Reliquias de Casa Velha

Part 11

Chapter 113,803 wordsPublic domain

Não tenho direito de interrogal-a; mas ha já dez minutos que estamos neste gabinete, falando de cousas bem exquisitas para duas pessoas que apenas se conhecem.

D. CARLOTA, _estendendo-lhe a mão_

Até logo.

CAVALCANTE

A sua mão está fria. Não se vá ainda embora; hão de achal-a agitada. Socegue um pouco, sente-se (_Carlota senta-se._) Eu retiro-me.

D. CARLOTA

Passe bem.

CAVALCANTE

Até logo.

D. CARLOTA

Volta logo?

CAVALCANTE

Não, não volto mais; queria enganal-a.

D. CARLOTA

Enganar-me porque?

CAVALCANTE

Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me; são duas palavras. Eu gostava muito de uma moça que tinha a sua belleza, e ella casou com outro. Eis a minha molestia.

D. CARLOTA, _erguendo-se_

Como assim?

CAVALCANTE

É verdade; casou com outro.

D. CARLOTA, _indignada_

Que acção vil!

CAVALCANTE

Não acha?

D. CARLOTA

E ella gostava do senhor?

CAVALCANTE

Apparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo.

D. CARLOTA, _animando-se aos poucos_

Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua unica ambição, o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplal-o por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas cousas que pareciam cair do ceu, e suspirava...

CAVALCANTE

Sim, suspirava, mas...

D. CARLOTA, _muito animada_

Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de saudade nem de consolação, fugiu e foi casar com uma viuva hespanhola!

CAVALCANTE, _espantado_

Uma viuva hespanhola!

D. CARLOTA

Ah! tem muita razão em estar doente!

CAVALCANTE

Mas que viuva hespanhola é essa de que me fala?

D. CARLOTA, _caindo em si_

Eu falei-lhe de uma viuva hespanhola?

CAVALCANTE

Falou.

D. CARLOTA

Foi engano... Adeus, sr. doutor.

CAVALCANTE

Espere um instante. Creio que me comprehendeu. Falou com tal paixão que os medicos não têm. Oh! como eu execro os medicos! principalmente os que me mandam para a China.

D. CARLOTA

O senhor vae para a China?

CAVALCANTE

Vou; mas não diga nada! foi sua mãe que me deu esta receita.

D. CARLOTA

A China é muito longe!

CAVALCANTE

Creio até que está fóra do mundo.

D. CARLOTA

Tão longe porque?

CAVALCANTE

Boa palavra essa. Sim, porque ir á China, se a gente póde sarar na Grecia? Dizem que a Grecia é muito efficaz para estas feridas; ha quem affirme que não ha melhor para as que são feitas pelos capitães de engenharia. Quanto tempo vae lá passar?

D. CARLOTA

Não sei. Um anno, talvez.

CAVALCANTE

Crê que eu possa sarar n'um anno?

D. CARLOTA

É possivel.

CAVALCANTE

Talvez sejam precisos dous,--dous ou tres.

D. CARLOTA

Ou tres.

CAVALCANTE

Quatro, cinco...

D. CARLOTA

Cinco, seis...

CAVALCANTE

Depende menos do paiz que da doença.

D. CARLOTA

Ou do doente.

CAVALCANTE

Ou do doente. Já a passagem do mar póde ser que me faça bem. A minha molestia casou com um primo. A sua (perdôe esta outra indiscreção; é a ultima) a sua casou com a viuva hespanhola. As hespanholas, mórmente viuvas, são detestaveis. Mas, diga-me uma cousa: se uma pessoa já está curada, que é que vae fazer á Grecia?

D. CARLOTA

Convalescer, naturalmente. O senhor, como ainda está doente, vae para a China.

CAVALCANTE

Tem razão. Entretanto, começo a ter medo de morrer... Pensou alguma vez na morte?

D. CARLOTA

Pensa-se nella, mas lá vem um dia em que a gente acceita a vida, seja como fôr.

CAVALCANTE

Vejo que sabe muita cousa.

D. CARLOTA

Não sei nada; sou uma tagarella, que o senhor obrigou a dar por páos e por pedras; mas, como é a ultima vez que nos vemos, não importa. Agora, passe bem.

CAVALCANTE

Adeus, D. Carlota!

D. CARLOTA

Adeus, doutor!

