Scenas da Roça: Poema de costumes nacionaes
Chapter 2
«Pelas chagas de teu filho, pelas dôres que soffreu, pelo pranto que verteste quando na cruz te morreu, valei-me, Nossa Senhora, nesta dôr que sinto agora!
«Inda a pouco era ditosa, tinha amor, tinha esperança, de um momento de tristeza não tenho a menor lembrança! eu sorria ao ver-me assim; meu sorrir já teve fim...
«De tudo quanto já tive que mais me resta? mais nada! quiz provar-lhe o meu affecto e fui vilmente insultada! Ai, Pedro! que me mataste quando assim me injuriaste!
«Agora que mais espero? que esp'rança mais posso ter? venha a morte e venha breve, que sou feliz se morrer! Que Deus lhe pague em prazer o quanto me fez soffrer.»
XXI
Dona Olympia entreabrio de manso a porta, e sem bulha chegou-se junto a ella, tomou-lhe as mãos nas suas, vio-lhe o pranto, beijou a meiga face da donzella...
XXII
«--Que é isto, minha louquinha? quem é que falla em morrer?! viste um espinho na vida e já te cança o viver! Nas tuas suppostas dôres só recordas-te os amores, mas esqueceste teu pai!... Margarida, és muito ingrata!... queres matal-o?... pois mata! vae pedir a morte, vae!
«Ao pobre e cançado velho que vive do teu carinho, em vez de beijos e abraços, crava-lhe n'alma um espinho! Arrufos de um namorado valem mais que um velho honrado?! Pensas bem, minha afilhada!.. vaes morrer? não te demores! mas o que é isto? não chores! que vale um pai?... quasi nada!
«--Misericordia, madrinha! não falle assim que enlouqueço! meu Deus! qual foi o meu crime que tal castigo mereço?! --Teu crime é não ter juizo.... e sabes o que é preciso? é: pedir a Deus perdão. Limpa esses olhos, menina! a gente assim se amofina; tu choras sem ter rasão!
«--Mas elle está mal commigo e meu pai nem o quer ver! --Cala a boca, te prometto que tudo se ha-de fazer. Socega, filha: descança, se ainda tens confiança na tua velha madrinha! Amanhã em santa paz tudo se arranja e se faz; vae dormir, minha louquinha?»
XXIII
Margarida radiante da alegria que sentia renascer no coração, abraçava com transporte aquella amiga e cobria de mil beijos sua mão.
CANTO SEGUNDO
I
Oh tu quem quer que sejas, meu leitor, attende ao que te digo: a ti o auctor começa por te dar os parabens da somma de pachorra que tu tens, se leste esse arremedo de poesia sem arte, sal, perfumes e harmonia, que p'ra ahi rabisquei sem tom nem som. Já vejo que és rapaz prudente e bom... desculpa o tratamento... as etiquetas exigem luva branca e roupas pretas; mas isto é muito bom p'ra deputados, que vivem simplesmente de apoiados e gastam excellencia a tres por dois... coitados! são mal pagos... e depois sujeitos a caprichos de ministros.... ás vezes trazem rostos tão sinistros, que chego a ter de véras compaixão... Mas dizem que são filhos da eleição?! a culpa é então da mãi que os deu á luz, que tinha atraz da porta aquella cruz, envolta n'um programma e mil projectos p'ra os hombros dos filhotes mais dilectos!... Sê franco, meu leitor, se estou massando, arrólho a discussão e vou tratando do resto d'esta historia que encetei... Palavra, que não sei onde fiquei... Mas... eu te escrevo em mangas de camisa; não olhes p'ra o meu trage... quem precisa pendura com cuidado o paletot, depois de sacudir-lhe bem o pó, e fica assim á fresca muito bem. Quem poupa, meu amigo, sempre tem! não achas que é verdade, ó maganão? pois folgo com a tua opinião. As cousas andam más, tudo está caro! o cobre, santo Deus! anda tão raro!... ao menos lá por casa é uma desgraça! por mais que se trabalhe ou que se faça, por mais que se amofine uma pessoa, vem sempre a dar na mesma, é sempre á tôa, Fallemos n'outra cousa, as digressões arredam sempre o fio ás discussões. Entremos na materia francamente, vejamos o que é feito desta gente.
