Relatorio de uma viagem ás terras do Changamira

Part 2

Chapter 23,989 wordsPublic domain

Se eu tivesse chegado ao Rupire vindo de Tete achariam muito natural a minha visita. Reconhecendo pela lição que tive no Caterere que as minhas relações com Manuel Antonio não eram uma recommendação para estes vizinhos do Barue, desejei quanto possivel occultar estas relações e que me considerassem como vindo de Quelimane, Senna e só de passagem pelas terras de Manuel Antonio, mas cada circumstancia que lhes mostrava a minha maior intimidade com este capitão mór era motivo de novas desconfianças. Assim a chegada de um correio, a chegada de dois muleques que eu tinha mandado a um ponto do Barue, onde me constou haver algum mantimento, o desejo de eu expedir o meu correlo, tudo foi motivo de desconfiança e de embaraços. Sujeitava-me com paciencia a todos estes aborrecimentos, pois suppunha que successivamente elles iriam diminuindo de intensidade mostrava bem ao mambo que se eu quizesse fazer guerra não estava com todas as minhas cargas a installar-me ao pé da aringa, e que a minha presença junto a elles era a melhor garantia que poderiam ter de que nenhum branco os atacaria. Pareciam convencer-se, mostravam a maior cordialidade, mas tornavam pouco depois a espantar-se pelos motivos mais futeis.

[Nota lateral: Visita de Gurupira; mau tratamento que soffreu.] Disse que quando Gurupira, o filho grande do mambo Motoco, passou pelo meu acampamento do Luenha, lhe pedi que me mandasse carregadores para me levarem d'ahi para Macaha, e me comprasse mantimentos para tambem para lá mandar.

Na tarde do dia 8 de outubro, quando eu estava a conversar amigavelmente com o mambo Chiquiso, sentado sobre um panno no chão junto á minha cadeira, appareceu Gurupira com outro homem e o meu muleque que eu tinha mandado com a fazenda para a compra de mantimentos. Quasi ao mesmo tempo um preto veiu dizer baixo ao mambo que, alem d'estes tres homens, havia outros escondidos no mato. Eram simplesmente os carregadores que eu tinha pedido, que o Gurupira trazia com elle da terra do pae, e que tinha deixado proximo dos limites da terra do Rupire para me vir perguntar se eu ainda precisava d'elles. O mambo correu rapidamente para a aringa, e momentos depois elle e uns sessenta homens armados de zagaias, machados, arcos e flechas ameaçavam os dois homens que por motivo tão natural e tão facil de explicar me vinham ver, não se lembrando aquelles cobardes que n'aquelle instante só pensavam que eram sessenta contra dois, de que um d'estes dois homens era filho de um chefe que facilmente poderia arrasar todo o Rupire. Corri a defender de morte certa os dois homens, cobrindo-os com o meu corpo, mas quando deixei Gurupira para attender ao companheiro que meia duzia de homens arrastavam pelo chão, levando-o pelas pernas, e emquanto eu rolava tambem pelo chão, por me ter o desgraçado lançado os braços ao grosso da perna, foi o filho do Motoco violentamente espancado. Consegui apaziguar tudo e foram os dois homens para a aringa com a promessa formal do mambo de que lhe não fariam mal algum. Effectivamente, no dia seguinte partiu Gurupira para a sua terra tendo, antes que o deixassem saír da aringa, mandado os pandoros pedir-me fazendas para lhe dar, a fim de que a gente do Motoco lhes não viesse fazer guerra.

[Nota lateral: Partida do Rupire.] Desde então não tornei mais a ver o mambo até que no dia 11 me vieram dizer que toda a gente do Rupire se tinha reunido na aringa para pedir ao mambo e aos pandoros para me não deixar ficar na sua terra.

