Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII.

Part 3

Chapter 33,079 wordsPublic domain

Mas é preciso que subtil e hardido Primeiro excites a attenção de Tyrse. Com gesto alegre teu amor exprime, Falem teus olhos, todo o corpo fale; Mudo lhe dize que te assombra, e pasmam Do seu semblante a formosura, e a graça. Ora de espanto se amorteça a face, Ora se accenda com venereo fogo: O mesmo effeito teus contrarios fazem, Todos o orgulho mulheril incensam: O forte sexo para si reserva De Phebo os louros, de Mavorte as palmas. Em carros triumphaes nunca viu Roma Matrona illustre de Cesarea casa; Sós d'entre a chusma mulheril as Musas Á sombra dormem de Apollineos louros; Ao sexo lindo só agradam myrthos, Verdes arbustos, que cultiva Venus. Só d'entre a chusma varonil Cupido Da Cypria deusa pode entrar no templo: A porta guardam Furias irritadas, Que em vez de lanças arrepellam serpes, Com dente venenoso rasgam, mordem Alheio sexo, que arrostal-as ousa. Posto que fosse lindo o amor de Venus, Morreu da sua mordedura Adonis; Provando a furia da raivosa Alecto, Foi convertido em tenra flor Narciso.

VII

Mas onde corre meu batel ligeiro! Ferrando a vela para traz voltemos. Mancebos, que me ouvis, sabei sómente Que n'este laço se surprehendem todas. Se acaso entrasse n'esta rêde de ouro Lucrecia mesma ficaria presa; Não seria Penelope tão casta, Se os seus amantes lhe chamassem bella. Esta gloria sómente querem todas, Com fervoroso ardor todas a buscam: Nem sobre as margens do Euphrates Cesar Mais pela gloria marcial suspira. Apraz a Venus variar de forma, Tambem Cupido de ser vario gosta; Um gesto sempre doce se abhorrece, Ás vezes vale muito um desagrado.

VIII

De teu rival, mancebo, nota o modo, E tu sempre diverso modo segue: Não basta ser sómente amante novo, É tambem necessaria nova forma. Se elle inquieto namora, tu sisudo, Se indecente se mostra, tu modesto; Se triste se apresenta, tu alegre; Se acanhado se mostra, tu mais livre; Mas toma sempre virtuoso gesto, Só lhe pareça teu amor franqueza. Não ha no mundo tão lascivo monstro Que a virtude não preze mais que o vicio; E julga sempre a feminina turba D'elles alheio quem se mostra casto: A flamma do Ciume tambem queima, E torra brandas mulherís entranhas; Nem vibora raivosa, que pisada Do vago caminhante se exaspera, Nem besta furiosa, em cujas fauces O nú selvagem crava a setta aguda, Mais iradas se accendem, do que a turba, Quando ciosa se exaspera, e arde. O ciume foi ferro, a cujo golpe Banhou teu sangue, oh forte Pyrrho, as aras, Foi elle a chamma, que abrasou Semele: Em feroz urso transformou Calixto; (Eu mesmo, eu mesmo… Mas a dôr me impede, Tu, suberbo rapaz da Idalia, o dize! Ah! formosa Corinna! Não te engano, Só me abraso por ti, só por ti morro!…) Porém sulquemos novos mares, fuja Nosso veloz batel longe da praia.

IX

Mancebo, deixa o teu rival; só cuida Em combater da bella Tyrse o peito. Do theatro se corre o largo panno, Aberta a scena principia o drama. Temerario, não deves ver tranquillo Da peça theatral o sabio jogo: É Cupido rapaz, não tem socego, Não perde a occasião o que amor busca; Para os olhos de Tyrse te encaminha, N'elles a scena figurada nota; Se por acaso lagrimas derrama Tu de pranto tambem as faces banha; Finge ao menos secar com alvo lenço O terno pranto, que verter não podes; Se irritada parece, toma fogo, Se com assombro pasma, tu te assombra.

