Relatorio de uma viagem ás terras do Changamira
Part 1
Produced by Pedro Saborano
Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1886. Foi mantida a grafia usada nessa edição, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a interpretação do texto, e que por isso não foram assinalados.
No livro há algumas referências a um mapa, que acompanhava a edição original. Não foi possível localizar uma cópia desse mapa para acompanhar esta edição digital.
RELATORIO
DE UMA
VIAGEM ÁS TERRAS DO CHANGAMIRA
POR
JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA
CAPITÃO DE ARTILHERIA
LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1886
RELATORIO
DE UMA
VIAGEM ÁS TERRAS DO CHANGAMIRA
POR
JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA
CAPITÃO DE ARTILHERIA
LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1886
RELATORIO
Quando regressei a Gouveia, da viagem que fiz ás terras de Gungunhana, julguei conveniente não partir para Manica sem conferenciar com Manuel Antonio de Sousa que tinha ido a Moçambique, e que, demorado de semana para semana em Quelimane, só chegou a Gouveia no dia 17 de agosto.
N'esse mesmo dia chegaram tambem ahi uns pretos vindos de Manica, dizendo que acabavam de apparecer em Macequece uns landins perguntando por fazendas minhas que deviam ali estar, e que só por se acharem bem guardadas e por ter a gente do paiz assegurado que taes fazendas não existiam, é que provavelmente os landins não roubaram algumas.
Não vi n'esta noticia motivo que me impedisse a partida para Macequece, mas em attenção á opinião de Manuel Antonio e de um principe ou grande de Manica, meu antigo guia n'essa terra, que ha algum tempo esperava Manuel Antonio em Gouveia, resolvi não ir para Manica, sem ter conhecimento do resultado da missão que Gungunhana tinha enviado a Lisboa, e aproveitar o tempo da demora forçada para visitar um paiz a que me referi no relatorio da viagem ás terras dos landins, e onde de facto importava com mais urgencia chegar do que á antiga feira portugueza de Manica, objectivo principal da missão de que fui encarregado.
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Por estes motivos, resolvi partir sem demora n'esta direcção.
I
Viagem de Gouveia a Changamira e regresso a Gouveia
[Nota lateral: Fome no paiz.] Uma circumstancia tornava extremamente difficil a realisação d'esta viagem; a falta de chuvas tinha motivado a perda das colheitas de mantimento, milho, mapira, mechoeira e nachenin, e a fome era quasi geral em toda a Africa austral. Os homens na Gorongosa, no Barue, por toda a parte, andavam espalhados pelo mato a grandes distancias para apanhar fructos e raizes, que traziam ás povoações para matar a fome ás mulheres e ás creanças, o que muitas vezes não conseguiam, morrendo muita gente por falta de alimento. N'este relatorio só desejo tratar do que importa ser conhecido para basear trabalhos futuros; não fallarei portanto das miserias que fui presenceando, nem das extraordinarias difficuldades que encontrei em mover-me com umas oitenta cargas n'um paiz que se achava em tão desgraçadas condições.
[Nota lateral: Relatorio e mapa de Mauch] De todos os nomes que me eram conhecidos pela leitura do relatorio de Mauch e do mappa que o acompanha, apenas o de Caterere me era tambem citado em Gouveia, e como ahi havia bastante gente que conhecia o paiz que eu queria visitar, logo suppuz que Mauch teria mal escripto os nomes que foi ouvindo, e esperei ir achando no progresso da viagem a equivalencia entre os nomes de Mauch e os que me indicavam em Gouveia. Foi portanto para as terras do regulo ou mambo Caterere que primeiro me dirigi.
