Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)
Part 20
Quanto ao que diz o Panegirista, que os Estrangeiros podiam aprender, dos-Portuguezes; tem muita razam: mas deixo a V. P. o-determinar, se á-de ser em armas, ou letras. Se ele soubèse o conceito, que aqueles tem dos-Portuguezes, ficaria mui admirado. E para nam buscar exemplos remotos, direi a V.P. que eu falei em certa Cidade, com um Religiozo, que viera instruir em Rilhafoles, os ordinandos: e me-dise, que ficára pasmado, de ver a ignorancia destes paîzes, principalmente dos-Clerigos: muitos dos-quais, nam obstante terem fama de doutos, necesitavam aprender, os primeiros rudimentos da-Fé. Este falava por-experiencia; pois estivera dois anos em Portugal: era alemdiso um omem de virtude, e mui moderado no-falar. Veja V. P. que conceito eles tem disto. Pode-se notar no-mesmo Panegirista, a incoerencia: Quando lhe-tem conta, para avultar a ciencia do-Souza; Roma é uma Cidade cheia de omens doutos: a Arcadia é uma coiza famozisima: é um congreso de Virgilios, e Oracios. Quando nam lhe-tem conta, os Estrangeiros nam sabem nada: e tudo podem aprender, dos-Portuguezes: quem intenderá tal omem! Em uma palavra, este omem cuido nam fez coiza pior, na sua vida. Todas as comparasoens que faz, sam arrastadas, e inverosimeis: as exclamasoens, que frequentemente introduz, fóra do-propozito, e do-lugar: as parentezis longuisimas, superfluas, e insoportaveis: a fraze afetada, mas sem elevasam ou nobreza; repetindo em cada regra a _Ilustrisima_, a um Religiozo, e a um morto. Finalmente nam sabe dar forsa, aos argumentos que traz, dilatando-os com artificio retorico.
Mas nam quero falar mais nesta materia, porque parece que faso grande cazo, de uma coiza que o-nam-merece. é fazer grande favor ao autor, criticar-lhe os defeitos, que sam infinitos. Antes devo pedir a V. P. perdam, de o-ter demorado, com semelhante orasam: o que fiz por-duas razoens: Primeira, paraque V. P. vise, a infinita distancia que poem, entre sermam funebre na igreja, e orasam funebre na academia: como se os preceitos da-Retorica fosem diferentes! Segunda, paraque vise pintados em uma só orasam, todos os defeitos que lhe-tenho apontado, reinarem nestes paîzes: pois sendo este um dos-modernos, caie em todos eles, nam dizendo o que deve; e dizendo o que nam deve. Os quais sam mui consideraveis defeitos, de Retorica.
O que até aqui tenho exposto a V. P. bastantemente mostra, o que eu tinha proposto: e dá uma verdadeira ideia, do-que é Retorica, em que se-deve uzar, e como se-deve uzar. E com efeito menos ainda basta: poisque tendo V. P. grande compreensam de materias, e mais que tudo, formando juizo exato das-coizas; nam lhe-podem ser ocultas, estas que aponto; e nam pode deixar de falar, com belisima Retorica. Mas á juizos tam sepultados na materia, que nam podem considerar outras coizas, senam aquelas que uma vez vîram: nem receberám a verdade mais clara, e demonstrada, se nam é proposta com aqueles termos, e por-aquele metodo, que uma vez ouvîram. Isto me-obriga a fazer alguma reflexam, sobre as partes da-Retorica, ou sobre estas Retoricas uzuais, e principalmente sobre o estilo do-pulpito: vistoque nestes paîzes, para isto inclinam mais: e nisto é que necesitam, de melhor diresam; para os-livrar daqueles ridiculos prejuizos, de que estam cheios.
