Part 2
Era alta noute, e as beiras dos telhados Pingando mansamente convidavam A gente toda a propagar a especie: Brandas torrentes, que do ceo cahiam Pelas ruas abaixo susurravam: Dormia tudo; e a ronda do Intendente Que o grão Torquato rege, o pae das putas, Esbirro-mór, Mecenas das tabernas, Recolhido se havia aos patrios lares. Era tudo silencio, e só se ouvia De quando em quando ao longe uma matraca. Soava o sino grande dos Capuchos, Vão-se os frades erguendo, era uma hora. Não podia faltar: Nise formosa, Pela primeira vez m'estava esperando. De repente me visto, e salto fora Da pobre cama, aonde envolto em sonhos Mil imagens a mente me fingia. Visto roupa lavada, e me perfumo, N'um capote me embuço, a espada tómo, Que nunca me serviu, mas que em taes casos Mette a todos respeito; e qual Quixote, Que, havendo já perdido o charo Sancho, Sem nada recear de assalto busca Altos moinhos, que valente ataca; Tal eu figuro achar a cada esquina Um Rodamonte, e prompto me disponho A lançal-o por terra, em pó desfeito. Assim gastei o tempo, até que chego Ao sitio dado, onde meu bem m'espera. Mal a porta emboquei, dentro em mim sinto Um fogo activo, que me abraza todo. Eis de Nise a criada, abelha mestra, Que á mira estava ali, a mão me aperta, Vai-me guiando, e diz: «Suba de manso, Que ahi dorme a senhora.» A poucos passos, Por acaso ao subir lhe apalpo as coxas… Oh! caspite! que sesso! Era alcatreira, Nunca vi cú tão duro, era uma rocha. Foi o tezão então em mim tão forte, Que as mãos lhe encosto aos hombros, n'ella salto, Que enfadada dizia: «Olhe o bregeiro!… Tire-se lá, que pode ouvir minha ama!… Ao dizer isto a voz lhe fica presa, Soluça, treme toda, estende os braços, Aperta as pernas, encarquilha o cono, Que distava do cú pollegada e meia. Qual moinho de cartas, que os rapazes Em tempo de verão põem nas janellas, Tal a moça rebolla: e eu posto em cima. Sem nada lhe dizer, tinha vertido Na larga dorna a larga apojadura. Acabada a funcção, em que a moçoila (Segundo confessou) deu tres por uma, N'um quarto me encaixou, onde os Amores Tinham sua morada, onde Cupido Havia receber em seus altares Em breve espaço meus amantes votos. Dormia tudo em casa: eis Nise bella Um pouco envergonhada, assim ficando Mais vermelha que a rosa, a mim se chega, Nos meus braços se lança: então lhe toco No tenro, e branco seio palpitante; Trémula a voz, que o susto lhe embargava, Mal me pôde dizer: «Meu bem, minh'alma «Quanto pode o amor n'um peito firme! «Bem vês ao que me arrisco: eu bem conheço «Quanto offendo o meu sexo, e as leis da honra «Bem sei que despedaço!… Mas não temo «Que te esqueças de mim, que ufano zombes «D'uma infeliz mulher amante, e fraca!…» Em quanto assim falava, me prendia Nise c'os braços seus, e aos meus joelhos As pernas encostava, que eu conheço Pelo tacto, que são rijas, e grossas. Mal podia conter-me: o ceo chuvoso Pelas telhas cahia; o vento rijo Pelas frestas zunia; a casa toda Com cheiro de alfazema; a cama fofa, Tudo emfim era amor, tudo arreitava. Entro a beijar-lhe as mãos feitas de neve, Descubro-lhe com geito o tenro peito, Que ancioso palpita, que resiste, Que não murcha ao tocar-se; oh quanto é bella! No seio virginal, onde dois globos Mais brancos do que jaspe estão firmados, Ancioso beijando-os, pouco