Soube mais tarde que a maior parte da actual população do Rupire é constituida por gente do Barue, que de lá fugiu quando este reino foi tomado por Manuel Antonio, e penso que o pedido que acabo de mencionar seria motivado por ter Gurupira, em a noite que passou na aringa, fallado das estreitas relações que havia entre mim e o capitão mór de Manica. Em vista d'esta declaração e do que a gente do Rupire, a quem eu acabava de comprar terrenos, já me tinha dado noticias sufficientes para a occupação, pela força, da sua terra, onde não consentiam que estivesse como amigo, resolvi, em logar de continuar para Macaha e outras terras, apenas com alguns muleques, em condições tão desfavoraveis como as da epocha e circumstancias em que eu me achava, regressar para Gouveia para propor o necessario para transformação do Rupire em terra ou prazo da corôa; e mandei dizer ao mambo que mandasse reunir carregadores para a minha partida.

Na manhã do dia 12 apresentaram-se os carregadores no acampamento e receberam todos pagamento para levarem as cargas até á povoação de Gossi, na terra de Sangano. Foi indicada esta povoação pela gente do Rupire, apesar de não se achar ella na direcção do Barue, por dizerem ser a mais proxima e aquella onde facilmente encontraria gente que quizesse ir até á aringa de Tumbura.

Estes homens, quasi todos já meus conhecidos, pelo mal que se comportaram como carregadores desde o acampamento do Inhamatoque até ao do Rupire, e depois nos varios serviços, como construcção de palhotas, de que eu os encarreguei, levantaram as cargas e pozeram-se a caminho em tão boa ordem e assim foram seguindo, que eu suppuz que teriam recebido especiaes recommendações para irem convenientemente até ao seu destino.

Tendo andado uma hora, atravessei o rio Inhamessansára, rio que eu já tinha visitado dias antes, em que os pretos lavam oiro e que nasce no mesmo centro, de onde, correndo em outra direcção, nasce o Inhamussice. O Inhamessansára é aqui limite do Rupire e de Massáoa, terra que tinha a atravessar n'uma parte que não é habitada, para chegar á terra de Sangano e povoação de Gossi, filho grande do mambo d'esta terra.

Pouco depois de atravessar o rio, eu, que nunca tinha soffrido do baço, comecei a sentir do lado esquerdo uma pontada que, augmentando rapidamente, me impediu de continuar a andar e me fez entrar em machila. Momentos depois um dos machileiros de traz largou a canna da machila para apanhar o chapéu que lhe tinha caído, e o outro que era muito fraco deixou-me cair bruscamente no chão. O choque d'esta queda aggravou muito o mal que poucos instantes antes pela primeira vez se tinha manifestado, e fiquei por mais de uma hora debaixo de uma arvore revolvendo-me no chão com dores e afflicções horriveis, e suppondo por vezes que não mais me tornaria a levantar. Os carregadores passaram para diante, na mesma extraordinaria boa ordem a que me referi, sem que eu lhes dissesse o que me tinha succedido.

Quando me foi possivel entrar na machila e pôr-me a caminho, estranhei encontrar pouco depois, descansando todos juntos os carregadores que suppunha muito adiante. Continuei no caminho avançando pouco porque os machileiros erão só os meus muleques, e nos esforços que fazia para me arrastar a pé quasi nada adiantava, quando um dos filhos do mambo chegou correndo para me avisar que os carregadores não queriam andar mais e pedir que mandasse algum muleque para tomar conta das cargas que elles queriam abandonar. Eu não estava em estado de voltar para traz e tambem suppuz preferivel não mandar para junto das cargas um só moleque, mas sim dizer que as cargas tinham sido entregues ao mambo do Rupire e á sua gente, que por ellas eram responsaveis até as pôrem na povoação de Gossi; propondo-me, porém, logo que chegasse a esta povoação, mandar buscar as cargas abandonadas, por modo analogo ao que já por vezes, até no Barue, tinha tido que fazer, mesmo por falta de forças dos esfomeados carregadores.

Continuei, portanto, na minha vagarosa marcha até que, tendo anoitecido, me deitei na beira do caminho sem ter noticia da povoação de Gossi nem encontrado uma gota de agua com que matar a sêde, que mesmo aos pobres muleques devorava.

