A confissão de Lucio,: Narrativa.

Part 2

Chapter 23,503 wordsPublic domain

Os cabelos fulvos tinha-os enrolado desordenadamente e entretecido de pedrarias que constelavam aquelas labaredas em raios de luz ultrapassada. Mordiam-se-lhe nos braços serpentes de esmeraldas. Nem uma joia sobre o decote profundo... A estatua inquietadora do desejo contorcido, do vicio platinado... E de toda a sua carne, em penumbra azul, emanava um aroma denso a crime.

Rapida, após momentos, ela se afastou de nós a receber outros convidados.

A sala enchera-se entretanto duma multidão bigarrada e exquisita. Eram extranhas mulheres quasi nuas nos seus trajes audaciosos de baile, e rostos suspeitos sobre as unisonas e negras vestes masculinas de cerimonia. Havia russos hirsutos e fulvos, escandinavos suavemente louros, meridionais densos, crespos--e um chinês, um indio. Emfim, condensava-se ali bem o Paris cosmopolita--rastaquouère e genial.

Até á meia noite, dançou-se e conversou-se. Nas galerias jogava-se infernalmente. Mas a essa hora foi anunciada a ceia; e todos passámos ao salão de jantar--outra maravilha.

Pouco antes chegara-se a nós a americana e, confidencialmente, nos dissera:

--Depois da ceia, é o espectaculo--o meu Triunfo! Quis condensar nêle as minhas ideias sobre a voluptuosidade-arte. Luzes, corpos, aromas, o fogo e a agua--tudo se reunirá numa orgia de carne espiritualisada em ouro!

* * * * * * * *

Ao entrarmos novamente na grande sala--por mim, confesso, tive medo ... recuei...

Todo o scenario mudara--era como se fosse outro o salão. Inundava-o um perfume denso, arripiante de extases; silvava-o uma brisa misteriosa, _uma brisa cinzenta com laivos amarelos_--não sei porquê, pareceu-me assim, bizarramente--aragem que nos fustigava a carne em novos arrepios. Emtanto, o mais grandioso, o mais alucinador, era a iluminação. Declaro-me impotente para a descrever. Apenas, num esforço, poderei esboçar aonde residia a sua singularidade, o seu quebranto:

Essa luz--evidentemente electrica--provinha duma infinidade de globos, de estranhos globos de varias côres, varios desenhos, de transparencias varias--mas, sobretudo, de ondas que projectores ocultos nas galerias, golfavam em esplendor. Ora essas torrentes luminosas, todas orientadas para o mesmo ponto quimerico do espaço, convergiam nele em um turbilhão--e, desse turbilhão meteorico, é que elas realmente, em ricochete enclavinhado, se projectavam sobre paredes e colunas, se espalhavam no ambiente da sala, apoteotisando-a.

De forma que a luz total era uma projecção da propria luz--em outra luz, seguramente, mas a verdade é que a maravilha que nos iluminava nos não parecia luz. Afigurava-se-nos qualquer outra coisa--um fluido novo. Não divago; descrevo apenas uma sensação real: essa luz, nós sentiamo-la mais do que a viamos. E não receio avançar muito afirmando que ela não impressionava a nossa vista, mas sim o nosso tacto. _Se de subito nos arrancassem os olhos, nem por isso nós a deixariamos de ver_. E depois--eis o mais bizarro, o mais esplendido--nós respiravamos o estranho fluido. Era certo, juntamente com o ar, com o perfume roxo do ar, sorviamos essa luz que, num extase iriado, numa vertigem de ascensão--se nos engolfava pelos pulmões, nos invadia o sangue, nos volvia todo o corpo sonoro. Sim, essa luz magica ressoava em nós, ampliando-nos os sentidos, alastrando-nos em vibratilidade, dimanando-nos, aturdindo-nos... Debaixo dela, toda a nossa carne era sensivel aos espasmos, aos aromas, ás melodias!...

E não foi só a nós, requintados d'ultra-civilisação e arte, que o misterio rutilante fustigou. Pois em breve todos os espectadores evidenceavam, em rostos confundidos e gestos ansiosos, que um ruivo sortilegio os varara sob essa luz d'alem-Inferno, sob essa luz _sexualisada_.