[Nota lateral: Viagem pelo Barue] Entre estas terras e Gouveia está apenas comprehendido o antigo reino do Barue. Como é já sabido, o rio Inhandue, que banha Gouveia, separa o Barue do praso Gorongosa, e como se vê no mappa junto, o rio Caurese, importante e caudaloso affluente do Aruenha, separa o Barue da terra de Caterere que se chama Guessa. O Barue, na parte exactamente comprehendida entre Gouveia e a povoação do Caterere, acha-se despovoado e não havia caminho aberto n'essa direcção; por isso, parti de Gouveia dirigindo-me mais para o norte até á aringa de Inhangona, e d'ahi voltando para sudoeste segui para a aringa de Tumbura indicada no mappa, quasi na fronteira do Barue e na latitude da povoação do Caterere. Tendo partido de Gouveia em 26 de agosto, só cheguei á aringa de Tumbura em 5 de setembro.
Esta viagem por caminho que se abra directo, o que se obtem logo que tres ou quatro filas de carregadores ou cypaes por elle tenham passado, e em condições normaes, póde ser feita em tres dias.
[Nota lateral: Do Tumbira á aringa do Bonga, capitão do Caterere.] Tinha combinado com Manuel Antonio que esperaria na aringa de Tumbura que um dos capitães d'elle Manuel Antonio fosse adiante com um presente da sua parte ao Caterere, avisando-o da minha visita de amisade, e que só depois da volta do emissario é que eu saíria do Barue para Guessa; mas como o mencionado capitão, que devia ter-se juntado a mim poucos dias depois da minha partida de Gouveia, não apparecesse; como por informações obtidas na localidade eu soubesse que podia passar do Barue directamente para a terra de Inhachiranga, atravessando o Aruenha a jusante da foz do Caurese, ponto onde termina a terra de Guessa, e me fosse assegurado por um homem de Inhachiranga que se achava em Tumbura, que a terra era curiosa de visitar pelas lavagens de oiro que ahi faziam e que encontraria n'ella o melhor acolhimento; como ainda mais eu quizesse quanto possivel evitar a perda de tempo, resolvi arranjar carregadores em Tumbura que me levassem a Inhachiranga, para ahi, aproveitando o tempo com o estudo do paiz, esperar o capitão de Manuel Antonio que devia ir ao Caterere annunciar a minha visita.
Parti no dia 10 de setembro, mas os carregadores e guias, em logar de me levarem directamente ao Aruenha, ou, o que a isso teria equivalido, pelo caminho que trouxe na volta, indicado no mappa, o que apenas atravessa a ponta não habitada da terra de Guessa, comprehendida entre o Caurese e o Aruenha, talvez com a idea de encurtar duas ou tres horas de serviço, levaram-me por caminho um pouco mais ao sul, que me conduziu ao Caurese em altura tal que, ao atravessar o rio, me achei de surpreza junto á aringa de um capitão do Caterere chamado Bonga.
[Nota lateral: Rio Caurese.] O Caurese tem aqui uns 50 metros de largo e excellente agua com approximadamente uma altura media de 1 metro em toda a largura do leito que é de areia. Tem porém de espaço a espaço grandes rochas, e o rio até á foz é absolutamento improprio para a navegação. Vi-o na estiagem e tendo havido grande secca. No tempo das chuvas engrossa muito, e mesmo em seguida a um só dia de grande chuva não dá passagem a vau.
Foi no dia 11 de setembro que cheguei á aringa do Bonga. Os carregadores de Tumbura, a quem eu nada tinha que dar de comer, não podendo por preço algum comprar-lhes mantimento, voltaram para trás, ficando em um acampamento junto á aringa com os _motores_ (cargas) e os meus muleques.
Como era de esperar, o chefe da aringa, logo que eu passei por ella, e não me achava em condições de seguir com os carregadores que trouxe do Barue, não me facilitou a marcha, para diante, apesar de eu lhe dizer que ia só até Inhachiranga para ahi esperar o capitão que devia preceder-me na visita que eu desejava fazer ao Caterere, o instou muito para que não saisse de Guessa sem primeiro ir visitar o mambo. Vi-me assim moralmente obrigado a ir á povoação do Caterere, para onde parti no dia 12, seguindo o caminho indicado no mappa.
