A confissão de Lucio,: Narrativa.

Part 3

Chapter 33,705 wordsPublic domain

--O meu sofrimento moral, ainda que sem razões, tem aumentado tanto, tanto, estes ultimos dias, que eu hoje sinto a minha alma fisicamente. Ah! é horrivel! _A minha alma não se angustía apenas, a minha alma sangra_. As dôres morais transformam-se-me em verdadeiras dôres fisicas, em dôres horriveis, que eu sinto materialmente--não no meu corpo, mas no meu espirito. É muito dificil, concordo, fazer compreender isto a alguem. Entretanto, acredite-me; juro-lhe que é assim. Eis pelo que eu lhe dizia a outra noite que tinha a minha alma estremunhada. Sim, a minha pobre alma anda morta de sono, e não a deixam dormir--tem frio, e não a sei aquecer! Endureceu-me toda, toda! secou, anquilosou-se-me; de forma que move-la--isto é: pensar--me faz hoje sofrer terriveis dôres. E quanto mais a alma me endurece, mais eu tenho ansia de pensar! Um turbilhão de ideias--loucas ideias!--me silva a desconjunta-la, a arrepanha-la, a rasga-la, num martirio alucinante! Até que um dia--oh! é fatal--ela se me partirá, voará em estilhaços... A minha pobre alma! a minha pobre alma!...

Em tais ocasiões os olhos de Ricardo cobriam-se dum veu de luz. Não brilhavam: cobriam-se dum veu de luz. Era muito estranho, mas era assim.

Divagando ainda sobre as dores fisicas do seu espirito; num tom de blague que raramente tomava, o poeta desfechou-me uma tarde, de subito:

--Tenho ás vezes tanta inveja das minhas pernas... Porque uma perna não sofre. Não tem alma, meu amigo, não tem alma!...

Largas horas, solitario, eu meditava nas singularidades do artista, a querer concluir alguma coisa. Mas o certo é que nunca soube descer uma psicologia, de maneira que chegava só a esta conclusão: êle era uma criatura superior--genial, perturbante. Hoje mesmo, volvidos longos ânos, é essa a minha unica certeza, e eis pelo que eu me limito a contar sem ordem--á medida que me vão recordando--os detalhes mais caracteristicos da sua psicologia, como meros documentos na minha justificação.

Factos, apenas factos--avisei logo de principio.

Compreendiam-se perfeitamente as nossas almas--tanto quanto duas almas se podem compreender, E, todavia, eramos duas criaturas muito diversas. Raros traços comuns entre os nossos caracteres. Mesmo, a bem dizer, só numa coisa iguais: no nosso amor por Paris.

--Paris! Paris!--exclamava o poeta--Porque o amo eu tanto? Não sei... Basta lembrar-me que existo na capital latina, para uma onda de orgulho, de jubilo e ascensão, se encapelar dentro de mim. É o unico ópio loiro para a minha dôr--Paris!

«Como eu amo as suas ruas, as suas praças, as suas avenidas! Ao recorda-las longe delas--em miragem nimbada, todas me surgem num resvalamento arqueado que me trespassa em luz. E o meu proprio corpo, que elas vararam, as acompanha no seu rodopio.

«De Paris, amo tudo com igual amor: os seus monumentos, os seus teatros, os seus boulevards, os seus jardins, as suas arvores... Tudo nele me é heraldico, me é liturgico.

«Ah, o que eu sofri um âno que passei longe da minha Cidade, sem esperanças de me tornar a envolver nela tão cedo... E a minha saudade foi então a mesma que se tem pelo corpo duma amante perdida...

«As ruas tristonhas da Lisboa do sul, descia-as ás tardes maguadas rezando o seu nome: O meu Paris... o meu Paris... E á noite, num grande leito deserto, antes de adormecer, eu recordava-o--sim, recordava-o--como se recorda a carne nua duma amante doirada!

«Quando depois regressei á capital assombrosa, a minha ansia foi logo de a percorrer em todas as avenidas, em todos os bairros, para melhor a entrelaçar comigo, para melhor a delirar... O meu Paris! o meu Paris!...

«Entretanto, Lucio, não creia que eu ame esta grande terra pelos seus boulevards, pelos seus cafés, pelas suas actrizes, pelos seus monumentos. Não! Não! Seria mesquinho. Amo-a por qualquer outra coisa: por uma aureola, talvez, que a envolve e a constitue em alma--mas que eu não vejo; que eu sinto, que eu realmente sinto, e lhe não sei explicar!...