Pondo-me a caminho antes de amanhecer, na madrugada seguinte cheguei a uma pequena povoação da terra de Sangano, de um preto chamado Chirombre; soube ali em que direcção ficava a povoação de Gossi e que na vespera tinha passado deixando á esquerda o caminho que lá me teria levado. Expedi immediatamente um homem da povoação de Chirombre para ir pedir a Gossi que me mandasse homens seus buscar as cargas que a gente do Rupire me tinha deixado no caminho.

Pelas dez horas da manhã chegou á povoação de Chirombre um dos filhos do mambo do Rupire que tinha estado sempre ao meu serviço, dizendo que passára a noite ao pé das cargas, que o mambo tinha vindo da aringa e não tinha conseguido que os carregadores seguissem para diante, e que elle vinha pedir carregadores. Não havendo n'esta povoação um unico para lhe dar, voltou logo para traz com a promessa de que se poria a caminho com uns trinta homens que ainda estavam junto ás cargas. Até este momento, portanto, não tinha eu rasão para pensar que succederia differentemente do que por muitas vezes me tinha acontecido, principalmente nas minhas antigas viagens, partindo de Tete mesmo com o governador do districto, com o abandono das cargas e fuga dos carregadores.

[Nota lateral: Roubo das cargas.] Na tarde, porém, d'este mesmo dia appareceu-me n'um misero estado o preto que de madrugada tinha mandado á povoação de Gossi, dizendo que tinha ali reunido alguns carregadores para ir buscar as cargas abandonadas, e que ao chegar proximo d'ellas tinha encontrado grande agrupamento de gentes do Rupire e de Massáoa; este ultimo é, como disse, o nome da terra onde as cargas estavam; que uns e outros se tinham apoderado das cargas, quebrando e rasgando os motores para distribuir entre si tudo o que elles continham; e que tanto elle como os homens de Gossi que o acompanhavam tinham sido espancados.

Por peior opinião que forme do caracter da gente do Rupire não penso que este roubo fosse premeditado. Estou convencido que quando os carregadores levantaram do acampamento tinham recommendações para seguir em boa ordem até á povoação de Gossi; e que se o mambo veiu da aringa até ao logar em que os carregadores pararam é que alguem bem intencionado o foi avisar; e creio tambem que o mambo os exhortaria a que continuassem. Mas eu por vezes tive occasião de notar o pouco caso que em geral a gente do Rupire faz da auctoridade do mambo. Provavelmente estes carregadores, homens sem palavra e sem respeito pelos compromissos que tomavam em troca da fazenda que recebiam, pararam quando se sentiram cansados com as para elles, geralmente muito fracos, pesadas cargas, e só se teriam posto a caminho se eu me achasse junto a elles e se, analogamente ao que já com elles tinha succedido, os induzisse a continuar com algum novo pequeno pagamento.

Penso que estavam hesitantes no que fariam, quando gentes das povoações de Massáoa, avisadas por qualquer modo do que se passava na sua terra, correram a ver o que podiam com isso aproveitar.

Basta só poder explicar que nas discussões que entre uns e outros podessem ter tido logar um primeiro motor fosse aberto e o seu conteúdo espalhado, porque, em vista das fazendas soltas, excitados uns pelos outros, concebe-se que perdessem a idéa de toda a responsabilidade e, na febre de se apoderarem do que para elles eram tão grandes riquezas, não parassem sem terminar a sua repartição, destruindo tudo que para elles não tinha utilidade.

De nada servia voltar atrás só com os meus muleques e como me achava apenas com o que tinha sobre o corpo e sem cousa alguma para comer, n'uma miseravel povoação de quatro ou cinco palhotas, onde nada havia, procurei dirigir-me logo para a povoação do mambo da terra em que me achava.

É inutil fallar das privações que passei n'este e nos dias seguintes e, por infeliz coincidencia, quando me achava victima dos maiores soffrimentos que tinha tido em toda a vida.

[Nota lateral: Da povoação de Chirombre á de Chideu.] No dia 14 parto da povoação Chirombre para a do mambo d'esta terra de Songano, chamado Chideu, ou tambem Inhamande.

Chideu é extremamente velho e quasi cego. A terra de Sangano tem pouca gente, mas o velho mambo é pessoalmente de grande auctoridade pelo poder sobrenatural de ler no futuro que lhe attribuem.