[Nota lateral: Visita ao Caterere.] Tendo, ao chegar proximo da povoação na tarde do dia 13, feito avisar o mambo da minha visita, cheguei na madrugada do dia 14 á aringa que se chama de Inharichinga. A primeira entrevista com o mambo Caterere ou Gutuqui, foi logo muito cordial. Dei-lhe alguns presentes de pouco volume e peso que commigo tinha levado, como colares de coral, espelhos, barretes, camisas, pannos ricos, explicando-lhe que só ali me achava para satisfazer aos desejos do seu capitão Bonga, pois desejava ter sido precedido por um capitão de Manuel Antonio, que trazia um bom presente de fazendas e um recado de amisade de seu amo. Por varias vezes Caterere me disse que Manuel Antonio lhe viria fazer guerra, e que o trataria como tratou ao Macombe, rei do Barue. Procurei fazer desapparecer esta idéa, repetindo-lhe que pelo contrario Manuel Antonio lhe mandava um presente de amisade, e explicando-lhe que o Rei de quem Manuel Antonio era subdito, não queria guerra, mas amisade, não só com Caterere, como com todos os regulos visinhos, e que para estreitar relações de amisade eu a todos tencionava visitar. Durante o dia fez-me Caterere repetidas visitas á palhota onde fiquei, e aconselhou-me a que, em logar de ir para Inhachiranga na margem esquerda do Aruenha, fosse para uma povoação de um Camunda, na margem direita e portanto ainda da terra de Caterere, podendo eu d'ahi ir ver os logares proximos onde gentes de Guessa e das terras vizinhas costumam lavar ouro.
Levava commigo uma das armas _Winchester express_ pertencentes ao districto de Manica. O mambo quando a viu pediu-me para lh'a explicar, e como estas armas são muito certeiras e permittem um tiro muito rapido, fiz da porta da aringa, em seguida e em differentes direcções, fogo contra delgados troncos de arvores a grandes distancias, ficando o mambo muito admirado quando foi junto ás arvores ver o resultado dos tiros. Cito esta circumstancia para acrescentar que, apesar de eu ter ido só com tres muleques e estar morando na aringa, vieram pouco depois dizer ao mambo que a gente das proximas povoações tinha fugido ao ouvir os tiros, suppondo que era guerra!
A aringa do Caterere é pequena, e muito fracamente construida; tem proximo uns montes de rochas que a commandam completamente.
Com as repetidas perguntas que a varios fiz a respeito da passagem de Mauch por estas terras, ha uns vinte annos, convenci-me que ninguem tem idéa d'este viajante.
A latitude de 17° 30' 30", que achei para esta aringa, concorda com a posição em que Mauch a poz na sua carta.
Não parece que o paiz tenha sido visitado por estrangeiros, e não conhece esta gente senão Tete, Sena e sobretudo o nome de Gouveia. Empregam varias palavras portuguezas. Estranhei ouvir-lhes dizer quando fallavam commigo: _senhor_, pois que os nossos pretos nas cidades, e os proprios brancos fallando de outro branco com os pretos, fazem uso da palavra _mosungo_.
Não vi entrar preto algum na minha palhota ou na do mambo sem que primeiro dissesse: _licença_, palavra que parece de uso commum, não só em Guessa, como nas outras terras onde depois estive.
Recebi do Caterere muitas informações ácerca dos mambos e campos de oiro que me ficavam para a frente; soube tambem que da aringa a Manica são cinco dias de caminho, havendo apenas entre as duas terras a de Munhama, que se atravessa em dois dias. Não se passa pelo Aruangua, o que prova que este rio nasce a leste do caminho seguido.
Não consentiu o mambo que eu partisse sem ser seu hospede durante uma noite. Na madrugada do dia 15 voltei ao meu acampamento no Caurese, onde cheguei na manhã seguinte; vindo com um grande do mambo, que me acompanhou para communicar as ordens do Caterere e facilitar o transporte das cargas para a margem do Aruenha.
[Nota lateral: Partida do Caurese para o Aruenha ou antes Quenha.] No dia 17 parti de junto da aringa do Bonga para a margem do Aruenha, onde cheguei, com duas horas de passeio junto á aringa de Camunda, pequena povoação rodeada de fraca estacaria, fazendo o acampamento a jusante d'esta aringa.
