Scenas de viagem Exploração entre os rios Taquary e Aquidauana no districto de Miranda : memoria descriptiva

Part 6

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Do conflicto d'esses sentimentos resultárão collisões, cuja lembrança não deve occupar a attenção d'aquelles que aprecião o homem como typo de nobreza, e sujeitão ás suas virtudes moraes, a ordem physica das cousas, brutal e necessaria.

O valor absoluto das idéas do utopista é tão precioso que, ainda com prejuizo da indispensavel necessidade do conhecimento dos homens, devemos desviar os olhos das lições d'aquella perigosa experiencia: bastão os desgostos no correr da vida normal, bastão os desenganos na sociedade polida, no mundo civilisado, em seus eixos, em seu curso natural.

CAPITULO XII

OS INDIOS DO DISTRICTO DE MIRANDA

Em dous importantes grupos se divide a raça india, habitante de Miranda: os _guaycurús_ e os _chanés_. Os primeiros comprehendem tres tribus: a _guaycurú_, propriamente dita, que vai desapparecendo pelo contacto immediato com a gente branca, os _cadiuéos_ que, pelo contrario, conservão-se no estado quasi selvatico, em terrenos proximos aos rios Paraguay e Nabilek, ainda não bem explorados, e os _beaquiéos_ que habitão com os cadiuéos[76].

Os _chanés_ subdividem-se em quatro ramificações: os _terenas_, que constituem os tres quintos da população aborigene, os _laianas_, os _quiniquináos_ e os _guanás_ ou _chooronós_, de entre todos, os mais doceis e civilisados.

A lingua é a mesma para todos estes, com algumas alterações que entretanto não lhes impedem a facil comprehensão reciproca. Os costumes e praticas geraes: o seu typo, porém, conservando um _facies_ bem determinado offerece distincções que assignalão caracteristicamente cada uma d'estas tribus.

O _terena_ é agil e activo: o seu parecer exprime mobilidade; a sua intelligencia é astuciosa e com propensão ao mal. Aceita com difficuldade as nossas idéas e conserva arreigados os seus usos especiaes, talvez por espirito mais firme de liberdade. O homem é robusto, corpulento, de boa estatura; o seu semblante apresenta o nariz um tanto achatado na base; as sobrancelhas pouco obliquas, em alguns individuos bastas e desenhadas com regularidade; ás vezes é pugibarba, outras tem buço e barbas bem apparentes. A desconfiança transluz nos seus olhares inquietos, vivos; a dobrez nos seus gestos. Escondem com gosto os sentimentos que os agitão; fallão com volubilidade, usando do seu idioma sempre que podem, e indicando o aborrecimento em se expressarem em portuguez.

As mulheres são de estatura baixa: tem a cara larga, beiços finos, cabellos grossos e compridos. Ás vezes, o seu typo tem um cunho de amenidade que admira, grande regularidade nas feições e expressão de intelligencia. Trazem commummente parte do busto descoberto e uma julata[77] de algodão cingido abaixo dos seios, com uma das pontas passada entre as coxas e segura na cintura. Raras mulheres sabem fallar o portuguez: todas porém o comprehendem bem, apezar de fingirem não entendel-o. São as mais laboriosas e industriosas da raça india, guardada a relação necessaria entre a actividade e indolencia proprias das nações indias.

O _laiana_ é um typo de transição: tem muito melhores instinctos, menos aversão aos brancos, de cuja lingua se servem sem repugnancia, pelo contrario, com gosto e facilidade. O homem é mais delgado que o terena, menos inquieto; a physionomia com tudo é muito menos viva e intelligente. Os seus habitos de trabalho são mais aproveitaveis, porém menos constantes e esforçados.

As mulheres geralmente são feias: tem os olhos commummente apertados, a côr dubia: não é o avermelhado franco do corpo da terena nem o amarello, algum tanto macilento, da quiniquináo. Entretanto, como em quasi todas as indias chanés, o talho do corpo é elegante e esbelto, as mãos e pés pequenos e delicados.

