Saudades de D. Ignez de Castro

Part 2

Chapter 23,792 wordsPublic domain

Vós agora, troféos da formosura, Apparencias vitaes de ramalhete, Colhey as vélas, porque a pouca altûra Qualquer onda vos mólha o galhardete: Olhay, que a branca Rosa, flor mais pura Acha, se berços, campas no alegrête: Attentay léve flor, bellesa vaã, Que he mais antiga a tarde, que a manhaã.

~FIM~

_da primeyra parte_.

[Ilustração]

[Ilustração]

SEGUNDA PARTE

I.

Ja da fatal tragédia retiradas As restantes ruinas da feresa, Ficaraõ só no cãpo idolatradas Hũas breves reliquias da bellesa: Ausente Pedro, sem que as mal logradas Lamentasse memorias da firmêsa: Taõ dittoso nas magoas se discorre, Que morre ufâno, sem saber que morre.

II.

Queixosa em fim feneçe a galhardia, Solicîta queixûmes a ternûra, Vendo jà no desdem da tyrannia Menos cruel a Parca, que a ventûra: Que como qualquer dote se avalia Por symptôma fatal da formosúra, Aquella mesma ditta, que entre sortes Cumûla prendas, mutiplîca mortes.

III.

Á ventura se queyxa, que a beldade Fosse causa da perda, porque unida Naquellas prendas da melhor idade, Fez acabar rigôr, o que era vida; Mas a Parca tyranna por vaidade Solicita bellesas advertida; Porque dellas talvez se naõ cuidára, Morre fora huma prenda, e só matára.

IV.

Só suspiraõ, só choraõ lastimosas (Que naõ pára nas queyxas a finesa) Aquellas, que restaraõ só piedosas Troyas do amor, reliquias da bellesa: Aquellas, digo, prendas lachrimosas, Dous Infantes gentîs, a que naturesa Deyxou com vida, porque em seu tribûto Fosse a morte da flor vida do fructo.

V.

Qual nos braços da planta mais visinha Em roupas de rubîm, cama olorosa, Sentindo huma lanceta em cada espinha, Sangrada no jardim fenece a Rosa: Consagrando-se flor, quem foy Rainha, Em vivos holocaustos sanguinosa, De cujas cinzas restaõ por grinalda Reliquias de ouro em cófre de esmeralda.

VI.

Que pesáres, que penas, que rigores Amor formáva, cada qual sentia, Qual nos gemidos soluçando amores, Em carinhossas magoas confundia: Qual desmayado no tapiz das flores, Se recosta trophéo da tyrannia, Notando aquelle peito, cujo enfeite Lhe troca em pena, quanto foy deleite.

VII.

Quantas vezes fallando enternecidos, Em soluços lhe pára o doce alento! Quantas na voz do monte repetidos Os saudosos ays lhe torna o vento: Quantas a ser naufragio dos sentidos, Se deriva em chrystaes o sentimento; Pois quer a dor, querendo amor agora, Chórem dous Soes a falta de huma Auróra.

VIII.

Alentado o rigor, duplîca em tiros, Se bem globos de fogo, esphéras de agoa; Naõ resiste Clavêl, que nos retiros, Naõ morra espûma, e naõ feneça fragoa: Multiplica-se o vento nos suspiros, Fogósos rayos lhe despede a magoa: Já naõ sabe nascêr, nem brilhar Rosa, Que naõ pasme defuncta mariposa.

IX.

Nem tribûtaõ lisonjas aos sentidos Nestas mudas razoens, que amor ordena, Que sujeitos amantes desunidos, Aquelle, que mais chóra, esse mais pena: E se lagrimas saõ nos mais sentidos Almas do coraçaõ, bem se condena Qualquer a mais sentir; pois he patente, Que quem mais almas tem, muito mais sẽte.

X.

