Poesias Completas

Part 11

Chapter 112,657 wordsPublic domain

E, comtudo, era em vão que á ingenua dama A flôr do esquivo coração pedia; Inuteis os suspiros lhe brotavam Do intimo do peito; nem da esperta Mucama,--natural complice amiga Desta sorte de crimes,--lhe valiam Os recados de boca;--nem as longas, Maviosas lettras em papel bordado, Atadas co'a symlolica fitinha Cor de esperança,--e olhares derretidos, Se a topava á janella,--raro evento, Que o pae, varão de bolsa e qualidade, Que repousava das fadigas longas Havidas no mercado de africanos, Era um typo de solidas virtudes E muita experiencia. Poucas vezes Ia á rua. Nas horas de fastio, A jogar o gamão, ou recostado, Com um vizinho, a tasquinar nos outros, Sem trabalho maior, passava o tempo.

V

Ora, em certo domingo, houve luzida Festa de cavalhadas e argolhinhas, Com danças ao ar livre e outros folgares, Recreios do bom tempo, infancia d'arte, Que o progresso apagou, e nós trocamos Por brincos mais da nossa juventude E melhores de certo; tão ingenuos, Tão simples, não. Vão longe aquellas festas, Usos, costumes são que se perderam, Como se hão perder os nossos de hoje, Nesso rio caudal que tudo leva Impetuoso ao vasto mar dos seculos.

VI

Abolada a cidade, quasi tanto Como nos dias da solemne festa Da grande acclamação, de que inda fallam Com saudade os muchachos de outro tempo. Varões agora do medida e peso, Todo o povo deixara as casas suas. Grato ensejo era aquelle! Resoluto A correr desta vez uma argolinha, O intrepido mancebo empunha a lança Dos combates, na fronte um capacete De longa, verde, fluctuante pluma, Escancha-se no dorso de um cavallo E armado vae para a festiva guerra. Ia a passo o corcel, como ia a passo Seu pensamento, certo da conquista, Se ella visse o brilhante cavalleiro Que, por amor daquelles bellos olhos, Derrotar promettia na estacada Um cento de rivaes. Subitamente Vê apontar a rispida figura Do rispido negreiro; a esposa o segue, E logo atraz a suspirada moça, Que lentamente e placida caminha Com os olhos no chão. Corpilho a veste De azul velludo; a manga arregaçada Ate á doce curva, o braço amostra Delicioso e nú. A indiana seda Que a linda mão de moça arregaçava, Com aquella sagaz indifferença Que o demo ensina ás mais singelas damas, A furto lhe mostrou, breve e apertado No sapatinho fino, o mais gracioso, O mais galante pé que inda ha nascido Nestas terras:--tacão alto e forrado De setim rubro lhe alteava o corpo, E airoso modo lhe imprimia ao passo.

VII

Ao brioso corcel encurta as redeas Vasco, e detem-se. A bella ia caminho E iam com ella seus perdidos olhos, Quando (visão terrivel)! a figura Pallida e commovida lhe apparece Do Freire, que, como elle namorado, Contempla a dama, a suspirar por ella. Era um varão distincto o honrado Freire, Tabellião da terra, não mettido Nas arengas do bairro. Pouco amante Dessa gloria que tantas vezes fulge Quando os mortaes merecedores della Jazem no eterno pó, não se illustrara Com actos de bravura ou de grandeza, Nem cobiçara as distincções do mando. Confidente supremo dos que á vida Dizem o ultimo adeus, só lhe importava Deitar em amplo in-folio as derradeiras Vontades do homem, repartir co'a penna Pingue ou magra fazenda, já cercada De farejantes corvos,--grato emprego A um coração philosopho, e remedio Para matar as illusões no peito. Certo, ver o usurario, que a riqueza Obteve á custa dos vintens do proximo, Comprar a eterna paz na eterna vida Com biocos do posthumas virtudes; Em torno delle contemplar anciados Os que, durante longo-aridos annos, De lisonjas e afagos o cercaram; Depois alegres uns, sombrios outros, Conforme foi silencioso ou grato O abastado defuncto,--emprego é esse Pouco adequado a jovens e a poetas.

