Yayá Garcia

Part 7

Chapter 73,861 wordsPublic domain

--Seu pae foi amigo de meu pae, disse elle; eu fui amigo de sua familia; devo-lhe obsequios apreciaveis. Se eu morrer, minha mulher e minha filha ficam amparadas da fortuna, por que o dote de uma servirá para ambas, que se estimam muito; mas ficam sem mim. É verdade que meu sogro, mas... mas, meu sogro tem outras occupações, está velho, pode faltar-lhes de repente. Quizera pedir-lhe que as protegesse e guiasse; que fosse um como tutor moral das duas. Não é que lhes falte juizo; mas duas senhoras sósinhas precisam de conselhos... e eu... desculpe-me se sou indiscreto. Promette?

Jorge prometteu tudo, com o fim de o tranquillisar, porque Luiz Garcia parecia excessivamente afflicto com a ideia daquella eterna separação. O pedido affigurou-se-lhe singular; attribuiu-o á exaltação febril do doente. Soube depois que a vida de Luiz Garcia dependia da primeira crise que fizesse a enfermidade, segundo havia declarado o medico.

Eram quasi quatro horas quando Jorge de lá saiu. Voltou ás nove e achou o medico. A crise era esperada na tarde desse dia, e só então se poderia dizer se a vida do enfermo estava perdida ou salva. Foi o que o medico lhe repetiu, á porta do jardim, aonde Jorge o foi acompanhar.

--Não obstante, concluiu o medico, elle tem outra doença que o deve matar dentro de alguns mezes, um anno ou anno e meio.

--Coração?

--Justamente.

Este noticia impressionou o moço.--Não será illusão da medicina? perguntou elle. O medico abanou a cabeça, e saiu. Jorge encaminhou-se para casa, mas teria dado apenas tres passos, quando viu Estella que vinha ao seu encontro. A moça parou deante delle.

--Que lhe disse o medico? perguntou.

--Tem esperanças; logo de tarde poderá affiançar mais alguma cousa.

--Só isso?

--Só.

--Não o desenganou?

--Não.

Estella reflectiu um instante.

--Dê-me sua palavra, disse ella.

Jorge estendeu-lhe a mão, sobre a qual Estella deixou cair a sua, não menos fria que pallida.

--Sou amigo de seu marido, disse Jorge depois de alguns instantes; creia que elle pode contar com toda a minha dedicação.

Estella pareceu accordar do momentaneo torpor; attentou no moço, retirou a mão e respondeu com um simples gesto de assentimento. A alma subjugada tornara á natural attitude. Jorge viu-a entrar em casa e ficou só alguns minutos, a recordar a revelação do medico, e a sentir que, ao pé da tristeza que o pungia, havia alguma cousa semelhante a um sentimento egoista e cruel.

Entre a esperança e receio gotejaram algumas horas longas, até que a crise veiu e passou, sem levar comsigo a vida ameaçada. Na manhã seguinte a alegria foi tamanha em redor do enfermo, que elle viu claramente o perigo e a salvação. Nem a filha nem a mulher pareciam alquebradas do trabalho e da vigilia; estavam frescas, risonhas, ageis, partindo entre si o pio da alegria, como haviam partido irmãmente o pão da angustia.

Durante a molestia e a convalescencia, Jorge visitou-os uma vez por dia; e força é dizer que, se por um instante houve em seu coração um impulso egoista, tal impulso não se lhe repetiu depois; serviu ao doente com desinteresse e lealdade. A familia deste mostrou-se-lhe agradecida. Luiz Garcia recordou ao moço o pedido que lhe fizera na noite em que o mandara chamar, e recordou-lh'o, não só para lhe agradecer a acquiescencia como para explical-o. Mas a explicação era difficil, porque elle cedera principalmente á aversão que lhe inspirava o sogro, em quem não tinha a minima confiança; não obstante as meias palavras de que usou, Jorge entendeu tudo.

A frequencia trouxe a necessidade. Levado pelas circumstancias, Jorge acostumou-se ás visitas, e amiudou-as. No mez de Septembro, a pretexto de calor, que ainda não fazia, transferiu a residencia para a casa que tinha em Santa Thereza, e que não ficava a longa distancia da de Luiz Garcia. Não havia que reparar no caso; sua mãe tinha o costume de passar alli tres a quatro mezes no anno. Demais nas ultimas semanas, elle começara a fazer-se menos visto e menos frequentado. Podia facilmente passar a outra vida mais reclusa.

