Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 21

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Pasando daqui aos panegiricos de Santos, em quanto se-puderem evitar temas, será mais arrezoado: mas quando ou o costume, ou o genio obrigue, a tomar algumas palavras da-Escritura; nam é necesario, esquadrinhar profecias, nem procurar de acomodalas literalmente: basta que as ditas tenham alguma analogia, com a materia de que se-trata. Pode-se seguir a sentensa da-Escritura, para comesar o sermam; sem a-introduzir novamente, no-corpo dele. Isto tenho visto fazer, a omens muito grandes: e parece-me que um tal exemplo, se-deve preferir aos outros. No-corpo da-obra, deve-se seguir o mesmo estilo, das-outras orasoens laudatorias; narrar, e amplificar. Mas como a vida dos-Santos, principalmente antigos, é ja nota a todos; para evitar o fastio a estes delicados, pode escolher uma, ou duas asoens mais famozas, e delas formar o seu panegirico. E este metodo é o mais frequente, quando se-fala em Santos antigos: cujas asoens todas ou sam bem notas, ou deles somente sabemos, uma ou outra virtude, mas publica a todo o mundo: ou algum grande privilegio, concedido por-Deus ao dito omem: e este o-engrandecem, com todo o artificio da-Retorica. Mas nos-modernos, cuja vida nam é mui notoria; é melhor, seguir a ordem dos-tempos, ou virtudes, e explicar toda a vida do-Beato. O grande Orador _Paulo Segneri_, pregando de S.Estevam, engrandece a virtude deste Martir, com varias considerasoens. 1.ᵃ ser S.Estevam o primeiro, que dèse a vida pola Fé. 2.ᵃ tela dado por-uma fé, que entam comesava, e era ainda desconhecida. 3.ᵃ tela dado nam só sem esperansa, de receber aplauzos, mas com certeza moral, de experimentar oprobrios e derrizoens. 4.ᵃ ter dado o proprio sangue por-um, de quem nam tinha recebido, tam privilegiados favores, como recebèram os Apostolos. 5.ᵃ porque uma tal asám mereceo, comunicar a Paulo, e outros que o perseguiam, a sua mesma fé. Com este exemplo, se-podem tecer mil panegiricos: advertindo muito, que estes pontos, nam se-devem provar separadamente, como fazem neste Reino; porque este metodo destrue, a uniformidade do-sermam, e impede o exercicio oratorio: mas de um se-deve pasar a outro, de modo tal que, sem advertir o ouvinte, se-veja introduzido na considerasam, de uma nova prerogativa; com que o Pregador vai requintando, as virtudes que narra; e seguidamente o-conduz ao fim, de o-persuadir, que é grande o sugeito, de que se-trata. E nisto se-compreende tudo, o que pertence ao genero laudatorio, quero dizer, aos sermoens em que se-louva alguma pesoa, ou alguma asám de piedade.

A outra especie de sermoens, a que chamam _Morais_, podem em certo modo pertencer, ao genero demonstrativo: o qual nam só compreende, os que louvam alguma asám, mas os que vitupèram outras: como sam os morais, que pintam o _Vicio_ mui feio, para mover os Omens, a que abrasem a _Virtude_ oposta. Mas como nisto entra a persuazam, e admoestasam, que sam proprias do-genero deliberativo; podemos chamar-lhe, mixtos de ambos os generos. Mas chamem-lhe como quizerem, o mesmo artificio, que asima disemos, se-pratica nos-outros; deve praticar-se nestes, com sua proporsam: quero dizer, que se-tome um asumto singular, e proprio do-que se-quer dizer; e que se-busquem argumentos, e se-dilatem demaneira, que sempre se-vá subindo; para chegar a persuadir-se, o que se-quer. Isto suposto deve o Pregador, fugir de dois extremos: um, de querer agradar muito, dizendo galantarias, e enchendo a orasam de pensamentos sutis, de aplicasoens chimericas, e outras coizas destas: outro, de nam querer agradar coiza alguma, como fazem certos misionarios, que propoem as verdades tam nuas e cruas, que infinitamente dezagradam. Contra os primeiros, ja asima dise alguma coiza, repreendendo as afetasoens, onde nam entram: sendo certo que nam entram tais coizas, em materias tam sezudas e graves. Mas porque á muita gente, que, querendo fugir do-primeiro defeito, caie no-ultimo; e para cubrir a propria ignorancia, despreza todos os ornamentos da-Retorica; é necesario mostrar a estes, o seu ingano, com o exemplo dos-omens doutos, e pios.

