Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.
Part 2
Estas manifestações da vida espontanea dos povos durante a Edade Media, sem duvida solicitaram a interpretação dos _Romanticos_, cuja rasão de ser, cuja missão era tambem, como já mostrei, expressar completamente, até aos mais profundos e subtis, todos os factos do espirito.
Mas o chamado _Romantismo_ deu-se na Europa dos fins do seculo XVIII aos annos de 1830 ou 1850, modificando durante esse tempo a Litteratura do remoto Portugal. Que novidades podia pois ainda apresentar o _romantico_ Eça de Queiroz aos _Romanticos_ portuguezes de 1866?
É o que vou explicar:
O Romantismo tomou, primeiro, corpo saliente, ao norte da Europa, e só depois se estendeu ao sul. Veio dos paizes de luz attenuada e nevoas visionarias, indeterminadoras de fórmas e de côres, para as terras de sol brilhante, atmosphera limpida, fórmas vincadas e côres elementares.[7]
N'esta descida atravez das latitudes as ideias fôram ganhando nitidez, definição, brilho,--e correlativamente perdendo meias tintas, claro escuro, indeterminação. Os sentimentos, transportados com simplificações lucidas á superficie dos espiritos, pelos artistas das terras do sul, perderam muitos dos nimbos esfumados, muitas das atmospheras de attenuada illuminação, que os rodeiam nas regiões profundas onde elles nascem completos. Emquanto o norte expressava tudo o que nas ideias é quasi apenas suggerivel, o sul tão sómente aproveitou o que póde nitidamente descrever-se. Os _Romanticos_ das raças do sul da Europa começaram a fazer assim, mais uma vez, por uma fatalidade atavica e climaterica, o que os antepassados cultos de muitos d'elles completamente consumaram, muitos seculos antes, na construcção equilibrada e nitida do Classicismo greco-romano, resultado da atrofia esthetica e religiosa de exhuberantes regiões da alma humana, pela reducção das mysteriosas formações mysticas do Oriente, da Hellade e da Italia, aos moldes rethoricos, ás esculpturas luminosas mas frias, e ás biografias anecdoticas dos polytheismos heroicos.
Eis porque tantos romanticos portuguezes,--no extremo dos paizes claros do meio dia,[8] só fôram superficialmente romanticos.
Nas partes mais profundas, mais obscuras, mais indeterminaveis do espirito, para além do real, do logico, do coherente, do explicavel,--como que para preencher as lacunas deixadas no completo da totalidade psychica, pelas definições fragmentarias do comprehensivel,--existem com effeito, infinitamente, as necessidades mysteriosas do contradictorio, do sobrenatural, do maravilhoso.
É para as satisfazer que todos os povos criam, fatalmente, fórmas estheticas e religiosas especiaes, e é d'ellas que todo o homem completo se sente, por vezes, essencialmente possesso.
Essas fórmas constituem a _Arte_ e a _Litteratura mystica e phantastica_.
A França,--a mais norte das Nações definidoras,--recebeu, em grande parte, a sua _Litteratura phantastica_ da Allemanha. Da Allemanha, por intervenção da França, a recebeu Portugal. Teve ella, de 1866 a 1867, em Eça de Queiroz, o seu mais genial representante portuguez.
E porque essa Litteratura me punha em vibração tantas faculdades intimas e latentes, me commoveu ella,--a mim e a outros espiritos contemporaneos da minha primeira mocidade, talvez por educação, e quem sabe se por atavismo, não inteiramente, ou não exclusivamente filhos das raças e dos climas claros e definidores do sul.
V
Assim as primeiras influencias que actuaram em Eça de Queiroz,--aquellas que mais evidentemente se reconhecem nas suas primeiras creações litterarias, os escriptores de cuja frequencia eu posso dar testemunho,--fôram, principalmente, Henrique Heine, Gerardo de Nerval, Julio Michelet, Carlos Baudelaire; mais distantemente, mais em segunda mão, Shakespeare, Goethe, Hoffmann, Arnim, Poe; e, envolvendo tudo poderosamente, Victor Hugo.