X

Mas que novo segredo Amor me inspira! Que sabias regras, que preceitos novos! Filho de Venus, e de Marte filho, De teus altos mysterios serei vate! Forma novos oraculos em Cypro; Por elles tenha esquecimento Delphos. Namorado mancebo, Amor te fala, Ouve com filial respeito as vozes. Posto que tu na scena Doris ouças, Altos prodigios, maravilhas novas, A voz soltando bella, e sonorosa Com que suspenda sybillantes ventos, Não pasmes, nunca chores, ser não queiras Réo desditoso de tão negro crime; Cheia Tyrse de inveja, não perdoa, Mais depressa seria o mar estavel. A nação feminil sustenta sempre Entre si crua sanguinosa guerra: Inda no berço brandamente dorme, Inda c'o leite maternal se nutre, Já da cova sombria o negro monstro Que come verdes enroscadas serpes, Salta com Venenosa lingua, e lambe Seu terno peito, seu formoso rosto; Na bocca lhe vomita cru veneno, Que para o brando coração lhe corre, E nas vêas subtis introduzido, C'o rubro sangue lhe circula, e pulsa; Não só familias com familias rompem A paz benigna, que na terra expira; Entre as mesmas irmãs se accende a guerra, Por isso é hoje negro seixo Aglaura. Até nos céos o vago monstro gira, Minerva, e Juno fez rivaes de Venus; Não caíram troyanos altos muros, Só porque Paris foi roubar Helena! Mil adulteros tinham sem castigo Furtado esposas, maculado leitos: No pomo da Discordia veiu envolta A faisca fatal, que abrasou Troya.

XI

Com tudo, posto que raivosas todas Entre si mutuamente se enfureçam, Mancebo, não presumas que sem pena Vejam de amor qualquer irmã queixosa. Não houve nympha nos Thessalios campos Que não movessem tristes queixas d'Eccho; Só Lyriope vê com dôr Narciso, Em branca flor Narciso as nymphas gostam: Quando o monstro voraz, que sae dos mares Só contra o filho de Theseo famoso, Quando os frisões medrosos se perturbam, Ligeiros se embaraçam, quebram redeas, Hyppolito gentil por terra lançam, Raivosos seu formoso corpo pizam; A crua turba mulheril de Athenas Festivos gritos para o céo levanta, As tranças orna de jasmins, e rosas, Vae dar a Venus no seu templo as graças.

XII

Oh vós, monstros crueis, geração dura! Malignas Furias com formoso aspecto! Sacerdote de Amor, agora o digo, Hoje se saiba como sois geradas. Supremo Jove, que tirou do cahos A bruta massa, de que o mundo é feito, Quando os homens formou, disse-lhes logo: «De nova especie produzi sementes; «Exista um novo sexo, em cujo seio «O nativo calor as desenvolva: «Formosa que a prazeres vos excite, «Maligno, que a um cego amor vos leve; «Os membros todos de seu corpo forme «Formosa Venus em Cythera, ou Cypro, «Ás Furias fique reservado o peito» Mancebos!… Eis aqui por quem Cupido Em subtis rêdes vos enleia todos: Mas não vos tinja rubro pejo as faces; Até por ellas foi novilho Jove. Se é tecido seu peito nos infernos É formada no céo sua cintura: Hyppolito, Narciso lições sejam, Com elles aprendei a não ser duros. Posto que incestuosa chamma queime, Devore o falso coração de Phedra, Mostrae por ella que sentís ternura: Acompanhe seu pranto o pranto vosso. Tão felices agouros vendo Tyrse, De vosso peito cego amor espera.

XIII

Longo tempo Tritão ardeu nos mares Por Thysbe, de Nereo cerulea filha; Dos seus amores rindo a esquiva nympha Melhor ouvia o murmurar das ondas: Bem como de voraz golfinho foge Turba medrosa de miudos peixes, Do mancebo Tritão cruel fugia Assim nos reinos de Neptuno Thysbe. Eis que um dia Protheo, pastor que guarda Das aguas o maritimo rebanho, Cuja molhada fronte cingem molles E verdenegros juncos, que o mar cria; Em tremulo penhasco, e ondeando enfeitam A leve coma palludosos ramos, Atraz do gado nadador cantava: «Ah! misero Tritão, se queres Thysbe, «Em leve pó mudada Troya vinga.» Os eternos oraculos não mentem, Deixou de ser esquiva a loura Thysbe. Quando Circe nas praias se queixava Do fugitivo, do perjuro Ulysses; Tritão da sua dôr enternecido Vingança lhe promette, chama os ventos, Do sagrado Oceano agita as ondas, No fundo seio as gregas náus soçobra. Mais preciso não foi, Thysbe se rende, Do louco amante para os braços corre, Mil beijos lhe recebe, e mil lhe imprime… Deveis, mancebos, presumir o resto; Em breve tempo todo o mar povoam Filhinhos de Tritão, de Nerêo netos.

