Part 2
Depois de nova mata e novo charco, o terreno começa a dar mostras de pedregoso, a levantar-se sensivelmente e afinal a subir estreitado entre massas de rochedos até a celebre passagem do Portão de Roma.
Dous massiços erguem-se ahi, cortados a pique, um fronteiro ao outro, deixando intermedia uma estreita trilha, toda embaraçada com grandes lages e matosinhos.
Não sabemos a razão de tal denominação. As difficuldades, os espinhos de sua vereda, a aberta n'um céo anilado, como se nos afigurava, quando subiamos a encosta e viamos duas linhas sombrias destacarem-se na abobada celeste, justificavão muito mais a especificação de _Portão do Paraiso_. A menos de ligar-se á cidade eterna um sentimento muito especial de religiosidade, que nunca correu naturalmente pelo espirito de quem[13] lhe deu o nome, parece elle completamente deslocado n'estas paragens.
O sitio é sobremaneira agreste e sombrio.
Salvador Rosa, nas fragosidades da Calabria, não encontraria melhor typo para seu modo artistico. Um salteador, de arcabuz ao lado, dominando o caminho, outro estirado sobre uma rocha lisa, á espreita, transportarião a scena para aquellas serranias e nem faltavão, para completo da côr local, os _agaves_ (pita[14]), que surgião por entre as fendas, nem a _figueira_ tenaz, a qual, agarrada ás asperezas da pedra, estirava grossos ramos sobre a senda.
Os paraguayos fizerão rolar as carretas de artilharia por essa passagem difficultosissima, que obrigou, para o transito das forças, a um prévio trabalho, feito pelos engenheiros.
Considerado debaixo do ponto de vista scientifico, o Portão de Roma é uma aberta praticada pelas aguas em rochas metamorphicas. Todos os rochedos dos lados e leito da trilha, são de grés argiloso concreto. A verdade tornou-se-nos bem patente, quando, depois de margearmos um pequeno pantanal, subimos o monticulo fronteiro ao alcantil do Portão. Ao longe divisavamos uma serie de montes encadeados, que trazião na superficie diversas linhas continuadas parallelas, as quaes, segundo parece-nos, mostrão as differentes alturas a que tocárão as aguas de um antigo lago geologico, que outr'ora aquella bacia encerrou.
Nos cumulos que forão cobertos de todo e depois rapidamente deixados pela massa liquida, apresentão-se erosões profundas e córtes a prumo, como os que acabavamos de apreciar.
A mesma disposição de rochedos acha-se no Lageadinho, onde acampámos n'esse dia (16) junto a um fio de agua que se deslisava por sobre um chão de pedras, indo de quéda em quéda, perder-se na varzea proxima.
Procuravamos sempre seguir os pousos que as forças, pelas nossas recommendações, devessem escolher: assim proporcionavamos, de antemão, as marchas e attendiamos ás conveniencias dos acampamentos futuros.
Do ribeirão Verde ao Lageadinho tinhamos caminhado duas legoas e um quarto, e, pela natureza do terreno e impedimentos com que se podião contar, era marcha já penosa. Soubemos comtudo, ao depois, que, por ter seccado aquelle lagrimal, contra as informações que haviamos colhido, prolongára-se ella uma legoa além.
No Lageadinho a abundancia de guabirobas (eugenias) forneceu-nos excellentes fructosinhos. Entre todas faremos especial menção da _guavyra_[15], cujo fructo assucarado tem sabor mais agradavel e menos adstringente que o araçá de corôa e é sobretudo muito maior em dimensão.
É um arbusto baixo, de folhas largas, tronco pardacento claro.
Diversas especies de guabirobas ahi se vião, umas do tamanho de plantas fruticulosas, outras frutescentes; umas com fructos miudinhos amarellados, outras com bagas maiores, d'aquella côr ou ainda, esverdeadas.
Á tarde, como de costume, cahio copiosa chuva. Amainou promptamente. Depois d'ella, descambou o sol por traz de nuvens rôxas, orladas de fimbrias de ouro e prata, que, por largo tempo, atirárão lindos reflexos sobre as campinas, até se confundirem com os pallidos clarões da lua, a qual illuminou, com baça luz, os negros penhascos, portaes d'aquella entrada colossal, com que defrontavamos.
