Poesias Completas

Part 2

Chapter 24,179 wordsPublic domain

Da grande caçadora a um solicito aceno Já não vem, não acode o grupo jovial; Nem o éco repete a flauta de Sileno, Apoz o grande ruido a mudez sepulchral.

Mas Diana apparece. A floresta palpita, Uma seiva melhor circula mais veloz; É vida que renasce, é vida que se agita; A luz do teu olhar, ao som da tua voz!

O POETA

Tambem eu, sonhador, que vi correr meus dias Na solemne mudez da grande solidão, E soltei, enterrando as minhas utopias, O ultimo suspiro e a ultima oração;

Tambem eu junto a voz á voz da natureza, E soltando o meu hymno ardente e triumphal, Beijarei ajoelhado as plantas da beleza E banharei minh'alma em tua luz,--Ideal!

Ouviste a natureza? Ás supplicas e ás maguas Tua alma de mulher deve de palpitar; Mas que te não seduza o cantico das aguas, Não procures, Corinna, o caminho do mar!

V

Guarda estes versos que escrevi chorando Como um alivio á minha soledade, Como um dever do meu amor; e quando Houver em ti um éco de saudade, Beija estes versos que escrevi chorando.

Unico em meio das paixões vulgares, Fui a teus pés queimar minh'alma anciosa, Como se queima o oleo ante os altares; Tive a paixão indomita e fogosa, Unica em meio das paixões vulgares.

Cheio de amor, vazio de esperança, Dei para ti os meus primeiros passos; Minha illusão fez-me, talvez, criança; E eu pretendi dormir aos teus abraços, Cheio de amor, vazio de esperança.

Refugiado á sombra do mysterio Pude cantar meu hymno doloroso; E o mundo ouviu o som doce ou funereo Sem conhecer o coração ansioso Refugiado á sombra do mysterio.

Mas eu que posso contra a sorte esquiva? Vejo que em teus olhares de princeza Transluz uma alma ardente e compassiva Capaz de reanimar minha incerteza; Mas eu que posso contra a sorte esquiva?

Como um réo indefeso e abandonado, Fatalidade, curvo-me ao teu gesto; E se a perseguição me tem cansado. Embora, escutarei o teu aresto, Como um réo indefeso e abandonado.

Embora fujas aos meus olhos tristes, Minh'alma irá saudosa, enamorada, Acercar-se de ti lá onde existes; Ouvirás minha lyra apaixonada, Embora fujas aos meus olhos tristes.

Talvez um dia meu amor se extinga, Como fogo de Vesta mal cuidado Que sem o zelo da Vestal não vinga: Na ausencia e no silencio condemnado Talvez um dia meu amor se extinga.

Então não busques reavivar a chamma, Evoca apenas a lembrança casta Do fundo amor daquele que não ama; Esta consolação apenas basta; Então não busques reavivar a chamma.

Guarda estes versos que escrevi chorando, Como um alivio á minha soledade, Como um dever do meu amor; e quando Houver em ti um éco de saudade, Beija estes versos que escrevi chorando.

VI

Em vão! Contrario a amor é nulo o esforço humano; É nulo o vasto espaço, é nada o vasto oceano. Solta do chão, abrindo as asas luminosas. Minh'alma se ergue e voa ás regiões venturosas, Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corinna, Reveste a natureza a purpura divina!

Lá, como quando volta a primavera em flôr, Tudo sorri de luz, tudo sorri de amor; Ao influxo celeste e doce da belleza, Pulsa, canta, irradia e vive a natureza; Mais languida e mais bella a tarde pensativa Desce do monte ao valle; e a viração lasciva Vai despertar á noite a melodia extranha Que falam entre si os olmos da montanha; A flôr tem mais perfume e a noite mais poesia; O mar tem novos sons e mais viva ardentia; A onda enamorada arfa e beija as arêas, Novo sangue circula, ó terra, em tuas veias!

O esplendor da belleza é raio creador: Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o amor. Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de vida, Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal soffrida Da saudade que punge e do amor que lacera, E palpita e soluça e sangra e desespera. Sinto em torno de mim a muda natureza Respirando, como eu, a saudade e a tristeza; É deste ermo que eu vou, alma desventurada, Murmurar junto a ti a estrophe immaculada Do amor que não perdeu, co'a ultima esperança, Nem o intenso fervor, nem a intensa lembrança.