Entretanto, como essa mudança antecipada para Santa Thereza podia não ter em si mesma toda a explicação razoavel, Jorge buscou enganar-se a si proprio reunindo os elementos e lançando ao papel as primeiras linhas de um trabalho, que jamais devia acabar, mas que, em todo caso legitimava a necessidade de repouso. Nos intervallos deste é que visitava a casa de Luiz Garcia, uma ou duas vezes por semana. Aos domingos, tinha sempre a jantar o Sr. Antunes, com quem jogava uma partida de bilhar. Tentou ensinar-lhe o xadrez, mas desanimou ao fim de cinco licções.

--Ah! mas nem todos têm o seu talento! exclamou triumphalmente o pae de Estella.

Luiz Garcia jogava o xadrez. Era o recreio usual entre elle e Jorge; outras vezes saiam a passeio até curta distancia. Luiz Garcia acceitava de boa sombra essas distracções, que não eram turbulentas nem cançativas, mas brandas e pausadas, como elle. Demais nem sempre eram distracções sem fructo. Jorge apreciava agora melhor as conversações que não eram puros nadas, e os dous trocavam ideias e observações. Luiz Garcia era homem de escassa cultura, sobretudo irregular; mas tinha os dons naturaes e a longa solidão dera-lhe o habito de reflectir. Tambem elle ia á casa de Jorge, cujos livros lia de emprestimo. Era tarde; já não estava moço; faltava-lhe tempo e sobrava-lhe fome; atirou-se soffrego, sem grande methodo nem escrupulosa eleição; tinha vontade de colher a flor ao menos de cada cousa. E por que era leitor de boa casta, dos que casam a reflexão á impressão, quando acabava a leitura, recompunha o livro, incrustava-o por assim dizer, no cerebro; embora sem rigoroso methodo, essa leitura rectificou-lhe algumas ideias e lhe completou outras, que só tinha por intuição.

A necessidade intellectual de Luiz Garcia contribuiu assim para tornar mais intima a convivencia, unica excepção na vida reclusa que elle continuava a ter, ainda depois de casado. Jorge pela sua parte não desmentia até alli o bom conceito que o outro formava de suas qualidades; e a familia viu lentamente estabelecer-se a intimidade e a estima entre os dous homens. Uma noite, saindo Jorge da casa de Luiz Garcia, este e a mulher ficaram no jardim algum tempo. Luiz Garcia disse algumas palavras a respeito do filho de Valeria.

--Pode ser que eu me engane, concluiu o sceptico; mas persuado-me que é um bom rapaz.

Estella não respondeu nada; cravou os olhos n'uma nuvem negra, que manchava a brancura do luar. Mas Yayá que chegara alguns momentos antes, ergueu os hombros com um movimento nervoso.

Pode ser, disse ella; mas eu acho-o insupportavel.

IX

A nova ordem de cousas perturbou profundamente o animo de Estella. O procedimento de Jorge, por occasião da molestia do marido não lhe pareceu esconder nenhuma intenção particular; mas durante a convalescença, e sobretudo depois della, afigurou-se-lhe que a ideia do moço era insinuar-se na familia. Para que? Estella suppunha que o amor de Jorge, ao fim de tão longo periodo, estaria acabado de todo, como producto da primeira estação. Não lhe negou um pouco de gratidão, quando viu os obsequios que prestara ao marido enfermo, com tanta solicitude, discrição e dignidade. Agora, porém, ao ver a frequencia e a convivencia, suppoz alguma cousa mais do que a simples affeição tradiccional. Que encanto podia offerecer a casa de uma familia retirada e obscura a um homem creado em mais apparente plana social? Seu meio era outro; tendencias de espirito ou ambições de futuro o deviam levar a outra esphera. Esta consideração lhe pareceu decisiva. Concluiu que a paixão, vencida ou comprimida, soltava outra vez o brado da revolta; e se assim era, Jorge devia estar peor que em 1866, porque então os sentimentos rompiam com violencia e sinceridade, ao passo que agora o seu principal aspecto era a dissimulação. O amor, se amor havia, trazia já os olhos abertos e dispunha da razão; de estouvado, tornava-se cautelloso e subtil.

