Part 1
POESIAS COMPLETAS
MACHADO DE ASSIS
DA ACADEMIA BRAZILEIRA
POESIAS
COMPLETAS
_CHRYSALIDAS, PHALENAS_
_AMERICANAS, OCCIDENTAES_
H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
71-73, RUA DO OUVIDOR, 71-73 RIO DE JANEIRO
6, RUE DES SAINTS-PÈRES, 6 PARIS
1901
ADVERTÊNCIA
_Podia dizer, sem mentir, que me pediram a reunião de versos que andavam esparsos; mas, a verdade anterior è que era minha intenção dal-os um dia. Ao cuidar disto agora achei que seria melhor ligar o novo livro aos ires publicados_, Chrysalidas, Phalonas, Americanas. _Chamo ao ultimo_ Occidentaes.
_Não direi de uns e de outros versos senão que os fiz com amor, e dos primeiros que os reli com saudades. Supprimo da primeira série algumas paginas; as restantes bastam para notar a differença de edade e de composição. Supprimo tambem o prefacio de Caetano Filgueiras, que referiu as nossas reuniões diarias, quando já elle era advogado e casado, e nós outros apenas moços e adolescentes; menino chama-me elle. Todos se foram para a morte, ainda na flôr da edade, e, excepto o nome de Casimiro de Abreu, nenhum se salvou._
_Não deixo esse prefacio, porque a affeição do meu difunto amigo a tal extremo lhe cegára o juizo que não viria a ponto reproduzir aqui aquella saudação inicial. A recordação só teria valor para mim. Baste aos curiosos o encontro casual das datas, a daquelle, 22 de Julho de 1864, e a deste._
Rio, 22 de Julho do 1900.
MACHADO DE ASSIS.
CHRYSALIDAS
1864
MUSA CONSOLATRIX
Que a mão do tempo e o halito dos homens Murchem a flôr das illusões da vida, Musa consoladora, E no teu seio amigo e socegado Que o poeta respira o suave somno.
Não ha, não ha comtigo. Nem dor aguda, nem sombrios ermos; Da tua voz os namorados cantos Enchem, povoam tudo De intima paz, de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece, E muda o agudo espinho em flôr cheirosa, Que vales tu, desillusão dos homens? Tu que pódes, ó tempo. A alma triste do poeta sobrenada Á enchente das angustias, E, affrontando o rugido da tormenta, Passa cantando, alcyone divina.
Musa consoladora, Quando da minha fronte de mancebo A ultima illusão cair, bem como Folha amarella e secca Que ao chão atira a viração do outono, Ah! no teu seio amigo Acolhe-me,--e haverá minha alma afflicta, Em vez de algumas illusões que teve, A paz, o ultimo bem, ultimo e puro!
VISIO
Eras pallida. E os cabellos, Aereos, soltos novellos, Sobre as espaduas as cahiam... Os olhos meio-cerrados De volupia e de ternura Entre lagrimas luziam... E os braços entrelaçados, Como cingindo a ventura, Ao teu seio me cingiam...
Depois, naquelle delirio, Suave, doce martyrio De pouquissimos instantes, Os teus labios sequiosos, Frios, tremulos, trocavam Os beijos mais delirantes, E no supremo dos gozos Ante os anjos se casavam Nossas almas palpitantes...
Depois... depois a verdade, A fria realidade, A solidão, a tristeza; Daquelle sonho desperto, Olhei... silencio de morte Respirava a natureza-- Era a terra, era o deserto, Fôra-se o doce transporte, Restava a fria certeza.
Desfizera-se a mentira: Tudo aos meus olhos fugira: Tu e o teu olhar ardente, Labios tremulos e frios, O abraço longo e apertado, O beijo doce e vehemente; Restavam meus desvarios, E o incessante cuidado, E a phantasia doente.
