Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)
Part 25
Nunca pude sofrer um Poeta, no-principio de um poema moderno, invocar as Muzas, e Apolo; para lhe-inspirarem os pensamentos: mandar Mercurio, com algum despacho de importancia: obrigar Minerva, a que tome a figura, de algum conselheiro: chamar do-Inferno Plutam, para excitar discordias, entre algumas pesoas: nam permetir tempestades, semque Venus vá pedir a Eolo, que fasa das-suas: nam consentir perda de batalha, semque o Destino atire alguma, das-suas solitas pedradas. Isto é uma afetasam, digna de compaixam. Nós temos na nosa religiam coizas, que podem suprir, a todas as ideias dos-Antigos. Temos Deus, temos Anjos, temos Santos, que nos-podem inspirar o bem: e temos Diabos, para inspirar o mal. O Poeta mostraria mais ingenho, se ele fizese os seus versos; doque pedindo a Apolo, que lhos-inspire. Um furiozo vento excitado polo Diabo, pode fazer o mesmo espalhafato, em uma armada; que Eolo, com todas as suas Furias. Para dar razam de uma batalha perdida, é mais natural e verdadeiro, recorrer à polvora, balas, e prudencia do-General; doque ao Destino, ou Fado, que sam palavras sem significado. O Diabo nam é menos prejudicial, à paz e quietasam dos-Omens, que pode ser Plutam, com Cloto, e as suas companheiras. Quem dece ao Inferno, para tirar de lá Lachesis, e outras destas Furias; nam lhe-era mais barato, tirar um diabrete, para concluir tudo aquilo? Os Gregos nam se-servîram das-divindades dos-Ebreos, ou Sirios, para explicarem as suas coizas; mas daquelas que estavam establecidas, no-seu paîz: E porque avemos nós servir-nos das-Gregas, tendo outras melhores? O que suposto, merecem rizo os Poetas, que se-ocupam com estas ridicularias: porque ou querem significar com aqueles nomes, alguma coiza; e isto é sacrificar o seu catechismo, à mitologia dos-Antigos: ou nam significam coiza alguma; e novamente merecem rizo, por-falarem em coizas, que nam pode aver: e é perder a verosimilidade do-poema, servindo-se de coizas, e vozes, que ninguem pode intender. Que o Poeta em uma metafora, em uma semelhansa, ou em alguma breve aluzam, tocáse algum destes pontos; poderseîa alguma vez perdoar: mas introduzilos em todo o corpo do-poema, como faz o _Camoens_ na Luziada, que introduz Venus, e Baco por-toda a parte, sem descrisam alguma; ou tambem o _Chagas_, e o comum deste Reino; isto é mostrar; que nam tem juizo ou dicernimento, na aplicasam dos-ornamentos poeticos. E é muito de admirar, que os que sabem tambem descrever Venus, e Baco; nam saibam descrever, um omem seu contemporaneo, sem recorrer à Antiguidade. Pode-se porem sofrer, que o Poeta fale com as coizas inanimadas, como com pesoas: v. g. com os Ceos, Terra, Elementos, Morte &c. e fasa outras destas figuras de Retorica: isto nam ofende nem a religiam, nem a boa razam: aquilo, ofende ambas as coizas.
Estes defeitos nos-Poetas sucedem, porque lhe-faltam os dois principais requizitos, Criterio, e Retorica. Chamo Criterio, a uma boa Logica natural, exercitada na lisam de bons autores: Retorica ja se-sabe, que é a arte de persuadir, sem a qual nam se-pode ser bom Poeta: a qual supoem Juizo, e Criterio. A simplez propozisam destes dois requizitos basta, para atarantar estes Poetas ordinarios: os quais se-rim de todo o corasam, quando ouvem dizer, que sem ter singular Retorica, nam se-pode ser bom Poeta; ou ao menos intender, o artificio da-Poezia. Estes ingenhos das-duzias, páram na superficie das-coizas. Julgam que Retorica, é falar em proza; Poezia, falar em verso. Mas os omens que intendem a arte, rim-se ainda mais, da-sua ignorancia. Cuido que facilmente persuadirei a V.P. o que digo, se lhe-puzer diante dos-olhos, que coiza é Poezia; e isto a que chamamos, arte Poetica.