II
O dia amanheceu bastante frio. No chão, sobre os sofás e nas cadeiras dormiam somno solto os convidados, em duzias de colchões e mil esteiras.
O nosso fazendeiro acordou cêdo, e poz as cosinheiras logo em pé; sentou-se na varanda lendo as folhas á espera que trouxessem-lhe o café.
III
«--Ora bom dia, _seu_ Pedro! --Bom dia, Sr. Medeiros! --Ainda o fazia dormindo e vejo que é dos primeiros!...
«Então estranhou a cama? passou mal, não é verdade? --Não, senhor! pelo contrario, perfeitamente á vontade.
«--Li agora na _Gazeta_ um facto bem curioso! um sujeito, um estrangeiro... mas que homem ardiloso!
«Engole uma espada inteira! que barriga! Ave Maria! --Mas é serio?--Oh! se o não fosse a folha não o diria...
«O que é isto?! onde se atira já de esporas? onde vai?! --Vou... eu ia até lá embaixo. --Não, senhor, hoje, não sahe.
«--Mas escute, _seu_ Medeiros... --Não escuto, não senhor; já queria pôr-se ao fresco? enganou-se, meu amor!
«Ó homem, 'stou te estranhando! você que é tão pagodeiro! --Eu ia vêr se lá embaixo recebia hoje dinheiro...
«--Qual dinheiro, qual historia! eu bem sei o que isto é!... Sabes que mais, pucha um banco e vamos tomar café.
«--Já que de todo é preciso vou lhe fallar francamente... --Pois desembucha, rapaz, fallando se entende a gente.
IV
«--O senhor bem me conhece... não sou homem de questões, nem ando brigando á tôa por qualquer duas razões; mas hontem foi desaforo! o sujeito de namoro co'a minha noiva, e eu ali! isto não é fazer pouco?... parti cégo como um louco... nem sei bem o que senti...
«Eu vinha de orelha em pé ouvindo o palavreado! não sei o que... de epitaphios... e d'ahi por um bocado, agarrou-lhe por um braço e quiz lhe dar um abraço, no momento em que cheguei! fiquei damnado da vida! e co'a cabeça perdida, por milagre o não matei!...
«Depois... não ouvi mais nada... todo este povo a gritar... ouvi o senhor fallando, quando nos veio apartar... mas estou incommodado do negocio se ter dado n'uma casa que eu respeito... em outro qualquer logar, não me importava brigar até um ficar desfeito!...
«--Tudo isso nada vale! não penses nisto, rapaz.... são cousas que a gente moça mais ou menos sempre faz. --Não, senhor, eu bem conheço que isto é máu; mas o que peço é que queira perdoar... ás vezes lá vem um dia... e a gente está de _arrelia_, não se póde dominar...
«--Vamos fallar de outra cousa, isto é pura criançada... que fizeste á Margarida?! --Quando?--Hontem!--Não fiz nada! --Pois olha, metteu-me pena vêr a pobre da pequena chorando, não sei porque... --Ella chorou? mas que tinha? --Não sei, fallou co'a madrinha e a respeito de você.
«--A meu respeito?! e que disse?! --Como já estavas zangado, disseste-lhe alguma cousa... e te excedeste um bocado... --Eu, meu Deus?! ainda mais esta! vejam só que bôa festa! que S. João tenho eu!... e tudo, veja o senhor, por causa desse impostor, desse barbas de judeu!
«É uma nuvem passageira... não te dê isso cuidado; vocês fazem logo as pazes e está o negocio acabado. Falla tambem co'o Simão... o velhote tem razão de estar massado comtigo... foste offender ao coitado, que ficou bem magoado; mas o velho é teu amigo.»