E agora te vejo. E fria Tão outra estás da que eu via Naquelle sonho encantado! És outra, calma, discreta, Com o olhar indifferente, Tão outro do olhar sonhado, Que a minha alma de poeta Não vê se a imagem presente Foi a visão do passado.
Foi, sim, mas visão apenas; Daquellas visões amenas Que á mente dos infelizes Descem vivas e animadas, Cheias de luz e esperança E de celestes matizes; Mas, apenas dissipadas, Fica uma leve lembrança, Não ficam outras raizes.
Inda assim, embora sonho, Mas, sonho doce e risonho, Désse-me Deus que fingida Tivesse aquella ventura Noite por noite, hora a hora, No que me resta de vida, Que, já livre da amargura, Alma, que em dores me chora. Chorára de agradecida!
QUINZE ANNOS
Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fanée, Insouciant enfant, belle Eve bus blonds cheveux?
ALFRED DE MUSSET
Era uma pobre criança... --Pobre criança, se o eras!-- Entre as quinze primaveras De sua vida cançada Nem uma flôr de esperança Abria a medo. Eram rosas Que a douda da esperdiçada Tão festivas, tão formosas, Desfolhava pelo chão. --Pobre criança, se o eras!-- Os carinhos mal gozados Eram por todos comprados, Que os affectos de sua alma Havia-os levado á feira, Onde vendera sem pena Até a illusão primeira Do seu doudo coração!
Pouco antes, a candura, Co'as brancas azas abertas, Em um berço de ventura A criança acalentava Na santa paz do Senhor; Para accordal-a era cedo, E a pobre ainda dormia Naquelle mudo segredo Que só abre o seio um dia Para dar entrada a amor.
Mas, por teu mal, acordaste! Junto do berço passou-te A festiva melodia Da seducção... e acordou-te! Colhendo as limpidas azas, O anjo que te velava Nas mãos tremulas e frias Fechou o rosto... chorava!
Tu, na sede dos amores, Colheste todas as flôres Que nas orlas do caminho Foste encontrando ao passar; Por ellas, um só espinho Não te feriu... vás andando... Corre, criança, até quando Fores forçada a parar!
Então, desflorada a alma De tanta illusão, perdida Aquella primeira calma Do teu somno de pureza; Esfolhadas, uma a uma, Essas rosas de belleza Que se esvaem como a escuma Que a vaga cospe na praia E que por si se desfaz;
Então, quando nos teus olhos Uma lagrima buscares, E seccos, seccos de febre, Uma só não encontrares Das que em meio das angustias São um consolo e uma paz;
Então, quando o frio spectro Do abandono e da penuria Vier aos teus soffrimentos Juntar a ultima injuria: E que não vires ao lado Um rosto, um olhar amigo Daquelles que são agora Os desvellados comtigo;
Criança, verás o engano E o erro dos sonhos teus; E dirás,--então já tarde,-- Que por taes gozos não vale Deixar os braços de Deus.
STELLA
Já raro e mais escasso A noite arrasta o manto, E verte o ultimo pranto Por todo o vasto espaço.
Tibio clarão já córa A téla do horizonte, E já de sobre o monte Vem debruçar-se a aurora.
Á muda e torva irmã, Dormida de cansaço, Lá vem tomar o espaço A virgem da manhã.
Uma por uma, vão As pallidas estrellas, E vão, e vão com ellas Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio Inspiras do poeta, Não vês que a vaga inquieta Abre-te o humido seio?
Vai. Radioso e ardente, Em breve o astro do dia, Rompendo a nevoa fria, Virá do roxo oriente.
Dos intimos sonhares Que a noite protegera, De tanto que eu vertera, Em lagrimas a pares,
Do amor silencioso, Mystico, doce, puro, Dos sonhos de futuro, Da paz, do ethereo gozo,
De tudo nos desperta Luz de importuno dia; Do amor que tanto a enchia Minha alma está deserta.
A virgem da manhã Já todo o céu domina.... Espero-te, divina, Espero-te, amanhã.
