A confissão de Lucio,: Narrativa.

Part 4

Chapter 43,636 wordsPublic domain

(E, entre parenteses, convem-me acentuar que meço muito bem a estranheza de quanto deixo escrito. Logo no principio referi que a minha coragem seria a de dizer toda a verdade, ainda quando ela não fosse verosimil.)

A partir daí, comecei frequentando amiudadas noites a casa de Ricardo. As sensações bizarras tinham-me desaparecido por completo, e eu _via_ agora nitidamente a sua esposa.

Era uma linda mulher loira, muito loira, alta, escultural--e a carne mordorada, dura, _fugitiva_. O seu olhar asul perdia-se de infinito, nostalgicamente. Tinha gestos nimbados e caminhava nuns passos leves, silenciosos--indecisos, mas rapidos. Um rosto formosissimo, duma beleza vigorosa, talhado em oiro. Mãos inquietantes de esguias e palidas.

Sempre triste--numa tristeza maceradamente vaga--mas tão gentil, tão suave e amoravel, que era sem duvida a companheira propicia, ideal, dum poeta.

Cheguei a invejar o meu amigo...

Durante seis meses a nossa existencia foi a mais simples, a mais serena. Ah! esses seis meses constituiram em verdade a unica epoca feliz, sem nevoas, da minha vida...

Raros dias se passavam em que não estivesse com Ricardo e Marta. Quasi todas as noites nos reuniamos em sua casa, um pequeno grupo de artistas: Eu, Luís de Monforte, o dramaturgo da _Gloria_; Aniceto Sarzedas, o verrinoso critico; dois poetas de vinte ânos cujos nomes olvidei e--sobretudo--o conde Sergio Warginsky, adido da legação da Russia, que nós conheceramos vagamente em Paris e que eu me admirava de encontrar agora assiduo frequentador da casa do poeta. Ás vezes, com menor frequencia, apareciam tambem Raul Vilar e um seu amigo--triste personagem tarado que hoje escreve novelas torpes desvendando as vidas intimas dos seus companheiros, no intuito (justifica-se) de apresentar casos de psicologias estranhas e assim fazer uma arte perturbadora, intensa e original; no fundo apenas falsa e obscena.

Os serões corriam lisongeiros entre conversas intelectuais--vincadamente literarias--onde a nota humoristica era dada em abundancia por Aniceto Sarzedas, nos seus terriveis _ereintements_ contra todos os contemporaneos.

Marta misturava-se por vezes nas nossas discussões, e evidenceava-se duma larga cultura, duma finissima inteligencia. Curioso que a sua maneira de pensar nunca divergia da do poeta. Ao contrario: integrava-se sempre com a dêle reforçando, _aumentando_ em pequenos detalhes as suas teorias, as suas opiniões.

O russo, esse exprimia a sensualidade naquele grupo de artistas--não sei porquê, eu tinha esta impressão.

Era um belo rapaz de vinte e cinco ânos, Sergio Warginsky. Alto e elançado, o seu corpo evocava o de Gervasio Vila-Nova que, ha pouco, brutalmente se suicidara, arremessando-se para debaixo dum comboio. Os seus labios vermelhos, petulantes, amorosos, guardavam uns dentes que as mulheres deveriam querer beijar--os cabelos dum loiro arruivado, caíam-lhe sobre a testa em duas madeixas longas, arqueadas. Os seus olhos de penumbra aurea, nunca os despregava de Marta--devia-me lembrar mais tarde. Emfim, se alguma mulher havia entre nós, parecia-me mais ser êle do que Marta. (Esta sensação bizarra, aliás, só depois é que eu reconheci que a tivera. Durante este periodo, pensamentos alguns destrambelhados me vararam o espirito).

Sergio tinha uma voz formosíssima--sonora, vibrante, esbraseada. Com a predisposição dos russos para as linguas estrangeiras, fazendo um pequeno esforço, pronunciava o português sem o mais ligeiro acento. Por isso Ricardo se aprazia muito em lhe mandar ler os seus poemas que, vibrados por aquela garganta adamantina, se sonorisavam em aureola.

De resto era evidente que o poeta dedicava uma grande simpatia ao russo. A mim, pelo contrario, Warginsky só me irritava--sobretudo talvez pela sua beleza excessiva--chegando eu a não poder retrair certas impaciencias quando êle se me dirigia.

