Poesias Completas

Part 10

Chapter 104,087 wordsPublic domain

Tu, que tambem o Purgatorio andaste, Tu, que rompeste os circulos do Inferno, Camões, se o teu amor fugir deixaste,

Ora o tens, como um guia alto e superno Que a Natercia da vida que choraste Chama-se Gloria e tem o amor eterno.

III

Quando, torcendo a chave mysteriosa Que os cancellos fechava do Oriente, O Gama abriu a nova terra ardente Aos olhos da companha valorosa,

Talvez uma visão resplandecente Lhe amostrou no futuro a sonorosa Tuba, que cantaria a acção famosa Aos ouvidos da própria e extranha gente.

E disse: «Se já n'outra, antiga edade, «Troya bastou aos homens, ora quero «Mostrar que é mais humana a humanidade.

«Pois não serás heroe de um canto fero, «Mas vencerás o tempo e a immensidade «Na voz de outro moderno e brando Homero.»

IV

Um dia, junto á foz de brando e amigo Rio de extranhas gentes habitado, Pelos mares asperrimos levado, Salvaste o livro que viveu comtigo.

E esse que foi ás ondas arrancado, Já livre agora do mortal perigo, Serve de arca immortal, de eterno abrigo, Não só a ti, mas ao teu berço amado.

Assim, um homem só, naquelle dia, Naquelle escasso ponto do universo, Lingua, historia, nação, armas, poesia,

Salva das frias mãos do tempo adverso. E tudo aquillo agora o desafia. E tão sublime preço cabe em verso.

1802-1885

Um dia, celebrando o genio e a eterna vida, Victor Hugo escreveu numa pagina forte Estes nomes que vão galgando a eterna morte, Isaias, a voz de bronze, alma sahida Da coxa de David; Eschylo que a Orestes E a Prometheu, que sofre as vinganças celestes Deu a nota immortal que abala e persuade, E transmitte o terror, como excita a piedade; Homero, que cantou a colera potente De Aquilles, e colheu as lagrimas troyanas Para gloria maior da sua amada gente, E com elle Virgilio e as graças virgilianas; Juvenal que marcou com ferro em brasa o hombro Dos tyrannos, e o velho e grave florentino, Que mergulha no abysmo, e caminha no assombro, Baixa humano ao inferno e regressa divino; Logo após Calderon, e logo após Cervantes; Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria; E, para coroar esses nomes vibrantes, Shakespeare, que resume a universal poesia.

E agora que elle ahi vae, galgando a eterna morte, Pega a Historia da penna e na pagina forte, Para continuar a serie interrompida, Escreve o nome d'elle, e dá-lhe a eterna vida.

JOSÉ DE ANCHIETA

Esse que as vestes asperas cingia, E a viva flôr da ardente juventude Dentro do peito a todos escondia;

Que em paginas de areia vasta e rude Os versos escrevia e encomendava Á mente, como esforço de virtude;

Esse nos rios de Babel achava, Jerusalem, os cantos primitivos, E novamente aos ares os cantava.

Não procedia então como os captivos De Syão, consumidos de saudade, Velados de tristeza, e pensativos.

Os cantos de outro clima e de outra edade Ensinava sorrindo ás novas gentes, Pela lingua do amor e da piedade.

E iam caindo os versos excellentes No abençoado chão, e iam caindo Do mesmo modo as mysticas sementes.

Nas florestas os passaros, ouvindo O nome de Jesus e os seus louvores, Iam cantando o mesmo canto lindo.

Eram as notas como alheias flôres Que verdejam no meio de verduras De diversas origens e primores.

Anchieta, soltando as vozes puras, Achas outra Syão neste hemispherio, E a mesma fé e egual amor apuras.

Certo, ferindo as cordas do psalterio, Unicamente contas divulgal-a A palavra christã e o seu mysterio.

Trepar não cuidas a luzente escala Que os heroes cabe e leva á clara esphera Onde eterna se faz a humana fala.

Onde os tempos não são esta chimera Que apenas brilha e logo se esvaece, Como folhas de escassa primavera.

Onde nada se perde nem se esquece, E no dorso dos seculos trazido O nome de Anchieta resplandece Ao vivo nome do Brasil unido.

SONETO DE NATAL

Um homem,--era aquella noite amiga, Noite christã, berço do Nazareno,-- Ao relembrar os dias de pequeno, E a viva dança, e a lepida cantiga,

Quiz transportar ao verso doce e ameno As sensações da sua edade antiga, Naquella mesma velha noite amiga, Noite christã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca, A penna não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso, Só lhe saiu este pequeno verso: «Mudaria o Natal ou mudei eu?»

OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE

(LA FONTAINE)

Mal que espalha o terror e que a ira celeste Inventou para castigar Os peccados do mundo, a peste, em summa, a peste, Capaz de abastecer o Aqueronte n'um dia, Veio entre os animaes lavrar; E, se nem tudo succumbia, Certo é que tudo adoecia. Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento, Catava mais nenhum sustento. Não havia manjar que o appetite abrisse, Raposa ou lobo que saisse Contra a presa innocente e mansa, Rola que á rola não fugisse, E onde amor falta, adeus, folgança! O leão convocou uma assembléa e disse: «Sócios meus, certamente este infortunio veio A castigar-nos de peccados. Que o mais culpado entre os culpados Morra por applacar a colera divina. Para a commum saúde esse é, talvez, o meio. Em casos taes é de uso haver sacrificados; Assim a historia nol-o ensina. Sem nenhuma illusão, sem nenhuma indulgencia, Pesquizemos a consciencia. Quanto a mim, por dar mate ao impeto glotão, Devorei muita carneirada. Em que é que me offendera? em nada. E tive mesmo occasião De comer egualmente o guarda da manada. Portanto, se é mister sacrificar-me, prompto. Mas, assim como me accusei, Bom é que cada um se accuse, de tal sorte Que (devemos querel-o, e é de todo ponto Justo) caiba ao maior dos culpados a morte.» «--Meu senhor, accudiu a raposa, é ser rei Bom demais; é provar melindre exagerado. Pois então devorar carneiros, Raça lorpa e villã, pode lá ser peccado? Não. Vós fizestes-lhes, senhor, Em os comer, muito favor. E no que toca aos pegureiros, Toda a calamidade era bem merecida, Pois são daquellas gentes taes Que imaginaram ter posição mais subida Que a de nós outros animaes.» Disse a raposa, e a corte applaudiu-lhe o discurso. Ninguem do tigre nem do urso, Ninguem de outras iguaes senhorias do matto, Inda entre os actos mais damninhos, Ousava esmerilhar um acto; E até os ultimos rafeiros, Todos os bichos resingueiros, Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos. Eis chega o burro:«--Tenho ideia que no prado De um convento, indo eu a passar, e picado Da occasião, da fome e do capim viçoso, E póde ser que do tinhoso, Um bocadinho lambisquei Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade.» Mal o ouviu, a assembléa exclama: «Aqui d'el-rei!» Um lobo, algo lettrado, arenga e persuade Que era força immolar esse bicho nefando, Empesteado autor de tal calamidade; E o pecadilho foi julgado Um attentado. Pois comer erva alheia! ó crime abominando! Era visto que só a morte Poderia purgar um peccado tão duro. E o burro foi ao reino escuro.

Segundo sejas tu miseravel ou forte Aulicos te farão detestavel ou puro.

DANTE

(PURGATORIO, canto XXV)

Acabara o ladrão, e, ao ar erguendo As mãos em figas, deste modo brada: «Olha, Deus, para ti o estou fazendo!»

E desde então me foi a serpe amada, Pois uma vi que o collo lhe prendia, Como a dizer: «não falarás mais nada!»

Outra os braços na frente lhe cingia Com tantas voltas e de tal maneira Que elle fazer um gesto não podia.

Ah! Pistoia, por que n'uma fogueira Não ardes tu, se a mais e mais impuros, Teus filhos vão nessa mortal carreira?

Eu, em todos os circulos escuros Do inferno, alma não vi tão rebellada, Nem a que em Thebas resvalou dos muros.

E ele fugiu sem proferir mais nada. Logo um centauro furioso assoma A bradar: «Onde, aonde a alma damnada?»

Maremma não terá tamanha somma De reptis quanta vi que lhe ouriçava O dorso inteiro desde a humana coma.

Junto á nuca do monstro se elevava De asas abertas um dragão que enchia De fogo a quanto alli se approximava.

«Aquelle é Caco,--o Mestre me dizia,-- Que, sob as rochas do Aventino, ousado Lagos de sangue tanta vez abria.

«Não vae de seus irmãos acompanhado Porque roubou malicioso o armento Que alli pascia na campanha ao lado,

«Hercules com a maça e golpes cento, Sem lhe doer um decimo ao nefando, Poz remate a tamanho atrevimento.»