Sabes se te eu amei, sabes se te amo ainda, Do meu sombrio céu alva estrella bemvinda! Como divaga a abelha inquieta e sequiosa Do calice do lyrio ao calice da rosa, Divaguei de alma em alma em busca deste amor; Gota de mel divino, era divina a flôr Que o devia conter. Eras tu. No delirio De te amar--olvidei as lutas e o martyrio; Eras tu. Eu só quiz, n'uma ventura calma, Sentir e ver o amor atravez de uma alma; De outras bellezas vans não valeu o explendor, A belleza eras tu:--tinhas a alma e o amor.

Pelicano do amor, dilacerei meu peito, E com meu proprio sangue os filhos meus aleito; Meus filhos: o desejo, a quimera, a esperança; Por elles reparti minh'alma. Na provança Ella não fraqueou, antes surgiu mais forte; É que eu puz neste amor, neste ultimo transporte Tudo o que vivifica a minha juventude: O culto da verdade e o culto da virtude, A venia do passado e a ambição do futuro, O que ha de grande e belo, o que ha de nobre e puro.

Deste profundo amor, doce e amada Corinna, Accorda-te a lembrança um éco de afflicção? Minh'alma pena e chora á dôr que a desatina: Sente tua alma acaso a mesma commoção?

Em vão! Contrario a amor é nada o esforço humano, É nada o vasto espaço, é nulo o vasto oceano!

Vou, sequioso espirito, Cobrando novo alento, N'aza veloz do vento Correr de mar em mar; Posso, fugindo ao carcere, Que á terra me tem prezo, Em novo ardor aceso, Voar, voar, voar!

Então, se á hora languida Da tarde que declina, Do arbusto da collina Beijando a folha e a flôr, A brisa melancolica Levar-te entre perfumes Uns timidos queixumes Echos de magua e dôr;

Então, se o arroio timido Que passa e que murmura Á sombra da espessura Dos verdes salgueiraes. Mandar-te entre os murmurios Que solta nos seus giros, Uns como que suspiros De amor, uns ternos ais;

Então, se no silencio Da noite adormecida, Sentires--mal dormida-- Em sonho ou em visão, Um beijo em tuas palpebras, Um nome aos teus ouvidos, E ao som de uns ais partidos Pulsar teu coração;

Da magoa que consome O meu amor venceu; Não tremas--é teu nome, Não fujas--que sou eu!

ULTIMA FOLHA

Musa, desce do alto da montanha Onde aspiraste o aroma da poesia, E deixa ao éco dos sagrados ermos A ultima harmonia.

Dos teus cabellos de ouro, que beijavam Na amena tarde as virações perdidas, Deixa cair ao chão as alvas rosas E as alvas margaridas.

Vês? Não é noite, não, este ar sombrio Que nos esconde o céu. Inda na poente Não quebra os raios pallidos e frios O sol resplandecente.

Vês? Li ao fundo o valle arido e secco Abra-se, como um leito mortuario; Espera-te o silencio da planicie, Como um frio sudario.

Desce. Virá um dia em que mais bella, Mais alegre, mais cheia de harmonias, Voltes a procurar a voz cadente Dos teus primeiros dias.

Então coroarás a ingenua fronte Das flôres da manhã,--e ao monte agreste, Como a noiva phantastica dos ermos, Irás, musa celeste!

Então, nas horas solemnes Em que o mystico hymeneu Une em abraço divino Verde a terra, azul o céu;

Quando, já finda a tormenta Que a natureza enlutou, Bafeja a brisa suave Cedros que o vento abalou;

E o rio, a arvore e o campo, A arêa, a face do mar, Parecem, como um concerto, Palpitar, sorrir, orar;

Então sim, alma de poeta, Nos teus sonhos cantarás A gloria da natureza, A ventura, o amor e a paz!

Ah! mas então será mais alto ainda; Lá onde a alma do vate Possa escutar os anjos, E onde não chegue o vão rumor dos homens;

Lá onde, abrindo as azas ambiciosas, Possa adejar no espaço luminoso, Viver de luz mais viva e de ar mais puro, Fartar-se do infinito!

Musa, desce do alto da montanha Onde aspiraste o aroma da poesia, E deixa ao éco dos sagrados ermos A ultima harmonia!

PHALENAS

(1870)

FLOR DA MOCIDADE[1]

Eu conheço a mais bella flôr; És tu, rosa da mocidade, Nascida, aberta para o amor. Eu conheço a mais bella flôr. Tem do céu a serena côr, E o perfume da virgindade. Eu conheço a mais bella flôr, És tu, rosa da mocidade.

