Romanceiro I: Romances da Renascença

Part 6

Chapter 63,725 wordsPublic domain

mas cujo é, e a que pé serve, só se voltar do outro mundo o dito rei para no-lo dizer.

Lisboa, 27 de Março de 1843.

* * * * *

No appendice ao II livro do ROMANCEIRO achará o leitor a versão ingleza d’esta xácara, publicada pelo Sr. Adamson na sua LUSITANIA ILLUSTRADA, part. II.

Abril, 17—1853.

OS EDITORES.

O CHAPIM D’ELREI

OU

PARRAS VERDES

I

Verdes parras tem a vinha, Riccas uvas n’ella achei, Tam maduras, tão coradas... Estão dizendo ‘comei!’

—‘Quero saber quem n’as guarda; Ide, mordomo, e sabei:’ Disse o rei ao seu mordomo. Mas porque o dizia o rei?

Porque viu n’aquelle monte —E como elle o viu não sei’— Essa donna imparedada, Não se sabe por que lei,

Que por seu mal é condessa, Condessa de Valderey: Antes ser pobre e villan, Antes pela minha fei[17]!

Verdes parras tem a vinha: Uvas que lhe víra el-rei Tam maduras, tão coradas, Estão dizendo ‘comei!’

II

Veio o mordomo do monte: —‘Boas novas, senhor rei! A vinha anda bem guardada, Mas eu sempre lá entrei.

‘O dono foi-se a outras terras, Quando volverá não sei; A porta é velha, e a porteira Com chave de ouro a tentei.

‘Serve a chave á maravilha, Tudo porfim ajustei: Ésta noite á meia-noite Comvosco á vendima irei.’

—‘Valeis um reino, mordomo, Grandes mercês vos farei: Ésta noite á meia-noite Riccas uvas comerei.’

A vinha tem parras verdes, Madura a uva lhe achei; E tam madura, tam bella, Que está dizendo ‘comei!’

III

Ao pino da meia-noite Foi mordomo e foi o rei: Doblas que deram á velha, Um conto que nem eu sei.

—‘Mordomo ficae á porta, Á porta que eu entrarei; Não me saltem cães na vinha Em quanto eu vendimarei.’

A porteira o que lhe importa É a dá-me que te darei... No camarim da condessa Veis agora entrar o rei.

Levava um candil acceso; Era de prata, sabei: Não ha senão prata e oiro Na casa de Valderey.

Da vinha as parras são verdes As uvas maduras sei, São tão coradas, tão bellas... D’ellas—quando comerei!

IV

No camarim da condessa Tudo andava á mesma lei, Era o ceo d’aquelle anjo: Que mais vos diga não sei.

Riccas sedas de Millão, Toalhas de Courteney... Tremia o rei—se era susto, Se era de gôsto não sei.

Cortinas de seda verde Vai ergo não erguerei... Tal clarão lhe deu na vista, Como não cahiu não sei.

Era uma tal formosura... Ora que mais vos direi? Outro primor como aquelle Não vistes nem eu verei.

Verdes parras tem a vinha, Riccas uvas lhe avistei, Tam formosas, tam maduras, Estão dizendo ‘comei!’

V

Dormia tam descançada Como eu no ceo dormirei Quando for tam innocente... Jesus! se eu lá chegarei!

De joelhos toda a noite Alli fica o bom do rei, Pasmado a olhar para ella Sem bulir nem mão nem pei[18].

E dizia:—‘Senhor Deus! Perdoae-me o que já pequei, Mas este anjo de innocencia Não sou eu que offenderei.

Tem verdes parras a vinha; Lindas uvas que eu lhe achei, Tenho medo que me travem... D’ellas, ai! não comerei.

VI

Ja vinha arraiando o dia, E elle, como vos contei, Ouve apitar o mordomo... —‘Jesus, senhor, me valei!’

Era o signal ajustado —Vindo o conde, apitarei— Deixou cahir as cortinas Dizendo:—‘Não vendimei!’

Lindas parras tem a vinha, Bellas uvas n’ella achei; Mas doeu-me a consciencia, Das uvas não comerei.

VII

Deita a correr com tal pressa Que voava o bom do rei: —‘Ai que perdi um chapim...’ —‘Tomae, que um meu vos darei:

‘Mas nem um instante mais, Que o conde ja avistei Descendo d’aquella altura; Se nos colherá não sei...’