Ele falava, e o outro foi andando. No emtanto embaixo vinham para nós Trez espiritos que só vimos quando

Atroára este grito: «Quem sois vós?» Nisto a conversa nossa interrompendo Elle, como eu, no grupo os olhos pôz.

Eu não os conheci, mas succedendo, Como outras vezes succeder é certo, Que o nome de um estava outro dizendo,

«Cianfa aonde ficou?» Eu, por que esperto E attento fosse o Mestre em escutal-o, Puz sobre a minha boca o dedo aberto.

Leitor, não maravilha que acceital-o Ora te custe o que vás ter presente, Pois eu, que o vi, mal ouso acredital-o.

Eu contemplava, quando uma serpente De seis pés temerosa se lhe atira A um dos trez e o colhe de repente.

Co'os pés do meio o ventre lhe cingira, Com os da frente os braços lhe peava, E ambas as faces lhe mordeu com ira.

Os outros dous ás coxas lhe alongava, E entre ellas insinua a cauda que ia Tocar-lhes os rins e dura os apertava.

A hera não se enrosca nem se enfia Pela arvore, como a horrivel féra Ao peccador os membros envolvia.

Como se fossem derretida cera, Um só vulto, uma côr iam tomando, Quaes tinham sido nenhum delles era.

Tal o papel, se o fogo o vae queimando, Antes de negro estar, e já depois Que o branco perde, fusco vae ficando.

Os outros dous bradavam: «Ora pois, Agnel, ai triste, que mudança é essa? Olha que já não és nem um nem dous!»

Faziam ambas uma só cabeça, E na unica face um rosto mixto, Onde eram dous, a apparecer começa.

Dos quatro braços dous restavam, e isto, Pernas, coxas e o mais ia mudado N'um tal composto que jamais foi visto.

Todo o primeiro aspecto era acabado; Dous e nenhum era a cruel figura, E tal se foi a passo demorado.

Qual camaleão, que variar procura De sebe ás horas em que o sol esquenta, E correndo parece que fulgura,

Tal uma curta serpe se apresenta, Para o ventre dos dous corre accendida, Livida e côr de um bago de pimenta.

E essa parte por onde foi nutrida Tenra creança antes que á luz saisse, N'um delles morde, e cae toda estendida.

O ferido a encarou, mas nada disse; Firme nos pés, apenas bocejava, Qual se de febre ou somno alli caisse.

Frente a frente, um ao outro contemplava, E á chaga de um, e á boca de outro, forte Fumo saía e no ar se misturava.

Cale agora Lucano a triste morte De Sabello e Nasidio, e attento esteja Que o que lhe vou dizer é de outra sorte.

Cale-se Ovidio e neste quadro veja Que, se Arethusa em fonte nos ha posto E Cadmo em serpe, não lhe tenho inveja.

Pois duas naturezas rosto a rosto Não transmudou, com que elas de repente Trocassem a materia e o ser opposto.

Tal era o accordo entre ambas que a serpente A cauda em duas caudas fez partidas, E a alma os pés ajuntáva estreitamente.

Pernas e coxas vi-as tão unidas Que nem leve sinal dava a juntura De que tivessem sido divididas.

Imita a cauda bifida a figura Que alli se perde, e a pele abranda, ao passo Que a pelle do homem se tornava dura.

Em cada axilla vi entrar um braço, A tempo que iam esticando á fera Os dous pés que eram de tamanho escasso.

Os pés de traz a serpe os retorcêra Até formarem-lhe a encoberta parte, Que no infeliz em pés se convertêra.

Emquanto o fumo os cobre, e de tal arte A côr lhes muda e põe á serpe o vello Que já da pelle do homem se lhe parte,

Um caiu, o outro ergueu-se, sem torcel-o Aquelle torvo olhar com que ambos iam A trocar entre si o rosto e a vel-o.

Ao que era em pé as carnes lhe fugiam Para as fontes, e alli do que abundava Duas orelhas de homem lhe saiam.

E o que de sobra ainda lhe ficava O nariz lhe compõe e lhe perfaz E o labio lhe engrossou quanto bastava.

A boca estende o que por terra jaz E as orelhas recolhe na cabeça, Bem como o caracol ás pontas faz.

A lingua, que era então de uma só peça, E prestes a falar, fendida vi-a, Emquanto a do outro se une, e o fumo cessa.