O typo _quiniquináo_ é já mui diverso dos dous precedentes: o homem traz estampadas no rosto a apathia e placidez: as feições, sem animação, são regulares e proximamente bellas. A sua força de trabalho é muito diminuta: elle passa os dias, deitado sobre um couro pellado, sem saudades do passado, nem receios do futuro; cultiva, com grande custo, alguns cereaes que a familia come na proporção da colheita; se abundante, muito; tudo em poucos dias; se nenhuma, passará a côcos e fructas[78] do mato.

A mulher quiniquináo é bella: pela mistura de raças, facil n'essa tribu mais relacionada com os brancos e negros e encostada a elles, a côr ou é de um amarello escuro de canella (caburé) ou de um branco ligeiramente amarellado. N'este caso, as faces são delicadamente rosadas; a tez pura, os labios rubros, as gengivas vermelhas. Quasi todas comprehendem o portuguez: fazem esforços para fallal-o, apezar do vexame que mostrão experimentar.

O _guaná_, no districto, quasi tem desapparecido nas raças branca, india ou negra, que o cercão. Vimos porém uma india, chamada Antonia, filha de pae quiniquináo e mãe guaná, que, sobre ser um verdadeiro typo de belleza pela venustade do rosto, pelo delicado da epiderme e elegancia do corpo, tinha summa graciosidade e donaire.

Os _guaycurús_, homens em extremo vigorosos, tem as feições brutaes e grosseiras; estatura maior que meiã, avantajada, ás vezes, por modo estranhavel.

O capitão Lapagates, chefe de uma aldêa de cadiuéos, o qual vimos no Tabôco, era um varão imponente, com rosto expressivo e olhar intelligente; tinha no trato uma amenidade bondadosa que muito caracterisava aquelle heróe do forte--Olympo.

É geral a todos os indios aguçarem os dentes, formando pontas finas; é tambem geral usarem de _urucú_[79] e _genipapo_, para pintarem no rosto arabescos, figurando desenhos singulares ou para fingirem barbas e bigodes.

Entre os cadiuéos, comtudo, é isto regalia peculiar ás mulheres e filhas dos capitães: os mais pintão tão sómente ao redor da boca, o que lhes dá aspecto curiosamente feroz.

Esses desenhos são, ás vezes, feitos com muita regularidade, ora simplesmente com alguma tinta corante em vesperas de solemnidades, ora marcados indelevelmente com uma ponta de agulha em brasa.

É tambem commum a todos os indios do districto[80] o habito da mais apurada limpeza: lavão o corpo tres ou quatro vezes por dia; por qualquer tempo que faça, calor ou frio. As mulheres cuidão muito na alvura de seus pannos e procurão sempre andar limpas, exceptas as velhas que dão, com o tempo, de mão a esses cuidados.

Os terenas, como acima dissemos, fórmão a maior parte da população india do districto: as suas aldêas estavão situadas no _Naxedaxe_, a 6 legoas da villa de Miranda; no _Ipêgue_, a 7-{1/2}; na _Cachoeirinha_, e n'um lugar a 3 legoas, constituindo um aldeamento chamado _Grande_, além de outros pequenos centros. Tres a quatro mil individuos moravão n'esses diversos pontos.

Os quiniquináos aldeavão no _Euagaxigo_, a 7 legoas N. E. de Miranda; os guanás no _Eponadigo_ e no _Lauiád_[81], em numero de 30 a 40; e os laianas a meia legoa da villa.

Os guaycurús habitavão no _Lalima_ e perto de _Nioac_ e os indomitos e falsos cadiuéos em _Amagalobida_ e _Nabilek_, para os lados do rio Paraguay.

O aldeamento modelo no Baixo Paraguay era incontestavelmente o do _Mato-Grande_ ou do _Bom-Successo_, perto de Albuquerque, onde os quiniquináos, debaixo da paternal e intelligente direcção do virtuosissimo missionario Frei Marianno de Bagnaia, apresentavão os fructos valiosos da catechese bem entendida. Ahi os indios obrigados a um trabalho regular, vivião na abundancia, entregavão-se a diversos officios e aprendião as artes liberaes. Havia uma banda de musica, toda composta de indigenas. Uma escola de primeiras letras funccionava com numero crescido de alumnos estudiosos e n'ella se incutião os principios de religião, de que tanto necessitão aquellas infelizes creaturas.

