Yayá Garcia

Part 6

Chapter 64,038 wordsPublic domain

Luiz Garcia apertou-lhe cordialmente a mão e saiu, depois de lhe offerecer a casa. Jorge ficou alguns instantes pensativo. A noticia do dote de Estella causara-lhe certo vexame; a noticia da doação feita pela moça em favor da enteada, produzia-lhe agora um sentimento mesclado de admiração e despeito. Ella sentia arder no mais fundo do coração da moça um residuo de odio, e em seu proprio coração não podia deixar de approvar o acto.

Sendo forçosa pagar a visita a Luiz Garcia, Jorge demorou o cumprimento desse dever emquanto lhe foi possivel fazel-o sem reparo. Um dia, emfim, sabendo por intermedio do Sr. Antunes que a familia não estava em casa, foi a Santa Thereza e deixou lá um bilhete de visita.

A vida de Jorge foi então dividida entre o estudo e a sociedade, á qual cabia sómente uma parte minima. Estudava muito e projectava ainda mais. Delineou varias obras durante algumas semanas. A primeira foi uma historia da guerra, que deixou por mão, desde que encarou de frente o monte de documentos que teria de compulsar, e as numerosas datas que seria obrigado a colligir. Veiu depois um opusculo sobre questões juridicas e logo duas biographias de generaes. Tão depressa escrevia o titulo da obra como a punha de lado. O espirito soffrego colhia só as primicias da ideia, que aliás entrevia apenas. Uma vez, uma só vez, lembrou-se de escrever um romance, que era nada menos que o seu proprio; ao cabo de algumas paginas, reconheceu que a execução não correspondia ao pensamento, e que não saía das effusões lyricas e das proporções da anedocta.

Quando mais disposto se achava a compor essa autobiographia, occorreu vagar a casa da Tijuca, a mesma aonde fora uma vez com sua mãe e Estella, ponto de partida dos successos que lhe transformaram a existencia. Quiz vel-a novamente; talvez alli achasse uma fonte de inspiração. Foi; achou-a quasi no mesmo estado. Entrou curioso e tranquillo. Pouco a pouco sentiu que o passado começava a reviver; a resurreição foi completa, quando penetrou na varanda, em que da primeira vez achara o casal de pombos, solitario e esquecido. Já lá não estavam as pobres aves! Tinham voado ou morrido, como as esperanças delle, e tão discretamente que a ninguem revelaram o desastrado episodio. Mas as paredes eram as mesmas; eram os mesmos o parapeito e o ladrilho do chão. Jorge encostou-se ao parapeito, onde estivera Estella, com os pombos ao collo, diante delle, naquella fatal manhã. O que sentia nesse outro tempo, posto frisasse o amor, tinha ainda um pouco de estouvamento juvenil. Comtudo, a vista das paredes nuas e frias da varanda abria-lhe na alma a fonte das sensações austeras, e elle tornou a ver os olhos férvidos e o rosto pallido da moça; pareceu até escutar-lhe o som da voz. Viu tambem a sua propria violencia; e, como em meio de tantas vicissitudes, trazia ainda a consciencia integra, a recordação fel-o estremecer e abater. Jorge fincou os braços no parapeito e fechou a cabeça nas mãos.

--Olá, senhor dorminhoco! São horas de almoçar.

Jorge ergueu vivamente a cabeça e olhou para a chacara, donde lhe pareceu que saíra a voz. Na chacara, a vinte passos de distancia, estava um homem, que sorria para elle, com as mãos nas costas, seguras a uma grossa bengala. Jorge sentiu um calefrio, como se lhe descobrissem o segredo do passado. Só depois de desfeita a primeira sensação, respondeu sorrindo:

--Não durmo; estou pensando nos alugueis.

--Muda-se para aqui?

--Não.

--A casa é sua?

--É. Suba cá.

O homem galgou os seis degraos da escada de tijolo e entrou na varanda, onde Jorge assumira exclusivamente o papel de proprietario, olhando attentamente para as paredes do edificio.

--Que faz por aqui, Sr. Procopio Dias, ás dez horas da manhã? disse Jorge logo que o outro appareceu.

--Passei a noite na Tijuca; soube que esta casa vagara, vim vel-a; não sabia que era sua. Está um pouco estragada.

--Muito.

--Muito?

--Parece.

Procopio Dias abanou a cabeça com um gesto de lastima.

