Romanceiro I: Romances da Renascença
Part 9
E zelosa parecia Que os andava espreitando... Colhêra el-rei uma rosa, A Dona Mécia a ia dando,
Com um requêbro nos olhos Tam namorado e tam brando... Inda bem, minha rainha, Que adiante te vais andando!
Pegou na rosa a donzella, Disfarçada a está cheirando... Senão quando a negra pêga Que lh’a tira e vai voando.
Deu um grito Dona Mécia... E a rainha, voltando, Deu com os olhos em ambos... Ambos se estão delatando.
—‘Foi por bem!’ lhe disse o rei, Seu accôrdo recobrando: —‘Foi por bem!’—‘Por bem’ repete A pêga emtôrno voando.
—‘Por bem, por bem!’ grasna a tonta, De má malicia cuidando Co’a chocalheira da lingua Andar o caso inredando.
Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem ás vezes fallando O segredo dos sisudos Que elles não guardam callando
Riu-se a rainha da pêga, E ficou acreditando Que a innocencia do caso N’ella se estava provando.
Da pêga mexeriqueira, Do bem que fez, mal pensando, Nos reaes paços de Cintra A memoria está durando.
E eis-aqui, senhora, a historia Da pêga que ahi ves palrando, Da rosa que tem no bico, Da lettra que a está cercando.
A pêga é negra e palreira, O que sabe vai contando: Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem segredo fallando.
O gavião, esse é outro; Vai ferido e vai voando: Mas não diz quem n’o feriu... Gavião, gavião branco!
NOTAS
[1] Alterou-se este plano; só se tracta por agora do _Romanceiro_.
[2] Dez annos são passados e a promessa nem commeçou a cumprir-se (1853). Suppomos o A. receioso de arrostar com a audaciosa responsabilidade de historiador contemporaneo.
[3] Serviu de prefacio á primeira ed. de Londres no anno de 1828.
[4] O Sr. Duque de Ribas, bem conhecido na Europa hoje, tomou para epigraphe do seu _Moro-esposito_ este paragrapho da presente carta: não me desvanece por mim, mas dá-me gôsto que precedessemos os nossos vizinhos na restauração da poesia popular das Hespanhas. _Ed. de 1843._
[5] É o do Bernal Francez, n’este vol.—Vid. tambem o vol. II, pag. 121.
[6] É o pensamento que agora se realiza.
[7] O auctor esteve por espaço de tres mezes preso sem mais pretexto que o de ter tido parte em uma publicação censurada e impressa com todas as licenças necessarias. Não foi preso o censor, nem prohibida a publicação, nem no fim de tres mezes se achou materia de culpa! _Ed. de 1828._—O jornal era o Portuguez, cuja moderação em doutrina, e urbanidade em estylo ainda não foram imitadas. _Ed. de 1843._
[8] Está a pag. 101 do II vol. do ROMANCEIRO, liv. II, part. I, rom. 8.
[9] Corrigiu-se comtudo agora ésta carta para a presente reimpressão, porque escripta muito á pressa em Londres logo ao chegar de Portugal, não tinha agora essa desculpa, que então podia valer. _Ed. de 1843._
[10] Ruinas de fortificações antigas em Campolide. Vid. notas no fim.
[11] Aqueducto das aguas livres.—Vid. notas no fim.
[12] Vid. ROMANCEIRO, liv. II, part. I, no tom. II, pag. 135.
[13] Vid. loc cit. a nova traducção por M. Adamson, LUSITANIA ILLUSTRAT., part II. Newcastle 1846. Ésta segunda versão ingleza vem a pag. 142 do referido II vol. no ROMANCEIRO. E a pag. 151 ibid. a traducção castelhana do Sr. Isidoro Gil, já tam conhecida e appreciada entre nós.
[14] Vid. a introducção ante, pag. 94.
[15] Vigia.
[16] Vid. nota no fim.
[17] Fe, fee, fei. Vid. nota no fim.
[18] Pé, pee, pei. Vid. nota no fim.
[19] Vid. nota no fim.
[20] Minstrelsy of the Scottish border etc. by Sir Walter Scott, mihi, ed. de Paris 1838—2 vol. pag. 125.
[21] Vej. no livro II, part. I, o romance XIII, _Claralinda_, pag. 219 do 2.º vol.; e na part. II, o romance XVIII, _Conde Nillo_, pag. 19 do 3.º vol.; ibid. o romance XX a _Peregrina_, pag. 35, etc.