a pouco Se fizeram tão rijos que mal pude Comprimil-os c'os beiços; n'este tempo Pelo fundo da saia subtilmente Lhe introduzi a mão, com que esfregava O pentelho em redondo, o mais hirsuto Que atéli encontrei; e como a crica Vertido tinha já pingas ardentes, Certos signaes, que os férvidos prazeres Dentro n'alma de Nise á lucta andavam, Tal fogo em mim senti, que de improviso Sem nada lhe dizer me fui despindo, Té ficar nú em pello, e o membro feito, Na cama m'encaixei, qu'a um lado estava. Nise, cheia de susto, e casto pejo, De receio, e luxuria combatida, Junto a mim se assentou, sem resolver-se. Eu mesmo a fui despindo, e fui tirando Quanto cobria seu airoso corpo. Era feito de neve: os hombros altos; O collo branco, o cú roliço, e grosso; A barriga espaçosa, o cono estreito, O pentelho mui denso, escuro, e liso; Coxas pyramidaes, pernas roliças, O pé pequeno… Oh ceos! Como é formosa! Já mettidos na cama em nivea hollanda, Erguido o membro té tocar no embigo, Qual Amadis de Gaula entrei na briga: Pentelho com pentelho ambos unidos, Presa a voz na garganta, ardente fogo Exhalavamos ambos; Nise bella Ou fosse natural, ou fosse d'arte, O peito levantado, anciosa, afflicta, Tremia, soluçava, e os olhos bellos Semi-mortos erguia: a côr do rosto Pouco a pouco murchava; era tão forte, Tão activo o prazer, que ella sentia, Que, cingindo-me os rins c'os alvos braços, Tanto a si me prendia, que por vezes O movimento do cú me embaraçava: Co'as alvas pernas me apertava as coxas, Titilava-lhe o cono, e reclinada Quasi sem tino a languida cabeça, Chamando-me seu bem, sua alma, e vida, Faz-me ternas meiguices, brandos mimos: Férvidos beijos, mutuamente dados, Anhelantes suspiros se exhalavam: Era tudo ternura; e em breve espaço Ao som de queixas mil, com que intentava Mostrar-me Nise um damno irreparavel, Me senti quasi morto em todo o corpo; Uma viva emoção senti gostosa Dentro em minh'alma: férvidos prazeres O peito vivamente me agitavam: Os olhos, e a voz amortecida, Os braços frouxos, quasi moribundos, Languido o corpo todo, em fim mal pude Saber o que fazia… Eis de improviso Tornando a mim mais forte, e mais robusto, Tentei de novo o campo da batalha: Qual o bravo guerreiro, que se abrasa No calido vapor, que exhala o sangue Que elle mesmo esparziu entre as phalanges De inimigos crueis, que vence, e mata; Assim eu, abrasado em vivo fogo Que de Nise sahia, me não farto Da guerra, que intentei; de novo a aperto, De novo beijo os seus mimosos braços; Beijo-lhe os olhos, a mimosa bocca, Os niveos peitos, a cintura airosa; Nise outro tanto me fazia alegre, Estreitava-me a si por varios modos: Ora posto eu por baixo, ella por cima, Para dar doce allivio aos membros lassos; Ora posto de ilharga, sem que nunca O voraz membro do logar sahisse, Onde uma vez entrara altivo e forte; O membro, que em tal caso era mais duro Que alva columna de marmoreo jaspe; Até que em fim, depois de não podermos Nem eu, nem Nise promover mais gostos, O brando somno, sobre nós lançando Os seus doces influxos brandamente, Os olhos nos cerrou. Uns leves sonhos Vieram animar nossos sentidos, Té que chegou a fresca madrugada, Em que á casa voltei, d'onde sahira; E tornando outra vez á pobre cama, Dormi o dia inteiro a somno solto.
EPISTOLA A MARILIA.
