Saudades de D. Ignez de Castro

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SAUDADES DE D. IGNEZ DE CASTRO.

SAUDADES DE D. IGNEZ DE CASTRO. PELO LICENCIADO MANOEL DE AZEVEDO Conimbricense. _OFFERECIDA AO SENHOR_ GUILHERME JOAQUIM PAES VELHO. _PELO PADRE_ JOÃO DE GOUVEA Prisbitero do habito de S. Pedro.

[Ilustração]

LISBOA: Na Officina JOAQUINIANNA DA MUSICA DED. Bernardo Fernandes Gayo, Morador na rua das Mudas.

M. DCC. XLV. _Com todas as licenças necessarias._

[Ilustração]

DEDICATORIA

AO SENHOR

GUILHERME JOAQUIM

PAES VELHO.

_Justo era, que huma taõ excellente obra procurasse hum assyllo taõ excelso. Publica-se por meyo da estanpa ao Mundo as Saudades de D. Ignez de Castro, Rainha taõ infeliz, como formoza, e vendo eu que he perigozo entregar nas mãos do vulgo cousa, para cuja seja materia a sua distracçaõ, logo me occoreo, que a offerta só era conveniente em V. M. porque sey, que como V. M. he dado às letras, naõ deyxarà de amparar hum milagre da Poesia, e juntamente escurecer o alvedrio de hum Zoylo. Materia difficel seria o querer expór ao publico a Genelogia de V. M. que como conhecida naõ carece de explicação, mas só lembro a V. M. que o sangue, que lhe pulsa pelas veyas, mais logra de soberano, que de nobre. Dedicar o presente papel a V. M. he como divida, porque confórme, diz Seneca, só se conhecem as remuneraçoens pelo offerecimento, por essa causa quando eu tenho recebido taõ dilatados favores, porque razaõ naõ heyde de manifestar o quanto sou devedor a V. M. Aceyte pois o presente obsequio como divida, porque só assim lograrey eu a ventura de acertar quando me lembro da sua generosidade para o restituir. A pessoa de V. M. guarde Deos pelos annos, que todos os seus amigos dezejamos._

Amigo, e Venerador de V. M.

O P. Joaõ de Gouvea

[Ilustração]

SAUDADES DE DONNA IGNEZ DE CASTRO.

I.

Era na meya idade, a q̃ chegava Em fraguas de Zafir o Sol, q̃ ardia, e nas asas do tẽpo, q̃ passava, Icaro de seus rayos era o dia Quando pois com as chammas se abrasava, Que morrer incendîdo entaõ queria, Sendo por renascer com novo alarde, Em cinzas de rubim Féniz da tarde.

II.

Na lisongeira planta se enlaçava Cortez o vento com gentil porfia, E nos jardins a Rosa, que encalmava, Em berços de esmeralda adormecia: A simples avesinha se banhava No murmúreo correr da fonte fria, Renovando na vista o doce alento, Narciso nos crystaes, Orfêo no vento,

III.

Mas Ignez só, que por penar vivia, Naufragava em soluços cada instante, Ignez, aquella Ignez, que amor fazia Por lhe dobrar as magoas mais constante: Aquella, em cujas graças competia Ser formosa, discreta, e ser amante, Em cujas prendas naõ tiveraõ parte Artificios da industria, invençoẽs da arte.

IV.

A que nos dotes da alma taõ possante, Discreta, grave, terna, e generosa, Que da mesma bellesa sendo Atlante, Tinha por menór prenda o ser formosa: Nos donaires do talhe taõ galante, Nos alinhos da graça taõ vistosa, Que topando na culpa de Narciso, Fora sem culpa seu discreto aviso.

V.

Mas qual o passarinho descuidado, Lisonja mais gentil da tenra idade, Foy das maõs do menino aprisionado, Que lhe roubou no laço a liberdade: Que quando delle mais galanteado, Exprimenta no mimo a crueldade: E quando a côr das pennas lhe contenta, Nas que lhe tira, mais lhas accrescenta.

VI.

Tal Ignez na manhaã dos ternos annos, Nas primeyras Auróras da esperança, Deo nos laços de amor doces enganos, Do vendádo rapaz linda vingança; Mas os golpes da Parca deshumanos A belleza por flor em flor alcança, Exprimentou na sempre amarga sorte Por maõs do Deos do amor armas da morte.

VII.