Deixando o Lageadinho, fomos, com tres e meia legoas, acampar junto ao corrego da Volta, atravessando sempre campos virentes, cortados ora por fios de agua alimentados pelas chuvas, ora por matasinhas e capões que vão apparecendo mais frequentemente, á medida que raleão os cerrados.
Tinhamos dividido a extensão a viajar. Ao meio dia, depois de duas legoas, descançámos junto ao corrego, chamado do Castelhano, por ter ahi sido, segundo nos disserão os soldados, fuzilado um official paraguayo na occasião da excursão ao Coxim.
Repousámos debaixo da folhosa coberta de uma lixeira (dilleniacea[16]), para comermos um pseudo-jantar, em nada conforme ás regras de Berchoux[17].
.... tu, Tityre, lentus in umbrâ, etc.
Tambem os gastronomos nunca imaginárão a possibilidade de figurar em idyllios, sobretudo a modo dos nossos, e tal vida não comporta exigencias culinarias.
N'esses casos, quanto mais simples o manjar, tanto mais aturavel. Assim um pedaço de carne, fisgada n'um espeto de páo, um pouco de sal, fórmão um _churrasco_ appetitoso que se come com grande gosto, quando o acompanhão algumas colheres de farinha.
No Coxim, comiamos pura e simplesmente o churrasco: o habito custára-nos a adquirir, mas o organismo accommodára-se.
Com a tarde, continuámos viagem, percorrendo mais légoa e meia até uma matinha que o já citado corrego da Volta atravessa. Obrigados pela noute, armámos barracas.... «_Suadentque cadentia sidera somnos_». Infelizmente nuvens de mosquitos se alvoroçárão ao derredor dos ouvidos, perturbando as doces consequencias de um somno reparador, ao passo que imprecações de continuo levantavão-se do grupo dos nossos camaradas, a despeito da fogueira colossal que havião preparado. Assim pois, decidimos nunca mais acampar dentro de matas, abandonando além d'isso aquelle modo de viajar que, sobre não dar o descanço preciso aos animaes, fatiga-os com excesso pelo facto de receberem cargas e serem descarregados quatro vezes seguidamente.
Reunida a nossa recovagem, démos, no dia seguinte, começo á viagem habitual, passando, d'ahi a hora e quarto, o bonito corrego do Perdigão, assim chamado, do nome de um sertanejo que levantára uma choupana junto á sua margem esquerda.
Muitas e bonitas macaúbas[18] dominão o baixo matagal que as cérca, vencendo-as em altura um grupo de _boritys_, cujos fructos attrahião innumeros bandos de aráras, umas todas azues[19], outras de papo vermelho[20] ou amarello alaranjado[21].
A mais que modesta habitação de Perdigão não escapou á furia incendiadora dos paraguayos, ficando como vestigios os esteios carburetados. Ainda sobrevivião á invasão do mato alguns restos de cultura e poucos pés de quingombôs (hibiscus esculentus), e algodoeiros (gossypium), entre aboboreiras e pés de melancia (cucurbita citrullus) resistião ao abandono.
O que levára aquelle pobre fugitivo da sociedade a procurar tão remotos sertões, pisados a vez primeira pela planta de seu pé, abandonando os povoados, alheio a todo o resto do mundo, vivendo vida de exilado? Fôra a necessidade para, por tal preço, obter a impunidade, ou o espirito melancolico de retiramento? Ainda ahi não se achou em salvo: os invasores paraguayos topárão a trilhada que elle abrira e o expulsárão de seus dominios pacificos e incontestados.
Hoje aquella trilha é caminho muito seguido, dando passagem contínua a viajantes, carros e lotes de animaes, de modo que o anachoreta Perdigão deve procurar novos desertos onde vá a gosto «_placatâ omnia mente tueri_», na phrase de Lucrecio.
Do corrego do Perdigão, levou-nos a trilha, depois de 41 minutos de marcha, á mata que intitulámos das _Jaós_[22], pelos incessantes pios que denunciavão ahi a presença d'aquellas aves. É uma gallinacea, do tamanho de um frango, sem cauda, de côr pardacenta clara: anda commummente em terra, dando, como a perdiz, um vôo horisontal e pouco prolongado: a carne é alva e muito delicada.