A solidaõ de Pedro imaginada, Lhe accende as almas, lhe distilla os peytos, Que nem morrêra Ignez, se retirada, Naõ sentira distante os seus effeitos: Que como seja amor, muito apertada, Se gentil, uniaõ de dous sujeitos; Quando matar hum delles amor trata, Se desunir os dous hum só naõ matta.

XI.

Assi passaõ da mágoa a ser espanto Os dous ayos do mimo, os dous Cupìdos, Narciso cada qual do proprio pranto, Phaetontes em fim de seus gemidos: Se foraõ gala da bellesa, em quanto Eraõ gentîs desvelos dos sentidos, Lastimas ficaõ já da tenra idade, Culpas de amor, delictos da beldade.

XII.

Quaes simples avesinhas, que roubadas Ás lisonjas de Abril, mimos de Flora, Dos maternaes alentos apartadas, Suspira cada qual, cada qual chóra: As que foraõ do campo idolatradas Oraculos do Sol, linguas da Auróra, De si mesmas agora occulta fragoa, Concebem pena, quando abortaõ magoa.

XIII.

Mas já funesta voz, turbado alento Por linguas de metal enrouquecido Formava o Semideos monstro violento, Gigante pela fama conhecido. Aquelle, cujo aládo atrevimento Se remonta veloz, e taõ subido; Porque nelle talvez o mundo veja Voarem pennas a pesár da inveja.

XIV,

La fez a túba lastimoso effeito Nos alentos de Pedro, que em suspiros Os mais dos eccos lhe interpréta o peito Dobrando mágoas, renovando tiros: Quando apenas em fim na dôr desfeito O coraçaõ se pasma, que em retiros Suffocado talvez da intensa calma, Se isentou de correr por conta da alma.

XV.

No combáte fatal deste desmayo (Lastimoso parenthesis da vida!) Tribûta vivas ao mortal ensayo, A sentinella da alma já vencida: Naõ morre Pedro, naõ, que aquelle rayo Foy lançada de amor, que repetida, Se pertende matár, a quem suspira, Menos o mata, se lhe a vida tira.

XVI.

Assi vivendo morre, quando amante; Assi morrendo vive, quando ausente; Que se morre, pois pena por distante, Vive tambem, pois ama, porque sente: Mas em fim naõ passâra tanto ávante Nas finesas amor, que fora urgente Acabar-se na vida, se roubára, E taõ fino naõ ser, se naõ matára.

XVII.

Mas quem diria agora o que sentiste Nesta, Pedro, de amor menos ventura, Dos carinhos ausente, que já viste Brotar melindres, produsir brandûra? Oh! que dirias, Pedro, quando abriste Aquelles dous conceitos da ternûra! Os olhos digo; mas amor ordena Parte das queixas interpréte a pena.

XVIII.

Já no pardo capuz, roupas saudosas Emmudecida a terra se encobria, E nos hombros das nuvens tenebrosas Ataúdes de sombra o tempo erguia, Consagrando com tochas lachrimosas Mudas exequias ao defuncto dia, Dando claros sinaes ao Jovem louro Em torres de Zaphir os signos de ouro.

XIX.

Quando a favor da vida o sentimento Novos em Pedro reproduz gemidos, Sendo sumilher da alma o novo alento, Que lhe corre as cortinas aos sentidos: Mas já liquida dôr, claro tormento Se acredita nos olhos advertidos, Que quem nas penas solitario mora, Só lhe resiste vivo, em quanto chora.

XX.

Solicita retîros, em que unidas Se acreditaõ de finas as saudádes, Que saõ mais primorosas, se sentidas, Naõ permittem motivos a piedades: Tributaraõ labéos de mal nascidas; A naõ passarem móstra de vaidades, Quando naõ foraõ mais, que eternisadas, Solitarias, occultas, retiradas.

XXI.

E já nas solidoens entretenido Interpréta lisonjas aos cuidados, Pois vay vendo nas flores advertido Morraes prendas, alinhos mal logrados: Mas apenas se lembra enternecido Daquelles Soes agora imaginados, Quando já vacilante se discorre, Aqui pasma, allî geme, acolá morre.