Eraõ gentil emprego a seus cuidados As finesas de Pedro, que a beldade Nelle soube trazer aprisionados Sceptro, corôa, vida, e liberdade: Entre ambos tinha amor já taõ ligados Os soltos alvedrîos da vontade, Que foy nelles baldado, e foy perdido Nascer Antéros por crescer Cupido.

VIII.

Mas oh tyranna dor amor inventa! Forçosa foy de Pedro a dura ausencia, Atropos da alma, que da pena isenta, Nella sabe sentir mortal violencia: Como preso, partir-se Pedro intenta, E sente na alma, Ignez, nova inclemencia, Que quer a sorte, pois amor ordêna, Onde naõ chega a morte, offenda a pena.

IX.

Quantas vezes, Ignez, no pensamento Este desár notaste a teus favores? Quantas vezes, Ignez, na maõ do vento Os viste, e vês agora, e verás flores: Tanto nas affeiçoens, gosto avarento, Este pesár sentiste em teus amores, Que naõ posso dizer, que neste emprego Estavas, linda Ignez, posta em socego.

X.

Entre os braços de Pedro, ardẽte Fragoa, Se encosta Ignez sem vida, e sem sentido, Que multiplîca a dôr, e dobra a magoa Lograr presente o bem, que he já perdido: Dos olhos sólta dous chuveiros de agoa, Oceànos de neve, onde Cupîdo Quiz da belleza já colhendo as velas, Chegasse a tempestade até as estrellas.

XI.

Qual em berços de purpura vistosa, Delicias da manhaã, da tarde empresa, Dos melindres de flor enferma a Rosa, Desmayado o verdôr, murcha a lindesa; Pois a que foy de Abril pompa lustrosa, Livro do amor, emblema da bellesa, Perde a graça, por vêr que o Sol lhe talha Do mesmo carmesim gala, e mortalha.

XII.

Tal do fogo de amor na immensa calma A côr Ignez perdeo, que amor ordena, Os desmayos, que tinha impressos na alma, Trasladasse no rosto a viva pena: Já despojo da dôr, da magoa palma, Com respirar de flor, arde Açucena, Exhála nova dôr ao pensamento, Em saudosos ays o doce alento.

XIII.

Ay! cadûco prazer, diz lastimada, Esperança de hum bem, doce tormento, Ay! que por verde murchas apressada, Primavéra do amor, da dor portento: Ay! melindrosa flor agonizada, Despojado Jasmim de qualquer vento, Que quando nasce traz na mesma alvûra Gala, mortalha, berço, e sepultura.

XIV.

Ay! que chegas, oh dia! em que amor tira Duas almas de hum peito, oh noite fria! Oh noite, digo, porque a quem suspira, Fóge a luz, morre o Sol, acaba o dia: A bocca, de que hum _ay_, outro _ay_, retira, Jà cansando, mais bayxo repetia, Paray Senhor; mas hum soluço ardente Suffóca o _par_, repete o _ay_ sómente.

XV.

Paray, torna a dizer, meu gosto amado, Gloria desta alma, em quanto gloria tinha; Mas ay alivio meu! ay meu cuidado! Como podeis parar, se gloria minha! Mas se destîna o Céo, e manda o Fado Esta alma castigar, que amor mantinha, Deixai-me a vossa, porque a sorte ordene, Mais almas tenha, porque assim mais pene.

XVI.

Mas naõ, que he contra amor esta porfia: Mas naõ, que deyxo amor nisto aggravado: Muitas almas naõ quero, que sería Repartir o tormento a meu cuidado: Mas se a pena permitte a companhia Nesta ausencia cruel, oh triste Fado! Antes que a dor ma roube da partida, Levai-me, vida minha, a minha vida.

XVII.

Só com vosco, Senhor, irá segura, Sem que mortal achaque lhe aconteça; Porque talvez do Fado a sorte dura Fóra deste meu peito a desconheça: Nem poderá temer minha ventura, Que sombra de pesar vos entristeça; Pois farey no tormento mais esquivo Correr por conta da alma o sensitivo.

XVIII.

Se só para viver na ley de amante Forçosa seja a vida repetida; Ay! Senhor, que naõ póde ser bastante Para viver ausente huma só vida: Porém se amor de vidas taõ possante, Huma nos deo para ambos repartida, Postoque a dôr entre ambos se accommóda, Melhor vos partireis levando-a toda.

XIX.

Cá me fica outra vida, que naõ passa, Com que padeça morte repetida, Que quer amor tyranno, que renaça Huma vida das cinzas de outra vida: Que como taõ crueis penas me traça, Como me traz em fogo convertida, A acabar, outra Feniz, me condena, Morrendo em cinzas, renascendo em pena.