O seu pio começa por uma nota destacada e alta, a que succedem, com intervallo de dous a tres segundos, tres outras rapidas e mais baixas.
N'essa mata havião os paraguayos deixado uma barcaça (nota D), que vinhão puxando desde o rio Aquidauana, para os casos de passagens de rios: media 45 palmos de comprimento e 4 de boca.
Achando-se em bom estado, com mui pequenas reparações, podia perfeitamente servir para as forças, quando chegassem á margem direita do rio Negro.
N'esse dia fomos, sem chuva, acampar, depois de 2-{1/4} legoas de marcha, perto do corrego _Fundo_, que obrigou-nos á parada pelo estado atoladiço de suas margens, posto que a quantidade de boritys não tornasse difficil o lançamento de um pontilhão, para nos dar segura passagem.
Entre o capim crescia ahi uma linda _orchidea_ terrestre cuja flôr de um rôxo suave, apresentava a massa pollinica pulverulenta, caracter particular á tribu das _neottias_ de Lindley.
Reconhecemos tambem nos campos uma _scrophularinea_ de flôr esverdeada, e uma _bignoniacea_, com caule um tanto sarmentoso, a qual expandia lindas flôres, côr _solferino_ (carmesim ligeiramente roxeado) que vimos depois com admiração nos pantanaes, como adiante o diremos.
Nos cerrados repetem-se os typos com frequencia: mangabeiras (hancornia speciosa, Gomez) com suas candidas flôres hypocrateriformes, muitas myrtaceas, _lixeiras_, grandes e pequenas[23] (dilleniaceas), etc., etc. Entretanto o aspecto de todos elles é muito mais vistoso, continuando a predominar em numero os _araticús_ (anonaceas).
Na margem esquerda do rio Negrinho, a tres legoas do corrego Fundo, as quaes constituírão a marcha do dia 18, acampámos debaixo de magnifica cópa de folhudas arvores, formando um excellente pouso, se não fossemos atormentados pelos muitos _mosquitos_, _muriçócas_ ou _pernilongos_.
Obrigava as vistas uma bella figueira, com volumoso tronco, ao lado de uma _pitombeira_[24], que deu-nos excellentes fructinhos, e a cujos pés florescia uma_ cof[oe]a_ ostentando, nas suas flôres azues, um brilho metallico muito especial.
O rio Negrinho, entre margens sempre umbrosas, vai perto confundir suas aguas com as do rio Negro, trasbordando com extrema facilidade, depois de algumas chuvas e inundando as cercanias. Perto d'elle, haviamos atravessado algumas braças de pessimo transito, pois que o caminho vara por um aguaçal com fundo lodoso. A côr sombria do capim, a tarde que descahia depois de um dia toldado de nuvens e chuvoso, os comoros pardacentos de cupins, tornavão aquella natureza tristonha e melancolica em extremo.
O rio Negrinho não dava commodo váo: passámos por cima de uma pinguela natural que a quéda de um grosso madeiro formára, transportando as nossas cargas ás costas.
Depois de legoa e meia, feita em terrenos já bastante encharcados, ás vezes por extensos almargeaes[25], outras por matas, em que existem bastantemente os _aucurys_ (palmeiras de folha estreita) chegámos ao _Potreiro_, onde um grande rancho de palha abrigou-nos contra a chuva, que começava a cahir e promettia dever de durar.
O Potreiro é um vallesinho, fechado quasi circularmente, por dous ramos da serra de Maracajú, a qual vinhamos avistando, havia mais de dez legoas.
Era ahi que se fazia a reunião do gado, pertencente ao cidadão Alves Ribeiro, com destino ao acampamento do Coxim e cuja obtenção, pela falta de cavalhada, ia se tornando cada vez mais custosa.
O lugar é insalubre, em razão da humidade que ressumbra constantemente do solo: por isso a estada n'esse ponto, prolongada por mais de mez, foi extremamente nociva ás forças, sobretudo quando as aguas, em Maio, contra a expectação, attingirão ao maximo crescimento, nos pantanaes.
No Potreiro organisámos os trabalhos, que deviamos enviar ao commandante das forças: traçámos o caminho topographicamente, acompanhando-o uma ligeira memoria descriptiva, que marcava os pousos e os lugares, onde se tornavão precisos alguns melhoramentos.