XXII.

Qual Girasol gigante, que atrevido A beber rayos amoroso aspira, Se bem, que entre zeloso, e presumido Desdenha ufâno, temoroso gira: Mas vendo apenas, que o galân querido Com disfarces de nacar se retira, Porque se vê das glorias todo ausente, Languido pasma, cuidadoso sente.

XXIII.

Em fim rompe nas queixas amorosas Agora Pedro, quando as vê sentidas, Que naõ pódem livrar-se de penosas, Quando sabem fugir a ser ouvidas: E só discretas saõ, se rigorosas, As que menos se presaõ de entendidas; Que já por isso Pedro se as pertende, He só porque a si mesmo naõ se entende.

XXIV.

Ay! gloria minha, diz, gloria sonhada! Minha te chamo, quando assi perdida, Que se naõ tens as veras de lograda, O desár naõ padeces de esquecida: Como gloria maltratas, se lembrada? Como molestas gloria possuida? Na pósse logras ancias de fallivel, Na memoria rigores de impossivel.

XXV.

Como soube deixar-me assi frustrado Este rigor, que gloria se habilita, Quando me fez mayor, que o mesmo Fado, Mayor, que amor, mayor q̃ a mesma dita? Quem me disséra então, que este cuidado Fosse Rosa, que apenas se acredita, Quando se vê nas maõs da naturesa Trophéo da dôr, sangria da bellesa.

XXVI.

Ay triste solidaõ! ay pena ingrata! Quanto menos cruel foras agora, Se permittindo a magoa, que maltrata, Naõ roubáras a gloria, que te adóra: Mas esta dôr naõ fora, que assi mata, Rigoroso pesár, se assi naõ fora; Pois naõ se méde o mal de quem suspira, Pelo que tem, senaõ pelo que tira.

XXVII.

Mas inda mais avante acompanhada Desta dôr outra pena já me alcança; Pois na magoa da perda lamentada Os alivios me rouba da esperança: Mas como, se naõ fora eternisada, Maltratára das glorias a mudança? Que o pesár sem remedio padecido, Mata porque hade ser, e porque ha sido.

XXVIII.

Nem pódem mitigar esta saudade Assistencias de amor, porque resiste Outra nova razaõ da soledade, Que nas distancias desse amor consiste: Que como aquelle objecto da vontade Hoje feito impossivel naõ me assiste, Sendo vinculo amor entre subjeitos, Naõ tendo extremos, naõ produz effeitos.

XXIX.

Só deixára de ser eternisada Esta dor, mas só fora divertida, Se a memoria da pena imaginada Naõ passára a ser pena padecida: Só razão de praser, quando lembrada, Essa gloria tivera, que he perdida, Se sendo assi passada na lembrança Soubéra ser futûra na esperança.

XXX.

Nem queixumes de lagrimas sentidas Alivios pódem ser nesta saudade, Que sendo partes da alma desunidas, Saõ causas naturaes da soledade: Porque quando nos olhos advertidas, Procuraõ fugitivas liberdade, Aquella mesma vida, que me alenta, Tambem nellas partida se me ausenta.

XXXI.

Oh quem me déra já ser assistido Dos penhascos talvez, que o monte cria! Mas quem naõ tem razoens para sentido, Naõ póde ter nas magoas companhia: E hum rigor por ausencias padecido, Com nenhuma presença se alivîa; Que quem nas ancias, que padece hũ triste, Juntamente naõ pena, naõ lhe assiste.

XXXII.

E menos me permitte esta esquivança Ser de vós assistido, lindas flores, Pois por gentis emblemas da mudança Jeroglyphico sois de meus amores: E se produzis glorias na lembrança, Mal podeis assistir a meus rigores; Que naõ faz assistencia nos retiros, Quem motiva principios aos suspiros.

XXXIII.