Mas de subito toda a iluminação se transformou divergindo num resvalamento arqueado; e outro fremito mais brando nos diluiu então, como beijos de esmeraldas sucedendo a mordeduras.

Uma musica penetrante tilintava nessa nova aurora, em ritmos desconhecidos--esguia melopeia em que sossobravam gomos de cristal entrechocando-se, onde palmas de espadas refrescavam o ar esbatidamente, onde listas humidas de sons se vaporisavam subtis...

Emfim: prestes a esvairmo-nos num espasmo derradeiro d'alma--tinham-nos sustido para nos alastrarem o prazer.

E, ao fundo, o pâno do teatro descerrou-se sobre um scenario aureoral... Extinguiu-se a luz perturbadora, e jorros de electricidade branca nos iluminaram apenas.

No palco surgiram três dançarinas. Vinham de tranças soltas--blusas vermelhas lhes encerravam os troncos, deixando-lhes os seios livres, oscilantes. Ténues gases rasgadas lhes pendiam das cinturas. Nos ventres, entre as blusas e as gases, havia um intervalo--um cinto de carne nua onde se desenhavam flores simbolicas.

As bailadeiras começaram as suas danças. Tinham as pernas nuas. Volteavam, saltavam, reuniam-se num grupo, embaralhavam os seus membros, mordiam-se nas bôcas...

Os cabelos da primeira eram pretos, e a sua carne esplendida de sol. As pernas, talhadas em aurora loira, esgueiravam-se-lhe em luz radiosa a nimbar-se, junto do sexo, numa carne mordorada que apetecia trincar. Mas o que as fazia mais excitantes era a saudade limpida que lembravam dum grande lago azul de agua cristalina aonde, uma noite de luar, elas se mergulhassem descalças e amorosas.

A segunda bailadeira tinha o tipo caracteristico da adolescente pervertida. Magra--porêm de seios bem visiveis--cabelos dum louro sujo, cara provocante, nariz arrebitado. As suas pernas despertavam desejos brutais de as morder, escalavradas de musculos, de durezas--masculinamente.

Emfim, a terceira, a mais perturbadora, era uma rapariga frigida, muito branca e macerada, esguia, evocando misticismos, doença, nas suas pernas de morte--devastadas.

Emtanto o baile prosseguia. Pouco a pouco os seus movimentos se tornavam mais rapidos até que por ultimo, num espasmo, as suas bocas se uniram e, rasgados todos os veus--seios, ventres e sexos descobertos--os corpos se lhes emmaranharam, agonisando num arqueamento de vicio.

E o pâno cerrou-se na mesma placidez luminosa...

Houve depois outros quadros admiraveis: Dançarinas nuas perseguindo-se na piscina, a mimarem a atracção sexual da agua, estranhas bailadeiras que esparziam aromas que mais entenebreciam, em quebranto, a atmosfera fantastica da sala, apoteoses de corpos nus, amontoados--visões luxuriosas de cores intensas, rodopiantes de espasmos, sinfonias de sedas e veludos que sobre corpos nus volteavam...

Mas todas estas maravilhas--incriveis de perversidade, era certo--nos não excitavam fisicamente em desejos lubricos e bestiais; antes numa ansia d'alma, esbraseada e, ao mesmo tempo, suave: extraordinaria, deliciosa.

_Escoava-se por nós uma impressão de excesso._

Emtanto os delirios que as almas nos fremiam, não os provocavam unicamente as visões lascivas. De maneira alguma. O que oscilavamos, provinha-nos duma sensação-total identica á que experimentâmos ouvindo uma partitura sublime executada por uma orquestra de mestres. E os quadros sensuais valiam apenas como um instrumento dessa orquestra. Os outros: as luzes, os perfumes, as cores... Sim, todos esses elementos se fundiam num conjunto admiravel que, ampliando-a, nos penetrava a alma, e que só a nossa alma sentia em febre de longe, em vibração de abismos. Eramos todos alma. _Desciam-nos só da alma os nossos desejos carnais_.

Porêm nada valeu em face da ultima visão:

Raiaram mais densas as luzes, mais agudas e penetrantes, caindo agora, em jorros, do alto da cupula--e o pâno rasgou-se sobre um vago templo asiatico... Ao som duma musica pesada, rouca, longinqua--ela surgiu, a mulher fulva...

E começou dançando...