O rio tem aqui uns 100 metros de largura, mas a agua corre por varios braços serpenteando na areia, não cobrindo todo o leito. Informaram-me de que o rio, bastante ainda para jusante da foz do Caurese, tem varias rochas que lhe atravessam o leito; penso porém, que será navegavel vindo do Zambeze até pelo menos á affluencia do rio Mazoc. Rio Aruenha ou antes Luenha. Já nas minhas viagens pelo Zambeze para Tete, tinha notado que os pretos chamam Luenha ao rio que em as nossas cartas chamamos Aruenha, e que afflue no Zambeze em Massangano, onde está construida a celebre e vergonhosa aringa do Inhaúde ou do Bonga. No mappa do Levingstone tambem este rio tem o nome de Luenya. É tambem Luenha o unico nome que agora lhe ouvi dar, e parece-me preferivel adoptar esta designação, não só por ser a verdadeira, mas porque melhor se distingue de Aruangua; e são dois nomes que como rios ou commandos militares do districto de Manica muitas vezes haverá a citar reunidos.
[Nota lateral: Ouro no Luenha.] Nos dias 18 e 19 fui com gente da povoação de Camunda, ver os logares onde costumam lavar oiro no rio. Os terrenos em que n'esta altura corre o Luenha não são auriferos, e o oiro só se encontra, renovado todos os annos depois das cheias, nas pequenas porções de areia que fica retida entre as grandes rochas que atravessam o rio. Os pretos e pretas, que lavam admiravelmente com a batea, podem com utilidade extrahir o oiro que cada anno é retido nos mesmos logares, e assim o fazem ha seculos, mas o lavar estas areias, por causa da sua pequena quantidade, embora sejam relativamente ricas, nunca poderia pagar a uma companhia europêa. É muito provavel que no proprio leito, atraz d'estas _barras_, onde ha profundidade de agua e onde os pretos nunca lavam, haja accumulado de ha seculos oiro mais grosso, e quando o paiz esteja frequentado pelos brancos, é provavel que venha a proceder-se a trabalhos n'estes logares com bons resultados, mas é claro que a pesquiza do oiro para os que primeiro cheguem será muito mais interessante nos proprios terrenos d'onde o oiro é annualmente arrancado e arrastado pelas aguas.
[Nota lateral: Rio Mupa.] Na visita que fiz á _Massanga_, ou foz do Caurese vi que o rio Mupa não é um affluente do Caurese como está marcado na carta de Mauch mas, um pouco mais abaixo, directamente affluente do Luenha.
[Nota lateral: Mambo Schomali de Mauch.] Descobri, emquanto estava n'este acampamento do Luenha, quem era o mambo Schomali, que Mauch cita como sendo o chefe das terras que constituem a parte mais rica dos Campos do Imperador Guilherme.
É um pequeno mambo da terra de Macaha, chamado Machamare. Já de ha muito tinha conhecimento do nome da terra e de outros nomes do mambo, que tambem se chama Chibinda e Inhaúbinda. Serviu-me de confirmação á equivalencia entre o nome de Machamare e o de Schomali o encontrar nos dois rios Inhamussice e Munhoque, dois rios auriferos da terra de Macaha, os equivalentes aos rios Iantsitsi e Noke da carta de Mauch. Achei interessante que os pretos que lavavam n'um logar ou _barra_ do Luenha chamado Biriuide, me dissessem, que todo o oiro que até ali chegava era proveniente do rio Inhamussice, precisando a proveniencia do oiro, quando o Luenha no seu vasto curso drena um paiz muito extenso e recebe muitos outros affluentes. Por esta indicação é de suppôr que as areias do Luenha acima da affluencia do Inhamussice não tenham oiro algum, tornando evidente que é por este affluente que os _diggers_ devem subir nas suas pesquizas.