I
Pavorosa illusão da Eternidade, Terror dos vivos, carcere dos mortos; D'almas vans sonho vão, chamado inferno; Systema da politica oppressora; Freio, que a mão dos despotas, dos bonzos Forjou para a boçal credulidade; Dogma funesto, que o remorso arreigas Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas: Dogma funesto, detestavel crença, Que envenenas delicias innocentes, Taes como aquellas que no ceo se fingem: Furias, Cerastes, Dragos, Centimanos, Perpetua escuridão, perpetua chamma, Incompativeis producções do engano, Do sempiterno horror terrivel quadro, (Só terrivel aos olhos da ignorancia) Não, não me assombram tuas negras côres, Dos homens o pincel, e a mão conheço: Trema de ouvir sacrilego ameaço Quem d'um Deus quando quer faz um tyranno: Trema a superstição; lagrimas, preces, Votos, suspiros arquejando espalhe, Coza as faces co'a terra, os peitos fira, Vergonhosa piedade, inutil venia Espere ás plantas de impostor sagrado, Que ora os infernos abre, ora os ferrolha: Que ás leis, que as propensões da natureza Eternas, immutaveis, necessarias, Chama espantosos, voluntarios crimes; Que as ávidas paixões, que em si fomenta, Abhorrece nos mais, nos mais fulmina: Que molesto jejum, roaz cilicio Com despotica voz á carne arbitra, E, nos ares lançando a futil benção, Vae do grantribunal desenfadar-se Em sordido prazer, venaes delicias, Escandalo de Amor, que dá, não vende.
II
Oh Deus, não oppressor, não vingativo, Não vibrando co'a dextra o raio ardente Contra o suave instincto, que nos déste; Não carrancudo, rispido arrojando Sobre os mortaes a rigida sentença, A punição cruel, que excede o crime, Até na opinião do cego escravo. Que te adora, te incensa, e crê qu'és duro! Monstros de vís paixões, damnados peitos Regidos pelo sofrego interesse (Alto, impassivo numen!) te attribuem A cholera, a vingança, os vicios todos, Negros enxames, que lhe fervem n'alma! Quer sanhudo ministro dos altares Dourar o horror das barbaras cruezas, Cobrir com véo compacto e venerando A atroz satisfação de antigos odios, Que a mira poem no estrago da innocencia, Ou quer manter asperrimo dominio, Que os vaivens da razão franquêa, e nutre: Eil-o, em sancto furor todo abrasado, Hirto o cabello, os olhos côr de fogo, A maldição na bocca, o fel, a espuma, Eil-o, cheio de um Deus tão mau como elle, Eil-o citando os horridos exemplos Em que aterrada observe a phantasia Um Deus o algoz, a victima o seu povo: No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte, Envolto em nuvens, em trovões, em raios De Israel o tyranno omnipotente; Lá brama do Sinay, lá treme a terra! O torvo executor dos seus decretos, Hypocrita feroz, Moysés astuto, Ouve o terrivel Deus, que assim traveja: «Vae, ministro fiel, dos meus furores! Corre, vôa a vingar-me: seja a raiva De esfaimados leões menor que a tua: Meu poder, minhas forças te confio, Minha tocha invisivel te precede: Dos impios, dos ingratos, que me offendem, Na rebelde cerviz o ferro ensopa: Extermina, destroe, reduz a cinzas As sacrilegas mãos, que os meus incensos Dão a frageis metaes, a deuses surdos: Sepulta as minhas victimas no inferno, E treme, se a vingança me retardas!…» Não lh'a retarda o rabido propheta; Já corre, já vozêa, já diffunde Pelos brutos, attonitos sequazes A peste do implacavel fanatismo: Armam-se, investem, rugem, ferem, matam, Que sanha! que furor! que atrocidade! Foge dos corações a natureza; Os consortes, os paes, as mães, os filhos Em honra do seu Deus consagram, tingem Abominosas mãos no parricidio: Os campos de cadaveres se alastram, Susurra pela terra o sangue em rios, Troam no polo altissimos clamores. Ah! Barbaro impostor, monstro sedento De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos, Serena o phrenesi, reprime as garras, E a torrente de horrores, que derramas, Para fundar o imperio dos tyrannos, Para deixar-lhe o feio, o duro exemplo De opprimir seus eguaes com ferreo jugo; Não profanes, sacrilego, não manches Da eterna divindade o nome augusto! Esse, de quem te ostentas tão valido, É Deus do teu furor, Deus do teu genio, Deus creado por ti, Deus necessario Aos tyrannos da terra, aos que te imitam, E áquelles, que não crêm que Deus existe.