Recebeu-me muito bem, mas com um ceremonial de feiticeiro que em trabalho de outra natureza seria interessante descrever.

[Nota lateral: Possibilidade de tomar posse do Rupire antes de regressar a Gouveia.] É, porém, importante notar que esta grande auctoridade na opinião do seu povo e na dos povos vizinhos, disse que o tratamento que eu tinha recebido, que o roubo que me tinha sido feito, quando ninguem, tinha a queixar-se do meu procedimento nem do da minha pouca gente quando eu tinha dado todos os presentes do costume ao mambo e aos pandoros, quando tinha comprado uma terra para construir casas e ter as minhas culturas, tudo justificava um severo castigo e que as terras do Rupire fossem tomadas pelos brancos; offerecendo-se o mambo a coadjuvar-me para esse fim com a sua gente.

É facil comprehender quanto eu desejaria, em logar de me declarar n'este relatorio uma victima de um roubo no paiz que fui visitar, de o assignar como commandante provisorio do Rupire. Por tres modos poderia ter chegado a este resultado:

1.º Pelo emprego da gente de Motoco. Achava-me, porém, principalmente pelo meu estado de saude, em condições demasiadamente miseraveis para, em relação a um povo estranho poder por mim só representar a acção official portugueza, e não desejei correr o risco de que a conquista do Rupire, em logar de ser absolutamente a nosso favor, fosse quasi apenas em vantagem da relativamente poderosa gente do Motoco.

2.º Pelo emprego de gente de Tete. São conhecidos os relevantes serviços que ultimamente tem prestado ao paiz o governador d'este districto, e como a nossa occupação effectiva de vastos territorios ao sul do Zambeze entre Tete e Zumbo se tem realisado com o auxilio do capitão mór do Zumbo, Araujo Lobo e do capitão mór de Chicoa, o mosungo Ignacio. Este Ignacio tem com a sua gente ido occupando territorios para o sul de Tete até quasi á margem esquerda do Mazoe e vive de ordinario n'uma aringa que fica a menos de tres dias de caminho do Rupire. Recorrer ao governador de Tete e ao capitão mór de Chicoa era de certo resolver a questão com a maior brevidade. O proprio mambo Chideu me disse que bastava que a gente do Rupire soubesse que o mosungo Ignacio marchava para essa terra com os seus cypaes para que toda logo fugisse ou se submettesse. Em uma carta que duas ou tres semanas depois vim a receber em Gouveia do governador de Tete, informado embora com muitas alterações e exageros do que succedia, espontaneamente me pedia elle mais algumas informações a fim de immediatamente mandar avançar a necessaria gente de Tete para effectuar a posse do Rupire. Tinha porém eu partido de Gouveia com gente e conselhos do Manuel Antonio; o nome d'estes mambos vizinhos do Luenha, principalmente o do Caterere, está muito ligado no espirito de Manuel Antonio ao do Macombe, antigo rei do Barue, de quem elles eram como vassallos e suppuz que recorrendo eu ao capitão mór de Chicoa para a occupação do Rupire, não seria isso agradavel a Manuel Antonio; vindo mais tarde a reconhecer que, se assim tivesse procedido, o teria extraordinariamente offendido e talvez motivado acontecimentos desagradaveis.

O terceiro alvitre, visto que eu suppunha Manuel Antonio muito distante, occupando-se da construcção das aringas do Pungue, consistia em recorrer á aringa de Tumbura, cujo capitão é o principal chefe de guerra de Manuel Antonio, e fazer com elle, juntamente com gente do seu districto e dos districtos proximos, que todos lhe obedecem, um agrupamento de uns trezentos ou quatrocentos homens, o que me parecia ser mais do que o necessario para realisar satisfactoriamente a occupação do Rupire e de Massáoa.