V
Vinha chegando alguem e esta conversa ficou neste logar interrompida; vão pouco a pouco erguendo-se as visitas, renova-se o prazer, renasce a vida.
Estava tudo em pé; porém o Juca? estava ainda no quarto, ainda dormia? «--Ó senhor! vão acordal-o, já é tarde e basta de dormir: é meio dia.»
A mesa estava posta, e o fazendeiro, que o não vira des que o dia amanheceu, abre a porta e só encontra sobre a mesa uma carta p'ra si, que abriu e leu:
VI
«_Meu caro Sr. Medeiros: vou p'ra côrte no trem mixto que sahe d'aqui a uma hora. Desculpe, se faço isto sem lhe ter agradecido o seu bom acolhimento; mas pode estar convencido de que no meu coração, p'ra com vossa senhoria fica eterna gratidão. Se fôr á côrte algum dia contar-lhe-hei como foi a questão. Não tive a culpa; o que lhe peço é desculpa pelo modo desairoso, porque saio da fazenda. Vou bem triste e pesaroso por causa d'essa contenda, que não julguei provocar. São horas de me ir embora... recommende-me á senhora de quem parto penhorado. Adeus, aceite um abraço do seu amigo e criado... JOSÉ DE SOUZA CABAÇO._»
VII
Medeiros releu a carta, dobrou-a, poz na algibeira e disse com seus botões: «--Ora ahi tem a brincadeira!
«Um ficou todo mordido! o outro--todo esfolado!... qualquer dos dois, de juizo não tem sequer um bocado!
«Que dois malucos de força! valha-me a Virgem e o Christo! qual dos dois terá razão?...» e sahio pensando nisto.
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VIII
E os donos da casa empenhados em fazer a reconciliação conversavam co'os noivos e o velho, num cantinho do grande salão.
Houve protestos, desculpas, suspiros, explicações; e afinal lá se entenderam com muito boas razões...
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IX
«--Vamos p'ra mesa, senhores, que o almoço está esfriando! deixemos as ceremonias! cada um vá se sentando.
«Falta aqui um guardanapo... Olympia, manda buscar... quem quer leitão recheiado levante um dedo p'ra o ar.
X
«Senhores, disse o bom Joaquim Medeiros, (e tudo se callou para escutar) eu tenho uma noticia de importancia, que quero a todos vós communicar.
«Ali minha afilhada Margarida, se bem que me escondesse agora o rosto, vae com Pedro, o patusco, felizardo! casar-se p'ra meado ou fins de agosto.
«E como eu sou padrinho do casorio, que ha de effectuar-se na fazenda, convido a todos vós para assistirdes ao nó que não tem pontas, nem se emenda.
«E aqui o _seu_ vigario, que é de casa, aprompta a papellada n'um momento, e ha de me amarrar estes pombinhos benzendo-lhes os anneis do casamento.
«Bebamos, pois, dos noivos á saude! Senhores, a saude é feita em pé! Hurrah! ip! ip! hurrah! vivam os noivos! a coisa é de virar, ip! bangué!»
XI
Simão ergueu-se a custo, e commovido fallou desta maneira aos assistentes:
«--Senhores, quando a alegria nos afoga o coração, não ha palavras que a digam, falta-nos toda a expressão!
Choramos quando soffremos, quando gosamos, sorrimos, mas o riso não exprime o que n'alma nós sentimos.
«Assim 'stou eu; bem quizera dizer-vos neste momento tudo, tudo quanto sinto, qual é o meu contentamento,
«mas não posso, porque é tanta a minha felicidade, que mais me parece um sonho, que pura realidade!
«E sabeis a quem a devo? a quem posso agradecer? quem é que em duas palavras me embriaga de prazer?!