Era o medo do mordomo: Outro era o medo do rei. Qual d’elles tinha razão Agora vo-lo direi.

Parras verdes viu na vinha, Uvas maduras de lei; Foi travo da consciencia, Diz:—‘D’ellas não comerei.’

VIII

Chega o conde á sua tôrre, O conde de Valderey, Topou n’um chapim bordado... Como ficou não direi.

Vai-se ao quarto da condessa: —‘Morrerá, mattá-la-hei.’ Viu-a dormir tão serena: —‘Jesus! não sei que farei!’

Corre a casa ao derredor: —‘Deus me tenha em sua lei, Que ou ésta mulher é bruxa Ou eu c’o chapim sonhei!

‘O chapim aqui o tenho, O chapim bem n’o topei... Mas que durma assim tão manso Quem tal fez, não n’o crerei.’

Entrou a scismar n’aquillo: —‘Valha-me Deus! que farei? Por menos fica homem doudo; E eu como o não ficarei?’

Minha vinha tão guardada! Uvas que n’ella deixei Não é fructa que se conte... Da que me falta não sei.’

IX

Foi-se fechar no mais alto Da tôrre de Valderey: —‘Não quero comer do pão, Nem do vinho beberei;

‘Minhas barbas e cabellos Tambem mais os não farei, Que ésta verdade não saiba D’aqui me não tirarei.’

Verdes parras d’essa vinha, Uvas que eu não comerei, Ficae-vos sêccas embora, Que eu já’gora—morrerei.

X

Por tres dias e tres noites Que se guarda aquella lei; Clama a triste da condessa: —‘Ao seu mal que lhe farei!’

De quem foi ella valer-se? Agora vo-lo direi. Foi lastimar-se a innocente... Onde iria?—ao proprio rei.

—‘Ide, condessa, ide embora, Que eu remedio lhe darei; O segredo do seu mal Sei-o eu... Se o saberei?

‘Palavra de cavalleiro Em lealdade vos darei, Que ou elle hade ser quem era, Ou eu, quem sou, não serei.’

As verdes parras da vinha, As uvas que eu cubicei, Ellas a travar-me n’alma... E mais d’ellas não provei!

XI

Fôra d’alli a condessa, Não tardou em ir o rei: —‘Quero ouvir o que elles dizem, A ésta porta escutarei.’

Ouviu uma voz celeste Como tal nunca ouvirei, Cantando em doce toada Este triste vireley:

—‘Já fui vinha bem cuidada, Bem querida, bem trattada: Como eu medrei! Ora não sou nem serei: O porquê não sei Nem n’o saberei!’

Com as lagrimas nos olhos Foi d’alli o bom do rei: —‘Oiçamos agora o outro, E o que sabe, saberei!’

—‘Minha vinha tam guardada! Quando n’ella entrei Rastos do ladrão achei; Se me elle roubou não sei: Como o saberei?’

Era o conde a lastimar-se. Surrindo dizia o rei (Se era de si ou do conde Que elle se ria não sei):

—‘Eu fui que na vinha entrei, Rastos de ladrão deixei, Parras verdes levantei, Uvas bellas N’ellas—vi: E assim Deus me salve a mi Como d’ellas Não comi!’

XII

A porta tinha uma fresta: Tirou o chapim do pei[19], Atirou-lh’o para dentro, Disse-lhe:—‘Vêde e sabei.’

Do mais que alli succedeu Para que vos contarei? O conde soube a verdade, E o rei soube—ser rei.

Verdes parras tem a vinha, Riccas uvas lá deixei: Quem m’a guardou foi o medo... De Deus e da sua lei.

VI

ROSALINDA

É verdadeiramente sublime, tem toda a frescura viçosa das imagens da poesia primitiva, a com que termina este romance. Tudo o que ha de asqueroso n’uma sepultura desapparece do tumulo em que amor desfolhou os seus goivos: alli não ha corrupção nem vermes: uma bella árvore, um rosal florido reproduzem em ‘novas e mudadas fórmas’ os corpos de dois amantes. A vida não acabou, mudou só; e nem mudou tanto, que a vegetal seiva d’esses ramos não ferva ainda do mesmo ardor que ja animou aquelle sangue. Tendem umas para as outras as apaixonadas vergonteas; cortam-n’as e ellas recrescem, e vão-se abraçar como duas palmeiras namoradas.