A alma, que assim tornado em serpe havia, Pelo valle fugiu assobiando, E esta lhe ia falando e lhe cuspia.

Logo a recente espadua lhe foi dando E á outra disse: «Ora com Buoso mudo, Rasteje, como eu vinha rastejando!»

Assim na cova setima vi tudo Mudar e transmudar; a novidade Me absolva o estylo desornado e rudo.

Mas que um tanto perdesse a claridade Dos olhos meus, e turva a mente houvesse, Não fugiram com tanta brevidade,

Nem tão occultos, que eu não conhecesse Puccio Sciancato, unica alli vinda Alma que a fórma propria não perdesse; O outro chóral-o tu, Gaville, ainda.

A FELICIO DOS SANTOS

Felicio amigo, se eu disser que os annos Passam correndo ou passam vagarosos, Segundo são alegres ou penosos, Tecidos de affeições ou desenganos,

«Philosophia é esta de rançosos!» Dirás. Mas não ha outra entre os humanos. Não se contam sorrisos pelos damnos, Nem das tristezas desabrocham gozos.

Banal, confesso. O precioso e o raro É, seja o céu nublado ou seja claro, Tragam os tempos amargura ou gosto,

Não desdizer do mesmo velho amigo, Ser com os teus o que elles são comtigo, Ter um só coração, ter um só rosto.

MARIA

Maria, ha no seu gesto airoso e nobre, Nos olhos meigos e no andar tão brando, Um não sei quê suave que descobre, Que lembra um grande passaro marchando.

Quero, ás vezes, pedir-lhe que desdobre As azas, mas não peço, reparando Que, desdobradas, podem ir voando Leval-a ao tecto azul que a terra cobre.

E penso então, e digo então commigo: «Ao céu, que vê passar todas as gentes Bastem outros primores de valia.

«Passaro ou moça, fique o olhar amigo, O nobre gesto e as graças excellentes Da nossa cara e lepida Maria.»

A UMA SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS

Pensa em ti mesma, acharás Melhor poesia, Viveza, graça, alegria, Doçura e paz.

Se já dei flôres um dia, Quando rapaz, As que ora dou tem assaz Melancolia.

Uma só das horas tuas Valem um mez Das almas já ressequidas.

Os soes e as luas Creio bem que Deus os fez Para outras vidas.

CLODIA

Era Clodia a vergontea illustre e rara De uma familia antiga. Tez morena, Como a casca do pecego, deixava Transparecer o sangue e a juventude. Era a romana ardente e imperiosa Que os écos fatigou de Roma inteira Co'a narração das longas aventuras. Nunca mais gentil fronte o sol da Italia Amoroso beijou, nem mais gracioso Corpo envolveram tunicas de Tyro. Sombrios, como a morte, os olhos eram. A vermelha botina em si guardava Breve, divino pé. Humida boca, Como a rosa que os zephyros convida, Os beijos convidava. Era o modelo Da luxuosa Lamia,--aquella moça Que o marido esqueceu, e amou sem pejo O musico Pollião. De mais, fazia A illustre Clodia trabalhados versos; A cabeça curvava pensativa Sobre as tabellas núas; invocava Do classico Parnaso as musas bellas, E, se não mente linguaruda fama, Davam-lhe inspiração vadias musas.

O ideal da matrona austera e fria, Caseira e nada mais, esse acabava. Bem hajas tu, patricia desligada De preconceitos vãos, tu que presides Ao festim dos rapazes, tu que estendes Sobre verdes coxins airosas fórmas, Enquanto o esposo, consultando os dados, Perde risonho válidos sestereios... E tu, viuva misera, deixada Na flôr dos anos, merencoria e triste, Que seria de ti, se o gozo e o luxo Não te alegrassem a alma? Cedo esquece A memoria de um obito. E bem hajas, Discreto esposo, que morreste a tempo. Perdes, bem sei, dos teus rivaes sem conta Os custosos presentes, as ceiatas, Os jantares opiparos. Comtudo, Não verás cheia a casa de creanças Loiras obras de artífices extranhos.