A maior influencia n'esse periodo sobre Eça de Queiroz,--a de Heine,--foi tambem consideravel sobre alguns dos seus mais illustres contemporaneos e amigos: Vê-se nas poesias, mais tarde reunidas por Anthero de Quental sob o nome de _Primaveras romanticas_, e no que este diz de si nas paginas autobiographicas que estão publicadas;[9] vê-se tambem nas poesias primeiro escriptas para o _Seculo_ XIX de Penafiel, de 1864 a 1865, e depois colligidas, com o titulo de _Lyra meridional_, por Antonio de Azevedo Castello Branco.
Eça de Queiroz não sabia allemão. As obras de Heine adquirem nas traducções francezas,--algumas feitas pelo proprio author, outras por este em collaboração com Gerardo de Nerval,--um caracter novo.
Heine é para mim,--e não é para todos ainda hoje, mesmo na Allemanha,--um dos maiores escriptores das linguas germanicas. Traduzil-o é, sem duvida, empobrecel-o: foi elle quem disse que «um verso traduzido é um raio de lua... empalhado». Mas as qualidades musicaes de som e rhythmo que as suas obras perdem, ao passar para o francez, são substituidas por outras: a singeleza pathetica como que se torna mais dolorosa á claridade nitida da nova lingua; o humorismo, a um tempo ironico e ingenuo, como que se faz mais subtil nas fórmas do espirito latino; os versos, passados a prosa de rhythmos incertos, como que adquirem uma indeterminação, um vago, que faz lembrar versiculos biblicos.
Recordo-me da impressão nova que me fizeram as poesias de Heine,--que eu decorára no Collegio allemão, onde fui educado,--quando Eça de Queiroz m'as fez conhecer em francez; e d'uma noute em que elle me declamou emphaticamente, quasi com lagrimas, as paginas dos _Reisebilder_ onde Heine,--a quem a musica sempre suggeria fórmas e côres definidas,--conta as transformações phantasticas porque a seus olhos passára, n'um concerto, Paganini, tornado, pela evocação da sobrenatural rabeca, em galan cortejante do seculo XVIII, assassino por ciumes, forçado, monge solitario junto ao mar e sob as abobadas de cathedraes, genio planeta entre as harmonias apotheoticas das espheras, ou figura humilde e grutesca, agradecendo os applausos dos auditorios.
Em muitas paginas das _Prosas barbaras_ se encontra a influencia d'esta lenda phantastica de Paganini.
O conto a _Ladainha da dôr_, que tem o proprio Paganini por assumpto,[10] é directamente inspirado por Heine e por Berlioz.[11] As _Notas marginaes_[12] parecem estancias do _Intermezzo_ ou do _Livro de Lazaro_.
Gerardo de Nerval foi, como se sabe, um dos iniciadores directos da França no _Romantismo_ germanico. Foi elle o primeiro traductor francez do _Fausto_ de Goethe, e, como já disse, o collaborador, com Heine, na traducção d'algumas das obras d'este ultimo.
É evidente, nas paginas das _Prosas barbaras_, a influencia dos proprios escriptos originaes de Gerardo de Nerval, principalmente a dos mysteriosos e phantasticos sonetos que começam:
_Je suis le ténébreux, le veuf, l'inconsolé, Le Prince d'Aquitaine à la tour abolie... Ma seule étoile est morte, et mon Luth constellé Porte le soleil noir de la mélancolie!_...[13]
Julio Michelet, pela originalidade, pelo poder evocador do seu estylo, pelo dom de crear vida intima e phantastica, pela resurreição mythographica e profunda,--sobretudo nos 8 primeiros volumes da sua _Historia de França_,--da _Edade media_, da _Renascença_ e da _Reforma_,--e, na _Sorcière_, pela materialisação sentimental e explicação, a um tempo natural e visionaria, da vasta Historia do Diabo,--foi um dos paes artisticos do primeiro Eça de Queiroz.
H. Heine,--allemão que aliaz alguns criticos chegam a considerar um espirito francez,--Gerardo de Nerval e Julio Michelet representam, em França, profundas influencias allemãs. Foi na fórma vaga, intima e completa das suas obras, que o _Romantismo phantastico_ principalmente impressionou a Eça de Queiroz.
