Ramalho Ortigão

Part 1

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HEMETERIO ARANTES

Ramalho Ortigão

1915 LIVRARIA FERREIRA FERREIRA LDA. --EDITORES _132-138, Rua do Ouro, 132-138_ LISBOA

RAMALHO ORTIGÃO

DO MESMO AUCTOR

_Livro de Maria_ (versos)--_1898_

_Frei Agostinho da Cruz_--_1909_

A PUBLICAR

_Mundo de Christo_

(Pessôas e Casos)

HEMETERIO ARANTES

Ramalho Ortigão

1915 LIVRARIA FERREIRA FERREIRA LDA.--EDITORES _132-138, Rua do Ouro, 132-138_ LISBOA

Imprensa Libanio da Silva, Travessa do Fala-Só, 24--Lisboa

A dois dos «Vencidos da Vida»

Os Senhores

Conselheiro Antonio Candido

e

Conde de Sabugosa

SENHORES:

A Vós, meus senhores e amigos, que sois, com o grande poeta Guerra Junqueiro e o illustre diplomata Marquez de Soveral, os derradeiros sobreviventes d'uma selecta companhia de homens-de-lettras e homens-do-mundo: é a Vós que eu me permitto offerecer este palido e leve estudo--ephemero artigo de indole folhetinesca--sobre determinada feição da personalidade litteraria de um dos Vossos.

Eu creio que ninguem, melhor do que Vós, avaliará o intuito admirativo e piedoso d'estas paginas de critica facil em que a exegese subjectiva quasi que completamente desappareceu para dar logar á palpação material ao _facto_ litterario que mal encobre, na maioria dos casos, a genese espiritual d'onde provém.

Ramalho Ortigão foi bem e em verdade um preclaro representante da sua epocha mental; Vós, seus socios de Escóla e companheiros das veladas celebres, no aristocratico _Braganza_ e na democratica _Perna-de-Pau_, ao lerdes este escripto, regressareis momentaneamente a essa já affastada quadra, em que o _espirito_ esfusiou na troca de pontos-de-vista sobre as questões mais variadas e mais complexas que commoviam, então, a humanidade pensante. E, depois da visita retrospectiva a esse tempo saudoso, demorareis a vossa attenção, liberta de qualquer facciosismo, no quadro que nos offerece o Portugal de hoje e... concluireis.

A theoria da «Arte pela Arte», onde a vossa Escola entroncava, conduzia o artista em geral, e muito particularmente o homem-de-lettras, á inteira despreoccupação do significado moral da sua obra e das consequencias que d'ella resultariam para a vida pratica. Ia-se mais longe: essa vida pratica inspirava o maior dos despresos e tanto que, para muitos, elle chegou a ser formulado no seguinte paradoxo--o pensamento jamais poderá influir na vida pratica!

«O unico dever do philosopho, do poeta, do auctor dramatico e do romancista--diz-nos T. de Wyzewa, n'um estudo sobre o _Disciple_--era procurar exprimir plenamente as suas ideias, os seus sentimentos, os resultados da sua observação ou da sua phantasia sem se preoccupar com os vãos e estupidos lamentos do cego rebanho dos «moralistas» de qualquer proveniencia e feitio».

A grande massa dos leitores portuguezes dos livros de Oliveira Martins, dos romances de Eça e das _Farpas_ de Ramalho não tinha a preparação sufficiente para distinguir um _processo artistico_ nas malhas tecidas com oiro d'aquelles trechos lapidares. Direi mais: a maioria dos leitores dos romances de Eça perdia o fio da efabulação, levada, attrahida como que n'uma suggestão hypnotica pelo pormenor picante que lhe passava, nos lombos, um arrepio delicioso...

Quem viu na _Reliquia_, por exemplo, o castigo da hypocrisia e a rehabilitação do hypocrita quando se decidiu a trabalhar e a pôr de banda a mentira?

E, sem contestação, se não fosse este tenue veiosinho doutrinario (e, é claro, aquelle assombroso _sonho_ palestiniano, inspirado, talvez, na vulgarisação d'um evangelho apocrypho por Petruccelli della Gattina) o que ficaria d'essa colossal _Reliquia_ senão o monumento mais monstruoso, mais gratuito e mais perversamente levantado, pelo genio, á indignidade das lettras?