_METODO DE PERSUADIR._
Manifesta loucura é persuadir-se, que é necesario saber tudo, o que dizem as Retoricas, para ser Orador[60]. Ja adverti a V. P. que estas Retoricas comuas, eram pola maior parte uma lista de nomes, e divizoens, impertinentes de se-aprenderem, e dificultozas para se-conservarem: mas tudo isto podia suceder, aindaque a materia fose boa. Porem eu nam paro aqui, mas digo, que nam só polo modo com que o-dizem, mas iso mesmo que dizem, tem pouquisima ou nenhuma utilidade; e nada conduz para o fim, de falar bem, e persuadir. E digo da-maior parte delas, o que lá dise Cicero de outra Retorica, que escrevèra Cleantes, _Que para nam saber falar, nam avia coisa melhor_[61]. Sam sinco as partes da-Retorica: Procurar meios de persuadir: dispolos: falálos bem: estudálos de memoria: e pronunciálos com as asoens que se-devem. A isto ajuntam, os trez meios de persuadir, que sam as provas, os costumes, e as paixoens dos-ouvintes. Dizem alem diso, que qualquer discurso oratorio deve ter exordio: despois, narrar o fato: despois proválo, e responder aos motivos contrarios: finalmente perorasam, na qual se-faz um epilogo dos-motivos, e se-excita novamente, o animo dos-ouvintes. Tudo isto é verdade: mas se pararmos aqui, pouco saberemos de Retorica. Eu direi alguma coiza da-_Invensam_: sobre as outras, reporto-me a eses livros comuns; e só tocarei, o que me-for necesario.
Para buscar argumentos ou provas, que persuadam, o que pertende o Orador; propoem os Retoricos uma lista de nomes, aque chamam, _lugares comuns_: os quais ensinam, considerar o argumento de tantas partes, e voltálo de tantas maneiras, que seja facil, dizer muita coiza do-tal sugeito. Confeso, que estas considerasoens genericas, dam materia para falar muito; e em tal ou qual cazo, podem nam ser inutis: mas, seguindo o parecer dos-omens de exata critica, constantemente digo, que estes lugares nada menos ensinam, que a falar bem: suministram ideias gerais, palavras sem sustancia, narizes de cera, que se-aplicam a tudo, e nam persuadem nada em particular. Um destes que cre muito nos-_Topicos_, falará uma ora inteira, sem dizer coiza alguma com propozito: justamente como os Logicos da-Escola. Estes escrevem longuisimos tratados de _Syllogismo_, dam mil regras, para discorrer com propriedade, e sem falencia; e para provar tudo o que ocorrer. A ouvilos na cadeira, julgará um omem, que sam letrados universais: mas introduza-os V. P. em um discurso particular, e verá, que tudo aquilo é palhada: concluirám um discurso pior, doque nam fará, um oficial ignorante. Muitas vezes nam sabem nem comesálo, nem acabálo: e se lhe-metem a pena na mam, é lastima ver, como escrevem as suas razoens. O mesmo Cicero, que tam apaixonado era pola Retorica, e seus preceitos, que escreveo um livro dos-Topicos; contudo reconhece, que é necesario muito juizo, para se-servir destes lugares, em modo que nam digamos parvoices[62].
Quem pois reflete nisto, intende o conceito que se-deve fazer, de semelhantes _lugares_. Se nam fose permetido falar, senam naquilo que se-sabe, a maior parte destes, que fazem profisam de falar em publico, ficaria calada. Ninguem é capaz de discorrer em uma materia; se é que a-nam-tem estudado fundamentalmente: e nunca poderá deduzir, boas consequencias, se acazo nam posûe bem, os principios. Pode um Fizico estar cheio de silogismos, até os olhos; ter lido quantas ridicularias se-tem dito, sobre os apetites da-Materia; se acazo nam tem bem examinado, as experiencias: nam poderá explicar, qualquer uzual fenomeno. Pode um Teologo saber, a quinta esencia da-_fórma silogistica_; mas se nam sabe bem, em que textos se-fundam os Dogmas, nam será Teologo senam de nome.