CAVALCANTE

Adeus. (_Dá um passo para a porta do fundo._) Talvez eu vá a Athenas; não fuja se me vir vestido de frade.

D.CARLOTA (_indo a elle_)

De frade? O senhor vae ser frade?

CAVALCANTE

Frade. Sua mãe approva-me, comtanto que eu vá á China. Parece-lhe que devo obedecer a esta vocação, ainda depois de perdida?

D. CARLOTA

É difficil obedecer a uma vocação perdida.

CAVALCANTE

Talvez nem a tivesse, e ninguem se deu ao trabalho de me dissuadir. Foi aqui, a seu lado, que comecei a mudar. A sua voz sae de um coração que padeceu tambem, e sabe falar a quem padece. Olhe, julgue-me doudo, se quizer, mas eu vou pedir-lhe um favor: conceda-me que a ame (_Carlota, perturbada, volta o rosto_). Não lhe peço que me ame, mas que se deixe amar; é um modo de ser grato. Se fosse uma santa, não podia impedir que lhe accendesse uma vela.

D.CARLOTA

Não falemos mais nisto, e separemo-nos.

CAVALCANTE

A sua voz treme; olhe para mim...

D. CARLOTA

Adeus; ahi vem mamãe.

SCENA XIII

OS MESMOS, D. LEOCADIA

D. LEOCADIA

Que é isto, doutor? Então o senhor quer só um anno de China? Vieram pedir-me que reduzisse a sua ausencia.

CAVALCANTE

D. Carlota lhe dirá o que eu desejo.

D. CARLOTA

O doutor veiu saber se mamãe conhece algum cardeal em Roma.

CAVALCANTE

A principio era um cardeal; agora basta um vigario.

D. LEOCADIA

Um vigario? Para que?

CAVALCANTE

Não posso dizer.

D. LEOCADIA, _a Carlota_

Deixa-nos sós, Carlota; o doutor quer fazer-me uma confidencia.

CAVALCANTE

Não, não, ao contrario... D. Carlota póde ficar. O que eu quero dizer é que um vigario basta para casar.

D. LEOCADIA

Casar a quem?

CAVALCANTE

Não é já, falta-me ainda a noiva.

D. LEOCADIA

Mas quem é que me está falando?

CAVALCANTE

Sou eu, D. Leocadia.

D. LEOCADIA

O senhor! o senhor! o senhor!

CAVALCANTE

Eu mesmo. Pedi licença a alguem...

D. LEOCADIA

Para casar?

SCENA XIV

OS MESMOS, MAGALHÃES, D. LEOCADIA

MAGALHÃES

Consentiu, titia?

D. LEOCADIA

Em reduzir a China a um anno? Mas elle agora quer a vida inteira.

MAGALHÃES

Estás doudo?

D. LEOCADIA

Sim, a vida inteira, mas é para casar. (_D. Carlota fala baixo a D. Adelaide_) Você entende, Magalhães?

CAVALCANTE

Eu, que devia entender, não entendo.

D. ADELAIDE, _que ouviu D. Carlota_

Entendo eu. O Dr. Cavalcante contou as suas tristezas a Carlota, e Carlota, meia curada do seu proprio mal, expoz sem querer o que tinha sentido. Entenderam-se e casam-se.

D. LEOCADIA, _a Carlota_

Devéras? (_D. Carlota baixa os olhos_) Bem; como é para saude dos dous, concedo; são mais duas curas!

MAGALHÃES

Perdão; estas fizeram-se pela receita de um proverbio grego que está aqui neste livro (_Abre o livro_) «Não consultes medico; consulta alguem que tenha estado doente.»

Licção de botanica

PESSOAS

D. HELENA D. LEONOR D. CECILIA BARÃO SEGISMUNDO DE KERNOBERG

Logar da scena: Andarahy.

ACTO UNICO

Sala em casa de D. Leonor. Portas ao fundo, uma á direita do espectador.

SCENA I

D. LEONOR, D. HELENA, D. CECILIA

D. Leonor entra, lendo uma carta. D. Helena e D. Cecilia entram do fundo.

D. HELENA

Já de volta!

D. CECILIA, _a D. Helena, depois de um silencio_

Será alguma carta de namoro?

D. HELENA, _baixo_

Creança!

D. LEONOR

Não me explicarão isto?

D. HELENA

Que é?