[22] _Poèsie des Troubadours_, tom. VI, pag. 385.
[23] Ap. Sanchez, tom I, pag. LVIII.
[24] Le manuscrit du _Cancioneiro_ date du XIII siècle et les pièces qu’il contient semblent plus anciennes. Il a été publié à Paris en 1823 par Sir Ch. Stuart of Rothsay et tiré seulement à 23 exemplaires, dont aucun n’a été mis dans le commerce. Vid. a nova ed. do Sr. Varnhagen, Madrid 1851.
[25] Pag. 339, note 1.
[26] Vid. ante, pag. 164 d’este I do tomo do ROMANCEIRO.
[27] Vid, ibid.; e tomo II do MINSTRELSY etc. de Sir. W. Scott.
[28] Note pour la traduction
[29] Jornal das Bellas-artes, Lisboa 1845, vol. I.
[30] Mr. Zanole que foi depois, em 1848-1849, addido á legação franceza na China.
[31] ILLUSTRAÇÃO, vol. II, n.º 5, 1 de Agosto 1846.
NOTAS
A ADOZINDA
NOTA A
O romance em que lhe fallei n’uma das minhas últimas cartas de Portugal
pag. 3.
A Adozinda foi começada em Campolide, ao-pé de Lisboa, no verão de 1827, concluida na cadeia do Limoeiro no fim d’esse mesmo anno, e publicada em Londres no outomno de 1828, em 1 vol., 12.º sem nome do auctor, e com a seguinte breve advertencia precedendo a carta ao sr. Duarte Lessa que era o verdadeiro prefacio:
‘ADVERTENCIA.—O auctor d’este romance, animado pelo lisongeiro favor que outras publicações suas teem merecido ao público portuguez e a distinctos litteratos extrangeiros, imprehende ésta nova publicação, cujo assumpto é tirado da antiquissima tradição popular e se refere aos mais remotos tempos e costumes de nossas epochas heroicas e maravilhosas. Espera elle que não desagradará aos amantes de um genero que fez a colossal reputação de Sir Walter Scott, e restituiu á antiga Escocia—na republica das lettras—o nome e independencia que ha tanto perdêra na ordem politica.
‘Aindaque em pouco habeis mãos, a lingua portugueza sahirá mais uma vez a próva singular de bisarria com as mais cultas e gabadas linguas da Europa: e será culpa do cavalleiro, não sua, se o premio da belleza e valentia lhe não for adjudicado por todo o juiz imparcial.’ (_Nota da segunda edição._)
NOTA B
Resummo da historia da lingua e da poesia portuguesa, que vem no I vol. do PARNASO-LUSITANO
pag. 4.
Foi o meu primeiro ensaio de critica litteraria, e muito ha que devo ao público reimprimi-lo emendando-o e additando-o, como tanto precisa. É trabalho que demanda porêm o vagar de outros cuidados e uma serenidade de espirito que não tenho tido. Heide fazê-lo e breve. (_Nota da terceira edição._)
NOTA C
Boscan gaba-se de haver introduzido na Peninsula os metros toscanos
pag. 4.
A expressão é inexacta: os Toscanos houveram os metros hendecasyllabos dos mesmos de quem nós os houvemos, dos trovadores. Vej. o Cancioneiro do Collegio dos Nobres. (_Nota da segunda edição._)
NOTA D
A lingua provençal, primeira culta da Europa
pag. 6.
Generalizaram ésta opinião no mundo os eruditos trabalhos de Mr. Raynouard: eu duvido hoje muito d’ella, isto é, formulada d’este modo. Estou inclinado a crer que houve uma lingua romance, que teve por base o Romano-rustico fallado, e que geralmente predominou nos paizes de dominação wisigothica desde a extrema Aquitania até o que hoje é Algarve; e que ésta lingua quasi-latina é o commum tronco do Provençal que morreu á nascença, do Aragonez que não passou da infancia, do Portuguez e do Castelhano que chegaram a perfeita maturidade, e de outros mais obscuros dialectos cujo desenvolvimento as circumstancias politicas e topographicas annullaram. Nem julgo difficil demonstrá-lo; mas não é aqui o logar, nem caberia no curto espaço de uma nota. (_Nota da segunda edição._)
NOTA E
Logo vieram esses trovadores de Provença...
pag. 6.
