Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.
Part 1
Obras do mesmo auctor
=O crime do padre Amaro.= Quarta edição inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso volume 1$200 =Os Maias.= Segunda edição. 2 grossos volumes 2$000 =A Cidade e as Serras.= 800 =O Mandarim.= Quarta edição. 1 volume 500 =O primo Bazilio.= Quarta edição. 1 grosso volume 1$000 =A Reliquia.= Terceira edição. 1 grosso volume 1$000 =Contos.= 1 volume 600 =As minas de Salomão.= 1 volume 600 =Correspondencia de Fradique Mendes.= 1 volume 600 =Revista de Portugal.= 4 grossos volumes 12$000 =A Illustre Casa de Ramires.= 1 volume 1$000
_No prélo_:
=Cartas de Inglaterra.= =Echos de Paris.= =S. Christovam= (inedito).
EÇA DE QUEIROZ
PROSAS BARBARAS
Com uma Introducção por Jayme Batalha Reis
PORTO LIVRARIA CHARDRON LELLO & IRMÃO, EDITORES
1903
Todos os direitos reservados.
Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia que lhe offerece a lei n.ᵒ 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.ᵒ da mesma Lei.
_Porto--Imprensa Moderna._
INTRODUCÇÃO.
Na primeira phase da vida litteraria de Eça de Queiroz.
I
Julgaram os Editores d'este livro ser necessario explicar como elle se escreveu e se denominou.
Fui talvez a testemunha mais proxima da redacção dos escriptos agora reunidos em volume, e por esse tempo, o amigo mais inseparavel do author. Esta Introducção é pois uma pagina da sua biographia. Tento esboçar n'ella a figura do homem e a do escriptor, taes como as conheci, ao formarem-se as creações d'este livro,--as circumstancias e os espiritos que influenciaram a aliás extraordinaria originalidade do genio d'Eça de Queiroz.
Quando nos encontrámos, já estavam publicados alguns dos seus _Folhetins_ na _Gazeta de Portugal_, que fôra fundada por Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos (Novembro de 1862), 4 annos antes da apparição do primeiro d'elles e terminou (Janeiro de 1868,) pouco mais d'um anno depois da publicação do ultimo, sendo,--em rivalidade com a _Revolução de Setembro_, dirigida por Rodrigues Sampaio,--o mais brilhante periodico do tempo. A _Gazeta de Portugal_ publicava, além das do seu fundador, frequentes producções de Antonio Feliciano de Castilho, José Castilho, Mendes Leal, Rebello da Silva, Camillo Castello Branco, Julio Cesar Machado, Thomaz Ribeiro, Zacharias d'Aça, Graça Barreto, Silveira da Motta, Cunha Rivara,--quasi todos os consagrados de então. Os _Novos_ que ahi escreviam, ficavam, por este facto, para logo consagrados. Ahi primeiro appareceram no _folhetim_, triumphalmente, Matheus de Magalhães, Pinheiro Chagas, Osorio de Vasconcellos e Xavier da Cunha («Olympio de Freitas.») Todos estes escriptores se continuavam uns aos outros, sem contrastes nem revoluções, apenas levemente desenvolvendo formulas acceites e classificadas pelos applausos d'um publico hereditariamente satisfeito.
Em 1866 a _Gazeta de Portugal_ entrára porém em decadencia; começava a viver de expedientes. Desde Dezembro de 1865 diminuiu o formato. A 14 de Julho de 1866, José da Silva Mendes Leal, poeta, dramaturgo, romancista, historiador, estadista, orador, diplomata,--para muitos, «o mestre», legitimo successor de Almeida Garrett,--despedira-se da direcção litteraria que até então, pelo menos nominalmente, exercera. Os collaboradores litterarios mais assiduos, mais legitimamente representantes do gosto geral, eram já então, no _folhetim_ da _Gazeta de Portugal_, Santos Nazareth e Luiz Quirino Chaves. Por essa epoca Teixeira de Vasconcellos publicou ahi o seu romance _A Ermida de Castromino_, seguido, desde os primeiros dias de 1866, por _O Diamante do Commendador_ do visconde Ponson du Terrail...