D. LEONOR

Recebi ao descer do carro este bilhete. «Minha senhora. Permitta que o mais respeitoso vizinho lhe peça dez minutos de attenção. Vae n'isto um grande interesse da sciencia». Que tenho eu com a sciencia?

D. HELENA

Mas de quem é a carta?

D. LEONOR

Do Barão Segismundo de Kernoberg.

D. CECILIA

Ah! o tio de Henrique!

D. LEONOR

De Henrique! Que familiaridade é essa?

D. CECILIA

Titia, eu...

D. LEONOR

Eu quê?... Henrique!

D. HELENA

Foi uma maneira de falar na ausencia... Com que então o Sr. Barão Segismundo de Kernoberg pede-lhe dez minutos de attenção, em nome e por amor da sciencia. Da parte de um botanico é por força alguma egloga.

D. LEONOR

Seja o que fôr, não sei se deva receber um senhor a quem nunca vimos. Já o viram alguma vez?

D. CECILIA

Eu nunca.

D. HELENA

Nem eu.

D. LEONOR

Botanico e sueco: duas razões para ser gravemente aborrecido. Nada, não estou em casa.

D. CECILIA

Mas quem sabe, titia, se elle quer pedir-lhe... sim... um exame no nosso jardim?

D. LEONOR

Ha por todo esse Andarahy muito jardim para examinar.

D. HELENA

Não, senhora, ha de recebel-o.

D. LEONOR

Porque?

D. HELENA

Porque é nosso vizinho, porque tem necessidade de falar-lhe, e, emfim, porque, a julgar pelo sobrinho, deve ser um homem distincto.

D. LEONOR

Não me lembrava do sobrinho. Vá lá; aturemos o botanico. (_Sae pela porta do fundo, á esquerda._)

SCENA II

D. HELENA, D. CECILIA

D. HELENA

Não me agradeces?

D. CECILIA

O que?

D. HELENA

Sonsa! Pois não adivinhas o que vem cá fazer o barão?

D. CECILIA

Não.

D. HELENA

Vem pedir a tua mão para o sobrinho.

D. CECILIA

Helena!

D. HELENA, _imitando-a_

Helena!

D. CECILIA

Juro...

D. HELENA

Que o não amas.

D. CECILIA

Não é isso.

D. HELENA

Que o amas?

D. CECILIA

Tambem não.

D. HELENA

Mau! Alguma cousa ha de ser. _Il faut qu'une porte soit ouverte ou fermée._ Porta neste caso é coração. O teu coração ha de estar fechado ou aberto...

D. CECILIA

Perdi a chave.

D. HELENA, _rindo_

E não o pódes fechar outra vez. São assim todos os corações ao pé de todos os Henriques. O teu Henrique viu a porta aberta, e tomou posse do logar. Não escolheste mal, não; é um bonito rapaz.

D. CECILIA

Oh! uns olhos!

D. HELENA

Azues.

D. CECILIA

Como o ceu.

D. HELENA

Louro...

D. CECILIA

Elegante...

D. HELENA

Espirituoso...

D. CECILIA

E bom.

D. HELENA

Uma perola. (_Suspira._) Ah!

D. CECILIA

Suspiras?

D. HELENA

Que ha de fazer uma viuva, falando... de uma perola?

D. CECILIA

Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira grandeza.

D. HELENA

Não tenho, não; meu coração já não quer joias.

D. CECILIA

Mas as joias querem o teu coração.

D. HELENA

Tanto peior para ellas: hão de ficar em casa do joalheiro.

D. CECILIA

Veremos isso. (_Sobe_) Ah!

D. HELENA

Que é?

D. CECILIA, _olhando para a direita_.

Um homem desconhecido que lá vem; ha de ser o barão.

D. HELENA

Vou avisar titia. (_Sae pelo fundo, esquerda._)

SCENA III

D. CECILIA, BARÃO

D. CECILIA

Será devéras elle? Estou tremula... Henrique não me avisou de nada... Virá pedir-me?... Mas não, não, não póde ser elle... Tão moço!... (_O barão apparece._)

BARÃO, _á porta, depois de profunda cortezia_

Creio que a Excellentissima senhora D. Leonor Gouvea recebeu uma carta... Vim sem esperar a resposta.

D. CECILIA

É o Sr. Barão Segismundo de Kernoberg? (_O barão faz um gesto affirmativo._) Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (_Áparte._) Devo estar vermelha...