XIV

Eis em resumo as regras necessarias, Afim de conseguir femineo affecto: D'ellas aprendereis, destros mancebos, A serdes cautos, prevenindo os laços Armados por Amor á inexp'riencia; Pendurando assim trophéos innumeros Ao carro triumphal da vossa gloria.

CARTAS DE OLINDA E ALZIRA.

EPISTOLA I.

OLINDA A ALZIRA.

Que extranha agitação não sinto n'alma Depois que te perdi, querida Alzira! De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo, Que a tua companhia incendiava! Por uma vez se foi minha alegria, Nem a mesma já sou, que outr'hora hei sido! Minhas vistas ao céo languidas se erguem, E a mim propria pergunto d'onde venha Tão novo sentimento assuberbar-me? Não se aquieta o coração no peito, Não cabe n'elle, e viva chamma no intimo Das entranhas ardente me devora, Sem que eu possa atinar a causa, a origem. Aquelles passatempos, que na infancia Tão do peito queria, em odio os tenho. Das mesmas sup'rioras a presença, Que d'antes para mim era indiff'rente, Se me torna hoje dura, intoleravel! Aonde, aonde irão estes impulsos Precipitar a malfadada Olinda? Será, querida Alzira, a tua ausencia, Que me faz derramar tão agro pranto? Debalde a largos passos solitaria Vago sem norte: ignoro o que procuro; Ah! minha chara! os males que tolero Expressal-os não posso, nem soffrel-os.

EPISTOLA II.

ALZIRA A OLINDA.

Conheço de teus males a vehemencia, Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido, Quando da mesma edade que hoje contas Próvida a Natureza começava A preencher em mim seus fins sagrados. Marcha ella por graus em suas obras; Precede ao fructo a flor já matizada, Que fôra antes de flor botão mimoso. Assim a sabia mão da Natureza A passos insensiveis caminhando Maravilhas em nós produz, que assombram. Somos na infancia apenas um bosquejo Do que nos cumpre ser annos mais tarde. N'aquella edade a Natureza attenta Em conservar-nos só, não desenvolve Sentimentos, que então superfluos foram: Inactivas nos tem, e nos conserva, Bem como as plantas no gelado hynverno. Porém depois que o sol da primavera Fecundos raios sobre nós dardeja, Então de novas fórmas animado Pula nas vêas affogueado sangue, E sem perder da infancia os attractivos Da puberdade o lustre desfructamos. Então sentimos commoções insolitas, Que origem são dos males, que te opprimem; Do amor, que te domina, melancolico; Da forte agitação, que em ti presentes. Mas tem tudo remedio; eu hei de dar-t'o, Feliz serás, se o trilho me seguires.

EPISTOLA III.

OLINDA A ALZIRA.

