Triste Fim de Polycarpo Quaresma

Part 15

Chapter 153,755 wordsPublic domain

Logo que viu Quaresma entrar, o commandante exclamou radiante:

--O Major adivinhou!

Quaresma descançou placidamente o chapéo, bebeu um pouco d'agua, e o Coronel Innocencio explicou a alegria:

--Sabe que temos de marchar?

--Para onde?

--Não sei... Recebi ordem do Itamaraty.

Elle não dizia nunca do Quartel-General, nem mesmo do Ministro da Guerra: era do Itamaraty, do Presidente, do chefe supremo. Parecia que assim dava mais importancia a si mesmo e ao seu batalhão, fazia-o uma especie de batalhão da guarda, favorito e amado do dictador.

Quaresma não se espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossivel obter a licença e tambem necessario mudar os seus estudos: da artilharia, tinha que passar para a infantaria.

--O Major é que vai commandar o corpo, sabia?

--Não, Coronel. E o senhor não vai?

--Não, disse Bustamante, alisando o cavaignac mosaico e abrindo a bocca para o lado esquerdo. Tenho que acabar a organização da unidade e não posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter...

Começava a tarde, quando Quaresma sahiu do quartel. O instructor côxo continuava, com força, magestade e demora, a gritar: hom-brôôô... armas! A sentinella não pôde fazer a bulha da entrada, porque só viu o Major, quando já ia longe. Elle desceu até á cidade e foi ao Correio. Havia alguns tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas continuavam a trocar idéas para a consolidação definitiva da Republica.

Antes de chegar ao Correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a uma livraria e comprou livros sobre infantaria; precisava tambem dos regulamentos: arranjaria no quartel-general.

Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Nictheroy? Não sabia... Não sabia... Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde...

E passou o dia atormentado pela duvida do bom emprego de sua vida e de suas energias.

O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do General. Elle levava a intima convicção de que a sua sciencia toda nova pudesse fazer alguma cousa; mas assim não se deu.

A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco attenuada, o seu organismo cahia. Estava magra e fraca, a ponto de quasi não poder sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto a ella vivia; as irmãs se desinteressavam um pouco, pois as exigencias de sua mocidade levavam-n'as para outros lados.

D. Maricota, tendo perdido todo aquelle antigo fervor pelas festas e bailes, estava sempre no quarto da filha, a consolal-a, animal-a, e, ás vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um tanto culpada pela sua infelicidade.

A molestia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismenia, tinha-lhe diminuido a lassidão, tirado o mortiço dos olhos e os seus lindos cabellos castanhos, com reflexos de ouro, mais bellos se faziam quando cercavam a pallidez de sua face.

Raro era falar muito; e assim foi que, naquelle dia, se espantou muito D. Maricota com a loquacidade da filha.

--Mamãe, quando se casa Lalá?

--Quando se acabar a revolta.

--A revolta ainda não acabou?

A mãe respondeu-lhe e ella esteve um instante calada, olhando o tecto, e, após essa contemplação disse á mãe:

--Mamãe... Eu vou morrer...

As palavras sairam-lhe dos labios, seguras, doces e naturaes.

--Não diga isso, minha filha, adiantou-se D. Maricota. Qual morrer! Você vai ficar boa; seu pai vai levar você para Minas; você engorda, toma forças...

A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como se tratasse de uma criança. Ella ouvia tudo com paciencia e voltou por sua vez serenamente:

--Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa a senhora...

A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em redor, deu com a porta semi-cerrada e levantou-se para fechal-a. Quiz ainda ver se a dissuadia daquelle pensamento; Ismenia, porém, continuava a repetil-o pacientemente docemente, serenamente:

--Eu sei, mamãe.

--Bem. Supponho que é verdade: o que é que você quer?

--Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva.

D. Maricota ainda quiz brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para o outro lado, poz-se a dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe saiu do quarto, commovida, com lagrimas nos olhos e a secreta certeza de que a filha, falava a verdade.

Não tardou muito a se verificar. O Dr. Armando a tinha visitado naquella manhã pela quarta vez; ella parecia melhor, desde alguns dias, falava com discernimento, sentava-se á cama e conversava com prazer.

D. Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue ás irmãs. Ellas foram lá ao quarto varias vezes e parecia dormir. Distrahiram-se.

Ismenia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vel-o mais de perto. Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplal-o. Chegou-lhe o desejo de vestil-o. Poz a saia: e, por ahi, vieram recordações do seu casamento falhado. Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente osseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas não se recordou com odio, antes como se fosse um logar visto ha muito tempo, e que a tivesse impressionado.

De quem ella se lembrava com raiva era da cartomante. Illudindo sua mãe, acompanhada por uma criada, tinha conseguido consultar Mme. Sinhá. Com que indifferença ella lhe respondeu: não volta! Aquillo doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah!... Acabou de abotoar a saia em cima do corpinho, pois não encontrara collete; e foi ao espelho. Viu os seus hombros nús, o seu collo muito branco... Surprehendeu-se. Era della aquillo tudo? Apalpou-se um pouco e depois collocou a corôa. O véo afagou-lhe as espaduas carinhosamente, como um adejo de borboleta. Teve uma fraqueja, uma cousa, deu um ai e cahiu de costas na cama, com as pernas para fóra... Quando a vieram ver, estava morta. Tinha ainda a corda na cabeça e um seio, muito branco e redondo, saltava-lhe do corpinho.

O enterro foi feito no dia immediato e a casa de Albernaz esteve os dous dias cheia, como nos dias de suas melhores festas.

Quaresma foi ao enterro; elle não gostava muito dessa cerimonia; mas veiu, e foi ver a pobre moça, no caixão, coberta de flores, vestida de noiva, com um ar immaculado de imagem. Pouco mudara, entretanto. Era ella mesma ali; era a Ismenia dolente e pobre de nervos, com os seus traços meudos e os seus lindos cabellos, que estava dentro daquellas quatro taboas. A morte tinha fixado a sua pequena belleza e o seu aspecto pueril; e ella ia para a cova com a insignificancia, com a innocencia e a falta de accento proprio que tinha tido em vida.

Contemplando aquelles tristes restos, Quaresma viu caixão do coche parar na porta do cemiterio, atravessar pelas ruas de tumulos--uma multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na estreiteza da varzea e nas encostas das collinas. Algumas sepulturas como se olhavam com affecto e se queriam approximar; em outras, transparecia repugnancia por estarem perto. Havia ali, naquelle mudo laboratorio de decomposições, solicitações incomprehensiveis, repulsões, sympathias e antipathias; havia tumulos arrogantes, vaidosos, orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muitos, recumava o esforço, um esforço extraordinario, para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ella traz ás condições e ás fortunas.

Quaresma ainda contemplava o cadaver da moça e o cemiterio surgia aos seus olhos com as esculpturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e inscripções, em alguns tumulos; noutros, eram pyramides de pedra tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos, cousas barôcas e delirantes, para fugir ao anonymato do tumulo, ao fim dos fins.

As inscripções exuberantes são longas, são breves: têm nomes, têm datas, sobrenomes, filiações, toda a certidão de idade do morto que, lá em baixo, não se póde mais conhecer e é lama putrida.

E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem uma celebridade, uma notabilidade, um desses nomes que enchem decadas e, ás vezes mesmo, já mortos, parece que continuam a viver. Tudo é desconhecido; todas aquelles que querem fugir do tumulo para a memoria dos vivos, são anodynos felizes e mediocres existencias que passaram pelo mundo sem ser notadas.

E lá ia aquella moça por ali afóra para o buraco escuro, para o fim, sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa, de seus sentimentos, de sua alma!

Quaresma quiz afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior da casa. Elle estivera na sala de visitas, onde D. Maricota tambem estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. O Lulú, fardado do Collegio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As irmãs iam e vinham. Na sala de jantar, estava o General silencioso, tendo ao lado Fontes e outros amigos.

Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma passou, pôde ouvir o Almirante dizer:

--Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O Governo está exhausto.

O Major ficou na janella que dava para o quintal. O tecido do céo se tinha adelgaçado; o azul estava sedoso e fino; e tudo tranquillo, sereno e calmo.