Baias recebe a celebrada moça Entre festins e jubilos. Faltava Ao pomposo jardim das lacias flôres Esta rosa de Pœstum. Chega; é ella, É ella, a amavel dona. O céu ostenta A larga face azul, que o sol no occaso Co'os frouxos raios desmaiado tinge. Terno e brando abre o mar o espumeo seio; Molles respiram virações do golpho. Clodia chega. Tremei, moças amadas; Ovelhinhas dos placidos idylios, Roma vos manda esta faminta loba. Prendei, prendei com vínculos de ferro, Os voluveis amantes, que os não veja Esta formosa Páris. Inventai-lhes Um philtro protector, um philtro ardente, Que o fogo leve aos corações rendidos, E aos vossos pés eternamente os prenda; Clodia... Mas, quem pudera, a frio e a salvo, Um requebro affrontar daquelles olhos Ver-lhe o turgido seio, as mãos, o talhe, O andar, a voz, ficar marmore frio Ante as supplices graças? Menor pasmo Fôra, se ao gladiador, em pleno circo, A panthera africana os pés lambesse, Ou se, á cauda de indomito cavallo, Ovantes hostes arrastassem Cesar.

Coroados de rosas os convivas Entram. Trajam com graça vestes novas Tafues de Italia, finos e galhardos Patricios da republica expirante, E madamas faceiras. Vem entre elles Celio, a flôr dos vadios, nobre moço, E opulento, o que é mais. Ambicioso Quer triumphar na classica tribuna E honras aspira até do consulado. Mais custoso lavor não vestem damas, Nem aroma melhor do seio exhalam. Tem na altivez do olhar sincero orgulho, E certo que o merece. Entre os rapazes Que á noite correm solitarias ruas, Ou nos jardins de Roma o luxo ostentam, Nenhum como elle, com mais ternas falas, Galanteou, vencendo, as raparigas.

Entra: pregam-se nelle cobiçosos Olhos que amor venceu, que amor domina, Olhos fieis ao férvido Catullo.

O poeta estremece. Brando e frio, O marido de Clodia os olhos lança Ao mancebo, e um sorriso complacente A boca lhe abre. Imparcial na luta, Vença Catullo ou Celio, ou vençam ambos. Não se lhe oppõe o dono: o aresto acceita.

Vistes já como as ondas tumultuosas, Uma após outra, vem morrer á praia, E mal se rompe o espumeo seio áquella. Já esta corre e expira? Tal no peito Da calorosa Lesbia nascem, morrem As voluveis paixões. Vestal do crime, Dos amores vigia a chamma eterna, Não a deixa apagar; prompto lhe lança Oleo com que a alimente. Enrubescido De ternura e desejo o rosto volve Ao mancebo gentil. Baldado empenho! Indifferente aos magicos encantos, Celio contempla a moça. Olhar mais frio, Ninguem deitou jamais a graças tantas. Ella insiste; ele foge-lhe. Vexada, A moça inclina languida a cabeça... Tu nada vês, desapegado esposo, Mas o amante vê tudo.

Clodia arranca Uma rosa da fronte, e as folhas deita Na taça que enche generoso vinho. «Celio, um brinde aos amores!» diz, e entregalh'a. O cortejado moço os olhos lança, Não a Clodia, que a taça lhe offerece, Mas a outra não menos afamada, Dama de igual prosapia e eguaes campanhas, E taça igual lhe acceita. Affronta é esta Que á moça faz subir o sangue ás faces, Aquelle sangue antigo, e raro, e illustre, Que atravessou purissimo e sem mescla A corrente dos tempos... Uma Clodia! Tamanha injuria! Ai, não! mais que a vaidade, Mais que o orgulho de raça, o que te peza, O que te faz doer, viciosa dama, É ver que um rival merece o zelo Deste pimpão de amores e aventuras. Pega na taça o nescio esposo e bebe, Com o vinho, a vergonha. Sombra triste, Sombra de occultas e profundas magoas, Tolda a fronte ao poeta.

Os mais, alegres, Vão ruminando a saborosa ceia; Circúla o dito equivoco e chistoso, Comentam-se os decretos do senado, O molho mais da moda, os versos ultimos De Catullo, os leões mandados de Africa E as victorias de Cesar. O epigramma Rasga a pelle ao caudilho triumphante; Chama-lhe este: «O larapio endividado», Aquelle: «Venus calva», outro: «O bithynio...» Opposição de ceias e jantares, Que a marcha não impede ao crime e á gloria.

