A confissão de Lucio,: Narrativa.

Part 5

Chapter 53,739 wordsPublic domain

Foi uma tarde triste, chuvosa e negra de fevereiro. Eram quatro horas. Eu sonhava dela quando, de subito, a encantadora surgiu na minha frente...

Tive um grito de surpresa. Marta porêm logo me fez calar com um beijo mordido...

Era a primeira vez que vinha a minha casa, e eu admirava-me, receoso da sua audacia. Mas não lho podia dizer: ela mordia-me sempre...

* * * * * * * *

Por fim os nossos corpos embaralharam-se, oscilaram perdidos numa ansia ruiva...

... E em verdade não fui eu que a possuí--ela, toda nua, ela sim, é que me possuiu...

* * * * * * * *

Á noite, como de costume, jantei em casa de Ricardo.

Muito curiosa a disposição do meu espirito: nem o minimo remorso, o minimo constrangimento--nuvem alguma. Pelo contrario, ha muito que me não via tão bem disposto. O proprio meu amigo o observou.

Falámos os dois largamente essa noite, coisa que ha bastante não acontecia. Ricardo terminara emfim nessa tarde o seu volume. Por isso nos não deixou...

... E no meio da sua conversa intima, eu esquecera até o episodio dourado. Olhando em redór de mim nem mesmo me ocorria que Marta estava seguramente perto de nós...

Na manhã seguinte, ao acordar, lembrei-me de que o poeta me dissera esta estranha coisa:

--Sabe você, Lucio, que tive hoje uma bizarra alucinação? Foi á tarde. Deviam ser quatro horas... Escrevera o meu ultimo verso. Saí do escritorio. Dirigi-me para o meu quarto... Por acaso olhei para o espelho do guarda-vestidos _e não me vi reflectido nêle_! Era verdade! Via tudo em redór de mim, via tudo quanto me cercava projectado no espelho. _Só não via a minha imagem_... Ah! não calcula o meu espanto ... a sensação misteriosa que me varou... Mas quer saber? Não foi uma sensação de pavor, _foi uma sensação de orgulho_.

Porêm, reflectindo melhor, descobri que em realidade o meu amigo me não dissera nada disto. Apenas eu--numa reminiscencia muito complicada e muito estranha--me lembrava, não de que verdadeiramente ele mo tivesse dito, mas de que, entretanto, mo devera ter dito.

V

A nossa ligação, sem uma sombra, foi prosseguindo.

Ah! como eu, ascendido, me orgulhava do meu amor... Vivia em sortilegio, no contínuo deslumbramento duma apoteose branca de carne...

Que delirios estrebuchavam os nossos corpos doidos ... como eu me sentia pouca coisa quando ela se atravessava sobre mim, iriada e sombria, toda nua e liturgica...

Caminhava sempre aturdido do seu encanto--do meu triunfo. Eu tinha-a! Eu tinha-a!... E erguia-se tão longe o meu entusiasmo, era tamanha a minha ansia que ás vezes--como os amorosos baratos escrevem nas suas cartas romanescas e patetas--eu não podia crer na minha gloria, chegava a recear que tudo aquilo fosse apenas um sonho.

A minha convivencia com Ricardo seguia sempre a mesma, e o meu afecto. Nem me arrependia, nem me condenava. De resto, antevendo-me em todas as situações, já anteriormente me suposera nas minhas circunstancias actuais, adquirindo a certeza de que seria assim.

Com efeito, segundo o meu sentir, eu não prejudicava o meu amigo em coisa alguma, não lhe fazia doer--êle não descera coisa alguma na minha estima.

Nunca tive a noção convencional de certas ofensas, de certos escrupulos. De nenhum modo procedia pois contra êle; transpondo-me, não me sabia indignar com o que lhe tinha feito.

Aliás, ainda que o meu procedimento fosse na verdade um crime, eu não praticava esse crime por mal, criminosamente. Eis pelo que me era impossivel ter remorsos.

Se lhe mentia--estimava-o entretanto com o mesmo afecto. Mentir não é menos querer.

Porêm--coisa estranha--este amor pleno, este amor sem remorsos; eu vibrava-o insatisfeito, dolorosamente. Fazia-me sofrer muito, muito. Mas porquê, meu Deus? Cruel enigma...

Amava-a, e ela queria-me tambem decerto ... dava-se-me toda em luz... Que me faltava?...