Alguns caçadores matariam os bufalos e outra caça grossa, em quantidade necessaria para dois, tres ou quatro dias, e chegada a gente ao paiz, os recursos em cabras e em algum mantimento escondido, que eu sabia ali havia, serviriam por algum tempo. Um cypae de Tumbura, que me tinha trazido o correio e ainda se achava commigo, dizia-me ser facil, para cousa tão pouco importante, que o capitão Macarimgomba, chefe de Timbura, e reconhecido como capitão mór dos cypaes, reunisse a necessaria gente e fizesse a expedição, sem ordem de Manuel Antonio, e só por minha requisição. Foi este terceiro alvitre que sem ir adiante da povoação de Chideu, eu procurei realisar. Para isso mandei a Tumbura o citado cypae e muleques meus, e tambem para que de Tumbura me trouxessem algumas das fazendas que eu ahi tinha em deposito, pois os meus amigos da terra de Sangano, apesar da consideração e sympathia que me dispensavam e de estarem sempre em torno de mim, pouco me davam de presente, quasi nada queriam vender de fiado, e para eu e os muleques termos a pouca e miseravel comida, que nos ia permittindo viver, tinha sido necessario que elles fossem successivamente vendendo os seus pannos até ficarem completamente nús. Parece-me que o mais precioso presente que recebi do mambo Chideu foi uma véla de cebo, que eu já tinha visto entre o seu material de feiticeiro, e que provavelmente guardava ha muitos annos; veiu o velhinho, que muito lhe custava dar alguns passos, trazer-ma á minha palhota n'uma tarde em que n'ella me achava com bastantes dores e bastante fome.

Infelizmente para a execução do meu projecto, um movimento que n'essa mesma occasião se tinha dado nas aringas fronteiras do Bonga e de Massangano e do Barue tinha obrigado a partir para lá com a gente da sua aringa o capitão Macaringomba, e os meus emissarios encontraram em Tumbura quasi que unicamente as mulheres e as creanças.

[Nota lateral: Partida de Sangano para Tumbura.] Na impossibilidade de effectuar a occupação do Rupire antes de deixar estas terras, parti no dia 25 de outubro para Tumbura, seguindo da povoação de Chideu pelo itinerario marcado no mappa, com machileiros que Chideu mandou reunir, pagos com fazendas, que me tinham chegado de Tumbura. Um dos filhos do mambo, por ordem do pae, acompanhou-me até esta aringa. O filho mais velho, Gossi, de que tenho varias vezes citado o nome, veiu para a povoação do pae logo depois de eu ahi chegar, e ficou ahi até eu partir. Morto o velho mambo, este rapaz facilmente reconhecerá a soberania de Portugal, ou fará a entrega das suas terras.

Como se vê na carta entre a terra de Sangano e o rio Luenha, está a terra de Inhachiranga que eu já disse ter atravessado na ida para o Rupire sem passar por povoação alguma. Na volta passei pela aringa de Cariua, filho do mambo da terra, e ahi tive occasião de ver que a opinião a respeito do Rupire era a mesma que em Sangano, e que ficam esperando que em breve passem pela sua terra, como amigos, cypaes de Gouveia, com destino ás terras que fizeram por ser castigadas,

[Nota lateral: Partida de Tumbura para Gouveia.] No dia 26 de outubro, dia seguinte ao da minha partida da povoação de Chideu, cheguei a Tumbura. Ahi soube que Manuel Antonio não se achava no Pungue, mas tinha corrido de Gouveia para pôr fim ao movimento parcial, que contra desejos d'elle, se tinha dado na fronteira das terras do Bonga. Puz-me em communicação com elle; encontrámo-nos no dia 3 de novembro na aringa de Inhangona e d'ahi partimos juntos para Gouveia ao encontro do sr. governador geral da provincia, que n'esse mesmo dia ahi devia ter chegado.

[Nota lateral: Ordem para a occupação do Rupire.] Exposta a situação ao sr. governador geral, resolveu elle que o districto de Manica e o capitulo mór de Manica e Quiteve dirigissem uma expedição ás terras de Rupire e de Massáoa.

Devo acrescentar que antes da minha chegada a Gouveia, constando ahi vagamente o que tinha succedido, já o governador do districto de Manica tinha solicitado do general da provincia ordem para que fosse mandado pessoalmente ao Rupire.