Vive ás vezes na solidão, Coma filha da briza agreste. Teme acaso indiscreta mão; Vive ás vezes na solidão. Poupa a raiva do furacão Suas folhas de azul celeste. Vive ás vezes na solidão, Como filha da briza agreste.

Colhe-se antes que venha o mal, Colhe-se antes que chegue o inverno; Que a flôr morta já nada vai. Colhe-se antes que venha o mal. Quando a terra é mais jovial Todo o bem nos parece eterno. Colhe-se antes que venha o mal, Colhe-se antes que chegue o inverno.

QUANDO ELLA FALLA

She speaks O speake again, bright angel!

SHAKESPEARE

Quando ella falla, parece Que a voz da briza se cala; Talvez um anjo emmudece Quando ella falla.

Meu coração dolorido As suas mágoas exhala. E volta ao gozo perdido Quando ella falla.

Pudeste eu eternamente, Ao lado d'ella, escutal-a, Ouvir sua alma innocente Quando ella falla.

Minh'alma, já semi-morta, Conseguíra ao céu alçal-a, Porque o céu abre uma porta Quando ella falla.

MANHÃ DE INVERNO

Coroada de nevoas, surge a aurora Por detrás das montanhas do oriente; Vê-se um resto de somno e de preguiça, Nos olhos da fantastica indolente.

Nevoas enchem de um lado e de outro os morros Tristes como sinceras sepulturas, Essas que têm por simples ornamento Puras capellas, lagrimas mais puras.

A custo rompe o sol; a custo invade O espaço todo branco; e a luz brilhante Fulge através do espesso nevoeiro, Como através de um véu fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas Das laranjeiras humidas da chuva; Erma de flôres, curva a planta o collo, E o chão recebe o pranto da viuva.

Gelo não cobre o dorso das montanhas, Nem enche as folhas tremulas a neve; Galhardo moço, o inverno deste clima Na verde palma a sua historia escreve.

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço Ás nevoas da manhã; já pelos montes Vão subindo as que encheram todo o valle; Já se vão descobrindo os horizontes.

Sobe de todo o panno; eis apparece Da natureza o esplendido scenario; Tudo alli preparou co' os sabios olhos A suprema sciencia do emprezario.

Canta a orchestra dos passaros no matto A symphonia alpestre,--a voz serena Acorda os écos timidos do valle; E a divina comedia invade a scena.

LA MARCHESA DE MIRAMAR[2]

A miserrima Dido Pelos paços reaes vaga ululando.

GARÇÃO.

De quanto sonho um dia povoaste A mente ambiciosa, Que te resta? Uma pagina sombria, A escura noite e um tumulo recente.

Ó abysmo! Ó fortuna! Um dia apenas Viu erguer, viu cahir teu fragil throno Meteoro do seculo, passaste, Ó triste imperio, allumiando as sombras. A noite foi teu berço e teu sepulcro. Da tua morte os goivos inda acháram Frescas as rosas dos teus breves dias; E no livro da historia uma só folha A tua vida conta: sangue e lagrimas.

No tranquillo castello, Ninho d'amor, asylo de esperanças, A mão de aurea fortuna preparára, Menina e moça, um tumulo aos teus dias. Junto do amado esposo, Outra corôa cingias mais segura, A corôa do amor, dadiva santa Das mãos de Deus. No céu de tua vida Uma nuvem sequer não sombreava A esplendida manhã; extranhos eram Ao recatado asylo Os rumores do seculo. Estendia-se Em frente o largo mar, tranquilla face Como a da consciencia alheia ao crime, E o céu, cupula azul do equoreo leito. Alli, quando ao cair da amena tarde, No thalamo encantado do occidente, O vento melancolico gemia, E a onda murmurando, Nas convulsões do amor beija a areia, Ias tu junto d'elle, as mãos travadas, Os olhos confundidos, Correr as brandas, somnolentas aguas, Na gondola discreta. Amenas flôres Com suas mãos teciam As namoradas Horas; vinha a noite, Mãe de amores, solicita descendo, Que em seu regaço a todos envolvia, O mar, o céu, a terra, o lenho e os noivos.

Mas além, muito além do céu fechado, O sombrio destino, contemplando A par do teu amor, a etherea vida, As santas effusões das noites bellas, O terrivel scenario preparava A mais terriveis lances.