Repentinamente, (em Março de 1866), começaram a apparecer uns _Folhetins_ assignados «Eça de Queiroz».
Ninguem conhecia a pessoa designada por estes appelidos que, por algum tempo, se suppoz serem um pseudonymo.
Os _Folhetins_ de Eça de Queiroz foram todavia notados;--mas como novidade extravagante e burlesca. Geral hilaridade os acolheu desde a Redacção da _Gazeta de Portugal_, até aos centros intellectuaes reconhecidos do paiz, e até á parte mais grave, culta e influente do publico. Para este, uma ou outra phrase os arrumou logo no que então se chamava «a Escola Coimbran»,--centro litterario e philosophico dedicado, como se suppunha, a escrever por modo systematicamente inintelligivel. Citavam-se, por modelos de comico inconsciente, as scenas, as imagens, os epithetos d'esses _Folhetins_, lidos em voz alta, entre gargalhadas, no Café Martinho, nas Livrarias Silva e Rodrigues, no Gremio litterario, nos Salões poeticos e politicos e n'outros centros representativos do tempo. O Severo,--o Severo dos Anjos,--principal e celebre Noticiarista da _Gazeta de Portugal_, entalando o monoculo ao canto do olho direito, inventava quotidianamente, sobre o Eça de Queiroz e os seus _Folhetins_, epigrammas em geral adoptados; e o Teixeira de Vasconcellos, exagerando, com intenção comica, o seu natural gaguejar, concluia:
--Tem muito talento este rapaz; mas é pena que residisse em Coimbra, que seja inteiramente doido, que haja nos seus _Contos_, sempre, dois cadaveres amando-se n'um banco do Rocio, e que escre...va...va...va em francez.
Pouco tempo depois de publicado o ultimo d'esses _Folhetins_,--em Dezembro de 1867,--já ninguem pensava no author d'elles.
Que importava ao Café Martinho, ao Gremio _supposto_ litterario, e aos circulos politicos, a apparição d'um novo escriptor com um novo estylo? Era ministro... não sei quem; discutia-se no Parlamento... não sei que; os negocios iam andando; os namoricos e a maledicencia seguiam o seu curso; a arte, serena e commedida, não sacudia os que dormitavam... e nada mais era de interesse, em Portugal, para as classes cultas.
II
Eu era, por 1867, estudante em Lisboa e muito novo. Por circumstancias que é inutil mencionar frequentava a Redacção da _Gazeta de Portugal_, no n.ᵒ 26 da travessa da Parreirinha, perto do Theatro de S. Carlos.
Uma noute, junto da mesa onde escrevia o Severo, vi uma figura muito magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça pequena e aguda. Esta figura mostrava-se inteiramente desenhada a preto intenso e amarello desmaiado:
Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada até á barba, uma gravata alta e preta, umas calças pretas. Tinha as faces lividas e magrissimas, o cabello corredio muito preto, do qual se destacava uma madeixa triangular, ondulante, na testa pallida que parecia estreita, sobre olhos cobertos por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito negros. Um bigode farto, e tambem muito preto, caía aos lados da bocca grande e entreaberta. As mãos longas, de dedos muito finos côr de marfim velho, na extremidade de dois magros e longuissimos braços, faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chapéo de copa alta e conica, mas de feltro baço, como os chapéos do seculo XVI que se veem nos retratos do Duque d'Alba, de Philippe II de Hespanha, ou de Henrique III de França.
Era o Eça de Queiroz.
Contava o quer que fosse a um tempo tragico e comico, nervosamente, dando a espaços gargalhadas--_ricanements_, como se diria em francez,--curtas, e sinistras.
O Severo, de monoculo fincado no olho direito, a larga mascara gorda, amarella e ironica, muito dilatada, escutava-o, rindo em notas agudas.
Saí n'essa noute do Escriptorio da _Gazeta de Portugal_ com o Eça de Queiroz, jantámos e passámos a noute juntos, e desde então, por annos, não nos separámos quasi.