EPITAPHIO DO MEXICO
Dobra o joelho:--é um tumulo. Em baixo amortalhado Jaz o cadaver tepido De um povo aniquilado; A prece melancolica Reza-lhe em torno á cruz.
Ante o, universo attonito Abriu-se a extranha liça, Travou-se a luta fervida Da força e da justiça; Contra a justiça, ó seculo, Venceu a espada e o obuz.
Venceu a força indomita; Mas a infeliz vencida A magoa, a dôr, o odio, Na face envilecida Cuspiu-lhe. E a eterna macula Seus louros murchará.
E quando a voz fatidica Da santa liberdade Vier em dias prosperos Clamar á humanidade, Então revivo o Mexico Da campa surgirá.
POLONIA
E ao terceiro dia a alma deve voltar ao corpo, e a nação resuscitará.
MICKIEWIEZ.
Como aurora de um dia desejado, Clarão suave o horizonte innunda. E talvez amanhã. A noite amarga Como que chega ao termo; e o sol dos livres, Cangado de te ouvir o inutil pranto, Alfim resurge no dourado Oriente.
Eras livre,--tão livre como as aguas Do teu formoso, celebrado rio; A corôa dos tempos Cingia-te a cabeça veneranda; E a desvellada mãe, a irmã cuidosa, A santa liberdade, Como junto de um berço precioso, Á porta dos teus lares vigiava.
Eras feliz demais, demais formosa; A sanhuda cobiça dos tyranos Veio enlutar teus venturosos dias... Infeliz! a medrosa liberdade Em face dos canhões espavorida Aos reis abandonou teu chão sagrado; Sobre ti, moribunda, Viste cahir os duros oppressores: Tal a gazella que percorre os campos, Se o caçador a fere, Cae convulsa de dôr em mortaes ancias, E vê no extremo arranco Abater-se sobre ella Escura nuvem de famintos corvos. Presa uma vez da ira dos tyranos, Os membros retalhou-te Dos senhores a explendida cobiça; Em proveito dos reis a terra livre Foi repartida, e os filhos teus--escravos-- Viram descer um véu de luto á patria E apagar-se na historia a gloria tua.
A gloria, não!--É gloria o captiveiro Quando a captiva, como tu, não perde A alliança de Deus, a fé que alenta, E essa união universal e muda Que faz communs a dôr, o odio, a esperança.
Um dia, quando o calix da amargura, Martyr, até ás fezes esgotaste, Longo tremor correu as fibras tuas; Em teu ventre de mãe, a liberdade Parecia-soltar esse vagido Que faz rever o céu no olhar materno; Teu coração estremeceu; teus labios Tremulos de anciedade e de esperança, Buscaram aspirar a longos tragos A vida nova nas celestes auras. Então surgiu Kosciusko; Pela mão do Senhor vinha tocado; A fé no coração, a espada em punho, E na ponta da espada a torva morte, Chamou aos campos a nação caída. De novo entre o direito e a força bruta Empenhou-se o duello atroz e infausto Que a triste humanidade Inda verá por seculos futuros. Foi longa a luta; os filhos dessa terra Ah! não pouparam nem valor nem sangue! A mãe via partir sem pranto os filhos, A irmã o irmão, a esposa o esposo, E todas abençoavam A heroica legião que ia á conquista Do grande livramento.
Coube ás hostes da força Da pugna o alto premio; A oppressão jubilosa Cantou essa victoria de ignominia; E de novo, ó captiva, o véu de luto Correu sobre teu rosto! Deus continha Em suas mãos o sol da liberdade, E inda não quiz que nesse dia infausto Teu macerado corpo allumiasse.