Não tinha subitos caprichos, recusas subitas, como as outras amantes. Nem me fugia, nem me torturava... Que me doía então?

Misterio...

O certo é que ao possui-la eu era todo medo--medo inquieto e agonia: agonia de ascensão, medo raiado de asul; emtanto morte e pavor.

Longe dela, recordando os nossos espasmos, vinham-me de subito incompreensiveis nauseas. Longe dela?... Mesmo até no momento dourado da posse essas repugnancias me nasciam a alastrarem-me, não a resumirem-me, a enclavinharem-me os extases arfados; e--cumulo da singularidade--essas repugnancias eu não sabia, mas adivinhava, serem apenas repugnancias fisicas.

Sim, ao esvaí-la, ao lembrar-me de a ter esvaído, subia-me sempre um alem-gosto a doença, a monstruosidade, como se possuira uma criança, um ser doutra especie ou um cadaver...

Ah! e o seu corpo era um triunfo; o seu corpo glorioso ... o seu corpo bebedo de carne--aromatico e lustral, evidente ... salutar...

As lutas em que eu hoje tinha de me debater para que ela não suspeitasse as minhas repugnancias, repugnancias que--já disse e acentuo--apenas vinham contorcer os meus desejos, aumentá-los...

Elançava-me agora sobre o seu corpo nu, como quem se arremessasse a um abismo encapelado de sombras, tilintante de fogo e gumes de punhais--ou como quem bebesse um veneno subtil de maldição eterna, por uma taça d'ouro, heraldica, ancestral...

Cheguei a recear-me, não a fosse um dia estrangular--e o meu cerebro, por vezes de misticismos incoerentes, logo pensou, num rodopio, se essa mulher fantastica não seria antes um demonio: o demonio da minha expiação, noutra vida a que eu já houvesse baixado.

E as tardes iam passando...

Por mais que diligenciasse referir toda a minha tortura á nossa mentira, ao nosso _crime_--não me lograva enganar. Coisa alguma eu lastimava; não podia ter remorsos... Tudo aquilo era quimera!

Volvido tempo, porêm, á força de as querer descer, de tanto meditar nestas estranhezas, como que emfim me adaptei a elas. E a tranquilidade regressou-me.

Mas este novo periodo de calma bem pouco durou. Em face do misterio não se pode ser calmo--e eu depressa me lembrei de que ainda não sabia coisa alguma dessa mulher que todas as tardes emmaranhava.

Nas suas conversas mais intimas, nos seus amplexos mais doidos, ela era sempre a mesma esfinge. Nem uma vez se abrira comigo numa confidencia--e continuava a ser a que não tinha uma recordação.

Depois, olhando melhor, nem era só do seu passado que eu ignorava tudo--tambem duvidava do seu presente. Que faria Marta durante as horas que não viviamos juntos? Era extraordinario! Nunca me falara delas; nem para me contar o mais pequenino episodio--qualquer desses episodios futeis que todas as mulheres, que todos nós nos apressamos a narrar, narramos maquinalmente, ainda os mais reservados... _Sim, em verdade, era como se não vivesse quando estava longe de mim_.

Passou-me esta ideia pelo espirito, e logo encontrei outro facto muito estranho:

Marta parecia não viver quando estava longe de mim. Pois bem, pela minha parte, quando a não tinha ao meu lado, coisa alguma me restava que, materialmente, me podesse provar a sua existencia: nem uma carta, um veu, uma flôr sêca--nem retratos, nem madeixas. Apenas o seu perfume, que ela deixava penetrante no meu leito, que sempre bailava subtil em minha volta. Mas um perfume é uma irrealidade. Por isso, como outróra, descia-me a mesma ansia de a ver, de a ter junto de mim para estar bem certo de que, pelo menos, _ela existia_.

Evocando-a, nunca a lograra entrever. As suas feições escapavam-me como nos fogem as das personagens dos sonhos. E, ás vezes, querendo-as recordar por força, as unicas que conseguia suscitar em imagem, eram as de Ricardo. Decerto por ser o artista quem vivia mais perto dela.

Ah! bem forte, sem duvida, o meu espirito, para resistir ao turbilhão que o silvava...

(Entre parenteses observe-se, porêm, que estas obsessões reais que descrevo nunca foram continuas no meu espirito. Durante semanas desapareciam por completo e, mesmo nos periodos em que me varavam, tinham fluxos e refluxos).