Envolvia-a uma tunica branca, listada de amarelo. Cabelos soltos, loucamente. Joias fantasticas nas mãos; e os pés descalços, constelados...

Ai, como exprimir os seus passos silenciosos, humidos, frios de cristal; o marulhar da sua carne ondeando; o alcool dos seus labios que, num requinte, ela dourara--toda a harmonia esvaecida nos seus gestos; todo o horizonte difuso que o seu rodopiar suscitava, nevoadamente...

Entretanto, ao fundo, numa ara misteriosa, o fogo ateara-se...

Vicio a vicio a tunica lhe ia resvalando, até que, num extase abafado, sossobrou a seus pés... Ah! nesse momento, em face á maravilha que nos varou, ninguém pôde conter um grito de assombro...

Quimerico e nu, o seu corpo subtilisado, erguia-se liturgico entre mil scintilações irreais. Como os labios, os bicos dos seios e o sexo estavam dourados--num ouro palido, doentio. E toda ela serpenteava em misticismos escarlates a querer-se dar ao fogo...

Mas o fogo repelia-a...

Então, numa ultima perversidade, de novo tomou os veus e se ocultou, deixando apenas nu o sexo aureo--terrivel flôr de carne a estrebuchar agonias magentas...

Vencedora, tudo foi lume sobre ela...

E, outra vez desvendada--esbraseada e feroz, saltava agora por entre labaredas, rasgando-as: emmaranhando, _possuindo_, todo o fogo bebado que a cingia.

Mas finalmente, saciada após estranhas epilepsias, num salto prodigioso, como um meteoro--ruivo meteoro--ela veio tombar no lago que mil lampadas ocultas esbatiam de asul cendrado.

Então foi a apoteose:

Toda a agua asul, ao recebe-la, se volveu vermelha de brasas, encapelada, ardida pela sua carne que o fogo penetrara... E numa ansia de se extinguir, possessa, a fera nua mergulhou... Mas quanto mais se abismava, mais era lume ao seu redór...

... Até que por fim, num misterio, o fogo se apagou em oiro e, morto, o seu corpo flutuou heraldico sobre as aguas douradas--tranquilas, mortas tambem...

* * * * * * * *

A luz normal regressara. Era tempo. Mulheres debatiam-se em ataques de histerismo; homens, de rostos congestionados, tinham gestos incoerentes...

As portas abriram-se e nós mesmos, perdidos, sem chapeus--encontrámo-nos na rua, afogueados, perplexos... O ar fresco da noite, vergastando-nos, fez-nos despertar; e como se chegassemos dum sonho que os três houvessemos sonhado--olhamo-nos inquietos, num espanto mudo.

Sim, a impressão fôra tão forte, a maravilha tão alucinadora, que não tivemos animo para dizer uma palavra.

Esmagados, aturdidos, cada um de nós voltou para sua casa...

Na tarde seguinte--ao acordar dum sono de onze horas--eu não acreditava já na estranha orgia: _A Orgia do Fogo_, como Ricardo lhe chamou depois.

Saí. Jantei.

Quando entrava no Café Riche, alguem me bateu no ombro:

--Então como passa o meu amigo? Vamos, as suas impressões?...

Era Ricardo de Loureiro.

Falámos largamente àcerca das extraordinarias coisas que presencearamos. E o poeta concluiu que tudo aquilo, mais lhe parecia hoje uma visão de onanista genial do que a simples realidade.

Quanto á americana fulva, não a tornei a ver. O proprio Gervasio deixou de falar nela. E, como se se tratasse dum misterio d'Alem a que valesse melhor não aludir--nunca mais nos referimos á noite admiravel.

Se a sua lembrança me ficou para sempre gravada, não foi por a ter vivido--mas sim porque, dessa noite, se originava a minha amizade com Ricardo de Loureiro.

Assim sucede com efeito. Referimos certos acontecimentos da nossa vida a outros mais fundamentais--e muitas vezes, em torno dum beijo, circula todo um mundo, toda uma humanidade.

De resto, no caso presente, que podia valer a noite fantastica em face do nosso encontro--_desse encontro que marcou o principio da minha vida_?

Ah! sem duvida amizade predestinada aquela que começava num scenario tão estranho, tão perturbador, tão dourado...