O Eça de Queiroz terminára em 1866 o curso de Direito na Universidade de Coimbra, e viera para Lisboa onde seu pae era magistrado. Por tradicções de familia, e como consequencia natural dos seus estudos, deveria seguir, elle tambem, a magistratura official, ou, pelo menos, fazer-se advogado. Supponho que n'este intuito frequentou algum tempo um Escriptorio em Lisboa.
Mas a Arte tomava-o já a esse tempo fundamente, e ia-se-lhe o tempo a ler, a scismar, a idear, a cogitar os aspectos subtis das cousas.
Eça de Queiroz morava em casa da familia, ao Rocio, no 4.ᵒ andar do predio n.ᵒ 26. O seu quarto--pequeno, com uma mesa ao centro e uma estante para poucos livros,--dava para a rua do Principe. Ahi foram, em parte, escriptos os _Folhetins_ das _Prosas barbaras_.
III
Haviamos-nos creado um mundo como que áparte da realidade:
Quando por algum tempo nos separavamos durante o dia, reuniamos-nos logo, ás horas de jantar, ou depois, n'um qualquer Restaurante pouco frequentado, cerca da rua larga de S. Roque ou do Chiado.
Á sobremeza o café abria-nos as regiões visionarias em que viviamos: O Eça de Queiroz bebia-o com attenção concentrada e reverente, curvado de alto sobre a chavena, para onde cada feição, principalmente o nariz comprido e adunco, como que se prolongava aguçada. A uma primeira chavena seguia-se uma segunda e uma terceira; e iamos para minha casa continuar a beber café, ás vezes até madrugada.
N'estas circumstancias foram escriptos, por Eça de Queiroz, muitos dos _Contos_ agora reunidos em volume.
Eu morava no primeiro andar da casa n.ᵒ 19 da então travessa do Guarda-mór,[1] em pleno Bairro alto.
No meu quarto de estudante[2] havia um grande armario cheio de livros, cavado na espessura da parede, uma grande mesa central sobre que se escrevia, e uma secretaria de feitio estranho, dada a meu pae por Almeida Garrett, usada por este para escrever de pé, que suggerio a Eça de Queiroz a fórma da mesa onde, annos depois, em Paris, quasi sempre trabalhava. Uma larga janella de sacada abria para a rua dos Calafates[3] em frente a predios baixos que, por isso, não impediam o accesso do ar, da luz, e a vista d'um espaço aberto que dava uma impressão de villa de provincia. No mais proximo d'esses predios moravam duas raparigas, muito novas e bonitas, a cantar, costurando activamente o dia inteiro, entre craveiros e mangericões, por vezes, para o Eça de Queiroz e outros lyricos phantasistas que me visitavam, pontos de partida de longas variações, em verso e prosa, sobre o _Eterno feminino_.
Certas noutes, entrava o Eça de Queiroz, já tarde, no meu quarto, com um rolo de papel na mão, dizendo:
--Sou eu, sim, amigo.
E alludindo aos corvos, milhafres, gaviões, que com tanta frequencia, phantasticamente appareciam nos seus _Contos_, accrescentava:
--Sou eu e os meus abutres: Vimos crear, devorando cadaveres!
Muitas cousas preoccupavam o Eça de Queiroz quando trabalhava:
Durante tempos só poude escrever em certo papel almaço, que elle proprio ia comprar a uma loja pequena de chá e papel selado, no n.ᵒ 41 da rua larga de S. Roque.
Havia de entrar no meu quarto com o pé direito, suspendendo-se por isso, no ultimo momento, recuando o pé esquerdo agourento, quando já este inopportunamente se adiantasse, e fazendo, hesitante e confuso, antes de emfim passar a porta, um ruido inexplicavel.
Tinha o terror das correntes d'ar, e andava continuamente a fechar a janella, ou as portas, a mudar a posição da cadeira onde se sentava, murmurando em voz cava:
--É a pneumonia, a congestão-pulmonar fulminante, a morte, menino!
A luz do candieiro de petroleo, que eu usava, feria-lhe a vista; de modo que, afim de a concentrar sobre o papel em que escrevia, ou sobre o livro em leitura, prolongava, do seu lado, o _abat-jour_, com longas tiras de papel.
Não podia supportar poeira nas mãos, e levantava-se a miudo da mesa para ir, cuidadosamente,--interrompendo a composição, mas recitando em voz alta as phrases que tinha escripto,--lavar as pontas dos dedos.
Fumava constantemente cigarros, em quanto trabalhava, inclinado sobre o papel que olhava muito de perto.
E, uma vez embebido nas suas creações, não fallava, não escutava, não attendia a cousa alguma,--embrulhando o cigarro, indo lavar as mãos ou fechar a porta, passeando pela casa, sempre muito curvo, com passadas altas e largas, fazendo gestos de dialogar com alguem, resfolegando ruidosamente, abrindo muito os olhos, elevando e baixando nervosamente as sobrancelhas, as palpebras, e as rugas horizontaes da testa, onde ondulava, convulsa, a sua madeixa corredia, negra e triangular.
Escrevia com extrema facilidade e, n'esta epoca, emendava muito pouco: As imagens, os epithetos occorriam-lhe abundantes, tumultuosamente, e elle redigia rapido, insensivel a repetição de palavras ou a desequilibrio de periodos, sem exigencias criticas de fórma, acceitando, commovido, o que tão espontaneamente, tão sinceramente lhe occorria.
Quando n'essas noutes, elle me lia alguns dos seus _Contos_, a figura e a voz completavam-lhe as phantasticas creações:
Erguia-se quasi nos bicos dos pés, de uma magresa esqueletica, livido,--na penumbra das projecções do candieiro,--os olhos esburacados por sombras ao fundo das orbitas, sob as lunetas de aro preto, o pescoço inverosimilmente prolongado, as faces cavadas, o nariz afilado, os braços lineares, interminaveis. Então, com gestos de apparição e espanto, a voz lugubre, sentimental,--emphaticamente pathetica, ou gargalhando sinistramente,--declamava.
Ás vezes, alta noute, quando a excitação do trabalho e do café nos havia quasi allucinado, saíamos pelas ruas desertas do Bairro alto,--ou estendiamos as nossas explorações á Mouraria, á Alfama, em volta da Sé e pelas encostas do Castello de São Jorge, a examinar a physionomia phantastica, e quasi humana, das casas antigas, algumas ainda então, n'esses bairros, mouriscas ou medievaes.
--Ás casas sem luz,--escreveu Eça de Queiroz,[4]--teem o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas.
D'uma vez, quasi de madrugada, seguindo a rua de São Boaventura, divisámos ao longe, no Pateo do Conde de Soure, uma fila de homens agigantados, segurando como que longas e grossas lanças, cujos ferros se perdiam talvez na atmosphera mal alumiada e cujos coutos se esfumavam na massa confusa do que parecia ser nuvens rasteiras... Estes homens eram para nós apenas esboçados por grandes massas de sombra e luz... D'alguns saíam barbas hirsutas... Estavam immoveis... Tivemos a impressão d'um quadro sobrenatural... Aproximámos-nos... Eram varredores municipaes que esperavam, encostados ás vassouras, a hora de se dispersarem pela cidade.
Nas noutes mais serenas,--nas noutes de luar,--saíamos da cidade e íamos pelos campos e pelos montes, ou ao longo das margens do Tejo, conversando, improvisando, até nascer o Sol.
De ordinario, nas noutes de composição e conversa, ou em seguida ás nossas divagações peripateticas, o Eça de Queiroz dormia em minha casa. E havia, para elle, ritos determinados no modo de dispôr a roupa que despia, antes de se deitar, collocando os punhos sobre uma mesa pela ordem por que os tinha usado, no braço direito e esquerdo, respectivamente, e dispondo as botas á porta,--para que o meu creado as limpasse, sem nos acordar,--tambem, pelo mesmo methodo, ordenadamente emparelhadas.
E ao metter-se na cama, para explicar os seus movimentos supersticiosos, murmurava persignando-se:
--É preciso obedecer com fé e sem exame ás leis subtis das cousas: Ninguem sabe exactamente, menino, de que possa depender o curso dos acontecimentos, e o mysterio complicado dos Fados.