De fórma que esses livros, peccando pelo que em si continham de pernicioso, lançados para um _meio_ que não sabia dar-lhes o desconto das demasias, duplamente eram perigosos.

Pois padece duvida que a concepção dos nossos deveres e direitos nos advém das emoções estheticas ou intellectuaes que os Mestres verteram com subtileza e tacto, atravez das suas obras, no nosso espirito ávido de luz?!

E não é certo que essas emoções serão tanto mais fortes e duradouras quanto mais bello e paramentado de atavios seja o seu fautor?!

Da obra hegemonica (e chamo-lhe assim porque a obra-de-regresso é pequena e tardia) d'estes tres grandes vultos litterarios, a de Ramalho, sendo talvez aquella que mais influencia teve por--pela sua indole e facilidade de acquisição--penetrar n'um maior ambito de ledores, em todo o caso, é a que menos presta o flanco ás tremendas responsabilidades de ter fomentado este estado de espirito e de factos que caracterisa a Actualidade Portugueza.

O Sr. Dr. Ricardo Jorge, n'um, como todos os que da sua penna diamantina saem, estudo magistral ultimamente publicado sobre o illustre morto, diz-nos:

«Ramalho, o censor, alía n'uma congruencia equilibrada o cosmopolitismo ao congenialismo; domina-o o instincto racial e topico...», profunda observação, d'um analysta consumado, que explica muitas das passagens, se não todo o recheio d'este desataviado escripto, que a Vós, meus senhores e amigos, dedico, porque de Ramalho fostes socios e companheiros, esperando que, ao lêl-o, n'elle reconheçaes (como para si desejava Louis Blanc) o _accento d'uma voz sincera e as palpitações d'um coração sedento de justiça_.

1915, 2 de Des.º

_H._

«_As Farpas eram iconoclastas: vinham para desmantelar os bustos olympicos, deviam deixar aos S. Paulos o cuidado de plantar as cruzes.»_

EÇA DE QUEIROZ (_Carta-biographia de Ramalho Ortigão_).

A morte de José Duarte Ramalho Ortigão, um dos ultimos sobreviventes d'uma grande geração de espiritos altos, suscitou um movimento quasi unanime de sympathia, de piedade, de saudade e de admiração (que é consolador enaltecer e util conservar de memoria) por esse glorioso escriptor e por esse grande homem de bem.

Quando, em 1878, Eça de Queiroz escrevia, de Newcastle, a Joaquim de Araujo, aquella tão conhecida e tão citada carta, que constitue a biographia do espirito de Ramalho Ortigão, essa biographia ficou definitivamente feita; tudo o mais que se lhe accrescente--e bastante se tem escripto--não passa, em ultima analyse, de sabias e eruditas variações sobre aquelle _leit motif_.

De modo que todos esses artigos, alguns celebres, servem mais para determinar o estado-d'alma dos seus auctores--o que é convenientissimo para a historia litteraria--do que propriamente para subsidiar a obra e os intuitos do auctor das _Farpas_ e da _Hollanda_. O que Eça de Queiroz, com a percuciente e genial agudeza do seu engenho, não podia, ha 30 annos, determinar: era quaes fossem os motivos de ordem intellectual e moral que haveriam de transformar o vibrante pamphletario d'então, no corajoso, no desassombrado, no vibrante auctor do _Rei D. Carlos, o Martyrisado_. E o que, talvez, elle ainda menos podesse, era demarcar o caminho, a trajectoria que haveria de percorrer um _espirito educado já fóra do catholicismo e do romantismo ou tendo-se emancipado d'elles, reclamando-se exclusivamente da Revolução e para a Revolução_ até talhar, para mortalha do seu despojo terreno, o habito d'uma ordem monastica!

Gloria a Deus por ter consentido que, no anno da Graça de 1915, me fosse dado lêr na _Capital_ (28 de Setembro):

«Ramalho Ortigão é ainda uma figura a estudar e na mudança das suas opiniões cumpre não ver causas e intuitos que lhe deprimam o caracter».

Julio Dantas, na _Illustração Portugueza_ (n.º 503 de 11 de Outubro) escreve:

«... era a affirmação veemente d'um caracter cheio de elevação moral, de nobre independencia e de orgulhoso desprendimento».