II

Decorrido um mês, eu e Ricardo eramos não só dois companheiros inseparaveis, como tambem dois amigos intimos, sinceros, entre os quais não havia mal-entendidos, nem quasi já segredos.

O meu convivio com Gervasio Vila-Nova cessara por completo. Mesmo, passado pouco, êle regressou a Portugal.

Ah! como era bem diferente, bem mais expontanea, mais cariciosa, a intimidade com o meu novo amigo! E como estavamos longe do Gervasio Vila-Nova que, a propoposito de coisa alguma, fazia declarações como esta:

--Sabe você, Lucio, não imagina a pena que eu tenho de que não gostem das minhas obras. (As suas obras eram esculturas sem pés nem cabeça--pois êle só esculpia torsos contorcidos, enclavinhados, monstruosos, onde porêm, de quando em quando, por alguns detalhes, se adivinhava um cinzel admiravel). Mas não pense que é por mim. Eu estou certo do que elas valem. É por _êles_, coitados, que não podem sentir a sua beleza.

Ou então:

--Creia, meu querido amigo, você faz muito mal em colaborar nessas revistecas lá de baixo ... em se apressar tanto a imprimir os seus volumes. O verdadeiro artista deve guardar quanto mais possivel o seu inédito. Vêja se eu já expús alguma vez... Só compreendo que se publique um livro numa tiragem reduzida; e a 100 francos o exemplar, como fez o ... (e citava o nome do russo chefe dos selvagens). Ah! eu abomino a publicidade!...

As minhas conversas com Ricardo--pormenor interessante--foram logo desde o inicio, bem mais conversas de alma, do que simples conversas de intelectuais.

Pela primeira vez eu encontrara efectivamente alguem que sabia descer um pouco aos recantos ignorados do meu espirito--os mais sensiveis, os mais dolorosos para mim. E com êle o mesmo acontecera--havia de mo contar mais tarde.

Não eramos felizes--oh! não... As nossas vidas passavam torturadas de ansias, de incompreensões, de agonias de sombra...

Subiramos mais alto; pairavamos sobre a vida. Podiamo-nos embriagar de orgulho, se quiséssemos--mas sofriamos tanto ... tanto... O nosso unico refugio era nas nossas obras.

Pintando-me a sua angustia, Ricardo de Loureiro fazia perturbadoras confidencias, tinha imagens estranhas:

--Ah! meu caro Lucio, acredite-me! Nada me encanta já; tudo me aborrece, me nausêa. Os meus proprios raros entusiasmos, se me lembro dêles, logo se me esvaem--pois, ao medi-los, encontro-os tão mesquinhos, tão de pacotilha... Quer saber? Outróra, á noite, no meu leito, antes de dormir, eu punha-me a divagar. E era feliz por momentos, entre-sonhando a gloria, o amor, os extases... Mas hoje já não sei com que sonhos me robustecer. Acastelei os maiores ... êles proprios me fartaram: são sempre os mesmos--e é impossivel achar outros... Depois, não me saciam apenas as coisas que possuo--aborrecem-me tambem as que não tenho, porque, na vida como nos sonhos, são sempre as mesmas. De resto, se ás vezes posso sofrer por não possuir certas coisas que ainda não conheço inteiramente, a verdade é que, descendo-me melhor, logo averiguo isto: Meu Deus, se as tivera, ainda maior seria a minha dôr, o meu tedio... De forma que _gastar tempo_ é hoje o unico fim da minha existencia deserta. Se viajo, se escrevo--se vivo, numa palavra, creia-me: é só para consumir instantes. Mas dentro em pouco--já o pressinto--isto mesmo me saciará. E que fazer então? Não sei ... não sei... Ah! que amargura infinita...

Eu punha-me a anima-lo; a dizer-lhe inferiormente que urgia pôr de parte essas ideias abatidas. Um belo futuro se alastrava em sua face. Era preciso ter coragem!

--Um belo futuro?... Olhe, meu amigo, até hoje ainda me não vi no meu futuro. E as coisas em que me não _vejo_, nunca me sucederam.