Nem já, féras, talvez vossa brutesa Resta para topar branda piedade; Mas como póde ser, se a naturesa As noticias vos néga da saudade? E no fatal rigor de huma tristesa, Nos efeitos mortaes da soledade, Naõ póde ser a dor compadecida, Sem que seja na causa conhecida.

XXXIV.

Nem sereis, avesinhas, no saudôso Companheiras gentîs a meus retiros, Que diversos sujeitos no penoso, Tem diversas as magoas nos suspiros: E bem se vê, que o mal todo invejoso Mais a mim, do que a vós fulmina os tiros; Pois nûm rigôr fatal hum, damno esquivo, Mais mata o racional, que o sensitivo.

XXXV.

E menos podeis ser a meus sentidos Deleitoso carinho na saudade, Lisonjeiros arroyos, que atrevidos Solicitaes dos olhos a vaidade: Mas como? se a meus ays, e a meus gemidos Multiplicaes melhor a soledáde; Pois em vós retratado, e descontente, De mim mesmo me vejo estar ausente.

XXXVI.

Mas ainda assi paray, que se melhora Nestas lagrimas minhas vosso augmento: Se professais correntes, como agora Sabeis livres fugir ao sentimento? Paray, naõ murmureis, que nisso fora Muito mais conhecido vosso alento; Olhay que se condena, ou se aventûra, A naõ fazer remansos quem murmûra.

XXXVII.

E vós paray nas queixas amorosas, Galantes cortesans da soledade, Que naõ fazeis os pontos de queixosas Quando dais tantas falsas na saudade: Paray, digo, a meus ays, paray piedosas, Paray nos quebros, tende a liberdade, Aprendereis a ser nestes retiros Hum Féniz cada qual de meus suspiros.

XXXVIII.

Paray gentîs emblemas da vaidade, Flores, digo, paray, paray saudosas, Naõ bebais presunçoens, que a pouca idade Sereis de meus incendios mariposas: Aprendey dos alinhos da beldade, De vossa vida, digo, a ser piedosas; Que sempre foy nas regras da ternûra Muy capaz de liçoens a formosura.

XXXIX.

Paray féras tambem nesses ruidos, Guardas do monte, archeiros da ferêsa, Fazey caso das penas, que os bramîdos Argumentos parecem da brutêsa: Isto basta, paray, que os entendidos Pódem talvez notar vossa estranhesa: Minhas queixas ouvi, que alivio fora, Quem naõ póde fallar, me ouvisse agora.

XL.

Paray broncos penhascos, que o Céo cria Para pardos Atlantes dos retiros, Se vos vence huma liquida porfia, Como já resistis a meus suspiros? Mas oh! que digo! páre a covardia, Exhále o peyto, multiplique os tiros, Duplîque amor, e dobre o sentimento, Agoa nos olhos, nos suspiros vento.

XLI.

Ferîdo o coraçaõ tribûte em fogo Undósa parte, derretido alento, Se liquida sangrîa ao desaffogo, Lisonjeira lancêta ao sentimento: Se excessivo queixúme, ardente rogo, Se verte em nuvem, se distille em vento, Naõ fique planta, que a pesár do espanto, Naõ morra em fogo, naõ se afogue em prãto.

XLII.

Sejaõ linguas dos olhos mudas agoas, Intérpretes da dor tristes retiros, Eloquencias do peito vivas fragoas, Razoens do coraçaõ ternos suspiros, Rhetóricas da pena ardentes magoas, Elegancias de amor dobrados tiros: Emmudeça a razaõ, que só parece, Sabe tambem sentir, quando emmudece.

XLIII.

Distille o coraçaõ, duplique o vento Ethnas a seu pesár, agoas ao rogo; Morra por glorias de seu mesmo alento Troya nas ondas, e Narciso em fogo: Incendios solicîte ao sentimento, Diluvios multiplìque ao desafogo, Sendo de seu rigor o mesmo ensayo, Nas causas nuvem, nos effeitos rayo.