Juntamente com o que deixo exposto, e era o mais frisante das minhas torturas, outras pequeninas coisas, traiçoeiras ninharias, me vinham fustigar. Coloca-se até aqui um episodio curioso que, embora sem grande importancia, é conveniente referir:

Apesar de grandes amigos e de intimos amigos, eu e Ricardo não nos tratavamos por tu, devido com certeza á nossa intimidade ter principiado relativamente tarde--não sermos companheiros de infancia. De resto, nunca sequer atentaramos no facto.

Ora, por esta epoca, eu encontrei-me por vezes de subito a tratar o meu amigo por tu. E quando o fazia, logo me emendava, _corando como se viesse de praticar uma imprudencia_. E isto repetia-se tão amiudadamente que o poeta uma noite me observou com a maior naturalidade:

--Homem, escusas de ficar todo atrapalhado, titubiante, vermelho como uma malagueta, quando te enganas e me tratas por tu. Isso é ridiculo entre nós. E olha, fica combinado: de hoje em diante acabou-se o «você». Viva o «tu»! É muito mais natural...

E assim se fez. Contudo, nos primeiros dias, eu não soube retrair um certo embaraço ao empregar o novo tratamento--_tratamento que me fôra permitido_.

Ricardo, virando-se para Marta, mais de uma vez me troçou, dizendo-lhe:

--Este Lucio sempre tem cada exquisitice... Não vês? Parece uma noiva liria!... uma pombinha sem fél... Que marócas!...

Entretanto este meu embaraço tinha um motivo--complicado motivo esse, por sinal:

Nas nossas entrevistas intimas, nos nossos amplexos, eu e Marta tratavamo-nos por tu.

Ora, sabendo-me muito distraído, eu receava que alguma vez, em frente de Ricardo, me enganasse e a fosse tratar assim.

Este receio converteu-se por ultimo numa ideia fixa, e por isso mesmo, por esse excesso de atenção, comecei um dia a ter subitos descuidos. _Porêm, dessas vezes, eu encontrava-me sempre a tratar por tu, não Marta, Ricardo_.

E embora depois tivessemos assentado usar esse tratamento, o meu embaraço continuou durante alguns dias como se ingenuamente, confiadamente, _Ricardo_ houvesse exigido que eu e a sua companheira nos tratassemos por tu.

As minhas entrevistas amorosas com Marta, realisavam-se sempre em minha casa, á tarde.

Com efeito ela nunca se me quisera entregar em sua casa. Em sua casa apenas me dava os labios a morder e consentia vicios prateados.

Eu admirava-me até muito da facilidade evidente que ela tinha em se encontrar comigo todas as tardes á mesma hora, em se demorar largo tempo.

Uma vez recomendei-lhe prudencia. Ela riu. Pedi-lhe explicações: como não eram estranhadas as suas longas ausencias, como me chegava sempre tranquila, caminhando pelas ruas desensombradamente, nunca se preocupando com as horas... E ela então soltou uma gargalhada, mordeu-me a bôca ... fugiu...

Nunca mais a interroguei sobre tal assunto. Seria mau gosto insistir.

Entretanto fôra mais um segredo que se viera juntar á minha obsessão, a excitá-la...

De resto, as imprudencias de Marta não conheciam limites.

Em sua casa beijava-me com as portas todas abertas, sem se lembrar de que qualquer criado nos poderia descobrir--ou mesmo o proprio Ricardo, que muitas vezes, de subito, saía do seu gabinete de trabalho. Sim, ela nunca tinha desses receios. Era como se tal nos não podesse acontecer--_tal como se nós nos não beijássemos_...

Aliás, se havia alguem bem confiante, era o poeta. Bastava olhá-lo para logo se ver que nenhuma preocupação o torturava. Nunca o vira tão satisfeito, tão bem disposto.

Um vago ar de tristeza, de amargura, que após o seu casamento ainda de vez em quando o anuviava, esse mesmo desaparecera hoje por completo--como se, com o decorrer dos dias, ele já tivesse esquecido o acontecimento cuja lembrança lhe suscitava aquela ligeira nuvem.

As suas antigas complicações d'alma, essas, mal eu chegara a Lisboa logo ele me dissera que já não o desolavam--pois que, nesse sentido, a sua vida se _limpara_.