Perante tal resposta, esbocei uma interrogação muda, a que o poeta volveu:

--Ah! sim, talvez não compreendesse... Ainda lhe não expliquei. Oiça: Desde criança que, pensando em certas situações possiveis numa existencia, eu, antecipadamente, me vejo ou não vejo nelas. Por exemplo: uma coisa onde nunca me vi, foi na vida--e diga-me se na realidade nos encontramos nela? Mas descendo a pequenos detalhes:

«A minha imaginação infantil sonhava, romanescamente construia, mil aventuras amorosas, que aliás todos vivem. Pois bem: nunca me vi ao fantasia-las, como existindo-as mais tarde. E até hoje eu sou aquele que em nenhum desses episodios gentis se encontrou. Não porque lhes fugisse... Nunca fugi de coisa alguma.

«Entretanto, na minha vida, houve certa situação exquisita, mesmo um pouco torpe. Ora eu lembrava-me muita vez de que essa triste aventura havia de ter um fim. E sabia dum muito natural. _Nesse_, contudo, nunca eu me figurava. Mas noutro qualquer. _Outro qualquer_, porêm, só podia dar-se por meu intermedio. E por meu intermedio--era bem claro--não se podia, _não se devia_ dar. Passou-se tempo... Escuso de lhe dizer que foi justamente a «impossibilidade» que se realisou...

«Era um estudante distinto, e nunca me antevisionava com o meu curso concluido. Efectivamente um belo dia, de subito, sem razão, deixei a universidade... Fugi para Paris...

«Dentro da vida pratica tambem nunca me figurei. Até hoje, aos vinte e sete ânos, não consegui ainda ganhar dinheiro pelo meu trabalho. Felizmente não preciso... E nem mesmo cheguei a entrar nunca na vida, na simples Vida com V grande--na vida social, se prefere. É curioso: sou um isolado que conhece meio mundo, um desclassificado que não tem uma divida, uma nodoa--que todos consideram, e que entretanto em parte alguma é admitido... Está certo. Com efeito, nunca me _vi_ «admitido» em parte alguma. Nos proprios meios onde me tenho embrenhado, não sei porquê senti-me sempre um estranho...

«E é terrivel; martirisa-me por vezes este meu condão. Assim se eu não _vejo_ erguida certa obra cujo plano me entusiasma, é seguro que a não consigo lançar, e que depressa me desencanto da sua ideia--embora, no fundo, a considere admiravel.

«Emfim, para me entender melhor: esta sensação é semelhante, ainda que de sentido contrario, a uma outra em que provavelmente ouviu falar--que talvez mesmo conheça--a do _já-visto_. Nunca lhe sucedeu ter visitado pela primeira vez uma terra, um scenario, e--numa reminiscencia longingua, vaga, perturbadora--chegar-lhe a lembrança de que, _não sabe quando nem aonde_, já esteve naquela terra, já contemplou aquele scenario?...

«É possivel que o meu amigo não atinja o que ha de comum entre estas duas ideias. Não lhe sei explicar--contudo pressinto, tenho a certeza, que essa relação existe».

Respondi divagando, e o poeta acrescentou:

--Mas ainda lhe não disse o mais estranho. Sabe? É que de maneira alguma me concebo na minha velhice, bem como de nenhuma forma me vejo doente, agonisante. Nem sequer suicidado--segundo ás vezes me procuro iludir. E creia, _é tão grande a minha confiança nesta superstição que--juro-lhe--se não fosse haver a certeza absoluta de que todos morremos, eu, não me «vendo» morto, não acreditaria na minha morte_...

Sorri da boutade.

Vagos conhecidos entravam no Café onde tinhamos abancado. Sentaram-se junto de nós e, banal e facil, a conversa deslisou noutro plano.

Outras vezes tambem, Ricardo surgia-me com revelações estramboticas que lembravam um pouco os snobismos de Vila-Nova. Porêm nele, eu sabia que tudo isso era verdadeiro, sentido. Quando muito, _sentido já como literatura_. Efectivamente o poeta explicara-me, uma noite:

--Garanto-lhe, meu amigo, todas as ideias que lhe surjam nas minhas obras, por mais bizarras, mais impossiveis--são, pelo menos em parte, sinceras. Isto é: traduzem emoções que na realidade senti; pensamentos que na realidade me ocorreram sobre quaisquer detalhes da minha psicologia. Apenas o que pode suceder é que, quando elas nascem, já venham literatisadas...