O Pregador Evangelico deve instruir, e mover: e nam se-insinuando, no-animo dos-ouvintes, nam conseguirá o persuadilos. Onde, diz com muita razam S. Agostinho[68], que o Orador Cristam, deve saber uzar, dos-livros dos-Etnicos; principalmente dos-Retoricos, para agradar, e persuadir: o que prova com exemplos, de muitos Padres, que fizeram o mesmo. Semelhante pensamento expoem S. Jeronimo, escrevendo a Magno Orador Romano: e S. Gregorio Nazianzeno diz mui claramente[69], que todos os seus estudos profanos tinha deixado, menos a Retorica: na qual experimentava todos os dias, infinitas utilidades; e que dela se-servîra, e servia sempre. S. Bazilio, S. Ambrozio, e outros SS. mui doutos nas letras profanas, praticáram o mesmo: e nas suas obras conhecemos nós, como podemos uzar, dos-tais autores. Onde deve o Pregador, ter sempre na memoria, aquelas palavras de S. Agostinho no-lugar citado: _Volumus non solum intelligenter, sed libenter audiri_. e em outra parte: _Nolumus fastidiri etiam quod submisse dicamus ..... Illa quoque eloquentia generis temperati, apud eloquentem Ecclesiasticum, nec inornata relinquitur, nec indecenter ornatur._ Deve alem diso o Pregador, nam só instruir, e agradar; mas principalmente mover: o que conseguirá por-meio do-genero sublime, e patetico, quando se-trata de persuadir, as obras boas: porque no-saber mover é que consiste, o verdadeiro triumfo da-eloquencia. E para fazer isto, nam se-requerem, como jà dise, sutilezas, mas razoens fortes, e bem dispostas, e exageradas. &c.

Isto é obrigasam. Quanto ao meio de o-conseguir, deve, despois de bom fundamento, nas letras umanas, ter grande lisam da-Escritura, e dos-Padres que apontamos: cujas homilias ensinam, como se-deve pregar, para tirar fruto. Nam creio, que aja Pregador ou Misionario, que queira ser mais santo, mais douto, e mas zelante, da-onra de Deus; que os que apontamos, e outros semelhantes, como S. Joam Crizostomo &c. e tendo eles praticado isto, com tanto louvor; eles tambem devem ser, os nosos mestres. Especialmente se-deve ler S. Agostinho, nos-livros de _Doctrina Christiana_, onde explica bem a materia.

