainda não recebera uma carta do artista. Que nem a teria aberto, se a recebera...

Pessoa alguma conhecia o meu endereço. Saber-se-hia talvez que eu estava em Paris, devido a encontros fortuitos com vagos conhecidos.

Não comprava jornais portugueses. Se vinha no _Matin_ qualquer telegrama de Lisboa, não o lia; e assim, em verdade quasi triunfara esquecer-me de quem era... Entre a multidão cosmopolita, criava-me alguem sem patria, sem amarras, sem raizes em todo o mundo.

--Ah! que venturoso eu fora se não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse...--lembrei-me muita vez estranhamente, nos meus passeios solitarios pelos boulevards, pelas avenidas, pelas grandes praças...

* * * * * * * *

Uma tarde, como de costume, folheava as ultimas novidades literarias nas galerias do Odéon, quando deparei com um volume de capa amarela, recem-aparecido, segundo a classica tira vermelha... E diante dos meus olhos, em letras de brasa, o nome de Ricardo de Loureiro fulgurou...

Era com efeito a tradução francesa do _Diadema_ que um editor arrojado acabara de lançar, revelando ao mundo uma literatura nova...

* * * * * * * *

Nessa tarde, pela primeira vez desde que cheguei a Paris, tive algumas horas realmente alucinadas.

Durante elas embrenhei-me a pensar em Ricardo, no seu procedimento inqualificavel, na sua inadmissivel falta de orgulho.

Meditei em todos os pequenos episodios que atrás referi, descortinei outros ainda mais significativos, perdendo-me a querer descobrir todos os amantes possiveis de Marta... E numa alucinação, não podia conceber que nenhum dos homens que eu vira um dia junto dela, não tivesse passado pelo seu corpo--_e sabendo-o o marido_: Luís de Monforte, Narciso do Amaral, Raul Vilar ... todos, emfim, todos...

Entretanto, no meio disto, ainda havia qualquer coisa mais bizarra: era que nesta revolta, neste asco, neste odio--sim; neste odio!--por Ricardo, misturava-se como que um vago despeito, um ciume, um verdadeiro ciume dêle proprio. _Invejava-o_! Invejava-o por _ela_ me haver pertencido ... a mim, ao conde russo, a todos mais!...

E esta sensação descera-me tão forte, essa tarde, que num relampago me voou pelo cerebro a ideia rubra de o assassinar--para satisfazer a minha inveja, o meu ciume: _para me vingar dêle_!...

* * * * * * * *

Mas voltei por fim á minha calma, e, perante o meu antigo amigo, só me restou o meu nojo, o meu tedio, e um desejo ardente de lhe escarrar na cara toda a sua indignidade, toda a sua baixeza, clamando-lhe:

--Olha que fomos amantes _dela_ ... eu e todos nós, ouves? _E todos sabemos que tu já o sabes_!...

Á noite, antes de adormecer, veiu-me ainda esta ideia perturbadora, num atordoamento luminoso:

--A sua baixeza ... a sua falta de orgulho... Ah! mas se eu me engano ... se eu me engano ... se é Marta quem lhe conta tudo ... se êle conhece tudo só porque _ela_ lho diz ... se ela tem segredos para todos, menos para êle ... como eu queria... como eu a queria para mim... Nesse caso ... nesse caso...

E ao mesmo tempo--arripiadamente, desarazoadamente--acudiu-me á lembrança a estranha confissão que Ricardo me fizera uma noite, ha tantos ânos ... no fim dum jantar ... para o Bosque de Bolonha ... no Pavilhão ... no Pavilhão d'Armenonville...

VII

Outubro de novecentos principiara.

Uma tarde, no boulevard des Capucines, alguem de subito me gritou, batendo-me no ombro:

--Ora até que emfim! Andava exactamente á sua procura...

Era Santa-Cruz de Vilalva, o grande empresario.

Tomou-me por um braço, fez-me á viva força sentar junto dêle na terrasse do La Paix, e pôs-se a barafustar-me o espanto que a minha falta de noticias lhe causara, tanto mais que, poucos dias antes de desaparecer, eu lhe falara da minha nova peça. Disse-me que em Lisboa muita gente perguntava por mim, que apenas vagamente se sabia que eu estava em Paris por alguns portugueses que tinham vindo á Exposição. Em suma: «Que demonio era isso, homem? neurastenico pelo ultimo correio?...»