A Poezia é uma viva descrisam das-coizas, que nela se-tratam: outros lhe-chamam pintura que fala, e imita o mesmo que faria a natureza, e com que agrada aos omens. O artificio da-Poezia tem por-fim, agradar: e por-iso só se-emprega em dar regras, com que posa ocupar gostozamente um ingenho. A isto consagram os Poetas, todo o seu ingenho, e juizo. Se buscam argumento elevado, é para agradar, com a ideia de grandeza: se procuram imitar a verdade, é para agradar, com a galantaria da-imitasam: se nam dizem coizas contrarias às nosas inclinasoens, isto mesmo é para agradar: se propoem movimentos apaixonados, com que pintam ao vivo, diferentes afetos da-alma; tambem iso é para agradar: desorteque este é o idolo, do-artificio poetico. E como isto nam se-pode conseguir, sem saber procurar pensamentos, ou argumentos proprios, para mover as nosas paixoens: saber servir-se de palavras proprias, para pintar aquela coiza que se-quer; o que encerra as Figuras da-voz, e do-animo: Fica bem claro, que para fazer tudo, o que pede a arte, se-requer boa Retorica. Mas esta razam se-intenderá melhor, se-observarmos as diferentes especies, de Poezia.
Todo o Poema se-divide em Dramatico, e Narrativo. Compreende o Dramatico, a Comedia, Tragedia, e tudo o mais em que os que entram no-poema; reprezentam com a viva asám, tudo o que se-diz: o Narrativo compreende, todas as mais especies de poemas, em que se-faz discurso, sem asám viva. Estas sam infinitas; mas ainda se-reduzem, a duas principais especies: uma, compreende as poezias, que se-cantam: outra, aquelas que se-lem. Na primeira, entram as Odes, Imnos, e todas as especies de cantigas: na segunda, entram todas as outras compozisoens: que ainda se-dividem em trez, Doutrinais, Istoricas, e Oratorias. Nestes trez generos se-tem composto, famozisimos poemas. v.g. O poema de Lucrecio, é um tratado em que expoem, a Fizica de Epicuro: os Fenomenos de Arato, que Cicero traduzio em Latim, sam um tratado de Astronomia; o mesmo digo do-Poeta Manilio: as Georgicas de Virgilio, sam um tratado de _Re rustica_: os Fastos de Ovidio, sam a istoria das-antiguidades Romanas: e o poema de Lucano, é uma istoria das-guerras civis. O que suposto, quem pode negar, que um tratado de Doutrina, ou de Istoria, pede uma exata noticia de Retorica? E com efeito para escrever semelhantes tratados em verso, nam dezejam os mestres outra erudisam; senam a que é necesaria, para escrever em proza; tirando alguma expresam metrica.
Pasando ao 3.^o genero, tudo o que os Oradores fazem, no-genero demonstrativo; que compreende os louvores, e vituperios, de uma determinada pesoa, ou asám; fazem tambem os Poetas. Os Epitalamios sam louvores, que se-dam a uma pesoa, no-dia do-matrimonio: os Epicedios sam louvores, despois de morto: as Apoteoses sam quando se-louvam desorte, que se-finge colocárem-se, entre os Deuzes: e tudo isto é em carne, um panegirico. As Satiras sam repreensam do-vicio; e tambem pertencem ao genero demonstrativo. as mesmas cartas se-escrevèram antigamente, em verso: de que nos-deixou bons exemplos, Ovidio &c. Nam ignora V. P. que a estes trez generos se-reduzem, todas as compozisoens, nam só Latinas, mas Vulgares. Fazem-se Sonetos, Silvas, Quintilhas, Elegias &c. em louvor, e vituperio: escrevem-se Cartas em Silvas, Decimas, Tercetos, Quartetos, Romances &c. finalmente todos os discursos de proza, se-podem reduzir em verso. E asim a mesma Retorica que é necesaria, para regular os nosos discursos, na proza; o-é tambem, no-poema. Onde vem, que a Poezia, é uma Retorica mais florida: e a quem falta esta, nam pode ser bom Poeta. Como é posivel, que o Poeta exprima na Elegia, a sua paixam, desorteque mova; se ele nam sabe, a arte de mover? como pode nos-dialogos expremir, o que cadaum quer, e deve dizer; se ele nam sabe o que deve, e como o-deve dizer? Torno às Comedias, e Tragedias, e delas progunto o mesmo: Como pode o Poeta fazer, que cadaum dos-reprezentantes exprima, a paixam de que está posuido; se ele nam sabe, que coiza é paixam, nem como se-move? nam pode ser que um omem, que ignore isto, fasa uma Comedia boa. Tambem a Tragedia nam consiste somente, em inventar um argumento nobre: em saber embrulhar uma quantidade de sucesos, que cauzem maravilha, quando se dezintrigam: mas sobre tudo é necesaria a propriedade, e carater, em cada parte; para mover o animo: o que pede, particular Retorica.