Então surge dos thronos A prophetica voz que annunciava Ao teu credulo esposo: «Tu serás rei, Macbeth!» Ao longe, ao longe, No fundo do oceano, envolto em nevoas, Salpicado de sangue, ergue-se um throno. Chamão-no a elle as vozes do destino. Da tranquilla mansão ao novo imperio Cobrem flôres a estrada,--estereis flôres Que mal podem cobrir o horror da morte. Tu vais, tu vais tambem, victima infausta; O sopro da ambição fechou teus olhos.... Ah! quão melhor te fôra No meio d'essas aguas Que a regia nau cortava, conduzindo Os destinos de um rei, achar a morte: A mesma onda os dous envolveria. Uma só convulsão ás duas almas O vinculo quebrára, e ambas iriam, Como raios partidos de uma estrella, Á eterna luz juntar-se.

Mas o destino, alçando a mão sombria, Já traçára nas paginas da historia O terrivel mysterio. A liberdade Vela n'aquelle dia a ingenua fronte. Pejam nuvens de fogo o céu profundo. Orvalha sangue a noite mexicana.... Viuva e moça, agora em vão procuras No teu placido asylo o extincto esposo. Interrogas em vão o céu e as aguas. Apenas surge ensanguentada sombra Nos teus sonhos de louca, e um grito apenas, Um soluço profundo reboando Pela noite do espirito, parece Os échos acordar da mocidade. No emtanto, a natureza alegre e viva, Ostenta o mesmo rosto. Dissipam-se ambições, imperios morrem, Passam os homens como pó que o vento Do chão levanta ou sombras fugitivas, Transformam-se em ruina o templo e a choça. Só tu, só tu, eterna natureza, Immutavel, tranquilla, Como rochedo em meio do oceano, Vês baquear os seculos. Sussurra Pelas ribas do mar a mesma briza; O céu é sempre azul, as aguas mansas; Deita-se ainda a tarde vaporosa No leito do occidente; Ornam o campo as mesmas flôres bellas... Mas em teu coração magoado e triste, Pobre Carlota! o intenso desespero Enche de intenso horror o horror da morte. Viuva da razão, nem já te cabe A illusão da esperança. Feliz, feliz, ao menos, se te resta, Nos macerados olhos, O derradeiro bem:--algumas lagrimas!

SOMBRAS

Quando, assentada á noite, a tua fronte inclinas, E cerras descuidada as palpebras divinas, E deixas no regaço as tuas mãos cair, E escutas sem fallar, e sonhas sem dormir, Acaso uma lembrança, um éco do passado, Em teu seio revive? Ó tumulo fechado Da ventura que foi, do tempo que fugiu, Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu? Com que flôr, com que espinho, a importuna memoria Do teu passado escreve a mysteriosa historia? Que espectro ou que visão resurge aos olhos teus? Vem das trevas do mal ou cae das mãos de Deus? É saudade ou remorso? é desejo ou martyrio? Quando em obscuro templo a fraca luz de um cirio Apenas alumia a nave e o grande altar E deixa todo o resto em treva,--e o nosso olhar Cuida ver resurgindo, ao longe, d'entre as portas, As sombras immortaes das creaturas mortas, Palpita o coração de assombro e de terror; O medo augmenta o mal. Mas a cruz do Senhor, Que a luz do cirio innunda, os nossos olhos chama; O animo esclarece aquella eterna chamma; Ajoelha-se contricto, e murmura-se então A palavra de Deus, a divina oração.

Pejam sombras, bem vês, a escuridão do templo; Volve os olhos á luz, imita aquelle exemplo; Corre sobre o passado impenetravel véu; Olha para o futuro e vem lançar-te ao céu.

ITE, MISSA EST

Fecha o missal do amor e a benção lança Á pia multidão Dos teus sonhos de moço e de criança, A benção do perdão. Sôa a hora fatal,--reza contricto As palavras do rito: _Ite missa est._

Foi longo o sacrificio; o teu joelho De curvar-se cançou; E acaso sobre as folhas do Evangelho A tua alma chorou. Ninguem vio essas lagrimas (ai tantas!) Cair nas folhas santas. _Ite missa est._

De olhos fitos no céu rezaste o credo, O credo do teu deus; Oração que devia, ou tarde ou cedo, Travar nos labios teus; Palavra que se esvai qual fumo escasso E some-se no espaço. _Ite missa est._

Votaste ao céu, nas tuas mãos alçada, A hostia do perdão, A victima divina e profanada Que chamas coração. Quasi inteiras perdeste a alma e a vida Na hostia consumida. _Ite missa est._

Pobre servo do altar de um deus esquivo, É tarde; beija a cruz; Na lampada em que ardia o fogo activo, Vê, já se extingue a luz. Cubra-te agora o rosto macilento O véu do esquecimento. _Ite missa est._

RUINAS

No hay pájaros en los nidos de antaño.