VIII

Joven não era, nem poeta o Freire; Tinha oito lustros e fallava em prosa. Mas que és tu; mocidade? e tu, poesia? Um auto de baptismo? quatro versos? Ou brancas azas da sensivel pomba Que arrulha em peito humano? Unico as perde Quem o lume do amor nos seios d'alma Apagar-se-lhe sente. A nevoa póde, Qual turbante mourisco, a cumiada Das montanhas cingir da nossa terra, Que muito, se ao redor viceja ainda Primavera immortal? Um dia, ao vel-a De tantos requestada a esquiva moça, Sente o Freire bater-lhe as adormidas Azas do coração. Que não desdoura, Antes lhe dá realce e lhe desvinca A nobre fronte a um homem de justiça, Como os outros mortaes, morrer de amores; E amar e ser amado é, neste mundo, A tarefa melhor da nossa especie, Tão cheia de outras que não valem nada.

NO ALTO

O poeta chegára ao alto da montanha, E quando ia a descer a vertente do oeste, Viu uma cousa extranha, Uma figura má.

Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste, Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha, N'um tom medroso e agreste Pergunta o que será.

Como se perde no ar um som festivo e doce, Ou bem como se fosse Um pensamento vão,

Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta. Para descer a encosta O outro estendeu-lhe a mão.

NOTAS

[Footnote 1: Os poetas classicos francezes usavão muito esta fórma a que chamavão _triolet._ Depois do longo desuso, alguns poetas d'este seculo resuscitarão o _triolet_, não desmerecendo dos antigos modelos. Não me consta que se haja tentado empregal-a em portuguez, nem talvez seja cousa que mereça trasladação. A fórma entretanto é graciosa e não encontra difficuldade na nossa lingua, creio eu.]

[Footnote 2: Maximiliano, quando estava em Miramar, costumava retratar photographicamente a archiduqueza, escrevendo por baixo do retrato: «_La marchesa de Miramar._»]

[Footnote 3: Perdoem-me estes versos em francez; e para que de todo em todo não fique a pagina perdida aqui lhes dou a traducção que fez dos meus versos, o talentoso poeta maranhense Joaquim Serra:

É um velho paiz, de luz e sombras, Onde o dia traz pranto, e a noite a scisma; Um paiz do orações e de blasphemia, N'elle a crença na duvida se abysma.

Ahi, mal nasce a flôr, o verme a corta, O mar é um escarcéo, e o sol sombrio; Se a ventura n'um sonho transparece A suffoca em seus braços o fastio.

Quando o amor, qual sphynge indecifravel Ahi vai a bramir, perdido o sizo... Ás vezes ri alegre, e outras vezes É um triste soluço esse sorriso...

Vive-se n'esse e paiz com a mágoa e o riso; Quem d'lle se ausentou treme e maldiz; Mas ai, eu n'elle passo a mocidade, Pois é meu coração esse paiz!]

[Footnote 4: Os poetas postos n'esta colecção são todos contemporaneos. Encontrei-os no livro publicado em 1868 pela Sra. Judith Walter, distincta viajante que dizem conhecer profundamente a lingua chineza, e que os traduziu em simples e corrente prosa.]

[Footnote 5: É do Sr. Antonio Feliciano de Castilho a traducção d'esta odezinha, que deu lugar á composição do meu quadro. Foi immediatamente á leitura da _Lyrica de Anacreonte_, que eu tive a idéa de pôr em acção a ode do poeta de Teos, tão portuguezmente sahida das mãos do Sr. Castilho que mais parece original quo traducção. A concha não vale a perola; mas o delicado da perola disfarçará o grosseiro da concha.]

[Footnote 6: Simão de Vasconcellos não declara o nome da india, cuja acção refere em sua _Chronica._

Achei que não foi o caso desta tamoya o unico em que tão galhardamente se manifestou a fidelidade conjugal e christã. O padre Anchieta, na carta escripta ao padre-mestre Laynez, a 16 de Abril de 1563, menciona o exemplo de uma india, mulher de um colono, a qual, depois de lh'o matarem os indios, caiu em poder destes, cujo Principal a quiz violentar. Ella resistiu e desapareceu. Os indios fizeram correr a voz de que se matára; Anchieta suppõe que elles mesmos lhe tiraram a vida. Caso analogo é referido pelo padre João Daniel (_Thesouro descoberto no Amazonas_, p. 2, cap. III); essa chamava-se Esperança e era da aldêa de Cabu.]