Sem liteira, nem lybicos escravos, Clodia vae consultar armenio aruspice. Quer saber se hade Celio amal-a um dia Ou desprezal-a sempre. O armenio estava Meditabundo, á luz escassa e incerta De uma candeia etrusca; aos ombros delle Decrepita coruja os olhos abre. «Velho, aqui tens dinheiro (a moça fala), Se á tua inspiração é dado agora Adivinhar as cousas do futuro, Conta-me...» O resto expõe. Ergue-se o velho Subito. Os olhos lança cobiçosos Á fulgente moeda.--«Saber queres Se te hade amar esse mancebo esquivo?» --«Sim.»--Cochilava a um canto descuidada A avezinha de Venus, branca pomba. Lança mão della o aruspice, e de um golpe Das entranhas lhe arranca o sangue e a vida. Olhos fitos no velho a moça aguarda A sentença da sorte; empallidece Ou ri, conforme do ancião no rosto Ocultas impressões vem debuxar-se. «Bem haja Venus! a victoria é tua! O coração da victima palpita Inda que morto já...»

Não eram ditas Estas palavras, entra um vulto... É elle? És tu, cioso avante!

A voz lhes falta Aos dous, contemplam-se ambos, interrogam-se; Rompe afinal o lugubre silencio...

Quando o vate acabou, tinha nos braços A namorada moça. Lacrimosa, Tudo confessa. Tudo lhe perdôa O desvairado amante. «Nuvem leve Isto foi; deixa lá memorias tristes, Erros que te perdoo; amemos, Lesbia; A vida é nossa; é nossa a juventude.» «Oh! tu és bom!»--«Não sei; amo e mais nada. Foge o mal donde amor plantou seus lares. Amar é ser do céu.» Supplices olhos Que a dor humedecera e que umedecem Lagrimas de ternura, os olhos buscam Do poeta; um sorriso lhes responde, E um beijo sella esta alliança nova.

Quem jamais construiu solida torre Sobre a arêa voluvel? Poucos dias Decorreram; viçosas esperanças Subito renascidas, folha a folha, Alastraram a terra. Ingrata e fria, Lesbia esqueceu Catullo. Outro lhe pede Premio á recente, abrasadora chamma; Faz-se agora importuno o que era esquivo. Victoria é della; o arúspice acertára.

VELHO FRAGMENTO

I

Reinava Affonso VI. Da corôa em nome Governava Alvarenga, incorruptivel No serviço do rei, astuto e manso, Alcaide-mór e protector das armas; No mais, amigo deste povo infante, Em cujo seio placido vivia Até que uma revolta mysteriosa Na cadeia o metteu. O douto Mustre A vara de ouvidor nas mãos sustinha.

II

Que lance ha ahi, nessa comedia humana, Em que não entrem moças? Descorada, Como heroina de romance do hoje, Alva, como as mais alvas deste mundo, Tal, que disseras lhe negara o sangue A madre natureza, Margarida Tinha o suave, delicado aspecto De uma santa de cêra, antes que a tinta O matiz beatifico lhe ponha, Era alta e fina, senhoril e bella, Delicada e subtil. Nunca mais vivo Transparecera em rosto de donzella Vergonhoso pudor, agreste e rude, Que até de uns simples olhos se offendia E chegava a corar, se o pensamento Lhe adivinhava anonymo suspiro Ou remota ambição de amante ousado. Era vel-a, ao domingo, caminhando Á missa, co'os parentes o os escravos A um de fundo, em grave e compassada Procissão; era ver-lhe a compostura, A devoção com que escutava o padre, E no _agnus-dei_ levava a mão ao peito, Mão que enchia do fogos e desejos Dez ou doze amadores respeitosos De suas graças, varios na figura, Na posição, na edade e no juizo, E que alli mesmo, á luz dos bentos cyrios (Tão de longe vêm já os maus costumes)! Ousavam inda suspirar por ella.

III

Entre esses figurava o moço Vasco. Vasco, a flôr dos vadios da cidade, Namorador dos adros das egrejas, Taful de cavalhadas, consummado Nas hippicas façanhas, era o nome Que mais na baila andava. Moça havia Que por elle trocara (erro do moça)! O seu logar no céu; e este peccado, Inda que todo interior e mudo, Dous terços lhe custou de penitencia Que o confessor lhe impoz. Era sabido Que nas salas da casa do governo, Certa noite, de magua desmaiaram Duas damas rivaes, porque o magano As cartas confundira do namoro. Estas proezas taes, que o fertil vulgo Com argumentos de casa encarecia, E a bem lançada perna, e o luzidio Dos sapatos, e as sedas e os velludos, E o franco applauso de uns, e a inveja do outros, O sceptro lhe doaram dos peraltas.

IV