A simples leitura dos nossos cancioneiros mostra que aquella não era a poesia popular: os seus requebros, todos cortezãos e palacianos, desdizem da ruda singeleza e energica originalidade do trovar do povo. E comparados aquelles cantares de saraus com os fragmentos das xácaras e soláos que a tradição oral tem conservado, aindaque pervertidos e viciados como elles andam, ve-se que estes é que são a primitiva e legitima poesia nacional. (_Nota da segunda edição._)
NOTA F
As balladas de Bürger, os romances de Sir W. Scott
pag. 7.
Vej. na collecção intitulada _Minstrelsy of the Scottish border_ (cancioneiro das fronteiras da Scocia) a historia da renascença do genero popular na Gran’Bretanha contada pelo mesmo W. Scott. (_Nota da segunda edição._)
NOTA G
Cancioneiro do Collegio dos Nobres
pag. 10.
Ha tempos que se designa com este nome o Cancioneiro do tempo d’elrei D. Diniz que se guarda na livraria do que hoje é Escola Polytechnica, e era então Collegio dos Nobres. Copiou-o quando esteve ministro em Lisboa Sir Charles (depois Lord) Stuart, e em Paris o imprimiu, 25 exemplares creio eu, quando alli foi embaixador.
Descubriram-se, ha poucos annos, na Bibliotheca de Evora algumas folhas que faltavam no manuscripto de Lisboa, e com este additamento se reimprimiu em Madrid ultimamente pelo zeloso cuidado do Sr. Varnhagem, ministro do Brasil n’aquella côrte. (_Nota da terceira edição._)
NOTA H
Canções que não serão talvez de Gonçalo Hermigues, etc.
pag. 11.
Éstas e todas as reliquias duvidosas do nosso romance irão todavia no logar e livro competente da actual collecção. (_Nota da terceira edição._)
NOTA I
Aquelle romancesinho de Gaia e do rei Ramiro
pag. 12.
É um curioso e rarissimo exemplar, documento notavel da litteratura portugueza do seculo dezesette. Intitula-se Gaia, e é impresso no Porto em um folheto de 4.º, com 15 ou 20 paginas. Tenho hoje grande pena de não ter tirado cópia inteira d’elle antes de o restituir ao meu amigo o Sr. Lessa, em cujo espólio deverá estar: mas não pude obter mais noticias d’elle; e outro exemplar não o vi nem sei de quem o visse. Começa com éstas duas oitavas que agora incontro, incompletas, entre os meus apontamentos. Todo o poema é na mesma rhyma.
I
Cantemos de Ramiro rei d’Hespanha E de el-rei Almançor de Berberia, Quando por desventura tam estranha, No mais de Hespanha então mouros havia, Com ânimo cruel, com cruel sanha Cadaqual ao outro pretendia Privar de sua fama, honra e estado, Com todas suas fôrças e cuidado.
II
D’esse Ramiro, digo, o esforçado, Que d’este nome tres com elle hão sido, D’âquelle que com Gaya foi casado Por quem tantos trabalhos ha soffrido...
(_Nota da segunda edição._)
Possuo hoje um exemplar completo que devo ao obsequioso cuidado do Sr. N. M. de Sousa Moura, distincto e letrado official do nosso exercito, que, talvez por isso, não occupa n’elle o logar que lhe pertence. (_Terceira edição._)
NOTA K
Adeante copio um dos mais curiosos (o do Bernal-francez)
pag. 17 e 18.
O romance d’este nome na primeira edição da ‘Adozinda’ em Londres ia inserto na presente carta: por melhor classificação vai agora separado. E o texto original, segundo o conservou a tradição dos povos, irá no logar competente do ‘Romanceiro’, mas muito mais correcto e melhorado agora pela collação das diversas versões que tenho obtido. (_Nota da segunda edição._)
NOTA L
Este terreno é sancto: inda estás vendo Alli aquelles restos mal poupados
pag. 23 e 24.
Em Campolide e nas alturas que avizinham o célebre aqueducto das _Aguas livres_ se incontram muitos restos de fortificações antigas e que parecem de diversas datas. O proprio nome de Campolide, abreviação de campo da-lide, ficou a este sitio da batalha que alli se deu nas guerras da acclamação de D. João I. Vej. Próvas genealogic., Duarte Nun. e quasi todos os nossos historiadores. (_Nota da primeira edição._)
NOTA M
... Essas arcadas, Suberbas, elevadas
pag. 24.