O BARÃO, _áparte, olhando para Cecilia_

Ha de ser esta.

D. CECILIA, _áparte_

E titia não vem... Que demora!... Não sei que lhe diga... estou tão vexada... (_O Barão tira um livro da algibeira e folhea-o._) Se eu pudesse deixal-o... É o que vou fazer. (_Sobe._)

BARÃO, _fechando o livro e erguendo-se_

V Ex. ha de desculpar-me. Recebi hoje mesmo este livro da Europa; é obra que vae fazer revolução na sciencia; nada menos que uma monographia das gramineas, premiada pela Academia de Stockolmo.

D. CECILIA

Sim? (_Áparte._) Aturemol-o, póde vir a ser meu tio.

BARÃO

As gramineas têm ou não têm periantho? A principio adoptou-se a negativa, posteriormente... V. Ex. talvez não conheça o que é o periantho...

D. CECILIA

Não, senhor.

BARÃO

Periantho compõe-se de duas palavras gregas: _peri_, em volta, e _anthos_ flor.

D. CECILIA

O envolucro da flor.

BARÃO

Acertou. É o que vulgarmente se chama calix. Pois as gramineas eram tidas... (_Apparece D. Leonor ao fundo._) Ah!

SCENA IV

OS MESMOS, D. LEONOR

D. LEONOR

Desejava falar-me?

BARÃO

Se me dá essa honra. Vim sem esperar resposta á minha carta. Dez minutos apenas.

D. LEONOR

Estou ás suas ordens.

D. CECILIA

Com licença. (_Áparte, olhando para o ceu._) Ah! minha Nossa Senhora! (_Retira-se pelo fundo._)

SCENA V

D. LEONOR, BARÃO

(D. Leonor senta-se, fazendo um gesto ao Barão que a imita)

BARÃO

Sou o Barão Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, botanico de vocação, profissão e tradição, membro da Academia de Stockolmo, e commissionado pelo governo da Suecia para estudar a flora da America do Sul. V. Ex. dispensa a minha biographia? (_D. Leonor faz um gesto affirmativo._) Direi sómente que o tio de meu tio foi botanico, meu tio botanico, eu botanico, e meu sobrinho ha de ser botanico. Todos somos botanicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa.

D. LEONOR

Oh! o meu jardim é composto de plantas vulgares.

BARÃO, _gracioso_

É porque as melhores flores da casa estão dentro de casa. Mas V. Ex. engana-se; não venho pedir nada do seu jardim.

D. LEONOR

Ah!

BARÃO

Venho pedir-lhe uma cousa que lhe ha de parecer singular.

D. LEONOR

Fale.

BARÃO

O padre desposa a egreja; eu desposei a sciencia. Saber é o meu estado conjugal; os livros são a minha familia. N'uma palavra, fiz voto de celibato.

D. LEONOR

Não se case.

BARÃO

Justamente. Mas, V. Ex. comprehende que, sendo para mim ponto de fé que a sciencia não se dá bem com o matrimonio, nem eu devo casar, nem... V. Ex. já percebeu.

D. LEONOR

Cousa nenhuma.

BARÃO

Meu sobrinho Henrique anda estudando commigo os elementos da botanica. Tem talento, ha de vir a ser um luminar da sciencia. Se o casamos, está perdido.

D. LEONOR

Mas...

BARÃO, _áparte_

Não entendeu. (_Alto._) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda apaixonado por uma de suas sobrinhas, creio que esta que saiu d'aqui, ha pouco. Impuz-lhe que não voltasse a esta casa; elle resistiu-me. Só me resta um meio: é que V. Ex. lhe feche a porta.

D. LEONOR

Senhor barão!

BARÃO

Admira-se do pedido? Creio que não é polido nem conveniente. Mas é necessario, minha senhora, é indispensavel. A sciencia precisa de mais um obreiro: não o encadeiemos no matrimonio.

D. LEONOR

Não sei se devo sorrir do pedido...

BARÃO

Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Terá os meus agradecimentos e as benções da posteridade.

D. LEONOR, _sorrindo_

Não é preciso tanto; posso fechal-a de graça.

BARÃO

Justo. O verdadeiro beneficio é gratuito.