Resignada á dôr e ao infortunio, A mesma fé, o mesmo amor ardente Davam-te a antiga força. Triste viuva, o templo abriu-te as portas; Foi a hora dos hymnos e das preces; Cantaste a Deus; tua alma consolada Nas azas da oração aos céus subia, Como a refugiar-se e a refazer-se No seio do infinito. E quando a força do feroz cossaco A casa do Senhor ia buscar-te, Era ainda rezando Que te arrastavas pelo chão da egreja.
Pobre nação!--é longo o teu martyrio; A tua dôr pede vingança e termo; Muito has vertido em lagrimas e sangue; É propicia esta hora. O sol dos livres Como que surge no dourado Oriente. Não ama a liberdade Quem não chora comtigo as dôres tuas; E não pede, e não ama, e não deseja Tua resurreição, finada heroica!
ERRO
Erro é teu. Amei-te um dia Com esse amor passageiro Que nasce na phantasia E não chega ao coração; Nem foi amor, foi apenas Uma ligeira impressão; Um querer indifferente, Em tua presença, vivo, Morto, se estavas ausente, E se ora me vês esquivo, Se, como outr'ora, não vês Meus incensos de poeta Ir eu queimar a teus pés, É que,--como obra de um dia, Passou-me essa phantasia.
Para eu amar-te devias Outra ser e não como eras. Tuas frivolas chimeras, Teu vão amor de ti mesma, Essa pendula gelada Que chamavas coração, Eram bem fracos liames Para que a alma enamorada Me conseguissem prender; Foram baldados tentames, Saiu contra ti o azar, E embora pouca, perdeste A gloria de me arrastar Ao teu carro... Vãs chimeras! Para eu amar-te devias Outra ser e não como eras...
ELEGIA
A bondade choremos innoccente Cortada em flôr que, pela mão da morte, Nos foi arrebatada d'entre a gente.
CAMÕES.
Se, como outr'ora, nas florestas virgens, Nos fosse dado--o esquife que te encerra Erguer a um galho de arvore frondosa, Certo, não tinhas um melhor jazigo Do que alli, ao ar livre, entre os perfumes Da florente estação, imagem viva De teus cortados dias, e mais perto Do clarão das estrellas.
Sobre teus pobres e adorados restos, Piedosa a noite, alli derramaria Do seus negros cabellos puro orvalho; Á beira do teu ultimo jazigo Os alados cantores da floresta Iriam sempre modular seus cantos; Nem letra, nem lavor de emblema humano, Relembraria a mocidade morta; Bastava só que ao coração materno, Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos, Um aperto, uma dôr, um pranto occulto, Dissesse:--Dorme aqui, perto dos anjos, A cinza de quem foi gentil transumpto De virtudes e graças.
Mal havia transposto da existencia. Os dourados umbraes; a vida agora Sorria-lhe toucada dessas flôres Que o amor, que o talento e a mocidade Á uma repartiam.
Tudo lhe era presagio alegre e doce; Uma nuvem sequer não sombreava, Em sua fronte, o iris da esperança; Era, emfim, entre os seus a copia viva Dessa ventura que os mortaes almejam, E que raro a fortuna, avessa ao homem, Deixa gozar na terra.
Mas eis que o anjo pallido da morte A presentiu feliz e bella e pura, E, abandonando a região do olvido, Desceu á terra, e sob a aza negra A fronte lhe escondeu; o fragil corpo Não pôde resistir; a noite eterna Veio fechar seus olhos; Emquanto a alma abrindo As azas rutilantes pelo espaço, Foi engolfar-se em luz, perpetuamente, No seio do infinito; Tal a assustada pomba, que na arvore O ninho fabricou,--se a mão do homem Ou a impulsão do vento um dia abate O recatado asylo,--abrindo o vôo, Deixa os inuteis restos E, atravessando airosa os leves ares, Vai buscar n'outra parte outra guarida.
Hoje, do que ora inda lembrança resta, E que lembrança! Os olhos fatigados Parecem ver passar a sombra della; O attento ouvido inda lhe escuta os passos; E as teclas do piano, em que seus dedos Tanta harmonia despertavam antes, Como que soltam essas doces notas Que outr'ora ao seu contacto respondiam.