Entretanto bem mais agradaveis me eram ainda as noites que passava apenas na companhia de Ricardo e de Marta--mesmo quasi só na companhia de Marta pois, nessas noites, muitas vezes o poeta se ausentava para o seu gabinete de trabalho.

Longas horas me esquecia então conversando com a esposa do meu amigo. Esperimentavamos um pelo outro uma viva simpatia--era indubitavel. E nessas ocasiões é que eu melhor podia avaliar toda a intensidade do seu espirito.

Emfim, a minha vida desensombrara-se. Certas circunstancias materiais muito enervantes tinham-se-me modificado lisongeiramente. Ao meu ultimo volume, recem-saído do prelo, estava-o acolhendo um magnifico sucesso. O proprio Sarzedas lhe dedicara um grande artigo elogioso e lucido!...

Por sua parte, Ricardo só me parecia feliz no seu lar.

Em suma, tinhamos aportado. Agora sim: _viviamos_.

Decorreram meses. Chegara o verão. Haviam cessado as reuniões noturnas em casa do artista. Luís de Monforte retirara-se para a sua quinta; Warginsky partira com três meses de licença para S. Petersburgo. Os dois poetazinhos tinham-se perdido em Trás-os-Montes. Só, de vez em quando--com o seu monóculo e o seu eterno sobretudo--surgia Aniceto Sarzedas, queixando-se do reumatico e do ultimo volume que aparecera.

Depois de projectar uma viagem á Noruega, Ricardo decidiu ficar por Lisboa. Queria trabalhar muito esse verão, concluir o seu volume _Diadema_, que devia ser a sua obra-prima. E francamente, o melhor para isso era permanecer na capital. Marta estando de acordo, assim sucedeu.

Foi neste tempo que a intimidade com a mulher do meu amigo mais se estreitou--intimidade onde nunca a sombra dum desejo se viera misturar, embora passassemos largo tempo juntos. Com efeito, numa ansia de trabalho, Ricardo, após o jantar, logo nos deixava, encerrando-se no seu gabinete até ás onze horas, meia noite...

As nossas palavras, de resto, apesar da nossa intimidade, somavam-se apenas numa conversa longinqua em que não apareciam as nossas almas. Eu expunha-lhe os enredos de futuras novelas, sobre as quais Marta dava a sua opinião--lia-lhe as minhas paginas recem-escritas, sempre numa camaradagem puramente intelectual.

Até aí nunca me ocorrera qualquer ideia misteriosa sobre a companheira do poeta. Ao contrario: ela parecia-me bem real, bem simples, bem _certa_.

Mas ai, de subito, uma estranha obsessão começou no meu espirito...

Como que acordado bruscamente dum sonho, uma noite achei-me perguntando a mim proprio:

--_Mas no fim de contas quem é esta mulher?_...

Pois eu ignorava tudo a seu respeito. Donde surgira? Quando a encontrara o poeta? Misterio... Em face de mim nunca ela fizera a minima alusão ao seu passado. Nunca me falara dum parente, duma sua amiga. E, por parte de Ricardo, o mesmo silencio, o mesmo inexplicavel silencio...

Sim, em verdade, tudo aquilo era muito singular. Como a conhecera o artista--ele, que não tinha relações algumas, que nem mesmo frequentava as casas dos seus raros amigos--e como aceitara a ideia do matrimonio, que tanto lhe repugnava?... _O matrimonio_? Mas seriam êles casados?... Nem sequer disso eu podia estar seguro. Lembrava-me numa reminiscencia vaga: na sua carta o meu amigo não me escrevera propriamente que se tinha casado. Isto é: dizia-mo talvez, mas sem empregar nunca uma palavra decisiva... Aludindo a sua mulher, dizia sempre Marta--reparava agora tambem.

E foi então que me ocorreu outra circunstancia ainda mais estranha, a qual me acabou de perturbar: _essa mulher não tinha recordações; essa mulher nunca se referira a uma saudade da sua vida_. Sim; nunca me falara dum sitio onde estivera, dalguem que conhecera, duma sensação que sentira--em suma, da mais pequena coisa: um laço, uma flor, um véu...

De maneira que a realidade inquietante era esta: aquela mulher erguia-se aos meus olhos como se não tivesse passado--_como se tivesse apenas um presente_!

