Poetas do Minho I - João Penha

Part 1

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ALBERTO PIMENTEL

Poetas do Minho

I

JOÃO PENHA

BRAGA

CRUZ & C.ª--EDITORES

MDCCCXCIV

POETAS DO MINHO

BRAGA

TYP. «MINERVA COMMERCIAL»

José Maria de Souza Cruz

1893

ALBERTO PIMENTEL

Poetas do Minho

I

JOÃO PENHA

BRAGA

LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ & C.ª

EDITORES

Aquelle meu espirito opulento, Que vivia na luz dos sonhos bellos, Jaz ha muito nas ruinas dos castellos, Que no ar edifica o pensamento.

_João Penha._

«... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o para que os outros o leiam. Quer, portanto, produzir um effeito qualquer, effeito que, em todo o caso, não pode ser o do somno: para este ha o opio, a belladona e o Codigo do Processo Civil.»

_João Penha._

I

Ha quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo banco do _americano_, vinhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversavamos de litteratura. Nomes de auctores, nomes de livros, recordações dispersas, do tempo em que elle redigia a _Folha_ em Coimbra e eu lhe enviava do Porto algum insignificante auxilio de collaborador, passavam rapidamente na precipitação tumultuante do dialogo, a cada momento interrompido pelas paragens do _tramway_, pela entrada e saida de passageiros, pela voz auctoritaria do conductor, que explicava em dialecto calaico:

--Bai cheio. Num ha logar.

Tendo João Penha alludido a mais de um dos poetas, que constituiram a constellação academica da _Folha_, para entrelembrar casos e anecdotas da bohemia coimbrã, disse-lhe eu de repente:

--Por que não escreve as suas memorias de Coimbra?

--Não tenho tempo, respondeu elle. Encheriam tres volumes.

Tres volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenaculo numeroso, que viveu na alegria e nas lettras, que teve aventuras e triumphos, e que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia ainda hoje rememorada com prestigio na tradição academica. Elle, erguido no pedestal que o voto unanime dos seus contemporaneos lhe havia consagrado, via do alto, como um idolo, toda a nervosa multidão da academia, que o adorava, observava todas as evoluções caprichosas d'essa legião gentilissima de rapazes talentosos, que se moviam em torno d'elle, conhecia todos os segredos da biographia de uma geração, que ha de ficar eternamente lembrada. Tres volumes, pelo menos, e não seriam de mais.

Mas percebe-se que lhe custe metter hombros a um labor de reconstrucção historica em que a penna seria como um estilete a revolver dolorosamente o coração saudoso do escriptor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda essa altivola mocidade academica, ouvindo reproduzida a distancia a sua voz no phonographo litterario da _Folha_ e de uma boa dezena de poemas, eu que senti rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir ás tempestades explosivas da cratera, eu proprio experimento a vaga nostalgia da Coimbra d'aquelle tempo vendo envelhecer em Lisboa, na prosa da burocracia, do fôro, do professorado e do parlamento, os poetas que ha vinte annos constituiam a ala victoriosa dos novos commandada por João Penha.

E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem aggravos, nem compendios, dormem prematuramente o somno da morte na apotheóse serena, sem invejas, mas tambem sem desillusões, d'aquelles que, como Gonçalves Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e passaram como um meteoro fugitivo.

Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da Camara dos Pares. O seu espirito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem constrangimento, que era como que o ultimo elo da sua tradição academica. Tinha passado de Coimbra para Lisboa serenamente, sem tempestades da vida, que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira cã. Na paz domestica do seu lar, a morte foi como um salteador que surprehende um viajante a dormir na pousada, e o estrangula entre dois braços de ferro n'um momento. Os outros que ficaram ainda, são como as arvores no outomno, que dia a dia vão sendo sacudidas e abaladas pela nortada agreste, que annuncia o inverno.

É difficil adivinhar hoje na melancolica indiferença de Simões Dias, que passa atravez de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano aborrecido, aquella brilhante alma meridional do poeta das _Peninsulares_, onde cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinoes do Mondego.

Candido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora não fosse das mais vulcanicas, cançado de repartir os restos da sua mocidade entre a cáthedra de professor e a Secretaria da Justiça, correu ao encontro da velhice, denominou-se voluntariamente _Caturra_, atirou-se ás questões de philologia, e conseguiu tornar-se rabujento contra os que escrevem _aereonauta_ com um e superfluo.