Pouco depois de chegar a este acampamento do Luenha, vi que nada me aconselhava a que ahi me demorasse e procurei arranjar carregadores para continuar na viagem.
[Nota lateral: Chegada do capitão Bastião e de Gurupira.] No dia 19 de setembro, com o capitão Bastião, de Manuel Antonio, encarregado dos presentes para o Caterere, chegou ao acampamento vindo de Gouveia, onde tinha ido visitar Manuel Antonio, o filho grande do mambo Motoco, chefe relativamente poderoso da terra da Builha, situada alem, a sudoeste, da região a que Mauch deu o nome do seu imperador. Como não via possibilidade de achar, no logar onde estava, carregadores, e me constasse que na terra de Motoco e terras proximas havia algum mantimento, pedi a este filho do Motoco, chamado Gurupira, que me mandasse os necessarios carregadores e que acompanhasse um dos meus muleques, a quem entreguei fazendas, na compra de mantimento que deveria ser mandado para a terra de Macaha. Gurupira disse-me que elle era justamente casado com uma filha do mambo Machamare, deu-me informações sobre a Macaha e indicou-me a povoação de Chibanda, filho do mambo, situada na ponta de terra entre o Inhamussice e o seu affluente Munhague, como bom logar para acampamento, e foi para ahi que combinamos eu partiria, e seria mandado o mantimento que fosse comprado.
Na tarde do dia 22 apareceram-me no acampamento uns cem homens armados, seguidos por um pandoro ou leão.
[Nota lateral: Pandoros.] Os pandoros, que eu já tinha visto nas terras do districto de Tete, que ha no Mazoe, que havia no reino do Barue e que ha nas terras de todos os pequenos mambos d'esta região, são uns homens, que se escondem de vez em quando dizendo que vão para o mato e se transformam em leões, que mesmo quando se acham na fórma de homens estão quasi sempre a rugir, e que vivem á custa dos mambos e dos povos impondo-se-lhes como entes sobrenaturaes. Os mambos nada fazem sem os consultar. A superstição com os pandoros em Tete communica-se aos musungos mulatos e mesmo á gente da India que n'elles chegam a acreditar. O Inhaúde e o Bonga das nossas desgraçadas guerras, apesar de homens muito intelligentes em outras cousas, nada faziam sem consultar os pandoros. Ás vezes os pandoros são mulheres. Ha n'uma terra da margem esquerda do Mazoe, em logar onde já estive partindo de Tete, uma celebre Clara, pandoro de grande fama e julgo que conselheiro muito attendido pelo Bonga.
[Nota lateral: Extorsões pelo pandoro e grandes do Caterere.] Os grandes do Caterere que vieram com o pandoro, nenhum dos quaes eu tinha visto na aringa do mambo, disseram que eu era amigo de Gouveia, que vinha para os enganar e fazer-lhes guerra, que devia voltar para trás e não tornar a esta terra. Mostrei-lhes admiração de que tal dissessem quando eu tinha ido visitar o seu mambo como amigo e como amigo tinha por elle sido recebido; que elles já sabiam que o que eu queria era seguir para diante, que elles estavam fechando os caminhos, o que lhes trazia difficuldades no futuro, e que se a gente que ali estava me quizesse levar as cargas para Macaha eu lhes pagaria como a carregadores e daria ao pandoro e aos grandes alguns presentes. Foi provavelmente para receber estes _presentes_ que pandoro e grandes vieram, quando constou que desejava saír da terra d'elles. Acceitaram a proposta e começaram depois com successivos pedidos. Tendo eu dado alguma cousa ao pandoro, pediram para os grandes, depois para a outra gente, depois mais alguma cousa por eu ter feito barracas.
Desejando eu sobretudo ir para diante e servir-me d'esta gente como carregadores, fui cedendo a todas as extorsões, cuja importancia total foi de facto insignificante, mas que pela maneira como foram feitas justificam a futura occupação da terra de Guerere. Toda a noite, uma esplendida noite de luar, tiveram batuque e adormeci ao som das cantigas, cujas phrases mais repetidas eram que haviam de cortar-me a cabeça, a de Manuel Antonio e a de um homem d'esta terra que tinha entrado ao meu serviço.