Mas voltando ás suas revelações estramboticas:

Como gostassemos, em muitas horas, de nos embrenhar pela vida normal e de nos esquecer a nós proprios--frequentavamos bastante os teatros e os music-halls, numa ansia tambem de sermos agitados por esses meios intensamente contemporaneos, europeus e luxuosos.

Assim uma vez, no Olympia, assistiamos a umas danças de _girls_ inglesas misturadas numa revista, quando Ricardo me perguntou:

--Diga-me, Lucio, você não é sujeito a certos medos inexplicaveis, destrambelhados?

Que não, só se muito vagamente--volvi.

--Pois comigo--tornou o artista--não acontece o mesmo. Emfim, quer saber? Tenho medo destas dançarinas.

Soltei uma gargalhada.

Ricardo prosseguiu:

--É que, não sei se reparou, em todos os music-halls tornaram-se agora moda estes bailados por ranchos de raparigas inglesas. Ora essas criaturinhas são todas iguais, sempre--vestidas dos mesmos fatos, com as mesmas pernas nuas, as mesmas feições tenues, o mesmo ar gentil. De maneira que eu em vão me esforço por considerar cada uma delas como uma individualidade. Não lhes sei atribuir uma vida--um amante, um passado; certos habitos, certas maneiras de ser. Não as posso destrinçar do seu conjunto: daí, o meu pavor. Não estou pôsando, meu amigo, asseguro-lhe.

«Mas não são estes só os meus medos. Tenho muitos outros. Por exemplo: o horror dos arcos--de alguns arcos triunfais e, sobretudo, de alguns velhos arcos de ruas. Não propriamente dos arcos--antes do espaço aereo que eles enquadram. E lembro-me de haver experimentado uma sensação misteriosa de pavor, ao descobrir no fim duma rua solitaria de não sei que capital, um pequeno arco ou, melhor, uma porta aberta sobre o infinito. Digo bem--sobre o infinito. Com efeito a rua subia e para lá do monumento começava, sem duvida, a descer. De modo que, de longe, só se via horizonte através desse arco. Confesso-lhe que me detive alguns minutos olhando-o fascinado. Assaltou-me um forte desejo de subir a rua até ao fim e averiguar para aonde ele deitava. Mas a coragem faltou-me... Fugi apavorado. E veja, a sensação foi tão violenta, que nem sei já em que triste cidade a oscilei...

«Quando era pequeno--ora, ainda hoje!--apavoravam-me as ogivas das catedrais, as abobadas, as sombras de altas colunas, os obeliscos, as grandes escadarias de marmore... De resto, toda a minha vida psicologica tem sido até agora a projecção dos meus pensamentos infantis--ampliados, modificados, mas sempre no mesmo sentido, na mesma ordem: apenas em outros planos.

«E por ultimo, ainda a respeito de medos: Assim como me assustam alguns espaços vazios emmoldurados por arcos--tambem me inquieta o ceu das ruas, estreitas e de predios altos, que de subito se partem em curvas apertadas.»

O seu espirito estava seguramente predisposto para a bizarria, essa noite, pois ainda me fez estas exquisitas declarações á saída do teatro:

--Meu caro Lucio, vai ficar muito admirado, mas garanto-lhe que não foi tempo perdido o que passei ouvindo essa revista chocha. Achei a razão fundamental do meu sofrimento. Você recorda-se duma capoeira de galinhas que apareceu em scena? As pobres aves queriam dormir. Metiam os bicos debaixo das asas, mas logo acordavam assustadas pelos jorros dos projectores que iluminavam as «estrelas», pelos saltos do compadre... _Pois como esses pobres bichos, tambem a minha alma anda estremunhada_--descobri em frente dêles. Sim, a minha alma quer dormir e, minuto a minuto, a veem despertar jorros de luz, estrepitosas vozearias: grandes ansias, ideias abrasadas, tumultos de aspirações--aureos sonhos, cinzentas realidades... Sofreria menos se ela nunca pudesse adormecer. Com efeito, o que mais me exacerba esta tortura infernal é que, em verdade, a minha alma chega muitas vezes a pegar no sono, _a fechar os olhos_--perdôe a frase estrambotica. Mal os cerra, porêm, logo a zurzem--e de novo acorda perdida numa agonia estonteada...

Mais tarde, relembrando-me esta constatação, ajuntara: