Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 26

Chapter 263,706 wordsPublic domain

Tem V. P. nesta Oitava, quazi as mesmas incoerencias. _Musa candida_, eu nam sei o que quer dizer. _Amaneciste en las auroras de mi oriente_, sam trez sinonimos viciozos: _amanhecer na aurora_, é uma parvoice: _aurora do-oriente_, é ainda maior parvoice. Aquela repetisam==_Tu afecto ardiente_== nam tinha lugar despois de _furor_: porque a Muza comunica o seu furor, ou veia; quero dizer, dirige o Poeta no-canto: mas nam comunica o seu afeto. _Concepto triste_, impropriamente se-aplica à Muza: a qual nam é triste: e muito menos, quando inspira Epopeia. Finge-se que a Muza seja uma Deuza, toda ocupada em alegrias; a quem o Poeta invoca, paraque lhe-conceda um espirito, digno do-Parnazo. _Una voz doliente_, supoem, que o Poeta está aflito: e isto é improprio em um Poeta, que nam escreve os seus tormentos, mas os alheios. Que outra coiza avia dizer Demofonte, se compuzese a sua istoria? O ultimo verso é uma antiteze ridicula, e verdadeiramente coiza de rapaz: novamente opoem aqui o Poeta o _choro_, ao _canto_; sendo coizas, que no noso cazo nam sam opostas: porque _canto_ aqui nam significa cantar. O que diz o Poeta, se-reduz a isto: _Que a dor á-de cantar, e a consonancia, ou o verso á-de gemer_: e quem pode ler isto sem rizo?

Finalmente eu paro aqui: porque se quizese examinar todas as Oitavas, comporia um volume. Basta que V. P. o-leia, e examine, e achará que todo o livro se-compoem disto; e de palavras que nam se-intendem; e epitetos que nam significam nada. Confeso, que ainda nam vi Poeta, que escrevendo tanto, disèse tam pouco, como o _Chagas_. Estas reflexoens que faso a V. P. sobre o _Chagas_, poso fazer em outras obras; nam só de autores das-duzias, mas ainda daqueles que se-acham joeirados, na _Fenix Renacida_; e em outras colesoens de poemas. Mas escolhi este autor, porque é mui conhecido, e louvado, e procurado de muitos: e asim quiz apontar um, para exemplo. O que porem digo dele, deve-se aplicar a todos os outros, que seguem o mesmo estilo. O ponto está ter bem na cabesa, as regras da-Poezia; e examinar sem paixam, as obras; que facilmente se-descobrirám, os defeitos.

Se V. P. com estes principios, toma o trabalho de examinar, muitos dos-seus Poetas, ou a maior parte deles; achará, que tropesam no-mesmo defeito do-_Chagas_; com a unica diferensa de mais, ou menos: e ainda muitos dos-que tem bom ingenho; porque lhe-falta o juizo, para saberem examinar as materias. A regra que eu observo neste particular, é esta: quando vejo um Poeta destes, que se-serve de expresoens, que nada significam; ou que compoem de sorte, que o-nam-intendem; asento que nam quiz ser intendido; e em tal cazo, procuro fazer-lhe a vontade, e nam o-leio. Com esta sorte de omens faso o mesmo, que com os laberintos, e enigmas &c. os quais nunca me-cansei em decifrar. eles que o-fazem, que se-divirtam com iso. Se todos asentasem neste principio, veria V. P. como se-mudava a Poezia nestes paîzes: porque seriam obrigados os Poetas, a lerem somente as suas obras: e asim, ou se-dezinganariam eles mesmos com o tempo; ou, nam inganariam os outros: e poderseîam achar Poetas, de algum merecimento: principalmente se chegasem a conhecer, quais sam os requizitos necesarios, para a Poezia. A razam destes inconvenientes é, porque se-persuadem comumente, que para ser Poeta, basta saber a medida de quatro versos: e saber ingenhar conceitos exquizitos. Quem se-funda nisto, nam pode saber nada: sam necesarias muitas outras noticias. É necesario doutrina, e intender bem as materias que se-tratam. é necesaria a Filozofia, e saber conhecer bem, as asoens dos-Omens, as suas paixoens, o seu carater: para as-saber imitar, excitar, e adormecer. Aqui entra novamente a Retorica, que supoem todas aquelas coizas: entra uma pouca de istoria, para nam dizer parvoices: entra a istoria da-Fabula &c. Tudo isto se-mostra manifestamente, nos-melhores poemas que temos da-Antiguidade. _Virgilio_, e _Oracio_ &c. eram omens que intendiam perfeitamente, o que tratavam: e sabiam muita coiza, que introduziam proprisimamente, nos-seus poemas; de que se-compoem, o ornamento deles. O mesmo digo, de outros Poetas modernos, e insignes. Onde, quem nam tem estes fundamentos, é versejador, mas nam Poeta: e necesariamente á-de dizer, muita parvoice.

Seguia-se despois destas reflexoens gerais, falar especialmente, nos-defeitos das-particulares: mas nem eu tenho tempo para isto, nem o-permite, a brevidade de uma carta. Onde, somente direi alguma coiza mais geral, que compreenda as compozisoens pequenas; e tambem alguma coiza do-poema Epico; vistoque o Dramatico nam tem uzo, em Portugal. Digo pois, que nestes paîzes vejo, mui radicada certa opiniam, de chamar Poeta, a quem o-nam-é: e dar estimasam a poezias, que a-nam-merecem. Uma vez que um omem faz um Soneto, com algum conceito; ou Decimas, com alguma naturalidade; acham-se logo mil admiradores, que dizem, ser famozo Poeta. V. P. terá ouvido frequentisimamente, que quando em um Oitero se-gloza um mote, com facilidade; estam promtos mil aplauzos, para o Poeta: eu o-prezenciei muitas vezes: e esta é a comua opiniam. Mas na verdade é um ingano comum, porque aquilo nam é ser Poeta, nem para lá vai. Semelhantes sortes de compozisoens, nam dam credito a ninguem: isto persuade a boa razam, e a experiencia: Quanto à experiencia, progunte V. P. (o que eu ja fiz) a um destes Glozadores, qual é o artificio da-Poezia; e verá que nam sabe de que cor é: e nam digo só destes das-duzias, mas ainda dos-que glozam felizmente: e conseguentemente nam é Poeta. A razam confirma o mesmo: porque o artificio destas obras nam é nenhum: a sua contextura é tam facil, que por-mao que seja o Poeta, sempre acerta com elas. A Decima, a Quintilha, o Madrigal, as Liras, a Silva, o Romance lirico, Quartetos puros, e de pé quebrado, Tercetos &c. nada mais pedem, que a naturalidade-do-conceito, e expresam: quando muito, algum bocadinho daquele _ingenho mixto_; que consiste, em ter no-fim algum pensamento meigo; explicado com alguma fraze agradavel, e delicada, ou coiza semelhante. Isto nam pede talento, mas somente alguma imaginasam: a qual nam se-acha omem tam desgrasado, que a-nam-tenha. Onde, posto isto em trages de Poezia, saie uma Decima, ou coiza semelhante.

Nam digo, que um bom Poeta, nam posa fazer estas coizas tam bem; que agradem aos omens, de melhor penetrasam: sendo certo, que quem tem juizo o-mostra, ainda nas coizas pequenas; como fizeram os Antigos: o que digo é, que explicando um pensamento, polo modo que aponto, pode qualquer fazer Decimas &c. que agradem. Antes é muito de advertir, que quando estes poemas pequenos se-estudam muito, e neles querem mostrar muito estudo; cheiram a Filozofia, e perdem toda a grasa. Este defeito tenho observado, em muitos Espanhoes, e Portuguezes; que se-preparam para fazer uma Decima, a uns olhos azuis; ou a uma Dama que deixou cair, uma luva em terra; ou a um sinal que se-despegou do-rosto; e outros semelhantes asumtos; como se ouvesem de cantar a guerra dos-Romanos, com Mitridates, ou com Cartago. Isto é um defeito esencial: e é nam saber aplicar o poema, ao asumto: sendo certo, que semelhantes compozisoens só se-inventáram, para asumtos ou burlescos, ou amatorios; ou de coizas domesticas, que nam permitem estudo particular: e asim todo o merecimento de semelhantes obras consiste, n’um conceito delicado, e natural. O Poeta perde a naturalidade, todas as vezes que procura, com grande estudo, mostrar ingenho: e nunca dezagrada mais, que quando procura agradar muito: porque o conceito a-de aprezentar-se, e nam procurar-se.

Por-este motivo sam dignos de rizo certos Poetas, e Poetezas, que fazem Romances, e coizas semelhantes; com tal estudo, que nam se-intendem sem comentario. A _Madre Joana de Mexico_, é uma delas: tambem _Gongora_ nos-seus Romances: e dos-modernos _Eugenio Gerardo Lobo_: que tem alguns, que, ainda despois de muito estudo, nam se-percebem. Finalmente isto é defeito geral dos-Espanhoes: e dos-que eu li, nam achei algum, que nam pecase nisto. Dos-Espanhoes o-recebèram os Portuguezes, e poucos sam os que se-excetûam. O _Chagas_ nos-seus Romances, tirando em certas partes, é dos-mais naturais: tambem o _Camoens_ no-lirico. Vi tambem neste genero alguma coiza do-_Conde de Tarouca_, morto no-Imperio; que me-agradou pola naturalidade, e imaginasam: e algum outro, mas raro. Dos-oscuros nam cito exemplos, porque nam á coiza mais comua que isto: e neles poderá V. P. reconhecer, este defeito. O pior é, que se um omem faz uma Decima, ou coiza semelhante, como deve ser; nam agrada a esta sorte de Poetas, e chamam-lhe coiza trivial: querem ideia mais superlativa: e sempre o oscuro, inverosimel, arrastado, lhe-parece que encerra, melhor doutrina. Mas o sal do-negocio consiste, em mandar isto à sua Dama, ou a um amigo, que o-nam-intende: e ficarem lambendo os beisos, dos-aplauzos. Isto vale o mesmo, que se lhe-mandasem uma Ode de Pindaro, ou Anacreonte; porque umas e outras foram Gregas. Nam é crivel, quanta gente padece esta infermidade: que para mostrarem ou doutrina, ou ingenho; procuram nam serem intendidos, nam só nas compozisoens, mas ainda nos-discursos familiares. Achei-me em uma Prosisam de Freira, onde vi certo *** que sendo dezafiado por-uma Freira, despois de falar muito, lhe-falou nas _precizoens objetivas_ dos-Logicos, e repetio muito verso Latino. Mas a Freira nam cedeo: porque se ele falava Latim, ela falava uma lingua, que ninguem intendia. Despois de falar muito tempo, com um profluvio de palavras incrivel; juro a V. P. que nam pude perceber, o que ela queria dizer: pois aindaque as palavras eram Portuguezas, a fraze porem era tal, que nam se-podia decifrar. Esta Freira tem muitos parentes neste mundo. Conclûo pois, que esta sorte de poemas, que pedem somente naturalidade, e alguma imaginasam; a ninguem podem dar nome, de Poeta.

O Soneto tambem pertence a esta regra: mas é certo, que pola qualidade do-verso, admite mais elevasam de expresoens, que os outros poemas nomiados. Contudo iso defendo, que o conceito deve ser natural: deve ter verdadeiro ingenho: e só na maneira de explicar-se, é que está a galantaria do-Soneto. Consiste pois a obrigasam do-Soneto, em propor na 1.ᵃ quadra o asumto: na 2.ᵃ explicálo com algum conceito: de que se-tire o argumento, para os tercetos. Os Poetas, que tem mais cabedal, expoem o asumto nos-primeiros dois versos: nos-dois segundos comesam a discorrer. Tal é o Soneto feito à morte de uma Senhora, cuido que polo Bacelar, e diz asim:

_Venceo a Morte, o Fabio, a Formozura. Amarilis a bela é cinza fria. Procura Amor fazer, que o-nam-sabia, E esconde o cazo, nesta pedra dura &c._

Outras vezes o Poeta expoem na primeira palavra, o asumto: e desta sorte é o Soneto, que citei a V. P. em outra carta, feito a uma cara mui feia. Mas nem todos os asumtos, se-podem propor asim; e podendo, nem todos os Poetas sam capazes, de o-fazerem. Porem é grande beleza do-Soneto, que na primeira quadra diga algum conceito; que dè materia a todo o discurso da-segunda; e encadeie naturalmente com os tercetos. E sem sair do-tal Soneto, o-repitirei novamente; porque me-parece que prova, o que digo:

_Es feia: mas desorte, que orroroza À tua vista é bela a feialdade: Mas tens fortuna tal, que a enormidade Te-consegue, os tributos de formoza. Cara tam feia, coisa tam pasmoza Todos observam, e move a raridade. Nam desperta o comum a curzidade: Ser rara, é que te-adûla vaidoza. Ama-se o Belo, e cega o mesmo afeto. O Feio, pois nam liga o pensamento, Deixa miudamente ver o objeto. Isto faz que se observe ese portento. Quanto estás obrigada, a ese aspeto; Se no-enorme te-dá merecimento!_

Neste Soneto, que em tudo é natural, o conceito dos-dois ultimos versos da-primeira quadra, prova-se na segunda, e se-confirma nos-tercetos: dando materia ao conceito do-fecho, que é nobre e natural, e diz mais doque soa. Mas nem todos seguem este parecer: e verá V. P. infinitos Sonetos, ainda de omens que prezumem ser Poetas, que pecam contra tudo isto. Eles tem dois extremos: ou dizem conceitos inverosimeis, e encarecimentos tam fóra do-escolio, que ninguem os-pode sofrer; ou dizem frioleiras; ou finalmente servem-se de conceitos, que nam é fácil intender: e o melhor da-galhofa está, em que ornam tudo isto com frazes, que nam se-percebem. De tudo achará V. P. exemplos, sem sair do-_Chagas_: o qual tem Sonetos em que se-acham, estas trez coizas: inverosimilidades, oscuridades, e frialdades.

Quanto às inverosimilidades, nam queira V. P. melhor prova, que o Soneto Espanhol, feito ao pè pequeno d’aquela Senhora &c. mas ainda á outros. Faz ele alguns Sonetos, a que chama _Eroicos_, e entre eles algum _ao Conde da-Torre_, que matou de um golpe um toiro. Asumto mui mimozo dos-Portuguezes, ao qual tenho lido infinitos Sonetos, de diferentes autores. Intende V. P. que este titulo _Eroico_, promete um pensamento nobre e admiravel? asim devia ser; mas nada menos é: e nestes eroicos entram igualmente as sutilezas, e impropriedades. Se me-nam-dá credito, ousa o primeiro, que diz asim:

_Tam grande golpe, o Conde ilustre, dèstes Nese amante de Europa que matastes; Que só o estrago, que ao ferir cauzastes, Todos os Signos atroou celestes. Tam veloz, tam bizarro acometestes; Que, no-impulso menor com que voastes; Ao golpe orrendo a morte anticipastes: E por-demais a execusam fizestes. Faltou emprego à espada, ao braso forte Lugar: onde aparece a desmedida Forsa, que enveja Alcides, e Mavorte. E intendo que ambiciozo da-ferida, Por-ser o bruto o credito da-morte, Cauza vos-deu, para tirar-lhe a vida._

Este Soneto que V. P. aqui vè, é mui gavado: mas examinado ele bem, é parente chegado dos-outros amatorios. Na primeira quaderna se-observa a puerilidade, de chamar ao toiro, _Amante de Europa_; somente para dizer, que se-espantáram os mais signos celestes. Tomára que me-disèse, se se-espantou tambem o signo de _Libra_ &c. Na 2.^a quadra desfaz, o que dise na primeira: e afirma, que o Conde nam matou o toiro; mas fez somente a eroica asám, de dar em um corpo morto: e o mesmo consuma, no-primeiro terceto. O que contem o ultimo terceto, nam se-pode intender: porque que queira dizer _Credito da-Morte_, eu nam sei: o que sei é, que para fazer uma antiteze ridicula, de _morte_, e _vida_: compoem dois versos, que nada significam. Parece que queria dizer o Poeta, que o bruto, que era inimigo da-morte, fora com gosto oferecer-se a ela. Mas isto, alemdeque desmente o que primeiro disera, que ele nam matára o boi; nam se-pode explicar, com o ultimo verso: porque _dar cauza_ pode alguem, sem se-oferecer à morte. Em uma palavra, isto é um conceito Grego. E disto achará V. P. frequentemente, no-mesmo autor. Os seus conceitos eroicos, sam tam superlativos, que eu os-nam-intendo. Em outro Soneto a _D. Joam de Castro_, sobre o mesmo asumto, conclue asim:

_Do-valor sorte foi: mas de tal sorte, Que a sorte foi valor, Castro bizarro: Sem ser azar do-bruto o dar-lhe a morte. Antes se-ve, que com feliz desgarro Lá no carro da-Fama está mais forte, Que este que foi de Europa amante escravo._

O consoante ultimo parece devia ser _escarro_, e nam _escravo_: mas o conceito obriga a dizer, o contrario. Porem isto é nada: o que eu digo a V. P. é, que o que querem dizer estes dois tercetos, confeso a minha ignorancia, eu nam sei: nem até aqui achei, quem mo-explicáse. V. P. terá o trabalho de o-consultar, com aquele seu amigo, que louva tanto este autor: e notar de caminho, se, escrevendo em Tartaro, podia ser menos inteligivel. Quando estes Poetas, querem fugir da-oscuridade, declinam para outro extremo; que é, dizer coizas, que nam tem grasa alguma, a que se-chama frioleiras. E tal é o fecho de outro Soneto, ao mesmo asumto, e polo mesmo autor: que eu repetirei todo, porque se no-fim é mais claro, nam é menos galante no-principio.

_Foi, o Conde bizarro, de tal sorte A vida dese bruto prezumida; Que o Roxo mar da-mais cruel ferida Julgava escrito seu alento forte. Mas só vós, raio ilustre de Mavorte, Fizereis, com puxansa nunca ouvida, Que por-onde sair nam pode a vida, Soberba intrase arrebatada a morte. Emfim caio o bruto: e parecia, Que o tom do-golpe, que nos-vales dura, Em todo o ar exequias lhe-fazia. Pois foi tal desa espada a forsa dura, Que ainda a terra parece que lhe-abria, Com os sobejos do-golpe, a sepultura._

Este Soneto é parente do-antecedente. Esta fraze _vida prezumida_, nam sei o que significa: muito menos intendo, os dois ultimos versos da-primeira quadra: é tam sublime o conceito, que creio, que nem menos o seu amigo * * se-atreverá a explicálo, em boa proza. Tambem aquilo de chamar _Mar roxo_, ao _Mar vermelho_; nam se-pode perdoar a um omem, que fez, ou intentou fazer um poema Epico. A antiteze que se-acha na 2.^a quadra, de _Sair vida, e intrar morte_, é outra inglezia. O que eu acho é, que se o toiro morreo de uma cutilada, pola mesma parte por-onde introu a morte, saio a vida no-sangue: e isto nam é _puxansa nova_; mas é coiza bem uzual. O ultimo terceto, tem um conceito bem ordinario, e em tudo semelhante, ao de outro famozo Soneto ao mesmo asumto, que comesa:

_Foi para o raio de aso curta esfera_,

e conclue asim:

_Que emprego sofrerá forsa tam dura? Abra o boi: rasgue a terra: e desta sorte Saia em sobras da-morte, a sepultura._

Mas eu devo dizer o que intendo: acho que em ambas as partes o Poetas diseram, o que diria qualquer omem de ganhar. despois de terem engrandecido tanto o golpe, sam mui frios na concluzam. Para acompanhar com o Soneto, parece-me que tinham dois conceitos, mais exquizitos. Um era dizer, que com a forsa da-caida furára o bruto, o globo terraqueo; e fora parar, no-emisferio dos-Antipodas. O outro era concluir, que ao toque da-espada, se-_anihilára_ o bruto: tomando esta palavra, no-sentido filozofico, que supoem uma forsa mais que umana. Cuido que isto era mais conveniente, ao estilo de Portugal. V. P. diga ao seu amigo, que fasa nota destes dois conceitos; para se-servir, nas ocazioens de toiros.

Em outra parte faz o mesmo _Chagas_ dois Sonetos, que acabam com duas frioleiras insoportaveis. Um é feito, à morte da-Infanta D. Joana, e conclue asim:

_Transposta quando menos admirada, Anoiteceo na aurora de uma vida, E se-eclisou de um Sol na madrugada. Mas sendo as luzes tantas, quem duvîda, Se era o viver de muito dezejada, Que o morrer foi de pouco merecida._

O outro é feito, a outro cavalo do-_Conde de Sabugal_, que campiava bem. Este autor era tentado com tais asumtos: e creio que na cavalarisa do-dito Conde, nam deixou animal sem Soneto: finalmente fez um, que concluîa asim:

_Nó pues de Febo el tiro luminoso, Nó de Alexandro el Zefiro animado Rapido se compita, o generoso. Pues preferiendo a todo lo animado, Los puso desayrados en lo ayroso, Corridos los dexò con lo parado._

Estes dois fechos sam as majores frialdades, que eu ainda vi: nam se-podem ler sem compaixam: e isto alem de terem antitezes, e versos, que nam se-intendem.

E nam cuide V. P. que isto sucede somente no-_Chagas_, e outros Poetas; acha-se nos-melhores: e _Camoens_ é um deles. Este omem, que no-Lirico tinha muita naturalidade; querendo introduzila nos Sonetos, fez a maior parte deles sem grasa alguma. Ponho neste numero os dois gavadinhos, que se-tem glozado cem-mil vezes: comesa um:

_Sete anos de pastor Jacob servia:_

e conclue asim:

_Comesa de servir outros sete anos Dizendo, Mais servîra, se nam fora Para tam longo amor, tam curta a vida._

outro comesa:

_Alma minha gentil que te-partiste:_

e acaba:

_Roga a Deus, que teus anos encurtou, Que tam cedo de cá me-leve a ver-te, Quam cedo de meus olhos te-levou._