Quanto ao poema Epico, é certo que compreende, todas as outras especies de poemas narrativos: e nele se-pode empregar, tudo o que á de fino na Retorica. O principal asumto dele é, um panegirico. Nele se-acham arengas famozas: algumas sam deliberativas, outras judiciais. acham-se acuzasoens &c. acha-se a istoria do-eroe. acham-se muitos conceitos de doutrina, e outra erudisam. entram nele cartas, epigramas, dialogos: e finalmente tudo o que á melhor, na Poezia. Motivo porque se-dise, que era a coiza mais dificultoza, da-arte Poetica. Onde, compreendendo todas as outras especies de Poezia, se cada uma delas pede Retorica, que fará o poema Épico?
Daqui fica claro, que conceito se-deve formar, destes vulgares Poetas, que V. P. incontrará todos os dias. Eles nam sabem, que coiza é Retorica, e bom gosto em materia nenhuma; como lhe-mostrei na minha ultima carta: e asim que coiza boa podem fazer, na Poezia? Se fazem alguma coiza menos má, é porque cazualmente sucedeo; ou asim o-lèram em em algum livro, d’ onde o-roubáram: mas ignoram a razam, porque asim se-faz. E isto nam é ser Poeta, nem para la vai. E nam cuide V. P. que falo por-conjetura: mas com experiencias mui certas: e ja me-sucedeo pedir a um mestre, que explicava um paso de Virgilio a um dicipulo; que me-explicáse a mim, porque se servîra o Poeta daquelas expresoens: e nam só nam mo-explicou, mas nem menos me-intendeo. Desorteque incontrando-se todos os dias, tantos Poetas; nam á coiza mais rara, que um Poeta.
E com efeito o segredo particular da-Poezia, principalmente Eroica, nam o-pode conhecer, senam quem é bom Retorico. Consiste ele, segundo dizem os mestres da-arte, em saber propor desorte, o argumento que se-escolheo; que só aparesa, o que tem de extraordinario, e nenhum defeito: e em saber inspirar ao leitor, curiozidade de ler todo o poema: nam declarando tudo logo, mas confuzamente: fazendo nacer uma dificuldade da-outra, paraque se-esporeie o dezejo: dilatando a leitura, e enchendo a istoria, por-meio dos-Epizodios; paraque o leitor nam perca de mira, o seu principal argumento: e finalmente nam dezatando o nó da-dificuldade, senam quando tem conduzido o leitor, ao fim do-poema. Tudo isto pode V. P. observar, na _Eneida_ de Virgilio, ou na _Jeruzalem_ do-Tasso. Eles propoem ao principio em breve, o argumento da-sua obra; e prometem coizas grandes. Nam comesam polo principio da-vida do-eroe; mas por-uma asám famoza, que empreendeo no-meio da-sua vida: da-qual com artificio particular, fazem recuar o leitor, até os primeiros trabalhos do-seu eroe. Uma dificuldade excita outra: demaneiraque o leitor nunca se-cansa, na leitura. E que outra coiza fazem os Retoricos, quando querem excitar, a atensam dos-seus ouvintes? Ja eu dise a V. P. que ese era o principal artificio, das-Orasoens de Cicero, e ainda de muitos Oradores da-Antiguidade. donde concluo, que só um bom Retorico o-pode fazer. Alem diso os Retoricos encomendam muito, que o Orador nam diga, senam coizas verosimeis: porque com falsidades manifestas, ninguem se-eleva. E isto mesmo dizem, todos os bons Poetas: antes nada mais cuidam, que representar verosimel, tudo o que propoem. Desorteque quanto mais se examina a Poezia, tanto mais claramente se-reconhece, a Retorica.
