A confissão de Lucio,: Narrativa.

Part 7

Chapter 72,621 wordsPublic domain

Não sei bem o que depois se seguiu. O certo é que tudo acabou por o drama ser retirado de ensaios, visto eu não consentir que o representassem com o primitivo ultimo acto, e a empresa se negar terminantemente a monta-lo, conforme o parecer do director e dos principais interpretes.

Quebrei as relações com um e com outros, e exigi que me entregassem todas as copias do manuscrito e os papeis. A minha exigencia foi estranhada--lembro-me bem--sobretudo pelo modo violento como a fiz.

Ao chegar a minha casa--juntamente com o manuscrito original, lancei tudo ao fogo.

Tal foi o destino da minha ultima obra...

Decorreram algumas semanas.

As dôres físicas do meu espirito tinham regressado; mas agora dôres injustificadas--dôres pelo menos cuja razão eu desconhecia.

Desde que chegara a Lisboa--era claro--não procurara ainda nenhum dos meus companheiros. Ás vezes parecia-me até que gente que em tempos eu conhecera, me evitava. Eram literatos, dramaturgos, jornalistas, que decerto pretendiam lisongear assim o grande empresario de quem todos mais ou menos dependiam, hoje ou amanhã.

Só uma coisa me admirava: Ricardo, pela sua parte, não me tinha procurado nunca. O que, de resto, ao mesmo tempo se me afigurava bem explicavel; o mais natural até: êle percebera sem duvida os motivos do meu afastamento, e por isso se retraíra, sensatamente.

Estimava bastante que tivesse procedido assim. Caso contrario ter-se-hia dado entre nós uma scena muito desagradavel. Em face dele, eu não saberia reprimir os meus insultos.

O caso da _Chama_ aborrecera-me deveras. Uma grande nausea me subira por tudo quanto tocava á arte no seu aspecto mercantil. Pois só o _comercio_ condenara a versão nova da minha peça: com efeito, em vez de ser um acto meramente teatral, de acção intensa mas lisa, como o primitivo--o acto novo era profundo e inquietador; rasgava véus sobre o álem.

Num ultimo tédio comecei vagabundeando dias inteiros pelas ruas da cidade, á toa, por bairros afastados de preferencia...

Lembro-me de que seguia por avenidas, dobrava por travessas, anseoso, quasi a correr: como alguem, emfim, que debalde procurasse uma pessoa que muito desejasse encontrar--não sei porquê, fiz esta comparação ás vezes.

Em geral á noite, febril, cheio de cansaço, aturdido, recolhia cedo a casa, dormindo dum sono estagnado até de manhã ... para recomeçar o meu devaneio...

Facto curioso: nunca me lembrei durante este periodo de regressar a Paris, e volver-me ao meu tranquilo isolamento d'alma. Não porque me desagradasse hoje essa maneira de viver. Apenas tal recurso nunca me passou pela ideia...

Uma manhã vi de subito alguém atravessar a rua, dirigindo-se ao meu encontro...

Quis fugir. Mas os pés enclavinharam-se-me no sólo. Ricardo, êle-proprio, estava em minha frente...

* * * * * * * *

Não me podem lembrar--de banais que foram, por certo--as primeiras palavras que trocámos. Seguramente o poeta me disse o espanto que a minha desaparição lhe causara, que lhe causava o meu procedimento actual.

Fosse como fosse, falara-me num tom de grande tristeza, e em toda a sua figura havia a expressão dum sincero desgosto. É possivel que ao expôr-me tudo isso, os seus olhos estivessem humidos de lagrimas.

Pelo meu lado, desde que o tinha em face de mim, ainda não pudera reflectir; aturdia-me um denso véu de bruma--tal como na ultima tarde que passara com o meu amigo.

Escutei em silencio os seus queixumes, até que, de repente--desenvencilhado, desperto—me não soube conter, como receara, e lhe comecei gritando todo o meu odio: a minha revolta, o meu nojo...

A sua expressão dolorosa não se transformou com as minhas palavras--o artista pareceu mesmo não as estranhar, como se eu lhe desse a resposta mais natural ao que me contara. Apenas só agora, indubitavelmente, as lagrimas lhe desciam pelo rosto; _mas não era diversa da primeira a dôr que as provocava_.

E eu acabei:

--... Tinha-me atascado na lama... Por isso fugi ... por essa ignominia... Ouves? ouves!?...

Todo êle tremeu então. Velou-lhe o rosto uma sombra...