Por toda a parte, nos escriptos das _Prosas barbaras_, se encontram os mythos, as côres e fórmas do maravilhoso popular germanico, os aspectos evocadores da natureza allemã, as personalidades da Historia do Norte da Europa localisando, a cada passo, as historias do romantico portuguez: São as Nixes, as Wilis, os Elfos, as Ondinas, «as velhas mythologias do Rheno», «as Monjas dos Conventos da Allemanha a quem o diabo escreve», «o abbade de Helenbach», «as abbadessas de Vecker a quem o diabo faz sonetos», «as mães melodramaticas dos Burgraves», «os Pastores de Helyberg», «o abbade de Tritheim vendendo a alma pelo segredo da circulação do sangue»,--que passam de continuo nas narrações; e «as encruzilhadas da Allemanha», «as encruzilhadas da floresta negra», «as florestas da Thuringia», «os prados hircinios», as alturas do Borxberg, onde a 30 de Abril se encanta a assembleia de Walpurgis, as cathedraes da Allemanha, o Rheno, o Mar do Norte, «a Allemanha onde nasce a flôr do Absyntho», onde se ouvem as velhas baladas da Thuringia e a guitarra de Inspruck, onde «a poesia popular foi a Invisivel que levou pela mão os trovadores... ás lareiras dos senhorios feudaes...», «ás brancas castellans onde vão os _Minnesingers_ errantes», onde se celebram as «kermesses de Leipzig» e se bebe «a cerveja de Heidelberg», onde Alberto Dürer desenhou a sua _Melancolia_, onde correm as caçadas phantasticas do _Freischütz_ e passam os Imperadores do Santo Imperio, _Fausto_, _Mephistopheles_, _Margarida_, Luthero... Spohr Weber...
O conhecimento directo das poesias de Carlos Baudelaire e a sua influencia consideravel em Eça de Queiroz,[14] só se deu d'uma maneira importante, depois da dos authores que acabo de mencionar. A edição em volume das _Flores do Mal_ só tarde lhe chegou ás mãos. Recordo-me, na falta d'ella, de passarmos muitas noutes na Bibliotheca do Gremio litterario, procurando, em collecções antigas de Revistas francezas, as poesias que Baudelaire ahi havia pela primeira vez publicado.
Carlos Baudelaire é um espirito essencialmente francez. Frio, impassivel, correcto de maneiras e _toilettes_, sempre preoccupado com a realisação duma certa symetria de fórma, o mysterio, o phantastico é, por elle, intellectualmente sentido. Penetrou, sem duvida, em profundas, tenebrosas e inexploradas regiões do espirito; mas para principalmente revelar o que n'ellas é capaz de expressão lucidamente estranha. N'elle o delirio é sempre critico, a nevrose intensa, mas methodisada. Cria na arte o _frisson nouveau_ que Victor Hugo celebra, mas compõe-n'o rigorosamente segundo as melhores fórmas da sabia lingua franceza, com syntaxe directa e rimas ricas, pé a pé, vibração a vibração.[15]
São, porém, estas qualidades especiaes que tornam mais tarde decisiva a influencia de Carlos Baudelaire sobre Eça de Queiroz, no periodo de transição, quando, gradualmente impressionado pelo _Realismo_ e por Gustavo Flaubert, elle justamente denominou a presente collecção de escriptos.
Exerceu-se no mesmo sentido a influencia das obras de Edgar Allan Poe, que Eça de Queiroz,--ainda então ignorante de inglez,--só conheceu pelas traducções francezas de Baudelaire. A nitidez fria com que o espirito americano determinou o nevrosismo das _Historias extraordinarias_, accentua-se ainda mais,--privado, em todo o caso, da indeterminação litteraria e fluctuante da lingua ingleza,--nas fórmas logicas e lapidares d'um dos mais claros escriptores da França.
Indico apenas, como já disse, as influencias dominantes; mas o trato intimo com quasi todos os grandes romanticos francezes,--Musset, Gautier, Mallefille,--é sensivel n'este primeiro periodo da vida litteraria de Eça de Queiroz.
As influencias portuguezas importantes que pódem distinguir-se são pouco numerosas e superficiaes:--quasi sómente as da poesia popular,[16] e as de alguns seus companheiros de Coimbra,--João de Deus, Anthero de Quental. Foi aliás o conto de Eça de Queiroz, o _Milhafre_[17] que suggerio a Anthero de Quental uma das suas poesias.[18]
Na fórma litteraria, a acção reconhecivel em Eça de Queiroz é a da lingua franceza: Foi por meio de muitas das fórmas da syntaxe d'esta, e quasi se póde dizer, do seu vocabulario, que elle modelou uma como que nova lingua portuguesa.