XLIV.

Naõ cresça lirio, que naõ sinta os tiros, Clavél naõ gire, que naõ pasme em fragoas; O que Féniz naõ for entre os suspiros, Morra já Faetonte sobre as agoas: Sejaõ vozes as magoas nos reriros, Que melhor nos retiros se ouvem magoas, Se se póde na dor, que amor ordena, Ouvir a magoa sem sentir a pena.

XLV.

Naõ reste planta, que se atreva a tãto, Que naõ murche dos ays enternecidos, Rosa naõ fique, que, a pesár do espanto, Se naõ séque ludibrio dos gemidos: Em fim, duplique a dor, prodûza o pranto Lastimosos naufragios dos sentidos; Seja neste pesár, nesta esquivança Charybdes da alma o Cabo da esperança.

XLVI.

Mas ay! que as plantas no desdẽ da idade, Mas ay! que as flores no rigor de hũ vento, A naõ serem Jasmins na brevidade, Naõ seriaõ Perpetuas no tormento: Só tu terrivel ancia da saudade Eternizas agora o sentimento; Porque quando matar-me amor ordena, Me deixas vida, com que o corpo pena.

XLVII.

Quem soubéra cuidar, que a mais crescida Tyrannîa cruel da dor mais forte Fosse, quando nas perdas de huma vida Impossiveis sentisse de huma morte: Mas he rigor da magoa repetida Por industria fatal da iniqua sorte; Porque quando talvez matar-me trata, Por topar-me sem vida, naõ me mata.

XLVIII.

E se fora da vida roubadora Esta sorte fatal, tormento esquivo, Tivera só por pena matadora Qualidades de grande no intensivo: Mas naõ, que como amor pertende agora Cumulár intensoens ao sensitivo, Naõ quer, que amor me mate, pois durára Muito menos a pena, se matára.

IL.

Agora alcançarás, prenda querida, Os rigores de amor na minha sorte, Pois agora me quer roubar a vida, Só por ma naõ tirar primeyro a morte: Mas ay! que a pena se duplîca unida: Mas ay! que a magoa se eternisa forte; Pois que vejo na dor do mal esquivo, Que naõ posso morrer, porque naõ vivo.

L.

Mas agora na pena, que me entrega, Vejo, que quer a dôr, e a mais aspira, Que padeça na morte, que o mal nega, E que pene na vida, que amor tira: Aqui verás, Ignez, a quanto chega Esta pena de amor, que amor, conspira; Pois agora naõ sey, no que discorro, Se vivo ausente, nem se ausente morro.

LI.

Mas em fim: que me queixo dos rigores, Com que talvez amor me tyrannisa, Quando mais martyrisaõ seus favores, Onde qualquer lembrança os eternisa: Pois quando apenas se alentaraõ flores, Passaraõ quasi flor, que se agonìa; Por isso a minha queixa mais se ordena A sentir seu desdem, que a minha pena.

LII.

Oh duro amor! oh fragoa dos gemidos, Prisaõ da vida, Argel da liberdade, Martyrio da alma, guerra dos sentidos, Encanto doce da melhor vontade! Teus favores só foraõ conhecidos Por gentîs prendas da mais tenra idade, A naõ serem primeyro teus favores Seccas espinhas, que animadas flores.

LIII.

Que cuidados naõ causas Jovem cego? Que rigores naõ dás ao pensamento? Que delicias naõ roubas ao socego? Que lisonjas naõ finges ao tormento? A que peitos naõ dás custoso emprego? A que vida naõ tiras doce alento? De que genios naõ reinas? de que idades? De que prendas gentìs? de que beldades?

LIV.

Quem me disséra, quando Ignez lograva Nos carinhos gentîs de seus favores, Quando nelles amor idolatrava, Para poder talvez morrer de amores! Quem me dissera, logo, que aspirava Hum cadúco praser a taes rigores! Quem me disséra então, que da ventura Era mortal delicto a formosura!