E esta é a razam; porque vemos todos os dias, que muitos, querendo ser Poetas, sam uns ridiculos: porque lhe-falta o principal fundamento; que é, saber pezar as coizas, e dar a cada uma o seu preso. observando aquilo, a que os Latinos chamam, _decorum_: que consiste no-introduzir cada um, a falar segundo o seu carater. Todos os defeitos apontados, sam esenciais, e frequentes: mas este ultimo da-inverosimilidade, é mais geral, doque se-nam-intende. Acham-se poucos Poetas, que nam pequem contra isto: pecam no-Drama, e pecam no-Epico: aindaque neste menos; porque sam rarisimos os que compoem, poemas Epicos. Mas em toda a outra sorte de poema Narrativo, sam mui frequentes em Portugal. Nas Comedias pouco caiem os Portuguezes, porque nam se-aplicam a elas: raras vi, fóra das-de Camoens: mas os Espanhoes caiem muito nisto. Verá V. P. um pastor, que fala com mais filozofia e prudencia, que um Cipiam Nasica, ou Catam Uticense. Acham-se relasoens, com encarecimentos tam despropozitados, que nam merecem outro nome, que uma enfiada de manifestas mentiras. Algumas vezes, um omem vulgar faz uma Decima, ou Oitava derepente: outras vezes, dá melhores conselhos, que um consumado Jurisconsulto. Finalmente em tudo se-ve pintada, a inverosimilidade. Nam digo eu só _Calderon_, mas o mesmo _D. Antonio de Solis_; que em outras coizas mostrou mais juizo, que _Calderon_; nesta o-perde. E finalmente todos os Espanhoes sam o mesmo: porque tropesam a cada paso na sutileza, que é impropria na boca, de semelhantes pesoas: e tambem impropria da-Comedia: que nada mais é, que uma imagem da-vida, proposta aos olhos dos-omens, para repreender as asoens ridiculas dos-mesmos.
Dos-Espanhoes o-aprendèram os Portuguezes: e comumente se-persuadem, que quem sutiliza melhor, e diz coizas menos verosimeis, é melhor Poeta. Metaforas mui fóra de propozito, encarecimentos inauditos, sam os seus mimozos. Ouvi gavar muito um Soneto do-_Chagas_, feito a um cavalo do-Conde de Sabugal, pola metafora da-Muzica, e comesa asim:
_Galhardo bruto, teu acorde alento Muzica é nova, com que aos olhos cantas: Pois na armonia de cadencias tantas, É clave o freio; é solfa o movimento._
Mas eu considerando o tal Epigrama acho, que é uma completa parvoise, desde-a primeira palavra, até a ultima. Nam acho nele, conceito algum: as palavras sam improprias: e muitas nam tem significasam certa: e nam conclue com pensamento que eleve, que é a obrigasam do-Epigrama. Nam sei como o dito Poeta nam fez outro, a um burro de Valada, ou macho de Almagro; pola metafora da-Logica, ou Geometria. Podia descobrir na seriedade destes animais, semelhansas de um omem que filozófa: no-seu paso grave, o fundado do-juizo: tambem nas suas orelhas, semelhansas de uma sesam conica: no-corpo, vestigios de um paralelogramo: no-movimento, a ideia de varias linhas: e nas unhas, uma porsam de circulo: com outras ridicularias destas. As metaforas podem ter lugar; mas nam devem ser estas, que sam arrastadisimas. Isto nam intendem os que o-louvam: mas isto deviam intender, os que prezumem ser Poetas.
O outro ponto dos-encarecimentos, é frequentisimo nestes paîzes. Nam á coiza mais comua, entre estes chamados Poetas, doque encarecimentos incriveis; e servir-se de palavras, que nam significam nada. E sem saîr do-_Chagas_, que parece a muitos, que é bom Poeta; considere V. P., o que ele diz neste Soneto, feito a um pé pequeno de uma Dama.