A Estephania, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo ao lado Lalá, que levava, de quando em quando, o lenço aos olhos já seccos, a quem aquella dizia:

--Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao «Bonheur des Dames»... Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro.

O Major voltou de novo a contemplar o céo que cobriu o quintal. Tinha uma tranquillidade quasi indifferente. Genelicio appareceu demasiadamente funebre. Todo de preto, elle tinha afivelado ao rosto a mais profunda mascara de tristeza. O seu _pince-nez_ azulado tambem parecia de luto.

Não lhe fôra possivel deixar de ir trabalhar; um serviço urgente, fizera-o indispensavel na repartição.

--É isto, General, disse elle, não esta lá o Dr. Genelicio, nada se faz... Não ha meio da «Marinha» mandar os processos certos... É um relaxamento...

O General não respondeu; estava deveras combalido. Bustamante e Caldas continuavam a conversar baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua. Quinota chegou á sala de jantar:

--Papae, está ahi o coche.

O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou á mulher que se ergueu com a face contrahida, exprimindo uma grande contensão. Os seus cabellos já tinham muitos fios de prata. Não deu um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando. Todos estavam vendo sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelicio tomou um partido: foi retirando os cirios de ao redor do caixão. A mãe levantou-se, veiu até ao esquife, beijou o cadaver: minha filha!

Quaresma adiantou-se, foi sahindo com o chapéo na mão. No corredor, ainda ouviu Estephania dizer a alguem: o coche é bonito.

Saiu. Na rua parecia que havia testa. As crianças da visinhança cercavam-o carro funebre e faziam innocentes commentarios sobre os dourados e enfeites. As grinaldas foram apparecendo e sendo dependuradas nas extremidades das columnas do coche: «Á minha querida filha», «Á minha irmã». As fitas rôxas e pretas, com lettras douradas, moviam-se lentamente ao leve vento que soprava.

Appareceu o caixão, todo roxo, com guarnições do galões dourados, muito brilhantes. Tudo aquillo ia p'ra terra. As janellas se povoaram, de um lado e d'outro da rua; um menino na casa proxima, gritou da rua para o interior: «mamãe, lá vai o enterro da moça»!

O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuario, cujos cavallos, russos, cobertos com uma rede preta, escarvavam o chão cheios de impaciencia.

Aquelles que iam acompanhar até ao cemiterio, procuravam os seus carros. Embarcaram todos, e o enterro rodou.

A esse tempo, na visinhança, alguns pombos immaculadamente brancos, as aves de Venus, ergueram o vôo, ergueram o vôo, ruflando estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo silenciosos, quasi sem bater azas, para o pombal que se occultava nos quintaes burguezes...

IV

O BOQUEIRÃO

O sitio de Quaresma, em Curuzú, voltava aos poucos ao estado de abandono em que elle o encontrara. A herva damninha crescia e cobria tudo. As plantações que fizera, tinham desapparecido na invasão do capim, do carrapicho, das ortigas e outros arbustos. Os arredores da casa offereciam um aspecto desolador, apezar dos esforços de Anastacio, sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice africana, mas baldo de iniciativa, de methodo, de continuidade no esforço.

Um dia capinava aqui, outro dia ali, outro pedaço; assim ia saltando de trecho em trecho, sem fazer trabalho que se visse, permittindo que as terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que não condizia como seu trabalho effectivo.

As formigas voltaram tambem, mais terriveis e depredadoras, vencendo obstaculos, devastando tudo, restos de seara, brotos de fructeiras, até os araçazeiros depenavam com uma energia e bravura que sorriam nos fracos expedientes da intelligencia crestada do antigo escravo, incapaz de achar meios efficazes de batel-as ou afugenta-las.

Entretanto elle cultivava. Era a sua mania, o seu vicio, uma teimosia de caduco. Tinha uma horta que disputava diariamente ás saúvas; e, como os animaes da visinhança a tivessem um dia invadido, elle a protegeu pacientemente com uma cerca de materiaes mais inconcebiveis: latas de kerozene desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, taboas de caixão, não obstante ter á mão bambus á vontade.