Ah! pezava-lhe este ar da terra impura, Faltava-lhe esse alento de outra esphera, Onde, noiva dos anjos, a esperavam As palmas da virtude.
Mas, quando assim a flôr da mocidade Toda se esfolha sobre o chão de morte, Senhor, em que firmar a segurança Das venturas da terra? Tudo morre; Á sentença fatal nada se esquiva, O que é fructo e o que é flôr. O homem cego Cuida haver levantado em chão de bronze Um edificio resistente aos tempos, Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro, O castello se abate, Onde, doce illusão, fechado havias Tudo o que de melhor a alma do homem Encerra de esperanças.
Dorme, dorme tranquilla Em teu ultimo asylo; e se eu não pude Ir espargir tambem algumas flôres Sobre a lagea da tua sepultura; Se não pude,--eu que ha pouco te saudava Em teu erguer, estrella,--os tristes olhos Banhar nos melancolicos fulgores, Na triste luz do teu recente occaso, Deixo-te ao menos nestes pobres versos Um penhor de saudade, e lá na esphera Aonde approuve ao Senhor chamar-te cedo, Possas tu ler nas pallidas estrophes A tristeza do amigo.
SINHÁ
O teu nome é como o oleo derramado.
_Cantico dos Canticos._
Nem o perfume que expira A flôr, pela tarde amena, Nem a nota que suspira Canto de saudade e pena Nas brandas cordas da lyra; Nem o murmurio da veia Que abriu sulco pelo chão Entre margens de alva arêa, Onde se mira e recreia Rosa fechada em botão;
Nem o arrulho enternecido Das pombas, nem do arvoredo Esse amoroso arruido Quando escuta algum segredo Pela brisa repetido; Nem esta saudade pura Do canto do sabiá Escondido na espessura, Nada respira doçura Como o teu nome, Sinhá!
HORAS VIVAS
Noite: abrem-se as flôres... Que esplendores! Cynthia sonha amores Pelo céu. Tenues os neblinas Ás campinas Descem das collinas, Como um véu.
Mãos em mãos travadas, Animadas, Vão aquellas fadas Pelo ar; Soltos os cabellos, Em novellos, Puros, louros, bellos, A voar.
--«Homem, nos teus dias Que agonias, Sonhos, utopias, Ambições; Vivas e fagueiras, As primeiras, Como as derradeiras Illusões!
--«Quantas, quantas vidas Vão perdidas Pombas mal feridas Pelo mal! Annos apoz annos, Tão insanos, Vem os desenganos Afinal.
--«Dorme: se os pesares Repousares, Vês?--por estes ares Vamos rir; Mortas, não; festivas, E lascivas, Somos--_horas vivas_ De dormir--»
VERSOS A CORINNA
Tacendo il nome di questa gentilissima.
DANTE.
I
Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijo N'uma hora de amor, de ternura e desejo, Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor, Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor; Depois, depois vestindo a fórma peregrina, Aos meus olhos mortaes, surgiste-me, Corinna!
De um jubilo divino os cantos entoava A natureza mãe, e tudo palpitava, A flôr aberta e fresca, a pedra bronca e rude, De uma vida melhor e nova juventude.
Minh'alma adivinhou a origem do teu ser; Quiz cantar e sentir; quiz amar e viver; A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura, Palpitou, reviveu a pobre creatura; Do amor grande, elevado, abriram-se lhe as fontes; Fulgiram novos sóes, rasgaram-se horizontes; Surgiu, abrindo em flôr, uma nova região; Era o dia marcado á minha redempção. Era assim quo eu sonhava a mulher. Era assim: Corpo de fascinar, alma de cherubim;
Era assim: fronte altiva e gesto soberano, Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano, Em olhos senhoris uma luz tão serena, E grave como Juno, e bella como Helena! Era assim, a mulher que extasia e domina, A mulher que reune a terra e o céu; Corinna!