O aqueducto das _Aguas-livres_ é o mais nobre e util monumento de Lisboa: edificou-o D. João V, que nem sempre impregou tam bem os immensos cabedaes dos thesouros do estado, que então regurgitavam com o ouro das minas do Brazil e de outras possessões portuguezas. D. João V todavia amou, ao menos protegeu, as artes e as lettras; foi culpa não sua mas do seculo, se de tam mau gôsto eram as lettras que protegeu. O crepusculo de nossa rehabilitação litteraria luziu em seu reinado. A isto alludem os versos:
Um rei que amou as artes, rei pacífico A quem amor fadou Que seu fôsse e das musas, etc.
Assim como alludem tambem a seus bem sabidos amores e espirito galanteador. D. João V tinha a ambição de querer imitar Luiz XIV, seu contemporaneo—até nas fraquezas. (_Nota da primeira edição._)
NOTA N
Lembra-te aquella historia Que ingenuo o povo nos seus trabalhos canta.
pag. 29.
É a xácara ou lenda da ‘Silvaninha’, cujo texto original vai no logar competente do ‘Romanceiro.’ (_Nota da segunda edição._)
NOTA O
É singela legenda de uma santa, Que por brutal amor sacrificada, Desvalida virtude, Só de crime escapou no seio á morte
pag. 29.
A tradição popular attribue ésta nefanda aventura a um rei que se namorou da sua propria filha, como a antiga Myrrha se namorára de seu pae.—Provavelmente ambas as duas anecdotas teem seu fundamento historico na chronica escandalosa das familias de alguns regulos ou senhores das diversas epochas. O observador curioso notará o differente character de duas historias tam similhantes, e colherá o essencial ponto em que o nosso _maravilhoso_ moderno differe da antiga mythologia, não tanto nos nomes de deuses e deusas e outros agentes sôbrenaturaes, mas principalmente no tom, na moral, na sensibilidade, e n’um certo não sei quê de ternura e melancholia que nos mais rudes e imperfeitos ensaios da poesia nacional se acha sempre como principal e dominante côr do quadro. A differença não está em chamar ao sol Apollo, ao amor Cupido, á guerra Marte; sim na maneira de conceber, de pensar, de pintar, de moralisar as mesmas ideas, as mesmas coisas por differente modo. (_Nota da primeira edição._)
NOTA P
Cantiga primeira
pag. 33.
Na primeira edição chamavam-se cantos as quatro partes d’este romance. Era dar-lhe uma pretenção de epopea que o pobre não tinha. Demais, cantiga é o nome popular verdadeiro, e por isso lh’o mudei para elle. Os antigos menestreis inglezes chamavam _fitts_—como quem diria _accesos_—os francezes _lays_—como quem diz _ramos_—às diversas secções em que partiam os seus romances mais longos. A partição fazia-se por causa do canto: e _cantiga_, ‘o que se póde cantar de uma vez’ parece portanto o mais proprio nome. O Cancioneiro do Collegio-dos-Nobres diz _cantares_. (_Nota da segunda edição._)
NOTA Q
Como os picos do Gerez Quando em Janeiro lhe neva
pag. 34.
O Gerez é serra altissima na provincia do Minho, de alpestres alcantis, coberta de plantas alpinas de curiosissima _flora_; as summidades conservam quasi todo o anno resplandecentes massas de gêlo. Ha nas faldas da serra as famosas aguas mineraes conhecidas pelo nome de caldas do Gerez. (_Nota da primeira edição._)
NOTA R
Mas pede Adozinda bella, Tal virtude e formosura, Quem lh’o hade negar a ella? Não póde o pae nem ninguem
pag. 34 e 35.
É uma occurrencia muito commum nos romances populares, e de sincera belleza homerica, ésta de negar o senhor do castello a poisada ao peregrino, mas ceder depois ás intercessões da filha compadecida, donzella innocente e malfadada, que quasi sempre vem a ser victima de sua propria bondade. Assim na lenda tam sabida e tam nacional de Sancta Iria:
Pedia poisada, Meu pae lh’a negava; Mas eu tanto fiz Que porfim entrava.
(_Nota da segunda edição._)
NOTA S
E guiaram seu pendão Para terras de Moirama
pag. 37.
Moirama, na phrase do povo, quer dizer terra de moiros. N’outro genero de poesia é certo que não ficaria bem o vocabulo, mas n’este quadra. (_Nota da primeira edição._)
NOTA T
Que tropel que vai nos paços De Landim aopé dos rios
pag. 39.