Em vão tentei expulsar do espirito as ideias afogueadas. Mais e mais cada noite elas se me enclavinhavam, focando-se hoje toda a minha agonia em desvendar o misterio.

Nas minhas conversas com Marta esforçava-me por obriga-la a descer no seu passado. Assim lhe perguntava naturalmente se conhecia tal cidade, se conservava muitas reminiscencias da sua infancia, se tinha saudades desta ou doutras epocas da sua vida... Mas ela--naturalmente tambem, suponho--respondia iludindo as minhas perguntas; mais: _como se não me percebesse_... E, pela minha parte, num enleio injustificado, faltava-me sempre a coragem para insistir--_perturbava-me como se viesse de cometer uma indelicadeza_.

Para a minha ignorancia ser total, eu nem mesmo sabia que sentimentos ligavam os dois esposos. Amava-a realmente o artista? Sem duvida. Emtanto nunca mo dissera, nunca se me referira a esse amor, que devia existir com certeza. E, pelo lado de Marta, igual procedimento--_como se tivessem pejo de aludir ao seu amor_.

Um dia, não me podendo conter--vendo que da sua companheira detalhe algum obtinha--decidi-me a interrogar o proprio Ricardo.

E, num esforço, de subito:

--É verdade--ousei--você nunca me contou o seu romance...

No mesmo momento me arrependi. Ricardo empalideceu; murmurou quaisquer palavras e, logo, mudando de assunto, se pôs a esboçar-me o plano dum drama em verso que queria compôr.

Entretanto a minha ideia fixa volvera-se-me num perfeito martirio, e assim--quer junto de Marta, quer junto do poeta--eu tentei por mais duma vez ainda suscitar alguma luz. Mas sempre embalde.

Contudo o mais singular da minha obsessão, ia-me esquecendo de o dizer:

Não era com efeito o misterio que encerrava a mulher do meu amigo que, no fundo, mais me torturava. Era antes esta incerteza: a minha obsessão seria uma realidade, existiria realmente no meu espirito; _ou seria apenas um sonho que eu tivera e não lograra esquecer, confundindo-o com a realidade_?

Todo eu agora era duvidas. Em coisa alguma acreditava. Nem sequer na minha obsessão. Caminhava na vida entre vestigios, chegando mesmo a recear enlouquecer nos meus momentos mais lucidos...

Voltara o inverno, e com êle, os serões artisticos em casa do poeta, sucedendo aos dois vates perdidos definitivamente em Trás-os-Montes, um vago jornalista com pretensões a dramaturgo e Narciso do Amaral, o grande compositor. Sergio Warginsky, loiro como nunca, sempre o mais assiduo e o mais irritante.

A prova de que o meu espirito andava doente, muito doente, tive-a uma noite dessas--uma noite chuvosa de dezembro...

Narciso do Amaral decidira-se emfim a executar-nos o seu concertante _Alem_, que terminara ha muitas semanas e que até hoje só êle conhecia.

Sentou-se ao piano. Os seus dedos feriram as teclas...

Automaticamente os meus olhos se tinham fixado na esposa de Ricardo, que se assentara num fauteuil ao fundo da casa, em um recanto, de maneira que só eu a podia ver olhando ao mesmo tempo para o pianista.

Longe dela, em pé, na outra extremidade da sala, permanecia o poeta.

E então, pouco a pouco, á medida que a musica aumentava de maravilha, eu vi--sim, na realidade vi!--a figura de Marta dissipar-se, esbater-se; som a som, lentamente, até que desapareceu por completo. _Em face dos meus olhos abismados eu só tinha agora o fauteuil vasio_...

* * * * * * * *

Fui de subito acordado da miragem pelos aplausos dos auditores que a musica genial transportara, fizera fremir, quasi delirar...

E, velada, a voz de Ricardo alteou-se:

--Nunca vibrei sensações mais intensas do que perante esta musica admiravel. Não se pode exceder a emoção angustiante, perturbadora, que ela suscita. São véus rasgados sobre o alem--o que a sua harmonia sossobra... Tive a impressão de que tudo quanto me constitue em alma, se precisou condensar para a estremecer--se reuniu dentro de mim, ansiosamente, em um globo de luz...

Calou-se. Olhei...

Marta regressara. Erguia-se do fauteuil nesse instante...