Uma tribu, que desappareceu do districto quasi totalmente, é a dos _guaxís_, da qual se encontrão só alguns individuos, confundidos com gente de outra nação. Esta extincção é devida ao habito extraordinariamente immoral da morte dos fetos no ventre das mães, as quaes produzem os vómitos, usando de hervas e raizes apropriadas. Os laianas vão tambem pouco a pouco se extinguindo e, apezar do contacto continuo com os mirandenses, iguaes factos se dão entre quiniquináos e terenas.

Entre os indios acima mencionados, apparecem alguns _caiuás_. Habitantes do norte da republica do Paraguay, nas cabeceiras do rio Aquidaván, são prisioneiros de guerra nas correrias que os cadiuéos costumavão fazer nas terras d'aquella republica. Para esse fim sahião do Nabilek, passavão os campos da Pedra de Cal[82] e, costeando a serra de Dourados, ião ter ás aguas do Iguatemy, contravertente do Aquidaván.

Os caiuás erão vendidos depois e passavão, de mão em mão, na qualidade de captivos, aos quaes chamão _captiveiros_.

A escravidão é a mais doce possivel. O _captiveiro_ faz parte da familia, come com ella, é tratado como filho da casa; tem até regalias especiaes. A senhora irá buscar agua á fonte e lavar a roupa que pertença ao seu escravo e nunca o obrigará a estes serviços. Entretanto os captivos são vendidos com summa facilidade e por qualquer ninharia, apezar da longa convivencia que os unão ao senhor.

Os indios do districto vivem na maior ignorancia e indifferença em materia de religião. A catechese acha-se muito atrazada e tem sido mal dirigida. Poucos quiniquináos conhecem a significação da Cruz e sómente alguns guanás usão de nossas preces.

O mais existe nas maiores trévas: entretanto elles tem na lingua uma palavra para exprimirem Deos, a quem chamão _Nhande-iára_[83].

Cada tribu tem porém um certo numero de _padres_ cantores, os quaes servem ao mesmo tempo de medicos e feiticeiros: são destinados desde a infancia ao sacerdocio e ainda crianças aprendem as poucas cantigas que lhes são particulares. Homens e mulheres servem indistinctamente: nenhum signal os distingue: nenhum respeito os rodêa.

O mais absurdo fetichismo pareceu-nos ser a religião dos padres: por qualquer motivo, colheitas, chuva continua, sol ardente, _pendoar_ do milho, etc., cantarão noites inteiras, denunciando presagios e conversando com a ave _macauán_, que elles fingem chamar de longe, imitando o cantar tristonho.

Este passaro é pois para elles um ente sagrado. Entretanto os outros indios matão o macauán[84] com tão pouca reverencia, que indica o pouco caso que d'elle fazem. Temos por sem duvida que os proprios padres, em occasião opportuna, saboreem a carne d'aquella ave, dando de mão aos principios religiosos e ao encargo de consciencia.

Ás vezes, no meio de suas praticas, o padre faz grosseiros exercicios de prestidigitação: finge engolir pennas compridas, tira-as do nariz, introduz flechas no estomago, etc., etc.; entretanto os seus admiradores são quasi sempre crianças e velhas; os homens passão por diante d'elle, lançando olhares do mais completo indifferentismo, quiçá incredulidade.

O _padre_, para suas vigilias, veste-se com uma _julata_, ornada de lentejóulas e presa á cintura por uma especie de talim de contas; pinta o thorax, braços e cara com genipapo e urucú. Estende um couro diante de sua porta e n'elle caminha, lenta e compassadamente, avançando e recuando, a cantar, ora estrondosamente, ora em voz baixa e monotona, com acompanhamento de um chocalho, que elle segura na mão direita. Na esquerda empunha um espanador feito de pennas de ema e bordado com desenhos caprichosos.

Uma familia inteira póde ser de padres: assim pae, mãe e filhos cantão juntamente noites inteiras, cada um no seu couro, com seu espanador, cabaça e mais adornos; as mulheres, como os homens, trazem a parte superior do corpo núa e pintada.

O canto de madrugada soffre uma parada longa: de repente sôa muito ao longe o grito do _macauán_: responde-lhe o padre; vem-se approximando o passaro com pios cada vez mais proximos, e, afinal, começão as suas revelações ao sacerdote. Essa scena não deixa de impressionar, pois a imitação do cantar do macauán ao longe e successivamente mais e mais perto, é feita com toda a perfeição.