Em minha imaginação puz a scena d’este romance em um dos sitios mais pittorescos da mais formosa provincia de Portugal, o Minho. Landim (haverá mais terras do mesmo nome; ésta é a que eu conheço) é uma povoação pequena em que houve, outro tempo, uma famosa casa e pingue possessão de Jesuitas: fica perto dos rios Ave e Vizella, que não longe d’ahi se juntam para correr unidos a desimbocar em Villa-do-Conde e perder-se no mar. (_Nota da primeira edição._)
NOTA U
Que ou são sombras de finados, Ou de negras bruxas más Alli ha nocturna dança
pag. 50.
Éstas bôccas de cavernas, e outros recéssos—assim de bosques, montanhas e que taes, são em todos os paizes, pela imaginação do vulgo, povoados de entes mysteriosos e ás vezes malfazejos. Sombras de finados cantando seus hymnos terriveis, bruxas celebrando os torpes mysterios do seu _sabbado_, são cosmopolitas. A nossa mythologia popular tem mais outra especie de entes sobrenaturaes, que é privativa nossa.—São as _moiras incantadas_, que nem são bruxas, duendes nem fadas, mas lindas e amaveis creaturas que se divertem a incantar, a excitar os desejos dos pobres mortaes—e ás vezes, tam boas são! a satisfazê-los.
Não é d’este logar o exame, que sería bem curioso, da mythologia nacional portugueza. Basta dizer, como o A. de D. Branca, que devemos explorar ésta mina tam ricca, e tam pouco lavrada, de bellezas poeticas originaes e novas que, sem imprestimo nem favor alheio, podêmos haver do nosso e de casa. (_Nota da primeira edição._)
NOTA V
Se a ha, não lhe acudiu Deus, Venceram peccados seus
pag. 54.
O povo é geralmente fatalista; e o nosso portuguez o mais fatalista que eu conheço. _Tinha de succeder, ra coisa que o perseguia_, e outras que taes razões, são a explicação de todo o phenomeno estranho que os surprehende.
Aqui a cegueira da ignorancia leva pelo mesmo caminho que os desvarios da sciencia. A coisa é a mesma ao cabo: vaidade e presumpção humana. (_Nota da primeira edição._)
NOTA X
Mas diz que não ha condão Peior que o da maldicção
pag. 59.
A maldicção do pae desacatado, ou do pobre maltrattado, passam entre o povo por ser as mais terriveis e inevitaveis. Atéqui a moral de accôrdo com a crença vulgar. Mas a maldicção, hereditaria em seus effeitos, é outra parte d’este dogma popular que em verdade repugna.—É certo porêm que se é acaso, o acaso tem servido muito bem os fautores d’aquella crença. (_Nota da primeira edição._)
NOTA Y
Ah! essa alma corrompida Mais do que teu corpo estava
pag. 67.
O leitor verá n’esta passagem, no conselho de Auzenda á filha, em muitos logares d’esta e da cantiga IV principalmente, quanto fiz por me conservar perto do romance primitivo, assim no pensamento como até na phrase e stylo, tanto quanto o permittia a decencia, e outras vezes a correcção da phrase, e ja tambem a indole do meu romance. (_Nota da primeira edição._)
NOTA Z
Sette annos e um dia Foi a sentença cruel Que Adozinda cumpriria
pag. 72.
Sette annos e um dia é o periodo mysterioso de quasi todos os nossos contos de fadas, incantamentos e coisas similhantes.
No mui galante romance do _Caçador_, que é um dos mais queridos do povo, se diz:
Sette fadas me fadaram Nos braços de mi’ madrinha, Que estivesse aqui sette annos, Sette annos e mais um dia.
O numero sette é mysterioso em todos os povos, mas ésta expressão algebrico-negromantica de 7 + 1 creio que é só portugueza. (_Nota da primeira edição._)
É de toda a peninsula. Vej. os romanceros castelhanos. (_Nota da segunda edição._)
NOTA AA
Arreda, arreda, infanções, Cavalleiros, dae logar
pag. 78.
Veja o glossario de S.ta Rosa para ampla explicação do que eram _infanções_ entre nós. Para intelligencia d’esta passagem basta saber-se que era uma especie de vassallos mais distinctos. (_Nota da primeira edição._)
NOTA BB
E por senhor reconhecem Ao ricco-homem de Landim
pag. 80.
Sôbre _ricco-homem_, veja o mesmo glossario. A dignidade de ricco-homem perfeitamente obsoleta em Portugal, ainda a mencionam os fidalgos castelhanos em seus titulos.