Isto suposto, a primeira e importantisima regra da-Invensam é, intender bem a materia, que se-trata[63]: porque só asim facilmente se-incontram, os argumentos proporcionados ao sugeito: e tam facilmente se-incontram, que naturalmente se-aprezentam, caiem da-boca, e da-pena. Este é o grande defeito, destes Pregadores Portuguezes. Propoem-lhe uma materia, que eles ignoram: e em lugar de estudarem o que devem, formam logo ideia, do-que querem dizer; e despois procuram os textos, que fasam ao intento: e se os-nam-acham, violentamente os-arrastam: porque finalmente, seja como for, deve-se provar, o que se-propoz. Ora a Escritura nem sempre dá textos literais, para confirmar todas as chimeras, que os Pregadores propoem: e asim é necesario recorrer, a algum destes comentadores Peripateticos: muitos dos-quais adotam nos-comentarios, as sutilezas: e, se falta este, nunca falta um destes Asceticos, que provam tudo o que querem: e temos o sermam feito. Se o Pregador tivese estudado a materia, conheceria, que verdades importantes, como sam as da-religiam, nam se-podem provar com sutilezas, mas com razoens solidas: razoens solidas nam se-podem achar, para provar conceitos ridiculos: de que vem, que necesariamente um omem que sabe a materia, deve desprezar estas puerilidades; e considerar todos os sermonarios, talhados por esta medida, como livros que nam se-devem ler.
Que seria do-mundo Retorico, se todos os omens um dia, abrisem os olhos! Eu seguro a V. P. que de cemmil livros, que se-acham nesta materia, pouquisimos se-poderiam conservar; e alguns deles, só por-fazer favor, aos seus autores. Pois aquilo que entam fariam todos, devem oje fazer os omens, que se-querem aproveitar a si, e aos outros. Quando eu era rapaz, e somente conhecia os autores polo sobrescrito, considerava mais felizes, e doutos aqueles omens, que posuiam mais livros, doque os que tinham menos: porque, dizia eu, aqueles gozam a lisam, de mais autores, e de mais omens insignes. Naquele tempo, _Escritor_, e _Doutor_, eram sinonimos no-meu Vocabulario. Eu era um daqueles, (que por-nosos pecados, ainda vemos oje tantos) que medîa a Ciencia a palmos: quanto mais livros, mais ciencia: e o livro maior sempre me-parecia, tezoiro mais preciozo. Mas despois que me-familiarizei, com aqueles mortos: que revolvi muitas, e grandes livrarias: que consultei omens doutisimos: que li atentamente os Criticos: e finalmente que tomei o trabalho de examinar, com os proprios olhos, o merecimento de muitas das-ditas obras: transformei-me neste particular: e formo tam diferente conceito do-mundo; que se explicáse tudo o que intendo, nam conservaria tam boa conrespondencia, com tanta gente. Ora isto que se-pode dizer, de toda a sorte de livros, aplico eu oje aos sermonarios, e outros que tratam de Retorica: e conclûo, que pouquisimos destes livros se-podem ler, e ainda eses com cuidado.
É coiza digna de observar, que nestes paîzes, a maior parte dos-que estudam, confundem o _Ingenho_, com o _Juizo_: o _Juizo_, com a _Doutrina_: esta, com o _Criterio_: sendo coizas na verdade bem diferentes. Pode um omem ser ingenhozo, porque pode unir diferentes ideias que elevem, ao que chamamos _Ingenho_; e nam ter uma oitava de _Juizo_: porque finalmente o _Juizo_ é aquela faculdade da-alma, que sepára uma coiza da-outra, e conhece cadauma, como é em si. Pode este omem ter _Juizo_, e nam ter _Doutrina_, porque nam tem estudado. Pode ter alguma _Doutrina_, e nam ter aquela que é necesaria, para formar bom _Criterio_. Isto parece-me bem claro. Mas nam o-intendem asim aqueles, que por-verem um, que ideiou varias chimeras, e formou algumas ideias sutis, mas ridiculas; logo o-batizam, por-omem de juizo, e grande doutor. E daqui entam nace, que as ideias daquele tal omem, sam recebidas com mais respeito, doque nam eram as respostas, em Delfos. Mas, tornando ao argumento.