Este correctissimo poeta da _Folha_ é hoje um suicidio ambulante. Mata-se a ensinar a lingua portugueza a quem a não quer saber. Já um ministerio lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Villa Real. Candido de Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o cantou. Apenas recolheu a Lisboa, deu-se pressa em publicar _Novas licções praticas da lingua portugueza_.

Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por ahi, como todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantisava na _Folha_ as lendas do alto Alemtejo, um que só doutorou em direito, e estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de Minerva na Universidade para os braços do senhor José Luciano no Parlamento.

Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de fallar nos palratorios de Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguem treme de medo quando elle pede a palavra na camara.

--E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-ha o luciolante apostolado que o rodea na cervejaria do Camanho.

Junqueiro, se houvessemos de dar credito a todas as suas apprehensões pathologicas, está «precocemente chegado, pelo soffrimento, ao occaso da vida».[1] Sinceramente desejo que os factos venham desmentir esta apprehensão.

Mas Guerra Junqueiro, meus senhores, era na Coimbra d'aquelle tempo, na _Folha_ principalmente, a promessa florescente de um lyrico primoroso, depois transviado, e a meu vêr atormentado, pela preoccupação constante de reformar a esthetica[2], a technica[3], o olympo dos romanticos[4], o paraizo dos catholicos[5], de fundar escola e de attingir a perfeição suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu proprio conceito, são os _Simples_.

E talvez não sejam.

Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como todos os outros, um satellyte que gravitava em torno de João Penha, o chefe incontestado, antes adorado, do cenaculo, da bohemia, e da _Folha_.

O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as illusões d'esses rapazes que eram então a fina flôr da geração academica. D'elles, os que não estão ainda velhos por fóra, começam a descair na tristeza, não direi do occaso da vida, como apprehensivamente affirmou de si mesmo Guerra Junqueiro, mas da experiencia dura do mundo.

João Penha, o primaz da tribu, é advogado em Braga, trabalha honestamente para sustentar a sua familia. Está ao corrente de todas as novidades litterarias que a França inventa e exporta, porque as recebe directamente de Pariz em primeira mão, mas atura todos os dias, no seu escriptorio, uma chusma de clientes, que ás vezes, o que o contraria muito, o assaltam em plena rua, já depois d'elle ter fechado o seu escriptorio ás duas horas da tarde, invariavelmente.

Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em serviço--disse-me elle--ás sete horas da manhã. A seu lado, no _tramway_, um demandista estopante gritava para vencer a dureza de ouvido do advogado.

--O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do rego. Porque, snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira d'ella. (Ella era a parte contraria, uma mulher).

Questão d'aguas: a mais generalisada especie de litigios no Minho.

João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente resignado e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente das phrases equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha era, n'aquella hora, sob o céu azul, radioso de sol, uma victima do Direito, que legisla sobre regos e outras coisas mais;--do Direito que elle podera amenisar em Coimbra com as satyras escriptas na aula, com os sonetos publicados na _Folha_, com a bohemia alegre das _Camêllas_ e do _Homem do gaz_.

Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hercules. Fazia dó, fazia pena vêr João Penha torturado nos colmilhos de um litigante obsesso, a quem elle não podia responder, com um repente de Bocage, n'um epigramma vingador.

Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas á volta do Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo _americano_, interpuz-me ao demandista e a elle, e conversamos de varia litteratura,--muralha da China Contra a qual esbarraram, infructiferamente, duas investidas do brácaro Chicaneau, que parecia recortado dos _Plaideurs_ de Racine.

Aqui esta no que veio a dar aquelle bello espirito do maior improvisador e do maior bohemio da Coimbra de ha vinte annos!

Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das _Camêllas_, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes d'esse tempo, chorai por elle e.... por vós!

Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado. Tem, como advogado, uma grande clientella posto não vá nunca ao tribunal. Mas a sua competencia em questões do civel não soffre rivalidade. Escrevendo nos processos, é um jurisconsulto de primeira ordem.

Ás duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escriptorio. Os clientes voltarão, se quizerem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.