Quanto gratas me são as tuas letras Querida Alzira! Ao coração me falas! As tuas expressões meigas occultam Em si virtude tal, que apenas lidas D'ellas a alma se apossa sequiosa: Tu és, presada amiga, unico archivo Aonde os meus segredos mais occultos Eu vou depositar: em ti encontro O refrigerio a males, que tolero, Sem poder conhecer a sua origem. Se bem me lembro, outr'hora de ti mesma Ouvi eguaes queixumes, não sabendo Nem eu, nem tu, donde elles procediam. Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosa Sempre te ouvi chamar desde esse tempo. Cessaram os teus males, eu os sinto… A edade é (dizes tu) a causa d'elles; Ah! Que extranha linguagem! Não concebo Porque falas assim; pois traz a edade Males, nos tenros annos não provados? Tres lustros conto apenas: tu tres lustros Antes de te esposar tambem contavas; Poz o consorcio a teus lamentos termo, Limitará os meus? Ah! dize, dize Tu, que desassocego egual soffreste, O seu motivo, e como o apaziguaste: Revela á tua amiga este mysterio D'onde sinto pender o meu repouso. Eu não exp'rimentava o que exp'rimento: Os meus sentidos todos alterados Uma viva emoção põe em desordem. Cala-me activo fogo nas entranhas: O coração no peito turbulento Pula, bate com ancia extranhamente: O sangue, pelas vêas abrasado Parece que me queima as carnes todas: A taes agitações languidez terna Succede, que a meus olhos pranto arranca, E o coração desassombrar parece Do peso da voraz melancholia. Té mesmo a natureza tem mudado A configuração, que eu d'antes tinha: Vão-se augmentando os peitos, e tomando Uma redonda fórma, como aquelles Que servem de nutrir-nos lá na infancia. D'outros signaes o corpo se matiza Antes desconhecidos: alvos membros, Lisos té'qui, macúla um brando pello, Como o buço ao mancebo, á ave a penugem. Sobresalta-me d'homens a presença, Elles, a quem té agora indifferente Tenho com affouteza sempre olhado! Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto, A voz me treme, e articular não posso Sons, que emperrada a lingua não exprime. Sinto desejos; que expressar me custa; Amor… E como a idéa tal me arrojo? Será talvez amor isto que eu sinto? Já tenho lido effeitos de seus damnos; Mas esses, que o seu jugo supportaram, Tinham com quem seu peso repartissem, Tinham a quem chamavam doce objecto, Quem a seu mal remedio suggerisse. Isto era amor; mas eu amor não sinto; A doce inclinação, que dous amantes Um ao outro consagram, desconheço. Sim; dos homens a vista lisonjeira É para mim; nenhum porém me prende; Não sei que chamma interna me affoguêa… Amor isto será? Alzira, fala, Fala com candidez á tua amiga; Ensina-me a curar a funda chaga, Que internamente lavra por mim toda: D'estas agitações, que me flagellam, Mostra-me a causa, mostra-me o remedio: Tu tiveste-as tambem, já não te avexam, Mostra-me por que modo as terminaste. Talvez do que te digo farás mofa… Ah! vê que por meus labios a innocencia Comtigo é quem se exprime; tem dó d'ella, E se os meus sentimentos são culpaveis, Dize-m'o, que abafados em meu peito Serei victima d'elles; se extinguil-os Os meus exforços todos não podérem, Comigo hão de morrer, findar comigo.

EPISTOLA IV.

ALZIRA A OLINDA.