XX.

Ah! quem cuidára, amor, que meus amores Fossem fingidas sombras mentirosas? Ah! quẽ cuidará, amor, que em teus favores Fossem mais as espinhas, do que as Rosas? Mas depois, que triunfo a teus ardores, Foraõ de Marte as armas generosas; Taõ guerreyro ficaste, ufano, e forte, Que bem pódes matar a propria morte.

XXI.

Mas pois forçosamente me condena, A que vos ausenteis, ah tyrannîa! Deyxai, deyxai Senhor, deyxai-me a pena, Porque só della quero a companhia: Na noite mais escura, ou mais serena (Que para ausentes nunca nasce o dia) Chorarey, permittindo-o minha estrella, Mais do que a saudade, a causa della.

XXII.

Nas remontadas penhas, nas visinhas (Se restar a meus ays penhasco possa) Vos buscaraõ, Senhor, lagrimas minhas, Minhas se póde ser, sendo a alma vossa: De meus annos a flor entre as espinhas Passarey, sem perder esta fé nossa; Mas antes perderâõ seu bruto alento O mar, o fogo, o ar, a terra, o vento.

XXIII.

Mas oh! que he tal a dor de meus retiros, E taõ firme na ley da tyrannîa, Que vendo, que me assistem meus suspiros, Talvez delles me roube a companhia: Mas inda mais, e mais acérbos tiros Contra mim fulminar amor porfia; Pois sem dar attençoens á minha queyxa, Por mais só me deyxar, sem mim me deyxa.

XXIV.

Qual quando na manhaã naufrága o dia Nos undósos crystaes, que o Céo desata, O Jasmim desmayado se agonîa Dos acháques da gotta, que o maltrata: Em desares trocando a galhardia, Icaro já nas agoas se retrata, O que lisonja foy taõ prateada, Se no prado jasmim, nas ondas nada.

XXV.

Tal Ignez já de lagrimas banhada, De seus olhos gentîs mortaes desares, Que quiz a natureza acautelada Que o Occaso de dous Sóes fosse dous mares. Exhalava de todo agonizada O suspiro final a seus pesares: Que com vir entre lagrimas undosas, Inda na bocca achou maré de rosas.

XXVI.

Já Pedro em fim rendido a seu cuidado, A dôr quer disfarçar a seu retiro; Que como o coraçaõ tem já quebrado, Hum pedaço lhe traz cada suspiro: E como em fim no peito agonizado Sente da mortal frecha o novo tiro, Notando Ignez no pranto de seu rogo, Exhála em agoa, quanto bebe em fogo.

XXVII.

Naõ chores, diz, formosa Ignez, agora Ficar ausente sem partir commigo, Que se es vida da minha, que te adora, Na alma te levo por viver comtigo: Naõ pertendo ausentar-me hoje, Senhora, Supposto que partir-me em fim prosigo; Que se as almas trocar amor consente, Nem tu só ficas, nem me parto ausente.

XXVIII.

O corpo só se ausenta, a alma naõ parte, Que em fim naõ vivo de potencias suas, Que como me alimento só de amar-te, Bastaõ para viver memorias tuas: E porque amor nos tiros, que reparte, Fulmina contra mim frechas mais cruas; Quando a vida me rouba, outra me ordena, Que fora em fim matar-me a menor pena.

XXIX.

Mas nota, Ignez formosa, esta fineza, A fazer impossiveis offrecida, Pois que contraminando a natureza, Teu mesmo amor me mata, e me dá vida: Mas como amor notou nessa belleza Os impossiveis só de merecida, Quiz tomar por razaõ força infallivel, Obrar por alcançá-la outro impossivel.

XXX.

Bem vês agora, Ignez, como abrasado Nos vivos holocaustos de meu peito, Meu coraçaõ consagro a teu cuidado Em victimas de lagrimas desfeito: Agora alcançarás, como alentado Todo me sacrifico a teu respeito, Pois chega a consagrar-te em viva calma Sangue do coraçaõ, reliquias da alma.

XXXI.

Sucçeda á Primavera o secco Estio, Á serena manhaã tarde calmosa, Seja manso regato, quem foy rio, Sejaõ seccas reliquias, quem foy Rosa: Seja, quem Cravo foy, cadáver frio, Seja quem foy Jasmim, cinza olorosa Seja tudo á mudança em fim sujeito, Que amor firme será dentro em meu peito.

XXXII.