Á noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monoculo posto, frequenta a confeitaria do Anacleto á rua de S. Marcos. Uma coincidencia leva-me a suspeitar que João Penha rivalisa na gulodice de bolos finos com o glorioso Sampaio da _Revolução_, de veneranda memoria. Vindo todos os annos á Povoa de Varzim, na epoca de banhos, é na confeitaria contigua ao _Café Chinez_ que elle apparece ás noites, sempre de luvas, correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces.

Que ao menos o saboroso bôlo de côco possa adoçar as horas amargas da sua banca de advogado!

--Snr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeiamos do _americano_ no Campo de Sant'Anna, olhe que a queston do rego tem furo. Num m'a avandone.

E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:

--Não se esqueça de lêr a _Nature_ de Hollinat. É soberba!

Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das _Camêllas_, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes d'esse tempo, chorai por elle e... por vós!

II

Na individualidade litteraria de João Penha ha a distinguir o poeta da bohemia, e o poeta do amor.

São dois homens reunidos n'um unico homem. O primeiro é o estudante que frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrisando-se nas libações e nos improvisos; que canta os paios do Alemtejo, o presunto de Lamego e os falernos da Beira; que satyrisa os lentes e adora a Cabula; que vê formar-se em torno de si o numeroso cenaculo a que preside com o applauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de alegria e de mocidade, elle consubstancia n'uma saliente concretisação pessoal.

Os seus versos, as suas anecdotas de bohemio noctivago correm ainda hoje na tradição universitaria, impregnados d'esse fugitivo _sachet_ de vida antiga, que é a gloria melancolica dos velhos e o ideal ambicioso dos novos.

A baiuca da Camêlla, sem elle, ficou solitaria como um templo vasio.

Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de monoculo no olho, capa traçada, n'uma attitude elegante e vigorosa de Apollo de Belvedére, cantando no templo, sob um imaginario baldaquino de folhas de parra verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do alcool.

Oh vós, que do canto sois velhos freguezes, Ouvi d'estas lyras o mélico emprego! Nós somos as gêmas, os bifes inglezes, Os paios das filhas do claro Mondego.

Sorri-nos a vida nos calices cheios. Dos roixos falernos das parras da Beira; Sorri-nos a Céres dos túmidos seios; Sorri-nos dos bosques a Venus ligeira.

Nos mostos papyros da sciencia moderna A droga se encontra que ao somno convida; Queimémol-os todos, que só na taberna Os livros se encontram da sciencia da vida.

Ao vento os cabellos! por montes e valles Corramos no passo das gregas choréas! Bachantes das praças, vibrae os cymbales! Abri-nos as portas, gentis Galathéas!

A lenda das noites das Camêllas, personificada em João Penha, subsistiu como uma das seducções tradicionaes da vida academica.

Antonio Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas novissimos, o que tem mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma moderna, torturada pela nevrose, confessa a suggestão d'essa lenda bohemia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pyra sobre o tampo dos toneis impantes:

......... A Tasca das Camêllas Para mim, era um sonho, o ceu cheio de estrellas.

Mas quando Antonio Nobre chegou a Coimbra, uma barreira de vinte annos, espessos como vinte seculos, separava da tasca das Camêllas a pessoa do doutor João Penha, advogado nos auditorios de Braga. A alma espumante e radiosa das noites da bohemia partira-se como a tapa das ultimas libações; partira-se, e partira. No templo reinava o luto silencioso das lendas de antigos castellos abandonados por principes cujo destino é ainda um mysterio. E Antonio Nobre, relanceando os olhos tristes pela solidão tenebrosa, teve esta explosão de desespero truculento:

Tia Camêllas... só ficou a camellice.

O que lembra uma situação analoga cantada por Delille nos _Jardins_:

......... Telle jadis Carthage Vit sur ses murs détruits Marius malheureux.

Dir-se-ia que tinham desapparecido com João Penha e com o seu tempo essas télas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camêllas; paineis pagãos, dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fabula parecia sorrir ainda, coroada de pampanos, no verso bachico do auctor do _Vinho e fel_:

Dá-me esse onagro de vigor silvestre, E os ôdres fundos, oh Sileno antigo: Ensina-me na dor: só tu és mestre.

Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum marmore de Pradier em que uma Bachante andaluza, cingida nos braços de um Satyro inspirado, parecia entoar um dithyrambo amoroso, cortado de evohés e de beijos, e de que só restava, inscripto no sôcco da esculptura mutilada, um sonetilho de João Penha:

Oh poetas d'agua fria! Dizei-me: a vossa musa. Será como a andalusa Que as noites me abrevia?