Mas porque a maior parte destes, prezados de Criticos, e Retoricos, que nam sabem a istoria Ecleziastica, nem Literaria; intenderám, que estes Padres só cuidavam na virtude, e nam sam bons para se-imitarem, na eloquencia &c. será necesario explicar-lhe em breve, quem eles eram. _Bazilio Cesareense_, ou Magno, de quem aqui falamos, estudou muitos anos, na mais famoza escola, que era Atenas. foi um dos-mais famozos Filozofos, Gramatico, e Retorico insignisimo. as suas homilias sam um perfeitisimo modelo de eloquencia: e o grande Photio chega a dizer, que se-podem igualar, a Demostenes. Leva a palma principalmente, nos-Panegiricos. _Gregorio Nisseno_ seguio as pasadas, de seu irmam _Bazilio_. foi publico profesor de Retorica, e insigne Filozofo: e tam amante das-letras profanas, e especialmente da-Retorica, que S. Gregorio Nazianzeno, amigo comum de ambos, na carta 43. condena, este seu nimio estudo. O estilo dele é sublime, e juntamente agradavel. _S. Gregorio Nazianzeno_ foi condicipulo, e amigo de S. Bazilio. Na eloquencia querem muitos, que exceda ao mesmo Bazilio. finalmente é tam sublime na pureza, e elegancia; que o grande Erasmo diz, que nam se-pode traduzir bem em Latim, por-cauza da-magnificencia &c. _S. Ambrozio_ era eruditisimo em Grego, e Latim, mais doque comumente se-nam-cre. o seu estilo é concizo, e agudo, e quazi semelhante ao de Seneca; aindaque melhor. Nam era grande Retorico: mas é fluido, e proprio para convencer os erros com doutrina, piedade, e gravidade. _S. Jeronimo_ todos sabem que era um omem eloquentisimo, em Latim, e Grego &c. e mui versado nos-livros dos-Etnicos, e na Filozofia Grega, e Istoria; e sumamente veemente: Onde pode-se aprender nele, muita coiza boa. _S. Agostinho_ aindaque nem na pureza da-lingua, nem no-estilo seja igual a Jeronimo, e outros asima; contudo na sutileza, e no-mesmo tempo na profundidade do-juizo, talvez o-excede. Certamente que aindaque fose, profesor de Retorica, nam fez grande aproveitamento; nem chegou à erudisam dos-outros. Mas dele se-pode aprender muito: principalmente nos-ditos livros de _Doctrina Christiana_, emque ensina que dotes se-requerem, para interpretar bem as Escrituras; e fazer as outras obrigasoens de um Ecleziastico. Asimque dele se-podem aprender, muitos ditames. _S. Joam Crizostomo_ tambem era doutisimo. Alem da-pureza da-lingua, que parece um verdadeiro Atico, une trez coizas admiravelmente; que sam a facundia, a erudisam, e a facilidade: desorteque ninguem tratou as materias, com mais clareza, e naturalidade. Alem diso é singular nisto, que acomodou a sua doutrina, à capacidade dos-ouvintes; e por-iso agrada a todos: em modo que para pregar ao povo, as suas obras ensinam muito. Estes sam os Santos, que propomos ao estudante; e nam só porque sam santos, e mui versados nas doutrinas sagradas; mas especialmente porque o-sam nas profanas: com as quais formáram o bom gosto, e intendèram melhor as sagradas. Porque muitos nam tem, estes principios de letras umanas, aplicadas às divinas; por-iso vemos tantos Pregadores, que nam sabem abrir a boca. E porque nas mesmas letras umanas, muitos as-nam-estudáram como deviam, nem chegáram a conhecer, qual era o bom gosto, da-Eloquencia; por-iso tambem V.P. ve todos os dias omens, que nam só nam sabem, fazer um papel sofrivelmente; mas nem menos conhecer nos-outros, as delicadezas da-Oratoria. Desorteque se acazo lhe-mostram, uma orasam bem feita; nam lhe agrada: ou só vam buscar nela, as coizas menos sofriveis; palavrinhas, e coizas semelhantes: sem olharem para o todo da-orasam, para a proporsam, e dispozisam das-partes, o modo de dilatar os argumentos, de aclarar uma verdade; a verosimilidade dos-mesmos argumentos, e outras particularidades, em que consiste a eloquencia. A este modo pois de examinar, como eles fazem, chamo eu, julgar com os cotovelos: e tudo isto nace, de terem estudado mal.

Tambem outra coiza importante, deve advertir o Pregador, que sam as asoens. parece isto nada, e é uma principal parte na Oratoria. Nisto pecam bastantemente em Portugal. Vemos Pregadores, que peneiram no-pulpito, movendo os brasos e maons orizontalmente, com afetasam vergonhoza. vemos outros, que amasam, e dam estocadas com os brasos, arregasando as mangas, e fazendo mil coizas e posturas improprias. Nam pode V.P. crer, quanto isto desfigura o Orador, e esfria o animo dos-que o-ouvem. Um papel bom, quando é mal reprezentado, nam vale nada: o que todos os dias experimentamos. Bem nota é a istoria de Demostenes, o qual tendo ja dezesperado, de poder orar em publico, pola infelicidade da-sua pronuncia; um Comediante o animou, com a esperansa de reprezentar bem: e deo-lhe tais lisoens, que foi a cauza principal, do-grande nome, e aceitasam que ao despois teve.

Os Romanos, que sabiam quanto importava, reprezentar bem o seu papel, desorte se-exercitavam nisto, que tomavam lisoens dos-Comediantes; como o mesmo Cicero de si confesa. E com efeito, nam podiam tomar melhores mestres: porque os Comicos eram tam insignes nisto, que falavam somente, com as asoens. Nos-ultimos tempos da-Republica, se-introduzîram nos teatros, os Pantomimos: que era uma especie de Comediantes, que com as asoens somente explicavam, o que outro, que estava imovel no-fim do-teatro, dizia. Desorteque um falava; e o Pantomimo animava com a asám, a expresam do-outro. Tal era a diligencia, com que sabiam com a asám, acompanhar os movimentos do-animo! Isto faziam aqueles que sabiam, que coiza era Retorica: e isto deve fazer qualquer omem, que á-de orar em publico.