«Só posso viver nos grandes meios. Quero tanto ao progresso, á civilisação, ao movimento citadino, á actividade febril contemporanea!... Porque, no fundo, eu amo muito a vida. Sou todo de incoerencias. Vivo desolado, abatido, parado de energia, e admiro a vida emtanto como nunca ninguem a admirou!

«Europa! Europa! Encapela-te dentro de mim, alastra-me da tua vibração, unge-me da minha época!...

«Lançar pontes! lançar pontes! silvar estradas ferreas! erguer torres de aço!...»

E o seu delirio prosseguia através imagens bizarras, destrambelhadas ideias:

--Sim! Sim! Todo eu sou uma incoerencia! O meu proprio corpo é uma incoerencia. Julga-me magro, corcovado? Sou-o; porêm muito menos do que pareço. Admirar-se-hia se me visse nu...

«Mas ha mais. Toda a gente me crê um homem misterioso. Pois eu não vivo, não tenho amantes ... desapareço ... ninguem sabe de mim... Engano! Engano! A minha vida é pelo contrario uma vida sem segredo. Ou melhor: o seu segredo consiste justamente em não o ter.

«E a minha vida, livre de estranhezas, é no emtanto uma vida bizarra--_mas duma bizarria ás avessas_. Com efeito a sua singularidade encerra-se, não em conter elementos que se não encontram nas vidas normais--mas sim em não conter nenhum dos elementos comuns a todas as vidas. Eis pelo que nunca me sucedeu coisa alguma. _Nem mesmo o que sucede a toda a gente_. Compreende-me?»

Eu compreendia sempre. E êle fazia-me essa justiça. Por isso as nossas conversas d'alma se prolongavam em geral até de manhã; passeando nas ruas desertas, sem sentirmos frio nem cansaço, numa intoxicação mutua e arruivada.

Em horas mais tranquilas, Ricardo punha-se-me a falar da suavidade da vida normal. E confessava-me:

--Ah, quantas vezes isolado em grupos de conhecidos banais, eu não invejei os meus camaradas... Lembro-me tanto de certo jantar no Leão d'Ouro ... numa noite chuvosa de dezembro... Acompanhavam-me dois actores e um dramaturgo. Sabe? O Roberto Dávila, o Carlos Mota, o Alvares Cezimbra... Eu diligenciara, num esforço, descer até êles. Por ultimo, consegui iludir-me. Fui feliz, instantes, creia... E o Carlos Mota, pedia a minha colaboração para uma das suas operetas... Carlos Mota, o autor da _Videirinha_, o grande sucesso da Trindade... Bons rapazes! bons rapazes... Ai, não ser como êles...

«Porque afinal essa sua vida--«a vida de todos os dias»--é a unica que eu amo. Simplesmente não a posso existir... E orgulho-me tanto de não a poder viver ... orgulho-me tanto de não ser feliz... Cá estamos: a maldita literatura...»

E, depois duma breve pausa:

--Noutros tempos, em Lisboa, um meu companheiro intimo, hoje já morto, alma ampla e intensa de artista requintado--admirava-se de me ver acamaradar com certas creaturas inferiores. É que _essas_ andavam na vida, e eu aprazia-me com elas numa ilusão. As minhas eternas incoerencias! Vocês, os verdadeiros artistas, as verdadeiras grandes almas--eu sei--nunca saem, nem pretendem sair, do vosso circulo de ouro--nunca lhes veem desejos de baixar á vida. É essa a vossa dignidade. E fazem bem. São muito mais felizes... Pois eu sofro duplamente, porque vivo no mesmo circulo dourado e, entretanto, sei-me agitar cá em baixo...

--Ao contrario, eis pelo que você é maior--comentava eu--Esses a quem se refere, se não ousam descer, é por adivinharem que, se se misturassem á existencia quotidiana, ela os absorveria, sossobrando o seu genio de envolta com a banalidade. São fracos. E esse pressentimento, instintivamente os salva. Emquanto que o meu amigo pode arriscar o seu genio por entre mediocres. É tão grande que nada o sujará.