«É aqui a mãi dos pobres e o meu compadre Medeiros! este grande coração! a nata dos fazendeiros!
«Á saude, pois, d'aquelles que não tem ostentação, quando afogam na alegria um mirrado corração!»
E todos gritavam co'os copos erguidos dos donos da casa, bebendo á saude: «Que Deus lhes dê vida, que Deus os conserve p'ra auxilio dos pobres, p'ra amparo á virtude.»
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Passados oito dias de prazer, oito dias de festa e de alegria, vão indo pouco a pouco os convidados saudosos, p'ra o lidar de cada dia.
CANTO TERCEIRO
I
Os peralvilhos da côrte, ou cidades principaes, todos querem ser poetas, todos fazem madrigaes quando estão apaixonados. Em versos estropiados, alguns que tem legoa e tanto, a pobre da musa súa, suspirando á luz da lua em cada suspiro um canto!
Aquelles que nem a tiro se lhes abre a cachimonia, assignam versos roubados com toda a sem ceremonia! Não fazem questão de auctor... querem provar seu amor á deidade que os inspira? lá vão direitos á estante, e d'ali por um instante geme e canta a alheia lyra.
São estes os commodistas e os que tem mais razão... p'ra que quebrar-se a cabeça se ha versos em profusão?! é obra feita, é verdade: mas escolhe-se á vontade onde ha tanto p'ra escolher... lá vai a amostra do panno que um typo fez por engano, por não ter tempo a perder:
II
Oh! virgem pura de meus sonhos lindos, lyrio mimoso dos jardins dos céus! escuta o bardo descantando amores louco, inspirado nesses olhos teus!
Escuta as notas que desprende a lyra embevecida neste amor sublime; nestes accordes, muito embora rudes, só a verdade o meu cantar exprime.
Tu és a fonte inexhaurivel, pura, onde a minh'alma vae a fé beber, symbolo da crença, de esperanças fóco, livro sagrado que me ensina a crêr.
Tu és a gota matinal do orvalho na rubra pet'la de uma flôr louçã, limpido espelho de virtude e graça, estrella d'alva em festival manhã.
Tenra avesinha que em gorgeios ternos a Deus envia o suspiroso canto, visão etherea do sonhar do bardo, miragem bella de sublime encanto.
Tu és a lympha, que em ramaes de prata, borda a campina marchetada em flôres, iris formoso da bonança emblema, casto sacrario de gentis amores.
És tudo, tudo quanto é grande e santo, astro fulgente de brilhante luz! Anjo da Guarda que atravez d'espinhos meus tibios passos ao porvir conduz.
III
Na roça não se usa disto, quem faz cerco a um coração improvisa as suas quadras com a viola na mão.
E na prima e na segunda faz um tal repenicado, que a pequena fica tonta quebrando o sapateado.
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Quem procura a paz do espirito, quem busca a felicidade, ha de encontral-a na roça, raras vezes na cidade.
Ali a vida é mais calma; a mudez da solidão, é como um balsamo santo ás dores do coração.
A doce tranquillidade, que se desfructa no lar, illumina aquellas almas de uma luz crepuscular.
Na festa ha mais alegria... ha no trato amenidade; o homem da roça é o typo da honra e da honestidade.
Se acaso lhes bate á porta um estranho, um forasteiro, tem agasalho e amizade desse povo hospitaleiro.
Sob uma crosta grosseira se encontra a sinceridade, e mais que ninguem conhece as leis da hospitalidade.
Mas se lhes offendem os brios sabem affrontas vingar, que o homem rude do campo não póde insultos tragar.
IV
Chegara em fim o dia suspirado daquellas duas almas, que se amavam: em breve vão-se unir p'ra todo o sempre no laço por que a tanto suspiravam!
Nos meigos olhos della ha mil affectos... as faces se lhe tingem de rubor, e os labios entreabertos côr de rosa parecem repetir:--ventura, amor!