Os nosos Italianos sam os unicos, entre todas as Nasoens, que melhor exprimam com a asám, o que dizem: e nam só quando oram, mas tambem quando recîtam versos. Os Inglezes nam se-movem, quando recîtam: os Francezes esfogueteiam, e cantam: os Espanhoes choram: outros tem outros defeitos. Mas pola maior parte convem todos, que os Italianos, sam os mais expresivos: e um grande ingenho Francez, do-seculo pasado, chegou a dizer, que os nosos Italianos naturalmente eram, Comediantes. Porem em Portugal, á muita falta disto. Dos-Pregadores é notorio, que nam só lhe-falta a asám, mas até o tom da-voz, que nam acompanha com a asám. Confeso a V.P. que nunca pude sofrer a afetasam, com que muitos pregam a Paixam, ou as Lagrimas. Estudam uma voz flebile, mas com modo tal, que em lugar de fazer chorar, provoca o rizo: muito mais se consideramos o que dizem, com a dita voz flebile. Eles circunscrevem o estilo patetico, na dita voz: e asentam que ela basta, para mover. Loucuras! O mesmo digo, quando fazem a exclamasam para o Sepulcro, nos-sermoens de Quaresma. todo o ponto está, em gritar muito: pedir mil mizericordias: e com isto se-contentam. Mas a falar a verdade, estes nam sabem o seu oficio. O estilo patetico, é a coiza mais dificultoza, da-Retorica, como confesa Cicero[70]: e nele é que consiste o triumfo, e aplauzo da-eloquencia. Nam é pequena dificuldade, ou para melhor dizer, é coiza admiravel, que as palavras que profere um omem, ajam de mover em mil ouvintes, os mesmos sentimentos, que quer o Orador: amor da-Virtude: odio do-Vicio: aborrecimento de si mesmo! Que cuida V.P. que será necesario, para conseguir isto? É necesaria doutrina admiravel: particular conhecimento das-paixoens umanas; como se-excitam, e adormecem: asoens proprias: e em uma palavra, saber uzar das-Figuras, na ultima perfeisam: e isto nam se-faz com voz flebile, nem com gritarias, mas com outras virtudes oratorias. Nam digo, que quem prega estes sermoens, esteja rindo: digo sim, que deixe aquelas afetasoens, e reconhesa em que consiste, o mover os animos: qual é a asám, qual a voz proporcionada.

Mas pior que tudo é, quando recîtam versos: rarisimo vi, que pronunciáse verso bem. Comumente vam detraz do-consoante, e fazem pauza, nam no-fim do-sentido, mas no-fim do-verso: o que é erro manifesto. Parece isto pior, quando recîtam versos Latinos, nos-quais nam á consoante: de que vem, que um _carmen_ pronunciado por-um deles, e por-outro que o-saiba animar com a voz, e asám, parece diferente. Este defeito deve emendar o omem, que quér ser perfeito. deve exercitar-se em caza, diante de algum amigo bem informado; para ver, se expremio bem, a asám que quer. Só asim conseguirá, ser ouvido com gosto.

Mas eu quero parar, neste ponto: porque se deixo correr a pena, em lugar de reflexoens, escreverei um tratado de Retorica. Reconheso que já caî, no-mesmo defeito que condeno: mas a materia é tam fecunda, e as reflexoens ocorrèram-me, com tanta promtidam, que nam pude deixar, de as-admetir. Direi porem a V. P., que lendo o que tenho escrito, acho que é suficiente, para introduzir um moso no-estudo, da-verdadeira Eloquencia. e quem se-capacitar bem destas reflexoens; e comesar a ler os bons autores, tanto Latinos, como Vulgares; e observar neles, o artificio das-orasoens; sem ler mais outra Retorica, pode sair gravisimo Orador. Esta prezunsam nam nace de mim, mas damesma qualidade dos-preceitos: os quais sam tam antigos, como os Oradores: que é o mesmo que dizer, sam os mesmos que executou Demostenes, e Eschines, e Isocrates: que nos-deixou escritos Aristoteles, Demetrio, e Longino: que praticou e ensinou com tanto louvor Cicero, M. Seneca, e Quintiliano, e outros autores antigos. As Retoricas comuas nam apontam, senam alguns nomes, que eu aqui nam quiz apontar: sem saber os quais, pode um omem ser, muito bom Retorico, se souber imitar estes treslados. Como tambem pode um omem, com exata lisam de bons livros, discorrer bem, sem saber as especies de silogismos, que apontam os Logicos.