Mas esta _Introducção_ ás _Prosas barbaras_ tem por fim explical-as; não critical-as: Não lhe cumpre por isso mostrar que differenças profundas ha, entre o phantastico allemão e o phantastico do Escriptor portuguez, entre a ironia subtil de Heine e a ironia poderosa de Eça de Queiroz, entre a phantasia ingenua e vaga dos homens do norte e a imaginação eloquente, exhuberante, e imprevista do creador meridional; não tem emfim que provar como todas as influencias notadas se sentem apenas á superficie da obra do grande artista eminentemente original, que escreveu, na sua primeira mocidade, as extraordinarias paginas reunidas n'este livro.
VI
Na intenção d'Eça de Queiroz os _Folhetins_ da _Gazeta de Portugal_,--apesar da sua desconnexão episodica,--formavam serie, obedeciam a um pensamento, constituiam um corpo, uma obra systematica, cujos capitulos, separados por lacunas que nunca fôram preenchidas, pódem, chronologicamente, reunir-se nos seguintes dois grupos:
A
+-----+--------+--- _Symphonia de abertura_[19] | 1866|Outubro | 7 _Macbeth_ | » | » | 14 _Poetas do Mal_[19] | » | » | 21 _A Ladainha da dôr_ | » | » | 28 _Os mortos_ | » |Novembro| 4 _As Miserias: I Entre a Neve_ | » | » | 13 _Farças_[19] | » | » | 18 _Ao Acaso_[20] | » | » | 27 _O Miautonomah_ | » |Dezembro| 2 _Mysticismo humoristico_ | » | » | 23 --------------------------------+-----+--------+---
B
+----+--------+--- _O Milhafre_[22] |1867| Outubro| 6 _Lisboa_[23] | » | » | 13 _O Senhor Diabo_[24] | » | » | 20 _Uma carta_ (_a Carlos Mayer_) | » |Novembro| 3 _Da Pintura em Portugal_[21] | » | » | 10 _O Lume_ | » | » | 17 _Mephistopheles_ (_J. Petit_)[25]| » |Dezembro| 1 _Omphalia Benoiton_[21] | » | » | 15 _Memorias d'uma forca_ | » | » | 22 ---------------------------------+----+--------+---
O primeiro _Folhetim_ em data,--março de 1866,--as _Notas marginaes_,--tendo por epigraphe as phrases interrompidas d'uma trova á Bernardim Ribeiro, e influenciado, como já mostrei, pela traducção franceza das Poesias de Heine, foi inserido, na _Gazeta de Portugal_, fóra do seu logar.
Porque os _Folhetins_ teem uma introducção formal,--uma _Symphonia d'abertura_, que se publica a 7 de outubro de 1866,--e continuam, quasi sem interrupção, semanalmente, aos domingos, até 23 de Dezembro do mesmo anno. Uma longa ausencia de Lisboa interrompe a publicação: Dos primeiros dias de Janeiro a 1 de Agosto de 1867 Eça de Queiroz reside no Alemtejo, onde funda e redige o _Districto d'Evora_, periodico politico, litterario e noticioso. Os folhetins da _Gazeta de Portugal_ recomeçam no dia 6 de Outubro, e proseguem até 22 de Dezembro do mesmo anno de 1867.
A _Symphonia de abertura_[26] prepara, com efeito, o espirito para a ideia que os differentes trechos depois vão desenvolvendo. N'elles a phantasia,--livremente, irregularmente, fragmentariamente,--esboça, suggere, deixa entrever, faz sentir essa ideia, em episodios, em allegorias phantasticas e como que musicalmente vagas:
Trata-se, na «Symphonia de abertura», das viagens dos Deuses, «desde os templos de Ellora,--onde elles andavam ferozes por entre os Elephantes,--até á cruz de Jesus, onde um rouxinol veio pousar cantando d'amor»... «desde a materia negra e informe, até ás serenidades vivas para além das nuvens, das estrellas e dos caminhos lacteos».