Deteve-se um instante e, por fim, numa voz muito estranha, sumida, húmida--tão singular que nem parecia vir da sua garganta, começou:

--Ah! como te enganas... Meu pobre amigo! Meu pobre amigo!... Doido que eu era no meu triunfo... Nunca me lembrei de que os mais o não entenderiam... Escuta-me! Escuta-me!... _Oh! tu has de me escutar_!...

Sem vontade propria, esvaído, em silencio, eu acompanhava-o como que arrastado por fios d'ouro e lume, emquanto êle se me justificava:

--Sim! Marta foi tua amante, e não foi só tua amante... Mas eu não soube nunca quem eram os seus amantes. Ela é que mo dizia sempre... _Eu é que lhos mostrava sempre_!...

«Sim! Sim! Triunfei encontrando-a!... Pois não te lembras já, Lucio, do martirio da minha vida? Esqueceste-o?... Eu não podia ser amigo de ninguem ... não podia experimentar afectos... Tudo em mim ecoava em ternura ... eu só adivinhava ternuras... E, em face de quem as pressentia, só me vinham desejos de caricias, desejos de posse--para _satisfazer_ os meus enternecimentos, sintetizar as minhas amizades...»

Um relampago de luz ruiva me cegou a alma.

O artista prosseguiu:

--Ai, como eu sofri ... como eu sofri!... Dedicavas-me um grande afecto; eu queria vibrar esse teu afecto--isto é: retribuir-to; e era-me impossível!... Só se te beijasse, se te enlaçasse, se te possuisse... Ah! mas como _possuir_ uma criatura do nosso sexo?...

«Devastação! Devastação! Eu via a tua amizade, nitidamente a via, e não a lograva sentir!... Era todo de oiro falso...

«Uma noite porêm finalmente, uma noite fantastica de branca, triunfei! Achei-A ... sim, _criei-A_! _criei-A_!... Ela é só minha--entendes?--é só minha!... Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fôra a minha propria alma. Pensamos da mesma maneira; igualmente sentimos. _Somos nós-dois_... Ah! e desde essa noite eu soube, em gloria soube, vibrar dentro de mim o teu afecto--retribuir-to: mandei-A ser tua! _Mas, estreitando-te ela, era eu proprio quem te estreitava_... Satisfiz a minha ternura: Venci! E ao possui-la, eu sentia, _tinha nela_, a amizade que te devera dedicar--como os outros sentem na alma as suas afeições. Na hora em que a achei--tu ouves?--foi como se a minha alma, sendo sexualisada, se tivesse materialisado. _E só com o espirito te possuí, materialmente_! Eis o meu triunfo... Triunfo inegualavel! Grandioso segredo!...

* * * * * * * *

«Oh! mas como eu hoje sofro ... como sofro outra vez despedaçadoramente...

«Julgaste-me tão mal... Enojaste-te ... gritaste á infamia, á baixeza... e o meu orgulho ascendia cada aurora mais alto!... Fugiste... E, em verdade fugiste de ciume... Tu não eras o meu unico amigo--eras o primeiro, o maior--mas tambem por um outro eu oscilava ternuras... Assim a mandei beijar esse outro... Warginsky, tens razão, Warginsky... Julgava-o tão meu amigo ... parecia-me tão expontaneo ... tão lial ... _tão digno dum afecto_... E enganou-me ... enganou-me...».

Atónito, eu ouvia o poeta como que hipnotisado--mudo de espanto, sem poder articular uma palavra...

A sua dôr era bem real, bem sincero o seu arrependimento; e observei que o tom da sua voz se modificara, aclarando-se ao referir-se ao conde russo--para logo de novo se velar, dizendo:

--Que valem os outros, emtanto, em face da tua amizade? Coisa alguma! Coisa alguma!... Não me acreditas?... Ah! mas é preciso que me acredites ... que me compreendas... Vem!... Ela é só minha! Pelo teu afecto eu trocaria tudo--_mesmo o meu segredo_. Vem!...

Depois, foi uma vertigem...

Agarrou-me violentamente por um braço ... obrigou-me a correr com êle...

* * * * * * * *

Chegámos por fim diante da sua casa. Entrámos ... galgámos a escada dum salto...

Ao atravessarmos o vestibulo do primeiro andar, houve um pormenor insignificante, o qual, não sei porquê, nunca olvidei: em cima dum movel onde os criados, habitualmente, punham a correspondencia, estava uma carta... Era um grande sobrescrito timbrado com um brazão a ouro...

É estranho que num minuto culminante como este, eu podesse reparar em tais ninharias. Mas o certo foi que o brazão dourado me bailou alucinador em frente dos olhos. Entretanto não pude ver o seu desenho--vi só que era um brazão dourado e, ao mesmo tempo--coisa mais estranha--_pareceu-me que eu proprio já recebera um sobrescrito igual àquele_.