O padre, como medico, é da mais crassa ignorancia; não usa das plantas medicinaes que o rodêão e cujas propriedades medicamentosas parece desconhecer completamente. Elle aparta tão sómente o doente do contacto com os outros, apalpa-o diversas vezes, sopra no lugar enfermo[85] e canta frequentemente, consultando o macauán. É a verdadeira medicina expectante, com formulas charlatanicas proprias da intelligencia do facultativo e do medicando.

Quando o doente fallece, o medico jacta-se de tel-o deixado morrer por gosto[86]; nos casos de cura, recebe presentes e por muitos dias é ainda sustentado pela familia do convalescente[87], a qual tem esta obrigação durante toda a molestia.

Quando morre um individuo, a aldêa toda entra em alvoroto. A casa do morto é invadida, e n'ella levantão-se gemidos e gritos agudissimos, soltos pelo mulherio e crianças[88]. Ora, é um barulho ingente dominado pelo soluçar estrepitoso do parente mais proximo; ora, é um murmurio confuso que dura alguns minutos, recomeçando aquellas lamentações, que se ouvem muito longe.

O corpo fica em casa duas ou tres horas sómente: é logo amarrado em uma rede enfiada n'um varapáo, que vai carregado por dous parentes. O enterro dirige-se para o cemiterio, acompanhado por todas as pessoas das casas por defronte das quaes vai passando; a grita se ergue assim cada vez mais intensa: todos lamentão-se, todos urrão.

No acto de entregar o cadaver á terra, junto á cova matão-se os animaes mais queridos do morto, ao qual enterrão com todos os objectos, que mais affeiçoára. Se, n'esse acto, se apresenta alguem pedindo qualquer animal ou objecto, obtem-o logo sem difficuldade nem paga, ficando desde ahi propriedade d'elle.

Os parentes cedem por esse modo rezes, manadas de egoas, etc., etc., procurando desfazer-se de tudo quanto pertencêra ao defunto.

De volta do cemiterio, o rancho é abandonado: toda a familia muda-se: entretanto, durante muito tempo, conserva-se, na palhada desoccupada, agoa, fogo e cigarros, para que a alma do morto beba, se aqueça e fume.

Eis a idéa que manifestão da immortalidade da alma.

Quando é uma mulher que morre, de volta do enterro, quebrão-se todos os potes, pratos, etc. O rancho tambem é completamente desmanchado.

Os signaes porque os chanés manifestão a sua dôr, são extremamente ruidosos. O seu lamentar é em altos gritos.

Mezes depois do fallecimento de um parente, qualquer recordação[89] provoca scenas de dôr estrepitosa, que é logo acompanhada por todas as velhas da aldêa: assim, o aspecto de um animal que se pareça com um, outr'ora affeiçoado do defunto, o apparecimento da lua, a vista de uma roupagem, são causas de explosão de gritos, que durão muitas horas.

O luto consiste--nas mulheres--em tirar os seus adornos de prata e ouro[90], brincos e collares, e cortar os cabellos na altura das faces:--nos homens--em usar de roupas escuras, sem distinctivos nem enfeites.

A duração do luto varía conforme o gráo de parentesco: o de filho obriga a um anno; de pae e mãe a muito menos tempo.

Perto de nosso rancho de palha, nos Morros, habitava uma pobre india velha que lamentava, noute e dia, da morte de seu filho unico, agarrado pelos paraguayos em fins de 1865 e morto por elles a lançadas. O seu soluçar mostrava a dôr profunda em que jazia, entretanto seus olhos erão seccos e nenhuma lagrima se deslisava pelas rugosas faces. Os indios chorão com muita difficuldade. Ora ella enumerava, n'um cantar monotono, as virtudes de seu filho; ora pedia á lua que recebesse a alma d'elle; ora rogava ao sol que aquecesse o lugar em que fôra alanceado.

Era essa infeliz mulher um typo de dôr materna: estava magra como um esqueleto e vivia n'uma agitação constante.