N'estas viagens ideaes os Deuses teem uma companheira que intimamente estabelece a sua communicação com os homens,--a Arte.
Da historia visionaria d'esta,--na longa peregrinação divina,--a _Symphonia de abertura_, faz-nos ouvir,--_adagio_ ou _vivace_, _piano_ ou _forte_,--alguns trechos maravilhosamente instrumentados:...
«Quando» os povos--na Chaldea, no Egypto, na Grecia,--«plantavam tendas debaixo das estrellas», ... e, mais tarde, em céos de profundo mysticismo christão, nas regiões transcendentes «onde as proprias estrellas são» apenas, «gotas de sombra...»[27]
Entreveem-se, fluctuando em imagens, as differentes Artes:
A Architectura «que se abriu em transparencias e transfigurações, como se quizesse ser, no espaço, a morada suspensa do espirito».
A Musica emfim «liberta dos contornos, dos coloridos, e das gravidades, dissipando-se nos amollecimentos divinos...»
«...no terror da natureza, onde o diabo era visivel... a alma allemã tinha toda a sorte de penumbras, de desfalecimentos, de pallidos silencios que se exhalavam divinamente no canto...»
Esvae-se «aquella melopea grega esfarrapada pela aspereza do latim dos versiculos...»
«Apparece Luthero», a alma allemã... que desfalecia n'aquellas melancolias immensas que Alberto Dürer revelou...»
Mas «a Musica, que é a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte, sumiu-se com a approximação da Renascença que vinha cheia das rebeliões da carne...»
Até que outra vez «se produziu, na nossa epoca, como a Grecia produziu a Esculptura, como a Europa gothica produziu a Architectura...»
Chega-se assim aos tempos modernos:
«A alma começou a entrever cimos luminosos, por entre os astros, que se chamavam Homero, Eschylo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais, Cervantes e Shakespeare. A alma queria subir aquelles escarpamentos divinos para colher a flôr do ideal.»[28]
A melancolia dá côr ao _Romantismo_...
«O typo em quem se resumem todos os soffrimentos, todas as desesperanças, as melancolias, as incertezas, as aspirações, os lyrismos d'esta epoca pallida e doentia: _Fausto_, _Manfredo_, _Lara_, _Antony_, _Werther_, _Rolla_, _D. Juan_...» que saem então de «toda uma mocidade pallida e nervosa, de «toda uma primavera...»
«O indefinido da alma de D. Juan revelado pela Arte,--eis ahi a Musica...», «aquella vaga Ophelia que se chama Musica...», «uma voz inesperada em que se entendem os desconsolados...»[29]
Constitue-se emfim a Musica moderna:
«A Allemanha... a loura Allemanha de ideal seriedade, luminosa, um tanto nuvem, cheia de vapores e de constellações... A Allemanha que pensa com um doce ruido ineffavel», fórma a sua «Musica que é o vapor da Arte...»
E, ao lado d'ella, «a Musica italiana... tendo o quer que seja do palpavel... d'ondeante como seda invisivel».
Tal é, muito vagamente, a significação sentimental da _Symphonia de abertura_.
Os escriptos colligidos n'este volume são assim, em prosa, os _Cantos fragmentarios_ d'um immenso _Poema_:
O Universo é um infinito de almas. As cousas teem sentimentos humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a pulverisação de todas as mortes. Os que morrem vão diffundir-se nas cousas, sem nas decomposições aniquilarem a personalidade, passando por fórmas inferiores no homem, e por fórmas purificadas na natureza. Na alma é que se concebe, cria, o mal: o corpo, a materia, essencialmente inalteravel, volta sempre á pureza natural. Dos successivos ideaes, e das successivas e profundas commoções, o homem gera, para todo o sempre, Deuses que o dominam, que vivem d'uma vida sentimental e independente, mas que fogem, uns ante os outros, para desvairados destinos, que se asylam, errantes, em todos os grandes centros de vida mysteriosa da creação, que se fazem seducção sob a fórma ainda angelica e já ironica do diabo, que se dispersam na natureza transformadora.