E Lopes de Mendonça, em nome da Academia das Sciencias de Lisboa, pronuncia, sobre o caixão, que vae desapparecer para sempre, palavras repassadas de sentimento:

«A sua vida de trabalhador honrado foi um exemplo e um estimulo... Chegou-lhe a hora da paz imperturbada. Quando nos couber a vez de a compartilharmos que seja tão serena, como a d'elle, a nossa consciencia.»

São testemunhos insuspeitos e por isso não é demais celebrar-lhes a nobreza e a sinceridade, quando lhes seria mais commodo remetterem-se, no capitulo da mudança de opiniões, a um discreto silencio ou explical-a physiologicamente pela cachexia senil.

A lição a tirar dos trechos citados, e de muitos outros que seria prolixo accumular, é a respeitosa, a enternecida unanimidade de pareceres sobre a perfeita hombridade civica e moral de Ramalho Ortigão até aos ultimos instantes da vida, porque, quando nos chegar a vez de compartilharmos a paz imperturbada, que a nossa consciencia seja tão serena como a d'elle!

Mas não foi só Ramalho que mudou de ideias, regressando a principios de conservantismo; foram ainda outros que, tendo feito uma larga obra resultante da emancipação do catholicismo e do romantismo, reclamando-se exclusivamente da Revolução e para a Revolução, mudaram tambem.

Oliveira Martins: o demolidor formidavel do _Portugal Contemporaneo_ e de tantos outros libellos que lançaram na alma da mocidade portugueza as duvidas mais crueis sobre os nossos destinos como nação: baralhando, anarchisando, com a magia incomparavel da sua penna de escriptor eximio, as vagas ideias que nos tinham ministrado... Oliveira Martins, o engrandecedor do poder real, o ministro da corôa mais consultado e ouvido, quasi um cortezão, decididamente votado ao principio conservador, demais a mais morrendo como catholico:

Confessado e commungado Como a bom christão cumpria!...

Eça de Queiroz: o supremo Eça, o glorioso, o quasi divino Eça--o Maior--aquelle que mais venenos propinou nas particulas eucharisticas dos seus romances e dos demais escriptos! Eça, a esboçar uma obra de rehabilitação moral, Eça conservador, catholico ou, como tal, recebendo os sacramentos antes de deixar este mundo...

Fialho de Almeida: o tremendo fundibulario dos _Gatos_, o genial garoto que fez da linguagem uma funda tosca de barbantes rijos com que atirava calhaus mortiferos a toda a Ordem estabelecida... Fialho, volver-se um dia, destemido campeão d'essa Ordem e enfileirar na primeira linha dos poucos atiradores que ousavam combater o existente portuguez, erguido sobre o montão de ruinas que elle tanto ajudara a cimentar...

* * * * *

Como se operam estas transformações radicaes e, por assim dizer, diametralmente oppostas na geometria das ideias e dos sentimentos?!

Para os espiritos-fortes, para aquelles a quem, por causas multiplas, apraz ainda--e talvez definitivamente--cortejar o estado de coisas derivado do encyclopedismo d'onde a Revolução proveio e do romantismo, que se lhe seguiu e que ainda hoje preside aos destinos dos povos, sob a fórma do parlamentarismo e do governo das maiorias, para esses espiritos cegos, surdos e encerrados dentro do collete de forças do seu feroz dogmatismo, duas theorias explicam estes retumbantes regressos, estas conversões escandalosas aos principios conservadores em politica, coincidindo, na maioria dos casos, com o regresso á ideia mistica e á pratica cultual da religião.

São ellas, primeira: o fundo de misticismo atavico de que cada um de nós é provido e que, podendo conservar-se latente por dilatados annos, um dia, pelos motivos mais futeis ou mais interesseiros, desabrocha, transformando o individuo, até ahi civilisado e dirigente, n'um ser subalterno, inferior, n'um sem-valia quando não n'um mistificador. A segunda, a theoria preagonica, que vem a ser: a influencia terrorista exercida pelo tumulo (com a ajuda de suggestões familiares...) em individuos enfraquecidos por a idade ou por achaques e que, _à tout hasard_, tratam de se pôr de bem com o Eterno e com o prior da sua freguesia, não vá o diabo colhel-os de surpresa...

