Poetas do Minho I - João Penha

Part 2

Chapter 23,245 wordsPublic domain

Parecia-me que a sua musa obedeceu á orientação romantica, que se comprazia em polvilhar de gottas de fel, como um effeito decorativo, puramente ornamental, a corolla das flôres ideiaes do Sentimento.

É verdade que no escrinio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas eu considerava-a, se me permittem a expressão, um retrato de phantasia:

Um rosto encantador, quasi moreno, De uns grandes olhos verdes animado: Negro o cabello, em tranças ennastrado; Correcto o supercilio, iris sereno;

Vermelho o labio, sorridente e ameno; Breve a cintura; o collo, assetinado; Um donaire, das outras invejado; Magras as mãos; o pé, leve e pequeno:

Eis a dama por quem chorando anhélo! Rival das graças do cinsel iónio, Mas fria como a neve: o meu flagello!

Eis a minha Nathercia, o cruel demonio Por quem vivo perdido, mas tão bello Que nem lhe resistira Santo Antonio!

Este soneto affigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepção artistica de poeta, de um plano litterario preconcebido, que visava a produzir effeitos pela antithese do Amor e da Ironia, pelo contraste da veia alegre do bohemio com a inspiração sentimental do lyrico.

Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigramma deixasse cair sobre o retrato da primeira pagina o peso de um paio roliço de Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura delicada:

Mal pode phantasiar-te a mente accêsa Tão gentil como quando, venturoso, Te vi a vez primeira, ébrio de goso, Estatico de pasmo e de surpreza.

Que prodigio de esplendida bellesa! Que labios, que sorrir, que olhar piedoso! Que opulento cabello... um mar undoso Onde escondêras a gentil nudeza!

Assentada n'um banco de verdura, Junto á margem do múrmuro Mondêgo, De um Corregio vencêras a pintura.

Ai! perdi, desde então, paz e socego: Se estavas tão graciosa em tal postura, E comias um paio de Lamego!

E logo, como na travação logica de um poema, cuja traça foi gisada calculadamente, o paio continuava a materialisar a desillusão do poeta, que não encontrava na realidade da vida a mulher ideial das suas noites de phantasia romantica.

O paio parecia-me na obra de João Penha um symbolo de salutar desengano para os que criam na espiritualidade ethérea da mulher e que, regressando alquebrados do Paiz do Sonho, ainda podem achar rehabilitação salvadora na despensa, no _réstaurant_, e na cava.

És minha, és minha, oh venturoso fado! Cedeste á chamma que em meu peito alento! Chegou por fim o divinal momento, O dia de meus sonhos anhelado!

O ceu, ha pouco tôrvo, eil-o azulado: Sussurra esmorecido ao longe o vento; Esplende o sol no ethereo firmamento; Recende aromas o florente prado.

Quando ha pouco a teus pés (oh quadro lindo!) Te disse o meu amor, em doce esmaio Senti volupias de um prazer infindo.

Oh camênas agricolas, cantai-o! Ella, a minha formosa, ella fugindo, Deixou-me o coração, deixou-me o paio.

Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refem da sua esperança perdida, das suas illusões derrotadas, o paio,--a porção mais subjectiva do _eu_ espiritual da dama, o paio, um symbolo, o paio, uma philosophia, como o porco do rebanho de Epicuro, _Epicuri de grege porcus_.

Se alguma duvida pudesse restar sobre a interpretação d'este symbolo culinario, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecêl-a a clara exegése d'este soneto:

Aquella Rosa branca, a flor mais viva Dos jardins olorosos de Granada, Já não parece a flor enamorada, Triste por viver só, viver captiva.

Outr'ora, em seu mirante, pensativa, Muitas vezes a luz da madrugada A via entre boninas, enlevada, Nos sons d'uma guitarra fugitiva.

Agora, a Beatriz do Poeta abstruso, A Elleonora das canções do Tasso, A Nathercia gentil do cantor luso,

Sol perdido em nevoeiro escuro e baço, A citharas prefere a roca e o fuso, Aos meus cantos,--presuntos de Melgaço!

Sente-se na symbolica de João Penha a alma alegre de uma geração que teve sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gosar.

Respira-se ahi o aroma aperitivo de um succolento jantar fradesco, como na antiga cosinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de vasia, dá a impressão do apetite saluberrimo da ordem de Cistér.

Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos, regados por agua diamantina, as fructas deliciosas e maduras.

Um braço invisivel parece encaminhar o nosso espirito á vasta mesa do refeitorio cisterciense, onde a gula monastica levanta castellos de comesana macissa, que o apetite voraz ha de em breve vencer e desmoronar.