Sente-se aqui o BELLO, sente-o qualquer porque é bello devéras. Assim se popularizou ésta imagem e fez a volta da Europa, que a achâmos nos romances e soláos de quantos povos entraram na grande communhão romano-celtica, romano-theutonica, ou celto-theutonica:—talvez seja o modo mais exacto de dizer, este último.

O romance _Prence Robert_, publicado por Sir Walter Scott, da tradição oral das raias d’Escocia[20], remata com éstas coplas:

The tane was buried in Marie’s kirk The tother in Marie’s quair; And out o’the tane there spring a birk, And out o’the tother a brier.

And thae twa met, and thae twa plat, The birk but and the brier; And by that ye may very weel ken They were twa lovers dear.

Cito éstas coplas escocezas por serem as que mais se parecem com as do nosso romance: ha muitos outros parallelismos, mais ou menos approximados, nos romanceiros e cancioneiros de quasi todas as linguas. Não é possivel descubrir hoje onde nasceu a idea original; no portuguez é onde ella está mais lindamente expressada e com mais ‘sentimento.’ Na famosa historia de Dom Tristam, apontada a este proposito por Sir W. Scott, occorre a mesma imagem.

‘_Ores veitil que de la tumbe de Tristam yssait une belle ronce verte et feuilleuse, qui aleoit par la chapelle, et dêscendoit le bout de la ronce sur la tumbe d’Isseult, et entroit dedans._’ Tres vezes cortaram a milagrosa planta, mas, continúa o bom do historiador, Rusticien de Puise, ‘_le lendemain estoit aussi belle comme elle avoit cydevant été, et ce miracle estoit sur Tristam et sur Ysseult à tout jamais advenir_.’

É um ponto luminoso para as indagações philologicas na historia das linguas modernas—ou da sua poesia, que é a mesma coisa. É para mais ainda; porque a historia do homem, por aqui a hade começar a estudar quem verdadeiramente a quizer saber.

Eu fiz este romance de tres fragmentos diversos, tam fragmentos que nenhum d’elles per si se intendia bem. O primeiro appareceu-me inserido no de Eginaldo, Reginaldo—ou Girinaldo, como diz em muitas partes o povo. O segundo e terceiro involtos com o de Claralinda ou Clara-lindes, que os castelhanos chamam _Clara-niña_, e ao romance o do conde Claros.

No logar competente do cancioneiro darei esses romances que hoje tenho restituidos pela collação de outros fragmentos e de melhores cópias que depois me vieram[21].

Campolide, 8 de Setembro 1843.

* * * * *

Tambem na LUSITANIA ILLUSTRATA vem a traducção ingleza d’este romance que vai copiada no appendice á II parte do LIVRO II do nosso ROMANCEIRO.

Aqui damos agora o bello estudo e versão franceza de M. Edouard Fournier sôbre a Rosalinda, que se publicou em Paris em 1852.

Abril, 16-1853.

OS EDITORES.

ROSALINDA

Era por manhã de maio, Quando as aves a piar, As árvores e as flores, Tudo se anda a namorar;

Era por manhã de maio, Á fresca riba de mar, Quando a infanta Rosalinda Alli se estava a toucar.

Trazem das flores vermelhas, Das brancas para a infeitar; Tam lindas flores como ella Não n’as poderam achar:

Que é Rosalinda mais linda Que a rosa, que o nenuphar, Mais pura que a açucena Que a manhan abre a chorar.

Passava o conde almirante Na sua galé do mar; Tantos remos tem por banda Que se não podem contar;

Captivos que a vão remando A Moirama os foi tomar; D’elles são grandes senhores, D’elles de sangue real:

Que não ha moiro seguro Entre Ceuta e Gibraltar Mal sai o conde almirante Na sua galé do mar.

Oh que tam linda galera, Que tam certo é seu remar! Mais lindo capitão leva, Mais certo no marear.

—‘Dizei-me, o conde almirante Da vossa galé do mar, Se os captivos que tomais Todos los fazeis remar?’