N'este fundo sentir, nesta fascinação, Que pede do poeta o amante coração? Viver como nasceste, ó belleza, ó primor, De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.
Viver,--fundir a existencia Em um osculo de amor, Fazer de ambas--uma essencia, Apagar outras lembranças, Perder outras illusões, E ter por sonho melhor O sonho das esperanças De que a unica ventura Não reside em outra vida, Não vem do outra creatura; Confundir olhos mos olhos, Unir um seio a outro seio, Derramar as mesmas lagrimas E tremer do mesmo enleio, Ter o mesmo coração, Viver um do outro viver... Tal era a minha ambição.
Donde viria a ventura Desta vida? Em que jardim Colheria esta flôr pura? Em que solitaria fonte Esta agua iria beber? Em que encendido horizonte Podiam meus olhos ver Tão meiga, tão viva estrella, Abrir-se e resplandecer? Só em ti:--em ti que és bella, Em ti quo a paixão respiras, Em ti cujo olhar se embebe Na illusão de que deliras, Em ti, que um osculo de Hebe Teve a singular virtude De encher, de animar teus dias, De vida e de juventude...
Amemos! diz a flôr á brisa peregrina, Amemos! diz a brisa, arfando em torno á flôr Cantemos esta lei e vivamos, Corinna, De uma fusão do ser, de uma effusão do amor.
II
A minha alma, talvez, não é tão pura, Como era pura nos primeiros dias; Eu sei: tive choradas agonias De que conservo alguma nodoa escura,
Talvez. Apenas á manhã da vida Abri meus olhos virgens e minha alma, Nunca mais respirei a paz e a calma, E me perdi na porfiosa lida.
Não sei que fogo interno me impellia Á conquista da luz, do amor, do gozo, Não sei que movimento imperioso De um desusado ardor minha alma enchia.
Corri de campo em campo e plaga em plaga. (Tanta ansiedade o coração encerra!) A ver o lyrio que brotasse a terra, A ver a escuma que cuspisse--a vaga.
Mas, no areal da praia, no horto agreste, Tudo aos meus olhos avidos fugia... Desci ao chão do valle que se abria, Subi ao cume da montanha alpestre.
Nada! Volvi o olhar ao céu. Perdi-me Em meus sonhos de moço e de poeta; E contemplei, nesta ambição inquieta, Da muda noite a pagina sublime.
Tomei nas mãos a cythara saudosa, E soltei entre lagrimas um canto... A terra brava recebeu meu pranto E o éco repetiu-me a voz chorosa.
Foi em vão. Como um languido suspiro, A voz se me calou, e do invio monte Olhei ainda as linhas do horizonte, Como se olhasse o ultimo retiro.
Nuvem negra e veloz corria solta O anjo da tempestade annunciando; Vi ao longe as alcyones cantando Doidas correndo á flôr da agua revolta.
Desilludido, exausto, ermo, perdido, Busquei a triste estancia do abandono, E esperei, aguardando o ultimo somno, Volver á terra, de que foi nascido.
--«Ó Cybele fecunda, é no remanso Do teu seio--que vive a creatura, Chamem-te outros morada triste e escura, Chamo-te gloria, chamo-te descanso!»
Assim fallei. E murmurando aos ventos Uma blasphemia atroz--estreito abraço Homem e terra uniu, e em longo espaço Aos écos repeti meus vãos lamentos.
Mas, tu passaste... Houve um grito Dentro de mim. Aos meus olhos Visão de amor infinito, Visão de perpetuo gozo Perpassava e me attrahia, Como um sonho voluptuoso De sequiosa fantasia. Ergui-me logo do chão, E pousei meus olhos fundos Em teus olhos soberanos, Ardentes, vivos, profundos, Como os olhos da belleza Que das escumas nasceu... Eras tu, maga visão Eras tu o ideal sonhado Que em toda a parte busquei, E por quem houvera dado A vida que fatiguei; Por quem verti tanto pranto, Por quem nos longos espinhos Minhas mãos, meus pés sangrei!