Com que satisfação, com que alegria Vejo da minha Olinda as ternas letras! Retrato da innocencia, me affiguras O que por mim passou, extranho effeito De um coração sensivel, não manchado Ainda pela mão da iniquidade. Fala, não temas exprimir-te, Olinda, Que se culpavel fores de outrem aos olhos, Aos meus és innocente, e assim te julgo. Da inviolavel lei da Natureza A que sujeita estás, bem como tudo, Nascem, querida amiga, os teus transportes: Só provém d'ella, é ella que t'os causa; Ella os mitigará em tempo breve, Dando-te próvida um remedio activo. A triste educação, que ambas tivemos, Mais desenvolve os ternos sentimentos Dos que amar só procuram, e não podem Na solidão senão atormentar-se. Do recato das filhas temerosos Pensam os rudes paes, que em sopeal-as Alcançam extinguir o voraz fogo Que sopra a Natureza, e que ella atêa. Nescios, de amor lhe formam attentados, Que o coração desmente, e que não pode Saber justificar a razão mesma. Benignas emoções chamam flagicios, Que infernaes penas castigar costumam; Sem que atinem o modo por que devam Tornal-as puras, e do crime alheias, Porque do crime o amor não diff'rencêam, Amor, e crime o mesmo lhes figuram. Ah! que de um pae o emprego não tolera Maximas impostoras, vís idéas Que religião não soffre, e que forcejam Para co'a religião auctorisal-as. Saiba-se pois té onde o culto, a honra De um Deus se estende, e quaes limites devem Marcar-se ás impressões da natureza: Em vez de afferrolhar as tristes filhas, Busquem mostrar-lhes da virtude a senda, Do vicio a estrada com desvelo attento. Pois que impureza, e amor um rumo seguem Consiste o mal ou o bem na escolha d'este. Sim, chara Olinda: como tu, eu propria Falta da sociedade, porque n'ella Viam meus paes o escolho da innocencia, As mesmas emoções senti outr'hora; Nos tenros annos teus então zombavas Do que nem mesmo decifrar podias. Quantas vezes meu coração ás claras Te descobri, querida; e quantas vezes O meu desassocego não provando, Rias dos sentimentos, que em minh'alma Entranhados estavam, sem que a causa D'elles jámais me fosse conhecida? Agora os exp'rimentas, crês agora O que falso julgaras, verdadeiro!… A Natureza em ti o germen lança, Que a ajudal-a te incita: Amor te inflamma, Porque sensivel és; e bem que hesites Sobre o objecto, que deve contentar-te, Ella t'o mostrará em tempo breve. Não te assustem do seu dominio as forças, Porque de jugo seu o peso é leve. Não mais soffres fervidos desejos, Que o coração te ancêam, e bem podem A languidez eterna victimar-te, Se de amor o remedio os não sacia. Attenta sobre mil louçãos mancebos, Cheios de encantos: olha-os indulgente, E d'entre elles escolhe um, cujo peito Tão docil como o teu seja formado. Olinda, ama; conhece que delicias Amor encerra, amor, alma de tudo; Amor, que tudo alenta, e que só causa Os gostos de uma vida abbreviada. Se contra amor dictames escutaste, Que seus effeitos pintam horrorosos, Não dês credito a maximas fingidas, Que a lingua exprime, e o coração reprova: Que mal provém aos homens, de que unidos Dois amantes se jurem fé, constancia? Que um ao outro se entreguem, e obedeçam Da Natureza ás impressões sagradas? Rouba a virtude acaso a paixão doce Que beijos mil só farta, e que só pode Nos braços de um amante saciar-se?… Não; amor a virtude fortifica: Mais a piedade sobre as desventuras Que os outros soffrem, mais a humanidade Em nós se augmenta, quando mais amamos. Se desde o berço em nós força indizivel Sentimentos de amor vai radicando; Se, mal balbuciamos, quanto vemos A falarmos de amor nos estimula; Se a edade vai crescendo, e a natureza Nossas feições altera; assignalando Com marcas bem sensiveis, que chegámos Ao prazo, em que é lei sua amar por força, Ou desnegar então nossa existencia: Se tudo a amar convida, e nos impelle, Quem ousa amor chamar crime execrando?.. Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêem Virtude austera hypocritas infames: Sabe que, em quanto amor horrivel pintam, Em quanto aos olhos teus assim o afêam, De uma amante venal nos torpes braços Vão esconder transportes, que os devoram, E, por castigo seu, sómente gosam Emprestadas caricias, vís affagos. Mas quando assim os homens dissimulam, Para dissimulares te dão direito: Finge, como elles; ama, e lh'o disfarça; Que é mais um gosto amar ás escondidas. Affecta, embhora, affecta sisudeza Já que a affectar te obrigam, e em segredo De instantes enfadonhos te indemnisa: Zomba dos seus ardís, e estratagemas; Dize, entre os braços de um amante charo, Que mais credulos são, do que te julgam, Se crêem nos laços seus aprisionar-te. Se os deleites de amor são só delictos Quando sabidos são, com veo mui denso A perspicazes olhos os encobre: Vinga-te d'esses, que abafar procuram As doces emoções, que n'alma sentes. São estes os conselhos de uma amiga Que os bens te anhela, que ella saborêa. Sabe, por fim, que quanto mais retardas Tão ditosos momentos, sem gosal-os; Quanto mais tempo perdes ociosa Sem às vozes de amor ser resignada, Tanto mais tempo tens de lastimar-te, Por não têl-o em amar aproveitado.

EPISTOLA V.

OLINDA A ALZIRA.