Triste Fim de Polycarpo Quaresma
Part 16
«Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi ha quasi duas semanas. Justamente quando ella me chegou ás mãos, acabava de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas que me levou á cama e traz-me-á unia convalescença longa. Que combate, minha filha! Que horror! Quando me lembro delle, passo as mãos pelos olhos como para afastar uma visão má. Fiquei com um horror á guerra que ninguem póde avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas, clarões sinistros, imprecações--e tudo isto no seio da treva profunda da noite... Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batiamo-nos á bayoneta, a coronhadas, a machado, a facão. Filha: um combate de troglodytas, um cousa prehistorica... Eu duvido, eu duvido, duvido da justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo e necessario ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida, aquella ferocidade que se fez e se depositou em nós nos millenarios combates com as féras, quando disputavamos a terra e ellas... Eu não vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon do Néanderthal armados com machados de silex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo, tambem fez das suas, tambem foi descobrir dentro do si muita brutalidade, muita ferocidade, muita crueldade... Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguem emfim... Não imaginas como isto faz-me soffrer... Quando cahi em baixo de uma carreta, o que me doia não era a ferida, era a alma, era a consciencia; e Ricardo, que foi ferido e cahiu ao meu lado, a gemer e pedir--_capitão, meu gorro; meu gorro_!--parecia que era o meu proprio pensamento que ironizava o meu destino...
Esta vida é absurda e illogica; eu já tenho medo de viver, Adelaide. Tenho medo, porque não sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol...
O melhor é não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes encargos, irei viver na quietude, na quietude mais absoluta possivel, para que do fundo de mim mesmo ou do mysterio das cousas não provoque a minha acção o apparecimento de energias extranhas á minha vontade, que mais me façam soffrer e tirem o doce sabor de viver...
Além do que, penso que todo este meu sacrificio tem sido inutil. Tudo o que nelle puz de pensamento não foi attingido; e o sangue que derramei, e o soffrimento que vou soffrer toda a vida, foram empregados, foram gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralisados em pról de uma tolice politica qualquer...
Ninguem comprehende o que quero, ninguem deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo, maniaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade».
* * * * *
Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era porém, delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos. Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o soffrimento de Quaresma era profundamente moral, o de Coração dos Outros era physico e não se cançava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara até á posição de combatente.
Os hospitaes em que tratavam estavam separados pela bahia, agora intransponivel, exigindo a viagem de uma margem á outra bem doze horas por estrada de ferro.
Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela estação em que morava. O trem, porém, não parava, e elle se limitou a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquelle seu «Socego», de terras pobres e arvores velhas, onde sonhara repousar calmamente por toda a vida; e, entretanto, o lançara na mais terrivel das aventuras.
E elle perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro socego, onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo qual tanto anceiava, depois dos sacolejamentos por que vinha passando--onde? E o mappa dos continentes, as cartas dos paizes, as plantas das cidades, passavam-lhe pelos olhos e não viu, não encontrou um paiz, uma provincia, uma cidade, uma rua onde o houvesse.
A sua sensação era de fadiga, não physica, mas moral r intellectual. Tinha vontade de não mais pensar, de não mais amar: queria, comtudo, viver, por prazer physico, pela sensação material pura e simples de viver.
Assim, convalesceu longamente, demoradamente, melancolicamente, sem uma visita, sem ver uma face amiga.
Coleoni e familia se haviam retirado para fóra; o General, por preguiça e desleixo, não viera vel-o. Vivia só, envolvido na suavidade da convalescença, a pensar no Destino, na sua vida, nas suas idéas e mais que tudo nas suas desillusões.
Entretanto, a revolta na bahia chegava ao fim; toda a gente já presentia isso e queria esse allivio.
O Almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim com tristeza. O primeiro via fugir o seu sonho de commandar uma esquadra e a consequente volta para o quadro; e o General sentia perder a sua commissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notavel melhorar a situação da familia.
Naquella manhã, bem cedo, D. Maricota accordara o marido:
--Chico, levanta-te! Olha que tens que ir á missa do Senador Clarimundo...
Ouvindo a recommendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do leito. Era preciso não faltar. A sua presença se impunha e significava muito. Clarimundo fôra um republicano historico, agitador, tribuno temido, no tempo do Imperio; após a Republica, porém, não apresentara aos seus pares do Senado nada de util e bemfasejo. Embora assim, a sua influencia ficara sendo grande; e, com diversos outros, era chamado patriarcha da Republica. Ha nos proceres republicanos uma necessidade extraordinaria de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro, a que elles se recommendam com teimoso interesse.
Clarimundo era um desses proceres e, durante a commoção, não se sabia bem porque, o seu prestigio cresceu e já se falava nelle para substituir o Marechal. Albernaz conhecera-o vagamente, mas assistir a sua missa era quasi uma affirmação politica.