--Que ideia faz elle de mim? perguntou Estella a si mesma.

Quando esta palavra lhe soou no espirito, Estella sentiu-se diminuida e humilhada aos olhos de Jorge. Cumpria pôr termo a uma vida de reticencias e dubiedade. Estella cogitou no meio de fazer cessar a intimidade dos dous homens; quando menos, a frequencia de Jorge naquella casa. Pensou em pedil-o directamente a Jorge; mas rejeitou desde logo a ideia, aliás incompativel com sua indole; depois, pensou em dizer tudo ao marido.

Uma noite, na primeira semana de Novembro, Estella assentou definitivamente revelar ao marido a unica pagina de seu passado. Estava sósinha, no jardim, e vira desmaiar o crepusculo da tarde--uma tarde cinzenta e amortecida. De quando em quando o espirito volvia ao passado, e toda ella estremecia com uma sensação extranha, mysteriosa e insupportavel. A noite caiu de todo, e a alma de Estella mergulharia tambem na vaga e perfida escuridão do futuro, se a rude voz do escravo não a viesse acordar.

--Nhanhã está apanhando sereno, disse Raymundo.

Estella ergueu-se e foi dalli ao gabinete do marido. Luiz Garcia trabalhava, á claridade de um lampeão, que toda convergia para elle e os papeis que tinha deante de si, graças ao effeito de um _abat-jour_. O resto do aposento ficava na meia obscuridade.

--Que é? perguntou Luiz Garcia sem levantar a cabeça.

Estella parou do outro lado da secretaria; Luiz Garcia ergueu então a cabeça e olhou para ella, sem lhe poder ver o transtorno das feições.

--Que é? repetiu.

Vendo-o entregue ao trabalho, por amor della e da filha, Estella hesitou; pareceu-lhe crueldade dar-lhe, em troca da protecção e do affecto, um desengano e uma afflicção. Hesitou um instante, e passou da hesitação á renuncia. Conteve-se e saiu. Escolheu o silencio.

Mas o silencio só por si não melhorava nada; tarde ou cedo, o marido viria a ler em seu rosto o constrangimento, em relação a Jorge, constrangimento inexplicavel, que elle podia interpretar contra ella. Foi então que a serpente lhe ensinou a dissimulação. A necessidade deu-lhe a intuição machiavelica; isto é, a occasião não consentia um rosto franco, sinceramente hostil, mas um ar ameno, uma cordialidade de superficie, friamente cortez, mas cortez. Desse modo, salvava-se a paz domestica, e era o essencial. Ao mesmo tempo mostraria a destemidez de seu coração, capaz de affrontar todo o artificio do outro.

Com o tempo, verificou Estella que o procedimento de Jorge, se alguma intenção escondia, não a deixava sequer suspeitar; não lhe parecia já dissimulação, mas abstenção. Elle proprio a evitava; fugia ás conversas longas, sobretudo ás conversas solitarias. Era respeitoso e frio.

Com effeito, Jorge não havia cedido a nenhum plano preconcebido; ia á feição do tempo; mettia-se por um atalho, sem saber se iria dar á estrada recta ou a um abysmo. Nenhuma preoccupação lhe ensombrava a fronte risonha e placida. Dir-se-hia que, após longa e trabalhosa jornada, vingara o cume das delicias humanas.

A verdade é que o amor de Jorge tinha como que despido a qualidade de sentimento para constituir-se ideia fixa. Nascido de uma primeira explosão de juventude, curtiu alguns annos de ausencia. A ausencia disciplinou os primeiros ardores, quebrou os impetos, afrouxou o alento; o amor atou aos hombros as azas de um mysticismo quieto. Não parou nessa evolução. Do coração em que pousava tomou impulso e alou-se ao cerebro, onde assumiu a fixidez das resoluções definitivas. Não era já uma paixão, mas uma convicção, isto é, outra cousa. Pensava muitas vezes na consequencia de herdar em breve prazo a esposa de Luiz Garcia, resolução que lhe parecia necessaria; era o que elle dizia a si mesmo. E esse casamento tinha dous resultados: era uma reparação e uma desforra: reparação do mal que elle fizera, desforra do tratamento que ella lhe deu. Ambos tinham que reprochar um ao outro. O casamento absolvia-os. Talvez na balança commum não fossem eguaes as dividas, mas Jorge tinha certo fundo de equidade, e entendia que, se padecera muito e longo, não excedeu o padecimento á injuria, que, a seus olhos, fora grave.