Ao dirigir-me para minha casa debaixo duma chuva miudinha, impertinente--sentia-me silvado por um turbilhão de garras d'ouro e chama.

Tudo resvalava ao meu redór numa bebedeira de misterio, até que--num esforço de lucidez--consegui atribuir a visão fantastica á partitura imortal.

De resto eu apenas sabia que se tratara duma alucinação, porque era impossivel explicar o estranho desaparecimento por qualquer outra forma. Ainda que na realidade o seu corpo se dissolvesse--devido aos lugares que ocupávamos na sala--presumivelmente só eu o teria notado. Com efeito, bem pouco natural seria que, em face de musica tão sugestionadora, alguem podesse desviar os olhos do seu admiravel executante...

A partir dessa noite, a minha obsessão ainda mais se acentuou.

Parecia-me, em verdade, enlouquecer.

Quem era, mas quem era afinal essa mulher enigmatica, essa mulher de sombra? Donde provinha, _onde existia_?... Falava-lhe ha um âno, e era como se nunca lhe houvesse falado... Coisa alguma sabia dela--a ponto que ás vezes chegava a duvidar da sua existencia. E então, numa ansia, corria a casa do artista, a vê-la, a certificar-me da sua realidade--a certificar-me de que nem tudo era loucura: _pelo menos ela existia_.

Em mais duma ocasião já Ricardo pressentira em mim decerto alguma coisa extraordinaria. A prova foi que uma tarde, solicito se informou da minha saude. Eu respondi-lhe brutalmente--lembro-me--afirmando com impaciencia que nada tinha; perguntando-lhe que ideia estrambotica era essa.

E êle, admirado perante o meu furor inexplicavel:

--Meu querido Lucio--apenas comentara--é preciso tomarmos conta com esses nervos...

Não podendo mais resistir á ideia fixa; adivinhando que o meu espirito sossobraria se não vencesse lançar emfim alguma luz sobre o misterio--sabendo que, nesse sentido, nada me esperava junto de Ricardo ou de Marta--decidi valer-me de qualquer outro meio, fosse êle qual fosse.

E eis como principiou uma serie de baixezas, de interrogações mal dissimuladas, junto de todos os conhecidos do poeta--dos que deviam ter estado em Lisboa quando do seu _casamento_.

Para as minhas primeiras diligencias escolhi Luís de Monforte.

Dirigi-me a sua casa, no pretexto de o consultar sobre se deveria conceder a minha auctorização a certo dramaturgo que pensava em extrair um drama duma das minhas mais celebres novelas. Mas logo de começo não tive mãos em mim, e, interrompendo-me, me pús a fazer-lhe perguntas directas, ainda que um tanto vagas, sobre a mulher do meu amigo. Luís de Monforte ouviu-as como se as estranhasse--_mas não por elas proprias, só por virem da minha parte_; e respondeu-me chocado, iludindo-as, como se as minhas perguntas fossem indiscrições a que seria pouco correcto responder.

O mesmo--coisa curiosa--me sucedeu junto de todos quantos interroguei. Apenas Aniceto Sarzedas foi um pouco mais explicito, volvendo-me com uma infamia e uma obscenidade--segundo o seu costume, de resto.

Ah! como me senti humilhado, sujo, nesse instante--que dificil me foi suster a minha raiva e não o esbofetear, estender-lhe afavelmente a mão, na noite seguinte, ao encontra-lo em casa do poeta...

Estas diligencias torpes, porêm, foram vantajosas para mim. Com efeito se, durante elas, não averiguara coisa alguma--concluira pelo menos isto: que ninguem se admirava do que eu me admirava; que ninguem notara o que eu tinha notado. Pois todos me ouviram como se nada de propriamente estranho, de misterioso, houvesse no assunto sobre o qual as minhas perguntas recaíam--apenas como se fosse indelicado, _como se fosse estranho da minha parte tocar nesse assunto_. Isto é: ninguem me compreendera... E assim me cheguei a convencer de que eu proprio não teria razão...

De novo, por algum tempo, as ideias se me desanuviaram; de novo, serenamente, me pude sentar junto de Marta.

Mas ai, foi bem curto este periodo tranquilo.

De todos os conhecidos do artista, só um eu não ousara abordar, tamanha antipatia êle me inspirava--Sergio Warginsky.

Ora uma noite, por acaso, encontrámo-nos no Tavares. Não houve pretexto para que não jantassemos á mesma mesa...