No rosto do mancebo ha um que de vago e certa commoção mal disfarçada! é que é tal a ventura que o espera que duvida vel-a emfim realisada!
V
«--Escuta, minha afilhada, tu hoje vaes te casar... é o passo mais delicado que uma mulher póde dar. A partir desse momento, do nosso procedimento depende todo o futuro. Escuta toda a verdade, se queres a f'licidade, este caminho é seguro.
«No dia do casamento tudo é cheio de illusões!... julgamos tocar ao termo das nossas aspirações. Mezes depois, vamos vendo que já vão arrefecendo nossos sonhos virginaes; passada a illusão primeira, a mulher é a companheira, uma amiga, e nada mais.
«Então é preciso emprego de toda a nossa prudencia, e ter p'ra com o marido a maior condescendencia. Se chega em casa cansado, dar-lhe carinhos e agrado, não perguntar de onde vem; elle mesmo irá dizendo o que andou por lá fazendo, ou se esteve com alguem.
«Nunca sejas ciumenta, nem lh'o dês a conhecer! o ciume, além de inutil, nos envenena o viver. Sê sempre condescendente... não te mostres exigente nem lhe peças sacrificios: um pedido caprichoso, para um marido extremoso, é um dos grandes supplicios.
«Sempre affavel, carinhosa, sempre modesta e asseiada... eis aqui como procede a mulher bem educada. Algumas, infelizmente, ignoram completamente estas verdades, e então dizem que são desgraçadas; mas são ellas as culpadas, é falta de educação.
«Quando em casa não encontram meiguices, consolações, os maridos se aborrecem, vão procurar distracções... e uma vez encetado esse trilho tão errado, é um martyrio esse viver! Deus te livre, Margarida! a ter semelhante vida, melhor te fôra morrer!
«Eis aqui os meus conselhos que sempre tenho seguido; e de cumpril-os á risca não me tenho arrependido. Desde criança a meu lado, has de ter observado como trato teu padrinho; e tenho sido estimada... se queres ser adorada faze o mesmo ao teu Pedrinho.»
VI
Adornada a capricho p'ra este dia, da fazenda a pequena capellinha estava que era um mimo de bom gosto, tão faceira! tão bem arranjadinha!
Sanefas de setim verde e amarello, nas paredes damasco alaranjado, alampadas de prata, quatro lustres, e um soberbo tapete avelludado.
O todo era singelo, doce e grave, incitava não sei que ao coração! noss'alma sem querer a Deus se erguia nesse encanto mental de uma oração.
Lá fóra repicava alegre o sino... festões, arcos e flôres no terreiro, convidados, amigos e parentes, e sempre satisfeito o fazendeiro.
VII
São horas, tudo está prompto; todos seguem p'ra capella. Na frente caminha ella pelo braço da madrinha; logo atraz Pedro, Simão, Medeiros, uma sobrinha do vigario, e a multidão que caminha alegremente em ruidosa confusão. Era um quadro interessante de belleza original o que eu vi naquelle instante: cabeças brancas de neve, rostos graves enrugados pendidos p'ra sepultura, a par de frontes divinas, de olhos meigos namorados derramando mocidade! Oh! como é bella essa idade em que tudo é só prazer! em que a existencia é um sorriso, em que o amor é um paraiso, em que o sonhar é viver! O grupo entrou na capella ajoelhou-se, benzeu-se, resou e depois ergueu-se e cochichava em segredo; mas callou-se de repente quando o padre appareceu. Margarida estremeceu e disse machinalmente: «Agora vou ser feliz.»
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Estava emfim realisado aquelle sonho dourado de su'alma casta e pura! a embriaguez da ventura tornava-a mais que divina! aquellas faces rosadas levemente afogueadas de prazer e commoção, traziam-lhe tal encanto, que eu creio que até um santo succumbia á tentação!