Os ralhos da consciencia eram agora menos frequentes e menos rispidos: é o effeito natural dessa ordem de situações violentas. Os mais rigidos podem chegar assim ás complacencias inexplicaveis, e o que é hoje nobre repugnancia, é amanhã hesitação pueril. Jorge não ficou extranho a essa lei do costume. De si para si julgava-se innocente, porque era impassivel, esquecendo a lettra do decalogo que não defende sómente a acção, mas a propria intenção.

Duas circumstancias perturbaram, entretanto, o espirito de Jorge, antes do fim daquelle anno.

A primeira foi a assiduidade de Procopio Dias, que lhe pareceu pouco explicavel. Procopio Dias era recebido com agazalho mais cordial do que elle. Em relação a Jorge, o procedimento de Estella era cautelloso e apenas affavel; o de Yayá era de algum modo medroso ou hostil; uma e outra pareciam alegrar-se quando Procopio Dias assomava á porta. Era uma expressão differente. Este acompanhava-as ás vezes nos passeios, ou conversava-as largo tempo, fazendo-as rir com uma espontaneidade, que não tinham a falar com Jorge. Obedecia aos desejos da madrasta e aos caprichos da enteada, quaesquer que fossem, com tamanha tolerancia e bom humor, que fazia despeitar o outro, sem o saber. Jorge attentou nos dictos e acções do intruso, e com o tempo veiu a tranquillisar-se.

--É um celibatario necessitado da companhia de mulheres, disse comsigo.

Procopio Dias não parecia outra cousa; a atmosphera feminina era para elle uma necessidade; o ruge-ruge das saias a melhor musica a seus ouvidos. Graças á edade, Yayá era mais familiar do que Estella; ás vezes chegava a «judiar» com elle, excesso que o pae ou a madrasta reprimia, e reprimia sem necessidade. Procopio Dias não manifestava nem sentia o menor despeito; achava-lhe graça e chegava a fazer coro com ella.

A segunda circumstancia que projectou alguma sombra no espirito de Jorge, foi justamente a hostilidade de Yayá Garcia.

--Que diabo fiz eu a esta menina? perguntava Jorge a si mesmo.

Durante a molestia e a convalescença do pae, Yayá tratara Jorge com muita gratidão e cordialidade. Algum tempo depois, começou a diminuir essa apparencia, até que cessou de todo e se converteu n'outra cousa, que visivelmente era repugnancia, com uma pontasinha de hostilidade. Luiz Garcia viu logo a differença, tanto mais facil de notar quanto que Estella, se não era já tão expansiva como nos primeiros dias, tratava ainda assim o filho de Valeria com uma affabilidade, que salvava as apparencias; a unica excepção era a filha. Não deixou de a advertir; ponderou-lhe que Jorge era filho de uma pessoa a quem elles deviam estima, e de quem ella mesma houvera uma recordação posthuma; que essa circumstancia devia atenuar a antipathia, se Jorge lhe era antipathico. Yayá ouvia e calava-se; emendava-se n'um dia, para reincidir toda a semana.

--És uma extranhona, disse uma vez o pae depois de lhe repetir a advertencia.

Podia ser estranhice. A vida que Yayá tivera durante largo tempo dera-lhe o amor exclusivo da solidão e da familia. Mas no caso presente parecia ser alguma cousa mais do que isso. O rosto com que recebia Jorge não era o mesmo com que via outras pessoas. Jorge ás vezes chegava quando ella estava ao piano; Yayá interrompia-se habilmente, fazia gottejar dos dedos umas tres ou quatro notas soltas e divergentes e erguia-se. Se elle ia conversar com ella e a madrasta, Yayá tomava a parte minima do dialogo e esquivava-se cautelosamente. Não sorria nunca se elle dizia uma cousa graciosa ou fazia cumprimento; não animava nunca a adopção de qualquer projecto que viesse delle; não lia os romances que elle lhe emprestava. Se era convidada a dizer o que pensava de um ou outro desses livros, fazia descair os cantos da boca commum gesto de indifferença. Não falava nunca de Jorge; apparecia-lhe o menos que podia. Este procedimento constante, não affrontoso, porque ella o disfarçava, impressionou o espirito do moço, que não lhe pode descobrir a causa verdadeira, ou pelo menos verosimil.