... E de subito, no meio da conversa, muito naturalmente, o russo exclamou, aludindo a Ricardo e á sua companheira:

--Encantadores aqueles nossos amigos, não é verdade? E que amaveis... Já conhecia o poeta em Paris. Mas, a bem dizer, as nossas relações datam de ha dois ânos, quando fomos companheiros de jornada... Eu tomara em Biarritz o _sud-express_ para Lisboa. Eles faziam viagem no mesmo trem, e desde então...

* * * * * * * *

IV

Atordoaram-me, positivamente me atordoaram, as palavras do russo.

Pois seria possivel? _Ricardo trouxera-a de Paris_?... Mas como não a conhecera eu, sendo assim? Acaso não o teria acompanhado á gare do Quai d'Orsay? Fôra verdade, fôra, não o acompanhara--lembrei-me de subito. Estava doente, com um fortissimo ataque de gripe... E êle... Não; era impossivel ... não podia ser...

Mas logo, procurando melhor nas minhas reminiscencias, me ocorreram pela primeira vez, nitidamente me ocorreram, certos detalhes obscuros que se prendiam com o regresso do artista a Portugal.

Ele amava tanto Paris ... e decidira regressar a Portugal... _Declarara-mo, e eu não me tinha admirado_--não me tinha admirado como se houvesse uma razão que justificasse, que exigisse esse regresso.

Ai, como me arrependia hoje de, com efeito, o não ter acompanhado á estação, embora o meu incomodo, e talvez ainda outro motivo, que eu depois esquecera. Entretanto recordava-me de que apesar da minha febre, das minhas violentas dôres de garganta, estivera prestes a erguer-me e a ir despedir-me do meu amigo... Porêm, em face dum torpor fisico que me invadira todo, deixara-me ficar estendido no leito, imerso numa profunda modorra, _numa estranha modorra de penumbra_...

* * * * * * * *

Aquela mulher, ah! aquela mulher...

Quem seria... quem seria?... Como sucedera _tudo aquilo_?...

E só então me lembrei distintamente da carta do poeta pela qual se me afigurava ter sabido do seu enlace: a verdade era que, de forma alguma, êle me participava um casamento nessa carta; nem sequer de longe aludia a esse acto--falava-me apenas das «transformações da sua vida», do seu lar, e tinha frases como esta que me bailava em letras de fôgo diante dos olhos: «agora, que vive alguem a meu lado; que emfim de tudo quanto derroquei sempre se ergueu alguma coisa...»

E, facto extraordinario, notava eu hoje: êle referia-se a tudo isso como se se tratasse de episodios que eu já conhecesse, sendo por conseguinte inutil narrá-los, só comentando-os...

Mas havia outra circunstancia, ainda mais bizarra: é que, pela minha parte, eu não me admirara, como se efectivamente já tivesse conhecido _tudo isso_, que porêm olvidara por completo, e que a sua carta agora, vagamente, me vinha recordar...

Sim, sim: nem me admirara, nem lhe falara do meu esquecimento, nem lhe fizera perguntas--não pensara sequer em lhas fazer, _não pensara em coisa alguma_.

Mais do que nunca o misterio subsistia pois; entretanto divergido para outra direcção. Isto é: a ideia fixa que êle me enclavinhava no espirito, alterara-se essencialmente:

Outróra o misterio apenas me obcecava como misterio: evidenciando-se, tambem a minha alma se desensombraria. Era êle só a minha angustia E hoje--meu Deus!--a tortura volvera-se-me em quebranto; o segredo que velava a minha desconhecida, só me atraía hoje, só me embriagava de champanhe--era a beleza unica da minha existencia.

Daí por diante seria eu proprio a esforçar-me por que ele permanecesse, impedindo que luz alguma o viesse iluminar. E quando desabasse, a minha dôr seria infinita. Mais: se êle sossobrasse, apesar de tudo, numa ilusão, talvez eu ainda o fizesse prosseguir!

O meu espirito adaptara-se ao misterio--e esse misterio ia ser a armadura, a chama e o rastro d'ouro da minha vida...

Isto, entretanto, não o avistei imediatamente; levou-me muitas semanas o aprendê-lo--e, ao descobri-lo, recuei horrorisado. Tive medo; um grande medo... O misterio era essa mulher. Eu só amava o misterio...