--Quimera! Quimera--volvia o poeta--Sei lá o que sou... Em todo o caso, olhe que é lamentavel a banalidade dos _outros_... Como a «maioria» se contenta com poucas ansias, poucos desejos espirituais, pouca alma... Oh! é desolador!... Um drama de Jorge Ohnet, um romance de Bourget, uma opera de Verdi, uns versos de João de Deus ou um poema de Tomás Ribeiro--chegam bem para encher o seu ideal. Que digo? Isto mesmo são já requintes de almas superiores. As outras--as verdadeiramente normais--ora ... ora ... deixemo-nos de devaneios, contentam-se com as obscenidades lantejouladas de qualquer baixo-revisteiro sem gramatica...

«A _maioria_, meu caro, a _maioria_ ... os felizes... E daí, quem sabe se êles é que têm razão ... se tudo o mais será frioleira...

«Em suma ... em suma...»

Correram meses, seguindo sempre entre nós o mesmo afecto, a mesma camaradagem.

Uma tarde de Domingo--recordo-me tão bem--iamos em banalidade Avenida dos Campos Eliseos acima, misturados na multidão, quando a sua conversa resvalou para um campo, que até aí o poeta nunca atacara, positivamente:

--Ah! como se respira vida, vida intensa e sadia, nestes domingos de Paris, nestes maravilhosos Domingos!... É a vida simples, a _vida util_, que se escoa em nossa face. Horas que nos não pertencem--etereos sonhadores de beleza, roçados de Alem, ungidos de Vago... Orgulho! Orgulho! E emtanto como valera mais se fossemos da gente-media que nos rodeia. Teriamos, pelos menos no espirito, a suavidade e a paz. Assim temos só a luz. Mas a luz cega os olhos... Somos todos alcool, todos alcool!--_alcool que nos esvai em lume que nos arde_!

«E é pela agitação desta cidade imensa, por esta vida atual, quotidiana, que eu amo o meu Paris numa ternura loira. Sim! Sim! Digo bem, numa ternura--uma ternura ilimitada. Eu não sei ter afectos. Os meus amores foram sempre ternuras... Nunca poderia amar uma mulher pela alma--isto é: por ela propria. Só a adoraria pelos enternecimentos que a sua _gentileza_ me despertasse: pelos seus dedos trigueiros a apertarem os meus numa tarde de sol, pelo timbre subtil da sua voz, pelos seus rubores--e as suas gargalhadas ... as suas correrias...

«Para mim, o que pode haver de sensivel no amor, é uma saia branca a sacudir o ar, um laço de setim que mãos esguias ennastram, uma cintura que se verga, uma madeixa perdida que o vento desfez, uma canção ciciada em labios de ouro e de vinte anos, a flôr que a boca duma mulher trincou...

«Não, nem é sequer a formosura que me impressiona. É outra coisa mais vaga--imponderavel, translucida: _A gentileza_. Ai, e como eu a vou descobrir em tudo, em tudo--a gentileza... Daí, uma ansia estonteada, _uma ansia sexual_, de possuir vozes, gestos, sorrisos, aromas e côres!...

«... Lume doido! Lume doido!... Devastação! Devastação!...»

Mas logo, serenando:

--A boa gente que aí vai, meu querido amigo, nunca teve destas complicações. Vive. Nem pensa... Só eu não deixo de pensar... O meu mundo interior ampliou-se--volveu-se infinito, e hora a hora se excede! É horrivel. Ah! Lucio, Lucio! tenho medo--medo de sossobrar, de me extinguir no meu mundo interior, de desaparecer da vida, perdido nele...

«... E aí tem o assunto para uma das suas novelas: um homem que, á força de se concentrar, desaparecesse da vida--imigrado no seu mundo-interior...

«Não lhe digo eu? A maldita literatura...»

Sem motivos nenhuns, livre de todas as preocupações, sentia-me emtanto exquisitamente disposto, essa tarde. Um calafrio me arripiava toda a carne--o calafrio que sempre me varara nas horas culminantes da minha vida.

E Ricardo, de novo, apontando-me uma soberba _vitória_ que dois esplendidos cavalos negros tiravam:

--Ah! como eu me trocaria pela mulher linda que ali vai... Ser belo! ser belo! ... ir na vida fulvamente ... ser pagem na vida... Haverá triunfo mais alto?...