Não é assim que deve responder um proprietario, disse elle. Meu interesse é achal-a arruinada; o seu é dizer que apenas precisa de algum concerto. A realidade é que a casa está entre a minha e a sua opinião. Olhe, se está disposto a concordar sempre com os inquilinos, é melhor vender as casas todas que possue.--Ou fica perdido... Com que então esta casa é sua? A apparencia não é feia; ha alguma cousa que pode ser concertada e ficará então excellente. Não é casa moderna; mas é solida. Eu já a vi quasi toda; desci á chacara, e estava a examinal-a, quando o senhor appareceu na varanda.

--Quer ficar com ella?

--Ingenuo! respondeu Procopio Dias batendo-lhe alegremente no hombro. Se eu confesso que ella não está muito estragada é porque não a quero para mim. É grande de mais; e depois, fica muito longe da cidade. Se fosse mais para baixo...

--Mas no caso de que haja por ahi algum namoro? ponderou Jorge sorrindo.

--Falemos de outra cousa, acudiu o outro faiscando-lhe os olhos.

Os olhos de Procopio Dias eram cor de chumbo, com uma expressão reflectida e sonsa. Tinha cincoenta annos esse homem, uns cincoenta annos ainda verdes e prosperos. Era mediano de carnes e de estatura, e não horrivelmente feio; a porção de fealdade que lhe coubera, elle a disfarçava, quanto podia, por meio de qualidades que adquirira com o tempo e o trato social. Fazia ás vezes um movimento que lhe descrevia na testa cinco rugas horizontaes. Era uma das suas maneiras de rir. Além dessa particularidade, havia o feitio do nariz, que representava um triangulo de lados eguaes, ou quasi: nariz a um tempo sarcastico e inquisidor. Não obstante a expressão dos olhos, Procopio Dias tinha a particularidade de parecer simplorio, sempre que lhe convinha; nessas occasiões é que ria com a testa. Não usava barba; elle proprio a fazia com o maior esmero. Via-se que era homem abastado. As roupas, graves no corte e nas cores, eram da melhor fazenda e do mais perfeito acabado. Naquella manhã trazia uma longa sobrecasaca abotoada até metade do peito, deixando ver meio palmo de camisa, infinitamente bordada. Entre o ultimo botão da sobrecasaca e o unico do collarinho, fulgia um brilhante vasto, ostensivo, escandaloso. Um dos dedos da mão esquerda ornava-se com uma soberba granada. A bengala tinha o castão de ouro lavrado, com as iniciaes delle por cima,--de forma gothica.

Jorge conheceu Procopio Dias no Paraguay, onde este fora negociar e triplicar os capitaes, o que lhe permittiu collocar-se acima das viravoltas da fortuna. Travaram relações, não intimas, mas frequentes e agradaveis, e até certo ponto uteis a Procopio Dias, que obteve de Jorge mais de uma recommendação. Não obstante a frequencia das relações, estavam longe da amizade estreita; e isso, não por esforço de Procopio Dias, cujas maneiras faceis assediaram por muito tempo a inexperiencia de Jorge. O motivo de Procopio Dias cessou com a guerra, desde que com a guerra cessara tambem o interesse mercantil. Jorge não tinha motivo contra elle; quando o conhecera estava no periodo melancholico.

--Ainda não respondeu á minha suspeita, disse Jorge dando o braço a Procopio Dias.

--O namoro?

--Sim.

--Nem sombras disso, meu caro! Ou antes.... creio que vou entrar para um convento: é a minha ultima ambição.

Procopio Dias tinha dous credos. Era um delles o lucro. Mediante alguns annos de trabalho assiduo e finuras encobertas, viu engrossarem-lhe os cabedaes. Em 1864, por um instincto verdadeiramente miraculoso, farejou a crise e o descalabro dos bancos, e retirou a tempo os fundos que tinha em um delles. Sobrevindo a guerra, atirou-se a toda a sorte de meios que pudessem tresdobrar-lhe as rendas, cousa que effectivamente alcançou no fim de 1869.

A não ser o segundo credo, é provavel que Procopio Dias só liquidasse com a morte. Tendo chegado a uma posição solida, aos cincoenta annos, achou-se deante de outra riqueza, não inferior áquella, que era o tempo. Ora o segundo credo era o gozo. Para elle, a vida physica era todo o destino da especie humana. Nunca fora sordido; desde as primeiras phases da vida, reservou para si a porção de gozo compativel com os meios da occasião. Sua philosophia tinha dous paes: Lucullo e Salomão,--não o Lucullo general, nem o Salomão piedoso, mas só a parte sensual desses dous homens, porque o eterno feminino não o dominava menos que o eterno estomago. Entre os collegas de negocio foi sempre tido como um feliz vencedor de corações francos. E, ao envez de outros, não punha nisso a menor vaidade ou gloriola; preferia a cautella e a obscuridade, não em attenção ao pudor publico, mas porque era mais commodo. Nenhuma diva mundana teria jamais a audacia de cortejal-o na rua ou sorrir-lhe simplesmente; perdia o tempo e o sacerdote. Gozava para si, que é a perfeição sensual.

Não conhecia Jorge nem a vida nem o caracter do outro. Procopio Dias tinha o peor merito que pode caber a um homem sem moral: era insinuante, affavel, conversado; tinha certa viveza e graça. Era bom parceiro de rapazes e senhoras. Para os primeiros, quando elles o pediam, tinha a anedocta crespa e o estylo vil; se lhes repugnava isso, usava de atavios differentes. Com senhoras era o mais paciente dos homens, o mais serviçal, o mais boliçoso,--uma joia.

--Ninguem o vê, dizia elle d'ahi a duas horas, á mesa do almoço de Jorge, na casa da rua dos Invalidos. Não conheço os seus amigos de outro tempo, mas devo crer que todos lhe censuram essa vida de bicho do matto.--Nos theatros.... nunca vae aos theatros?

--Quasi nunca.

--Vamos hoje?

--Corruptor? disse Jorge sorrindo.

De noite foram ao theatro. Procopio Dias estava de veia; a palestra, a scena, o proprio tempo, tudo conspirou para dissipar as sombras de melancholia que a manhã accumulara na fronte de Jorge.--Não se deixe apodrecer na obscuridade, que é a mais fria das sepulturas, dizia Procopio Dias, á mesa de um hotel, onde fora ceiar. Jorge não comeu nada. Mau grado o prazer que achava em estar com elle, não quiz acceitar-lhe o obsequio da ceia, apezar de lhe ter feito o do almoço. Procopio Dias percebeu isso mesmo, mas não se molestou; abaixou a cabeça, deixou passar essa onda de desconfiança, e surgiu fóra, a rir. Sairam dalli uma hora depois. A evocação da Tijuca tinha-se esvaido.

Jorge deixou-se persuadir dos conselhos do outro. Abriu mão do ultimo livro planeado, contentando-se com tel-o vivido. Demais o tempo ia minando a antiga sensação, e a vida social tornava a prendel-o em suas malhas.

Entre as pessoas que tornou a ver, figurava a mesma Eulalia, com quem a mãe quizera casal-o, alguns annos antes. Eulalia não ficara solteira; estava na lua de mel, uma lua de mel que durava mais de um anno. O casamento fora a vara mosaica, mediante a qual se lhe abrira no coração uma fontesinha de ternura. Encontraram-se n'um baile. Nenhum delles sentiu acanhamento; como nunca chegaram a tratar dos projectos de Valeria, poderam falar com a mesma isenção de 1866. A differença é que Eulalia, que era feliz, exagerava a felicidade para melhor mostral-a a Jorge e convencel-o de que antes ganhara do que perdera com a recusa delle.

--Vá lá á rua de Olinda, disse a moça; quero mostrar-lhe meu filho.

Jorge foi. Eulalia mostrou-lhe o filho, creança que valia por duas, tão gorda e vigorosa era. Jorge chegou a pegar nelle, mas não sabia haver-se com as rendas, os babados, as fitas. Eulalia que possuia já toda a destreza materna, tomou-lh'o das mãos.--O senhor não entende disto, disse ella. E depois de concertar a touca da creança, beijou-a muitas vezes, riu-se para ella, fez-lhe um monologo, tudo com uma graça e poesia, que Jorge estava longe de lhe suppôr cinco annos antes. Elle contemplava essa joven mãe, elegante e natural, e sentia-se tomado de inveja e cobiça.

--A felicidade é isto mesmo, pensou elle.

Voltou lá algumas vezes, fez-se intimo da casa. Começou a receber tambem. Viu entre os frequentadores de sua casa o pae de Estella, que achou nelle a benevolencia do desembargador. O Sr. Antunes era conviva certo ao almoço dos domingos; dava-lhe noticias do genro e da filha. Elle pranteava ainda a chimera esvaida, e achava não sei que dolorido prazer em falar de Estella ao genro de suas ambições. Demais, era um como desforço do outro, a respeito de quem aventurou mais de uma queixa. Jorge, porém, ouvia-o sem lhe responder nada.

No meado do anno de 1871, fez Jorge uma excursão a Minas-Geraes, com o fim de ajoelhar-se á sepultura de sua mãe, cujos ossos transportaria opportunamente para um dos cemiterios do Rio de Janeiro. A excursão durou seis semanas. Jorge visitou alguns parentes, e regressou nos principios de Agosto.

Um incidente transtornou-lhe os planos.

VIII

Chegando ao Rio, Jorge teve noticia de que Luiz Garcia estava enfermo. Não contava com o incidente, que o poz em grande perplexidade. Não queria visital-o, e mal poderia deixar de o fazer. Luiz Garcia fora prezado de seus paes; elle proprio lhe tinha estima e consideração: motivos bastantes a aconselhar o desempenho de um dever de cortezia. Mas, por outro lado, ir a Santa Thereza era arriscar-se á suspeita de Estella. Jorge vacillou durante dous longos dias. Certo, elle sentiu algum alvoroço, com a ideia de a ver; ideia que, se buscou rejeitar ao espirito, lá ficou latente e dissimulada. Mas a razão que confessava a si proprio era a da conveniencia.

Venceu a hesitação e foi a Santa Thereza, na tarde do terceiro dia. A casa não era já a mesma; tinha dimensões um pouco maiores que a outra. Era nova, ladeada de verdura, com as telhas ainda da primeira cor. Havia duas entradas, uma para a sala, ficando a porta entre quatro janellas, outra para o jardim, e era uma porta de grade de ferro, aberta no centro de um pequeno muro, por cima do qual vinha debruçar-se a verdura de uma trepadeira. Ahi achou Raymundo, mais velho do que o deixara, mas não menos forte. Raymundo conheceu-o, apezar de queimado do sol. Abriu-lhe a porta; acompanhou-o alegremente ao fundo do jardim.

--Meu senhor vae ficar muito contente, dizia elle fazendo-o entrar.

--Está melhor?

--Está, sim senhor. Olhe, está alli.

Raymundo apontou para um grupo de pequenas arvores, atravez de cuja ramagem se descobriam vestidos de mulher. Jorge sentiu coar-lhe pelas veias uma onda de frio. Mas passou depressa; e deu o primeiro passo tão firme, como deante das legiões de Lopez.

--Quem é, Raymundo? cantou uma voz desconhecida, no meio das arvores.

Jorge viu apparecer uma moça, que representava ter dezoito annos e não contava mais de dezeseis; reconheceu a filha de Luiz Garcia. Ella não o reconheceu logo; os trabalhos da guerra tinham-n'o mudado. Demais, nas poucas vezes que o vira não lhe havia prestado muita attenção. Jorge foi conduzido até a cadeira onde se achava estirado Luiz Garcia, entre duas outras, uma com um trabalho de agulha em cima, outras com um livro aberto. Luiz Garcia recebeu-o com satisfação e cordialidade; Jorge explicou a demora da visita pelo facto de estar ausente. A explicação era uma cortezia nova; Luiz Garcia agradeceu-lh'a.

--Estive muito prostrado, disse elle; não sei mesmo se cheguei ás portas da morte. Agora estou quasi bom.

Jorge sentara-se a um lado do convalescente, emquanto Yayá, do outro lado, brincava com os cabellos do pae ou lhe apertava uma das mãos. Luiz Garcia contou as peripecias da doença e exaltou a dedicação da familia; Jorge falou pouco, já por evitar trahir a commoção que sentia ao penetrar naquella casa, já por não prolongar a visita e podel-a terminar no primeiro intervallo de silencio. No fim de quinze minutos levantou-se.

--Espere um pouco, disse o convalescente. Yayá, vae chamar tua madrasta.

Yayá levantou-se para obececer á ordem do pae; mas no momento em que ia pousar nos joelhos deste o livro que tinha no regaço, ouviu-se um passo na areia e logo depois esta subita palavra:

--Prompto!

Era Estella. O sobresalto de Jorge, por mais imperceptivel que fosse, não escapou a Yayá, e fel-a sorrir á socapa; attribuiu-o ao susto. Estella appareceu; mas, porque já sabia da presença de Jorge, pode encaral-o sem nenhuma apparente commoção. Houve certa hesitação entre um e outro, mas foi curta. A moça inclinou-se levemente e estendeu-lhe a mão. Jorge apertou-lh'a.