D. LEONOR

Antes, porém, de nos despedirmos, desejava dizer uma cousa e perguntar outra. (_O barão curva-se_) Direi primeiramente que ignoro se ha tal paixão da parte de seu sobrinho; em segundo logar, perguntarei se na Suecia estes pedidos são usuaes.

BARÃO

Na geographia intellectual não ha Suecia nem Brazil; os paizes são outros: astronomia, geologia, mathematicas; na botanica são obrigatorios.

D. LEONOR

Todavia, á força de andar com flores... deviam os botanicos trazel-as comsigo.

BARÃO

Ficam no gabinete.

D. LEONOR

Trazem os espinhos sómente.

BARÃO

V. Ex. tem espirito. Comprehendo a affeição de Henrique a esta casa. (_Levanta-se_) Promette-me então...

D. LEONOR, _levantando-se_

Que faria no meu caso?

BARÃO

Recusava.

D. LEONOR

Com prejuizo da sciencia?

BARÃO

Não, porque nesse caso a sciencia mudaria de acampamento, isto é, o vizinho prejudicado escolheria outro bairro para seus estudos.

D. LEONOR

Não lhe parece que era melhor ter feito isso mesmo, antes de arriscar um pedido inefficaz?

BARÃO

Quiz primeiro tentar fortuna.

SCENA VI

D. LEONOR, BARÃO, D. HELENA

D. HELENA, _entra e pára_

Ah!

D. LEONOR

Entra, não é assumpto reservado. O Sr. Barão de Kernoberg...(_Ao Barão_) É minha sobrinha Helena. (_A Helena._) Aqui o Sr. Barão vem pedir que o não perturbemos no estudo da botanica. Diz que seu sobrinho Henrique está destinado a um logar honroso na sciencia, e... Conclua, Sr. Barão.

BARÃO

Não convem que se case, a sciencia exige o celibato.

D. LEONOR

Ouviste?

D. HELENA

Não comprehendo...

BARÃO

Uma paixão louca de meu sobrinho póde impedir que... Minhas senhoras, não desejo roubar-lhes mais tempo... Confio em V. Ex., minha senhora... Ser-lhe-hei eternamente grato. Minhas senhoras. (_Faz uma grande cortezia e sae._)

SCENA VII

D. HELENA, D. LEONOR

D. LEONOR, _rindo_

Que urso!

D. HELENA

Realmente...

D. LEONOR

Perdôo-lhe em nome da sciencia. Fique com as suas hervas, e não nos aborreça mais, nem elle nem o sobrinho.

D. HELENA

Nem o sobrinho?

D. LEONOR

Nem o sobrinho, nem o creado, nem o cão, se o houver, nem cousa nenhuma que tenha relação com a sciencia. Enfada-te? Pelo que vejo, entre o Henrique e a Cecilia ha tal ou qual namoro?

D. HELENA

Se promette segredo... ha.

D. LEONOR

Pois acabe-se o namoro.

D. HELENA

Não é facil. O Henrique é um perfeito cavalheiro; ambos são dignos um do outro. Por que razão impediremos que dous corações...

D. LEONOR

Não sei de corações, não hão de faltar casamentos a Cecilia.

D. HELENA

Certamente que não, mas os casamentos não se improvisam nem se projectam na cabeça; são actos do coração, que a egreja santifica. Tentemos uma cousa.

D. LEONOR

Que é?

D. HELENA

Reconciliemo-nos com o Barão.

D. LEONOR

Nada, nada.

D. HELENA

Pobre Cecilia!

D. LEONOR

É ter paciencia, sujeite-se ás circumstancias... (_A D. Cecilia, que entra_) Ouviste?

D. CECILIA

O quê, titia?

D. LEONOR

Helena te explicará tudo. (_A D. Helena baixo_) Tira-lhe todas as esperanças. (_Indo-se_) Que urso! que urso!

SCENA VIII

D. HELENA, D. CECILIA

D. CECILIA

Que aconteceu?

D. HELENA

Aconteceu... (_Olha com tristeza para ella._)

D. CECILIA

Acaba.

D. HELENA

Pobre Cecilia!

D. CECILIA

Titia recusou a minha mão?

D. HELENA

Qual! O Barão é que se oppõe ao casamento.

D. CECILIA

Oppõe-se!

D. HELENA

Diz que a sciencia exige o celibato do sobrinho.

(_D. Cecilia encosta-se a uma cadeira_) Mas, socega; nem tudo está perdido; póde ser que o tempo...