Sóbe ao pulpito, emquanto os outros devoram pingues vitualhas, um prégador aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, falla, sem fé e sem uncção, da diabolica attracção dos sete peccados mortaes, que os setecentos filhos de S. Bernardo ali reunidos devem a todo o custo evitar.

E especifica: a soberba, a avareza, a luxuria...

Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para o fundo do prato com os seus botões:--Que mulher conheci eu por lá que valesse esta bella petisqueira d'Alcobaça?

Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto:

Cantai-me a vida, e o sonho transitorio! Cantai, emquanto á dor busco remedio Nos vastos caldeirões do refeitorio.

A raça, no breve lapso de vinte annos, hysterisou-se excessivamente em nervosismos e melancolias, que allucinam funebremente o cerebro dos poetas modernos.

Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconisava a Vida, ao passo que Antonio Nobre deixa entenebrecer o seu espirito no symbolismo tetrico da _Velha_ (a morte) e do _Hotel da Cova_ (a sepultura).

E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a ser talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de pedra, sobre os hombros do doutor Pedro a mesma Torre de sciencia, ha o mesmo cheiro a lente cathedratico e a bolôr auctoritario, a Pandecta rançosa falla ainda mais alto que toda a concepção do Direito moderno explanada pelo snr. M. Fratel, porque, n'essa Coimbra vetusta, ha só uma coisa que falla mais alto que a Universidade,--é a _Cabra_.

Continuando o _meio_ a ser o mesmo, sendo mesmissima a atmosphera social onde a mocidade academica respira, é claro que a variedade das impressões recebidas se ha de explicar pelas condições especiaes, tanto psychicas como physicas, do individuo que as recebe.

Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce o amarantho, rubro como a purpura e como... o paio: em Antonio Nobre temos a musa languida que desabrocha a pállida cecém, perfumada, mas branca como a neve.

Depois de haver escripto a _Carta a Manoel_, Antonio Nobre, sedento de ideiaes consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a Vida no Bairro Latino, e lá mesmo se encontra _só_ e desgraçado.

João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funambulo, por sobre todos os desgostos do amor intimo, sem entornar a taça repleta de phalerno.

Não ha dôr que resista a um vinho ardente, Nem ao facil amor de uma hespanhola.

Porque a verdade, ao contrario do que eu e outros poderiamos suppôr de longe, enganados pela apparencia picarescamente ironica dos versos de João Penha, a verdade é que elle amou, embora não andasse lutuosamente vestido de almáfega, nem passeiasse merencorio e sinistro como os bardos melodramaticos, que aliás caricaturou.

Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez de fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem que lhe sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipal-a...

No fundo da biographia de João Penha está effectivamente a memoria de um amor, que inspirou _O Vinho e Fel_ e _O Tancredo_, poema no genero do _Onofre_, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas em jornaes, não sahiu nas _Rimas_.

--Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebiamos, não para apagar a sêde ou para afogar paixões,--mas para dar tom aos nervos e activar os movimentos do machinismo intellectual. Todavia não deve esquecer-se que o vinho é o grande consolador dos tristes: _date vinum moerentibus et lætobunt..._

Esta phrase rasga o véo de um segredo, que o vinho letificante diluiu na taça da bonomia.

Mas ri-se como quem chora, O bardo das scenas varias, Qual ri o mocho sombrio Sobre as loisas funerarias.

A noite na adega esconsa, D'uns candís á luz escassa, Quantas vezes não procura O esquecimento na taça! ....................... Que já li sobre uma lage, Occulta, n'umas cavernas, Este sinistro epitaphio Do phantasma das tabernas:

«Aqui jaz o bardo triste Junto á bella Carolina: Riu-se a bella do rapaz, Riu-se o rapaz da menina.»

Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adêga esconsa, á luz fumenta dos candis, emquanto a tia Camêlla despeja do pichel um gorgolão vermelho de phalerno:

Venho pedir-te o retrato Que te dei por amisade: Não quero servir de ornato Nos alcouces da cidade.

Quero laval-o nas ondas, Que gemem na praia agreste, D'aquellas manchas hediondas Dos beijos que tu lhe déste.

Quero arrancar-lhe a moldura, O teu cabello, e trocal-o Por uma trança mais pura Das crinas do meu cavallo.

Estes gritos de desespero fazem lembrar aquella sazão plena de romantismo, em que Dumas Filho obtinha um duplo triumpho no romance e no palco quando Armand Duval arremessava a bolsa recheiada de oiro á face de Margarida Gautier.

_És da raça dos Borgias!_ vocifera o poeta, mas traça a capa de estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão

... nos bôjos da amphora vetusta.

Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta poz, um dia, o pé no estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi elle, deixando-a a ella, aos sinceiraes do Mondego, ao Paiz azul do sonho e á vida murciana de Coimbra. N'essa hora surgiu mais um advogado em Braga.