--Ainda não tinha tido a satisfação de a ver depois de minha volta do Paraguay, disse elle.

É verdade, respondeu a moça; vivemos muito retirados.

Estella chegou-se ao marido, affastando-se Jorge para deixal-a passar.--Prompto, repetiu ella. Trazia-lhe um copo de geléa. Em quanto Luiz Garcia tomava a refeição de convalescente, Estella ficou de pé, ao lado delle; depois sentou-se e dirigiu a palavra ao filho de Valeria. Naturalmente falou-lhe da campanha. Elle respondeu sem affectação, e com tranquillidade.

--Ja tive occasião de lhe dizer que foi um dos heroes, interveiu Luiz Garcia olhando para a mulher; mas o Dr. Jorge teima em escurecer os seus proprios serviços. Yayá não é a mesma cousa.

--Sim? perguntou Jorge.

É verdade; durante toda a campanha matou pelo menos metade do exercito paraguayo.

Yayá lançou ao pae um olhar de graciosa censura.

--Não precisa corar, disse Jorge; era uma maneira de ser patriota; mas creia que havia menos perigo em matar o inimigo cá de longe.

--O senhor matou algum! perguntou Yayá no fim de um instante.

--Provavelmente. Na guerra é preciso matar ou morrer. Não me importava morrer; mas ha occasiões em que o mais indifferente é um heroe. Eu fiz o que pude.

Como a tarde começasse a escurecer, Estella disse ao marido que era tempo de recolher-se a casa. Ergueu-se para lhe o dar o braço; Jorge porém apressou-se a substituil-a. Estella foi adeante, e quando Jorge entrou na sala com o convalescente, ella preparava a cadeira em que este devia sentar-se, uma larga e extensa cadeira de vime. Luiz Garcia esperou alguns instantes, em quanto a mulher collocava as almofadas, resvalando serenamente de um lado para outro.

Durante essa curta espera, Jorge olhava para a moça, e era a primeira vez que o fazia mais detidamente. Pouca era differença entre a Estella de 1867 e a de 1871. Tinha o mesmo rosto pallido e os mesmos olhos severos. As feições não haviam mudado; o busto conservava a graça antiga; estava só um pouco mais cheio, differença que não destoava da estatura, que era alta. Esta era a pessoa physica. Moralmente devia ser a mesma; mas que contraste na situação! Assim,--a mulher que o levara a servir por quatro annos uma campanha ardua e porfiosa, e cuja imagem não esquecera no centro do perigo, essa mulher estava alli, deante delle, ao pé de outro, feliz, serena, dedicada, como uma esposa biblica. A comparação doeu-lhe; mas o coração começava a repetir-lhe juvenilmente as mesmas horas que já havia batido. Para refreal-o, Jorge despediu-se dez minutos depois.

--Já! exclamou Luiz Garcia. Foi visita de medico. Agradeço-lhe, entretanto, a attenção. Esta casa é sua; sabe que todos nós o estimamos.

Jorge seguiu para casa, contente e arrependido da visita que acabava de fazer. Gastou as primeiras horas da noite a folhear dez ou doze tomos, lendo a troncos duas ou tres paginas de cada um, quando os olhos estavam mais attentos na pagina aberta, o espirito saía pé ante pé e deitava a correr pela infinita campanha dos sonhos vagos. Voltava de quando em quando; e os olhos que haviam chegado mecanicamente ao fim da pagina tornavam ao principio, a reatar o fio da attenção. Como se a culpa fosse do livro, trocava-o por outro, e ia da philosophia á historia, da critica á poesia, saltando de uma lingua a outra, e de um seculo a outro seculo, sem outra lei mais que o acaso.

O clarão da seguinte manhã dissipou uma parte dos cuidados da noite. O primeiro alvoroço tinha passado. Jorge disse a si mesmo que bastava ser homem, esquecer o incidente da vespera, e arredar para sempre a possibilidade de outros. Não repetiria a visita a Luiz Garcia; e provavelmente não os veria nunca mais. Na rua do Ouvidor encontrou Procopio Dias, que lhe disse á queima-roupa:

--Entrei meia hora depois do senhor sair.

--Onde?

--Em Santa Thereza. Se se demora meia hora mais, encontrava-o e poderiamos ter descido juntos. Conhece ha muito tempo o Luiz Garcia?