Ricco-homem, naturalmente, quer dizer magnata, da primeira aristocracia, _procer_, grande senhor. (_Nota da primeira edição._)
NOTA CC
E essa voz diziam todos Que era a voz de Dom Sisnando
pag. 85.
Ésta especie de _vindicta-pública_, com que o povo stigmatisa a memoria dos malvados e grandes criminosos, é muito provavelmente a origem das almas-do-outro-mundo, dos _revenants_, vampiros, etc., etc.
Se se procurar bem a fonte primitiva de todas as fábulas, ver-se-ha que não ha credulidade mythologica que não tenha por base o instincto da moral e da justiça, commum a todos os povos. (_Nota da primeira edição._)
AO BERNAL-FRANCEZ
NOTA A
‘Quem bate á minha porta, Quem bate, oh! quem ’stá ahi?’
pag. 97.
Por estes versos começa o romance original, tradicionalmente conservado na memoria do povo, e sómente impresso a primeira vez em Londres na primeira edição da Adozinda em 1828. Ja n’outra parte se deram as razões por que irá agora esse texto no logar competente do Romanceiro, no segundo livro e segundo volume d’elle. (_Nota da segunda edição._)
NOTA B
For knowest thou not, where softest swell
pag. 107.
A versão ingleza, quasi sempre litteral, afasta-se aqui do texto sensivelmente, mas sem alterar as proprias ideas, sómente a fórma d’ellas. (_Nota da segunda edição._)
Á NOITE DE SAN’JOÃO
NOTA A
Té os moiros na Moirama Festejam a San’João
pag. 119.
É uma cantiga popular do Minho ainda hoje cantada por toda essa noite de San’João, que n’aquellas terras ninguem dorme, como é sabido. A superstição da alcachofa é toda do Sul, toda lisboeta, talvez coirman d’aquellas de dia de Maio que o catholico senado municipal votou e prometteu a Nossa Senhora da Escada de acabar para sempre. Mas San’João fez-se um santo de exemplar tolerancia desde que lhe tiraram a cabeça por elle não podêr ver, sem ralhar, as desinvoltas pernas da baiadera Herodias.
Não quero folgar com o que é serio: mas é notavel que a devoção quasi universal dos christãos tomasse para patrono e orago de seus mais livres folgares e festanças, e lhe consagrasse a mais risonha e lasciva estação do anno, ao austero percursor do Christo, o jejuador penitente do deserto, o severo censor da soltura cortezan, o protomartyr da moralidade evangelica.
Sería que a timida singelleza de nossos passados fôsse de proposito buscar aquelle austero e invisivel inspector de seus ainda então innocentes brinquedos? (_Nota da segunda edição._)
AO CHAPIM D’ELREI
NOTA A
Nós temos, se me não ingano, no genero narrativo popular as tres especies, romance, xácara, soláo
pag. 142.
Ésta classificação é em parte conjectural, ou para fallar com mais propriedade, sim ésta é a regra, mas com tantas excepções que chegam a fazer duvidar d’ella. Os que escreviam e compunham n’aquelles tempos primitivos curavam pouco de cingir-se a regras ou classificações. D’ahi veio uma certa anarchia, constituida e fundada no exemplo, ou na falta d’elle, que se prolongou por muitos seculos depois.
A respeito de soláos, por exemplo, temos para abonar a definição que d’elles se dá no logar annotado, a auctoridade immensa de Bernardim Ribeiro na _Menina e Môça_: ahi cap. 21.
Pondo-se a ama a pençar a menina sua criada como sohia, como pessoa agastada de algua noua dor, se quiz tornar ás cantigas, e começou ella entam contra a menina que estaua pençando, a cantar-lhe um cantar á maneira de soláo, que era o que nas coisas tristes se acostumava nestas partes: e dizia assi: etc.
Mas por outra parte, temos o não menos grave pêso de Sá-de-Miranda na egloga 4:
Que se os velhos soláos fallam verdade, Bem sabe ella por próva como Amor Magôa, e averá de mi piedade.
Da primeira citação parece concluir-se que o soláo é, como deixo ditto, um cantar todo lyrico, de tristeza e lamentos: na segunda considera-se como narrativo e usurpando propriamente a provincia do romance. (_Nota da segunda edição._)
Vej. o que a este respeito se escreve no liv. II do ROMANCEIRO. (_Nota da terceira edição._)
NOTA B
Antes ser pobre e villan, Antes, pela minha fei
pag. 146.