_Instante de jazmin, concepto breve, Atomo de azuzena presumido; Pues os juzgam las ancias del sentido, Sospecha de cristal, susto de nieve. Nó pie, mentira sois: pues como aleve, Ni verdad en un punto aveis cumplido. Antes creo que escrupulo aveis sido: Pues de ser, o nó ser, la duda os mueve. Como, si idea sois de ojos tan claros, Hazeis los ojos fé para creeros, Y hazeis la vista fé para miraros? Yo me resuelvo en fin que he de perderos. Pues si el veros es solo imaginaros; Siendo imaginacion, como he de veros?_
Este Soneto tem tido mil aplauzos: e ja achei quem me-disese, que era onde podia chegar, o ingenho umano. Contudo iso eu defendo, que os que o-louvam, proguntados polas palavras do-Soneto; ám-de confesar, que o-nam-intendem. Primeiramente estas palavras, _instante de jazmin_, _concepto breve_, _atomo presumido_, _sospecha de cristal_, _susto de nieve_, _ancias del sentido_: sam frazes que nada significam: e nam só em Portuguez, mas em nenhuma lingua. Dezafio todos estes poetas Portuguezes, paraque me-digam, se ouvisem um omem falar em proza daquela sorte, se o-intenderiam: pois é bem claro, que o que nada significa em proza, muito menos significa no-verso. E temos, que o primeiro quarteto nada significa: porque querendo ele significar, um pé pequeno; serve-se de termos, que nam significam iso. Na segunda quadra sobe de ponto o encarecimento: e nam se-contentando de dizer, que é pequeno, e é um ponto; acrecenta, que nam á tal pé no-mundo; pois somente fica a duvida, se o-ouve, ou nam ouve. Nos-tercetos desfaz, quanto tinha dito. Primeiro asenta, que o pé se-ve: despois diz, que nam é asim, e que somente se-pode saber por-tradisam, que á tal pé: e conclue, que nam existe senam na imaginasam, e nam é posivel que se-veja. Esta é a analize do-dito Soneto. Ora diga-me V.P. polo amor de Deus, se intende o que quer dizer, este Poeta. Primeiramente, ele nam conseguio o seu fim, que era mostrar, que o pé da-sua Dama era pequeno: provou mais doque queria; e mostrou, que nam avia tal pé. Alem diso nam adverte, a inverosimilidade do-conceito. Nam consiste a beleza de uma figura, em ter um ponto por-pé; antes isto é deformidade: consiste, em ter um pé proporcionado: e nas-molheres, a sua proporsam é, que o pé seja mais pequeno. E eu intendo, que a Dama ficaria mais contente, de ter um pé grande; doque de nam ter pés, e necesitar de moletas.
Dirmeá V. P. que o Poeta deve fingir, e inventar alguma coiza, para louvar: concedo: mas nam devem ser semelhantes parvoices, que em vez de agradar, fazem nauzea. Podem-se dizer muitas coizas daquele pé: mostrar, que para o complemento da-beleza, nam á proporsam melhor, que um pé pequeno: que nisto excede ela muito, todas as mais senhoras: que a sua brancura, e delicadeza é inimitavel: que tem toda a grasa que se-pode imaginar, em semelhante parte do-corpo. Isto, quanto ao serio. Pasando ao burlesco, podem-se dizer mil outras coizas: e pode o Poeta inventar, alguma coiza galante; com que adorne estes conceitos. Asim torno a dizer, que os que louvam o Soneto, sem considerarem isto, nam o-intendem.
Se V.P. examina o motivo, de todos estes encarecimentos; achará que provèm, do-que no-principio apontamos. Todo o ponto destes Poetas está, em singularizar-se, seja como for: e asim buscam argumentos esquipaticos, os quais obrigam a procurar, conceitos despropozitados. E unido a isto, que eles sabem pouco, o que quer dizer _elogiar_; daqui vem, que amontoam conceitos inverosimeis; e servem-se de expresoens, que nada significam: as quais ou por-forsa do-consoante, ou da-novidade, agradam aos ignorantes. Que o Poeta disèse maos conceitos; aindaque fose um grande defeito, era mais toleravel: mas que, por-querer dizer coizas peregrinas, diga parvoices, e contrariedades; e fale em uma lingua, que ninguem intende; isto sim que se-chama, grande defeito de Poezia. Conheso, que os sinonimos sam às vezes necesarios: que os epitetos dam muita galantaria, nos-poemas: mas com algumas condisoens. 1.^o ám-de ser coizas, que signifiquem. 2.^o distribuidos com moderasam. Mas estas duas coizas sam, as que pola maior parte ignoram, estes Poetas: e com tantoque consigam o consoante, nam reparam, em tudo o mais. Mas sobre todos, este tal _Frei Antonio das-Chagas_, caio nisto: quazi todas as suas obras, consistem em palavras, sem conceito, e sem significado. Os Romances sam menos maos: tambem o Saco da-Jeruzalem Celeste, aindaque cheio de aluzoens mui destemperadas, pode pasar: os Sonetos quazi todos sam peste: e o mesmo digo da-Filis, que muitos louvam, porque a-nam-intendem. Sei que se V. P. ler isto ao P. * * * me-terá por-um Cafre, que nam intende, que coiza é Poezia: mas eu nam falo sem prova: e quando ele me-souber responder, entam lhe-darei razam.