Claramente: Pasteur, de Quatrefages, o Pe. Secchi, Claude Bernard, que gastaram a vida a perscrutar os mysterios da sciencia na microbiologia, na paleontologia, na astronomia, na phisiologia, estavam inquinados do virus que lhes viera do berço.

A cohorte formidanda d'aquelles que, todos os dias, se convertem ao principio conservador e religioso, e que em França constitue o melhor da sua intellectualidade, essa indubitavelmente foi picada pelo microbio tumular do medo...

Quando Balzac--o mestre incontestado do romance naturalista moderno--gravou na primeira pagina da _Comedia Humana_: «J'écris à la lumière de deux verités éternelles, la Monarchie et la Réligion», alguem, d'entre os livres-pensadores hodiernos, terá sombra de duvida em o declarar atacado, damnado por essa dupla phobia que perennemente se exhala do berço e que a tumba perennemente exhala?!

Mas estas duas theorias--chamemos-lhe, já agora, microbianas--parecem-me inconsequentes se observarmos o movimento intellectual que vae na esteira dos grandes convertidos e que se accentúa, d'um modo patente, nas escholas de direito, nas de medicina, nas de lettras, nas de sciencias sociaes... O individuo isolado desdobra-se em legião, transforma-se em grey, escreve um evangelho, fórma um corpo de doutrina. Ora, a doutrina não tem berço d'onde se desprendam miasmas herdados e não tem coval d'onde se ergam espectros terroristas do Além...

Inconsequentes, ainda, se attentarmos em que o fundo de misticismo atavico religioso apenas se accentuou, com incremento que em cada dia augmenta, ha uma duzia de annos. Então, as influencias misticas do berço e as influencias preagonicas não incidiam (se não por excepção) sobre os individuos de 1890, por exemplo, e determinam reviravoltas subitas e ruidosas nos individuos de então para cá?!

Porquê?

Entre nós, estes phenomenos mais ou menos retumbantes, mais ou menos silenciosos, de regresso ao conservantismo politico e religioso, toma um caracter de particular importancia digna de estudo e, quer-me parecer, de limpidas conclusões.

Os espiritos que mais influiram sobre a mentalidade portugueza das ultimas decadas--os nossos super-homens--foram: Anthero, Camillo, Theophilo, Junqueiro, Oliveira Martins, Eça, Ramalho, Fialho, a quem, ainda poderemos juntar, embora a sua acção fosse menos profunda por agir sobre um publico mais restricto, mais especialisado, José Pereira Sampaio (_Bruno_), Basilio Telles, Antonio Candido.

D'estes tres ultimos, direi, summariamente, que Bruno, depois de exercer uma acção mediadora, de grande nobresa e isenção no regimen de que fôra um dos corifeus mais cotados, se entregou a um mutismo descoroçoado de desilludido, de incomprehendido...; que Basilio Telles, chamado a collaborar pessoalmente nos successivos governos que a sua acção de publicista illustre ajudou a collocar da Arcada do Terreiro do Paço, se limita a escrever uma carta de recusa e a deixar-se quieto na sua thebaida portuense...; e que Antonio Candido, depois de enriquecer com o mais prodigioso verbo--que jamais ouvidos de Portugal ouviram--todas as tribunas onde a eloquencia alta pode ter assento, se recolheu ao eloquente silencio dos vencidos... na torre-de-marfim dos seus affectos e das suas recordações.

Dividamos os restantes em dois grupos. No primeiro--o dos poetas e phantasistas--collocaremos Anthero, Junqueiro, Camillo, Theophilo; no segundo--o dos propriamente criticos--Oliveira Martins, Eça, Ramalho, Fialho.

Propositadamente, colloquei o Snr. Dr. Theophilo Braga entre os poetas e phantasistas, porque, embora a sua obra poetica seja menos conhecida que os seus trabalhos de construcção historica, é certo que o fundo impulsivo de sensibilidade do vate e do phantasista transparece, como o azeite, á tona de toda a sua obra de racionalismo e de critica atravez da copiosa collecção dos seus escriptos do polygrapho eminente.