O caminho, como já o havemos feito sentir, é uma simples trilha. De natureza argilo-silicosa (época terciaria), póde ser considerado secco, com excepção de alguns pontos, que serião facilmente transpostos. Com exclusão do Portão de Roma, proximidades do Lageadinho, margens de corregos e ribeirões, os declives são sempre bons.
Refazendo-nos de forças e tomando provisão de carne, deixámos o Potreiro no dia 26 de Fevereiro, para dirigirmo-nos á passagem do rio Negro, onde começava a vereda, que dizião ter sido deixada por alguns fugitivos de Miranda.
Ahi nascião tambem as incertezas; dominava a indecisão. Sem guia, iamos correr risco de uma exploração que nos parecia, como realmente o foi, penosissima, cheia de perigos e sobretudo infructifera.
CAPITULO III
A nossa verdadeira missão ia ter principio. Verificar a possibilidade de uma passagem, até o Aquidauana, no tempo das aguas, quando os pantanaes se tornão intransitaveis, seguir, ao longo da serra de Maracajú, uma pretendida senda, que fugitivos havião aberto; observar a natureza dos terrenos e os obstaculos que pudessem impedir a descida das forças nos mezes de Abril e Maio, continuar ainda mais a exploração até o rio Aquidauana, cuja margem esquerda estava occupada pelo inimigo, apromptar os meios de passagem para aquelle rio, era o nosso programma, vasto e brilhante, importando não pequena responsabilidade, mas cuja boa execução principalmente dependia de meios, que não nos tinhão sido ministrados. Oito soldados nos acompanhavão e, d'esses, nenhum tinha conhecimento da tal passagem, aliás com rações, sómente para onze dias, e armados com fuzis de pederneira, nos quaes as balas só entravão partidas!
Um unico machado era propriedade nossa particular.
As chuvas que não cessavão, cahindo de continuo fortes rajadas, havião arruinado, quasi totalmente, a carne preparada no Potreiro, de modo que, de lá, partimos com as provisões meio esgotadas, confiados apenas no muito gado que vaguea pelos campos, por onde deviamos passar. Iamos viajar á tôa, esperançados em que nosso bom fado nos facilitasse caminho e alimento.
Era muito exigir.
Não procuravamos, nem mereciamos a terra de Promissão; nunca nos guiou portanto a nuvem de fogo, nunca nos cahio o manná de Jehovah.
Desde a sahida do Potreiro, comprehendemos as difficuldades que nos esperavão, e forão desde logo se complicando.
As terras, já nimiamente baixas, apresentavão grandes extensões completamente alagadas, a que se seguião matas de _aucurys_ (nota E), onde a humidade continua mantinha o terreno ennatado, sempre lodacento, que nos custou boas horas para vencer.
A trilha ia, além de tudo, tornando-se cada vez mais apagada: as _taquaras_, nos cerrados, cruzavão-se emmaranhadas, deixando apenas passagem para pedestres; nas varzeas, a agua já era muita e as abertas indecisas.
Viagem fadigosa, em que se descarregavão incessantemente os cargueiros, vencendo depois de um dia completo de marcha, legoa e meia tão sómente!
Quasi ao cahir a noute, acossados logo dos mosquitos, entravamos na mata do rio Negro, quando nos deteve os passos uma _corixa_ (nota F), fonte de novas contrariedades.
Esta _corixa_ dava nado em toda sua extensão, obrigando-nos a fazer _pelotas_, que devião transportar nossas cargas. Nada mais expedito: um couro bem secco, levantado nas quatro pontas, que se ligão por cordeis ou tiras, recebe os pesos que, são solidamente amarrados, de modo a formarem um systema immovel, em cima do qual assenta-se o passageiro, como melhor puder. Depois de lançada á agua com todo o cuidado, atira-se um nadador á frente da pelota, levando entre os dentes a cordinha que a guia, ao passo que um segundo ajuda a mantel-a na boa direcção, empurrando-a de quando em quando.
A impressão que recebe o viajante bisonho, ao sentir-se em tão singular embarcação, é profunda; parece-lhe que, a lodo momento, o fragil bóte improvisado vai submergindo-se pouco a pouco e que a agua invade por todos os lados.