E--facto curioso--justamente depois de Marta ser minha amante é que tinham cessado todas as nuvens, é que eu via melhor a sua boa disposição--o seu orgulho, o seu jubilo, _o seu triunfo_...

As imprudencias de Marta aumentavam agora dia a dia.

Numa audacia louca, nem retinha já certos gestos de ternura a mim dirigidos, na presença do proprio Ricardo!

Todo eu tremia, mas o poeta nunca os estranhava--_nunca os via_; ou, se os via, era só para se rir, para os acompanhar.

Assim, uma tarde de verão, lanchavamos no terraço, quando Marta de subito--num gesto que, em verdade, se poderia tomar por uma simples brincadeira agarotada--me mandou beijá-la na fronte, em castigo de qualquer coisa que eu lhe dissera.

Hesitei, fiz-me muito vermelho; mas como Ricardo insistisse, curvei-me trémulo de medo, estendi os labios mal os pousando na péle...

E Marta:

--Que beijo tão desengraçado! Parece impossivel que ainda não saiba dar um beijo... Não tem vergonha? Anda, Ricardo, ensina-o tu...

Rindo, o meu amigo ergueu se, avançou para mim ... tomou-me o rosto ... beijou-me...

* * * * * * * *

_O beijo de Ricardo fôra igual, exactamente igual, tivera a mesma côr, a mesma perturbação que os beijos da minha amante_. Eu sentira-o da mesma maneira.

VI

Mais e mais a minha tortura se exacerbava cada noite. E embora visse claramente que todo o meu sofrimento, todos os meus receios, provinham só de obsessões destrambelhadas e que, portanto, motivo algum havia para eu os ter--o certo é que, pelo menos, uma certeza lucida me restava pressentida: fosse como fosse, havia em todo o caso um motivo real no arrepio de medo que me varava a todo o instante. Seriam destrambelhadas as minhas obsessões--ah! mas eram justos, bem justos no fundo, os meus receios.

Os nossos encontros prosseguiam sempre todas as tardes em minha casa, e eu hoje esperava, tremendo, a hora dos nossos amplexos. Tremendo e, ao mesmo tempo, a ansear numa agonia aquilo que me fazia tremer.

Esquecera as minhas repugnancias; o que me oscilava agora era outra duvida: apesar de os nossos corpos se emmaranharem, se incrustarem, de ela ter sido minha, toda minha--começou a parecer-me, não sei porquê, que nunca a possuira inteiramente; mesmo que não era possivel possuir aquele corpo inteiramente por uma impossibilidade fisica qualquer: _assim como se «ela» fosse do meu sexo_!

E ao penetrar-me esta ideia alucinadora, eu lembrava-me sempre de que o beijo de Ricardo, esse beijo masculino, me soubera ás mordeduras de Marta; tivera a mesma côr, a mesma perturbação...

* * * * * * * *

Passaram-se alguns mêses.

Entre periodos mais ou menos tranquilos, o tempo ia agora seguindo. Eu olvidava a minha inquietação, o meu misterio, elaborando um novo volume de novelas--o ultimo que devia escrever...

Meus tristes sonhos, meus grandes cadernos de projectos--acumulei-vos... acumulei-vos numa ascensão, e por fim tudo ruiu em destroços... Etereo construtor de torres que nunca se ergueram, de catedrais que nunca se sagraram... Pobres torres de luar ... pobres catedrais de neblina...

* * * * * * * *

Por este tempo, houve tambem uma epoca muito interessante na minha crise que não quero deixar de mencionar: durante ela eu pensava muito no meu caso, mas sem de forma alguma me atribular--friamente, desinteressadamente, como se esse caso se não desse comigo.

E punha-me sobretudo a percorrer o começo da nossa ligação. De que modo se iniciara ela? Misterio... Sim, por muito estranho que pareça, a verdade é que eu me esquecera de todos os pequenos episodios que a deviam forçosamente ter antecedido. Pois decerto não começaramos logo por beijos, por caricias viciosas--houvera sem duvida qualquer coisa antes, que hoje não me podia recordar.

E o meu esquecimento era tão grande que, a bem dizer, eu não tinha a sensação de haver esquecido esses episodios: parecia-me impossivel recordá-los, como impossivel é recordarmo-nos de coisas que nunca sucederam...