Nessas gentîs madeixas da beldade, Em cuja luz do Sol o Sol se nega, Onde feito piráta da vontade Nas crespas ondas sempre amor navega: Nessas, digo, captiva a liberdade Em refens minha fé por fé te entrega: Nellas deixo por fim com meus alentos Alma, cuidados, vida e pensamentos.

XXXIII.

A Deos delicia minha, a Deos cuidado, A Deos Senhora, a Deos, que amor cõsente, Que parta em fim nas magoas sepultado Se partir posso de mim mesmo ausente: A Deos, que amor nos tinha decretado Esta ausencia cruel, forçosa, urgente; Mas ay! formosa Ignez, q̃ em vaõ me queixo: A Deos, q̃ em fim me parto, em fim te deixo.

XXXIV.

Já se remonta Pedro a seus retiros, E já de morte em morte Ignez discorre, Que como entrega a vida a seus suspiros, Quantas vezes suspira, tantas morre: O coraçaõ sentindo acérbos tiros Pelos olhos sangrado em crystaes corre; Mas oh! que no sangrar-se em vaõ se cansa, Porque em cada sangria huma alma lança.

XXXV.

Qual na secca vergóntea desfolhada, Que despojo restou da tempestade, Se lamenta em requebros lastimada A casta Rola posta em soledade: Soluça, pasma, e geme agonisada, Chora, suspira, anéla em crueldade, Que seu pesar lhe tem no peito unîdos Rigores, magoas, lastimas, gemîdos.

XXXVI.

Tal lastimada chora Ignez saudosa, No seu mesmo tormento sepultada, Nos desvélos do dia cuidadosa, Nos descuidos da noite desvelada; Já se queixa em suspiros lastimosa, Fórma razoens dos ays agonisada: Que fez para queixar-se em seus retiros. Embaixadores da alma seus suspiros.

XXXVII.

Oh! quanto foy de ti teu Pedro amado, Formosa Ignez, mas inda mais sentido; Pois sendo grande a gloria de logrado, Hoje he mayor a magoa de perdido: Foy teu prazer á pena apensionado, He teu pesar na pena desmedido: Entaõ foraõ de Rosas teus favores, Agora saõ de Lirios teus amores.

XXXVIII.

Já nos braços da Aurora, que assomava, Renascido chorava o novo dia, Quando Ignez saudosa entaõ negava A seu triste pesar a companhia: A solidaõ do campo se apartava, Onde só lamentava, e só gemia; Porque mais no rigor de seus retiros A piedade faltasse a seus suspiros.

XXXIX.

Entre flores inquire o doce amado, Presente em cada flor o considéra, E dando hum breve encanto a seu cuidado, Busca nas flores quanto em flor perdêra: Corre de flor em flor, de prado em prado, Tópa só magoas, donde gosto espéra; Que foraõ seu praser: e seus favores, Perda choradas, quando apenas flores.

XL.

Procûra em cada planta, o que anelava, Porque no seu tormento engano escolha; Mas oh! que em seu pesar escrito achava Liçoens para sentir em cada folha: Já nas liquidas pérlas, que chorava, Penhascos, plãtas, prado, e folhas molha, E na lembrança já de hum bem perdido Lhe interrõpe hum gemido outro gemido.

XLI.

Qual o menino fica enternecido, Entre perplexidades pasmadinho, Quando no verde prado entretenido Lhe foge o gosto atraz de hum passarinho: Já soluça, já pasma esmorecido, Já busca cada flor, cada raminho, Já melindrosos ays, mimoso alento Apôs o passarinho leva o vento.

XLII.

Tal Ignez na penosa tyrannia Entre flores inquire o doce amado; Mas foy lisonja só da fantasîa, Pois mais se nega hum bem, quãdo buscado: Já queixosa das flores se desvia, Já nas queyxas diverte o seu cuidado, E nos alentos da alma, com que espira, Já soluça, já pasma, já suspira.

XLIII.

Na margem de huma fonte se encostava, Que já clara correo com seus favores, E se delles travêssa murmurava, Em lagrimas agora exhála amores: Ás plantas, aos penhascos se queixava, Outra vez já seu mal contava ás flores Onde nos eccos, que respira o monte, Suspira o valle, porque chora a fonte.

XLIV.

Ay! cadûcas bellezas, lhes dizia; Ay flores! se queyxava enternecida; Que sendo vossa vida de hum só dia, Muitas horas contais na vossa vida: Mas oh! de minha dor mór agonia, Oh morte em menor vida repetida! Que como em soledades só discorro, Nem conto instantes, porque sẽpre morro.