D. CECILIA

Mas quem impede que elle estude?

D. HELENA

Mania de sabio. Ou então, evasiva do sobrinho.

D. CECILIA

Oh! não! é impossivel; Henrique é uma alma angelica! Respondo por elle. Ha de certamente oppôr-se a semelhante exigencia...

D. HELENA

Não convem precipitar as cousas. O Barão póde zangar-se e ir-se embora.

D. CECILIA

Que devo então fazer?

D. HELENA

Esperar. Ha tempo para tudo.

D. CECILIA

Pois bem, quando Henrique vier...

D. HELENA

Não vem, titia resolveu fechar a porta a ambos.

D. CECILIA

Impossivel!

D. HELENA

Pura verdade. Foi uma exigencia do Barão.

D. CECILIA

Ah! conspiram todos contra mim. (_Põe as mãos na cabeça_) Sou muito infeliz! Que mal fiz eu a essa gente? Helena, salva-me! Ou eu mato-me! Anda, vê se descobres um meio...

D. HELENA, _indo sentar-se_.

Que meio?

D. CECILIA, _acompanhando-a_.

Um meio qualquer que não nos separe!

D. HELENA, _sentada_.

Ha um.

D. CECILIA

Qual? Dize.

D. HELENA

Casar.

D. CECILIA

Oh! não zombes de mim! Tu tambem amaste, Helena; deves respeitar estas angustias. Não tornar a ver o meu Henrique é uma idéa intoleravel. Anda, minha irmãsinha. (_Ajoelha-se inclinando o corpo sobre o regaço de D. Helena._) Salva-me! És tão intelligente, que has de achar por força alguma idéa; anda, pensa!

D. HELENA, _beijando-lhe a testa_.

Creança! suppões que seja cousa tão facil assim?

D. CECILIA

Para ti ha de ser facil.

D. HELENA

Lisonjeira! (_Pega machinalmente no livro deixado pelo Barão sobre a cadeira._) A boa vontade não póde tudo; é preciso... (_Tem aberto o livro._) Que livro é este?... Ah! talvez do Barão.

D. CECILIA

Mas vamos... continua.

D. HELENA

Isto ha de ser sueco... trata talvez de botanica. Sabes sueco?

D. CECILIA

Helena!

D. HELENA

Quem sabe se este livro póde salvar tudo? (_Depois de um instante de reflexão_) Sim, é possivel. Tratará de botanica?

D. CECILIA

Trata.

D. HELENA

Quem te disse?

D. CECILIA

Ouvi dizer ao Barão, trata das...

D. HELENA

Das...

D. CECILIA

Das gramineas.

D. HELENA

Só das gramineas?

D. CECILIA

Não sei; foi premiado pela Academia de Stockolmo.

D. HELENA

De Stockolmo. Bem. (_Levanta-se_).

D. CECILIA, _levantando-se_

Mas que é?

D. HELENA

Vou mandar-lhe o livro...

D. CECILIA

Que mais?

D. HELENA

Com um bilhete.

D. CECILIA, _olhando para a direita_

Não é preciso; lá vem elle.

D. HELENA

Ah!

D. CECILIA

Que vaes fazer?

D. HELENA

Dar-lhe o livro.

D. CECILIA

O livro, e...

D. HELENA

E as despedidas.

D. CECILIA

Não comprehendo.

D. HELENA

Espera e verás.

D. CECILIA

Não posso encaral-o; adeus.

D. HELENA

Cecilia! (_D. Cecilia sae._)

SCENA IX

D. HELENA, BARÃO

BARÃO, _á porta_.

Perdão, minha senhora; eu trazia um livro ha pouco...

D. HELENA, _com o livro na mão_.

Será este?

BARÃO, _caminhando para ella_.

Justamente.

D. HELENA

Escripto em sueco, penso eu...

BARÃO

Em sueco.

D. HELENA

Trata naturalmente de botanica.

BARÃO

Das gramineas.

D. HELENA, _com interesse_.

Das gramineas!

BARÃO

De que se espanta?

D. HELENA

Um livro publicado...

BARÃO

Ha quatro mezes.

D. HELENA

Premiado pela Academia de Stockolmo?

BARÃO, _admirado_.

É verdade. Mas...

D. HELENA

Que pena que eu não saiba sueco!