Considere V. P. sem paixam, estes dois Sonetos; e observe se acha neles, o carater do-Epigrama. Eu digo que nam: porque o Epigrama deve concluir, com algum conceito que agrade, e arrebate com a novidade; e deixe intender mais, doque nam diz: e iso é o que eu nam acho, em nenhum deles. O primeiro contem uma istoria, sem artificio algum poetico: e conclue com um comprimento bem uzual. Um amante logrado, que menos podia dizer que isto: _Mais servîra, se nam fora pouco todo o tempo, para empregar no-seu serviso?_ Contudo iso, nam obstante ser uma coiza fria, eu observo outro defeito maior, que é a impropriedade. Para fazer uma antiteze, de _amor longo_, _vida curta_; serve-se de uma fraze impropria: pois _amor longo_, é parvoice; porque refere-se _a tempo_: e aqui deve-de referir a grandeza; e dizer, _amor grande_: no-qual cazo vai por-terra, o conceito. Do-outro Soneto digo o mesmo: todo ele se-reduz a isto = _Tu que estás la no-Ceo, pede a Deus, que me-leve a ver-te depresa_: e que menos se-pode dizer, a um morto amado? Este é outro fecho semelhante ao do-_Borges_, que fazendo um Soneto, à morte da-_Infanta D. Francisca_, falando com a Morte, conclûe asim:

_Se nam podes ja ter igual projeto, Pendura a fouce, e deixa de ser Morte._

Se o-disèse ao principio, e dele deduzise alguma coiza boa; serîa menos mao: mas rezerválo para o fim, é nam intender este oficio. Esta especie de conceitos, nam é necesario dizelos: estam ditos por-si, e todos os-diriam. Neste mesmo fecho do-_Camoens_, noto outra impropriedade. A palavra _cedo_ no-primeiro verso, refere-se a tempo; e quer dizer, _depresa e logo_, sem reparar em idade, ou coiza semelhante. O que posto, compara muito mal o _Camoens_ um _cedo_, com outro cedo, sendo coizas diferentes; e vale o mesmo que dizer: _Asim como tu partistes na flor da-idade deste mundo, asim eu parta logo_ &c. a qual propozisam manifestamente se-ve, ser uma parvoise. Toda a grasa pois do-dito conceito, se-reduz à palavra _cedo_: que aqui é um rigorozo equivoco: coizas indignas de um Soneto. Onde conclûo, que no-_Camoens_ nam vejo, o espirito do-Epigrama; porque a sua naturalidade talvez afetada, o-faz languido: e o Epigrama, aindaque natural, deve ter outra elevasam. E asim os que querem fazer bem Sonetos, devem evitar nam só a inverosimilidade, e oscuridade; mas tambem a frialdade.

Muitas coizas reduzidas a Decima, ou outra tal compozisam, parecem bem; que em Soneto parecem muito mal. No-estado em que está oje a Poezia; pode intrar no-Soneto, alguma coiza de _ingenho mixto_: porque estes costumam agradar mais. Creio porem que é melhor, fazer poucos e bem, que muitos dos-comuns. Esta sorte de poemas imperfeitos valem pouco, e nam sam capazes de darem nome, a um Poeta. Onde quando nam sam superlativos, nam se-podem sofrer. Este porem é o defeito, de muitos Portuguezes; que, fazendo Sonetos mal, ainda asim nam cesam de fazèlos: faram dez e doze a uma roza, e asumtos semelhantes: outros em um Oiteiro fazem bastantes glozas, a um só mote: e se os primeiros sam maos, os ultimos sam peste. Mas, tornando ao ingenho, concluo, que em toda a sorte de poemas pequenos, deve o Poeta ter sempre diante dos-olhos; que o esencial deles é, a naturalidade, unida a um pensamento galante, exposto com delicadeza. Esta pode consistir, em um sentido oculto, que diz muito, quando parece que nam diz nada: em alguma pancada picante, coberta com um veo modesto: em uma grasa, exposta ironicamente com maneira seria: em um pensamento fino, coberto com uma palavra groseira. No-Soneto porem deve praticar-se isto, com menos meiguise, e mais elevasam. No-que reprovo o estilo de muitos, que se-servem dos-Sonetos, ou Romanses Eroicos, para coizas amatorias; nas quais nam entram bem: porque o verso endecasilabo, pede emprego mais sezudo: o Lirico é proprio para estas coizas.