XLV.

E vós Rosas no mimo de huma Aurora Lograis de vossa adôrno a pompa bella, Que talvez por firmar vossa melhóra, Tivéstes no nascer tão boa estrella: Mas oh! que no pesar, que chóro agora, Nestes fogosos ays, que o peito anéla, Escolhe minha estrella em triste forte Por pena a vida, por lisonja a morte.

XLVI.

Vós plantas, que sentis mudavel erro, Cifrando em cada folha hum pensamento, Se Dezembro lamenta vosso enterro Abril em flor vos dá dobrado alento: Mas oh! q̃ em meu sentir, e em meu desterro Eternisa hum rigor meu sentimento; Pois quer amor na sorte, que me ordena, Se alimente huma pena de outra pena.

XLVII.

E tû bruto penhasco inhabitado, Tosco sepulcro de huma clara fonte, Es agora de flores matizado, Idolo de crystal, gala do monte: Mas oh tyranna dor! que meu cuidado Hoje lamenta o mal, que chorou honte, Vendo, que teu terror com bruto aviso Honte foy Polifêmo, hoje he Narciso.

XLVIII.

Mas oh queyxas paray, paray cuidados, Paray, façamos tregoas pensamento, Que dos males talvez communicados, Póde nascer desar ao sentimento: Correy da alma pedaços distillados, Dizey lagrimas minhas meu tormento; Minhas naõ digo bem, que juntamente Perdi tudo no bem, que chóro ausente.

XLIX.

Irmanay-vos, correy mais cuydadosas, Seja vosso correr mais repetido, Naõ cuideis, que vos choro caudalosas, Porque deis desaffogo a meu sentido: Que como nas memorias rigorosas Vossa causa lamento, que hey perdido, Se talvez mitigaes hum sentimento, Naõ tem valôr nas perdas vosso alento.

L.

Oh! corraõ com valor vossas violencias Por duplicar incendios a meu rogo, Que naõ fora querer sentir ausencias, Se vos chorára só por desaffogo: Que posto deis alivio ás inclemencias, Naõ podeis dar alivios a meu fogo; Que como sou das penas avarenta, Qualquer alivio vosso me atormenta.

LI.

Correy livres, correy, que amor ordena, Sejais a meu rigor ancia penosa, Que naõ comprais alivios a huma pena, Quando chegais a ser paga forçosa: Que pois amor por força me condena Tributar-vos por divida custosa; Mal podeis mitigar o mal, que tenho, Quando sois do que devo desempenho.

LII.

Naõ me póde obrigar outro motivo, Se naõ chorar-vos só por naturesa, Que quer, que seja amor por excessivo Tributo natural, o que he finesa: Que como a seu querer sujeita vivo, Rendida a seu querer captiva, e presa, Do pranto, que saudosa me convinha, Se naõ pode isentar a affeyçaõ minha.

LIII.

Em vós sentir agora mais penosas, De ser mudas razoens faço argumento, Que quando naõ chegais a ser queyxosas, Naõ limitaes a dor ao sentimento: Que foreis só lisonjas enganosas, Mas naõ crueis verdugos ao tormento, Quando na voz queixosa, que formára, Lastimas a meus ays solicitára.

LIV.

Mais duro sentimento, mais nocivo No ser da alma pedaços vos confesso, Pois se levais a parte com que vivo, A parte me deyxais, com que padeço; Que como neste mal por excessivo Repartida minha alma reconheço, Se levais huma parte naõ pequena, A vida póde ser, mas nunca a pena.

LV.

Oh! torna atraz arroyo fugitivo, Alma da penha, coraçaõ do monte, Torna atraz, que meu pranto successivo Te fará Rio quando apenas fonte, Oh! torna atraz veloz, detem-te esquivo, Detem-te, espera, que meus males conte, Que vás talvez com prata taõ custosa Calçar as plantas de huma ingrata Rosa.

LVI.

Se te vás despenhar ambicioso Por aspirar a creditos de Rio, Léva meu triste pranto lachrimoso, Oceâno será teu senhorîo: Embarga teu correr taõ cuidadoso, Suspende teu caudal, teu desvarîo, Que lá terás no már onde te escondas, Quantas lagrimas levas, tantas ondas.

LVII.

Mas oh! paray razoens, tornay gemidos, A dor interpretay, que o peito sente, Que talvez em meus ays por repetidos Os eccos ouça de quem choro ausente: Ay! doce ausente meu, naõ dos sentidos, Ay! quem pudéra amor ter-vos presente! Mas deyxai-me fallar, talvez que possa Ouvir na minha voz eccos da vossa.