«A maior gloria da minha existencia não foi--ah! não julgue que foi--qualquer elogio sobre os meus poemas, sobre o meu genio. Não. Foi isto só; eu lhe conto:

«Uma tarde de abril, ha três anos, caminhava nos grandes boulevards, solitario como sempre. De subito, uma gargalhada soou perto de mim... Tocaram-me no ombro... Não dei atenção... Mas logo a seguir me puxaram por um braço, garotamente, com o cabo duma sombrinha... Voltei-me... Eram duas raparigas... duas raparigas gentis, risonhas... Áquela hora, duas costureiras--decerto--saídas dos ateliers da rua da Paz. Tinham embrulhos nas mãos...

«E uma delas, a mais audaciosa:

«--Sabe que é um lindo rapaz?

«Protestei... E fomos andando juntos, trocando palavras banais... (Acredite que meço muito bem todo o ridiculo desta confidencia).

«Á esquina do faubourg Poissonnière, despedi-me: devia-me encontrar com um amigo--garanti. Efectivamente, num desejo de perversidade, eu resolvera pôr termo á aventura. Talvez receoso de que, se ela se prolongasse, me desiludisse. Não sei...

«Separámo-nos...

«_Essa tarde foi a mais bela recordação da minha vida!_...

«Meu Deus! Meu Deus! Como em vez deste corpo dobrado, este rosto contorcido--eu quisera ser belo, esplendidamente belo! E nessa tarde, fui-o por instantes, acredito... É que vinha de escrever alguns dos meus melhores versos. Sentia-me orgulhoso, admiravel... E a tarde era asul, o boulevard ia lindissimo... Depois, tinha um chapeu petulante ... ondeava-se-me na testa uma madeixa juvenil...

«Ah! como vivi semanas, semanas, da pobre saudade ... que ternura infinita me desceu para essa rapariguinha que nunca mais encontrei--_que nunca mais poderia encontrar_ porque, na minha alegria envaidecida, nem sequer me lembrara de ver o seu rosto... Como lhe quero... Como lhe quero... Como a abençoo... Meu amor! meu amor!...»

E, numa transfiguração--todo aureolado pelo brilho intenso, melodioso, dos seus olhos portugueses--Ricardo de Loureiro erguia-se realmente belo, esse instante...

Aliás, ainda hoje ignoro se o meu amigo era ou não era formoso. Todo de incoerencias, tambem a sua fisionomia era uma incoerencia: Por vezes o seu rosto esguio, macerado--se o viamos de frente, parecia-nos radioso. Mas de perfil já não sucedia o mesmo... Contudo, nem sempre: o seu perfil, por vezes, tambem era agradavel ... sob certas luzes ... em certos espelhos...

Entretanto, o que mais o prejudicava, era sem duvida o seu corpo que êle despresava, deixando-o «cair de si», segundo a frase extravagante, mas muito propria, de Gervasio Vila-Nova.

Os retratos que existem hoje do poeta, mostram-no belissimo, numa aureola de genio. Simplesmente, não era essa a expressão do seu rosto. Sabendo tratar-se dum grande artista, os fotografos e os pintores ungiram-lhe a fronte duma expressão nimbada que lhe não pertencia. Convem desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens...

--Ah! meu querido Lucio--tornou ainda o poeta--como eu sinto a Victoria duma mulher admiravel, estiraçada sobre um leito de rendas, olhando a sua carne toda nua ... esplendida ... loira d'alcool! A carne feminina--que apoteose! Se eu fosse mulher, nunca me deixaria possuir pela carne dos homens--tristonha, sêca, amarela: sem brilho e sem luz... Sim! num entusiasmo espasmodico, sou todo admiração, todo ternura, pelas grandes debochadas que só emmaranham os corpos de marmore com outros iguais aos seus--femininos tambem; arruivados, sumptuosos... E lembra-me então um desejo perdido de ser mulher--ao menos, para isto: para que, num encantamento, podesse olhar as minhas pernas nuas, muito brancas, a escoarem-se, frias, sob um lençol de linho...

Emtanto, eu admirava-me do rumo que a conversa tomara. Com efeito, se a obra de Ricardo de Loureiro era cheia de sensualismo, de loucas perversidades--nas suas conversas nada disso surgia. Pelo contrario. Ás suas palavras nunca se misturava uma nota sensual--ou simplesmente amorosa--e detinham-no logo subitos pudores se, por acaso, de longe se referia a qualquer detalhe dessa natureza.

Quanto á vida sexual do meu amigo, ignorava-a por completo. Sob esse ponto de vista, Ricardo afigurava-se-me porêm uma criatura tranquila. Talvez me enganasse... Enganava-me com certeza. E a prova--ai, a prova!--tive-a essa noite pela mais estranha confissão--a mais perturbadora, a mais densa...