... Eu amava essa mulher! Eu queria-a! eu queria-a!...

* * * * * * * *

Meu Deus, como sangrei...

O espirito fendera-se-me numa oscilação temivel; um arrepio contínuo me varava a carne zig-zagueantemente. Não dormia, nem sequer sonhava. Tudo eram linhas quebradas em meu redór, manchas de luz pôdre, ruidos dissonantes...

Foi então que num impeto de vontade, bem decidido, comecei a procurar com toda a lucidez a força de salvar o precipicio que estava já bem perto, na minha carreira... Logo a encontrei. O que me impelia para essa mulher fazendo-ma ansear esbraseadamente, não era a sua alma, não era a sua beleza--era só isto: o seu misterio. Derrubado o segredo, esvair-se-hia o encantamento: eu poderia caminhar bem seguro.

Assim determinei abrir-me inteiramente com Ricardo, dizer-lhe as minhas angustias, e suplicar-lhe que me contasse tudo, tudo, que posesse termo ao misterio, que preenchesse os espaços vasios da minha memoria.

Mas foi-me impossivel levar a cabo tal resolução. Desfaleci adivinhando que sofreria muito mais, muito mais fanadamente, extinto o sortilegio, de que emquanto êle me diluísse.

Quis ter porêm outra coragem: a de fugir.

Desapareci durante uma semana fechado em minha casa, sem fazer coisa alguma, passeando todo o dia á roda do meu quarto. Os bilhetes do meu amigo principiaram chovendo, e como nunca lhe respondesse, uma tarde êle proprio me veiu procurar. Disseram-lhe que eu não estava, mas Ricardo sem ouvir, precipitou-se no meu quarto a gritar-me:

--Homem! que diabo significa isto? Pósas ao neurasténico á ultima hora? Vamos, faze-me o favor de te vestir, e de me acompanhares imediatamente a minha casa.

Não soube articular uma razão, uma escusa. Apenas sorri volvendo:

--Não faças caso. São as minhas exquisitices...

E, no mesmo instante, eu decidi não fugir mais do precipicio; entregar-me á corrente--deixar-me ir até onde ela me levasse. _Com esta resolução voltou-me toda a lucidez_.

Acompanhei Ricardo. Ao jantar falou-se só da minha «madureza», e o primeiro a blaguea-la fui eu proprio.

Marta estava linda essa noite. Vestia uma blusa negra de crépe da China, amplamente decotada. A saia muito cingida deixava pressentir a linha escultural das pernas que uns sapatos muito abertos mostravam quasi nuas, revestidas por meias de fios metalicos, entrecruzados em largos losangos por onde a carne surgia...

E pela primeira vez, ao jantar, me sentei a seu lado, pois o artista recusou o seu lugar do costume pretextando uma corrente de ar...

O que foram as duas semanas que sucederam a esta noite, não sei. Emtanto a minha lucidez continuava. Nenhuma ideia estranha feria o meu espirito, nenhuma hesitação, nenhum remorso... E contudo sabia-me arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me encerrava todo e me aturdia os sentidos--_mas não deixava ver_, embora eu tivesse a certeza de que êles me existiam bem lucidos. Era como se houvesse guardado o meu espirito numa gaveta...

* * * * * * * *

Foi duas noites após o meu regresso que as suas mãos, naturalmente, pela primeira vez encontraram as minhas...

Ah! como as horas que passavamos solitarios eram hoje magentas... As nossas palavras tinham-se volvido--pelo menos julgo que se tinham volvido--frases sem nexo, sob as quais ocultavamos aquilo que sentiamos e não queriamos ainda desvendar, não por qualquer receio, mas sim, unicamente, num desejo perverso de sensualidade.

Tanto que uma noite, sem me dizer coisa alguma, ela pegou nos meus dedos e com eles acariciou as pontas dos seios--a acera-las, para que enfolassem agrestemente o tecido ruivo do kimono de seda.

E cada noite era uma nova voluptuosidade silenciosa.

Assim, ora nos beijavamos os dentes, ora ela me estendia os pés descalços para que lhos roesse--me soltava os cabelos; me dava a trincar o seu sexo maquilado, o seu ventre obsceno de tatuagens rôxas...

E só depois de tantos requintes de brasa, de tantos extases perdidos--sem forças para prolongarmos mais as nossas perversões--nos possuimos realmente.