--Desde muito moço.

--Tambem eu; mas não o via ha dez annos. Está o mesmo homem; está melhor, porque casou com uma mulher bonita. Que gente é aquella?

--A mulher foi educada por minha mãe.

--Vê-se que sim. Oh! falámos muito do senhor.

--Sim? perguntou vivamente Jorge.

Procopio Dias olhou fixamente um instante; depois riu com a testa.

--Muito, repetiu elle; eu e o Luiz Garcia travamos um duello de louvores, e se não ha nisto vaidade creio que o venci; naturalmente por que sou mais expansivo do que elle. Na verdade, elle é secco, mas o pouco que disse, disse-o com sinceridade. Parece estimar-se muito aquella familia.

Procopio Dias tornou a falar-lhe de Santa Thereza, na noite do dia seguinte, em uma casa onde jantaram juntos. Falou-lhe primeiramente em particular, depois deante de outros. A dona da casa, que era uma Diana caçadora de boatos e novidades, farejou algum mysterio entre as rugas da testa de Procopio Dias, e dobrando as pontas do arco disparou subtilmente uma flecha que ninguem viu, mas foi enterrar-se no coração de Jorge. Este fez boa cara ao tiro, mas lá dentro sangrou um pouco de irritação e medo. Sentia no fundo da consciencia o calor de um sentimento honesto, e comtudo a opinião tendia a apoderar-se delle e a devassar-lhe as cinzas do passado; cinzas frias ou mornas, é o que elle não podia ainda discernir. Confiado em si mesmo, Jorge tremia deante da opinião,--a opinião do epigramma e da anedocta, que começava a sacudir o seu riso escarninho e cru.

Inquieto e aborrecido, saiu dalli pouco depois de jantar. O gracejo da dona da casa continuava a zumbir-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que a figura de Estella lhe surgia aos olhos, com o seu aspecto do costume. Já entrado na rua dos Invalidos, Jorge desandou o caminho e foi direito a um theatro, com o fim de aturdir-se e esquecer mais depressa. Eram nove horas e meia; assistiu a um resto de drama, que lhe pareceu jovial, e a uma comedia inteira, que lhe pareceu lugubre. Não obstante, arejou o espirito dos cuidados da noite, e caminhou para casa mais leve e desassombrado. Era uma hora quando chegou; o creado entregou-lhe uma carta.

--A pessoa que trouxe esta carta disse que era urgente.

Jorge reeebeu-a, sem conhecer a lettra do sobrescripto. Era lettra de mulher. Abriu-a sem pressa, mas não sem curiosidade. Não era longa; dizia simplesmente isto:--«Illm. Sr. doutor. Papae está muito mal; pede-lhe o favor de vir a nossa casa.--_Lina Garcia._»

--A que horas veiu esta carta? perguntou elle ao creado.

--Ás sete.

Jorge fez um gesto de enfado e mandou buscar um tilbury. Dahi a uma hora parava á porta de Luiz Garcia. Era tudo silencio. Jorge deteve-se alguns instantes, incerto sobre o que convinha fazer. O perigo, se perigo houve, podia ter passado, e toda a familia estaria em repouso. Espreitou pela porta do jardim, e viu uma claridade frouxa, atravez de uma veneziana. Logo depois ouviu passos na areia. Era o Sr. Antunes que sentira parar o tilbury.

--Meu genro está mal, disse o pae de Estella; teve esta manhã uma recahida e perto das oito horas cuidamos perdel-o.

Jorge entrou.

Luiz Garcia estava prostrado; a febre ardia-lhe sinistramente nos olhos. De um lado e de outro do leito, viam-se a mulher e a filha, apparentemente quietas, mas gastando toda a força moral em suster a angustia que ameaçava fazer-se em lagrimas.

--Que tem? perguntou Jorge approximando-se do enfermo.

--Uma febrinha importuna, respondeu este.

A um signal, Estella e Yayá retiraram-se da alcova, onde só ficou Jorge.

Mandando chamar o moço, Luiz Garcia punha em execução um pensamento que lhe brotara no calor da febre. Ouviu do medico algumas palavras que lhe fizeram suppôr a probabilidade da morte; e, não tendo amigos nem parentes, e não querendo confiar a mulher e a filha ao sogro, lançou mão da pessoa que lhe pareceu ter a sisudez bastante e a influencia necessaria para as dirigir e proteger.