BARÃO

Tinha noticia do livro?

D. HELENA

Certamente. Ando anciosa por lel-o.

BARÃO

Perdão, minha senhora. Sabe botanica?

D. HELENA

Não ouso dizer que sim, estudo alguma cousa; leio quando posso. É sciencia profunda e encantadora.

BARÃO, _com calor_.

É a primeira de todas.

D. HELENA

Não me atrevo a apoial-o, porque nada sei das outras, e poucas luzes tenho de botanica, apenas as que póde dar um estudo solitario e deficiente. Se a vontade supprisse o talento...

BARÃO

Porque não? _Le génie, c'est la patience_, dizia Buffon.

D. HELENA, _sentando-se_.

Nem sempre.

BARÃO

Realmente, estava longe de suppôr que, tão perto de mim, uma pessoa tão distincta dava algumas horas vagas ao estudo da minha bella sciencia.

D. HELENA

Da sua esposa.

BARÃO, _sentando-se_.

É verdade. Um marido póde perder a mulher, e se a amar devéras, nada a compensará neste mundo, ao passo que a sciencia não morre... Morremos nós, ella sobrevive com todas as graças do primeiro dia, ou ainda maiores, porque cada descoberta é um encanto novo.

D. HELENA

Oh! tem razão!

BARÃO

Mas, diga-me V. Ex.: tem feito estudo especial das gramineas.

D. HELENA

Por alto... por alto...

BARÃO

Comtudo, sabe que a opinião dos sabios não admittia o periantho... (_D. Helena faz signal affirmativo._) Posteriormente reconheceu-se a existencia do periantho. (_Novo gesto de D. Helena._) Pois este livro refuta a segunda opinião.

D. HELENA

Refuta o periantho?

BARÃO

Completamente.

D. HELENA

Acho temeridade.

BARÃO

Tambem eu suppunha isso... Li-o, porém, e a demonstração é clarissima. Tenho pena que não possa lel-o. Se me dá licença, farei uma traducção portugueza e daqui a duas semanas...

D. HELENA

Não sei se deva acceitar...

BARÃO

Acceite; é o primeiro passo para me não recusar segundo pedido.

D. HELENA

Qual?

BARÃO

Que me deixe acompanhal-a em seus estudos, repartir o pão do saber com V. Ex. É a primeira vez que a fortuna me depara uma discipula. Discipula é, talvez, ousadia da minha parte...

D. HELENA

Ousadia, não; eu sei muito pouco; posso dizer que não sei nada.

BARÃO

A modestia é o aroma do talento, como o talento é o esplendor da graça. V. Ex. possue tudo isso. Posso comparal-a á violeta,--_viola odorata_ de Linneo,--que é formosa e recatada...

D. HELENA, _interrompendo_

Pedirei licença á minha tia. Quando será a primeira licção?

BARÃO

Quando quizer. Póde ser amanhã. Tem certamente noticia da anatomia vegetal...

D. HELENA

Noticia incompleta.

BARÃO

Da physiologia?

D. HELENA

Um pouco menos.

BARÃO

Nesse caso, nem a taxonomia, nem a phytographia...

D. HELENA

Não fui até lá.

BARÃO

Mas ha de ir... Verá que mundos novos se lhe abrem deante do espirito. Estudaremos, uma por uma, todas as familias, as orchideas, as jasmineas, as rubiaceas, as oleaceas, as narciseas, as umbelliferas, as...

D. HELENA

Tudo, desde que se trata de flores.

BARÃO

Comprehendo: amor de familia.

D. HELENA

Bravo! um comprimento!

BARÃO, _folheando o livro_.

A sciencia os permitte.

D. HELENA, _áparte_.

O mestre é perigoso. (_Alto._) Tinham-me dito exactamente o contrario; disseram-me que o Sr Barão era... não sei como diga... era...

BARÃO

Talvez um urso.

D. HELENA

Pouco mais ou menos.

BARÃO

E sou.

D. HELENA

Não creio.

BARÃO

Porque não crê?

D. HELENA

Porque o vejo amavel.

BARÃO

Supportavel apenas.

D. HELENA

Demais, imaginava-o uma figura muito differente, um velho macillento, melenas caídas, olhos encovados.

BARÃO

Estou velho, minha senhora.

D. HELENA

Trinta e seis annos.

BARÃO

Trinta e nove.

D. HELENA