O Snr. Guerra Junqueiro, depois que escreveu _A Patria_, penso que não póde, com direito, infileirar entre os profissionaes da observação e da dedução critica. Fica, e esta gloria lhe bastará, um dos mais extraordinarios poetas de que Portugal se possa orgulhar.

Qualquer dos dois permanece, e bem, no seu posto das avançadas romanticas da politica e no soberbo affastamento das religiões. Não foram inoculados nem pelos microbios que saem do berço nem por aquelles que o medo da outra vida labora nas tumbas.

De Camillo, o mais assombroso dos romancistas portuguezes e aquelle que, com Castilho, possuiu o mais surprehendente vocabulario de que ha memoria, de Camillo--o Principe--ninguem, com propriedade, poderá dizer que fosse, nos dominios da Sociologia, mais do que um insigne _dilletante_. Creio mesmo que nunca curou de politica ou, se o fez, foi incidentemente e sem consequencias de maior para os leitores da sua obra.

Quanto a Anthero, a sua acção combativa, e portanto critica no ambito da materialidade das ideias, vae-se diluindo, diluindo até encarnar soberanamente nas roupagens hieraticas da Ideia-pura dos seus sonetos... sem parceiros.

Camillo e Anthero mataram-se, levando, para o Além, o segredo não devassado dos seus ideaes politico-religiosos.

Restam-nos os quatro mestres cujo influxo mais vibrantemente foi decisivo para as successivas gerações que lhes libaram o ensinamento.

Oliveira Martins, Eça, Ramalho, Fialho, todos e cada um foram bem por excellencia os espiritos mais desanuviados de poeiras sentimentaes, que embotam de qualquer modo a subtilesa do tacto e empanam a transparencia das lentes de que carece o investigador da vida social para poder escalpelál-a com segurança e justeza.

Sob este ponto de vista de ausencia sentimental, foram perfeitos, foram impassiveis, foram observadores estremes e, por isso mesmo, a sua conversão aos principios conservadores tem summa importancia. Ella ajuda a firmar, com exemplos de tão incontestada, de tão preclara grandesa, a theoria do «_regresso ao tradicionalismo por meio do positivismo_».

* * * * *

Esta theoria deriva, sobretudo, da attitude que um dos maiores espiritos--orgulho da França e da Humanidade--tomou depois de assistir aos desmandos da Communa que assolou Paris apoz a guerra franco-prussiana de 1870.

Escusado seria dizer que se trata do philosopho positivista Hypolito Taine.

Este cataclysmo sem nome, que a grande cidade soffreu, levou o insigne philosopho dos _Ensaios de critica e de Historia_ e da _Historia da Litteratura Inglesa_ a construir a sua obra monumental: _As Origens da França Contemporanea_.

Esta serie de volumes, que é o libello accusatorio mais extraordinario, mais vehemente e mais irrespondivel contra o espirito jacobino de 1789 e ao mesmo tempo, portanto, o mais eloquente padrão levantado ás ideias conservadoras, advém, segundo a limpida expressão de Bourget, da _attitude mental d'um positivista apoiada sobre factos_.

É preciso dizer que Taine morreu sem se ter convertido, ao menos ostensivamente, nem aos principios monarchicos nem aos religiosos.

Taine, ainda muito novo, quando escreve, chama aos seus escriptos: «as minhas experiencias»--é um positivista de cérebro e coração seguro e sincero; tambem as _Origens_ foram o inicio d'um nunca-acabar de publicações, livros, monographias, artigos de jornal e de revista, reveladores d'uma erudição cuidada bebida nos mais seguros documentos, que jaziam empoeirados nos archivos publicos e particulares e que formam, hoje, um corpo de doutrina que refaz inteiramente aquellas velhas noções que, ha 30 annos atraz, nos ministraram sobre a grande Revolução e os seus homens.

As _Origens_ e as publicações que na sua esteira viram a luz atravessaram, naturalmente, os Pyrineus e chegaram a este quadrilatero occidental. Encontraram-nos ainda aturdidos com a oratoria de Mirabeau e a do Snr. Dr. Sebastião de Magalhães Lima que, com poucas duzias de vocabulos contanto que entre elles se escalonem: a liberdade, Danton, a igualdade, a soberania popular, o supremo architecto, os reis esfolando o povo e mais coisas semilhantes, é capaz de fazer um discurso de duas horas cheio de eloquencia e de vacuidade.