Eram sete e meia. Haviamos subido todos os Campos Eliseos e a Avenida do Bosque até á Porta Maillot. O artista decidiu que jantassemos no Pavilhão de Armenonville--ideia que eu aplaudi do melhor grado.

Tive sempre muito afecto ao celebre restaurante. Não sei... O seu scenario literario (porque o lemos em novelas), a grande sala de tapete vermelho e, ao fundo, a escadaria; as arvores romanticas que exteriormente o ensombram, o pequeno lago--tudo isso, naquela atmosfera de grande vida, me evocava por uma saudade longinqua, subtil, bruxoleante, a recordação astral de certa aventura amorosa que eu nunca vivera. Luar de outono, folhas sêcas, beijos e champanhe...

* * * * * * * *

Correu simples a nossa conversa durante a refeição. Foi só ao café que Ricardo principiou:

--Não pode imaginar, Lucio, como a sua intimidade me encanta, como eu bemdigo a hora em que nos encontrámos. Antes de o conhecer, não lidara senão com indiferentes--criaturas vulgares que nunca me compreenderam, muito pouco que fosse. Meus pais adoravam-me. Mas, por isso exactamente, ainda menos me compreendiam. Emquanto que o meu amigo é uma alma rasgada, ampla, que tem a lucidez necessaria para entrever a minha. É já muito. Desejaria que fosse mais; mas é já muito. Por isso hoje eu vou ter a coragem de confessar, pela primeira vez a alguem, a maior estranheza do meu espirito, a maior dôr da minha vida...

Deteve-se um instante e, de subito, em outro tom:

--É isto só:--disse--_não posso ser amigo de ninguem_... Não proteste... Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afectos--já lhe contei--apenas ternuras. A amizade maxima, para mim, traduzir-se-hia unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar ... de estreitar... Emfim: de possuir! Ora eu, só depois de satisfazer os meus desejos, posso realmente sentir aquilo que os provocou. A verdade, por consequencia, é que as minhas proprias ternuras, nunca as _senti_, apenas as _adivinhei_. Para as sentir, isto é, para ser amigo dalguem (visto que em mim a ternura equivale á amizade) forçoso me seria antes possuir, quem eu estimasse, ou mulher ou homem. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. _Logo eu só poderia ser amigo duma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo_.

«Ah! a minha dôr é enorme: Todos podem ter amizades, que são o amparo duma vida, a «razão» duma existencia inteira--amizades que nos dedicam; amizades que, sinceramente, nós retribuimos. Emquanto que eu, por mais que me esforce, nunca poderei retribuir nenhum afecto: _os afectos não se materialisam dentro de mim_! É como se me faltasse um sentido--se fosse cego, se fosse surdo. Para mim, cerrou-se um mundo d'alma. Ha qualquer coisa que eu vejo, e não posso abranger; qualquer coisa que eu palpo, e não posso sentir... Sou um desgraçado ... um grande desgraçado, acredite!

«Em certos momentos chego a ter nojo de mim. Escute. Isto é horrivel! Em face de todas as pessoas que eu sei que deveria estimar--_em face de todas as pessoas por quem adivinho ternuras_--assalta-me sempre um desejo violento de as morder na boca! Quantas vezes não retraí uma ansia de beijar os labios de minha mãi...

«Entretanto estes desejos materiais--ainda lhe não disse tudo--não julgue que os sinto na minha carne; _sinto-os na minha alma_. Só com a minha alma poderia matar as minhas ansias enternecidas. Só com a minha alma eu lograria possuir as criaturas que adivinho estimar--e assim satisfazer, isto é, _retribuir-sentindo_ as minhas amizades.

«Eis tudo...

«Não me diga nada ... não me diga nada!... Tenha dó de mim ... muita dó...»

Calei-me. Pelo meu cerebro ia um vendaval desfeito. Eu era alguem a cujos pés, sobre uma estrada lisa, cheia de sol e arvores, se cavasse de subito um abismo de fogo.

Mas, após instantes, muito naturalmente, o poeta exclamou:

--Bem... Já vai sendo tempo de nos irmos embora

E pediu a conta.

Tomámos um fiacre.

Pelo caminho, ao atravessarmos não sei que praça, chegaram-nos ao ouvido os sons dum violino de cego, estropiando uma linda ária. E Ricardo comentou:

--Ouve esta musica? É a expressão da minha vida: Uma partitura admiravel, estragada por um horrivel, por um infame executante...