Poderiam, erradamente, suppol-o voluvel, inconstante no amor os que não conheciam os segredos da sua biographia, que a resposta não tardava, prompta e cabal:

Mais frio que Blondin sobre o Niagára, Julgas minh'alma em vis paixões accesa; E comtudo nas ostras da bellesa Eu só procuro o amor, perola rara.

Mas, não encontrando a perola rara, tomava o partido de comer ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso tolerante de Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos possivel.

Convém notar que João Ponha deu o titulo de _Lyra de Pangloss_ a uma das subdivisões das suas _Rimas_.

Sahindo de Coimbra, não chorava sobre as ruinas dos seus sonhos desfeitos, das suas illusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O espirito,

Aquelle meu espirito opulento, Que vivia na luz dos sonhos bellos,

vira morrer os «ultimos anhelos», mas resistira, graças ao sabio formulario do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a florescer

... em tão doce obesidade, Que dentro em pouco me vereis no transe De tomar ordens e fazer-me abbade.

A gente sahe da leitura das _Rimas_ tão bem disposta como João Penha sahiu de Coimbra.

Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no nosso espirito a impressão de um cemiterio sombrio, umbroso de cyprestes e chorões, dealbado de mausuleos luarentos, como diria um nephelibata, e de cruzes tiritantes de frio na gelida nudez do marmore.

Pelo contrario, as _Rimas_ de João Penha são como um pomar do Minho, uberrimo e cantante, onde a côr dos fructos se tinge de tonalidades sadias, onde o despenho da agua sobre a relva viçosa espuma em borbotões sonoros, e onde os passaros, nas latadas verdes, assobiam n'uma bambochata feliz de collegiaes em liberdade.

É com a impresão de ter visitado um d'estes pomares feracissimos e alegres que a gente fecha o volume das _Rimas_.

IV

Em litteratura, João Penha é hoje, como hontem, um conservador convicto, um idealista, um romantico, intransigente, mas brilhante de originalidade saudavel.

As suas opiniões são conhecidas.[7]

Para elle a escola romantica, sem estar subordinada a uma unica e determinada philosophia, porque não ha relação proxima ou remota entre os seus trez grandes poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos os golpes que lhe vibrem os revolucionarios da litteratura, será eterna, porque eternamente o homem «perseguido pela realidade, se refugiará, pelo menos durante algumas horas do seu dia, no mundo das illusões.»

Na escola romantica, o que impressiona, o que commove, é a obra em si mesma, ao passo que na escola naturalista apenas se admira o auctor pelo seu talento de observação.

João Penha distingue entre escola naturalista e escola realista: n'aquella, é licito admittir «personagens excepcionaes, casos que não sejam communs»; n'esta, os modelos são vulgares, «as cousas são descriptas, não como o artista as possa vêr, mas como a multidão as vê.»

Notarei, de passagem, que n'esta subdivisão, João Penha parece ir mais longe do que Emilio Zola, o qual envolve na mesma formula o naturalismo e o realismo. O famoso auctor do _Roman expérimental_ adoptou como formula generica o naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e que define: «o regresso á natureza e ao homem, a observação directa, a anatomia exacta.»

Mas, para Emilio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionaes ou vulgares, que estejam no sette-estrello ou no charco, no alto ou em baixo.

«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer du sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en haut, il m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime qu'on ne saurait se tromper.»

Comtanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos corpos e dos phenomenos, pouco parece importar a Zola que os corpos girem no azul ou na terra.

Eu não estabeleço differença entre naturalismo e realismo, que considero synonimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja nos modelos excepcionaes, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos modelos vulgares, em que a natureza se repete todos os dias.

Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admitte, nas obras do espirito humano, senão dois effeitos: o de instruir e o de commover.

A formula de Zola, procedendo da analyse, caminhando na orientação da medicina experimental de Claudio Bernard, constitue uma obra de sciencia, que pretende guiar o espirito na investigação da verdade.

Não sensibilisa, não evola a alma até á região do sonho; pelo contrario, prende-a á terra, á realidade, como uma algema, um Prometheu.

Portanto está fóra da esphera da arte, que é fundamentalmente suggestiva e emotiva.

Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo que os editores franceses se téem visto na necessidade de ir alijando as edições dos copistas da realidade por meio de uma tombola, a franco a entrada.

A profissão de fé litteraria de João Penha, exposta no prefacio da _Tristia_, não abrange a moderna escola poetica, chamada, entre nós, dos _nephelibatas_.

Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do ardor com que defende as tradições do idealismo romantico, se eu ainda ha poucos dias não ouvisse, nitida e firmemente explanado, o parecer de João Penha sobre a obra recente dos novissimos:

--Não transijo com essa escola, disse-me elle. Não admitto poesia sem rythmo, como não admitto musica sem compasso. O verso sem cesura e sem medida, é prosa.