PROVERBIO HESPANHOL.

Cobrem plantas sem flôr crestados muros; Range a porta ancian; o chão de pedra Gemer parece aos pés do inquieto vate. Ruina é tudo: a casa, a escada, o horto, Sitios caros da infancia. Austera moça Junto ao velho portão o vate aguarda; Pendem-lhe as tranças soltas Por sobre as rôxas vestes. Risos não tem, e em seu magoado gesto Transluz não sei que dôr occulta aos olhos; --Dôr que á face não vem,--medrosa e casta, Intima e funda;--e dos cerrados cilios Se uma discreta e muda Lagrima cae, não murcha a flôr do rosto; Melancolia tacita e serena, Que os écos não acorda em seus queixumes, Respira aquelle rosto. A mão lhe estende O abatido poeta. Eil-os percorrem Com tardo passo os relembrados sitios, Ermos depois que a mão da fria morte Tantas almas colhera. Desmaiavam, Nos serros do poente, As rosas do crepusculo. «Quem és? pergunta o vate; o sol que foge «No teu languido olhar um raio deixa; «--Raio quebrado e frio;--o vento agita «Timido e frouxo as tuas longas tranças. «Conhecem-te estas pedras; das ruinas «Alma errante pareces condemnada «A contemplar teus insepultos ossos. «Conhecera-te estas arvores. E eu mesmo «Sinto não sei que vaga e amortecida «Lembrança de teu rosto.»

Desceu de todo a noite, Pelo espaço arrastando o manto escuro Que a loura Vesper nos seus hombros castos, Como um diamante, prende. Longas horas Silenciosas corrêram. No outro dia, Quando as vermelhas rosas do oriente Ao já proximo sol a estrada ornavam, Das ruinas sahião lentamente Duas pallidas sombras...

MUSA DOS OLHOS VERDES

Musa dos olhos verdes, musa alada, Ó divina esperança, Consolo do ancião no extremo alento, E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges C'os fulgidos cabellos; Tu que transformas em dourados sonhos Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio ás virgens; Tu que ás mães carinhosas Enches o brando, tepido regaço Com delicadas rosas;

Casta filha do céu, virgem formosa Do eterno devaneio, Sê minha amante, os beijos meus recebe, Acolhe-me em teu seio!

Já cançada de encher languidas flôres Com as lagrimas frias, A noite vê surgir do oriente a aurora Dourando as serranias.

Azas batendo á luz que as trevas rompe, Piam nocturnas aves, E a floresta interrompe alegremente Os seus silencios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria Melancolica chora; Rompe estas sombras que o meu ser povoam; Musa, sê tu a aurora!

NOIVADO

Vês, querida, o horizonte ardendo em chammas? Além d'esses outeiros Vai descambando o sol, e á terra envia Os raios derradeiros; A tarde, como noiva que enrubece, Traz no rosto um véu molle e transparente; No fundo azul a estrella do poente Já timida apparece.

Como um bafo suavissimo da noite, Vem sussurrando o vento As arvores agita e imprime ás folhas O beijo somnolento. A flôr ageita o calix: cedo espera O orvalho, e emtanto exhala o doce aroma; Do leito do oriente a noite assoma Como uma sombra austera.

Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos, Vem, minha flôr querida; Vem contemplar o céu, pagina santa Que amor a ler convida; Da tua solidão rompe as cadeias; Desce do teu sombrio e mudo asylo; Encontrarás aqui o amor tranquillo..... Que esperas? que receias?

Olha o templo de Deus, pomposo e grande; Lá do horizonte opposto A lua, como lampada, já surge A alumiar teu rosto; Os cirios vão arder no altar sagrado, Estrellinhas do céu que um anjo acende; Olha como de balsamos rescende A c'rôa do noivado.

Irão buscar-te em meio do caminho As minhas esperanças; E voltarão comtigo, entrelaçadas Nas tuas longas tranças; No emtanto eu preparei teu leito á sombra Do limoeiro em flôr; colhi contente Folhas com que alastrei o solo ardente De verde e molle alfombra.

Pelas ondas do tempo arrebatados, Até á morte iremos, Soltos ao longo do baixel da vida Os esquecidos remos. Firmes, entre o fragor da tempestade, Gosaremos o bem que amor encerra; Passaremos assim do sol da terra Ao sol da eternidade.