O meu amigo--ainda que preso duma grande excitação--abriu a carta, leu-a rapidamente, e logo a amarfanhou arremessando-a para o sobrado...

Depois, torceu-me o braço com maior violencia.

Em redór de mim tudo oscilou... Sentia-me disperso d'alma e corpo entre o rodopio que me silvava ... tinha receio de haver caído nas mãos dum louco...

E numa voz ainda mais velada, mais singular, mais falsa--isto é: melhor do que nunca parecendo vir doutra garganta--Ricardo gritava-me num delirio:

--Vamos ver! Vamos ver!... Chegou a hora de dissipar os fantasmas... Ela é só tua! é só tua... has de me acreditar!... Repito-te: Foi como se a minha alma, sendo sexualisada, se materialisasse para te possuir... Ela é só minha! É só minha! Só para ti a procurei... Mas não consinto que nos separe... Verás... Verás!...

E no meio destas frases incoerentes, _impossiveis_, arrastava-me correndo numa furia para os aposentos da sua esposa, que ficavam no segundo andar.

(Pormenor curioso: nessse momento eu não tinha a sensação de que eram impossiveis as palavras que êle me dizia; apenas as julgava cheias da maior angustia...)

Tinhamos chegado. Ricardo empurrou a porta brutalmente...

Em pé, ao fundo da casa, diante duma janela, Marta folheava um livro...

A desventurada mal teve tempo para se voltar... Ricardo puxou dum revólver que trazia escondido no bolso do casaco e, antes que eu podesse esboçar um gesto, fazer um movimento, desfechou-lho á queima-roupa...

Marta tombou inanimada no solo... Eu não arredara pé do limiar...

E então foi o Misterio ... o fantastico Misterio da minha vida...

Ó assombro! Ó quebranto! _Quem jazia estiraçado junto da janela, não era Marta--não_!--_era o meu amigo, era Ricardo_... _E aos meus pés--sim, aos meus pés_!--_caira o seu revólver ainda fumegante_!...

Marta, essa desaparecera, evolara-se em silencio, como se extingue uma chama...

Aterrado, soltei um grande grito--um grito estridente, despedaçador--e, possesso de medo, de olhos fóra das orbitas e cabelos erguidos, precipitei-me numa carreira louca ... por entre corredores e salões ... por escadarias...

Mas os criados acudiram...

* * * * * * * *

... Quando pude raciocinar, juntar duas ideias, em suma: quando despertei deste pesadelo alucinante, infernal, que fora só a realidade, _a realidade inverosimil_--achei-me preso num calabouço do Governo Civil, guardado á vista por uma sentinela...

VIII

Pouco mais me resta a dizer. Pudera mesmo deter-se aqui a minha confissão. Entretanto ainda algumas palavras juntarei.

Convem passar rapidamente sobre o processo. Ele nada apresentou que valha a pena referir. Pela minha parte, nem por sombras tentei desculpar-me do crime de que era acusado. Com o inverosimil, ninguem se justifica. Por isso me calei.

O apelo do meu advogado, brilhantissimo. Deve ter dito que, no fundo, a verdadeira culpada do meu crime fora Marta, a qual desaparecera e que a policia, segundo creio, procurou em vão.

No meu crime subentenderam-se causas passionais, seguramente. A minha atitude era romanesca de esfingica. Assim pairou sobre tudo um vago ar de misterio. Daí, a benevolencia do júri.

Emtanto devo acentuar que sobre o meu julgamento conservo reminiscencias muito indecisas. A minha vida ruira toda no instante em que o revólver de Ricardo tombara aos meus pés. Em face a tão fantastico segredo, eu abismara-me. Que me fazia pois o que volteava á superficie?... Hoje, a prisão surgia-me como um descanso, _um termo_...

Por isso, as longas horas fastidiosas passadas no tribunal, eu só as vi em bruma--como sobrepostas, _a desenrolarem-se num scenario que não fosse precisamente aquêle em que tais horas se deveriam consumar_...

Os meus «amigos», como sempre acontece, abstiveram-se: nem Luís de Monforte--que tanta vez me protestara a sua amizade--nem Narciso do Amaral, em cujo afecto eu tambem crêra. Nenhum dêles, numa palavra, me veiu visitar durante o decorrer do meu processo, _animar-me_. Que a mim, de resto, coisa alguma me _animaria_.

Porêm, no meu advogado de defeza fui achar um verdadeiro amigo. Esqueceu-me o seu nome; apenas me recordo de que era ainda novo e de que a sua fisionomia apresentava uma semelhança notavel com a de Luís de Monforte.