Quasi sempre aquellas manifestações são indifferentemente patenteadas, quer pelo fallecimento de um homem ou uma mulher, quer pelo de uma criança de peito: em todos os casos, é o mesmo ulular; identicas as ceremonias.

A affeição que as mães demonstrão pelos filhos, que um pae tributa á familia, a amizade que une os irmãos, são edificantes, os extremos tocantes.

Assim os paes servirão com toda a dedicação a seus filhos, que lhes obedecem cegamente. Isto em cada grupo, em cada circulo. Não notámos particular respeito aos velhos, deferencia á velhice, como acontece aos indios da America do norte, de cujos costumes, um tanto poetisados, fez Chateaubriant assumpto de um poema.

D'essa submissão resulta a verdadeira venda que se executa entre o pae de uma mulher nubil e qualquer homem que a queira para companheira ou para mero passatempo: a filha sujeitar-se-ha á imposição paterna, aceitando sem murmurar o esposo, que lhe apresentem ou despresando aquelle, cuja separação aconselharem.

As mulheres amamentão as crianças por tempo indeterminado: vimos rapagotes de seis a sete annos, que vinhão correndo suspender-se aos seios de suas complacentes mães.

Esta pratica faz com que, depois que parem, fiquem as mulheres completamente estragadas: os seus seios, com a prolongada pressão, pendem ao longo do corpo, o qual tambem, pelo habito de carregarem as crianças cavalgando n'um dos quadris, fica arqueado e desengraçado.

O casamento é ceremonia pouco usual: os meios de contrahirem-se nupcias são presentes e dinheiro, fonte d'onde dimana a mais horrorosa immoralidade, visto que a ganancia dos paes simplifica todos os preliminares, que, sem dúvida, erão primitivamente exigidos.

Por dinheiro obtem-se mulher: quer indio, quer branco ou negro, tem necessidade de sujeitar-se ás condições dos paes, os quaes tambem aconselhão ás suas filhas a liberdade a mais completa em materia de fidelidade.

O genio dos indios do districto, em que o ciume é sentimento quasi desconhecido, concorre para desenvolvimento da mais reprovavel devassidão de costumes, augmentada pela indole dos habitantes de Miranda, como adiante mostraremos na parte em que tratarmos das relações entre as duas raças.

No casamento mais regular e muito mais raro, o noivo escolhe a sua esposa, quando ainda ella é criança: trata d'ella, dá-lhe roupa, concorre para a alimentação dos paes dos quaes é considerado filho e recebe tal tratamento.

Aos 10 annos, mal apontão os peitos, ainda não nubil, é a noiva entregue ao seu marido e enrolada com elle n'uma esteira, ao redor da qual os convidados danção, cantando, bebendo aguardente e comendo os presentes que são a parte mais importante do casamento.

Esse habito de entregarem meninas a homens é geral: d'elle tirão os progenitores maior lucro, dimanado da luxuria em seus desmandos brutaes, pois essas infelizes crianças são procuradas e obtem quasi sempre altos preços. É o effeito de idéas desmoralisadoras e nojentas.

Os indios, que são modelos de affeição pelos filhos, que os tratão com amizade extremosa, nenhum mal enxergão n'esses estupros, de que as victimas vem impreterivelmente a soffrer em seu organismo e desenvolvimento.

As mulheres envelhecem com extrema rapidez: aos 14 annos estão na sua maior expansão corporea, aos 20 começão a desmerecer, e aos 30 são velhas (_memés_), cuja decrepidez não se faz esperada.

Para sobrestar essa marcha infallivel e temida, procurarão ellas sempre provocar os móvitos, para o que usão, por conselhos de suas proprias mães e velhas da aldêa, de hervas[91], e sobretudo choques e apertos no ventre. Assim rara é a india, que tenha tres filhos; quasi sempre um ou dous, concebidos na idade em que a faceirice não é de uso.

Nos Morros, havia uma quiniquináo que, com dezesete annos, abortára já seis vezes.

No ultimo parto o feto, completamente desenvolvido, havia sido, na sahida do utero, estrangulado pela propria avó, a qual, desde muito, declarára que só perdoaria, se a criança fosse do sexo masculino.

Tambem era uma familia de padres, em que todos os componentes pae, mãe, filhos e filhas, cantavão de continuo, nos atordoando os ouvidos e perturbando as doces horas do somno. Além d'isso muito se distinguião no brutal brinquedo chamado _tadik_.