III

No dia seguinte, de novo nos encontrámos, como sempre, mas não aludimos á estranha conversa da vespera. Nem no dia seguinte, nem nunca mais ... até ao desenlace da minha vida...

Entretanto, a perturbadora confidencia do artista não se me varrera da memoria. Pelo contrario--dia algum eu deixava de a relembrar, inquieto, quasi numa obsessão.

Sem incidentes notaveis--na mesma harmonia, no mesmo convivio d'alma--a nossa amizade foi prosseguindo, foi-se estreitando. Após dez meses, nos fins de 1896, embora o seu grande amor por Paris, Ricardo resolveu regressar a Portugal--a Lisboa, onde em realidade coisa alguma o devia chamar.

Estivemos um âno separados.

Durante ele, a nossa correspondencia foi nula: três cartas minhas; duas do poeta--quando muito.

Circunstancias materiais e as saudades do meu amigo, levaram-me a sair de Paris, definitivamente, por meu turno. E em dezembro de noventa e sete chegava a Lisboa.

Ricardo esperava-me na estação.

Mas como o seu aspecto fisico mudara nesse âno que estivéramos sem nos ver!

As suas feições bruscas haviam-se amenisado, assetinado--_feminilisado_, eis a verdade--e, detalhe que mais me impressionou, a côr dos seus cabelos esbatera-se tambem. Era mesmo talvez desta ultima alteração que provinha, fundamentalmente, a diferença que eu notava na fisionomia do meu amigo--_fisionomia que se tinha difundido_. Sim, porque fora esta a minha impressão total: os seus traços fisionomicos haviam-se dispersado--_eram hoje menores_.

E o tom da sua voz alterara-se identicamente, e os seus gestos: todo êle, emfim, se esbatera.

Eu sabia já, é claro, que o poeta se casara ha pouco, durante a minha ausencia. Ele escrevera-mo na sua primeira carta; mas sem juntar pormenores, muito brumosamente--_como se se tratasse duma irrealidade_. Pelo meu lado, respondera com vagos cumprimentos, sem pedir detalhes, sem estranhar muito o facto--tambem como se se tratasse duma irrealidade; de qualquer coisa que eu já soubesse, _que fosse um desenlace_.

Abraçámo-nos com efusão. O artista acompanhou-me ao hotel, ficando assente que nessa mesma tarde eu jantaria em sua casa.

De sua mulher, nem uma palavra... Lembro-me bem da minha perturbação quando, ao chegarmos ao meu hotel, reparei que ainda lhe não perguntara por ela. E essa perturbação foi tão forte, que ainda menos ousei balbuciar uma palavra a seu respeito, num enleio em verdade inexplicavel...

Mas, quando á noite me dirigia para o palacete que o meu amigo habitava numa das avenidas novas, recentemente abertas, eu--coisa exquisita--esquecera-me até já de que ele casara, de que ia conhecer agora a sua mulher...

Cheguei. Um criado estilisado conduziu-me a uma grande sala escura, pesada, _ainda que jorros de luz a iluminassem_: Ao entrar com efeito nessa sala resplandecente, eu tive a mesma sensação que sofremos se, vindos do sol, penetramos numa casa imersa em penumbra.

Fui pouco a pouco distinguindo os objectos... E, de subito, sem saber como, num rodopio nevoento, encontrei-me sentado em um sofá, conversando com o poeta e a sua companheira...

Sim. Ainda hoje me é impossivel dizer se, quando entrei no salão, já lá estava alguem, ou se foi só após instantes que os dois apareceram. Da mesma forma, nunca pude lembrar-me das primeiras palavras que troquei com Marta--era este o nome da esposa de Ricardo.

Emfim, eu entrara naquela sala tal como se, ao transpôr o seu limiar, tivesse _regressado_ a um mundo de sonhos.

Eis pelo que as minhas reminiscencias de toda essa noite são as mais tenues. Entretanto, durante ela, creio que nada de singular aconteceu. Jantou-se; conversou-se largamente, por certo...

Á meia-noite despedi-me.

Mal cheguei ao meu quarto, deitei-me, adormeci... E foi só então que me tornaram os sentidos. Efectivamente, ao adormecer, tive a sensação estonteada de acordar dum longo desmaio, regressando agora á vida... Não posso descrever melhor esta incoerencia, mas foi assim.