N'estas condições a minha presença de nada serviria para o bom resultado da expedição; como tambem parecesse melhor nada emprehender do lado de Manica até que fosse conhecido o resultado da missão do Gungunhana, junto do governo de Sua Magestade; achei conveniente, tanto por causa de minha saude, como por outros motivos, aproveitar o intervallo para vir á Europa, onde verbalmente ou em qualquer trabalho especial poderei fornecer importantes informações, em vista do desenvolvimento dos auspiciosos trabalhos encetados pela creação do districto de Manica.

[Nota lateral: Despezas da expedição.] As despezas da expedição foram fazendas gastas com os carregadores e machileiros, com os presentes voluntarios ou espontaneos aos differentes mambos, com as exigencias de alguns d'estes mambos e dos seus pandoros, a compra de terras e de palhotas no Rupire, e as cargas roubadas pela gente do Rupire e de Massáoa, n'esta ultima terra, sendo parte d'ella artigos geralmente de acampamento, pertencentes ao districto de Manica, outra, fazendas da companhia de Ophir, que fez todos os adiantamentos para esta expedição, e finalmente motores de propriedade; pessoal, avalio em 1:500$000 réis a importancia das fazendas da companhia de Ophir, com que foram feitos todos os pagamentos e do resto d'estas fazendas roubado em Massáoa.

[Nota lateral: Resultados da expedição.] Parece-me poder citar os seguintes: ter feito melhor conhecimento do que é o Barue, e das condições em que actualmente se acha este antigo reino; ter-me certificado que nos chamados Campos de Oiro do Imperador Guilherme ainda não havia vestigios de qualquer acção estrangeira, e que estavamos ainda bem a tempo de em toda esta região exercermos a nossa occupação ou protecção; ter, pelo que vi, e pelo oiro dos rios Inhamessansára, Muse, Inhamussice, Munhoque, e outros, que os pretos todos os dias traziam ao meu acampamento para trocarem por fazendas, e por saber que ha seculos elles lavam sempre nos mesmos logares, adquirido a convicção de que o centro, de pequena area, d'onde em todas as direcções partem estes differentes rios, deve ser um importante campo aurifero como Mauch o suppoz; ter obtido informar-nos ácerca de um outro centro a que adiante me referirei, ainda mais interessante pela maior quantidade de oiro que hoje d'elle extrahem, pela abundancia de agua corrente, pelas grandes manadas de bois, que n'elle ha, e pela sua salubridade; finalmente, não tendo conseguido fixar pacificamente no Rupire as bases de uma estação civilisadora e commercial portuguesa, ter recebido das gentes d'esta terra, de Guessa e de Massáoa pretextos, que na opinião dos mambos vizinhos nos justificam a tomar posse d'estas terras; e alcançado a nomeação de uma expedição official do districto de Manica para este fim, e para a fundação de um nucleo, que não póde deixar, por pouco que façâmos, de trazer ao dominio portuguez todos os vizinhos povos d'esta interessantissima região.

II

Algumas considerações relativas á politica interna dos districtos de Manica e de Tete

Na primeira parte descrevi rapidamente a minha viagem a uma parte da região denominada por Mauch Campos de Oiro do Imperador Guilherme, e indiquei alguns dos resultados directos d'esta viagem.

N'esta segunda parte reunirei algumas informações relativas aos paizes percorridos, e outros que devemos considerar em breve como parte integrante da provincia de Moçambique.

[Nota lateral: Barue.] No relatorio da viagem de Mauch falla este explorador do successor de Musilicatze, do Musila e do Macombe, rei do Barue. Alem d'estes tres grandes potentados só encontrava entre o Limpopo e o Zambeze chefes minusculos dos quaes apenas cita o nome de Schomare (que já sabemos ser Machamare), a proposito da mais notavel riqueza dos seus terrenos auriferos.

O grande reino de Barue, que já tinha atravessado ha annos, quando fui a Manica, e ha pouco quando fui ás terras dos landins, foi agora percorrido por mim em toda a sua extensão, de leste até ao seu limite oeste, formado pelo Caurese e depois mais para o norte pelo Luenha.