Na sua intelligencia havia uma necessidade do tortuoso; do apparentemente facil; e, em tudo elle punha esse geito de sua psyche, tanto no falar, com grandes rodeios, como nos canteiros que traçava, irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo á regularidade, ao parallelismo, á symetria, com um horror artistico.

A revolta tinha tido sobre a politica local effeito pacificador. Todos os partidos se fizeram dedicadamente governistas, de forma que, entre os dous poderosos contendores, o Dr. Campos e o Tenente Antonino, houve um traço de união que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso que ambos disputavam encarniçadamente, chegou um outro mais forte que poz em perigo a segurança de ambos e elles se puzeram em expectativa, um instante unidos.

O candidato foi imposto pelo Governo Central e as eleições chegaram. É um momento bem curioso esse das eleições na roça. Não se sabe bem donde sabem tantos typos exoticos. De tal forma são elles esquesitos que se póde mesmo esperar que appareçam calções e bofes de renda, espadins e gibão. Ha sobrecasacas de cintura, ha calças boca de sino, ha chapéos de seda--todo um museu de indumentaria que aquelles roceiros vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e estradas poeirentas das villas e logarejos. Não faltam tambem os valentões, com calças bombachas e grandes bengalões de piquiá, á espera do que der e vier.

Para a monotona vida que levava D. Adelaide, esse desfile de manequins de museu, por sua porteira, em direcção á secção eleitoral que lhe ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ella passava longo e tristes dias naquelle isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a mulher de Felizardo, a sinhá Chica, uma velha cafusa, especie de Medéa esqueletica, cuja fama de rezadeira pairava por sobre todo o municipio. Não havia quem como ella soubesse rezar dores, cortar febres, curar cobreiros e conhecesse os effeitos das hervas medicinaes: a lingua de vacca, a silvina, o cipó chumbo--toda aquella drogaria que crescia pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de arvores.

Além desse saber que a fazia estimada e respeitavel, tinha tambem a habilidade de assistir partos. Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo remediada, todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes.

Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento domestico em cruz, repetidas vezes, sobre a séde da dor ou da tarefa, rezando em voz baixa, balbuciando preces que afugentavam o espirito maligno que estava ali. Contavam-se della milagres, victorias extraordinarias, denunciadoras do seu extranho poder quasi magico, sobre as forças occultas, que nos perseguem ou nos auxiliam.

Um dos mais curiosos, e era contado em toda a parte e á toda a hora, consistia no afastamento das lagartas. Os vermes haviam dado num feijoal, aos milheiros, cobrindo as folhas e os colmos; o proprietario já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos maravilhosos poderes de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôz cruzes de gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse uma cerca de invisivel material que nellas se apoiasse; deixou uma extremidade aberta e collocou-se na opposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se. Os vermes, num rebanho moroso e serpejante, como se fossem tocados pela vara de um pastor, foram sahindo na sua frente, de vagar, aos dous, aos quatros, aos cinco, aos dez, aos vinte, e um só não ficou.

O doutor Campos não linha absolutamente nenhuma especie de ciume dessa rival. Armou-se de um pequeno desdem pelo poder sobrehumano da mulher, mas não appellou nunca para o arsenal de leis, que vedava o exercicio de sua transcedente medicina. Seria a impopularidade; elle era politico...

No interior, e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as duas medicinas coexistem sem raiva e ambas attendem ás necessidades mentaes e economicas da população.

A da Sinhá Chica, quasi gratis, ia ao encontro da população pobre, daquella em cujos cerebros, por contagio ou herança, ainda vivem os manitus e manipanços, sujeitos a fugirem aos exorcismos, benzeduras e fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente pobre da terra, ali nascida ou criada; havia mesmo recem-chegados de outros ares, italianos, portuguezes e hespanhoes, que se socorriam da sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contagio das crenças ambientes, mas tambem por aquella estranha superstição européa de que todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as coisas malignas e exercer a feitiçaria.

Emquanto a therapeutica fluidica ou herbacea de Sinhá Chica attendia aos miseraveis, aos pobretões, a do doutor Campos era requerida pelos mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina regular e official.