A verdadeira causa era nada menos que um sentimento de ciume filial. Yayá adorava o pae sobre todas as cousas; era o principal mandamento de seu cathecismo. Instigara o casamento, com o fim de lhe tornar a vida menos solitaria, e porque amava Estella. O casamento trouxe para casa uma companheira e uma affeição; não lhe diminuiu nada do seu quinhão de filha.

Yayá viu, entretanto, a mudança que houve nos habitos do pae, pouco depois de convalescido, e sobretudo desde os fins de Setembro. Esse homem sêcco para todos, expansivo sómente na familia, abrira uma excepção em favor de Jorge; sem mostrar maneiras ruidosas, aliás incompativeis com elle, era menos reservado, de mais facil e continuado accesso. Não foi porém esse primeiro reparo que produziu em Yayá a notada mudança; foi outro. Luiz Garcia deu a Jorge algumas demonstrações de confiança pessoal, e no dia em que a filha viu a primeira, recordou-se da carta que escrevera ao moço na noite em que a molestia do pae se aggravara, e da confidencia dos dois, cujo assumpto nunca lhe chegara aos ouvidos. Neste instante sentiu borbulhar no coração uma primeira gotta de fel. Imaginou que Jorge viera roubar-lhe alguma cousa. Não cogitou se haveria assumpto que dous homens devessem tratar exclusivamente entre si; suppoz-se despojada de uma parte da confiança do pae, e porque amava o pae sobre todas as cousas, seu amor tinha os ciumes, as coleras, os arrebatamentos do outro amor, e consequentemente os mesmos odios e lastimas.

Conhecia o pae toda a intensidade da affeição filial da moça, e não era menor a do seu amor; mas elle dizia comsigo philosophicamente, e não sem pezar, que a natureza se encarregaria de lhe ensinar outro sentimento, menos grave, mas não menos intenso e imperioso. Quando elle assim reflectia, contemplava a filha com um olhar já humido das primeiras saudades.

Yayá estava então em toda a limpidez de uma aurora sem nuvens. Era leve, agil, subita--com um pouco de destimidez; ás vezes aspera, mas dotada de um espirito ondulante, esguio e não incapaz de reflexão e tenacidade. Nisto podia ficar o retrato da menina, se não conviesse falar tambem dos olhos, que, se eram limpidos como os de Eva antes do peccado, se eram de rôla, como os da Sulamites, tinham como os desta alguma cousa escondida dentro, que não era de certo a mesma cousa. Quando ella olhava de certo modo, ameaçava ou penetrava os refolhos da consciencia alheia. Mas eram raras essas occasiões. A expressão usual era outra, meiga ou indifferente, e mais de infancia que de juventude. Talvez a boca fosse um pouco grande; mas os labios eram finos e energicos. Em resumo, as feições dos onze annos estavam alli desenvolvidas e mais accentuadas.

Uma tarde Luiz Garcia recebeu ordem de ir immediatamente á casa do ministro. Saiu, deixando a mulher e a filha, anciosas pelo resultado. Jorge appareceu pouco depois. A demora de Luiz Garcia foi longa, e Jorge ter-se-hia retirado, se não fora a chegada do Sr. Antunes, que deu um sopro de vida á conversa que expirava. Nove horas, dez horas, onze horas bateram sem que Luiz Garcia voltasse. Yayá estava impaciente; receiava alguma doença subita do pae, um desastre qualquer. Eram onze horas e um quarto quando este entrou offegante, porque viera depressa, tendo encontrado Raymundo, que, ouvindo as ancias da moça, saíra a encontral-o e a dizer-lh'as.

Yayá atirou-se-lhe aos braços.

--Medrosa! disse Luiz Garcia abrangendo-lhe a cabeça com as mãos.