Era finda a ceremonia. Pedro, qu'inda não fallara, por pouco não desmaiara nos braços do fazendeiro, fulminado de alegria! e no sorriso nervoso que d'alma aos labios lhe vinha, quem é que não traduzia o que n'alma o pobre tinha?
Passados alguns momentos, já depois dos comprimentos de todos que os rodeavam, sahiram de braços dados sob uma chuva de flôres que em cima lhe despejavam á porfia, os convidados.
Chegados todos á casa, Simão e Pedro de um lado á meia voz conversavam. Dizia o velho alquebrado: «Nesta filha que te entrego, dou-te tudo quanto tenho, dou-te os olhos, fico cégo, mas risonho e satisfeito... eu já estava tão affeito que não sei como sem elles eu possa agora viver!... ella era o sol bemfazejo ao qual eu me ia aquecer; porém fico descansado, porque em ti achou arrimo.... eu somente o que lastimo é ser velho e não ter nada, não p'ra mim que não preciso, era por ella, coitada! que é um anjo como tu sabes. Olha, Pedro, eu só te peço, se alguma cousa mereço, que trates bem minha filha! minha pobre Margarida! Ella ha de adoçar-te a vida porque é muito carinhosa, e como foi boa filha deve ser tambem esposa.»
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E em quanto o velho fallava da filha por quem vivia, dos olhos se lhe escapava uma baga que rolava e na barba se escondia.
VIII
«--Forma a roda! oh! _seu_ Casusa não fuja, vamos brincar; vá decidir na viola para este povo dançar.
«--Qual o que! o _seu_ Manduca é _cabra_ bom tocador, e eu não vou tirar a espada da mão de um tal jogador.
«--Vamos então ver os dois no desafio pegados... Forma roda! forma roda! quero ouvir esses damnados.»
IX
E emquanto sapateavam, os dois assim descantavam:
«--Meu senhor, me dê licença que eu quero principiar: quero botar uma trova para quem me faz penar.
«--Póde entrar que o matto é limpo, não tem onça, nem queixado, tem somente uma morena por quem ando apaixonado.
«--Obrigado, companheiro, Deus te ajude nos amores; mas quem gosta das morenas soffre penas, sente dôres.
«--Eu bem sei de quem tu gostas, p'ra ella podes cantar; é clara, tem olhos pretos, olhos que te hão de matar.
«--Na barra do teu vestido anda preso um coração, menina, minha menina, da minha veneração.
«--O sipó do matto virgem amarra o jacarandá; assim, morena, em teus olhos ando eu bem preso já.
«--Fui ao matto cortar lenha e encontrei a jurity, ella tinha os seus amores como os eu tenho por ti.
«--Larangeira é pau d'espinho, carangueijo anda na praia, tambem andam meus amores na renda de tua saia.
«--Os teus olhos são de fogo, tua boca é uma roseira, menina, minha menina, quem te fez tão feiticeira?
«--Cachorro ladra na cerca quando vem algum ladrão, assim ladra no meu peito por te ver meu coração.
«--Menina, minha menina, se me não queres matar, dá-me um riso pequenino, que eu sou bom de contentar.
«--No braço tenho talento, tenho prata na goiaca, p'ra quem duvidar, comigo na cintura trago a faca.
«--Você me botou olhado, você mesmo ha-de tirar, e eu só posso ficar bom quando comtigo casar.
«--Ó senhor dono da casa, mande vir alguma cousa; já está co'a guella secca o Manduca Zé de Souza.
«--Sem leitão não ha pagode, sem bebida violeiros; o Casusa está com sêde, mande vir, Sr. Medeiros.»
X
«--Muito bem, muito bem! gritaram todos, qualquer dos dois é um tebas p'ra cantar, e dansam que faz gosto e mette inveja a quem os vê n'um samba a requebrar.
«--Vocês que tomam? vinho ou paraty? --Eu cá já tomei vinho e não misturo... --E dois.--Pois aqui tem, ataquem deste, que é bom, é de patente, é vinho puro.»