Ás vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas molestias graves, nas complicadas, nas incuraveis, quando as hervas e as rezas da milagrosa nada podiam ou os xaropes e pillulas do doutor eram impotentes.

Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradavel. Vivia sempre mergulhada no seu sonho divino, abysmada nos mysteriosos poderes dos feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos baixos, fixos, de fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de mumia, tanto ella era encarquilhada e secca.

Não esquecia tambem os santos, a santa madre igreja, os mandamentos, as orações orthodoxas; embora não soubesse ler, era forte no cathecismo e conhecia a historia sagrada aos pedaços, adduzindo a elles interpretações suas e interpelações pittorescas.

Com o Appolinario, o famoso capellão das ladainhas, era ella o forte poder espiritual da terra. O vigario ficava relegado a um papel de funccionario, especie de official de registro civil, encarregado dos baptisados e casamentos, pois toda a communicação com Deus e o Invisivel se fazia por intermedio de Sinhá Chica ou do Appolinario. É de dever falar em casamentos, mas bem podiam ser esquecidos, porque a nossa gente pobre faz um reduzido de tal sacramento e a simples mancebia, por toda a parte, substitue a solemne instituição catholica.

Felizardo, o marido della, apparecia pouco em casa de Quaresma; e, se apparecia, era á noite passando os dias pelos mattos com medo do recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já tinha acabado.

Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janella e embrenhando-se na capoeira, á menor bulha ou vida.

Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam á depressão moral dos paes uma pobreza de vigor physico e uma indolencia repugnante. Eram dous rapazes; o mais velho, José, orçava pelos 20 annos; ambos inertes, molles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria, das rezas e benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito do pae.

Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um trabalho continuo. De quando em quando, assim de quinze em quinze dias, faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de cores vivas, um vidro de agua da Colonia, um espelho, bugigangas que denunciavam ainda nelles gostos bastante selvagens.

Passavam então uma semana em casa, a dormir ou á perambular pelas estradas e vendas; á noite, quasi sempre nos dias de festas e domingos, sahiam com a _harmonica_ a tocar peças, no que eram eximios, sendo a presença delles muito requesitada nos bailes da visinhança.

Embora seus paes vivessem em casa de Quaresma, raramente lá appareciam; e, se o faziam, era porque de todo não tinham que comer. Levavam o descuido da vida, a imprevidencia, a ponto de não terem medo do recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e bondade, mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes á natureza, como uma pena ou um castigo.

Essa atonia da nossa população, essa especie de desanimo doentio, de indifferença nirvanesca por tudo e todas as cousas, cercam de uma caligem de tristeza, desesperada a a nossa roça e tira-lhe o encanto, a poesia o o viço seductor de plena natureza.

Parece que nem um dos grandes paizes opprimidos, a Polonia, a Irlanda, a India apresentará o aspecto cataleptico do nosso interior. Tudo ahi dorme, cochila, parece morto; naquelles ha revolta, ha fuga para o sonho; no nosso... Oh!... dorme-se...

A ausencia de Ouaresma trouxera para o seu sitio essa atmosphera geral da roça. O «Socego» parecia dormir, dormir de encantamento, á espera que o principe o viesse despertar.

Machinas agricolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a etiqueta da casa. Aquelles arados de ponta de aço, que tinham chegado com a relha reluzente, de um brilho azulado e doce, estavam hediondos e morriam de tedio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente para o céo mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no gallinheiro, o esvoaçar dos pombos--todo esse hymno matinal de vida, de trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras rosadas e com o chilreio alacre do passaredo; e ninguem sabia ver as paineiras em flor, com as suas lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, cahiam docemente como aves feridas.

D. Adelaide não linha nem gosto nem actividade para superintender aquelles serviços e fruir a poesia da roça. Soffria com a separação do irmão e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os generos na venda e não se incommodava com as cousas do sitio.

Anceiava pela volta da irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, ás quaes elle respondia aconselhando calma, fazendo promessas. A ultima recebida, porém, tinha de sopetão outro accento; não era mais confiante, enthusiastica, trahia desanimo, desalento, mesmo desespero.