Para persuadir, quer-se em primeiro lugar, boa Logica, que dè os verdadeiros ditames, para julgar bem[64]: em segundo lugar, um juizo claro, que os execute. Sem estes primeiros principios. sam superfluos todos os ditames. Da-Logica em seu lugar falaremos. Decendo pois ao particular digo, que só a _verdade_ ou _verosimilidade_, é a que pode persuadir um omem; e é aquela valente arma, com que nos-acomete a _razam_. Ninguem deixa de se-persuadir, de uma verdade clara. Verdade é que muitos se-persuadem, da-aparencia: mas tambem é certo, que os-move a verdade, que nela imaginam. Asimque só a verdade é a que persuade, quando se-lhe-dá atensam. A forsa que os omens fazem, para divertir os olhos do-intendimento, para outra parte; é a que impede, que a verdade nam triumfe, produzindo o seu efeito, que é a persuazam. Nisto é que está o empenho do-Orador, em descobrir a verdade: mostrála em toda a sua clareza: e manifestar o erro oposto. Nisto se-distingue o verdadeiro Orador, do-Declamador. Este, contentando-se das-aparencias, veste o _erro_ com a mascara da-_verdade_: o Orador porem descobre e manifesta o _erro_, e poem a _verdade_ em toda a sua luz.
Orar nam é inganar, é sim introduzir no-animo, alguma verdade importante. Mas muitas vezes os Oradores, tem mais necesidade, de convencer o erro, doque establecer alguma verdade notoria. Ninguem toma o trabalho de persuadir, que Deus castiga, e premeia: isto sabem todos os ouvintes: o ponto está em mover os omens à penitencia, mostrando o grande erro, de a-deferir para a ora da-morte. Em descobrir o erro, é que deve cuidar muito o Orador. Os omens nam se-inganam nas consequencias, porque comumente deduzem-nas muito bem: o em que se-inganam é, nos-principios; porque, por-falta de exame, recebem uns falsos, como se fosem verdadeiros. Deve pois o Orador, mostrar a falsidade destes principios. deve mostrar-lhe em que diseram bem, e em que faláram inganados. Desta sorte mostrando-lhe a verdade, se a materia o-pede; ou, se é notoria, descobrindo-lhe bem o erro, se-consegue o fim da-persuazam.
Mas nam basta isto, para persuadir: e sam necesarias outras circunstancias, para introduzir no-animo, a verdade. A primeira é, a atensam. Que importa, que o Sol alumeie o Mundo, se eu depropozito me-retiro em uma caza oscura; ou polo menos, nam dou atensam aos objetos, que se-me-propoem? Damesma sorte importa pouco, que a verdade seja notoria, e o erro muito bem convencido; se eu nam faso atensam para uma, nem para outra coiza. Deve pois com cuidado o Orador, excitar a atensam: e como as coizas ordinarias, nam conseguem isto, mas sim a singularidade e novidade; deve o Orador, vestir iso mesmo que diz, de uma certa novidade, que o-reprezente singular. As Figuras dam esta novidade às coizas: e por-iso elas sam, as que movem muito a atensam: dando a intender, que o objeto é novo, é grande, é singular. Certo amigo meu, descrevendo a cara de uma molher, igualmente feia, e desvanecida; soube dar tal novidade a este asumto, que é bem umilde, e esteril; que com gosto se-lia a descrisam, do-principio até o fim. Porei aqui um soneto, que fez ao dito asumto, e que tem o mesmo artificio.
_Es feia: mas desorte, que orroroza À tua vista é bela a feialdade. Mas tens fortuna tal, que a enormidade Te-consegue os tributos de formoza. Cara tam feia, coiza tam pasmoza Todos observam, e move a raridade. Nam desperta o comum, a curzidade: Ser rara, é que te-adûla vaidoza. Ama-se o Belo, e cega o mesmo afeto. O Feio, pois nam liga o pensamento, Deixa miudamente ver o objeto. Iso faz, que se-observe ese portento. Quanto estás obrigada, a ese aspeto; Se no-enorme te-dá merecimento!_
O outro importante ponto, de excitar a atensam é, nam mostrar o objeto, que se-propoem, senam quando a atensam, ja nam é necesaria. Embebido o omem da-curiozidade, de saber o que se-propoem, vendo sempre coizas novas, e que prometem despois de si, outras maiores; vai seguindo com a considerasam o Orador, atéque lhe-explique, a inteira sustancia do-negocio. Asim se-conserva o ouvinte atento; e, estando atento, se-lhe-introduzem, as verdades que se-querem. Nos-Poetas de algum nome verá V. P. este artificio, bem executado: e tambem em muitos Prozadores. O mesmo Gracian no-seu Criticon, ingenha desorte a narrasam, das-figuras que introduz; que acaba o capitulo, quando se-á-de explicar, algum grande fato: e rezervando a solusam, para o seguinte, conduz o leitor, desde o principio até o fim, sempre com curiozidade de ler. Este tambem é o artificio mais comum, das-orasoens de Cicero, e de alguns Oradores modernos, que o-souberam imitar: como eruditamente adverte, um grande Retorico da-minha Religiam[65]. E nisto é que se-distingue o Orador, do-Filozofo. Ambos tem por-objeto, a Verdade: mas o Filozofo nam costuma, mover a vontade: contenta-se, de expor as razoens: porem se acazo nam acha um leitor, sem prejuizos e preocupasoens nam conclue nada. Mas o Orador move as paixoens: excita a curiozidade: mostra a verdade de tantos modos, com tanta clareza, com tanta eficacia: desfaz os prejuizos com tanto estudo; que finalmente convence o ouvinte.