Neste pouco que tenho proposto, cuido que cheguei, ao verdadeiro principio da-Eloquencia. Nam apontei o artificio, dos-diversos estados de controversias oratorias; porque nam era ese o meu argumento; nem tambem se-acha, nas Retoricas ordinarias: e somente se-pode aprender, nos-mesmos autores originais. O meu Religiozo que asima aponto, explica muito bem estes artificios, dando os exemplos originais: mas tambem se-demora com minucias: e como escreve em lingua estrangeira, nam é para o cazo. Outros, de que eu me-aproveitei mui bem, tambem escrevem em linguas estrangeiras, ou sam difuzisimos. Neste cazo para dizer a V. P. o meu parecer, aconselho ao estudante Portuguez, que nam tem alguma boa Retorica Portugueza; que, despois de intender bem, o que aqui lhe-aponto, tome alguma ideia, da-distribuisam da-orasam; a saber, exordio, narrasam, provas, epilogo: que leia brevemente, o nome das-figuras das-palavras, e do-animo: o que o mestre facilmente podia explicar. Posto isto, segue-se ler um autor Portuguez, no-qual posa fazer, as reflexoens necesarias. Mas aqui esta a dificuldade: e eu que nam costumo inganar ninguém, devendo dizer-lhe sinceramente o que intendo; digo, que nam acho algum, que posa ser modelo.

Dos-sermoens nam tenho que dizer, sendoque ja expliquei, o que eram. As orasoens Academicas, que se-lem nos-Anonimos &c. nam merecem que se-leiam. Algum elogio da-Academia Real, que é mais toleravel, peca por-outro principio: porque é mera istoria, sem artificio algum retorico. * * * E aos que respondem, que tambem os Francezes praticam o mesmo, nos-elogios dos-seus Academicos; respondo o mesmo: que os ditos elogios sam istorias, e nam panegiricos: e asim o-julgam todos, os que tem voto na materia. Li nam á muitos dias o do-Cardial _de Polignac_, que teve ultimamente seus aplauzos: e achei que o autor, se ouvèse de escrever a istoria do-dito, nam se-serviria, nem de outras palavras, nem pensamentos, nem frazes. Com efeito eu julgo, que aqueles omens nam querem fazer outra coiza, que explicar em breve, a vida, e merecimentos dos-seus Academicos. Onde como eles nos-dispensem, de lhe-chamar orasam, ou panegirico; concedemos-lhe tudo o mais: mas devemos porem reconhecer, que nam sam obras no-genero Oratorio: e que nam sam para se-imitarem. Onde neste cazo deve o mestre, tomar sobre si o trabalho, de explicar tudo em Cicero: servindo-se para isto do-P. _Cigne_ Jezuita: o qual, seguindo o metodo de um certo Inglez, faz a analize das-orasoens de Cicero. E asim nelas deve o mestre, mostrar o artificio da-Oratoria, fazendo as seguintes reflexoens. Notar primeiro a forsa das-razoens, dispostas com boa ordem, unidas naturalmente, e amplificadas com artificio. Notar a verosimilidade das-ideias: a pureza e elegancia das-palavras: a moderasam e propriedade dos-epitetos: o numero oratorio, que consiste em certa colocasam armonioza de palavras, mas que nam degenere em verso: a introdusam das-figuras, quando é necesario excitar as paixoens: as precausoens que observa, para nam dezagradar. Observando bem isto, na lisam dos-autores, bastava para conseguir, o bom gosto da-Eloquencia.