Olhai-a: que poesia! Na dórna da Arethusa Lá enche agora a infusa De classica ambrosia,

E aos labios de cereja Eleva, airosa e rindo, O copo de cerveja!

Oh quadro novo e lindo! Musas, chorai de inveja, Musas, descei do Pindo!

Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anecdotas, os episodios das noites das Camêllas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição d'essa bohemia extincta, que sôa ao longe, e que exalta a imaginação dos rapazes. Para Antonio Nobre era um «sonho», que o attraiu a Coimbra, como a devoção de Meca attrae o arabe.

Elle tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando na Tasca sem perder a donairosa compostura de um _gentleman_, que jamais esquecia as luvas e o charuto, se limitava a esvasiar uma «taça», nome aristocratico com que nas Camêllas a bohemia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da Tia Maria, João Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de mysterio, segredava:

--Repita a dóse para um envergonhado, que está ali fóra...

Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha esvasiava a segunda «taça», simulando passal-a á mão de um embuçado de melodrama.

Antonio Nobre conhecia a tradição, a anecdota, o pittoresco da lenda, mas, quando chegou a Coimbra, apenas restava da bohemia de João Penha, na Tasca das Camêllas e na Via Latina, a lembrança de que passára outr'ora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo seccou.

Tia Camêllas... só ficou a camellice.

A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que resta de João Penha bohemio.

Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vem contar as satyras, os epigrammas que elle deixou gravados na memoria das gerações.

Todos elles sabem de cór o famoso caso do incendio, que João Penha noticiava para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade biblica, um castigo do ceu, que o deixára despojado de todos os seus escassos haveres de estudante:

Foi um incendio voraz! Parecia a propria Gomorra!

E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face ouvindo repetir, na chalaça de Coimbra, a phrase attribuida aos labios castamente impollutos de uma bôca impeccavel, onde só os eufemismos floriam como lirios brancos.

Conheci em Lisboa, de o vêr no parlamento, o irmão de João Penha, tambem advogado, e n'esse tempo deputado por Braga.

Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão, costumava dizer d'elle:

--O seu unico vicio sou eu.

De improvisos feitos na aula, escriptos sobre o joelho e transmittidos de bancada em bancada, ficou em Coimbra memoria imperecivel, que irradiou até á raia do Minho e até á raia do Algarve, como uma lenda nacional.

Perderam-se para a bibliographia os dois jornaes, o _Zabumba_ e a _Gaita de folles_, que João Penha publicou na _Sebenta_, no quarto e quinto anno; mas as quadras e sonetos, em que a alegria mordaz esfusiava diariamente n'essas folhas avulsas, salvaram-se para a tradição, que ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites de Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos epigrammas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por exemplo, o do Pinto Lambaça!

Em pé, diante do Brito, Dá lição Pinto Lambaça: Parece a voz do Infinito A sair d'uma cabaça!

E aquell'outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnação?

Tamagnini Encarnação Tem na ponta do nariz O colorido feliz De uma rosa do Japão.

E ainda aquelle que joga de vocabulo com o nome do condiscipulo Ennes:

A lettra dos teus assumptos Bem nos demonstra quem és: Vale dois _nn_ bem juntos, É lettra de quatro pés.

Ha poucos dias, no _In illo tempore_ das _Novidades_, li o epigramma com que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches da Gama:

Dizem que o Sanches embirra Que lhe vão pedir dispensa. Forte asneira! --Imagina que lhe pedem A despensa Onde tem a salgadeira...

Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto _A um doutor Pedro_, que póde ser considerado, o soneto, como inexcedivel na profundidade do conceito. Pelo que toca ao doutor, a tradição universitaria apenas o considera inexcedivel no esguio da figura;

E vimos uma forma horrenda e bruta Surgir do lôdo vil com gesto iroso, Como out'rora, no Cabo Tormentoso, O velho Adamastor de barba hirsuta.

--«Quem és tu?» eu lhe disse.--«Bardo, escuta, (Bramiu com voz ingente e desdenhoso) Eu sou no espaço infindo e luminoso O verbo ideial da estupidez corrupta.

«Na terra sou Penedo: e o mar violento, O mar das sciencias vãs da humanidade, Já quiz vencer-me, e foi baldado o intento!»