Na epoca em que se publicaram os _Folhetins_ da _Gazeta de Portugal_, eram poucos os amigos que frequentavam a minha casa. O mais assiduo era, por esse tempo,--além do Eça de Queiroz, o Salomão Saragga que, quando apparecia, se occupava toda a noute em explicar-nos, simultaneamente, a construcção de carruagens, a fabricação de tecidos com desperdicios de lan, o livro do Propheta Isaias, e os Historiadores das origens do Christianismo.
De tempos a tempos, o Eça de Queiroz dizia-me:
--Estamos-nos tornando impressos. Basta de lêr e imaginar. Precisamos d'um banho de vida pratica. É-nos indispensavel o acto humano,--inverosimil, se fôr possivel tanto,--a aventura, a lenda em acção, o heroe palpavel: Vamos pois cear com o capitão João de Sá,--o João de Sá Nogueira,--d'Artagnan d'Africa em disponibilidade.
E iamos, com effeito, encontrar este nosso amigo, official do Ultramar, que á ceia nos contava,--durante o bacalhau com batatas, o meio biffe, e o Collares,--as pitorescas façanhas das suas viagens nos sertões.
IV
Havendo eu pertencido á primeira geração affectada pelos escriptos de Eça de Queiroz, as recordações do meu sentir de então teem talvez valor historico.
O anno de 1867 é uma das datas capitaes na historia da educação do meu espirito. A predominante paixão pela musica ligára-me a Augusto Machado, que estudava então piano e harmonia com dois dos melhores mestres da especialidade em Lisboa.
N'esta cidade floresciam, por esse tempo, o _Pot-pourri_ e as _Variações_. A sensibilidade publica alimentava-se d'um sem numero de _Rêveries_. O gráo supremo do pathetico geralmente conhecido ao piano, attingia-se com os _Nocturnos_ de Ravina e Döhler. Os arranjos operaticos de Thalberg e Liszt eram o ideal raras vezes realisado.
Ora em 1867 Augusto Machado, ao voltar de Paris, onde cursára piano, harmonia e composição com Alberto de Lavignac, trazia, como repertorio de estudo, os _Preludios_ e _Fugas_ de Bach, as _Sonatas_ de Mozart e Beethoven, as obras de Mendelssohn, Schumann e Chopin.
Os _Folhetins_ de Eça de Queiroz fizeram-me uma impressão só comparavel, em profundidade e consequencias subjectivas, á que, justamente pela mesma epoca, me fazia a descoberta das obras dos grandes creadores da musica moderna.
Esses _Folhetins_ pareceram-me uma grande novidade,--não tanto nos assumptos e na intenção, como no poder de realisação artistica: Emfim encontravam fórmas intensas de expressão, factos, antes, na Litteratura portugueza, insufficientissimamente revelados.
Pelos pontos de vista, pelo estylo, esses _Folhetins_ eram, ainda no anno de 1866, uma quasi inteira novidade para os Leitores da lingua portugueza;--como haviam sido, para todo o sul da Europa, á apparição do _Romantismo_ francez nos primeiros annos do seculo XIX, as mesmas ideias e estylos semelhantes.
N'esses primeiros escriptos Eça de Queiroz era, na verdade, o que geralmente se denomina um _Romantico_. Elle proprio dizia da epoca immediatamente anterior:
«N'aquelles tempos o _Romantismo_ estava nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de Shakespeare.»[5]
E, então mesmo, achava ser preferivel, «á saude vulgar e inutil que se gosa no clima tepido que habitam Racine e Scribe... a doença magnifica» que leva ao «hospital romantico...»[6]
Com effeito, por uns dois seculos, pareceu gosar-se, nas regiões mais evidentes da Litteratura, uma inalteravel saude: Só certos factos do espirito perfeitamente determinados,--só as ideias e os sentimentos susceptiveis de clara determinação,--eram n'essa Litteratura expressos. Os meios de expressão uzados, os vocabulos e os seus grupamentos, os generos litterarios,--tudo parecia claramente, definitivamente assente, segundo normas antigas e, por isso, venerandas, n'um systema de symetria, de equilibrio, de ordem, applicavel sem hesitações, com o minimo esforço, na mais segura tranquillidade. Assim viveu na Europa, em geral, a gente culta, do seculo XVI ao seculo XVIII.