Com este vago thema geral, o _Poema_ em prosa d'Eça de Queiroz propunha-se a ser a expressão das mais profundas regiões do sonho, da visão, do indeterminavel, do substracto phantastico que se encontra sob a realidade evidente, queria tornar sonoras as capacidades de vibração musical que fórmam a intimidade de todos os seres,--todas as vibrações impossiveis de completamente reduzir aos sons calculados d'uma escala musical;--era a phantasia tocando, um momento apenas, o mundo da realidade, para logo se afastar d'elle, voando, exilada pela incomprehensão, pela insensibilidade, pela determinação nitida e clara das forças sensatas do espirito. E assim, após os bellos Deuses de marmore, que se escondem fugitivos nas florestas ainda cheias dos symbolos de religiões anteriores, os anjos sublimados ou reprobos do christianismo,--a propria ironia espiritualista de Satanaz, a propria pallida e doce figura de Jesus,--vão egualmente perder-se e ser esquecidas: Morreu a phantasia. São futeis todas as illusões. Reina o calculo demonstravel.[30]
Heine tambem já contára o exilio dos antigos Deuses,[31] e Michelet[32] recorda o brado, «Le Grand Pan est mort!»[33] que se ouviu pelo mundo ao apparecer de novas crenças.
O que caracterisa este momento da vida litteraria d'Eça de Queiroz é a sincera commoção do crear phantastico, sem excluir, já então, a ironia,--que mais tarde é o principal instrumento de trabalho do seu espirito,--fornecedora de tão delicadas velaturas, ou de toques tão vivos e reaes a todas as suas obras. Consegue assim crear um mundo imaginario, um scenario de allegorias; sabe que esse mundo é illusorio, que só parece povoado por metaphoras,--e enternece-se, e commove-se, e communica essa ternura e essa commoção como se as produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo, inexplicavelmente, que com effeito exista uma profunda realidade, vagamente symbolisada por todas essas imagens.[34]
Como quer que episodicamente falle de assumptos inteiramente reaes,--da America do Norte, de Lisboa, da vida de estudante em Coimbra,--é sempre o mesmo substracto visionario da realidade para que o seu espirito procura expressão.
Esta situação especial do espirito de muitos artistas não foi ainda, parece-me, sufficientemente estudada pela critica e pela philosophia da arte.
VII
Eça de Queiroz tinha, por essa epoca, a mesma exhuberancia e originalidade de phantasia em verso: porque sentia muitas vezes a necessidade de metrificar,--quasi que o mesmo genero de necessidade de som e rythmo que o fazia com frequencia cantarolar, em voz baixa, pequenas phrases musicaes, quasi sempre erradas, mas sempre impregnadas das mais patheticas inflexões.
Os versos que compunha tinham um enorme relevo pela originalidade da concepção e das imagens, e conservavam ainda a fluencia romantica, apaixonada, phantastica, dos primeiros escriptos, quando já elle a havia quasi inteiramente eliminado da sua prosa realista. Mas teve sempre grande difficuldade em comprehender e sentir os processos technicos da metrificação.
São exactamente do periodo dos escriptos colligidos no presente volume as linhas seguintes que deviam, na intenção do author, ser versos alexandrinos:[35]
Oh Satan tenebroso, tragico fulminado, Tu vencerás em mim o intimo Deus bom Não com as armas biblicas com que bateste os astros, Mas vindo unicamente vestido á Benoiton.
Mas é de pouco depois a seguinte admiravel poesia, mais tarde publicada com a assignatura de C. Fradique Mendes:[36]
Serenata de Satan ás estrellas
Nas noites triviaes e desoladas, Como vos quero, mysticas estrellas!... Lucidas, antigas camaradas... Gotas de luz no frio ar nevadas, Podesse a minha boca inda bebel-as!
Não vos conheço já. Por onde eu ando!... Sois vós, mysticos pregos d'uma cruz, Que Christo estaes no Céo crucificando? Quem triste pelo ar vos foi soltando Profundos, soluçantes ais de luz!
Oh viagem nas nuvens desmanchadas! Doces serões do Céo entre as estrellas! Hoje só ais, ou lagrimas caladas... Ai! sementes de luz mal semeadas, Ave do Céo, podesse eu ir comel-as!
Triste, triste loucura, oh flor's da cruz, Quando vos eu dizia soluçando: --Afastai-vos de mim cardos de luz!-- Podesse eu ter agora os pés bem nus, Inda por entre vós i-los rasgando!
* * * * *