Como sucedia sempre quando alguem me fazia perguntas sobre a minha forma de viver, fiquei todo perturbado--corei e titubiei quaisquer razões.

O grande empresario atalhou, exclamando-me:

--Bom. Mas antes de mais nada, vamos ao importante: Dê-me a sua peça.

Que não a concluíra ainda, que não me satisfazia...

E êle:

--Espero-o esta noite no meu hotel ... ali, no _Scribe_... Traga-me a obra. Quero ouvi-la hoje... Que titulo?

--_A Chama._

--Optimo. Até logo... Primeira em abril. Ultima recita de assinatura. Preciso fechar a minha estação com chave de ouro...

Fôra-me muito desagradavel o encontro que viera pôr termo ao meu isolamento de ha seis mêses. Porem ao mesmo tempo, no fundo, a verdade é que eu não o lastimava. Sempre a literatura...

Desde que chegara a Paris, não escrevera uma linha--nem sequer já me lembrava de que era um escritor... E agora, de subito, vinham-me recorda-lo--evidenceando o apreço em que se tinha o meu nome; e precisamente alguem que eu sabia tão pouco lisonjeiro, tão brusco, tão homem-de-negocios...

Á noite, como se combinara, li o meu drama. Santa-Cruz de Vilalva exultou: «Trinta seguras!» punha as mãos no fôgo; «a minha melhor obra»--garantiu.

Entreguei-lhe o manuscrito, mas com estas condições:

Que não iria assistir aos ensaios nem me ocuparia da distribuição, de pormenores alguns da mise-en-scène. Da mais ligeira coisa, emfim. Deixava tudo ao seu cuidado. Ah! e principalmente que não me escrevesse nem uma palavra sobre o assunto...

O grande empresario anuiu a tudo. Falámos ainda alguns instantes.

E ao despedirmo-nos:

--É verdade--disse--sabe quem me perguntou varias vezes por si? se eu sabia de você ... o seu endereço?... O Ricardo de Loureiro... Que o meu amigo nunca mais lhe tinha escrito... Tambem represento um acto dêle ... em verso... Boa noite...

Esquecera já o meu encontro com o empresario, a minha peça, tudo--emfim tornara a mergulhar no meu antigo alheamento, quando de subito me ocorreu uma ideia nova, inteiramente diversa da primeira, para o ultimo acto da _Chama_: uma ideia belissima, grande, que me entusiasmou.

Não descansei emquanto não escrevi a novo acto. E um dia não pude resistir; parti com êle para Lisboa.

Quando cheguei, tinham começado os ensaios pouco antes.

Todos os meus interpretes me abraçaram efusivamente. E Santa-Cruz de Vilalva:

--Ora ... se eu não sabia já que êle havia de aparecer!... Quem não os conhecesse... São todos a mesma...

Os ensaios marchavam óptimamente. Roberto Dávila, no papel do escultor, ia ter decerto uma das suas mais belas criações.

Passaram-se dois dias.

Coisa espantosa: ainda não falara do novo acto da minha peça, razão unica porque decidira regressar a Lisboa contra todos os meus projectos, _contra toda a minha vontade_.

Emtanto ao terceiro dia, enchendo-me de coragem (foi certo: precisei encher-me de coragem) disse ao empresario o motivo que me trouxera de Paris.

Santa-Cruz de Vilalva pediu-me o manuscrito, sem consentir porêm que eu lho lesse.

E na manhã seguinte:

--Homem!--gritou-me--Você está maluco! O antigo acto é uma obra-prima. Este, perdôe-me... Posso dizer-lhe a minha opinião franca?...

--Sem duvida...--volvi, já perturbado.

--Um disparate!...

Uma raiva excessiva me afogueou perante a boçalidade do empresario, a sua pouca clarividencia. Pois se algumas vezes eu adivinhara nas minhas obras lampejos de genio, era nessas páginas. Mas tive a força de me conter.