Começaram pelos meados d'este, a mostrar-se nos espiritos signaes inquietadores: Além das ideias completamente comprehensiveis e dos sentimentos inteiramente claros, outras ideias e outros sentimentos se impozeram á expressão dos Litteratos. Entre as grandes fórmas dos affectos, como entre as côres mais vivas, distinguiram-se transições e meias tintas: Os homens não pareceram estar sempre, ou exhuberantemente alegres, ou definitivamente tristes. Havia commoções de sentimentos entremediarios ao amor e ao odio. Entre o preto e o branco descobriram-se gradações infinitas.
Cada ideia classificada, cada sentimento catalogado antes, começou então, pouco a pouco, a mostrar-se o centro de grandes grupos psychologicos, de factos espirituaes diversamente complexos, susceptiveis de definição variavel, de claresa decrescente: uns que podiam ser nitidamente,--como que linearmente,--desenhados, inteiramente descriptos, completamente illuminados; outros que só podiam indeterminadamente suggerir-se, summariamente indicar-se por vagas massas de côr, de sombra e de luz; uns que são as ideias e os sentimentos que todos os homens conscientemente reconhecem como a materia superficial da existencia; outros mais ou menos inconscientemente dominantes, sem nome ou descripção que os esgote, prolongando-se pelas profundidades insondaveis e inexpressiveis das almas.
Do conhecimento d'estes estados mais subtis e ráros do espirito, resultou, inevitavelmente, a sua cultura; os systemas nervosos pareceram desenvolver-se em sentidos anormaes: e imprevistas, ou mais conscientes vibrações vieram impôr-se, crear ou tornar mais complexas as nevroses.
Novas fórmas de expressão foram necessarias, não só para os novos estados da consciencia, mas porque cada espirito começou a sentir e a pensar independentemente, reconhecendo dever procurar por si,--por isso quanto possivel fóra de formulas e regras já feitas, os termos que mais exactamente lhe symbolisassem as concepções pessoaes.
Toda esta revelação espiritual,--toda esta descoberta de regiões ignoradas ou indolentes dos espiritos, toda esta apparição de aspirações, de incertezas, de incoherencias novas, toda esta quebra de moldes, todo este desequilibrar de forças e symetrias,--pareceu ser, ás gentes cultas, serenas e classicamente imitativas, uma grande doença mental, ou variadas doenças nervosas que atacassem a humanidade.
A este estado dos espiritos e da Litteratura deu-se, como é sabido, o nome de _Romantismo_,--facto esthetico, ainda hoje em busca de sufficiente definição, mas que, pelo que deixo explicado, me parece poder essencialmente definir-se, como a _procura directa_ de _fórmas de expressão_, para todos os sentimentos e todas as ideias, por isso, para as _mais intimas ideias_ e os _mais vagos sentimentos_ do espirito humano.
Muitos pretendem que essa doença moral foi apenas, nos fins do seculo XVIII, a reincidencia da epidemia que devastára a Europa durante o periodo secular desdenhosamente denominado, por os saudaveis neo-greco-romanos, como a «Edade Media», escura, de transição, que em Historia ha a considerar entre os dois periodos classicos de equilibrio e saude normal.
O _Romantismo_ pareceu ser, geralmente, a resurreição idealisada d'essa «Edade media».
É que, durante esta, gradualmente se formaram as nações modernas da Europa na sua intima complexidade sentimental. N'ellas as forças humanas,--com o integral resultado de forças naturaes que são,--deram fórma aos mais intimos sentimentos do espirito. Os povos haviam vivido tradiccionalmente mergulhados nas creações completas da sua arte e da sua religião; haviam amado, adorado, temido, trabalhado, luctado, cantado, dançado, cercados por todas as vibrações inconscientes da sua phantasia; haviam formado com a interpretação dos aspectos naturaes, com os genios e as fadas de mil religiões evolutivas, os novos santos christãos e milagrosos; haviam sentido em cada ser, organico ou mineral, real ou phantasiado, propicio ou hostil, influencia humana, e haviam-se supposto indissoluvelmente solidarios com uma natureza sempre animada, por onde os proprios cadaveres se dispersavam em pulverisações de espiritos e actividades.