O 3.^o ponto importante é, saber ganhar a vontade, ou insinuar-se, no-animo dos-ouvîntes. A Verdade, diz o proverbio, é amargoza: e uma verdade nua e crua, proposta a uma pesoa, que as-nam-coze bem, é dura de digerir. Deve pois o Retorico, insinuar-se galantemente, no-animo dos-ouvintes: propondo-lhe a verdade, vestida de um tal modo, que ele a-admita, quazi sem advertir. V.P. ja sabe, que as pirolas de quinaquina, e outras tais amargozas, se-cobrem com marmelada, ou obreia branca, para se-engulirem sem dificuldade. Eu sei muito bem, que este negocio, nam está na esfera, de todos os Pregadores. Requer grande pratica do-mundo: grande-conhecimento dos-omens: do-modo com que obram, e com que se-excitam as paixoens: finalmente uma Filozofia particular, que descubra a origem de todos os movimentos do-animo: lisam de bons autores: e perfeita sagacidade: qualidades todas que pouquisimos chegam a conhecer, quanto mais posuîr.
Julga-se comumente, e nam sem razam, que o conceito que os ouvintes tem, da-virtude e merecimento do-Pregador; conduz muito, para se-persuadirem. Quem vai ouvir um omem, de quem é fama comua, ser muito santo, ou muito douto; vai meio convertido, ou persuadido. Em todas as Aldeias, á-de aver um barbeiro, que julgue de sermoens: o qual é estimado, como o omem mais inteligente. Os Aldeioens talvez nam ouvem, o que diz o Pregador; mas estam atentisimos aos movimentos, que faz o barbeiro: se este aprova o discurso, o Pregador é famozo. Asim se-vive nam só nas Aldeias, mas tambem nas Cidades. Sam poucos os omens capazes, de julgarem por-si: mas vem, ouvem, e julgam, polos sentidos dos-outros. A prevensam pois com que se-ouve um omem, é aquela que, entre a maior parte dos-omens, decide do-seu merecimento: e esta tal opiniam de merecimento, é a que faz receber com agrado, os discursos: os quais, quando nam acham opozisam no-animo, produzem todo o seu efeito. E asim deve o Pregador, mostrar-se digno de o-ser: deve pregar primeiro com as obras, que só entam os seus discursos, seram bem recebidos, e os seus ouvintes ficarám persuadidos, do-que lhe-propoem. Mas devem estas virtudes ser verdadeiras, porque sem iso, nada conclûem.
Em 4.ᵒ lugar, deve cuidar muito o Orador, em nam ofender com palavras, os seus ouvintes. Os Omens nam gostam, de repreensoens publicas: e parece que com razam. Tudo se-pode persuadir, com bom modo: e facilmente concordamos no-que nos-dizem, se ouvimos as razoens, propostas com amizade, e com brandura: e propostas por-um omem, que nam faz vaidade da-Eloquencia: que nam ostenta triumfos: mas que utilmente se-serve dela, para nos-inclinar, para onde devemos.