Sentou-se um instante para repousar; com a mão esquerda comprimia o coração. Logo depois ergueu-se, chamou Jorge e foi até uma das janellas. Conversaram em voz baixa dez minutos. Disse-lhe que talvez fosse obrigado a sair no fim daquella semana; tratava-se de uma necessidade de serviço; salvo uma hypothese, a viagem era inevitavel.

Yayá não tirava os olhos de um e de outro; despediu-se de Jorge dando lhe as pontas dos dedos. Foi no dia seguinte que Estella lhe disse que talvez fossem obrigadas a sair por algum tempo. Ouvindo a noticia, Yayá comprehendeu a confidencia da vespera, e ficou consternada. Ella era a ultima que a recebia, e o primeiro fora um extranho, um intruso,--esteve quasi a dizer um inimigo. Nenhuma palavra do pae; nenhuma communicação directa.

--A ultima!

Esse resentimento exagerado era o proprio effeito da organização da moça, e, outrosim, de sua educação quasi solitaria. Para affastal-a de Jorge não foi preciso mais; o despeito apoderou-se inteiramente della. Se até ali pouco lhe havia falado, esse pouco diminuiu ainda com o tempo; fez-se quasi nada.

E essas duas forças, uma de impulsão, outra de repulsão, tendiam a esbarrar-se, no caminho de seus destinos.

X

Ora, quatro ou cinco dias depois, Luiz Garcia que, na previsão de viagem, começara a arranjar alguns papeis esparsos e antigos, dispoz-se a concluir esse trabalho, não obstante haver sido dispensada a commissão. Era dia de anno bom,--uma bella manhã, fresca, limpida, azul. Tinham ido á missa na capella do convento; almoçaram em familia, com a presença do Sr. Antunes, que inaugurara uma sobrecasaca, e trazia nessa manhã um aspecto, não sómente venerador, mas até veneravel.

Yayá accordara extremamente alegre e boliçosa. O Sr. Antunes levara-lhe um ramalhete de cravos, dizendo que era para que ella recebesse outros ramalhetes durante todo o anno, e a menina, depois de o receber e agradecer com uma mesura, foi pol-o n'um vaso, sobre o parapeito da janella da alcova. O Sr. Antunes despediu-se della, meia hora depois de almoçado.

--Já vae?

--Vou jogar uma partida de bilhar com o Jorge, disse familiarmente o pae de Estella. Viremos cedo.

--Elle vem jantar?

--Quero ver se o trago.

--Mas... papae não está prevenido, objectou Yayá.

--Está; foi elle proprio que me autorisou a trazel-o. Verdade é que fui eu que o pedi. Devemos muito áquelle moço, e ao defunto pae e á mãe, a Sra. D. Valeria, que Deus tenha. Até logo.

Yayá ficou só, e um instante pensativa; mas, logo depois ergueu os hombros, pegou de um trabalho de agulha, inventado para matar o tempo, e caminhou para o gabinete do pae, onde o foi achar com Estella.

--Virgem Nossa Senhora! disse a moça parando á porta.

Ao pé da secretaria estava uma vasta cesta, transbordando de papeis; sobre a secretaria papeis; papeis na mão de Luiz Garcia; outros na mão de Estella; alguns esparsos no chão. Era uma liquidação de seis annos. Luiz Garcia tinha o costume de guardar tudo, cartas, exemplares de jornaes em que havia alguma cousa de interesse, apontamentos, simples copias. De longe em longe inventariava e liquidava o passado. Havia já alguns annos que não fazia a costumada operação. Começara quando suppunha ter de deixar o Rio; agora tratava de concluir. Estella tinha entrado pouco antes da enteada; sentara-se em uma cadeira rasa, e entretinha-se a receber ou apanhar algum pedaço de jornal velho, e a ler algum trecho em que os olhos acertavam de cair.

--Que é? disse Luiz Garcia logo que a filha soltara a exclamação.

--Papae vae ficar afogado em papel, disse a moça.

Luiz Garcia não respondeu; voltara os olhos para uma carta que tinha na mão, e que sem duvida, lhe trazia alguma recordação amarga, porque elle sorria tristemente. Leu-a toda; releu alguns trechos; depois fez um gesto de desdem, rasgou-a e deitou os pedaços á cesta.

Yayá foi sentar-se do outro lado, a poucos passos do pae.