—‘Dizei-me, a bella infanta, Linda rosa sem egual, Se os escravos que lá tendes Todos vos sabem toucar?’

—‘Cortez sois, Dom Almirante: Sem responder, perguntar!’ —‘Responder, responderei, Mas não vos heisde infadar:

‘Captivos tenho de todos, Mais bastos que um aduar; Uns que mareiam as velas, Outros no banco a remar:

‘As captivas que são lindas Na poppa vão a dançar, Tecendo alfombras de flores Para o senhor se deitar.’

—‘Respondeis, respondo eu, Que é boa lei de pagar: Tenho escravos para tudo, Que fazem o meu mandar;

‘D’elles para me vestir, D’elles para me toucar... Para um só tenho outro imprêgo, Mas está por captivar...

—‘Captivo está, tam captivo Que se não quer resgatar. Rema, a terra a terra, moiros, Voga certo, e a varar!’

Ja se foi a Rosalinda Com o almirante a folgar: Fazem sombra as larangeiras, Goivos lhe dão cabeçal.

Mas fortuna, que não deixa A nenhum bem sem dezar, Faz que um monteiro d’elrei Por alli venha a passar.

—‘Oh monteiro, do que viste, Monteiro, não vás contar: Dou-te tantas bolsas de oiro Quantas tu possas levar.’

Tudo o que viu o monteiro A elrei o foi contar, A casa da estudaria Onde elrei stava a estudar.

—‘Se á puridade o disseras, Tença te havia de dar: Quem taes novas dá tam alto, Alto hade ir... a inforcar.

‘Arma, arma, meus archeiros Sem charamellas tocar! Cavalleiros e piões, Tudo á tapada a cercar.’

Inda não é meio dia, Começa a campa a dobrar; Inda não é meia noite, Vão ambos a degollar.

Ao toque de ave-marias Foram ambos a interrar: A infanta no altar mor, Elle á porta principal.

Na cova da Rosalinda Nasce uma árvore real, E na cova do almirante Nasceu um lindo rosal.

Elrei, assim que tal soube, Mandou-os logo cortar, E que os fizessem em lenha Para no lume queimar.

Cortados e recortados, Tornavam a rebentar: E o vento que os incostava, E elles iam-se abraçar.

Elrei, quando tal ouviu, Nunca mais pôde fallar; A rainha, que tal soube, Cahia logo mortal.

—‘Não me chamem mais rainha, Rainha de Portugal... Apartei dous innocentes Que Deus queria juntar!’

ÉTUDES SUR LA ROSALINDA

Les rapports entre la littérature française et la littérature portugaise, au moyen-âge, furent plus grands et plus directs que l’éloignement des deux pays ne le donnerait à penser. M. Raynouard a été des premiers à le remarquer; il ne s’est même pas borné à une simple constatation du fait, il l’a appuyé de toutes sortes de preuves. Afin même de montrer complètement combien la langue portugaise se rapprochait de la langue romane, il a été jusqu’à traduire dans la langue des troubadours, une petite pièce du Camoëns[22]. Épreuve triomphante! car à quelques syllabes près, les deux pièces, l’original et la traduction, se sont trouvés les mêmes. Il n’y a pas plus complète identité contre les _Noei_ en patois bourguignon et la très facile traduction française que tout le monde peut en faire. Qu’on en juge par la seconde des deux strophes:

PORTUGAIS LANGUE DES TROUBADOURS

Melhor deve ser Melhor deu esser N’este aventurar En est aventurar Ver e não guardar Vezer e no guardar Que guardar e ver. Que guardar e vezer. Ver e defender Vezer e defender Muito bom seria, Molt bon seria, Mas quem poderia? Mas qui poiria?

Dans tout cela, je le répète, il n’y a pas une syllabe qui ne soit sœur de celle qui la traduit.