Entretanto depois passavamos, com perfeita tranquillidade, não as mansas aguas de corixas, mas a forte correnteza de rios caudalosos, em pelotas que levavão para mais de seis arrobas: tal era a confiança que nos inspirava a pericia natatoria dos irmãos Campos Leite, homens preciosos para esse serviço e incansaveis.
O tempo que haviamos gasto na transposição d'essa corixa, fez com que chegassemos, com a noute já fechada, á margem direita do rio Negro, e, muito depois de nós os animaes de carga e camaradas.
A lua veio então esclarecer a nossa posição, que podia, por momentos, tornar-se muito critica.
De nivel com a margem, corria furioso o rio, parecendo dever trasbordar e invadir o terreno, em que contavamos passar a noute; e a rapidez das aguas, a mataria baixa, com vestigios recentes de uma d'essas temiveis cheias, não pouco nos inquietavão.
Entretanto imaginámos expedientes, que, salvando-nos momentaneamente, não nos promettião agradavel perspectiva: soltar os animaes, suspender as canastras e mais objectos nas arvores mais altas, procurando nós mesmos refugio na rama extrema.
Tivemos crueis momentos de anxiedade.
Por isso, com prazer immenso, indescriptivel, ouvimos um dos soldados gritar: o rio está baixando!
Corremos todos a examinal-o.
A descensão das aguas era, na realidade, sensivel aos olhos: em breve, deixárão meio palmo descoberto, minutos depois, dous palmos e, d'ahi a pouco, meia braça. A facilidade, com que se davão essas oscillações, demonstrão a proximidade das cabeceiras: com effeito, a pouca distancia ficava a serra, d'onde procedem as nascentes do rio.
Á hora em que nos recolhemos, elle baixára mais de braça e, no dia seguinte, as margens estavão barrancosas, como o são normalmente.
O rio Negro apresenta ahi 20 a 30 braças de largura: a velocidade é de 3 a 4 palmos por segundo, profundidade de 10 a 12, não fazendo váo em parte alguma. Depois de um curso muito irregular por terrenos empantanados, recebe o Tabôco, e, ora entre margens, ora espraiando-se pelos campos, vai ter ao rio Paraguay.
As suas proximidades são perigosas pelos paúes, que com elle visinhão: as febres intermittentes, paludosas e outras graves enfermidades originão-se ahi dos miasmas deleterios, produzidos pela acção solar sobre os depositos vegetaes que as enchentes atirão nos campos e abandonão, quando dá-se o escoamento das aguas.
Na etiologia da molestia, que grassou na força e a dizimou, depois da sua estada junto ao rio Negro, a--paralysia dos membros inferiores ou paraplegia--, devem ser assignalados o ar humido e vapores corruptos, que, por mais de mez, respirárão aquelles que se achárão debaixo de sua perniciosa influencia.
O chão, sobre que assentava o acampamento geral, era uma verdadeira _turbeira_: com poucos palmos de profundidade, tiravão os soldados, junto ás barrancas, agua, de poças d'onde sahião páos, que, seccados, servião para alimentar o fogo de suas modestas cosinhas.
Mais tarde fallaremos, com algum desenvolvimento, n'essa enfermidade, que roubou-nos tantos companheiros, n'um curto intervallo de tempo.
Passámos o rio Negro em pelotas, e, ás 10 horas do dia 26 de Fevereiro, achavamo-nos na sua margem esquerda, n'uma estreita trilha que devia-nos guiar, sempre em _rumo certo_, asseverára-nos na vespera, _seriamente_, um indio do Potreiro.
O tal aborigene não professava os principios de Epaminondas: entretanto, ainda n'aquelle dia, davamos á sua asserção toda a fé, a estimavamos valiosa,
«N'aquelle engano d'alma, ledo e cego, Que a fortuna não deixa durar muito.»
Fomos acampar junto á serra que, a 500 braças do rio, ergue-se empinada; e ahi aproveitámos o sol para seccar as nossas roupas, que tinhão-se ensopado em diversos mergulhos de canastra, nos alagadiços.
Diante de nós abrião-se os campos além, com cerrados ao longe; á nossa direita, havia um matosinho com olhos d'agua, e, á esquerda, levantava-se uma serrania elevada, cujos cabeços mais proximos reflectião ao sol, grandes quebradas vermelho-rubras, confundindo-se os mais afastados, n'uma linha continua, com o azul do céo.