Mas se minh'alma, acaso, é menos pura Do que era pura nos primeiros dias, Porque não soube em tantas agonias Abençoar a minha desventura;
Se a blasphemia os meus labios polluira, Quando, depois do tempo e do cansaço, Beijei a terra no mortal abraço E espedacei desanimado a lyra;
Podes, visão formosa e peregrina, No amor profundo, na existencia calma, Desse passado resgatar minha alma E levantar-me aos olhos teus,--Corinna!
III
Quando voarem minhas esperanças, Como um bando de pombas fugitivas; E destas illusões doces e vivas Só me restarem pallidas lembranças;
E abandonar-me a minha mãe Quimera, Que me aleitou aos seios abundantes; E vierem as nuvens flammejantes Encher o céu da minha primavera;
E raiar para mim um triste dia, Em que, por completar minha tristeza, Nem possa ver-te, musa da belleza, Nem possa ouvir-te, musa da harmonia;
Quando assim seja, por teus olhos juro, Voto minh'alma á escura soledade, Sem procurar melhor felicidade, E sem ambicionar prazer mais puro,
Como o viajor que, de fallaz miragem Volta desenganado ao lar tranquillo, E procura, naquelle ultimo asylo, Nem evocar memorias da viagem;
Envolvido em mim mesmo, olhos cerrados A tudo mais,--a minha phantasia As asas colherá com que algum dia Quis alcançar os cimos elevados.
És tu a maior gloria de minha alma, Se o meu amor profundo não te alcança, De que me servirá outra esperança? Que gloria tirarei de alheia palma?
IV
Tu que és bella e feliz, tu que tens por diadema A dupla irradiação da belleza e do amor; E sabes reunir, como o melhor poema, Um desejo da terra e um toque do Senhor;
Tu que, como a ilusão, entre nevoas deslisas Aos versos do poeta um desvellado olhar, Corinna, ouve a canção das amorosas brisas, Do poeta e da luz, das selvas e do mar.
AS BRISAS
Deu-nos a harpa colia a excelsa melodia Que a folhagem desperta e torna alegre a flôr, Mas que vale esta voz, ó musa da harmonia, Ao pé da tua voz, filha da harpa do amor?
Diz-nos tu como houveste as notas do teu canto? Que alma de serafim volteia aos labios teus? Donde houveste o segredo e o poderoso encanto Que abre a ouvidos mortais a harmonia dos céus?
A LUZ
Eu sou a luz fecunda, alma da natureza; Sou o vivo alimento á viva creação. Deus lançou-me no espaço. A minha realeza Vai até onde vae meu vivido clarão.
Mas se derramo vida a Cybelle fecunda, Que sou eu ante a luz dos teus olhos? Melhor, A tua é mais do céu, mais doce, mais profunda, Se a vida vem de mim, tu dás a vida e o amor.
AS AGUAS
Do nume da belleza o berço celebrado Foi o mar; Venus bella entre espumas nasceu. Veio a edade de ferro, e o nume venerado Do venerado altar baqueou:--pereceu.
Mas a belleza és tu. Como Venus marinha, Tens a ineffavel graça e o ineffavel ardor. Se páras, és um nume; andas, uma rainha, E se quebras um olhar, és tudo isso e és amor!
Chamam-te as aguas, vem! tu irás sobre a vaga A vaga, a tua mãe, que te abre os seios nús, Buscar adorações de uma plaga a outra plaga, E das regiões da nevoa ás regiões da luz!
AS SELVAS
Um silencio de morte entrou no seio ás selvas. Já não pisa Diana este sagrado chão; Nem já vem repousar no leito destas relvas Aguardando saudosa o amor e Endymião.