A dor da morte da filha já se esvaira muito na sua memoria. O que o fazia soffrer era aquella semi-vida da moça, mergulhada na loucura e na molestia. A morte tem a virtude de ser brusca, de chocar, mas não corroer, como essas molestias duradouras nas pessoas amadas: passado que é o choque, vai ficando em nós uma suave recordação do ente querido, uma boa physionomia sempre presente aos nossos olhos.
Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua jovialidade natural foram voltando insensivelmente.
Obediente á mulher, preparou-se, vestiu-se e sahiu. Comquanto se estivesse ainda em plena revolta, esses officios funebres se faziam nas igrejas do centro da cidade. O General chegou a tempo e á hora. Havia uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assignar as listas de presença. Não tanto que quisessem attestar á familia do morto esse acto delicado; dominava-os, além disso, a esperança de ter os nomes nos jornaes.
Albernaz não deixou de atirar-se tambem a uma das listas que andavam pelas mesas da sacristia; e, quando ia assignar, alguem lhe falou. Era o Almirante. A missa ia começar, mas ambos evitaram entrar na nave cheia, e ficaram a um vão da janella, na sacristia, conversando.
--Então acaba breve, hein?
--Dizem que a esquadra já sahiu de Pernambuco.
Fôra Caldas quem falara primeiro e a resposta do General fel-o sorrir ironico dizendo:
--Emfim...
--A bahia está cercada de canhões, continuou o General, após uma pausa, e o Marechal vai intimal-os a renderem-se.
--Já era tempo, fez Caldas... Commigo, a cousa ja estava acabada... Levar quasi sete mezes para dar cabo de uns calhambeques!...
--Você exagera, Caldas; a cousa não era tão facil assim... E o mar?
--Que fez a esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! si fosse com este seu criado, tinha logo partido e atacado... Sou pelas decisões promptas...
O padre, no interior da igreja, continuava a pedir Deus repouso para a alma do Senador Clarimundo. O mystico cheiro de incenso vinha até elles e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz e da bondade, não os demovia dos seus pensamentos guerreiros.
--Entre nós, adduziu Caldas, não ha mais gente que preste... Isto é um paiz perdido, acaba colonia ingleza...
Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho do chão. Albernaz avançou, meio sarcastico:
--Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma era de progresso vai abrir-se para o Brasil.
--Qual o que! Onde é que você viu um Governo...
--Mais baixo, Caldas!
--...onde é que se viu um Governo que não aproveita as aptidões, abandona-as, deixa-as por ahi vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas riquezas naturaes: jazem por ahi á toa!
A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma porção de homens, todos de negro, ajoelhados, contrictos, batendo nos peitos, a confessar de si para si: _mea culpa, mea maxima culpa_...
Uma restea de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia sobre algumas cabeças.
Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e confessaram tambem: _mea culpa, mea maxima culpa_...
A missa veiu a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmatica. A nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranquillo de immortalidade.
Todos tinham um grande ar de compuncção: amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos pareciam soffrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que penetraram no corpo da igreja, apanharam no ar um sentimento profundo e afivelaram-no ao rosto.
Genelicio tambem viera; elle tinha o vicio das missas das pessoas importantes, dos cartões de pezames, dos cumprimentos em dias de anniversario. Temendo que a memoria não lhe ajudasse, possuia um caderninho onde as datas aniversarias estavam assentadas e as residencias tambem. O indice era organizado com muito cuidado. Não havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante, que, em dia de anniversario, não recebesse os seus parabens, e, por morte, não o levasse á igreja em missa de setimo dia.
O seu traje de luto era de panno grosso, pesado e, olhando-o, lembrava-nos logo de um castigo dantesco.
Na rua, Genelicio escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao Almirante:
--A cousa está p'ra acabar...! Breve...
--E se resistirem? perguntou o General.
--Qual! Não resistem. Corre que já propuzeram rendição... É preciso arranjar uma manifestação ao Marechal...
--Não acredito, fez o Almirante. Conheço muito o Saldanha, é orgulhoso e não se entrega assim...
Genelicio ficou um pouco assustado com a intonação da voz do seu parente; teve medo que elle falasse mais alto, désse na vista e o compromettesse. Calou-se; Albernaz, porem, avançou:
--Não ha orgulho que resista a uma esquadra mais forte.
--Forte! Uns calhambeques, homem!
Caldas continha a custo a furia que lhe ia n'alma. O céo estava azul e calmo. Havia nelle nuvens brancas, leves, esgarçadas, que se moviam lentamente, como velas, naquelle mar infinito. Genelicio olhou-o um pouco e aconselhou:
--Almirante não fale assim... Olhe que...
--Qual! Não tenho medo... Porcarias!...