Les mots qui servaient à designer les diverses sortes de pièces de poésie étaient les mêmes pour les poëtes portugais et pour les poëtes de la langue romane. Ceux-ci, par exemple, avaient le _lai_ qui correspondait directement au _leod_ allemand et au _laoi_ des Irlandais; ceux-là, Portugais et Espagnols, avaient le _loa_. La même chose sous le même mot. Une autre espèce de poëme s’appelait _dict_ chez les trouvères, et les Portugais le connaissaient aussi sous un nom presque pareil. Dans la _Carta del marquès de Santillana_, se lit cette phrase par laquelle se trouvent indiqués ces _dicts_ en langue portugaise: ‘Cantigas serranas, e _dicires_ Portugueses e Gallegos.’ Pour exprimer la rime dans toute sa primitivité native, mais mélodieuse, nous avions le mot _assonnance_ qui est resté, et le verbe _assonner_ qui n’a malheureusement pas eu le même sort. Les Espagnols et les Portugais avaient de même le verbe _asonar_ qu’ils étendaient jusqu’au sens de l’expression ‘_mettre en musique_[23].’ Enfin, il n’est pas jusqu’au mot _troubadour_ qui ne se retrouve à peine modifié dans la langue portugaise. Tantôt c’est _trobar_, tantôt c’est _trobador_. Le premier de ces mots se trouve dans ce vers des _Fragmentos de hum Cancioneiro inedito_[24]:

Et por que m’ora quitey de trobar,

et le second, aux fol. 91 et 101 du même recueil.

Ces similitudes ne se retrouvent pas seulement dans les idiomes, mais encore dans le génie des deux nations. On voit par les œuvres qu’ont laissées leurs poëtes que toutes deux puisent aux mêmes sources et se renvoient mutuellement l’inspiration. Mais elle vient surtout des troubadours, il faut bien le dire; et quand nous avons appris que le roi de Portugal Diniz prit pour maître en l’art des vers le troubadour de Cahors, Aymeric d’Ebrard, qui lui apprit à faire même des vers provençaux, et qui reçut en récompense l’archevêché de Lisbonne où il fonda la fameuse université transportée en 1308 à Coïmbre; nous n’avons pas été surpris. À cette époque déjà, tous les bons maîtres venaient de France.

Pour preuve de la communauté d’inspiration des poëtes portugais et des troubadours, nous citerons deux exemples. Une chanson portugaise que nous lisons au fol. 78 du recueil rarissime cité tout-à-l’heure sera le premier. On la trouva ainsi traduite dans les _Prolégomènes de l’Histoire de la Poésie scandinave_, par M. Edelestand Du Méril[25].

‘Par Dieu! ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.

‘Vous me semblez si belle, ô dame, que jamais je n’en vis d’aussi belle et je vous dis une grande vérité, telle que je n’en sais pas de plus vraie. Par Dieu, ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.

‘Et Dieu, qui vous tient en sa puissance, vous combla si généreusement de ses dons, qu’il n’est rien au monde qui puisse ajouter à votre mérite. Par Dieu, ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.

‘En vous créant, Madame, sa puissance montra tout ce qu’il était capable de réunir en une dame de mérite, de beauté et d’esprit. Par Dieu, ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.

‘Comme brille le bon rubis au milieu des perles, vous brillez entre toutes celles que j’ai jamais vues, et c’est pour moi qui suis épris de tant d’amour que Dieu vous a créée. Par Dieu, dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.’

Notre second exemple será ce chant charmant de la Rosalinda. M. de Almeida-Garrett, avec ce tact exquis et cet haut goût archéologique qui le placent à la tête des poëtes les mieux inspirés et en même temps les plus érudits du Portugal, a retrouvé dans les vieilles traditions du peuple lusitain, et reconstruit d’après trois différents fragments, les meilleures variantes de ce chant depuis si longtemps populaire. Le poëte se trouve à chaque vers de cette chanson telle qu’il l’a rétablie, et l’érudit à chaque ligne de l’introduction historique dont il l’a fait précéder. Jamais en n’a mieux prouvé que dans cette préface savante, les rapports poétiques qui existèrent au moyen-âge entre les races du midi et celles du nort. Où M. Garrett trouve-t-il, en effet, le premier germe de la poétique image qui couronne la ballade portugaise? Dans les chants écossais, dans la romance du _Prince Robert_, telle que la tradition orale l’avait transmise a Walter-Scott pour son _Minstrelsy of the scottish border_ etc.[26]; ou bien encore dans cette fameuse histoire de Tristam et de la belle Iseult, par Rusticien de Puise, dont il cite, d’après Walter-Scott, de trop courts fragments...