LVIII.

Aqui, meu doce amor, meu bem querido, Se me duplîca a dôr ao pensamento, Pois quando em vós, me falta meu sentido, Naõ me póde faltar meu sentimento: Em vós lamenta a dor meu bem perdido, Em mim renova a dor novo tormento; Mas creyo, doce amor, que sentir possa Menos a minha dor, que a falta vossa.

LIX.

Menos dor, menor danno em fim tivéra, Menos cruel sentira o meu cuidado, Quando neste rigor, que padecera, Me podéra esquecer do que hey logrado: Mas ay! que nesta dor outra me espera, E hum mal outro me traz apensionado; Pois chego a padecer em meu sentido O mal, que passo, o gosto, q̃ hey perdido.

LX.

Bem conheço, que posso na lembrança Vossas prendas lograr, meu doce esposo, Mas o bem, que se perde na esperança, Fica, quando lembrado, mais penoso: Mas nesta triste dor, dura esquivança, Se me duplica amor mais rigoroso; Pois só quer meu sentido avincular-se, Para mais padecer, a mais lembrar-se.

LXI.

Assim chorava Ignez, e assim gemia, Mas oh tragica dor! rara estranhesa! Que já tópa nas maõs da tyrannia Armas sempre mortaes contra a bellesa: Nas maõs de dous tyrannos já se via, Entre crueis espadas, tosca empresa! Mas que Rosa no campo Aurora molhas, A que naõ falte a vida, e sóbrem folhas?

LXII.

Paray, detende a furia procellosa, Paray, paray, detende o bruto alento: Que contra o fresco mimo de huma Rosa, Ah! que sobeja hum Sol, e basta hũ vento? Mas ay! discreta Ignez, Garça formosa, Remonta agora mais teu soffrimento, Que temo, linda Ignez, teus lindos brios Accrescentem coraes a tantos fios.

LXIII.

Qual nas tecidas silvas da espessûra, Labyrintho de espinhas intrincado Com balîdos se queyxa da ventura O simples cordeyrinho aprisionado: Já soluça em melindres com ternûra Das maternas delicias apartado: O que mimos achou na branda hervinha, Acha mortal rigor em cada espinha.

LXIV.

Tal lastimada Ignez troca em gemidos, Quantas vozes no peito articulava, Em quanto os dous algoses sementidos As maõs lhe prendẽ, com que amor matava: Já fugindo os alentos aos sentidos, O soluçar as vozes lhe embargava: Mas oh! que amor lhe deo no pensamento Razoens ao pranto, voz ao sentimento.

LXV.

Ay tyrannos crueis! oh sorte dura! Entre suspiros, diz agonizada, Que delicto commette a formosura, Com que possa a bellesa ser culpada? Oh! deyxai-me esta vida em pena escura, Se me quereis a morte dilatada; Que nesta triste dor taõ repetida Menos me mata a morte, do que a vida.

LXVI.

Oh! suspendey sentença taõ penosa, Mitigay por hum pouco a crueldade, Que naõ podeis dar morte rigorosa, Que possa matar mais, que a saudade: Mas já que minha dôr menos piedosa, Vos naõ póde causar nova piedade, Naõ me roubeis meus filhos, taõ queridos, Unica prenda só de meus sentidos.

LXVII.

Ay! charas prendas minhas taõ queridas, Reliquias de amor, da alma pedaços; Ay! como sentireis em mim perdidas As mimosas delicias de meus braços: Mas pois naõ póde ser entre homicidas Lograr, amores meus, vossos abraços, A Deos, ficai-vos já gostos amados, A Deos alma, a Deos vida, a Deos cuidados.

LXVIII.

Mais quiséra fallar enternecida, Mas oh! indigna acçaõ de hum peito forte! Hum tyranno cruel, torpe homicîda, Nos fios de hum punhal lhe teçe a morte: Inclîna o lacteo collo amortecida, Avassallada já da infausta sorte, Exhála a vida o corpo de alabastro, Feneçe amor com Donna Ignez de Castro.

LXIX.

Qual a branca Açucena, que cortada, Sente do ferro, ou tempo, a crueldade, Em seu mesmo candôr amortalhada, Defunta flor em flor na flor da idade: Á qual ficaõ sómente de engraçada Os antigos riscunhos da beldade: Tal fica a bella Ignez amortecida Sem gala, luz, sem cor, graça, nem vida.

LXX.