E dizia-m'o com aquella rispida firmeza de convicção com que Theophilo Gautier escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une folie moderne qui ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art lui-même».

Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha, lembrava-me da phrase de Junqueiro nos _Simples_: «A fórma poetica encaminha-se á solução final. Horisonte immenso.»

Horisonte immenso, sim, porque já não ha medida para o verso, que vai até onde quer ir. De outro modo não percebo a phrase de Junqueiro. Os limites da metrificação portugueza estão definidos e marcados, não há por onde variar, sem quebra da arte e do genio da lingua. Castilho introduziu na fórma poetica a novidade dos exdruxulos italianos, e combateu a peito descoberto pela nacionalisação dos alexandrinos francezes. Thomaz Ribeiro, no _D. Jayme_ e na _Delphina_, percorreu todos os metros admissiveis na versificação portugueza, empregando o de treze syllabas, que já era demasiadamente violento para o rythmo organico da lingua portugueza. E, feito isto, elle proprio reconheceu que, por amor da variedade, se poderia tentar ainda a medição latina e resuscitar a toante castelhana,[8] Mas os poetas que vieram depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos elles a respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena experimentar a metrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas (que a meu vêr não era menos monotona que o _refrain_ dos nephelibatas): nada d'isto fizeram, preferiram escrever versos de longo curso, com quinze e mais syllabas, intercalaram rubricas em prosa no estiramento kilometrico do verso, e para que o alexandrino perdesse a harmonia que provinha da fusão de dois versos de seis syllabas, fizeram-n'o tripartido, privando-o da cadencia que deleitava o ouvido.

Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do romantismo

Prosa e verso têm balizas,

exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e logica: que os poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto á pureza da lingua, João Penha não se mostra menos intransigente. Ainda o anno passado lembrava elle ao snr. Anthero de Figueiredo o conhecido conselho de mestre Boileau:

Sans la langue... l'auteur le plus divin Est toujours, quoi qu'il fasse, un méchant écrivain.

Assim, pois, não lhe regalarão decerto o ouvido puritano as innovações barbaras de quasi todos os poetas modernos, alguns de incontestavel valor, á parte os vicios de escola, como por exemplo o snr. Julio Brandão, quando diz:

E citharas balança um côro vago de _pucellas_. Rostos morenos, _brunos_, pallidos, divinos.

Espero apreciar em breve, individualmente, a cohorte revolucionaria dos modernos poetas portugueses. Ver-se-ha então que admiro a concepção genial de uns, e que faço justiça a todos.

Mas encontro-me com João Penha no que reputo a disciplina indispensavel da arte e da lingua, comquanto bastasse talvez dizer--da arte. E estou em opposição a Guerra Junqueiro quando affirma que a modernissima evolução poetica rasga horisontes inéditos, «sobretudo no ponto de vista da fórma e da expressão.»[9]

P. de Varzim--Novembro de 1893.

FIM

Preço 250 reis

A collecção de monografias que hoje encetamos patrioticamente, não obstante a apathia do mercado litterario, abrangerá, do modo mais completo possivel, a larga e gloriosa lista de _todos_ os poetas modernos do Minho.

O auctor dedica os seus dois primeiros estudos a JOÃO PENHA e ALMEIDA BRAGA, que nasceram na capital da provincia, mas traçará, seguidamente, o perfil de outros poetas brilhantes, nascidos em Guimarães, Vianna do Castello, Barcellos, Ponte do Lima, etc.

[1] Palavras suas em annotação ao volume dos _Simples_.

[2] «D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas emoções, e portanto _uma nova arte_. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda litteraria, meramente verbal e de superficie.»

[3] «Emquanto á technica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota não fosse escripta rapidamente, com o impressor á espera.»

--Notas aos Simples.

[4] _Morte de D. João._

[5] _A Velhice do Padre Eterno._

[6] A plastica d'esta quadra foi alterada na sua transplantação da _Folha_ para as _Rimas_.

Déra um quartilho do meu sangue azul (Oh meus avós, estremecei na campa!) Por dar-te um beijo no chapim taful, Que esconde um pé, de se gravar na estampa.

Tal era, na _Folha_, a primitiva feitura. A originalidade do pensamento nada perdeu, e o systema metrico decimal foi respeitado. Dizer-se que os bachareis em direito são os primeiros a desacatar a lei!

[7] Expostas no prefacio á _Tristia_ de Anthero de Figueiredo.

[8] _Vesperas_; pag. 219.

[9] Prefacio ao _Livro de Aglaïs_.

End of Project Gutenberg's Poetas do Minho I - João Penha, by Alberto Pimentel