[Footnote 7: A villa de S. Vicente.]

[Footnote 8: Tinham os indios a religião monetheista que a tradicção lhes attribue? Nega-o positivamente o Sr. Dr. Conto de Magalhães em seu excellente estudo acerca dos selvagens, asseverando nunca ter encontrado a palavra _Tupan_ nas tribus que frequentou, o ser admissivel a ideia de tal deus, no estado rudimentar dos nossos aborigenes.

O Sr. Dr. Magalhães restitue aos selvagens a theogonia verdadeira. Não integramente, mas só em relação ao sol e á lua. (_Coaracy e Jacy_), acho noticia della no _Thesouro_ do padre João Daniel (citado em [1]); e o que então faziam os indios, quando apparecia a lua nova, me serviu á composição que vae incluida neste livro.

Sem embargo das razões allegadas pelo Sr. Dr. Magalhães, que todas são de incontestavel procedencia, conservei Tupan nos versos que ora dou a lume; fil-o por ir com as tradicções litterarias que achei, tradicções que nada valem no terreno da investigação scientifica, mas que tem por si o serem acceitas e haverem adquirido um como direito de cidade.]

[Footnote 9: É ocioso explicar em notas o sentido desta palavra e de outras, como _pocema, mussurana, tangapema, kanitar_, com as quais todo o leitor brasileiro está já familiarisado, graças ao uso que dellas teem feito poetas e prosadores. É tambem desnecessario fundamentar com trechos das chronicas a scena do sacrificio do prisioneiro, na estancia XI; são cousas comezinhas.]

[Footnote 10: Simão de Vasconcellos (_Not. do Bras._, liv. 2o.) citando Marcgraff e outros autores, conta, como verdadeira, a fabula a que alludem estes versos. Aproveitou-se d'alli uma comparação poetica: nada mais.]

[Footnote 11: Veja G. Dias, _Ult. Cant._, pag. 159:

... Quando meu corpo Á terra, mãe commum...]

[Footnote 12: _Anagé_ na lingua geral, quer dizer gavião.]

[Footnote 13: Tratando de descobrir a significação de _Panenioxe_, conforme escreve Rodrigues Prado, apenas achei no escasso vocabulario guaycurú, que vem em Ayres do Casal, a palavra _nioxe_ traduzida por jacaré. Não pude accertar com a significação do primeiro membro da palavra, _pane_; ha talvez relação entre elle e o nome do rio Yppané.]

[Footnote 14:«Estas duas armas (lança e facão) tem sido tomadas aos portuguezes e hespanhóes, e algumas compradas a estes que inadvertidamente lh'as tem vendido.» (RODR. PRADO, _Hist. dos Índios Cavalleiros_.)]

[Footnote 15: Nanine é o nome transcripto na _Hist. dos Índios Cavalleiros_. Na lingua geral temos _niani_, que Martius traduz por _infans._ Esta fórma pareceu mais graciosa; e não duvidei adoptal-a, desde que o meu distincto amigo, Dr. Escragnolle Taunay, me asseverou que, no dialecto guaycurú, de que elle ha feito estudos, _niani_ exprime a ideia de _moça franzina, delicada_, não lhe parecendo que exista a fórma empregada na monographia de Rodrigues Prado.]

[Footnote 16: Os Guaycurus dividem-se em nobres, plebeus ou soldados, e captivos. Do proprio texto que me serviu esta composição se vê a que ponto repugna aos nobres toda a alliança com pessoas de condição inferior.

A este proposito direi a anedocta que me foi referida por um distincto official da nossa armada, o capitão de fragata Sr. Henrique Baptista, que em 1857 esteve no Paraguay commandando o _Japorá_, entre o forte Coimbra e o estabelecimento Sebastopol. Ia muita vez a bordo do _Japorá_ um chefe guaycurú, Capitãosinho, muito amigo da nossa officialidade. Tinha elle uma irmã, que outro chefe guaycurú, Lapagata, cortejava e desejava receber por espôsa. Lapagata recebêra o titulo de capitão das mãos do presidente de Matto-Grosso. Oppunha-se com todas as forças ao enlace o Capitãozinho. Um dia, perguntando-lhe o Sr. H. Batista por que motivo não consentia no casamento da irmã com Lapagata, respondeu o altivo Guaycurú:

--Oponho-me, porque eu sou capitão por herança de meu pae, que já o era por herança do pae delle. Lapagata é capitão de papel.]