Mas estas bizarrias não me dilaceravam, repito: durante esta epoca eu examinei-me sempre de fóra, num deslumbramento--num deslumbramento lucido, donde provinha o meu alivio actual.

E só me lembrava--conforme narrei--do primeiro encontro das nossas mãos, do nosso primeiro beijo... Nem de tanto, sequer. A verdade simples era esta: eu sabia apenas que devera ter havido seguramente um primeiro encontro de mãos, uma primeira mordedura nas bôcas ... como em todos os romances...

Quando a saudade dêsse primeiro beijo me acudia mais nitida--ele surgia-me sempre como se fôra a coisa mais natural, a menos criminosa, ainda que dado na bôca... Na bôca? Mas é que eu nem mesmo disso estava seguro. Pelo contrario: era até muito possivel que esse beijo, mo tivessem dado na face--como o beijo de Ricardo, _o beijo semelhante aos de Marta_...

Meu Deus, meu Deus, quem me diria entretanto que estava ainda a meio do meu calvario, que tudo o que eu já sofrera nada valeria em face duma nova tortura--ai, desta vez, tortura bem real, não simples obsessão...

Com efeito um dia comecei observando uma certa mudança na atitude de Marta--nos seus gestos, no seu rosto: um vago constrangimento, um alheamento singular, devidos sem duvida a qualquer preocupação. Ao mesmo tempo reparei que já não se me entregava com a mesma intensidade.

Demorava-se agora menos em minha casa, e uma tarde, pela primeira vez, faltou.

No dia seguinte não aludiu á sua ausencia, nem eu tão pouco me atrevi a perguntar-lhe coisa alguma. Entretanto notei que a expressão do seu rosto mudara ainda: voltara a serenidade, a serenidade melancolica do seu rosto--mas essa serenidade era hoje diferente: mais loira, mais sensual, mais esbatida...

E desde aí, principiou a não me aparecer amiudadas vezes--ou chegando fóra das horas habituais, entrando e logo saindo, sem se me entregar.

De maneira que eu vivia agora num martirio incessante. Cada dia que se levantava, era cheio do medo de que ela me faltasse. E desde a manhã a esperava, fechado em casa, numa excitação indomavel que me quebrava, que me ardia.

Por seu lado, Marta nunca tinha pensado em justificar-me as suas ausencias, as suas recusas. E eu, embora o quisesse, ardentemente o quisesse, não lhe ousava fazer a mais ligeira pergunta.

De resto, devo explicar que, desde o inicio da nossa ligação, terminara a nossa intimidade. Com efeito, desde que Marta fôra minha--eu olhava-a como se olha alguem que nos é muito superior e a quem tudo devemos. Recebera o seu amor como uma esmola de rainha--como aquilo que menos poderia esperar, _como uma impossibilidade_.

Eis pelo que não arriscava uma palavra.

Eu era apenas o seu escravo--um escravo a quem se prostituira a patrícia debochada... Mas, por ser assim, tanto mais contorcida se enclavinhava a minha angustia...

* * * * * * * *

Uma tarde decidi-me.

Passara ha muito a hora depois da qual Marta nunca vinha.

--Ah! que faria nesse instante? Porque não viera!?...

Fosse como fosse, era preciso saber alguma coisa!

Já mais duma vez, quando ela me faltava, eu estivera prestes a ir procura-la. Mas nunca ousara sair do meu quarto, no receio pueril de que--embora muito tarde--ainda aparecesse.

Nesse dia, porêm, pude-me vencer. Decidi-me...

Corri a casa do meu amigo numa ansia esbraseada...

Fui encontra-lo no seu gabinete de trabalho, entre uma avalanche de papeis, fazendo uma escolha dos seus versos inéditos para uma distribuição em dois volumes--distribuição que ha mais dum âno o torturava.

--Ainda bem que apareceste!--gritou-me.--Vais-me ajudar nesta horrivel tarefa!...

Volvi-lhe balbuciando, sem me atrever a perguntar pela sua companheira, motivo unico da minha inesperada visita... Estaria em casa? Era pouco provavel. Emtanto podia ser...

Só a vi ao jantar. Tinha um vestido-tailleur, de passeio...

* * * * * * * *

Agora todas as minhas obsessões se haviam dissipado, convertidas em ciume--ciume que eu ocultava á minha amante como uma vergonha, que fazia por ocultar a mim proprio, tentando substitui-lo pelos meus antigos desvairos. Mas sempre embalde.