Deve porem unir-se com isto, o exercicio. Onde o mestre comporá, uma breve orasam Portugueza, segundo as regras da-arte: e mostrará nela aos dicipulos, o artificio e galantaria dela. Fazendo-se isto em Portuguez, facilmente se-aprende: e só asim podem eles, intender bem os preceitos, e executálos. Isto nam fazem em Portugal os mestres, e quazi se-envergonham, de escrever em Portuguez: sem advertirem, que a Retorica nestes paîzes, mais se-exercita em Vulgar, que em Latim. Mas por-esta razam sucede, que saiem todos da-Retorica, sem saberem dela mais, que o nome. Porem, tornando ao estudante, tendo-lhe proposto um modelo, de fazer uma breve orasam; será necesario exercitálo. Isto facilmente se-faz, propondo-lhe na escola um asumto, e proguntando-lhe, o que eles diriam em tal cazo, para defender v.g. ou acuzar aquela pesoa. Certamente um rapaz com a logica natural, dirá algumas razoens, que lhe-ocorrem: pois vemos, que a nenhum rapaz faltam razoens, para se-desculpar dos-erros que faz, quando o-querem castigar. A um rapaz pode dar, a incumbencia de acuzar, e a outro de defender. Despois que ambos tem dito o seu parecer, deverá o mestre, suministrar alguma razam mais; e ordenar aos rapazes, que as-escrevam, e fasam as suas orasoens, do-melhor modo que puderem. Isto feito, deve o mestre emendar os erros, tanto de lingua, como de Retorica; dando-lhe razam, de tudo o que faz: e variando sucesivamente os asumtos. Desta sorte aprende-se mais Retorica, em uma semana; doque polo metodo vulgar, em dez anos.

Quando o estudante sabe bem, que coiza é Retorica, no-resto do-ano se-pode empregar, em compor Orasoens Latinas: ou traduzindo, as que compoz em Portuguez, o que é mais acertado ao principio: ou compondo outras novas. Para quem ja intende Latim, e sabe compor bem em Portuguez, isto é um divertimento, sem ter dificuldade alguma. Terá pois o mestre cuidado, de lhe-encomendar, que leia os trez livros _de Oratore_ de Cicero, e _Orator ad M. Brutum_, como tambem _o de Oratoriis Partitionibus_: os quais dois ultimos sam a quinta esencia, de toda a Retorica. Encomende-lhe que se-familiarize, com as Orasoens de Cicero, para aprender os seus modos de explicar. As outras reflexoens sam iguais, em ambas as linguas, com sua proporsam: e tambem o modo de emendar os defeitos, que os estudantes cometem. Desta sorte é sem duvida que em um ano, podiam saber muito facilmente Retorica, e mui solidamente.

Quanto aos mestres, sou de parecer, que leiam atentamente, nam só os ditos livros, que apontamos de Cicero, e alguns outros, pertencentes também à Retorica; mas os de Quintiliano, em que faz belisimas reflexoens, sobre ela. Valla diz[71], que ninguem pode, intender bem Quintiliano, sem primeiro saber bem Cicero: nem menos seguir perfeitamente Cicero, sem obedecer aos preceitos, de Quintiliano. O certo é, que Quintiliano é um Retorico insigne, e um grande Critico, que toda a sua vida empregou em refletir, e ensinar: e tem maravilhoza eloquencia: e dele podem tirar os mestres, as necesarias reflexoens, para comunicar a seu tempo, aos rapazes. Se o mestre quizese, mais alguma noticia particular, e ver as fontes, de toda a Retorica; devia ler os livros Retoricos de Aristoteles, que é o mestre nesta materia, e os ditos sam a sua melhor obra: nela bebèram todos. Podia servir-se da-versam Latina, se nam intendèse o Grego. A este ajunto um famozo Critico, e Retorico, que é Dionizio Longino, no-seu tratadinho de _Sublimi stilo_: em que faz admiraveis reflexoens, servindo-se tambem da-Versam[72]. E quem quizese mais, podia ler o Demetrio Falereo: aindaque nos-outros acha-se tudo. A estes quatro, Aristoteles, Cicero, Quintiliano, e Longino, se-reduz tudo o que á melhor na Antiguidade, sobre a Retorica. Aconselharia tambem ao mestre, que lese os panegiricos Latinos, que temos dos-Antigos, comesando em Plinio, e pasando aos outros que se intitulam, _Panegyrici Veteres_; que cuido sam uns quinze, compostos no-quarto, e quinto seculo: nam para os-seguir em tudo: mas para os-conferir com os antigos, ver em que diferem, e aproveitar-se deles, em alguma coiza menos má. Advertindo nestes ultimos, que o que aconselhamos nam é a lingua, que tem seus defeitos; mas algum pensamento &c. Retoricas modernas nam aconselho nenhuma, nem a dicipulos, nem a mestres: tirando o Vossio, nas suas Instituisoens Oratorias, que é famozo: o qual podiam ler uns, e outros, quando quizesem particularizar, alguma noticia. Aindaque quem le, e intende bem, o livro _Orator_ de Cicero, nam necesita mais: mas como é breve, pode-se permetir, ler alguma coiza mais.