A ELVIRA

(LAMARTINE)

Quando, comtigo a sós, as mãos unidas, Tu, pensativa e muda; e eu, namorado, Ás volupias do amor a alma entregando, Deixo correr as horas fugidias; Ou quando ás solidões de umbrosa selva Comigo te arrebato; ou quando escuto --Tão só eu,--teus ternissimos suspiros; E de meus labios solto Eternas juras de constancia eterna; Ou quando, emfim, tua adorada fronte Nos meus joelhos tremulos descansa, E eu suspendo meus olhos em teus olhos, Como ás folhas da rosa avida abelha; Ai, quanta vez então dentro em meu peito Vago terror penetra, como um raio! Empallideço, tremo; E no seio da gloria em que me exalto, Lagrimas verto que a minha alma assombram! Tu, carinhosa e tremula, Nos teus braços me cinges,--e assustada, Interrogando em vão, comigo choras! «Que dôr secreta o coração te opprime?» Dizes tu, «Vem, confia os teus pesares.... «Falla! eu abrandarei as penas tuas! «Falla! eu consolarei tua alma afflicta!»

Vida do meu viver, não me interrogues! Quando enlaçado em teus niveos braços A confissão de amor te ouço, e levanto Languidos olhos para ver teu rosto, Mais ditoso mortal o céu não cobre! Se eu tremo, é porque n'essas esquecidas Afortunadas horas, Não sei que voz do enleio me desperta, E me persegue e lembra Que a ventura co' o tempo se esvaece, E o nosso amor é facho que se extingue! De um lance, espavorida, Minha alma vôa ás sombras do futuro, E eu penso então: «Ventura que se acaba Um sonho vale apenas.»

LAGRIMAS DE CÊRA

Passou; viu a porta aberta. Entrou; queria rezar. A vela ardia no altar. A igreja estava deserta.

Ajoelhou-se defronte Para fazer a oração; Curvou a pallida fronte E pôz os olhos no chão.

Vinha tremula e sentida. Commettêra um erro. A cruz É a ancora da vida, A esperança, a força, a luz.

Que rezou? Não sei. Benzeu-se Rapidamente. Ajustou O véu de rendas. Ergueu-se E á pia se encaminhou.

Da vela benta que ardêra, Como tranquillo fanal, Umas lagrimas de cêra Caíam no castiçal.

Ella porém não vertia Uma lagrima sequer. Tinha a fé,--a chamma a arder,-- Chorar é que não podia.

LIVROS E FLORES

Teus olhos são meus livros. Que livro ha ahi melhor, Em que melhor se leia A pagina do amor? Flôres me são, teus labios. Onde ha mais bella flôr, Em que melhor se beba O balsamo do amor?

PASSAROS

Je veux changer mes pensées en oiseaux.

C. MAROT.

Olha como, cortando os leves ares, Passam do valle ao monte as andorinhas; Vão pousar na verdura dos palmares, Que, á tarde, cobre transparente véu; Voam tambem como essas avezinhas Meus sombrios, meus tristes pensamentos; Zombam da furia dos contrarios ventos, Fogem da terra, acercam-se do céu.

Porque o céu é tambem aquella estancia Onde respira a doce creatura, Filha de nosso amor, sonho da infancia, Pensamento dos dias juvenis. Lá, como esquiva flôr, formosa e pura, Vives tu escondida entre a folhagem, Ó rainha do ermo, ó fresca imagem Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!

Vão para aquella estancia, enamorados, Os pensamentos de minh'alma anciosa; Vão contar-lhe os meus dias mal gozados E estas noites de lagrimas e dôr; Na tua fronte pousarão, mimosa, Como as aves no cimo da palmeira; Dizendo aos écos a canção primeira De um livro escripto pela mão do amor.

Dirão tambem como conservo ainda No fundo de minh'alma essa lembrança Da tua imagen vaporosa e linda, Unico alento que me prende aqui. E dirão mais que estrellas de esperança Enchem a escuridão das noites minhas. Como sobem ao monte as andorinhas, Meus pensamentos voam para ti.

O VERME

Existe uma flôr que encerra Celeste orvalho e perfume. Plantou-a em fecunda terra Mão benefica de um nume.

Um verme asqueroso e feio, Gerado em lodo mortal, Busca esta flôr virginal E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina, Suga-lhe a vida e o alento; A flôr o calix inclina; As folhas, leva-as o vento,

Depois, nem resta o perfume Nos ares da solidão... Esta flôr é o coração, Aquelle verme o ciume.

UN VIEUX PAYS[3]

... juntamente choro e rio.

CAMÕES