Contudo nunca passavam três dias seguidos sem que Marta me pertencesse.

O horror fisico que o seu corpo já me suscitara tinha voltado de novo. Esse horror, porêm, e o ciume, mais me faziam deseja-la, mais alastravam em côres fulvas os meus espasmos.

Muitas vezes repeti a experiencia de correr a sua casa nas tardes em que ela não vinha. Mas sempre encontrava Ricardo. Marta não aparecia senão ao jantar... E eu, na minha incrivel timidez, nunca perguntava por ela--esquecia-me mesmo de o fazer, como se não fosse para isso só que viera procurar o meu amigo àquela hora...

Porêm, um dia o poeta admirou-se das minhas visitas intempestivas, do ar febril com que eu chegava e, desde então, nunca mais ousei repetir essas experiencias, aliás inuteis.

Decidi espiona-la.

Uma tarde tomei um coupé e, descidas as cortinas, mandei-o parar perto de sua casa... Esperei algum tempo. Por fim ela saiu. Ordenei ao cocheiro que a seguisse a distancia...

Marta tomou por uma rua transversal, dobrou á esquerda, enveredou por uma avenida paralela àquela em que habitava e onde as construções eram ainda raras. Dirigiu-se a um pequeno predio de asulejo verde. Entrou sem bater...

* * * * * * * *

Ah! como eu sofria! como eu sofria!... Fôra buscar a prova evidente de que ela tinha outro amante... Louco que eu era em a ter ido procurar... Hoje, nem mesmo que quisesse, me poderia já iludir...

E como eu me enganara outróra pensando que não seria sensivel á traição carnal duma minha amante, que pouco me faria que ela pertencesse a outros...

Começou então a ultima tortura...

Num grande esforço baldado, procurei ainda olvidar-me do que descobrira--esconder a cabeça debaixo dos lençois como as crianças, com medo dos ladrões, nas noites de inverno.

Ao entrelaça-la, hoje, debatia-me em extases tão profundos, mordia-a tão sofregamente, que ela uma vez se me queixou.

Com efeito, sabe-la possuida por outro amante--se me fazia sofrer na alma, só me excitava, só me contorcia nos desejos...

Sim! sim!--laivos de roxidão!--aquele corpo esplendido, triunfal, dava-se a três homens--três machos se estiraçavam sobre êle, a polui-lo, a sugá-lo!... Três? Quem sabia se uma multidão?... E ao mesmo tempo que esta ideia me despedaçava, vinha-me um desejo perverso de que assim fosse...

Ao estrebucha-la agora, em verdade, era como se, em beijos monstruosos, eu possuisse tambem todos os corpos masculinos que resvalavam pelo seu. A minha ansia convertera-se em achar na sua carne uma mordedura, uma escoriação de amor, qualquer rastro doutro amante...

E um dia de triunfo, finalmente, descobri-lhe no seio esquerdo uma grande nodoa negra... Num impeto, numa furia, colei a minha boca a essa mancha--chupando-a, trincando-a, dilacerando-a...

Marta, porêm, não gritou. Era muito natural que gritasse com a minha violencia, pois a boca ficara-me até sabendo a sangue. Mas o certo é que não teve um queixume. Nem mesmo parecera notar essa caricia brutal...

De modo que, depois de ela sair, eu não pude recordar-me do meu beijo de fogo--foi-me impossivel relembra-lo numa estranha duvida...

* * * * * * * *

Ai, quanto eu não daria por conhecer o seu outro amante ... os seus outros amantes...

Se ela me contasse os seus amores livremente, sinceramente, se eu não ignorasse as suas horas--todo o meu ciume desapareceria, não teria razão de existir.

Com efeito, se ela não se ocultasse de mim, _se apenas se ocultasse dos outros_, eu seria o primeiro. Logo, só me poderia envaidecer; de forma alguma me poderia revoltar em orgulho. Porque a verdade era essa, atingira: todo o meu sofrimento provinha apenas do meu orgulho ferido.

Não, não me enganara outróra, ao pensar que nada me angustiaria por a minha amante se entregar a outros. Unicamente era necessario que ela me contasse os seus amores, os seus espasmos até.

O meu orgulho só não admitia segredos. E em Marta era tudo misterio. Daí a minha angustia--_daí o meu ciume_.