E os positivistas de cá principiaram tambem a fazer as _suas experiencias_ e verificaram, com espanto, que nós ainda não tinhamos uma communa, mas que agigantadamente caminhavamos para ella e que--horror!--eram elles com os seus excepcionaes talentos, com os seus maravilhosos livros, com os seus artigos de mestre, quem mais concorrera para a anarchia das ideias e para o quietismo n'essa anarchia, onda de lama que subverteria tudo, sob a formula, propheticamente visionada por Eça, da _balburdia sanguinolenta_...

Os poetas e os phantasistas não tiveram consciencia nitida das suas responsabilidades, quiçá não viram a caverna temerosa que ajudaram a abrir, talvez que ainda a não vejam; mas elles, sim, que estavam acostumados a palpar a vida friamente, impassivelmente, como cirurgiões de sentimentalidade embotada e fizeram alto.

E, como se tratasse de gente de escól, esses quatro homens não se limitaram a parar, regressaram..., cada um d'elles obedecendo á _attitude mental d'um positivista apoiada sobre factos_. Regressaram ao _tradicionalismo_ pela via do _positivismo_.

* * * * *

É rematadamente paradoxal a theoria bastas vezes preconisada, e agora a proposito de Ramalho Ortigão novamente posta a lume, de que é preciso que _um homem superior morra como viveu para credito do seu nome e honra da sua memoria_; porque, ideologicamente, collide com a evolução do pensamento e porque, materialmente,

_... quand l'homme change sans cesse,_

se torna difficilimo, senão impossivel, assentar qual o momento preciso da vida em que o seu modo de pensar e agir seja a expressão definitiva que traga para o seu nome e para a sua memoria as devocinaes e _unanimes_ consagrações do credito e da honra.

Assim, Victor Hugo, por exemplo deveria viver a sua longa vida a cantar _L'Enfant du Miracle_ e as _Vierges de Verdun_ ou seria mais consentaneo com a sua dignidade jaser inhumado nos arminhos de Par de França da Monarchia de Julho?! Certamente que a phase republicanissima d'aquelle grande espirito é a que mais convém...

E, em todo o caso, nem os partidarios da realesa do Conde de Chambord nem os da monarchia orleanista pensaram da mesma fórma.

De igual modo, Ramalho Ortigão não perdeu o credito do seu nome e a honra da sua memoria por ter evolucionado no sentido conservador politico e religioso.

Antes, como bom positivista, de bem equilibrado espirito, de mente sã em corpo são, de caracter diamantino e avesso a ambições que lhe podessem empecer os movimentos de homem livre e forte, a sua attitude tem um significado inilludivel e reveste-se d'uma grandeza que aureóla de luminosos nimbos o seu nome e a sua memoria.

Elle lá tinha o summo-sacerdote da sua egreja philosofica--esse austero Comte--a ensinar-lhe o caminho, quando expressamente se refere á disciplina moral que á humanidade advém da doutrina catholico-romana e, por decerto, relendo o volume que, no _Regime Moderne_, Taine consagra á Egreja, o seu espirito amadurecido e adextrado na algebra das ideias reconheceria a força constructiva da Unidade Catholica (perante o vacuo que o seu desapparecimento causaria) nas palavras d'esse philosopho, que todos os seus biographos dão como um dos mestres do seu espirito:

«Nem a razão philosophica, nem a cultura artistica e litteraria, nem mesmo a honra feudal militar e cavalheiresca, nenhum codigo, nenhuma administração, nenhum governo são capazes de substituil-a n'esse serviço.»

O futuro biographo de Ramalho Ortigão terá, no entanto, de responder a algumas perguntas--indispensaveis respostas para o integro conhecimento do espirito d'este illustre morto--que não deixarão de levantar-se-lhe ao compulsar a sua obra de escriptor e de homem.

Occorrer-lhe-ha: se a sua conversão ás ideias conservadoras em materia politica e religiosa representa uma verdadeira apostasia ou será antes um regresso não tanto ás ideias alheias como ás suas proprias?!