Ces détails miraculeux de l’histoire d’Iseult se retrouvent dans les dernières strophes de la _Rosalinda_[27]. On le verra, du reste, par la traduction complète que nous en avons tentée. Elle est en vers souvent inélégants et mal rimés, mais exacts, je crois, et serrant du plus près qu’il est possible la strophe portugaise, bien que dans un rhythme différent. Pour nous excuser des rimes insuffisantes et des mots vieillis, nous dirons que s’ils sont de mise quelque part, c’est dans un chant populaire, et nous alléguerons, à qui ne nous le pardonnerait pas, l’enthousiasme du morose Alceste pour cette vieille chanson du _roi Henri_, qui cependant est pleine de ces mêmes défauts. Ce qu’il dit pour les excuser devra nous justifier nous-même, et c’est l’un des vers que Molière lui prête que nous servira d’épigraphe.

ROSALINDA

BALLADE PORTUGAISE

La rime n’est pas riche et le style en est vieux[28]

MOLIÈRE, _Misanthrope_.

C’était un matin de mai, Quand l’oiseau dans la nuée, L’arbre au bois, la fleur au pré, Chantent l’amour réveillée.

C’était un matin de mai, Quand Rosalinda l’infante Sur le rivage embaumé Peignait sa tête charmante.

Blanches fleurs on lui portait, Rouges fleurs avec leur branche: Mais en grâce elle passait Et la fleur rouge et la blanche.

Mieux que celle des épis, Mieux que la rose nouvelle, Le nénuphar et le lis La belle infante était belle.

Le comte amiral passait Avec sa galère sombre Mainte rame s’y pressait Tant, qu’on n’en sait pas le nombre.

Les captifs ses noirs rameurs Il les prit au pays More. Tous, ils sont de grands seigneurs, Ou du sang royal encore.

Depois Ceuta, pas un port Qui ne redoute la guerre Quand le comte amiral sort Avec sa noire galère.

Voyez, comme elle fend l’eau, Comme on y rame em mesure! Que son capitaine est beau, Que sa main est forte et sûre!

—‘Dites moi, comte amiral, Pour ces captifs, votre prise, Le labeur, est-il égal? Rament-ils tous, sous la brise?

—‘Vous que je vois se mirer, Belle infante, fleur d’élite, Savent-ils, tous vous parer Ces esclaves, votre suite?’

—‘L’amiral est peu galant, Pour réponse une demande! Qu’il parle, il se peut pourtant Que sa réponse on lui rende.’

—‘Ainsi qu’un chef d’Adouar, J’ai bien des captifs, madame, Du travail tous ont leur part, L’un manœuvre et l’autre rame.

‘Les captives au beau front Dansent, effeuillant la rose, Et de fleurs jonchent le pont, Pour que leur maître y repose.

—‘Vous répondez, je vous dois Comte, égale politesse: J’ai, dociles à ma voix, Esclaves de toute espèce.

‘L’un est là pour m’atourner Et cet autre me fait brave (belle). Un emploi reste à donner, Où manque encor un esclave...

—‘Cet esclave il est trouvé, Il défend qu’on le libère; Il ne veut qu’être arrivé, Ramez vite, allons à terre!

Et Rosalinda partit: Et le comte est avec elle, Les fleurs leur prêtent un lit, L’oranger sa verte ombelle.

Mais le sort,—c’est là sa loi— Ne veut qu’un bien sans mal vienne: Là, passe un veneur du roi... C’est ce destin qui l’amène.

—‘De tout ce qui tu vis là, Ne conte rien à personne, Veneur, on te donnera De l’or à payer un trône.’

Mais ce que le veneur sait, Près du roi vite il s’en vante, Qui dans son palais était, Et qui pensait à l’infante.

—‘En honneur dis chaque mot Tu recevras récompense Mais qui dit haut, ira haut, C’est-à-dire à la potence.’

‘Vite, archers, vite clairons, Sonnez, comme pour combattre, Nobles, cavaliers, piétons Vite, allons la forêt battre.’

Midi n’était pas frappé Que sonne un glas mortuaire, Minuit n’avait pas tinté Que leur tête était par terre.

Quand l’Angelus vint après Dans leur fosse on les emporte, Elle au maître-autel, lui près Des marches de la grand’ porte.