Mais tarde, nas audiencias, havia de observar igualmente que o juiz que me interrogava se parecia um pouco com o medico que me tinha tratado, havia oito ânos, duma febre cerebral que me levara ás portas da morte.

Curioso que o nosso espirito, sabendo abstrair de tudo numa ocasião decisiva, não deixe emtanto de frizar pequenos detalhes como estes...

Passaram velozes os meus dez ânos de carcere, já o disse.

De resto, a vida na prisão onde cumpri a minha sentença não era das mais duras. Os meses corriam serenamente iguais.

Tinhamos uma larga cêrca onde, a certas horas, podiamos passear, sempre sob a vigilancia dos guardas, que nos vigiavam misturados comnosco e que ás vezes até nos dirigiam a palavra.

A cêrca terminava num grande muro, um grande paredão sobre uma rua larga--melhor: sobre uma especie de largo onde se cruzavam varias ruas. Em frente--pormenor que se me gravou na memoria--havia um quartel amarelo (ou talvez outra prisão).

O prazer maior de certos detidos, era de se debruçarem do alto do grande muro, e olharem para a rua; isto é: para a vida. Mas os carcereiros, mal os descobriam, logo brutalmente os mandavam retirar.

Eu poucas vezes me acercava do muro; apenas quando algum dos outros prisioneiros me chamava com insistencia, por grandes gestos misteriosos, pois nada me podia interessar do que havia para lá dêle.

Mesmo, nunca soubera evitar um arrepio árido de pavor ao debruçar-me a esse paredão e ao vê-lo esgueirar-se, duma grande altura--ennegrecido, lezardento, escalavrado--sobre raros indicios duma velha pintura amarela.

Nunca tive que me queixar dos guardas, como alguns dos meus companheiros que, em voz baixa, me contavam os maus tratos de que eram vítimas.

E o certo é que, ás vezes, se ouviam de subito, ao longe, uns gritos estranhos--ora roucos, ora estridentes. E um dia um prisioneiro mulato--decerto um mistificador--disse-me que o tinham vergastado sem dó nem piedade com umas vergastas horriveis--_frias como agua gelada_, acrescentara na sua lingua de trapos...

Aliás, eu com raros dos outros prisioneiros me misturava. Eram--via-se bem--criaturas pouco recomendaveis, sem ilustração nem cultura, vindas por certo dos bas-fonds do vicio e do crime.

Apenas me aprazia durante as horas de passeio na grande cêrca, falando com um rapaz louro, muito distinto, alto e elançado. Confessou-me que expiava igualmente um crime de assassinio. Matara a sua amante: uma cantora francesa, celebre, que trouxera para Lisboa.

Para êle como para mim, tambem a vida parara--êle vivera tambem o _momento culminante_ a que aludi na minha advertencia. Falavamos por sinal muita vez desses instantes grandiosos, e êle então referia-se á possibilidade de fixar, _de guardar_, as horas mais belas da nossa vida--fulvas de amor ou de angústia--e assim poder vê-las, ressentí-las. Contara-me que fôra essa a sua maior preocupação na vida--_a arte da sua vida_...

Escutando-o, o novelista acordava dentro de mim. Que belas paginas se escreveriam sobre tão perturbador assunto!

Emfim, mas não quero insistir mais sobre a minha vida no carcere, que nada tem de interessante para os outros, nem mesmo para mim.

Os ânos voaram. Devido á minha serenidade, á minha resignação, todos me tratavam com a maior simpatia e me olhavam carinhosamente. Os proprios directores, que muitas vezes nos chamavam aos seus gabinetes ou eles proprios nos visitavam, a conversar comnosco, a fazerem-nos perguntas--tinham por mim as maiores atenções.

... Até que um dia chegou o termo da minha pêna e as portas do carcere se me abriram...

Morto, sem olhar um instante em redór de mim, logo me afastei para esta vivenda rural, isolada e perdida, donde nunca mais arredarei pé.

Acho-me tranquilo--sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado dum outro. _Permaneci, mas já não me sou_. E até á morte real, só me resta contemplar as horas a esgueirar-se em minha face... A morte-real--apenas um sôno mais denso...

Antes, não quis porêm deixar de escrever sinceramente, com a maior simplicidade, a minha estranha aventura. Ela prova como factos que se nos afiguram bem claros, são muitas vezes os mais emmaranhados; ela prova como um inocente, muita vez, se não pode justificar, porque a sua justificação é inverosimil--_embora verdadeira_.

Assim eu para que lograsse ser acreditado, tive primeiro que expiar, em silencio, durante dez ânos, um crime que não cometi...

A vida...

_1-27 setembro 1913--Lisboa._

Mario de SÁ-CARNEIRO.