LV.

Quem disséra, que os laços de alvedrios, Gentîs madeixas, onde a naturesa Repartio liberal por tantos fios Os melhores extremos da bellesa, Esses agora, que acabarão brios, Se arrastão já bandeiras da tristesa? Mas que muito, se nunca em seus ensayos Nenhum por Louro se isentou de rayos.

LVI.

Oh bem, que pouco duras possuido! Só logras algum ser, quando esperado; Nos molestos receyos de perdido Tyrannizas o gosto de alcançado; Oh sonhada lisonja do sentido! Oh mais terrivel ancia do cuidado! Flor, que apenas se vê, quando se chora Enteada do Sol, filha da Aurora.

LVII.

Aquelles olhos donde o Sol furtava Os melhores thesouros da vaidade, E em lusidas capellas consagrava Dous altares Amor a huma beldade: Aquelles, cuja luz interpretava Os occultos archivos da vontade, Estes mesmos erarios da bellesa Deixa a perder de vista huma feresa.

LVIII.

Oh debil gloria lisonjeiro ensayo! Babél da vida, lingua do escarmento, Desfeita sombra do mais breve rayo, Quebrado vidro da mais tibio vento: Jasmim, que pasma de qualquer desmayo, Cravo, que morres de teu mesmo alento! Oh gloria humana! em fim gloria sonhada, Vida, Sombra, Jasmim, ou Cravo, ou nada.

LIX.

Aquella bocca, donde a mais lustrosa Se divisava purpura incendida, Em quem se vio nascendo a bella Rosa Com menos folhas, quando mais partida Agora só se occulta lastimosa Em desmayos de neve amortecida; Mas que prenda não tem que formosura, Muito menor a vida que a ventura!

LX.

La pretende nascer Cravo lusido, Mas em casa gentil botão fechado; Porque aquella manhaã, que o vê nascido, O chorasse primeyro amortalhado: Quem, ô purpurea flor, taõ presumido? Mas quem, Cravo gentil, taõ lastimado? Que lhe chegue a tecer a naturesa A mortalha primeyro, que a bellesa.

LXI.

Aquelle brando afleyo da ternûra, Aquelle doce Argél da liberdade, Aquelle emblema só da formosura, Aquelle bello encanto da vontade, Aquelle gentil pasmo da ventura, Aquelle rico erario da vaidade, Nos alinhos se vê já confundida, Troféo da morte, lastima da vida.

LXII.

Que pouca duraçaõ, que mal segura, Tem nas prendas da vida huma bellesa! Só vive em quanto nasce a formosura, Espira, em quanto vive a gentilesa: Em fim, mais morre, quãto em fim mais dura, Mortalidades traz por naturesa; Quanto mais alentada, e mais lusida, Mais accidentes logra, e menos vida.

LXIII.

Mas se saõ melindrosa enfermidade Prendas de amor, e dotes de huma vida, Que muito, bella Ignez, que essa beldade Fosse de teus alentos homicida: Comtigo a morte foy no Abril da idade, Menos ambiciosa, que atrevida, Sem reparar, Ignez, que teus rigores Perdessem fructos por cortarem flores.

LXIV.

Mas viveràs, Ignes, que amor ordena Nestas memorias, donde a tyrannia Por naõ lograr-se mal a minha pena, Debuxàra melhor tua galhardia: Aqui veràs, Ignes, se me condena Amor, que por tyranno se avalia, A fazer impossiveis, pois discorro Viver lembrado, quando auzente morro.

LXV.

Morra no ramalhete flor cobarde A que Rosa nasceo mais alentada, Vomitando rubins pague na tarde Quantas perolas bebeu na madrugada: Seja bruto fiscal de tanto alarde O mesmo dia, que a chorou cortada, Que nenhuma manhãa, nem tarde temo As contas tomar possa a tanto extremo.

LXVI.