[Nota lateral: Da povoação de Camunda ao Rupire.] Na madrugada do dia 23 paguei aos carregadores, dizendo-lhes que era para irem até á povoação de Chibanda na Macaha, mas pouco depois começaram a dizer que só iriam até ao Rupire, cousa commum de succeder em Africa com os carregadores, mesmo em outras circumstancias.
Atravessei o Luenha e segui na direcção que mostra a carta pela terra de Inhachiranga sem passar por povoação alguma, até ao rio Inhamatoque, limite de Inhachiranga e do Rupire, onde os carregadores largaram as cargas, voltando logo para a sua terra.
Logo que cheguei ao Inhamatoque mandei chamar gente do Rupire, mas só no dia 26 é que tive os necessarios carregadores e parti para junto da povoação do mambo d'esta terra.
[Nota lateral: Mambo Chiquiso.] Ao mambo do Rupire, chamado Chiquiso, disse que só para o visitar e lhe dar alguns presentes é que eu tinha vindo á povoação d'elle, em logar de seguir ao longo do Luenha até á Macaha, mas que era para a povoação de Chibanda n'esta terra que eu me dirigia. Por varias formalidades com o mambo, e com os pandoros que no Rupire são tres, e para fazer excursões a alguns rios onde lavam oiro, demorei-me no Rupire, e comquanto o meu projecto fosse seguir para Macaha, como esta terra é talvez a mais pequena e menos povoada de todas as d'esta região, e como fui successivamente reconhecendo a importancia da posição do Rupire e quanto seria preferivel crear uma estação civilisadora portugueza n'esta terra, achei conveniente ceder aos pedidos que me faziam de não seguir para diante, até lançar bases de uma estação que mais tarde iria exercendo a sua acção sobre os mambos e povos das terras vizinhas. É no Rupire que antigamente acampavam negociantes brancos de Tete e mesmo de Quelimane, para compra de oiro e marfim que os pretos das terras vizinhas vinham trocar por fazendas, e effectivamente, durante os tempos que eu mesmo ali fiquei, todos os dias chegavam ao acampamento muitos pretos com canudos de pennas cheias de pó de oiro para trocar por fazendas. Tinha eu combinado com o mambo que seria junto á foz do Inhamussice que eu faria o meu acampamento e as primeiras construcções, base da futura estação civilisadora e commercial, mas as povoações do Rupire estão todas nas proximidades e em torno da aringa do mambo, e as margens do Inhamussice não estão actualmente habitadas. Vendo que muitos dos grandes se mostravam desconfiados por eu querer ir fazer o acampamento n'um sitio isolado, tive que abandonar a idéa de ir para o Inhamussice e que me decidir a escolher um terreno n'uma elevação nas proximidades da aringa do mambo.
Pela prolongada falta de chuvas, a agua nos differentes riachos que cortam o paiz tinha deixado de correr, e a melhor que encontrei, extrahida de uma poça, era leitosa e de muito mau sabor. Foi o uso d'esta repugnante agua de certo a causa dos soffrimentos de baço que depois tive, mas a tudo me sujeitava para realisar a fundação da estação do Rupire, que, embora me propozesse fazer varias excursões na Macaha e outros paizes proximos, não mais tencionava abandonar senão quando de Portugal fosse mandado alguem para tomar conta d'esta estação.
Paguei ao mambo e aos pandoros tudo o que elles quizeram pelo direito de chamar minha uma porção do terreno, e dei começo a algumas construcções.
[Nota lateral: Desconfiança da gente do Rupire.] Apesar das boas relações que logo de principio fiquei tendo com o mambo, o enorme ciume que estes pequenos chefes têem uns dos outros, e sobretudo a desconfiança que no Rupire como em Guessa tinham das más inteuções de Manuel Antonio contra estas terras davam quasi diariamente motivo a alvoroço e á reunião em conselho dos pandoros e grandes na aringa.