É esse jogo um exercicio a sôcos, á maneira do _box_ inglez[92]. Para elle enfileirão-se rapazes, mulheres e crianças uns defronte dos outros, procurando, com o punho fechado, offender a cara do adversario, dando pancadas sómente até o queixo. Muitas vezes, furão-se os olhos, quebrão o nariz e com o esforço chegão a desarticular o polegar.

Assistimos ao _tadik_ entre quiniquináos e terenas e, ao prazer do jogo, união-se sentimentos de grande rivalidade. Entretanto os velhos separavão logo os contendores, quando estes mostravão animosidade excessiva. Os dous partidos, havião tomado os nomes de _luzia_ e _saquarema_, repercussão longinqua das lutas politicas do Brasil! Où-est-ce que la politique s'était nichée?!....

Acabou a festança, bebendo-se _garapa_ fermentada, que substituia a aguardente.

* * * * *

Cada aldêa tem o seu chefe ou capitão, nomeado, ou pelo governo imperial ou pelo respectivo director ou pelo consenso de sua gente. O respeito que elles merecem, é pouco extenso: a subordinação aos chefes é muito limitada; muitas vezes é um mero titulo sem distincção nem regalias.

Quanto mais civilisados, tanto menos consideração os indios tem pelos seus capitães. Os guanás não aceitão mais chefe especial. Os quiniquináos pouco caso fazem do seu velho capitão Flaviano Botelho. Os laianas sujeitão-se mais; emfim os terenas observão tal ou qual deferencia, respeitando mais os seus cabeças de tribu.

Quando viajavamos na margem direita do rio Aquidauana, observavamos as relações que existem entre a civilisação e os filhos das matas.

Em nossos pousos, representavamos (guardadas as proporções e salva a modestia) o centro civilisado: a poucos passos, com a nossa camaradagem, pousavão alguns guanás, mais adiante ficavão os quiniquináos, os quaes, de quando em quando, vinhão misturar-se com a nossa gente; n'um raio duplo, do nosso ponto ao dos quiniquináos, reunião-se os laianas e, afinal, a boa distancia, congregavão-se os terenas.

As relações reciprocas entre esses indios erão de cordialidade algum tanto duvidosa; os terenas são accusados pelos guanás e quiniquináos de máos e inimigos dos brancos e elles accusão aos outros de serem falsos e escravos dos portuguezes[93].

* * * * *

As raças que habitão o districto, partírão evidentemente da margem direita do rio Paraguay, do lugar onde hoje existe a nação enima, de que ellas são naturalmente ramificação. As provas parecem-nos claras e irrecusaveis.

Além da tendencia manifesta que os terenas tem para fugirem para as bandas do Chaco boliviano a reunirem-se com outros da mesma tribu que vivem com os enimas, na lingua existem palavras que demonstrão que a presença dos guanás[94] no districto foi devida a uma grande immigração.

Assim usão frequentemente do termo _maiána_, que quer dizer semelhante, quando referem, a objectos familiares, outros que lhes erão estranhos, por associação natural de idéas.

Chamão pois ao bority--maiana hérena, á semelhança do _carandá_; á anta--maiana camú, semelhante ao cavallo, etc., o que presuppõe o conhecimento do carandá e cavallo, anterior ao do bority e anta.

Ora, os boritys existem em grande quantidade em todo o districto, assim como as antas, e, do outro lado do rio Paraguay não se os conhecem, sendo pelo contrario extremamente communs os carandás e cavallos.

A conclusão é facil e vem em soccorro do que procuramos sustentar.

A lingua guaná, de formação muito irregular, provém evidentemente do guarany: ha n'ella palavras identicas, iguaes; exemplo: iuquí, _sal_; moreví, _anta_;--segundo os laianas: buricá, (guarany) muricá, (guaná) _burro_.

A sua derivação do idioma guaycurú é clara; não só alguns vocabulos servem para as duas nações; exemplo _catépaga_, pacú; _achuánaga_, dourado; mas muitos são sensivelmente modificações, assim é o _aîca_ (guaycurú) e o _acó_ (guaná) que significão _não_.