Aqui passo tal vez a mais quererte, Onde chego mais fino a mais lembrarme, Porque foraõ distancias de naõ verte Incentivos quiçà para olvidarme: Mas nem topo motivos de perderte Nesses teus infalliveis de deixarme, Que, sendo vida minha, sò pudera Por perdida julgarte, se eu morrera.

LXVII.

Assim se queixa Pedro, quando ausente Daquellas prendas nunca esquecidas, Pois amor, que lembradas as consente, As pintou bellas, quando as vio perdidas; Quando nas pennas, que dobradas sente, Quando nas queixas, que repete unidas, Jà desmayando pasma, porque ordena A mesma queixa, que se calle a penna.

LXVIII.

Qual o Lyrio gentil nas mãos da tarde, Quando fragoas se alenta, incendios gyra, Funesta tumba de seu mesmo alarde, Bebendo rayos, abrazado espira: O que roxo matìz a pennas arde, Parda nuvem murchando se retira, Em quanto a Aurora tarda, q̃ de hum rayo Lhe corre galas para novo ensayo.

LXIX.

Assim Pedro se pasma, e naõ consente Os sentidos queyxumes, que derrama, Que se vive queixoso quem mais sente; Poem limite nas queixas quẽ mais ama; Mas aqui lhe concede amor presente Aquellas prendas, com que mais o inflãma, Que saõ talvez motivos do socego As memorias gentis do doce emprego.

LXX.

Agora, humanas prendas, se entendidas O desdem desprezais da infausta sorte, Que naõ duraõ taõ pouco vossas vidas, Que naõ saibaõ passar àlem da morte: Attentay, se notardes advertidas, Que naquelle de amor rigor mais forte Aconteceo da misera, e mesquinha, Que depois de ser morta foy Rainha.

~FIM~

_Da segunda parte_.

[Ilustração]

PARTE UNICA,

OU

TERCEIRA

DAS

SAUDADES,

E

SENTIMENTOS

DE

D. MARIA

DE LARA.

[Ilustração: _No grande sentimento, que teve da prizão se seu esposo, Glosou em Oitavas o Mote seguinte em que se ve a causa de suas lagrymas._]

_Choray, sem descançar, olhos cançados._

GLOZA I.

Pois fostes olhos meus por quẽ mereço Da culpa o perdaõ que busco, e quero, Instrumento do mal que hoje padeço, Tambem o podeis ser do bem que espero: Jà de meus altos pensamentos desço, A vil estado humilde, duro, e fero, E jà que os males meus por vos saõ dados _Choray, sem descançar, olhos cançados_.

II.

Mortiferos enganos procurastes, Dos quaes muy graves damnos padeceis, E pois de ver o mal nunca cansastes De chorar pelo bem nunca canseis: E já que os grandes bens que eniquilastes, Por quem vòs suspirais, por quem gemeis, Chorando poderaõ ser renovados, _Choray, sem descançar, olhos cançados_.

III.

Das agoas que de vós estaõ manando Fazey hum rio claro, hum rio manso, Que eu folgo de vos ver cançar chorando Pois chorando ganhais vosso descanço; Nas cousas em que vos hides cansando Nessas me alegro, e eu nessas descanço, E pois nos faz o choro descançados, _Choray, sem descançar, olhos cançados_.

IV.

Choray naõ descanceis, pois que ganhais Chorando quantos bens aqui perdestes; Póde ser, que nas agoas, que chorais, Laveis as nodoas grandes, que fizestes: Choray as grandes magoas, que me dais, Pelo gosto, que vós sem mim tivestes: Choray males presentes, e passados, _Choray, sem descançar, olhos cançados_.

V.

Tantas agoas de vós sejaõ lançadas, Que affoguem vossos torpes desvarîos: E posto que estas agoas saõ salgadas Por ellas se navéga a doces Rios: Soffrey, por ver-des culpas affogadas, Tempestades crueis, calmas, e frios; Choray, se dezejais ser perdoados, _Choray, sem descançar, olhos cançados_.

VI.