III
N'este quadro fatal bem vês, Marilia, Que em tenebrosos seculos envolta Desde aquelles crueis, infandos tempos Dolosa tradição passou aos nossos. Do coração, da idéa, ah! desarreiga De astutos mestres a fallaz doctrina, E de credulos paes preoccupados As chimeras, visões, phantasmas, sonhos: Ha Deus, mas Deus de paz, Deus de piedade, Deus de amor, pae dos homens, não flagello. Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo, Que só não leva a bem o abuso d'ellas, Porque á nossa existencia não se ajusta, Porque inda encurta mais a curta vida: Amor é lei do Eterno, é lei suave; As mais são invenções, são quasi todas Contrarias á razão, e á natureza: Proprias ao bem d'alguns, e ao mal de muitos. Natureza, e razão jámais differem: Natureza, e razão movem, conduzem A dar soccorro ao pallido indigente, A pôr limite ás lagrimas do afflicto, E a remir a innocencia consternada, Quanto nos debeis, magoados pulsos Lhe roxêa o vergão de vís algemas: Natureza, e razão jámais approvam O abuso das paixões, aquella insania, Que pondo os homens ao nivel dos brutos, Os infama, os deslustra, os desacorda. Quando aos nossos eguaes, quando uns aos outros Traçâmos fero damno, injustos males Em nossos corações, em nossas mentes, És, oh remorso, o precursor do crime, O castigo nos dás antes da culpa, Que só na execução do crime existe, Pois não pode evitar-se o pensamento, E é innocente a mão, que se arrepende. Não vem só d'um principio acções oppostas: Taes dimanam de um Deus, taes do exemplo, Ou do cego furor, moleslia d'alma.
IV
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto, Que te anceam phantasticos terrores, Prégados pelo ardil, pelo interesse. Só de infestos mortaes na voz, na astucia A bem da tyrannia está o inferno. Esse, que pintam barathro de angustias, Seria o galardão, seria o premio Das suas vexações, dos seus embustes, E não pena de amor, se inferno houvesse. Escuta o coração, Marilia bella, Escuta o coração, que te não mente: Mil vezes te dirá: «Se a rigorosa Carrancuda oppressão de um pae severo, Te não deixa chegar ao charo amante Pelo perpetuo nó, que chamam sacro, Que o bonzo enganador teceu na idéa Para tambem no amor dar leis ao mundo; Se obter não podes a união solemne, Que hallucina os mortaes, porque te esquivas Da natural prisão, do terno laço Que com lagrimas, e ais te estou pedindo? Reclama o teu poder, os teus direitos Da justiça despotica extorquidos: Não chega aos corações o jus paterno, Se a chamma da ternura os affoguêa: De amor ha precisão, ha liberdade; Eia pois, do temor saccode o jugo, Acanhada donzella; e do teu pejo Déstra illudindo as vigilantes guardas, Pelas sombras da noute, a amor propicias, Demanda os braços do ancioso Elmano, Ao risonho prazer franquêa os lares. Consista o laço na união das almas; Do ditoso hymenêo as venerandas Caladas trevas testemunhas sejam; Seja ministro o Amor, e a terra templo Pois que o templo do Eterno é toda a terra. Entrega-te depois aos teus transportes, Os oppressos desejos desafoga. Mata o pejo importuno; incita, incita O que, só de prazer merece o nome. Verás como, envolvendo-se as vontades, Gostos eguaes se dão, e se recebem: Do jubilo hade a força amortecer-te, Do jubilo hade a força aviventar-te. Sentirás suspirar, morrer o amante, Com os seus confundir os teus suspiros, Has de morrer, e reviver com elle. De tão alta ventura, ah! não te prives, Ah! não prives, insana, a quem te adora.» Eis o que has de escutar, oh doce amada, Se á voz do coração não fores surda. De tuas perfeições enfeitiçado Ás preces, que te envia, eu uno as minhas. Ah! Faze-me ditoso, e sê ditosa. Amar é um dever, além de um gosto, Uma necessidade, não um crime, Qual a impostura horrisona apregôa. Céos não existem, não existe inferno, O premio da virtude é a virtude, É castigo do vicio o proprio vicio.
FRAGMENTO DE ALCEU, POETA GREGO:
TRADUZIDO DA IMITAÇÃO FRANCEZA DE Mr. PARNY.