Em quinto lugar, é necesario tambem, mostrar aos ouvintes a utilidade, daquilo que lhe-propoem: mostrar-se parcial dos-seus intereses, para os-poder trazer, para a parte contraria. Nós facilmente damos orelhas àqueles, que intendemos obram, polo noso mesmo motivo; e estam persuadidos, da-mesma paixam. Por-iso é muitas vezes necesario, nam condenar tudo quanto eles dizem: louvar alguma parte, para podermos condenar a outra, com mais eficacia, e efeito. É necesario, saber dizer mal nas ocazioens, modificando a censura, com alguns elogios. Observei sempre, que um omem que nega tudo, ou concede tudo, nam conclûe nada. Devemos dar lugar à prevensam; e algumas vezes dar tempo à colera: esfogada a qual, entam é que pode ter lugar, a persuazam. Para isto requer-se doutrina, prudencia, afabilidade, e outras muitas virtudes.
Deve em 6.ᵒ lugar, saber excitar propriamente, as paixoens; e inspirar aquelas que sam proprias, para mover o Omem. Sam as paixoens as que nos-movem: e nam á coiza, que nam posa fazer um omem, se-acazo se-lhe-excitou, a paixam proporcionada. Nisto pois é que deve estudar o Orador: inspirando aquelas, que sam necesarias, para abrasar a verdade que propoem. Para isto é necesario, estudar bem as paixoens do-animo; porque, sem estas machinas, é certo, que nada obram os Omens. Isto que até aqui temos dito, abrasa todo o genero de orasoens, e sermoens: mas especialmente se-devem notar algumas coizas, para a eloquencia do-pulpito: que compreende duas sortes de orasoens, Panegiricas, e Morais.
Em primeiro lugar é uma ridicularia e impropriedade, tomar um texto da-Escritura, para fazer um panegirico Funebre. Nam é o asumto, explicar a Escritura: mas sim engrandecer, as virtudes todas daquele omem; paraque todos o-imitem: e consolar o auditorio da-sua perda, com a vista dos-monumentos, das-suas singulares prerogativas. Onde deve-se descrever a vida dele; tomando as asoens mais famozas, e deixando menudencias ridiculas, que nam dam maior ideia, da-dita pesoa. Devem-se narrar, e engrandecer as asoens: deve-se na exagerasam empregar todo o artificio da-Retorica; sem degenerar naquelas ridicularias, que todos os momentos vemos: a Istoria, o exemplo pode dar novo lustre, às mesmas virtudes. Mas sempre devemos ter diante dos-olhos, que uma coiza é orasam, em que se-persuade, a execusam da-virtude; e outra panegirico: naquela tem lugar, os textos da-Escritura; nesta de nenhuma sorte. Em uma palavra, todo o artificio que se-deve praticar, em todas as orasoens exornativas, que ou louvam, ou vituperam; consiste em narrar, e amplificar. Desorteque, para nam fazer istoria, deve nam só narrar; mas de tal sorte distribuir a narrasam, que despois de narrar um fato, ou uma serie de fatos, que pertensem ao mesmo ponto; os-amplifique: e asim mostre o seu juizo, na narrasam; e a sua eloquencia, na amplificasam[66]. Como todas as orasoens do-_genero demonstrativo_, tenham estado de comparasam, porque nam se-disputa, _an res sit_, mas _quanta sit_: deve ser o principal artificio do-Orador, introduzir a controversia conjetural; com que manifeste, a grandeza da-asám, considerando miudamente todas as coizas, que a-podem relevar. Despois, conjeturar das-virtudes pasadas, o que ele faria nestas, ou em outras circunstancias &c. Podem tambem nestes panegiricos ter lugar, diversos outros artificios, de controversia Definitiva, Translativa, e Judicial; praticados polos antigos Retoricos: os quais conduzem muito, para este mesmo fim.
Quanto à dispozisam dos-argumentos, aconselha Cicero, que primeiro se-toquem, os bens externos, quero dizer, da-gerasam: despois, os do-corpo, e os do-animo. Quanto às asoens, que ou se-siga a ordem dos-tempos, ou se-reduzam a diversos titulos de virtudes[67]. Desta sorte narrando, e amplificando, se-poderá formar, um panegirico perfeito.