--Bom, fez Genelicio, eu tenho que ir á rua Primeiro de Março e...
Despediu-se e sahiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão com o seu pince-nez azulado, palmilhando a rua com passo meudo e cauteloso.
Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos, cada um com o seu desgosto e a sua decepção.
Tinham razão: a revolta veiu a acabar d'ahi a dias. A esquadra legal entrou: os officiaes revoltosos se refugiaram nos navios de guerra portuguezes e o Marechal Floriano ficou senhor da bahia.
No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte da população abandonou a cidade, refugiando-se nos suburbios, por baixo das arvores, na casa de amigos ou nos galpões construidos adrede pelo Estado.
Era de ver o terror que se estampava naquellas physionomias, a ancia e a angustia tambem. Levavam trouxas, samburás, pequenas malas; crianças de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de estimação, o passarinho que de ha muito quebrava a tristeza de uma casa pobre.
O que mais mettia medo era o famoso canhão de dynamite, do «Nictheroy», uma espalhafatosa invenção americana, instrumento terrivel, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das montanhas graniticas do Rio.
As crianças e as mulheres, mesmo fóra do alcance de seu poder, temiam ouvir o seu estrondo: entretanto, esse fantasma _yankee_, esse pesadello, essa quasi força da natureza, foi morrer abandonado num caes, desprezado e inoffensivo.
O fim do levante foi um allivio; a cousa já estava, ficando monotona e o Marechal ganhou feições sobrehumanas com a victoria.
Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi destacada para guarnecer a ilha das Enxadas. Innocencio Bustamante continuava a superintender o corpo com muito zelo, do interior do seu gabinete, na estalagem condemnada que lhe servia de quartel. A escripturação estava em dia e era feita com a melhor letra.
Polycarpo acceitou com repugnancia o papel de carcereiro, pois na ilha das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus tormentos d'alma mais cresceram com o exercicio de tal funcção. Quasi os não olhava: tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre elles um conhecia o segredo de sua consciencia.
De resto, todo o systema de idéas que o fizera meter-se na guerra civil se tinha desmoronado. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique IV. Sentia tambem que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos politicos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os moços, que eram muitos, se não havia baixo interesse, existia uma adoração fetichica pela forma republicana, um exagero das virtudes della, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações não podiam achar justos. Era grande a sua desillusão.
Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos dos aspirantes. Havia simples marinheiros; havia inferiores; havia, escreventes e operarios de bordo. Brancos, pretos, mulatos, caboclos, gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha incitado em tal aventura pelo habito de obedecer, gente inteiramente extranha á questão em debate, gente arrancada á força aos lares ou á calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado por miseria; gente ignara, simples, ás vezes cruel e perversa como crianças inconscientes; ás vezes, boa e docil como um cordeiro, mas, enfim, gente sem responsabilidade, sem anceio politico, sem vontade propria, simples automatos nas mãos dos chefes e superiores que a tinham abandonado á mercê do vencedor.
De tarde, elle ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava ainda e as gaivotas continuavam a pescar. Os barcos passavam. Ora, eram lanchas fumarentas que lá iam para fundo da bahia; ora pequenos botes ou canôas, roçando carinhosamente a superficie das aguas, pendendo para lá e para cá, como se as suas alvas velas enfunadas quizessem afagar a espelhenta superficie do abysmo. Os Orgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul immaterial que inebriava, embriagava, como um licor capitoso.
Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade que entrava na sombra, aos beijos sangrentos do occaso.
A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar, meditando, pensando, soffrendo com aquelles lembranças de odios, de sangueiras e ferocidade.
A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do exemplo dellas vinham os crimes que aquella punia, castigava e procurava restringir. Eram negras e desesperadas, as suas idéas; muita vez julgou que delirava.
E então se lamentava por estar sósinho, par não ter um companheiro com quem conversar, que lhe fizesse fugir aquelles tristes pensamentos que o assediavam e se chiavam transformando em obsessão.
Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras: e, mesmo que ali estivesse, os rigores da disciplina não lhe permittiriam uma conversa mais amigavel. Vinha a noite inteiramente, e o silencio e a treva envolviam tudo.
Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da bahia, onde quasi não havia luzes que interrompessem a continuidade do negror nocturno.
Fixava bem os olhos para lá, como se os quizesse habituar a peneirar nas cousas indecifraveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito desapparecer.
Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insomnias e, se queria ler, a attenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito longe do livro.
Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veiu accordal-o pela madrugada:
--Sr. Major, está ahi o _home_ do Itamaraty.
--Que homem?
--O official que vem buscar a turma do Boqueirão.