[Footnote 17: As bocayuvas servem de alimento aos Guaycurús; nas proximidades de sazonarem os cocos fazem elles grandes festas. (Veja CASAL e PRADO).]

[Footnote 18: Taes eram os adornos das mulheres guaycurús. (Veja PRADO, CASAL e D'AZARA).]

[Footnote 19: «As moças ricas vão enfeitadas, como se ornariam para o proprio noivado.» (AIRES DO CASAL, _Coroa._, 280).]

[Footnote 20: Allude a um trecho do propheta Daniel:

«9.--E lavei-te na agua, e alimpei-te do teu sangue; e te ungi com um oleo;

«13.--E foste enfeitada de ouro e prata, e vestida de linho e de roupas bordadas, e de diversas cores; nutriste-te da farinha e de mel e de azeite, e foste mui aformoseada em extremo.» (DANIEL, XV)]

[Footnote 21: Rebecca, filha da Mesopotamia.]

[Footnote 22: Bento do Amaral Gurgel, que dirigiu a companhia de estudantes por occasião daquella e da seguinte invasão, em 1711.]

[Footnote 23: Angela pratica o inverso daquelle conselho attribuido aos rabbinos de Constantinopla, respondendo aos judeus de Hespanha que batisassem os corpos, conservando as almas firmes na Lei. Angela conserva o baptismo da alma, e entrega o corpo ao supplicio como se fosse verdadeiramente judeu. Nega a fé com os labios, confessando-a no coração: maneira de conciliar o sentimento christão e a piedade filial.]

[Footnote 24: A verdadeira pronúncia desta palavra é _an-hanga._ É outro caso em que fui antes com a maneira corrente e commum na poesia.]

[Footnote 25: Il y aurait une fort grande injustice à juger jésuites du seizième siècle et leurs travaux, d'après les idées que peut inspirer le système suivi dans les missions. Là on peut voir des projets ambitieux s'allier à des vues habiles: dans les premiers travaux exécutés par les pères de la compagnie, au Brésil, tout fut désintéressé; et au besoin, Le récit de leurs souffrances pourrait le prouver. (F. DENIS, _Le Brésil._)]

[Footnote 26: Veja nota [8].

«... E na verdade tem occasiões em que festejam muito a lua, como quando apparece nova; porque então saem de suas choupanas, dão saltos de prazer, saudam-n'a e dão-lhe as boas vindas.» (JOÃO DANIEL, _Thes. descob. no Amaz._, part. II, cap. X)]

[Footnote 27: Não me recordo de haver lido nos velhos escriptos sobre os nossos aborigenes a crença que Montaigne lhes attribue acerca das almas boas e más. Este grande moralista tinha informações certamente exactas a respeito dos indios; e aquella crença traz certamente um ar de verossimilhança. Não foi só isso o que me induziu a fazer taes versos; mas tambem o que achei poetico e gracioso na abusão.]

[Footnote 28: Tinha planeado uma composição de dimensões maiores, e não a levei a cabo, por intervirem outros trabalhos, que de todo me divertiram a attenção. Foi o nosso eminente poeta e litterato Porto Alegre, hoje barão de Santo Angelo, que ha cerca de quatro annos, me chamou a attenção para a relação de Monterroyo Mascarenhas, _Os Orizes conquistados_, que vem na _Rev. Inst. Hist._, t. VIII.

A aspereza dos costumes daquelle povo, habitante do sertão da Bahia, cêrca de duzentas legoas da capital, sua rara energia, as circumstancias singulares da conquista e conversão da tribu, eram certamente um quadro excellente para uma composição poetica. Ficou em fragmento, que ainda assim não quis excluír do livro.]

[Footnote 29: «Lastimosamente cegos de discurso, reconhecem e adoram por deus a coruja, chamando na sua linguagem _Oitipô-cupuaaba_; e o motivo de sua adoração consiste na beneficio que recebem desta ave, que, naturalmente inimiga das cobras, numerosissimas naquelle paiz, as espia nos mattos, e lhes tira a vida.» (J. F. MONTERROYO MASCARENHAS, _Os Orizes conquistados._)]

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