I
Imaginas, meu bem, suppões, oh Lilia, Que os beneficos céos, os céos piedosos Exigem nossos ais, nossos suspiros Em vez de adorações, em vez d'incensos? Credula, branda amiga é falso, é falso: Longe a cega illusão. Se ambos sumidos Em solitario bosque, e misturando Doces requebros c'os murmurios doces Dos transparentes, garrulos arroios, Sempre me ouvisses, sempre me dissesses Que és minha, que sou teu; que mal, que offensa Nosso innocente ardor faria aos Numes? Se acaso reclinando-te comigo Sobre viçoso thalamo de flores, Turvasse nos teus olhos carinhosos Suave languidez a luz suave; Se os doces labios teus entre meus labios Fervendo, grata Lilia, me espargissem Vivissimo calor nas fibras todas; Se pelo excesso de ineffaveis gostos Morressemos, meu bem, d'uma só morte; E se Amor outra vez nos désse a vida Para expirar de novo: em que peccára, Em que afrontára aos céos prazer tão puro? A voz do coração não tece enganos, Não é réo quem te segue, oh Natureza: Esse Jove, esse deus, que os homens pintam Suberbo, vingador, cruel, terrivel; Em perpetuas delicias engolphado, Submerso em perennal tranquillidade Com as acções humanas não se emb'raça: Fictos seus olhos no universo todo, Em todos os mortaes, n'um só não param: As vozes da razão profiro, oh Lilia! É lei o amor, necessidade o gosto: Viver na insipidez é erro, é crime, Quando amigo prazer se nos franquêa.
II
Eia! Deixemos á vaidade insana Correndo-se da rapida existencia Sem susto para si crear segunda: Deixemos-lhe entranhar por vans chimeras, Pela immortalidade os olhos ledos; E do seu phrenesi, meu bem, zombemos. Esse abysmo sem fundo, ou mar sem praia Onde a morte nos lança, e nos arroja, Guarda perpetuamente tudo, oh Lilia, Tudo quanto lhe cae no bojo immenso. Em quanto dura a vida ah! sejam, sejam Nossos os prazeres, os Elysios nossos. Os outros não são mais que um sonho alegre, Uma invenção dos reis, ou dos tyrannos, Para curvar ao jugo os brutos povos: E o que a superstição nomêa averno, E á multidão fanatica horrorisa; As furias, os dragões, e as chammas fazem Mais medo aos vivos, do que mal aos mortos.
ARTE DE AMAR,
OU
PRECEITOS, E REGRAS AMATORIAS PARA AGRADAR ÁS DAMAS.
IMITAÇÃO DE OVIDIO.
I
Se, lascivos do mundo, amais sem arte, Lede meus versos, amareis com ella. Tu, louro Apollo, me tempera a lyra, Tu, branda Venus, a cantar me ensina. Quanto nos reinos de Plutão deseja Tantalo ardente mitigar a sêde; Quanto suspira Promethêo, que Jove Os duros ferros, com que o prende, rompa; Tanto deseja a feminina turba Ao corpo varonil unir seu corpo; Tanto suspira por que mão lasciva Meiga lhe toque nas columnas lisas, E que mimoso, petulante dedo Lhe amolgue os tezos seus virgineos peitos. Em Junho ardente pelo seu consorte Clama, suspira em verde ramo a rôla; Em gelado Janeiro clama triste A domestica tigre por marido: Brama nos campos em sereno Maio Mansa novilha por amado touro. Sabia Natura o debil sexo excita, Torpes desejos com ardor provoca: Mas sempre firme, e simulada nega Carnal impulso geração de Pyrrha. Busca Diana Endymião nos bosques, Mas finge ousada perseguir as féras; Ardente Venus só prazer respira, Mas seus favores solicíta Marte; Serrana humilde reclinar deseja Nos doces braços de um Vaqueiro o collo; Mas d'elle foge, na montanha, esquiva, Com elle o baile festival recusa.