Sem attinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do visitante. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. Uma escolta estava á porta. Seguiam-no algumas praças, das quaes uma levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna amarellada. A vasta sala estava cheia de corpos, deitados, semi-nus, e havia todo o iris das cores humanas. Uns roncavam, outros dormiam sómente; e quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho, gemeu--ai! Cumprimentaram-se Quaresma e o emissario do Itamaraty, e nada disseram. Ambos tiveram medo de falar. O official despertou um dos prisioneiros e disse para as praças: Levem este.
Seguiu adiante e despertou outro:--onde você esteve? Eu--respondeu o marinheiro--na «Guanabara»... Ah! patife, acudiu o homem do Itamaraty... Este tambem... Levem!...
Os soldados conductores iam até á porta, deixaram o prisioneiro e voltavam.
O official passou por uma porção delles e não fez reparo: adiante, deu com um rapaz claro, franzino, que não dormia. Gritou então: levante-se! O rapaz ergueu-se tremendo.--Onde esteve você? perguntou.--Eu era enfermeiro, retrucou o rapaz.--Que enfermeiro! fez o emissario. Levem este tambem...
--Mas, seu Tenente, deixe-me escrever á minha mãe, pediu o rapaz quasi chorando.
--Que mãe respondeu o homem do Itamaraty. Siga! Vá!
E assim foi uma duzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta, a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fóra das aguas da ilha.
Quaresma não atinou de prompto com o sentido da scena e foi, após o afastamento da lancha, que elle encontrou uma explicação.
Não deixou de pensar então por que força mysteriosa, por que injuncção ironica elle se tinha misturado em tão tenebrosos acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regimen...
A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro as pedras do caes. A esteira da embarcação estrellejava phosphorescente. No alto, num céo negro e profundo, as estrellas brilhavam serenamente.
A lancha desappareceu nas trevas do fundo da bahia. Para onde ia? Para o Boqueirão...
V
A AFILHADA
Como lhe parecia illogico com elle mesmo estar ali mettido naquelle estreito calabouço. Pois elle, o Quaresma placido, o Quaresma de tão profundos pensamentos patrioticos, merecia aquelle triste fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que elle pudesse presentir o seu extravagante proposito, tão apparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido elle com os seus actos passados, com as suas acções encadeiadas no tempo, que fizera com que aquelle velho deus docilmente o trouxesse até á execução de tal designio? Ou teriam sido os factos externos, que venceram a elle, Quaresma, e fizeram-n'o escravo da sentença da omnipotente divindade? Elle não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se baralhavam, se emmaranhavam e a conclusão certa e exacta lhe fugia.
Não estava ali ha muitas horas. Fôra preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama; e, pelo calculo approximado do tempo, pois estava sem relogio e mesmo se o tivesse não poderia consultal-o á fraca luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
Porque estava preso? Ao certo não sabia; o official que o conduzira, nada lhe quizera dizer; e, desde que sahira da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguem, não vira nenhum conhecido no caminho, nem o proprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um gesto, trazer socego ás suas duvidas. Entretanto, elle attribuia a prisão á carta que escrevera ao Presidente, protestando contra a scena que presenciara na vespera.
Não se pudera conter. Aquella leva de desgraça a sahir assim, as deshonras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos puzera diante dos seus olhos todos os seus principios moraes; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana: e elle escrevera a carta com vehemencia, com paixão, indignado. Nada omittiu do seu pensamento: falou claro, franca e nitidamente.
Deve ser por isso que elle estava ali naquella masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma féra, como um criminoso, sepultado na treva, soffrendo humidade, misturado com os seus detrictos quasi sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquella angustia provocava pensar. Não havia base para qualquer hypothese. Era de conducta tão irregular e incerta o Governo que tudo elle, podia esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquella.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sêde de matar, para affirmar mais a victoria e sentil-a bem na consciencia cousa sua, propria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquella noite mesmo. E que tinha elle feito de sua vida? Nada. Levara toda ella atraz da miragem de estudar a patria, por amal-a e querel-a muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade tambem; e, agora que estava na velhice, como ella o recompensava, como ella o premiava, como ella o condecorava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gosar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara--todo esse lado da existencia que parece fugir um pouco á sua tristeza necessaria, elle não vira, elle não provara, elle não experimentara.
Desde dezoito annos que o tal patriotismo lhe absorvia e por elle fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróes do Brasil? Em nada... O importante é que elle tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupy, do _folk lore_, das suas tentativas agricolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupy encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escarneo; e levou-o á loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ella não era facil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois elle não a viu combater como féras? Pois não a via matar prisioneiros, innumeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma serie, melhor, um encadeiamento de decepções.
A patria que quizera ter era um mytho; era um fantasma criado por elle no silencio do seu gabinete. Nem a physica, nem a moral, nem a intellectual, nem a politica que julgava existir, havia. A que existia de facto, era a do Tenente Antonino, a do Dr. Campos, a do homem do Itamaraty.