A serra de _Maracajú_[26] percorre a direcção constante, media de N. N. E. a S. S. O., desde perto do Piquiry até as ramificações na republica do Paraguay e na provincia do Paraná. Interrompida de quando em quando, ás vezes seguida, e com alturas diversas, destaca ramos, que correm, ou parallelamente, ou ainda perpendicularmente, como o vimos no Potreiro.
A sua estructura geologica é de grés argiloso, compacto em certos pontos; tendo soffrido a acção de aguas, manifestada, em muitos lugares, pelas extensas linhas parallelas, como já o haviamos observado na serra da Cabelleira, em Goyaz, e em todos os serrotes do caminho do Coxim.
É evidente que o lago, cuja existencia parece-nos[27] tão claramente patenteada, tomava proporções de mediterraneo, á vista da extensão occupada, e o estudo comparativo das diversas alturas, que se notão n'essas differentes cadêas, deve trazer resultados interessantes, dando certeza scientifica n'esta curiosa questão.
A serra de Maracajú não foi, de certo, resultado de erupção, mas sim de levantamento, devido a algum terremoto, das camadas da região que a cerca, e que apresenta os mesmos typos geologicos.
A vegetação acompanha as dobras e declives da serra até o topo: só os pedaços de desaggregação achão-se desnudados.
O aspecto que esses pontos apresentão, é quasi sempre regular: ora, são córtes a pique, ora, fórmas abauladas; algumas vezes, á semelhança de arcos com irradiações, outras, traços continuados e dispostos parallelamente: a côr é visivelmente de barro, a disposição schistosa.
Existe controversia sobre o nome que deva ter essa cadêa de montanha: para uns é a serra de Amambahy[28], para outros, de Maracajú. Parece-nos que o primeiro nome só póde convir á sua parte meridional, quando dá nascimento ao rio d'aquelle nome, antes de penetrar no territorio da republica e de estender os seus braços para as provincias do Paraná e Rio-Grande do Sul, a cujo systema oreographico vão pertencer.
No primeiro pouso junto á serra, verificámos que o nosso ultimo pedaço de carne estava arruinado: comemos comtudo um saboroso churrasco de queixada, morto na vespera, cujos restos forão devorados pelos nossos camaradas.
Embaidos com esperanças no muito gado, não consideravamos então o perigo de nossa situação e adormecemos com a doce persuasão, que em breve concluiriamos aquella peregrinação.
No dia seguinte (27) puzemo-nos em marcha, encontrando, logo ao sahir, tres a quatro trilhas, que levavão para direcções mui differentes.
Seguindo, ao acaso, por uma d'ellas, fomos esbarrar n'um pantanal: tomando outra, de volta ao ponto de partida, fomos ter a um matagal impenetravel. Comprehendemos então, que erão ellas formadas pelas pisadas do gado, que deviamos só confiar na bussola, e, quanto nos fosse possivel, ir cortando sempre a rumo sul.
Essa marcha, cançativa para nossos animaes e sobretudo para os homens que nos acompanhavão de pé, não pôde prolongar-se por muito tempo, pela grande quantidade de _sapé_ cortante (anatherium bicorne) e _cragoatás_ (bromelia spinosa).
Esbarrámos de novo com uma mata fechada de _mimosaceas_ espinhosas, que foi necessario rodear, depois de perdermos muito tempo.
Logo depois atravessámos uma campina, coberta por gramineas mui rasteiras, na qual gastámos mais de uma hora, pela natureza do chão fôfo, em que se atolavão os animaes. Observámos que, n'aquellas pradarias perfidas, não se nota o rasto de nenhum animal, e que, por instincto, procurão sempre desviar-se d'ellas, percorrendo uma fita mais solida, intermedia entre o campo e os bosques, que bordão a fralda da serra.
Essa zona, além de difficultosa, a unica viavel, offerece desvios mui longos, voltas muito extensas, de modo que, para marcharmos um quarto de legoa, na boa direcção S., faziamos tres quartos, virando quasi sempre para L., mas raras vezes a O.
A viagem, assim em zig-zag, tornava-se muito monotona; pois que, tomando ponto de referencia em alguns dos cabeços da serra, sempre os viamos na mesma posição em que os tinhamos observado.