Disse. E ouvimos n'aquella obscuridade O cantico d'um tremulo jumento: --Era o preito da terra á Immensidade.

Sobre os inextinguiveis vestigios d'esta satyra teem caminhado as gerações subsequentes, cantando o doutor incommensuravelmente filiforme. Antonio Nobre tambem molhou a sua sôpa no capêllo que encima o zingamôcho do cathedratico zangaralhão:

Ó Pedro da minh'alma! meu amigo! Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo! Mal diria eu em pequenito, quando a ama, Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo, Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo Imitava-te o andar, que não era bem de homem... Eu tinha birras:--Ahi vem o lobishomem! Dizia ella.--Bate á porta! Truz! truz! truz! E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus!

Nas mais allucinantes tempestades de enthusiasmo academico a musa de João Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, attraia todas as attenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela gentileza patricia do verbo flammejante, como no soneto _A uma rabequista_:

Eu dera um litro do meu sangue azul, (Oh meus avôs, não fulmineis o hereje!) Só por beijar-te, no chapim taful, O pequenino pé, que orchestras rege![6]

A respeito d'esta rabequista, que era uma italiana lindissima, dizia-me ha pouco João Penha:

--O Manoel da Assumpção queria casar com ella e eu dissuadi-o d'esse intento... por ciumes.

Pobre Manoel! elle foi o primeiro romantico do seu tempo, como João Penha foi, na phrase de Gonçalves Crespo, o ultimo estudante de Coimbra.

N'aquella quadra, como na organisação artistica de João Penha, incluindo a sua modalidade de bohemio, ha um cunho brazonado de _vieille roche_ das lettras. Conservador como a melhor nobresa parisiense do bairro Saint Germain, elle ama a tradição da Arte, os velhos pergaminhos da lingua, a lição classica dos mestres, a compostura aristocratica da phrase, que não chega a desfraldar-se no epigramma, nem a esbagaxar-se na satyra. Canta o Paio de luva branca, sem que fique na pellica uma nodoa de gordura. Canta o Vinho, sem entornar no collarinho a mancha roixa da bôrra. E se passa da tasca das Camêllas para o salão nobre da Poesia madrigalesca, substitue facilmente a batina rôta pela casaca broslada, é um cortezão de Luiz XIV quando empunha a taça, refulgente de aureas facetas, para brindar as damas delicadas:

D'este copo de vinho generoso Dai-me que eu tire o alento que desejo, Para que o novo canto, sonoroso, Desfira na guitarra em doce arpejo; E já que estou devéras amoroso, Aproveito apressado um tal ensejo Para erguer á leitora, que me escuta, Um brinde que me deixe a taça enxuta.

Tal é, rapidamente tracejado, o perfil lendario de João Penha bohemio, do poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do _Homem do gaz_, do _Varão do Luxemburgo_, do _Conselheiro Rodrigo_, e da _Tia Maria Camêlla_.

Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em taberna, não descalçava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar. Era um artista de raça, que adorava o primor da fórma. Sob este ponto de vista João Penha e a _Folha_ exerceram uma sensivel influencia. O soneto da escola italiana, tão abandonado como antiqualha árcade depois de Bocage, resurgiu no acuro parnasiano de João Penha. E todos os da _Folha_, que navegavam na esteira do mestre, sahiram excellentes artistas no cinzelamento esculptural da fórma litteraria: Crespo, Junqueiro, Simões Dias, Candido de Figueiredo, etc.

III

Para João Penha, como poeta lyrico, o amor parecia não ser mais que uma idealisação, uma phantasia de artista.

Eu não encontrava, nos sonetos do _Vinho e Fel_, a abstracção absorvente de Petrarcha, a paixão abrasadora como lava, o Vesuvio que vulcanisa o coração, reduzindo-o a cinzas.

A Ironia andava de braço dado com o Amor, no lyrismo de João Penha, mais como um effeito pittoresco da Arte, suppunha eu, do que como a crua expressão da Verdade.

Não descobria atravez das _Rimas_ o typo constante, persistente, de uma mulher, embora se me affigurasse que de recordações avulsas e de perfis differentes creára o poeta o elemento feminino dos seus poemas.

Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do _Vinho e Fel_, a impressão de uma grande catastrophe psychologica, que lhe precipitasse a alma na voragem do scepticismo.