II
Tu, próvido Lycurgo, ou quem primeiro Á vaga turba legislou dos homens, Severo alçando temeroso ferro Duro reprimes da natura os gritos; Á face mulheril, immovel d'antes, Pudibundo rubor e pejo déstes; Mas ah! não tema varonil caterva Femineo pejo, sendo eu o seu mestre. Corta o duro machado erguido tronco, Mas vejo sempre pullular vergonteas; Diques forçosos contra o mar se elevam, Mas além d'elles delphins mansos nadam. Pode mais do que as leis a Natureza, Pratica o mundo só o que ella dicta; Faz-se escondida em quanto a não descobrem; Eu subtil mestre a descobril-a ensino. Ah! não me chamem críticos austeros Dos bons costumes corruptor profano! Ah! não me mande Cesar irritado No frio Euxino a viver c'os Getas. Outra cousa não faz duro colono Com liso arado, quando rompe a terra: Dura codêa o calor nativo impede, O ferro a rasga, e o calor transpira.
III
Vós, mancebos, correi, correi ligeiros Do Tibre ás margens ferteis, e mimosas: Tão immoveis me ouvi; mas não tão surdos; Direi primeiro como Amor se enlêa, Depois como se faz propicia Venus. Tu, oh Jove immortal, tu pae dos deuses, Sabio me inspira, que não basta Apollo. É verde louro fugitivo Daphne, Amor ingrato do queixoso Phebo: Tu, selvatico filho de Saturno, Só tu não temes desdenhosas iras: Ou chuva d'ouro a bella Danae molhas, Ou touro manso linda Europa roubas. A face mulheril formosa, e pura Cobrem de pejo avermelhadas rosas; Ou dedo juvenil destro as desfolhe, Ou calido vapor soprando as murche: Então lasciva, sem rebuço exposta Facil se entrega, sem temor se arroja: Então tu, louro Apollo, serás Daphne, A nympha fugitiva será Phebo. Apoz o bruto filho de Neptuno Correrá Galathéa os verdes mares; Assim foge de Cyrce o grego Ulysses, Assim foge de Dido o pio Enéas. Porém, primeiro, subtilmente a inflamma; Se acaso ardente, devorante fogo Torrar os bofes, consumir entranhas, Natura acode com forçoso impulso, E mais depressa se afugenta o pejo: Mais depressa o calor do sol derrete Pallida massa de esfregada cêra; Mais cedo rompe ariete forçoso Torres antigas, ruinosos muros.
IV
Se branco rosto, que formoso esmaltam Preciosos rubís, azues saphiras, Face morena, que engraçados ornam Dous pretos olhos, com que as Graças brincam; Se airoso gesto, movimento lindo, Se honesto modo, se sisudo termo Feriu teus olhos no theatro, ou templo, Eia, mancebo, tens amores, corre!… Em pé ligeiro te sublime, e ergue; Da vasta chusma simulado escapa, Ou destro finjas cerebro revolto, Ou falso mostres abafado o peito; Logo modesto dirigindo os olhos Á branda Tyrse, para os seus repara; Vê se innocentes ao acaso vagam, Ou se inquietos com destino giram; Se por ventura teu rival encontras, Animo forte, desmaiar não deves; Mais honrosa será tua victoria, Tens para o carro triumphal captivo.
V
Era consorte de Vulcano Venus, Mas dos favores seus é digno Marte; Com vergonha do sordido ferreiro Preso nas rêdes fica o deus da guerra: Quaes no prado mellifluas abelhas Correm voando d'uma flor em outra, Nem sobre o casto rosmaninho pousam, Nem sobre o thymo matinal descançam: Taes, oh mancebos, mulherís desejos Correndo vôam de um amor em outro. Nem destro Ulysses seu correr impede, Nem rico Midas suas azas prende; Oh tu cerulea, cristallina Thetis, Quando revolta não serás tão vaga? Oh tu suberbo, furioso Noto, Quando liberto não serás tão doudo? São mais constantes de um carvalho altivo As livres folhas, quando Bóreas sopra, Tremulam menos nos extensos mares Flamulas soltas, que menêa o vento. Se tu, mancebo, por acaso agradas, Vive seguro, em teu rival não cuides; É velho amante, tu amante novo: Pode mais do que amor a novidade; De novo ardia por Helena Paris, Por isso foi de Meneláo contrario.
VI