Basta que V. P. leia os titulos, de muitos Sonetos; para conhecer o que digo. Quando eu leio estas inscrisoens:==_Achando na beleza de Filis, razam para deixála_==_aos olhos de Filis com nevoas_==_fineza de nam amar a Filis_==_fazendo merito da-ouzadia_==_duvidas de declarar-se_==_fazendo razam do-atrevimento_==_confuzam do-seu amor_==_saindo Filis de noite ao campo_==: e outros asumtos semelhantes; ja sei, que as compozisoens sam parvoises: e com efeito compare V. P. os do-_Chagas_, com estes titulos; e veja se concordam, e se os-intende. O mesmo lhe-digo do-_Pina_, e outros semelhantes. Persuada-se V. P. que um asumto mao, á-de produzir más obras: porque se um argumento fecundo, tratado por-um omem que sabe, às vezes nam saie bem; que fará um infecundo, principalmente tratado, por-quem nam sabe elogiar? É necesario ter muito ingenho, e juizo, para saber tratar bem, semelhantes argumentos. E porque muitos nam tem, estas duas circunstancias; por-iso nacem estas compozisoens, de que nós nos-rimos.
Mas pasemos dos-Sonetos, ao poema Epico, à famoza Filis do-dito _Chagas_; e verá V. P. que nada mais é, que uma enfiada de antitezes, que nada significam: e que só agradam a estes, que se divertem com consoantes Gregos, sem intenderem o que lhe-agrada. Tudo isto se-ve, no-principio do-poema: ousa V.P. a primeira Oitava.
_Yo que en la flor de mis primeros años Cantè de Amor, las dulces tiranias; Y en los echizos de agradables daños Menti las horas, y engañè los dias: Aora en numerosos desengaños, Si llanto son las consonancias mias; De la beldad que fue de Grecia espanto, Lloro el amor, y la tragedia canto._
Nesta oitava acham-se mil coizas galantes: _dulces tiranias_==_agradables daños_==_menti las horas_== e outras coizas destas, que jogam os murros. Especialmente considero, a estrutura da-Oitava. Na primeira quadra diz isto: _Que ele, que no-principio da-sua idade, fizera versos amatorios, e asim pasára os dias_: Esta parte pedia outra segunda, em que disèse: _Que agora, dezinganado daquelas puerilidades, se-ocupava em fazer, um poema Epico, e serio._ Asim comesa _Virgilio_ a sua Eneide, e outros Poetas: mas isto é o que nam diz o noso _Chagas_. Parece-me, que na palavra _numerosos_, queira significar _metricos_: e iso cuido que nam significa, mas que só significa _muitos_: porem isto nam é nada. A parentezis==_Si llanto son las consonancias mias_== nam tem conexam, com o que asima dise: as consonancias, ou os versos podem ser _choro_, e _canto_; quero dizer, _alegria_. Mas nem menos concorda com o que abaixo diz, o que asima dise: porque nam é boa opozisam esta: _Tendo até aqui feito versos amatorios; agora com muitos dezinganos, (se é que os meus versos sam choros) chóro o amor, e canto a tragedia._ A palavra _canto_ na primeira quadra deve significar, nam quem canta cantigas, mas quem faz poemas: e neste sentido a-tomam todos os Poetas, e o _Chagas_ tambem: pois o que quer dizer é isto: Que tendo feito muitos versos, na sua mocidade; agora se empregava em outros asumtos. O que suposto, opondo-lhe na segunda quadra, o _choro_; diz uma parvoice: pois o contrario a poezias amatorias, é cantar coizas graves. Onde contrapondo-lhe o choro; vem a tomar a palavra _canto_, como equivoca; que é coiza indigna de um poema Epico. Tambem aquela antiteze ultima==_lloro el amor, y la tragedia canto_== é uma puerilidade. Bem se-mostra que o Poeta, novamente quer introduzir por-equivoca, a palavra _canto_. Alem diso, se o argumento da-sua obra, é uma tragedia amatoria; separando o amor da-tragedia, diz outra parvoice. Pasemos à segunda Oitava.
_Musa que cultamente amaneciste Candida en las auroras de mi oriente; Y al alma tantas vezes me infundiste Tu divino furor, tu afecto ardiente: Si dignos son de tu concepto triste, Numeros tiernos de una voz doliente; Mi afecto inflama, harè que en dulce rima Cante el dolor, la consonancia gima._